PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

INTUITY BORA BORA JANGA

Siga a sua intuição e conheça aquela que vem se tornando a marca líder de calçados no segmento surfwear nas regiões tropicais do Brasil. Fones: (81) 99886 1544 / (81) 98690 1099.

GUTO GOFFI E UM BANDO PRA LÁ DE MUSICAL

Baterista do Barão Vermelho apresenta álbum que traz inédita de Plínio Araújo, baterista e um dos fundadores da Orquestra Tabajara.

SENHORITA XODÓ

Alimentos saudáveis, de qualidade e feitos com amor! Culinária Brasileira, Gourmet, Pizza, Vegana e Vegetariana. Contato: (81) 99924-5410.

BELEZA, VOZ, VIOLÕES E TALENTO

Em seu primeiro disco, a cantora e instrumentista carioca Alice Passos apresenta uma verdadeira antologia ao violão brasileiro.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sábado, 24 de junho de 2017

MOSTEIRO, SÍTIO E CASAS DE FAMÍLIA: VISITE LUGARES ONDE BELCHIOR MOROU EM SANTA CRUZ DO SUL - PARTE 04

Por Juliana Bublitz


O sonho de construir uma torre de livros

Marina Trindade, filha de casal que abrigou Belchior, e uma das lembranças guardadas pela família: o chapéu do cantor Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS


Com o tempo, Dogival teve de procurar outros lugares para abrigar Belchior, porque a relação do radialista com Edna se desgastava. Antes de passar pelo santuário das monjas beneditinas, o músico e a companheira foram acolhidos pelo professor de Filosofia da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) Ubiratan Trindade, 56 anos, e pela dona da Casa das Cucas Waechter, Ingrid Trindade, 52. Por devoção ao ídolo, ambos aceitaram a missão.

Quando a filha do casal, Marina, 22, veio de Porto Alegre, Bira e Ingrid tiveram de contar o segredo. Ela foi recebida por Belchior com um longo abraço.

— Marina, que bom que finalmente vou te conhecer. Vamos conversar? — disse o astro para a estudante boquiaberta.



Foram três meses de convivência, sendo que parte do período transcorreu no sítio da família em Murta, no interior de Passa Sete, a cerca de cem quilômetros de Santa Cruz. Lá, em dezembro de 2013, a família se reuniu com os convidados e mais um casal, o professor de Sociologia da Unisc Caco Baptista, 58, e a professora de Educação Infantil Marisa Oliveira, 50. À noite, na sala, depois de comer salmão ao molho de maracujá, o grupo botou para tocar o vinil Alucinação. "Belchior, tu tens noção do que significa esse momento para nós, que somos teus fãs?", perguntou Marisa, que horas antes tinha visto o ídolo colher cebolas roxas na horta.

— Lembro que ele riu e bebeu um gole de vinho. Foi muito marcante — emociona-se a professora.

No outro dia, durante uma caminhada, Belchior apontou para o gramado e disse:

— Meu sonho é construir uma torre de livros aqui e ficar para sempre.

Ali, anônimo, ele circulava na área externa, algo que nunca fazia em Santa Cruz. Imitava o som dos passarinhos, colhia verduras, ouvia um radinho de pilha e até cogitava gravar um clipe. Nem mesmo o agricultor Francisco Cremonese, o Chico, 59 anos, vizinho que volta e meia aparecia para ver se estava tudo bem, sabia quem era.

— Um dia entreguei uma carpa capim para os dois. Se soubesse, tinha pedido autógrafo — brinca.

Segundo os anfitriões, os visitantes nunca pagaram por nada e viviam com pouco. Ganharam roupas do irmão de Bira, comerciante em Sobradinho. De Ingrid, recebiam marmita todos os dias. Belchior, que adorava cuca de uva, não fazia qualquer exigência.

— Era muito simples, gentil e extremamente inteligente. Parece que abriu mão das coisas materiais. Nunca vamos esquecer dele — diz Bira.

A família guarda com carinho algumas lembranças, como um de seus pijamas, autógrafos em LPs, um bilhete para Marina. A universitária chorou muito com a morte do músico. Foi por influência dele que ingressou no curso de História da Arte, na UFRGS:

— Ele sugeriu que eu fizesse meu trabalho de conclusão sobre cantores que pintam e disse que aceitaria participar. Infelizmente, não foi possível.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CANÇÕES DE XICO


SAUDADE AZUL


Estava branco de saudade até que uma borboleta multi-colorida pousou sobre sua tristeza. E trouxe-lhe notícias daquela que lhe provocava tamanha dor, agora tão distante dali. A partir daquele instante, cabeça, tronco, membros e alma se azularam de um azul tão celestial que foi como se ela estivesse voltando, já chegando, dali a pouco. Clareou-se o céu, as nuvens pararam de se movimentar e de formar bichinhos esquisitos no céu e toda a sua atenção concentrou-se na estação do voltar, para a chegada de seu bem querer. No delírio, mil beijos, mil bocas, mil palavras. Em pouco tempo, escurecido o tempo, foi-se a borboleta, foram-se os sonhos. E os mil beijos que poderiam ter o mesmo sabor bom da mesma boca beijada mil vezes converteram-se em mil silêncios, em milhares de escuros no peso daquela alma tão saudosa.

LUIZ GONZAGA TEM 15 DISCOS LANÇADOS NAS PLATAFORMAS DIGITAIS

Gravados na Extinta RCA, Estes Discos Nunca Saíram em CD


Por José Teles


Luiz Gonzaga, o baião digital


Da caudalosa e preciosa obra gravada de Luiz Gonzaga, talvez não chegue a duas dezenas as canções que frequentam o repertório apresentado nos palcos dos arraiais juninos no Norte e Nordeste, com ênfase para Asa Branca (dele e Humberto Teixeira). A maioria do que se canta de Luiz Gonzaga é de clássicos dos anos 50, sobretudo os que levam a assinatura do advogado Humberto Teixeira e do médico Zé Dantas, os doutores do baião. Isto se deve, em boa parte, às rádios insistirem num repertório de obviedades e de quase toda discografia do Rei do Baião, a partir dos anos 70, não ter chegado ao CD. Talvez nem cheguem, já que esse suporte, salvo alguma reviravolta inesperada, está no fim da linha, substituído pelo formato digital.

E foi nesse formato que 15 álbuns, gravados entre 1970 e 1988, voltam a circular nas várias plataformas digitais, repostos pela Sony Music, que detém o riquíssimo acervo da RCA. Espera­se que o público cativo de Lua, os autodenominados gonzaguianos, acostumem­se a escutá­lo neste formato, já que boa parte ainda permanece arredio ao moribundo compact­disk. Luiz Gonzaga é o DNA do forró, este guarda­chuva imenso sob o qual se abriga os mais diversos ritmos da região, quase todos estilizados e arquitetados por ele e seus seminais parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas. Porém, paradoxalmente, ele não parou no tempo, sua música desenvolveu­se, acompanhando as transformações do país em geral, e do Nordeste em particular.

Escanteado pela bossa nova, em 1959, o baião saiu da vitrine no Sudeste. Porém o pior estaria para chegar. O estrondoso sucesso da Jovem Guarda, a partir de 1965, foi devastador para a música regional (não apenas nordestina). Forró, até mesmo no sertão, tornou­se cafona, coisa do atraso. Em 1968, Gonzagão dava uma entrevista à revista Veja, em sua casa, na Ilha do Governador, anunciando a aposentadoria. Dois anos depois, ele voltaria ao estúdio da RCA, para gravar Sertão 70. Um disco com músicas de, entre outros, Antonio Barros (A Noite É de São João), Onildo Almeida (Xote de Saiote), Dominguinhos e Anastácia (Já Vou Mãe). 
A música que dá nome ao disco é de José Clementino, autor de Xote dos Cabeludos, uma diatribe bem humorada contra os roqueiros da Jovem Guarda.

