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domingo, 31 de agosto de 2014

AS RAINHAS DO RÁDIO: O DEDO DE CHATEAUBRIAND

Revelada em 1949 no programa Papel Carbono, de Renato Murce, na rádio Nacional do Rio de Janeiro, a personagem de hoje foi eleita Rainha do Rádio em 1956

Por Bruno Negromonte - @brunonegromonte



Como os amigos leitores tiveram a oportunidade de acompanhar vimos demos início ao olongo da semana passada a uma série que abordará cada um dos nomes das dez rainhas do rádio existentes na áurea época da radiofonia brasileira entre as décadas de 1930 e 1950. Para ser mais exato ao longo de 21 anos, de 1937 até 1958 quando foi eleita a última rainha Julie Joy, nome abordado na primeira matéria da série abordada durante a semana passada. A disputa era acirrada e ao final, na coroação, havia uma verdadeira festa com direito a coroa, cetro e homenagens onde quer que fossem. O concurso para a escolha da Rainha do Rádio era promovido pela ABR – Associação Brasileira do Rádio e em determinado momento passou a ser comandado, também, pela “Revista do Rádio”, fundada em 1948 por Anselmo Domingos. Vale registrar que tal concurso surgiu com objetivos filantrópicos em 1936, quando a ABR resolveu arrecadar fundos para a construção de um hospital destinado a abrigar seus associados. Neste primeiro momento os votos eram vendidos e posteriormente a “Revista do Rádio” publicava os cupons de votação que, recortados e preenchidos, eram colocados nas urnas para o cômputo final. Nesse período não havia venda de votos; o custo era apenas o preço de capa da revista. Era comum o disse-me-disse ao longo dos períodos eleitorais e algumas campanhas eleitorais foram bastante tumultuadas, como por exemplo a da cantora que hoje vamos destacar.


Em 1956, aconteceu algo inusitado na eleição daquele ano que corroborou de modo bastante intenso para o descrédito do concurso que anos passados era motivo para intensa rivalidade entre os fãs das concorrentes. Assis Chateaubriand, na época talvez o maior empresário das telecomunicações e dono das Emissoras de Rádio Associadas, resolveu eleger como sua protegida a cantora Adelina Dóris Monteiro. Até aí tudo bem, o problema era que a cantora carioca não ia nada bem na votação, mesmo com muitos fãs aderindo ao método do recorta cupom, preenche cupom e coloca na urna.





Dóris, que começou a cantar ainda adolescente, chegou a participar em 1947 do programa "Papel carbono", de Renato Murce e em dado momento de sua carreira teve como seu padrinho artístico o também cantor Alcides Gerardi (foi o cantor e compositor gaúcho que a apresentou ao radialista Almirante, então diretor da Rádio Tupi à época, e que propiciou a Dóris participar de um teste para cantora na emissora ao qual foi aprovada e a partir daí começou a participar dos seus programas musicais chegando a passar oito anos em seu casting). Quando ainda estudante do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro foi convidada a cantar na Rádio Guanabara (pertence a grupo Bandeirantes de Comunicação) ganhando aos poucos a devida notoriedade passando a atuar também em casas noturnas e boates, dentre elas uma do Copacabana Palace Hotel, uma das mais conceituadas do país na época.Na década de 1950 ganhou projeção nacional ao realizar a sua primeira gravação, registrando em 78 rpm, a canção "Se você se importasse"; sendo eleita, em 1952, Rainha dos Cadetes e gravando o seu primeiro LP  "Vento soprando" pela gravadora Continental em 1954, ganhando destaque as faixas "Graças a Deus" (Fernando César) e "Joga a rede no mar" (Fernando César - Nazareno de Brito). Ainda nesta mesma década gravou uma das músicas mais marcantes do seu repertório, a canção "Mocinho Bonito", de autoria de Billy Blanco e, em 1955, foi uma das estrelas da TV Tupi (emissora carioca dos Diários Associados, de propriedade do paraibano Assis Chateaubriand) apresentando um programa que levava seu nome.