O disco não fez sucesso, assim como o LP seguinte, O Canto Jovem de Luiz Gonzaga, uma tentativa de se aproximar da geração dos festivais, parte dela fora do Brasil por causada ditadura militar. A sonoridade do álbum é diferente, tem outra instrumentação, e os seus habituais fornecedores não estão no repertório, comexceção de Humberto Teixeira (voltaram às boas em 1968). É de Teixeira, aliás, a faixa que fecha o disco, um quase manifesto, intitulado Bicho Eu Vou Voltar, ele faz uma intervenção no final, citando os novos, Edu, Caetano, Vandré, ressaltando a importância da obra que criou com Gonzaga.


VOLTA

Ele voltaria mesmo a partir de 1972, quando fez uma temporada antológica no Teatro Tereza Rachel, em Copacabana. Pela primeira vez Luiz Gonzaga alcançava um público classe A, universitário, e adotava a guitarra elétrica no seu grupo. O show Luiz Gonzaga Volta pra Curtir reconfigurou a carreira do velho Lua, revelou sua verdadeira dimensão para a nova geração de artistas da MPB, que agora também incluía roqueiros fazendo música para adultos. Lua não saiu atropelando a tradição, incorporando modernices. Seu disco de 1972, Aquilo Bom, é uma atualização do forró. Os temas agora são mais amenos, bem humorados, mais urbanos. O sucesso do disco foi Aquilo Bom (As Garotas do Leblon), parceria com Severino Ramos. Ele estava amassando o massapê do chão, na nova casa que levantara para o forró.

A casa ficou quase pronta no disco seguinte, São João Quente, um dos que mais trazem composições de Gonzagão sem parceiros (Fuga da África, De Juazeiro a Pirapora, Impertinente e uma regravação de Vira e Mexe). O disco também confirma o talento de um novo compositor, o pesqueirense Nelson Valença, de quem gravou três músicas (sem parceria).

Um desentendimento com a cúpula da RCA levou Gonzagão para a Odeon, onde gravou um único e ótimo LP, que teve cinco composições de Nelson Valença, inclusive a inovadora O Fole Roncou. Intitulado apenas Luiz Gonzaga (1973), este álbum é raridade em vinil. No ano seguinte, Lua estaria de volta a RCA, pela qual gravou quase toda sua obra. Daquele Jeito não fez tanto sucesso, mas tem um repertório de primeira qualidade, uma obra­prima de Jandhuy Finizola, Cavalo Criolo, e um grande sucesso, Daquele Jeito (com Luiz Ramalho).

Os relançamentos deixam de fora o disco ao vivo com Carmélia Alves (1976) e Capim Novo (1976), saídos em CD. Este último um dos grandes álbuns de Luiz Gonzaga. Em 1978, ele lança outro álbum obrigatório, Chá Cutuba, um repertório linear na qualidade, com Humberto Teixeira (que morreria no ano seguinte) participando com dois clássicos instantâneos, Chá Cutuba e Menestrel do Sol. Gonzaga contribui sozinho com Karolina com K. Mesmo discos menos felizes deixam pelo menos uns dois clássicos como Dengo Maior, que abre com Alegria de Pé de Serra, marchinha junina de Dominguinhos e Anastácia. Como curiosidade, um baião de Capiba, Engenho Massangana. E mais um clássico de Luiz Bandeira, Viola de Penedo.


1980

Depois de Eu e Meu Pai (1979), vêm discos de regravações. Em Quadrilhas e Marchinhas Vol.2. um potpourri que toma o álbum inteiro. O Homem da Terra mescla antigos sucesso com inéditas (uma em homenagem a Humberto Teixeira). Em A Festa (1981), ele tem participações de Milton Nascimento, Zé Marcolino, Emilinha Borba e Gonzaguinha. Eterno Cantador marca os seus 70 anos de vida, um disco de inéditas e clássicos. 70 anos de Sanfona e Simpatia tem participação de Alceu Valença (em Plano Piloto), composições de Jurandy da Feira, Rildo Hora e João Silva, que daí em diante se tornaria seu principal fornecedor e parceiro. Fechando o disco, Tamborete de Forró (Artulio Reis), um xote que só estouraria paravaler anos depois, na voz de Santanna O Cantador.

Vem a fase derradeira de Gonzagão, que encerra a carreira emplacando sucesso atrás de sucesso, já assimilado por todas as classes sociais e faixas etárias. João Silva marca essa fase. Mesmo que um dos maiores sucessos de Lua na década foi Forró nº1 (Cecéu), em dueto com Gal Costa, mais um clássico. Forró de Cabo a Rabo (1986), De Fiá Pavi (1987), estouraram, respectivamente, Forró de Cabo a Rabo, Nem se Despediu de Mim.

Luiz Gonzaga não tinha mais o vigor vocal em 1988, quando lançou Aí tem Luiz Gonzaga (que tem participação de Geraldo Azevedo), com oito faixas assinadas por João Silva, e o derradeiro pela RCA. No mesmo ano ainda dividiria mais um disco com Fagner. Passaria gravar pela Copacabana que, forçando a barra, lançou quatro discos de Gonzagão em apenas um ano. Destes apenas um mantém o padrão de qualidade do artista, Vou te Matar de Cheiro.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*




Canção: Cassino

Composição: Moreira da Silva - Manoel Fernandes 

Intérprete - Moreira da Silva

Ano - 1938

LP - Columbia 8.363-A - matriz 3599



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

FUNDAMENTAL PARA A MÚSICA BRASILEIRA, PIXINGUINHA É DUPLAMENTE CELEBRADO EM 2017

Nascido há 120 anos, o instrumentista e compositor também é autor de Carinhoso, um de seus maiores sucessos, que completa um século neste ano


Por Alexandre de Paula 


(foto: PEDRO DE MORAES/DIVULGAÇÃO )

No universo da música brasileira, Pixinguinha foi mais que um gênio. O fervor por ele era tanto que o jornalista Fernando Faro, criador do icônico programa Ensaio, da TV Cultura, chegou a afirmar que o músico era um “santo”. Por isso, ele dizia que Pixinguinha morreu dentro de uma igreja em Ipanema durante um batizado, em 1973 – o que de fato ocorreu. Canonizado ou não, é quase unânime que o instrumentista e compositor é um dos nomes mais fundamentais para a música brasileira. Os 120 anos de seu nascimento foram comemorados ontem.

Além dessa data, 2017 registra os 100 anos de Carinhoso, um dos maiores sucessos do compositor. A música foi composta em 1917, mas só se tornou popular 20 anos depois, quando o cantor Orlando Silva gravou uma versão (com letra de João de Barro).

“Pixinguinha foi o primeiro continente da nossa música no século 20. Digo que a música brasileira tem excelentes países, mas apenas dois continentes: ele e Tom Jobim”, afirma o historiador e pesquisador musical André Diniz, autor de Pixinguinha — O gênio e o tempo, uma biografia do músico.

Segundo Diniz, Pixinguinha foi responsável por modernizar e sistematizar parte da música produzida no século 19. “Ele é um grande herdeiro da música do período. Tanto da que era tocada nas ruas do Rio de Janeiro, com forte influência africana, quanto da música de banda e até da música de escola, mais formal”, explica.

Coordenadora de música do Instituto Moreira Salles (que mantém o acervo do músico atualmente), Bia Paes Leme também aponta que Pixinguinha foi um herdeiro da produção do século 19. Bia lembra que, por ser de uma família de músicos, Pixinguinha teve contato em casa com o choro tradicional e com outros ritmos, como a polca. “Pixinguinha pega isso e carrega para o século 20 com a abertura que ele tinha para receber novas influências e para ele próprio experimentar e criar”, comenta.

Também flautista, Bia destaca que a carreira de Pixinguinha tinha três facetas: a de arranjador, a de compositor e a de instrumentista. “Ele tem essa coisa multifacetada e permite muitos cruzamentos com diversos personagens da música brasileira, muito especialmente no início do século 20”, afirma.

A coordenadora ressalta também que, no caso de Pixinguinha, o reconhecimento não foi tardio. Desde o começo, a genialidade dele como instrumentista, compositor e arranjador foi constatada. “Na pesquisa de periódicos da época, o que impressiona muito é a admiração com que os críticos falavam dele. Existe a ideia de que, em geral, o tempo tende a agigantar as pessoas e que, no futuro, fala-se melhor do que se falou na época, mas com ele não foi assim.”


CHORO

Apesar de ter influências do que era produzido no Brasil naquele período e até de ritmos estrangeiros, Pixinguinha foi capaz de produzir de uma maneira muito própria, acredita Bia. Isso foi fundamental para desenvolver o choro como o conhecemos hoje. “Nas harmonias, por exemplo, você estuda algumas delas e não sabe se são do jazz ou de onde elas vieram, porque são coisas que ele criou. Então, ele deu uma carta de alforria para o choro se atualizar, se desenvolver”, afirma.

André Diniz concorda que o compositor e instrumentista foi importantíssimo para que o choro se consolidasse como gênero. “O choro é tanto uma forma de interpretar quanto um gênero musical e Pixinguinha sedimenta isso. Não é que não houvesse antes, mas ele foi o primeiro a oferecer uma produção volumosa e de grande qualidade”, comenta.

Para Diniz, o fato de Pixinguinha ter uma formação musical sólida e saber ler e escrever partitura contribuiu para consolidar o choro. “Ele foi um dos primeiros a registrar em partituras aquilo que era tocado, também por isso foi um grande catalisador para o gênero”, completa.

Além do choro, Bia Paes Leme acredita que ele influenciou muito a música brasileira que veio depois. “Claro que há outros nomes, mas a música brasileira foi para um outro patamar com ele. Essa música elaborada (feita por artistas como Tom Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque, Milton Nascimento) certamente bebeu dessa fonte. A inquietação de Pixinguinha ficou no DNA da nossa música”, garante.


IMS disponibiliza acervo na internet

Por meio de um site (ht tp://www.pixinguinha.com.br), o acervo do Instituto Moreira Salles sobre o músico será disponibilizado para o público. A versão final da publicação deve entrar no ar nos próximos dias, segundo a coordenadora Bia Paes Leme.

O trabalho, conta Bia, está sendo desenvolvido desde 2009, e a intenção é que seja constantemente atualizado. “A ideia é que o site seja uma publicação em progresso, porque continuamos pesquisando e estamos também abertos a contribuições. Então, contamos com as pessoas que tenham algum material sobre ele, que vistam a camisa para ir complementando esse acervo”, explica.

O material inclui partituras, fotos, recortes de jornal, documentos, correspondências, gravações, discografia e registros de itens pessoais do músico. Bia acrescenta que a pesquisa revelou diversas composições inéditas de Pixinguinha. “Em negociação com a família – que é quem deve definir como isso será lançado –, também queremos disponibilizar essas composições posteriormente”, ressalta.


DUPLO ANIVERSÁRIO

Inicialmente, acreditava-se que a data de nascimento de Pixinguinha seria 23 de abril, por isso o Dia do Choro é comemorado nessa data. Mas o pesquisador Alexandre Dias encontrou o livro de registro de Pixinguinha em cartório, cuja data é 4 de maio.

FECHADO EM 2013, CENTRO DE CONVENÇÕES DA UFPE SOFRE COM ABANDONO

Espaço está fechado desde 2013, espaço espera verbas para início de reformas


Espaço está fechado desde 2013 e espera por verbas


O Centro de Convenções da Universidade Federal de Pernambuco, principalmente seu teatro, já sediou peças, shows, festivais e eventos voltados para diferentes segmentos culturais. Era parte da agenda cultural do Recife. Fechado desde 2013 para reforma, que deveria durar dois anos, o local estava cercado de (boas) prospecções: reparo dos dois auditórios, inauguração de um cinema e requalificação do teatro. Porém, o cenário, hoje, é outro: abandonado, o local é uma sombra dos seus dias de glória e representa um triste retrato da situação de vários espaços culturais do Recife e de Olinda.

Inicialmente, o Centro de Convenções da UFPE seria fechado para reforma em 2014, após a Copa do Mundo, mas problemas na estrutura do piso fizeram com que fosse antecipado. Os levantamentos orçamentários tiveram início em 2014, com a licitação iniciada em 2015, mas finalizada apenas em 2016, devido a problemas com a primeira vencedora do processo. Em março do ano passado, um vendaval deslocou parte do telhado e, para evitar maiores danos, a universidade recorreu a uma verba emergencial do Governo Federal, que possibilitou a troca de toda a cobertura.

Agora o projeto de reforma está nas mãos da empresa ATP Projetos, que segundo Ana Julia de Souza, diretora do local, já iniciou um novo levantamento para saber as necessidades reais do projeto. “O primeiro espaço a ser finalizado será o setor de eventos, previsto para final de julho. Os levantamentos realizados em 2014 levaram a um orçamento preliminar em torno de 48 milhões, mas só saberemos o valor atualizado após a conclusão do projeto pela ATP, o que deverá ocorrer por volta de agosto”, explicou Ana Julia.


MELHORIAS

Após a conclusão do projeto – que inclui reforma do teatro, da plateia ao palco, passando pela climatização e outros aspectos técnicos, dois auditórios (um com 300 e outro com 200 lugares), cinema com tecnologia digital e capacidade para cerca de 250 pessoas, e salas de trabalho, além de melhorias na concha acústica – será realizada uma nova licitação para execução das obras. De acordo com a gestora, a expectativa é que o Centro de Convenções seja reaberto em 2019.


Fonte: JC Online

PROGRAME-SE


quarta-feira, 21 de junho de 2017

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passa disco, se preferir)




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Cliente chega procurando pen drive com músicas de forró... Digo que não tenho e que é ilegal comercialização do mesmo. Pois é preciso autorização dos proprietários dos fonogramas, cantores, compositores, etc, etc, etc.

Minutos depois ele começa a falar em impostos, encargos, preços de estacionamento... E é claro; em corrupção. E sai com a famosa frase:

- Nesse País só tem ladrão!

Olho pro meu amigo Nilson Araujo (que escutava calado o bate-papo) e dou apenas uma risadinha amarela.

Com a vontade de dizer:

- Pois é amigo, até o senhor quer roubar os artistas! E ferrar com os lojistas que insistem em comercializar mídias originais.

NARA LEÃO TEM DISCOS RELANÇADO EM PLATAFORMAS DIGITAIS

Por José Teles



Nara Leão completaria 75 anos em 19 de janeiro de 2017, pouco lembrada pelas novas gerações consumidoras de música. Numa época de cantoras de vozeirão, como Elis Regina, de performances dramáticas, feito Maria Bethânia, ou de flertes com a vanguarda, como a Gal Costa tropicalista. Com voz de pequena extensão, foi intérprete sutil, de extremo bom gosto na escolha do que cantava, de antenas ligadas para o novo. Não era de seguir tendências, mas de aponta-las.

Esteve discretamente presente no nascimento da bossa nova, porém ao começar a carreira preferiu a descoberta de autores iniciantes, e velhos sambistas. Alistou-se na trupe tropicalista, e quando a barra pesou, abrigou-se da ressaca dos anos 60, em Paris, quando enfim gravou a bossa nova que a geração udigrudi esnobava (o álbum Dez Anos Depois, 1971). Seus sucessos radiofônicos foram poucos para a qualidade da obra, cuja importância evidencia-se pelo relançamento em CD de quase todos seus discos.

Álbuns do final dos anos 70, e parte do que chegou às lojas nos anos 80, foram relançados, nas plataformas digitais, pela Universal Music. Os discos: Um Cantinho, Um Violão (com Roberto Menescal, 1985) Meus Sonhos Dourados (1987), Raridades II (2002), Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos (1978), Abraços e Beijinhos e Carinhos Sem Ter Fim (1984), Meu Samba Encabulado (1983), Nasci Para Bailar (1982), Nara Canta em Castellano (1979), Romance Popular (1981), Com Açúcar, Com Afeto (1980).