Integrante do casting de sua emissora de TV, Chateaubriand ordenou: Dóris Monteiro têm que ganhar! No entanto esta tarefa seria complicada aquela altura do concurso, uma que vez a cantora não tinha uma significativa quantidade de votos. Para se ter uma ideia na véspera da apuração final os votos da cantora carioca não davam nem para ela sonhar em ser princesa.




No dia que antecedia o resultado final Chatô, como era conhecido Chateaubriand, chamou a sua sala o então tesoureiro dos Diários Associados e deu-lhe uma ordem:


- Consiga 5 milhões de cruzeiros, e agora!

Seria um pedido a ser atendido sem adversidades se este não tivesse sido feito a noite, no horário em que os bancos encontram-se fechados (vale ressaltar que estamos falando de 1956 e que naquela época nem imaginava-se a criação e utilização de caixas eletrônicos).


A alternativa encontrada foi recorrer a um magazine carioca que anunciava no “O Jornal”, de propriedade também do magnata paraibano. Dinheiro na mão, veio o restante da instrução para o tesoureiro, como conta Fernando Morais no seu livro “Chatô, o Rei do Brasil”, da Editora Cia. Das Letras:


“Mande comprar tudo em Revista do Rádio e ponha o pessoal da redação (de O Jornal) a preencher o cupom com o nome da dona Dóris. E tem que ser já, porque as urnas fecham à meia-noite.” O tesoureiro coçou a cabeça e fez ver ao chefe que a revista custava 5 cruzeiros. Com 5 milhões dava para comprar um milhão de exemplares, o equivalente a 5 edições da revista. E para passar das favoritas, Bárbara Martins com 160 mil votos, e Julinha Silva, com 70 mil, seria necessário preencher mais de 100 mil cupons, algo irrealizável.



Então Chatô mostrou o quanto era poderoso:

“Então o senhor leve este dinheiro ao Manoel Barcelos da ABR e ao Anselmo Domingos da Revista do Rádio e diga que eu compro todo o encalhe da revista acumulado desde que começou o concurso deste ano. E não precisa mandar ninguém preencher nenhum cupom. Diga que aqueles votos devem ser considerados para dona Dóris.”

Na apuração final Dóris Monteiro obteve 875.605 votos!

A primeira princesa, Bárbara Martins, ficou com 161 mil e Julinha Silva recebeu a faixa de segunda princesa, com 76 mil votos.

LUPICÍNIO RODRIGUES, 40 ANOS DE SAUDADES

Este ano é repleto de datas redondas na biografia deste artista gaúcho. Em 2014 , além do seu centenário, completa-se quatro décadas que Lupi nos deixou. Desse modo, nada mais conveniente que homenageá-lo neste mês que completa-se quatro décadas de sua partida com esta entrevista publicada na edição N.I 225  do Pasquim, de outubro de 1973.


O Pasquim Entrevista Lupicínio Rodrigues - A dor de cotovelo é um barato!
 

Saímos com Lupicínio Rodrigues do Teatro Opinião, depois de sua apresentação diante de um delirante auditório de jovens, que nunca tinha visto o grande compositor cara a cara. Júlia Steinbruck nos convidou para fazermos a entrevista na casa dela, e fomos para lá, num grupo de umas 20 pessoas. Pelos cantos do salão, vários grupos tocavam violão e batucavam. Gilson Menezes, do "Estado de São Paulo", também participou da entrevista. A uma certa altura, apareceu Sérgio Bittencourt, com a maior cara de pau, e disse: "Vocês deixam eu perguntar uma coisa pro Lupicínio?" Que fazer? Não se podia engrossar na casa da dona Júlia. É claro que a entrevista teve várias pausas - para beber, para ouvir o maior cantor brasileiro - Jamelão -, para tirar fotografias, para ouvir mil caras tocando violão, e para beber de novo.

Lá pelas 4h5min. da manhã, Lupicínio resolveu tomar umas cervejas no Grego, do seu amigo Scoulis. E lá fomos, já meio elaudicantes, mas decididos: Lupi, Gessé - seu acompanhante - Jamelão, Aibino Pinheiro e seu fiel Douglas, uma negra linda - Zélia - e eu. Às 9h30min. da manhã, na calçada do seu restaurante, Scoulis nos brindou - e aos passantes que olhavam perplexos aquele bando de boêmios, que terminavam a noitada àquela hora de uma terça-feira - com alguns passos de dança, enquanto, para nosso pasmo e encantamento Lupicínio cantava em grego. - (Jaguar).