Destes, tem a peculiaridade de Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, que poderia ter voltado com o título original, Que Tudo Vá pro Inferno e a faixa que batiza o álbum, dedicado à música de Roberto Carlos. O Rei, que recentemente tirou do index este que foi seu primeiro sucesso marcante (em 1965), exigiu que a canção fosse limada do disco. Sem a música o disco mudou de nome.

Com Açúcar e com Afeto é também dedicado a um compositor, Chico Buarque, que participa de três faixas, Vence na Vida Quem Diz Sim (com Ruy Guerra), Dueto, e Mambembe. São todos álbuns de ótimos repertórios, com o padrão de qualidade de Nara. Alguns se destacam, como é o caso de Meu Samba Encabulado, com uma seleção musical que vai de João Pernambuco (Brasileiro, com José Leal), e Leonel Azevedo e Meira, de Quando a Saudade Apertar.

Nara Canta em Castellano é o mesmo Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos, em espanhol, sem a faixa proscrita por Roberto Carlos. O Raridades II, compilada pelo produtor Marcelo Fróes (da Discobertas), reúne curiosidades em discos avulsos, e participações especiais de Nara Leão, canções como Cineangiocoronariografia (Pedro Caetano/Alcyr Pires Vermelho/Manuel Baña). A gravadora poderia aproveitar os 50 anos do tropicalismo para relançar os fundamentais Nara Leão (1968), e Coisas do Mundo Minha Nega (1969).

Confira Nara Leão em Como Será o Ano 2000?:

'CANÇÕES DE BELCHIOR NÃO SÃO DAS QUE MORREM', DIZ CAETANO VELOSO

Para o cantor, as músicas do artista morto estão dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante


Por Caetano Veloso



A última vez que vi Belchior foi em São Paulo, pouco antes do seu famoso desaparecimento. Ele me procurou e conversamos bastante. Me trouxe de presente dois retratos de Drummond desenhados por ele, muito sugestivos e profundamente sentidos. Achei significativos a visita e os presentes. Nunca me esqueço de sua entrada no palco do teatro João Caetano, quando o vi pela primeira vez. Ele veio da coxia quase correndo e gritando, antes da introdução da banda: "Quando me lembrei já estava em cima da hora!" Era a frase que Gil diz na abertura de minha Irene, ao perceber que tem que recomeçar (Gil toca violão em todas as faixas do disco que gravei em Salvador depois da prisão, durante o confinamento, antes de irmos para fora do país). A tirada de Belchior era mais uma das referências irônicas que ele fazia ao tropicalismo. Tinha uma beleza poética imensa, como muitos dos versos de suas canções. A chegada à cena do "pessoal do Ceará" teve como uma de suas marcas a intenção de exibir confronto com os tropicalistas. Sugeriam que nós, os baianos, já representávamos o estabelecido, o velho, enquanto eles seriam o novo e a verdadeira rebeldia. Me parecia uma interessante reação ao habitual "tudo amiguinho, tudo certo". No estilo de Belchior, soava justo. O tropicalismo se opôs à bossa nova louvando João, Jobim e Lyra. A bossa nova se opôs à bossa velha louvando Caymmi, Ary e Bide&Marçal. O pessoal do Ceará queria opor-se mesmo. Não chegava a isso e a recusa à louvação teria ficado vazia não fosse o talento e a personalidade de Belchior. O belo "Pavão" (Pavão Misterioso) de Ednardo era psicodélico e nordestinista. Ou seja: nada que o tropicalismo já não tivesse sido. Fagner era, quanto a todas essas questões, indefinido. Belchior esboçava um estilo anti-sixties, sugeria uma volta aos fifties como prefiguração os eighties. Eu amava (e amo) Mucuripe. A frase musical que sustenta o verso "Vida, vento, vela leva-me daqui" é tão bela e adequada que dois dos maiores cantores do Brasil não conseguiram chegar à sua altura. Mas Mucuripe era uma canção "clássica", atemporal. Ela trouxera os cearenses ao reconhecimento público, mas não representava ruptura. As músicas que Belchior assinou sozinho fizeram isso. Todas as citações a canções nossas que estavam em trechos de canções de Belchior me agradavam por estarem dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante. Muitas entrevistas de Fagner desmereciam a força estética que era evidente em Mucuripe e em Belchior. Como Nossos Pais é uma das melhores interpretações de Elis. Também Velha Roupa Colorida é algo coeso e forte. Mas tudo isso ficava mais interessante ainda quando na voz do autor. É que a escrita em si, o material que ele apresentava, era de boa qualidade. E o som da sua voz, reiterado por sua figura, dizia o que ele queria dizer. Seria gozado ouvir, em Apenas um Rapaz latino-Americano, um "nada é divino, nada é maravilhoso", como se a frase do "antigo compositor baiano" lembrada por quem canta já não fosse amargamente auto-irônica quando foi inserida no retrato cubista de uma passeata de protesto contra a ditadura militar - e não precedesse o refrão "É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte" - mas as dubiedades de Belchior são deliberadamente desorientadoras e estão ali mais para marcar a passagem do tempo e anunciar novos ventos de estilo. Quando as músicas fizeram sucesso e os discos venderam, Belchior aparecia nas festas ao lado de André Midani usando ternos finos, fumando charutos caros e falando na cultura da "Rive Gauche". Depois, as Paralelas enchiam o ar das cidades. Eu próprio (que já chorara com Como Nossos Pais num teatro em São Paulo, vendo Elis) chorava no carro. O confronto que lhe pareceu necessário vinha eivado de amor. E não apenas amor transmutado em ressentimento. Não é por acaso que Belchior é lembrado e louvado por gerações sucessivas. Suas canções não são das que morrem. Ele prefigurou os anos 80 em termos globais e se instalou na memória profunda da história da criação de música popular no Brasil. As pessoas que enchiam os teatros a cada reaparição do bardo cearense entendem o sentido dessa história.

terça-feira, 20 de junho de 2017

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*


O que é canção? Mauro Aguiar

Mauro Aguiar


- O que é canção para você? 
Tipo de arte híbrida que faz com que o fio da fala flua sem freio dentro do finito como se fora infinito. Onde o poético cabe no coloquial. Canção é parente de cartaz, ópera, cinema, ilustração. Canção de verdade é coração saindo pela boca. 

- De onde vem a canção? 
Trovadores? Menestréis? Idade Média? Ou foi forjada como canção industrial, radiofônica, já no século passado? Não sei... 

- Para que cantar? 
Para afinar o mundo. Para dizer o indizível. Para ter voz própria. Canção é sotaque cardíaco.

- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho. 
Chico Buarque, Cacaso, Aldir Blanc. Por que estes? Chico, pela polissemia, pelo humor, pela palavra-valise, pela poesia dentro da fala, da locução. Cacaso pelo misticismo cotidiano, pela língua brasileira, pelo sonho de vida e morte. Aldir, pela loucura, pelo subúrbio, pelo sarcasmo.




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

MARINÊS E SEU DISCO SUBVERSIVO DE 1967

Por José Teles 




A história da música popular brasileira é contada quase sempre por historiadores do Sudeste, a música que chamam de regional, ou seja, o que é produzido fora do Rio ou São Paulo, é quase inteiramente ignorada. Do forró, apenas Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, que formavam com Marinês o triunvirato mais influente do gênero.

Em listas dos grandes discos de determinado ano, forró nunca entra (assim como não entra música caipira). Na relação dos LPs importantes de 50 anos atrás, não se irá encontrar Marinês, estreia em LP da cantora na CBS (onde o marido, Abdias, era produtor do cast de forró). O álbum não é só uma mudança de gravadora mas a pioneira incursão de uma forrozeira, ou seja, uma artista popular, na excludente sigla MPB, surgida dois anos antes, com a era dos festivais.

Marinês, o disco, tem quatro composições de Gilberto Gil (uma delas a inédita Aboio, gravada no ano seguinte pelo MPB-4), Sérgio Ricardo (a também inédita Mutirão, que entraria na trilha de A Noite do Espantalho, o filme que ele roteirizou, musicou e dirigiu em 1974) , João do Vale com Abel Silva (Eu Chego Lá, gravada por João do Vale, no mesmo ano, em compacto duplo).