O PASQUIM - É verdade que você é o primeiro de 21 filhos?

LUPICINIO RODRIGUES - Nilo, eu sou o quarto de 21 filhos. Primeiro minha mãe teve três filhas mulheres, e o meu pai havia prometido que, se o quarto nascesse mulher, ele iria enforcar. Por felicidade, nasci eu, e ele não me enforcou. Por ser o primeiro filho homem, me criei como a criança mais mimada da família.

O PASQUIM - Você é um dos maiores compositores populares brasileiros. Mas sempre viveu no Rio Grande do Sul?

LUPICINIO - Graças a meu bom Deus sempre vivi no Rio Grande do Sul. Tive a felicidade de ficar conhecido universalmente, e agradeço isso aos marinheiros que visitavam a minha terra naquela época, quando não havia transporte para lá, a não ser o marítimo. Os marinheiros chegavam em Porto Alegre, aprendiam minhas músicas e saíam a divulgar pelo Brasil.

O PASQUIM - Aqui ao lado está o melhor intérprete do Lupicínio, aquele intérprete que mais se identifica com o Lupicínio, e que trouxe para o Rio de Janeiro o samba gaúcho. O nome dele é José Bispo, o Jamelão. Quem também está aqui do nosso lado é Júlia Steinbruck, ex-deputada federal, e mulher interessada em música popular brasileira. Mas quem leva o papo agora com Lupicínio Rodrigues é o nosso amigo Jamelão.

JAMELÃO - Para eu fazer perguntas ao Lupicínio é uma questão de rotina porque eu estou sempre em contato com ele. Eu perguntaria: como vai o Batelão, Lupicínio?

LUPICINIO - O Batelão continua sendo a melhor casa de samba do Rio Grande do Sul. E com muitas saudades tua, que fizeste aquela temporada no Batelão, deixando aquela saudade; e esperando que voltes para lá pra ver se terminas, Jamelão. Desaparecestes de uma hora pra outra, não te despediste de ninguém.

O PASQUIM - Explica para o carioca o que é o Batelão. É um bar de tua propriedade há quantos anos?

LUPICINIO - O Batelão é bem um bar, é um restaurante que tem música. A turma vai lá pra jantar, e jantam cantando samba. É quase o tipo do Teatro Opinião; só que como restaurante, a luz tem que ser mais clara e o samba começa às oito horas da noite e vai até as seis horas da manhã. O Jamelão nos deu a honra de sua presença nesta temporada que esteve em Porto Alegre com o Sargentelli.

O PASQUIM - Você talvez seja um compositor conhecido no Brasil inteiro, que conseguiu fazer sucesso com a idade mínima. Aos 12 anos já fazia composição para os blocos carnavalescos de sua cidade. Como é que foi essa iniciação musical no Rio Grande do Sul? Você nasceu em 16 de setembro de 1914.

LUPICINIO - O que acontece é que na época em que eu comecei a fazer música no Rio Grande do Sul, começava a rádio no Brasil. Eu nunca fíz música com a finalidade de ganhar dinheiro. Eu nunca pensei que eu pudesse gravar uma música.

O PASQUIM - Mas aos 12 anos?

LUPICINIO - Eu fazia de brinquedo, como faço até hoje. Não faço música pra ganhar dinheiro nem música para gravar.

O PASQUIM - Você vive de música ou tem outra atividade da qual você vive?

LUPICINIO - Eu sou o procurador do Serviço de Defesa do Direito Autoral. Sou representante da SBACEM, sou funcionário público. Tem uma porção de outras coisas.

O PASQUIM - E cozinheiro também.

LUPICINIO - Sou cozinheiro. Tenho um restaurante, e tem o bar. Eu faço música pra divertir, não faço profissão da música. 

O PASQUIM - Qual é a sua especialidade em matéria de culinária? Qual é a sua grande atração, o carro-chefe?

LUPICINIO - Comida popular. Essa comida de todo dia. Porque eu não sou cozinheiro de dizer que eu faço comidas difíceis, grandes pratos. Mas essa comida popular, essa comida de todo dia, eu acho que faço bem. Eu acho que cozinho melhor do que componho, do que canto.

O PASQUIM - Você se sente bem tendo como troféu de honra - a coisa que representa mais a sua música popular - a dor de cotovelo? Para fazer tantas músicas de dor de cotovelo, você teve quantas mulheres quis?

LUPICINIO - Meu camarada, eu realmente tive muitas namoradas na minha vida. Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal. As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as que me fizeram bem eu esqueci.

O PASQUIM - Lupicínio tem mil histórias para contar. Por exemplo "Vingança". É uma música que em 52 dominou o Brasil inteiro. Jornais publicavam e ressaltavam o que houve na época por causa daquela música. Houve tentativas de suicídios, etc. A quem dedicou "Vingança". Que mulher é essa, onde ela esteve, onde ela está?

LUPICINIO - A mulher que me inspirou "Vingança" viveu comigo seis anos. E depois terminou namorando um garoto que era meu empregado.

O PASQUIM - Que idade ele tinha?

LUPICINIO - 16, 17 anos.

O PASQUIM - Foi passado pra trás por um garoto de 17 anos.

LUPICINIO - Não foi bem assim. É que eu tinha viajado, ela mandou chamar o garoto. Disse que queria falar com ele. Ela mandou um bilhete. O garoto com medo de mim, quando eu cheguei, me entregou o bilhete. Disse: "Olha a Dona Carioca me mandou esse bilhete. Eu não sabia o que ela queria comigo. Não fui." (Risos) Entregou a mulher. Aí eu não disse nada. Fiquei quietinho, inventei outra viagem, peguei minha mala, e fui embora.

O PASQUIM - Endoidou.

LUPICINIO - Era época do carnaval, ela endoidou. Botou um “Dominó". "Dominó” é aquela fantasia preta, que cobre tudo. No carnaval, feito louca foi me procurar. Uma certa madrugada, ela, num fogo danado - parece que deu fome - entrou num bar onde a gente costumava comer. Foi obrigada a tirar o "Dominó” pra comer, e o pessoal a reconheceu. Perguntaram - "Ué, Carioca, que você está fazendo aqui a essa hora? Cadê o Lupi?" Ela sozinha.

O PASQUIM - Carioca por que? Ela é carioca?

LUPICINIO - É sim. Ela é viva, mora aqui. Ai ela começou a chorar. Eu estava num restaurante do outro lado. Uns amigos chegaram e me disseram: encontramos a Carioca vestida de "Dominó”, num fogo tremendo. Começou a chorar e perguntar por ti. O que que houve, vocês estão brigados?" Aí foi que eu fiz o "Vingança". Na mesma hora comecei, saiu (canta) "Gostei tanto, tanto, quando me contaram ... "

O PASQUIM - Foi uma ruptura pra valer.

LUPICINIO - Eu sou muito amigo dos pais de santo, os batuqueiros lá de Porto Alegre. Em cada lugar que chegava ela botava fotografia minha, cabritas, aquele negócio todo pra fazer as pazes. Aí eu fiz (canta): "Nunca, nem que o mundo caia sobre mim/Nem se Deus mandar ...”

O PASQUIM - O que essa mulher contribuiu para a música popular brasileira não foi normal.

O PASQUIM - Tem bom samba lá no Rio Grande do Sul, tirando Lupicínio Rodrigues? O pessoal lá é bom de samba? Tem bons batuqueiros e escola de samba?

LUPICINIO - Lá tem bom sambista.

O PASQUIM - E tem escola de samba lá?

LUPICINIO - Tem boas escolas de samba.

O PASQUIM - Tem gente fazendo cara de quem está duvidando.

LUPICINIO - O Benedito Lacerda foi ao Rio Grande do Sul e voltou de lá admirado. Como o Rio Grande do Sul, sendo tão longe do Rio de Janeiro...

O PASQUIM - E tão perto da Argentina, do Uruguai...