Italúcia e Anastácia, comparecem com Vivendo e Aprendendo (“Sorria feliz de contente/na hora que o tombo levar/porque cada vez que se cai/ aprende-se a se levantar”), João Silva e Geraldo Nunes assinam a toada, Triste Despedida. De Onildo Almeida e Agripino Aroeira é Assim Nasceu o Xaxado. Também de Onildo é Catingueira que fecha o álbum (com José Maria de Assis). Completa-se com Mãe Sertaneja (Reinaldo Costa/Juvenal Lopes), e Súplica Sertaneja (Ayrão Reis/ Genival Cassiano/Niquinho).

O Cassiano acima citado é o mesmo da soul musica brasileira. Um dos integrantes dos Diagonais, que fez os backing vocais de Marinês neste álbum, um trio formado ainda por Hyldon e Camarão. Súplica Sertaneja abre com um órgão, provavelmente tocado pelo acordeonista Orlando Silveira, que faz a sanfona no disco. O primeiro, e provavelmente, único órgão num forró nos anos 60.

Marinês é basicamente baiões, toadas, e xaxados, que a cantora dominava com maestria, e vinha sendo usado como veículo para autores da MPB cantarem suas diatribes contra a ditadura militar. Nenhuma intérprete da época cantava de forma tão autêntica estes ritmos. Marinês solta a voz em Procissão, Vento de Maio e Viramundo de Gilberto Gil (a segunda com Torquato Neto, a terceira com Capinam), como se desconhecesse a existência da comedida bossa nova, influência generalizada na geração dos festivais.

Os arranjos são enviesados para a MPB, com violões, fraseados levemente rebuscados no acordeom, mas a voz agreste de Marinês predomina, até contrasta com os vocais bem comportados de Os Diagonais. O trio de forró também é utilizado no disco, equilibrando a sonoridade do LP, que tem em Mutirão, de Sérgio Ricardo, um das faixas mais bem resolvidas, numa interpretação empolgante da cantora.

O LP é um dos menos conhecidos da longa obra de Marinês. Os jornalistas Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, afirmam, no livro O Fole Roncou- Uma História do forró (Zahar, 2012) que a ideia de “modernizar” Marinês foi do diretor artístico da CBS, o lendário Evandro Ribeiro, que mandou na gravadora durante muitos anos (faleceu em 1993). A cantora entrara na CBS no final de 1966, e lançou, sem repercussão, um compacto com Disparada (Geraldo Vandré/Théo de Barros), que merecia ter entrado no LP.

Fizeram um disco moderno, começando pela capa, onde ela aparece maquiada, de laquê nos cabelos à moda da época, sem o chapéu nem os trajes de cangaceiros, que era sua marca registrada. Não se esperava, no entanto, que Abdias e Marinês enveredassem por terreno tão delicado. Em O Fole Roncou reproduz-se um diálogo de Evandro Ribeiro com a cantora:

“Dona Marinês eu quero saber duas coisas da senhora: qual a marca de cigarro que a senhora fuma, e qual o tipo de comida que a senhora gosta”. E Marinês: “Por que, seu Evandro?”. E o irascível diretor: “É pra eu mandar entregar na cadeia. Os homens estão espremendo a gente aqui dentro por causa desse repertório subversivo que a senhora gravou”.

A CBS não fez divulgação do LP, a autocensura, antes a vigilante censura federal tirasse de circulação aquele mau exemplo, que poderia contaminar o forró, até então lúdico e romântico. Mesmo quando os compositores cantavam a seca, a tratavam como uma fatalidade, poucas vezes em tom de protesto (Vozes da Seca, de Zé Dantas, é exceção à regra).

A mando de seu Evandro, Marinês partiu para gravar outro álbum, Mandacarú. LP lançado no início de 1968, sem nenhum vestígio do breve flerte da Rainha do Xaxado com a subversão. É praticamente uma mea culpa.Três faixas de mandacaru têm a palavra amor no título: O Sininho do Amor (Altamiro Carrinho/Ribeiro Valente), Tema de Amor (Venâncio/Geraldo Nunes), e Amor É Mais Amor (Jacinto Silva/Dílson Dória).

Confiram Marinês no áudio de Mutirão, de Sérgio Ricardo:

PROGRAME-SE


segunda-feira, 19 de junho de 2017

PAUTA MUSICAL: UMA "ROSA" PARA ROSINHA VALENÇA

Por Laura Macedo



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A violonista e compositora Maria Rosa Canelas (1941-2004) foi uma das pioneiras de sua época a se destacar em um território dominado por homens.

O cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, costumava dizer que ela tocava por uma cidade inteira e, por isso, rebatizou-a como Rosinha de Valença.

O estilo de Rosinha sempre foi vigoroso – violão cheio, volume alto, pegada forte na mão direita.

A exemplo de Baden Powell, com o qual era frequentemente comparada, tinha predileção por temas afro-brasileiros.

Infelizmente, em 1992, Rosinha sofre uma parada cardiorrespiratória, entra em coma e é levada para Valença, onde fica aos cuidados de sua irmã por doze anos.

Como aluna do FENAVIPI (Festival Nacional de Violão do Piauí) tive a oportunidade (juntamente com outros colegas), de batermos um papo informal com o violonista Turíbio Santos que nos revelou: sempre que ia visitá-la tocava pra ela e, no íntimo, acreditava que mesmo em coma, ela escutava o som do meu violão...

01 - Caboclo Ubiratan (domínio público – adaptação de Rosinha de Valença)


02 - O Samba Da Minha Terra (Dorival Caymmi)


03 - London, London (Caetano Veloso)


04 - Asa Branca (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)



MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*




21 - Quiseste ofuscar minha fama só porque vivo a brilhar

Aos olhos dos compositores, até mesmo daqueles que eram amigos de Herivelto, minha mãe ficara acuada diante da investida covarde de meu pai. Como poderia responder? Procurar outro jornal? Exigir direito de resposta no Diário da Noite, alimentando toda aquela sujeira? Ela não era compositora. Como se defenderia? Como responderia a todos aqueles ataques? Dalva era muito querida por todos e não se tem conhecimento de alguém no meio artístico com alguma queixa em relação a ela. Sua doçura e alegria despertavam carinho em todos. Assim, os compositores, vendo-a tão desprotegida, começaram a produzir maciçamente para ela, oferecendo o que descrevesse o momento que vivia com Herivelto. Em princípio, não havia nenhuma intenção de polemizar, embora o sucesso de “Tudo acabado”, é claro, tenha despertado o interesse comercial na disputa. Mas os compositores também tinham um interesse real em ajudá-la a combater a guerra que meu pai declarara. Contratada da Rádio Nacional, gravando sozinha na Odeon, discos fazendo sucesso e o país inteiro só falando de Dalva e Herivelto, em meados de 1952, depois de eleita Rainha do Rádio, veio o convite para minha mãe ir à Inglaterra gravar um disco e fazer algumas apresentações na Europa. Ficou deslumbrada. Na época, era muito raro a ida de artistas brasileiros para o exterior, ainda mais alçando voo tão alto. Dalva seguiu em excursão para Lisboa, Madri, Barcelona e Londres, onde — glória maior! — cantou para a rainha Elizabeth no famoso Hotel Savoy. Conheceu grandes artistas nessa temporada e foi ouvida, entre outros, por Errol Fly nn, Deborah Kerr e Katherine Hepburn. A telefonia no Brasil ainda engatinhava em termos de ligação internacional, e minha mãe falava com a gente de Londres por inter-médio de radioamador. Quando batia a saudade, procurava algum rádio e pedia para ligar. Nós éramos chamados às pressas por um radioamador que morava perto de casa. E assim conversávamos um pouco, tudo muito rápido. Em Londres, ela gravou um disco com o pianista inglês Roberto Inglês, famoso na época. Esse maestro e músico chamava a atenção pelo jeito diferente de tocar — pro-curava mais as notas graves e fazia solos com a mão esquerda. Com ele, Dalva gravou o disco que impulsionaria definitivamente sua carreira-solo. Nesse disco, já no formato LP, estavam “Fim de comédia”, “Que será” e “Kalu”, canções que se tornaram verdadeiros hinos na música brasileira. Nem preciso dizer o barulho que aconteceu quando apareceu nas lojas de discos. Foi uma loucura! A Odeon era só felicidade, na base do “tapete vermelho” quando ela aparecia na sede, na avenida Rio Branco, centro do Rio. Festas, coquetéis, visitas na casa dos diretores, vis-itas à nossa casa, homenagens. O arsenal completo do sucesso. Para poder avaliar a extensão do êxito de Dalva, é importante saber que, no auge da polêmica musical, ela chegou a vender 300 mil cópias do disco 78 rotações com a música “Kalu” em 1951, fazendo com que a Odeon rodasse suas máquinas em turnos ininterruptos de 24 horas para abastecer o mercado. Se levarmos em conta que, nessa época, a população do Brasil era infinitamente menor, vamos poder dizer que minha mãe vendeu, proporcionalmente, mais discos que a Xuxa, que em 1989 atingiu a marca de 3 milhões de cópias. Dalva era lembrada para tudo o que fosse considerado importante no meio. Um dia, recebeu um convite muito especial: recepcionar um famoso cantor norte-americano que viria ao Brasil gravar um disco. Como campeã de vendas da gravadora, sua presença era indispensável. O coração de minha mãe disparou quando soube o nome do artista: Nat King Cole! Quando ela chegou em casa contando, fui logo pedindo para me levar junto. Lembro-me como se fosse hoje da ansiedade que nos dominava no caminho para o estúdio, na avenida Rio Branco. E da emoção que tomou conta da gente quando a porta se abriu e Nat King Cole surgiu diante de minha mãe. Ao ser apresentada a ele, Nat beijou sua mão. Eu, do lado, também apertei a mão dele, enquanto um diretor da Odeon, Mr. Morris, traduzia tudo. Ele foi muito simpático e afável. Eu nunca tinha visto ninguém tão escuro assim . Nat King Cole era azul-marinho. O disco foi produzido por Aloysio de Oliveira, na época diretor artístico da Odeon. Nat havia estourado nas paradas norte-americanas e começava a gravar uma série dedicada ao mundo latino, cantando em espanhol. Aqui, ele cantou em português, ao lado do Trio Irakitan e, naturalmente, de Sylvinha Telles, então mulher de Aloysio. Dalva ficou encantada ao ser convidada pela Odeon para assistir às gravações e disse que iria todos os dias. Para minha sorte, começavam à tarde e pude ir com minha mãe. Eu não podia perder essa chance. Assistia a tudo embevecido. O que mais me chamava a atenção era a quantidade de cerveja que Nat King Cole tomava no estúdio. Ele dizia que sua voz só ficava do jeito que queria — morna, pastosa, sussurrante — depois de quase meia dúzia de cervejas. Era assim que conseguia aquele grave maravilhoso. Na época em que minha mãe estava começando a preparar um novo disco, os produtores Aloysio de Oliveira e Milton Miranda sugeriram um músico e arranjador totalmente desconhecido. Disseram que ser-ia bom se ela pudesse dar essa chance a alguém novo com talento. Ela concordou, e um dos primeiros arranjos para disco desse novato surgiu aí. Era Antônio Carlos Jobim . A música, “Saia do caminho”, de Custódio Mesquita. Tom esteve algumas vezes em Jacarepaguá. Sentava a um piano Brasil de armário e tirava sons maravilhosos. Já naquela época podia se sentir o toque mágico de alguém que viria a revolucionar o mundo com sua música. A gravadora Odeon do Brasil investia em tudo o que pudesse fazer com que Dalva vendesse mais discos. Assim, criou, junto com a Odeon Argentina, a grande parceria que iria estourar novamente o mercado. Os tangos. Na Argentina da época, o mercado era dominado pelos maestros e arranjadores do tango mais tradicional. Minha mãe foi apresentada a Francisco Canaro e ele se apaixonou pelo trabalho dela. Gravaram um disco em Buenos Aires — um estouro. Aníbal Troillo também se curvou diante da arte de Dalva e fizeram um disco juntos. Os tangos se tornaram a febre do Brasil e um após o outro iam desencadeando o maior sucesso: “Lencinho branco”, “Gira gira”, “Che papusa”, “Oi, cristal”. A notoriedade e até o sucesso surgiam aos poucos para Dalva em países como Argentina, Uruguai e Chile. Passou a excursionar com frequência por esses países, tornando-se muito querida do público. Por volta de 1952, começava a despontar no mundo latino um grande cantor. Seu nome era Lucho Gatica. Minha mãe, já em contato direto com a Argentina e a música latina, se identificou muito com seu canto, sua sensibilidade. Ao saber que também gravava na Odeon, fez uma campanha enorme dentro da empresa para que seus discos fossem lançados aqui no Brasil. Resultado: o sucesso de Lucho Gatica foi estrondoso. Mais tarde, ele veio ao Brasil para conhecer sua grande incentivadora e ficaram amigos. Por causa de Lucho e sua música, minha mãe se tornou uma apaixonada pelo México, que só conseguiu conhecer muitos anos depois, quando eu estava vivendo lá e ela foi passar alguns meses comigo. Acredito que tenha sido nesse momento que comecei a perceber uma certa in-quietação em minha mãe. O sucesso se fazia presente — a loucura dos fãs, o aplauso, o brilho excessivo das luzes, a gritaria enorme em torno dela, a ausência total de privacidade foram minando-lhe a cabeça e o coração. Aquela febre era algo incontrolável e enorme. Eu a via chegar em casa exausta, completamente enfraquecida pela perda de tanta energia. Para relaxar e entrar no giro da casa e da vida particular, recorria ao conhaque, que passou a ser seu companheiro mais fiel. Essa relação com o conhaque já vinha desde o tempo de meu pai, mas era mais moderada, pois meu pai tinha total controle sobre ela e a segurava muito. O talento de Dalva era amado e reconhecido. Mas sua solidão foi começando a crescer, na medida em que o sucesso entrava por um lado e a realidade ia saindo pelo outro. Fui muitas vezes seu confidente, e sei perfeitamente o que ia dentro dela como ninguém poderá saber. A fragilidade de minha mãe era o mais formidável contraste que poderia existir num ser humano, ungida como estava pelo sucesso. Sua força e determinação brigavam dentro dela por um amparo emocional que a fizesse chegar em casa e encontrar um mundo real e verdadeiro. E não um cenário de filme, como Tito, seu segundo marido, passou a construir a sua volta.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

O RAPPA ANUNCIA PAUSA POR TEMPO INDETERMINADO

Anúncio foi feito em comunicado assinado por Marcelo Falcão, Marcelo Lobato, Lauro Farias e Xandão Meneses




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Grupo carioca anunciou pausa nas atividades em comunicado oficial 

A banda carioca O Rappa anunciou, nesta quarta-feira (3), uma pausa na trajetória do grupo, por tempo indeterminado. O comunicado foi feito na página oficial do grupo no Facebook. "Chegou a hora de dizer que vamos parar e, desta vez, sem previsão de volta. A boa notícia é que vamos terminar esta turnê. Os shows estão confirmados até fevereiro de 2018. Esperamos ver todos nossos fãs nestes shows. Fiquem ligados na nossa agenda. O nosso muito obrigado a cada um de vocês pelo carinho e dedicação de sempre", diz texto assinado por Marcelo Falcão, Marcelo Lobato, Lauro Farias e Xandão Meneses".

Esta é a segunda vez que o grupo anuncia uma pausa nas atividades. Em 2009, os músicos iniciaram um hiato, justificado pela necessidade de descanso após 15 anos na estrada. Após um recesso de dois anos, O Rappa voltou a tocar junto em 2011, em uma série de 13 apresentações pelo Brasil.