LUPICINIO - ...os nossos ritmistas, os nosso violonistas tocavam tão bem o samba como no Rio de Janeiro. Naquele tempo nós chamávamos os paulistas de quadrados. O samba de São Paulo é de há muito pouco tempo.

O PASQUIM - Você não é um fenômeno isolado, embora tenha se destacado.

LUPICINIO - Os melhores ritmistas que teve aqui no Rio de Janeiro, anos atrás, eram gaúchos. Por exemplo, o violinista que ensinou os cariocas a fazer esse samba que hoje dizem que é bossa-nova, era gaúcho. Chamava-se Neorestes. O pandeirista que ensinou os cariocas a bater pandeiro era gaúcho.

O PASQUIM - É? Quem era?

LUPICINIO - Darci do Pandeiro. Outro violonista: Gorgulho, que também era gaúcho.

O PASQUIM - Lupicínio --, na música popular brasileira, qual a diferença que você vê entre as suas músicas e as músicas de Teixeirinha, sendo vocês dois da mesma região do Brasil?

LUPISINIO - A diferença que existe é que eu faço música popular, o Teixeirinha faz música regional. O Teixeirinha não é folclorista, não é o folclore gaúcho. O Teixeirinha é o regionalista, como o de qualquer estado do Brasil. A música do Teixeirinha é tão regionalista quanto a música mineira, a música nortista. Não é o nosso cancioneiro gaúcho. E adoro a guariânia, adoro tango e adoro bolero. Eu acho qualquer dessas músicas maravilhosas. Como adoro qualquer música popular bem feita.

O PASQUIM - Como é que você consegue isolar essa influencia do seu trabalho?

LUPICINIO - Eu acho o ritmo brasileiro o melhor ritmo do mundo, no meu gênero.

O PASQUIM - Quando você começou a se formar como compositor, quais eram os compositores brasileiros, ou a escola brasileira, que você mais gostava?

LUPICINIO - Eu não comecei fazendo música, eu comecei a cantar. Quando comecei, foi como cantor. O cantor que eu imitava era Mário Reis.

O PASQUIM - Isso em que ano?

LUPICINIO - Em 1930. 

O PASQUIM - Mas você tinha 16 anos. Você não ouvia Mário Reis com 16 anos.

LUPICINIO - Claro. Era a dupla mais famosa do Brasil: Francisco Alves e Mário Reis.

O PASQUIM - Qual o cantor que melhor interpreta o que você deseja dizer nas suas músicas? Aquele que quando você ouve fica emocionando.

LUPICINIO - O cantor que eu admiro, que eu gosto que intérprete as minhas músicas, é o Jamelão. Porque ele tem uma preocupação de cantar as músicas como eu faço. Não é por ele estar presente. A gente faz uma música e o cantor vai cantar. Ele acha que tem que fazer uma coisa diferente, mudar a melodia, ele acha que a letra tem que ser como ele quer. O Jamelão é autêntico. Ele procura aprender a música como a gente ensina pra ele a cantar a música como a gente faz.

O PASQUIM - Jamelão, como você conheceu Lupicínio Rodrigues?

JAMELÃO - Eu conheci Lupicínio Rodrigues através de minha vida de crooner. Eu cantava em dancing e sempre gostei do repertório do Lupiscíno. Nas minhas andanças para lá e para cá, fui conhecê-lo em Porto Alegre.

O PASQUIM - Mais ou menos que ano Jamelão?

JAMELÃO - Cinqüenta e pouco. Foi com a orquestra do Severino Araújo. A primeira vez que eu fui ao Sul com orquestra foi com Severino Araújo. Nós tínhamos vindo de uma excursão à Europa, e então eu o conheci. E através disso tive oportunidade de gravar "Ela disse-me assim".

O PASQUIM - Você tem ideia do ano?

JAMELÃO - "Ela disse-me assim" foi gravada mais ou menos em 55.

O PASQUIM - Lupicínio, você não teria outra história tão peculiar ligada a uma música que tenha composto? Uma música que também parecesse uma experiência tua. mas que fosse uma história engraçada, interessante, de alguma mulher. Eu nunca vi um homem com tanta mulher. É incrível! E a Iná?

LUPICINIO - A Iná foi a primeira mulher que eu tive. E a primeira desilusão.