No ano passado, a banda realizou o lançamento de CD e DVD gravado na capital pernambucana. O registro, feito em novembro de 2015 na Oficina de Cerâmica Francisco Brennand, sob a direção do cineasta recifense Lírio Ferreira, deu origem ao projeto Acústico Oficina Francisco Brennand.

Com contornos de longa musical, o trabalho estabelece relação entre as artes plásticas do pernambucano Francisco Brennand e a produção musical d'O Rappa. São 17 músicas, sendo quatro inéditas, como Uma vida só, e hits dos álbuns 7 vezes (2008) e Nunca tem fim (2013). No DVD, Falcão (vocal), Xandão (guitarra), Lobato (teclado) e Lauro (baixo) têm cenas de bastidores e trechos do show costurados por falas de Brennand.

Confira o comunicado na íntegra:

"Salve família!
Desde que voltamos aos palcos, em outubro de 2011, vivemos experiências incríveis. Talvez as mais importantes desses mais de 20 anos de carreira.

Viajamos o Brasil de ponta a ponta, lançamos dois discos, emendamos quatro turnês internacionais que incluíram um Lollapalooza nos EUA, mais de dez datas na Europa, três na Austrália e uma na Nova Zelândia.

Vimos nossos fãs crescerem, construírem famílias e trazerem filhos e netos para os shows. Além disso, nossas redes sociais nos aproximaram de vocês, os fãs mais “crazy” do planeta! Mas chegou a hora de dizer que vamos parar e, desta vez, sem previsão de volta. A boa notícia é que vamos terminar esta turnê. Os shows estão confirmados até fevereiro de 2018.

Esperamos ver todos nossos fãs nestes shows. Fiquem ligados na nossa agenda.
O nosso muito obrigado a cada um de vocês pelo carinho e dedicação de sempre!
Marcelo Falcão, Marcelo Lobato, Lauro Farias, e Xandão Meneses."


Fonte: Diário de Pernambuco

domingo, 18 de junho de 2017

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

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Impossível abordar o trabalho de Geraldo Azevedo em apenas poucas linhas e por isso mesmo retomo a biografia desta estrela de primeira grandeza dentro da MPB. Vale registrar que na primeira abordagem, Geraldo ainda se encontrava em Petrolina apresentando em bailes e em outros pequenos espaços onde a Bossa Nova era aceitável e tinha seus adeptos. A frente de um programa de rádio e participando do grupo Sambossa, Geraldo Azevedo percebe que Petrolina já não tinha muito a oferecê-lo nos mais distintos aspectos. Pensando assim, muda-se para Recife para cursar o científico e preparar-se para o vestibular de arquitetura. Na capital pernambucana começa a trabalhar como projetista, no entanto o seu amor pela música fala mas alto e já em Recife decide não concluir os estudos para dar vazão ao desejo de ser músico. Na capital pernambucana conhece Naná Vasconcelos e junto com ele, Teca Calazans e Paulo Guimarães passa a integrar o grupo Construção tocando nas noites de Recife, em universidades e espaços culturais. Foi na capital pernambucana que ganhou seu primeiro violão profissional. Pouco tempo depois, em 1965, funda o grupo Raiz, baseado nas artes teatrais, literárias e musicais. É nessa época que conhece um dos seus mais importantes parceiros, o compositor e produtor Carlos Fernando, nome que se tornara imprescindível ao longo de sua trajetória artística nos anos posteriores. Carlos Fernando, idealizador do projeto Asas da América, um dos mais exitosos exitosos projetos de frevo existente até os dias atuais no mercado fonográfico brasileiro, acabou-se por tornar-se um parceiro imprescindível na carreira de Geraldo nos anos posteriores, sendo responsável por assinar diversas parcerias, dentre elas, "Suíte correnteza barcarola de São Francisco".

Ainda em Recife, chega a trabalhar na produção musical de outros projetos teatrais ao lado de nomes como Emilio Borba Filho, em peças encenadas a partir do Teatro Popular do Nordeste, onde Geraldo fazia melodias para os poemas dos espetáculos por lá apresentados. Nos finais de semana, trazia como proposta para as suas apresentações no bar Aroeira, apresentações de grupos de cirandeiros e bandas de pífano. Ainda com o grupo Raiz, é convidado para um programa quinzenal na TV Jornal do Commercio (Canal 2), onde Geraldinho apresentava o quadro "Chegou a vez". Nesta segunda metade da década de 1960 inaugura a parceria com o Carlos Fernando ao compor "Aquela Rosa", sua primeira música completa, com melodia e letra; assume a direção musical do 2º Festival de Música do Nordeste e considerado um dos melhores violinistas da época. Neste período conhece Eliana Pittman, que na época cantava com seu pai, Booker Pittman, e pouco tempo depois seria responsável, de certo modo, pela ida de Geraldo ao Rio de Janeiro para arriscar a sorte como músico quando o convidou para tocar com em seu primeiro show solo, “Eliana em tom maior”. Assim como aconteceu com Petrolina, o talento de Geraldo já não cabia na capital pernambucana, fazendo-o pensar na possibilidade de seguir rumo ao Sudeste. Dessa vez ele não iria em busca de oportunidades acadêmicas, ele iria certo que tentaria a vida de músico a partir das oportunidades que viessem a surgir como hoje é possível atestar. Enfim o Brasil teria a oportunidade de conhecer Geraldo, o seu carisma e violão, pois na proposta de ir ao Rio para participar do show de Eliana, haveria a oportunidade de apresentar-se de modo solo enquanto a cantora trocava o figurino., o que acabou corroborando para torná-lo conhecido como compositor e instrumentista versátil.

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

A HISTÓRIA MUSICAL DO RÁDIO NO BRASIL

As dez canções mais populares no Brasil em 1947 (há exatos 1970 anos) eram as seguintes:

01 - Ai! Que Saudades da Amélia – Ataulfo Alves
2º - Ave Maria no Morro – Trio de Ouro
3º - Emília – Vassourinha
4º Está Chegando a Hora – Carmen Costa
5º Praça Onze – Castro Barbosa & O Trio de Ouro
6º Aos Pés da Cruz – Orlando Silva
7º Nega do Cabelo Duro – Anjos do Inferno
8º Rosa Morena – Anjos do Inferno
9º Fez Bobagem – Aracy de Almeida
10º Algum Dia Te Direi – Gilberto Alves

sábado, 17 de junho de 2017

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


MOACIR SANTO I – DO PAJEÚ PARA MÚSICA MUNDIAL

Moacir Santos: genial artista pernambucano, quase um desconhecido, ante a obra e talento monumentais


Quando João Bosco apresentou para amigos músicos, ali pela metade dos anos 1960, alguns trabalhos do maestro Moacir Santos, a reação foi uma só: “não nos perdoamos por não tê-lo conhecido antes”.

No meu caso pessoal, tive a mesma reação ao conhecê-lo somente há 15 anos. Se fosse mais atento não teria deixado passar a quase sutil citação de Vinícius de Moraes, em parceria com Baden Powel, no “Samba da Bênção”, de 1965. Ali, um verso já bradava alto e bom som: ”A bênção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos, tantos como meu Brasil de todos os santos”.

Embora já contasse com admiradores tão ilustres e um primeiro álbum arrebatador – “Coisas” – também lançado em 1965, Moacir Santos – pernambucano da região do Pajeú – não viu grandes perspectivas de trabalho em seu próprio país e migrou para os EUA, em 1967.
“Coisa nº 1”, do Álbum “Coisas”, Moacir Santos/Clovis Mello, lançado em 1965, pelo selo Forma e produzido por Roberto Quartin


As peças “Coisas” vão de 1 a 10, mas são dispostas em seu disco original fora de ordem. O LP foi eleito em uma lista da versão brasileira da revista Rolling Stones como o 23º melhor disco brasileiro de todos os tempos.

Nas três décadas seguintes, o maestro seguiu praticamente anônimo para a maioria dos brasileiros. Felizmente, desde a redescoberta de “Coisas”, em 2001, por meio do projeto “Ouro Negro”, Moacir tem sido cada vez mais absorvido pelos artistas jovens.

Idealizado pelo maestro Mario Adnet e o saxofonista Zé Nogueira, o projeto resultou num CD Duplo, em 2001, e um DVD, de 2005, de que falei acima.

Tanto um como outro tiveram participação de amigos e admiradores, como João Bosco, Djavan e Ed Motta. Somem-se a eles, outras iniciativas como lançamento de uma biografia e de outro álbum em homenagem ao maestro.

Sem falar na valorização de seu repertório por iniciativa de jovens músicos. Vamos ouvir, então, já do álbum novo “Ouro Preto”, a canção Oduduá, em parceria com Ney Lopes, com João Bosco:

Para alguns historiadores, como Zuza Homem de Mello, o longo hiato de invisibilidade talvez de justifique pelo vanguardismo de Moacir do que por sua partida para os EUA. Em 2005, no artigo “Coisas Afro-Brasileiras”, Zuza defendeu a tese: “Coisas é o mais desconcertante disco instrumental dos anos 1960. É natural que suas consequências ficassem para muito depois. Na obra do maestro, o primitivo encontra o futuro. O ontem o amanhã”.

Aqui, faço um registro para aplacar a curiosidade de tantos, que quanto eu, se perguntaram por que a maioria de suas músicas era tituladas como “Coisa nº 1”, “Coisa nº 2”, “Coisa nº-8”, etc.

A terminologia “coisa”, para 10 de suas principais peças, nada mais era do que a substituição de opus, que significa número. O próprio Moacir Santos explica no “DVD Ouro Negro”, de 2005, que, até pensou em opus, mas sua modéstia o levou a não se apropriar de termo tão ligado ao erudito, embora não negasse seu desejo de chegar a este patamar.

PS: Nei Lopes

Nascido no Rio de Janeiro, em maio de 1942, Nei Braz Lopes é compositor, cantor, escritor e estudioso das culturas africanas no continente de origem e na diáspora africana.

Notabilizou-se como sambista, principalmente em parceria com Wilson Moreira. Ligado ao Salgueiro e à Vila Isabel, é compositor desde 1972. Vem, desde os anos 90, esforçando-se para romper a barreira que separa o samba da chamada MPB, em parcerias com Guinga, Zé Renato e Fátima Guedes.

Participou do projeto musical “Ouro Negro”, em homenagem ao ilustre maestro Moacir Santos, escrevendo letras para cinco temas do homenageado, em canções como “Nação do Amor”, “Navegação”, “Sou Eu”, “Oduduá” e “Orfeu”.

Semana que vem mais coisas de Moacir…

RÉQUIEM BATUCADO PRO ALMIR GUINETO

Por Nei Lopes



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O Morro do Salgueiro, desde a década de 1920, é uma das principais referências do samba e da cultura negra no Rio de Janeiro. Por isso foi abundantemente referido na obra de compositores sambistas dos primeiros tempos, como Noel Rosa, o poeta da Vila que, em seu repertório autoral, parece ter abordado mais o Morro da Tijuca do que seu próprio bairro, a Vila Isabel.

Na década de 1980, eu, já integrando a Velha-Guarda dos Acadêmicos do Salgueiro, escola à qual me integrei às vésperas do vitorioso carnaval de 1963, convivi com um núcleo familiar inesquecível. Nele, além de músicos excepcionais, como o mestre Iraci Serra, um dos maiores violonistas das escolas em seu tempo, havia também um mestre, Seu Geraldo, que preservava o caxambu, variante do jongo, trazida das velhas fazendas de café para aquele importante reduto. Nessa família, toda de grandes artistas espontâneos, sem instrução musical formal, nasceu Almir de Souza Serra, o Almir Guineto, que agora encerra sua jornada terrena.

Interessante é que eu, com vinte e poucos anos de idade, já ouvia falar num legendário Almir Guineto, que depois vim saber tratar-se de um jovem, quatro anos mais novo do que eu. Mas a lenda tinha razão de ser; e se confirmaria depois.

Guineto foi certamente um dos grandes sambistas da melhor tradição carioca: cantor de voz potente e bem timbrada, exímio violonista (filho e sucessor do mestre Iraci Serra, e sobrinho de Seu Geraldo do Caxambu) e cavaquinhista. Inspirado melodista e grande versador nas rodas de partido-alto, foi um dos diretores de bateria da Furiosa Salgueirense.

Com toda esta bagagem, tornou-se, na década de 80, um dos formatadores do samba moderno, rotulado como pagode de fundo de quintal – um estilo de samba tão inovador quanto foi a bossa-nova duas décadas antes. E principalmente porque Almir e seus colegas da seção harmônica do Fundo (Aragão, Arlindo e Sombrinha) conheciam as manhas de João Gilberto, Menescal, Tom Jobim e Companhia.

Assim, e pela biografia nem um pouco convencional, aliás, como as de tantos outros sambistas, do eixo Estácio-Oswaldo Cruz, e não necessariamente por atitude transgressora, tornou-se uma lenda. Por tudo isso, há de ser sempre lembrado.

Obrigado, Bateria!

ABENÇALGUEIRO!!!!

MOSTEIRO, SÍTIO E CASAS DE FAMÍLIA: VISITE LUGARES ONDE BELCHIOR MOROU EM SANTA CRUZ DO SUL - PARTE 03

Por Juliana Bublitz


O fã que tentava romper a reclusão

Também anfitrião de Belchior, o radialista Dogival Duarte era amigo do cantor desde o fim dos anos 1980Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS


Quando soube pelo MST que o ídolo estava na cidade, depois de virar o mundo ao avesso atrás dele, o radialista Dogival Duarte ficou eufórico. Desde os 18 anos, o maranhense radicado no Rio Grande do Sul percorria o país para acompanhar shows do cantor. Foram tantas as visitas a camarins, que os dois acabaram se tornando amigos no fim dos anos 1980.

Por isso, assim que Belchior e Edna deixaram a Ecovila, ele fez questão de recebê-los em casa, na área urbana de Santa Cruz, onde vive com a mulher, Bruna, e com o filho, Dionel. Aos 23 anos, o jovem também é apaixonado por Bel, apelido que o compositor ganhou da família. Bel o chamava de "meu bruxo".

Dogival acredita que o amigo largou tudo porque estava cansado dos palcos, mas acabou estendendo demais a pausa por influência de Edna.

— Ele queria recarregar as baterias e foi longe demais. Edna meteu na sua cabeça que os dois tinham de fugir da ex-mulher dele — afirma Dogival.

Nos quase 12 meses em que ficou na residência do diretor da Rádio Santa Cruz, Bel passava os dias tomando chá verde, lendo poetas franceses, falando sobre o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a quem admirava, comendo peixe e pão de queijo. Dogival providenciava para que nada lhe faltasse.

O cantor também fazia imitações de Chico Anysio e de Didi Mocó, personagem de Renato Aragão. Assistia a filmes, escutava música e via regravações de suas músicas no YouTube — adorava a versão de A Palo Seco pela banda Los Hermanos. Trabalhava em traduções e dizia estar compondo, embora nenhuma das fontes consultadas por ZH tenha visto as letras ou ouvido as novas canções — Edna cuidava para que os escritos ficassem sempre dentro de uma pasta, longe de todos. Nem mesmo Dogival, que estava sempre por perto, tinha certeza do que de fato estava acontecendo.

— Eu dizia: "Bel, vamos fazer um show para te tirar dessa situação? Podemos comprar uma casa para você não depender mais da ajuda de ninguém". Ele se empolgava, mas a Edna jogava água fria. E ele obedecia como se fosse um cachorrinho — diz o jornalista.

Belchior o espiava pela janela e ia ao encontro do amigo quando Dogival chegava do trabalho. O eterno fã, que prepara uma biografia sobre o ídolo, o abraçava e beijava. Descontente com a reclusão do cantor, fazia de tudo para tirá-lo de casa:

— Eu forçava a saída. Colocava o Bel no carro à noite e saía para passear, mostrar a cidade.

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