O PASQUIM - Quantos anos você tinha?

LUPICÍNIO - 17 anos.

O PASQUIM - Terá sido ela a inspiradora de "Nervos de Aço"?

LUPICINIO - Foi a Iná.

O PASQUIM - Você fez "Nervos de Aço" com quantos anos de idade?

LUPICINIO - "Nervos de Aço" eu fiz com 22 anos.

O PASQUIM - Lupi, aqui no Rio você freqüenta muito um lugar. Até hoje a gente não sabe porque. Um bar na Barata Ribeiro chamado "Grego". E sempre que a gente se vê, você está acompanhado de mulata. Você tem algum preconceito de cor, ou realmente é do nosso time e gosta de mulata?

LUPICINIO - Pelo contrário, dificilmente estou acompanhado de mulata. Não sei porque, eu não dou sorte com mulata. A única mulata que eu tive na minha vida foi justamente a Iná. A Iná de muitas músicas.

O PASQUIM - Diz umas aí.

LUPICINIO - "Zé Ponte", "Xote da Felicidade". E tantas outras músicas. Mas depois de Iná, eu só tive problemas com louras.

O PASQUIM - É interessante que se situe a sua primeira vinda ao Rio de Janeiro. Porque foi muito engraçado. O Lupicínio foi parar na Lapa, onde foi fazer amizade com uma barra pesadíssíma. Conheceu Kid Pepe, conheceu Germano Augusto, conheceu muitas figuras, e foi um grande jogador na Lapa. Não conheceu madame Satã. Como é que você chegou e entrosou?

LUPICINIO - Eu sou aposentado por amor.

O PASQUIM - Explica isso, rapaz.

LUPICINIO - Eu ganhava naquela época, na Faculdade de Direito, duzentos cruzeiros por mês. Eu era bedel na Faculdade de Direito.

O PASQUIM - Era inspetor. Inspetor de alunos.

LUPICINIO - Ganhava 200 cruzeiros por mes. Eu vi que, ou eu ia pedir pra fazer as pazes com a Iná, ou eu ia morrer.

O PASQUIM - Em que ano isso?

LUPICINIO - 1939. Eu era muito amigo do Tatuzinho, que foi esposo legítimo da Elizete Cardoso, pai do Paulinho.

O PASQUIM - Paulinho Valdez.

LUPICINIO - Então o Tatuzinho diz assim: "Vão s'imbora pro Rio".

O PASQUIM - A primeira vez?

LUPICINIO - Da primeira vez, 1939, na época da guerra. Comprei uma passagem. Custou 170 mil réis e sobrou 30 mil réis pra viajar. Terceira classe de navio. Aí embarquei, na terceira classe. No caminho, o Tatuzinho tocando violão e eu cantando, já me deram logo um camarote. Vim cantando no navio. 

O PASQUIM - Você chegou como? Você ficou onde? Num hotel, numa pensão?

LUPICINIO - Pensão ali por perto, na Lapa. De uma baiana.

O PASQUIM - Você chegou com conhecidos ou foi se tornando...

LUPICINIO - Aí aconteceu uma das coisas mais importantes. Esse meu amigo era gaúcho, o Bom Mulato -- vocês devem conhecer, porque esse camarada é do Jockey. Ele entrou no Café Nice e me meteu na pior. Tava sentado ali Ari Barroso, Haroldo Lobo, Nássara, e tudo quanto era grande compositor. Francisco Alves, toda a máfia sentada no Café Nice, às seis horas da tarde. Ele chegou comigo pela mão e gritou dentro do Café Nice: "Chegou o meu cavalo aqui". Os caras ficaram tudo me olhando, né, que negrinho pequenininho, tudo me olhando assim. Eu cheguei e disse: "Olha, esse cara tá brincando". o Haroldo Lobo me olhando, o Nássara me olhando, o Chico me olhando.

O PASQUIM - Que ano é isso?

LUPICINIO - 1939. Aí foi que eu conheci o Chico. Eu já tinha uma porção de músicas gravadas, mas ninguém me conhecia.

O PASQUIM - Quem é que tinha gravado as suas músicas dessa época?

LUPICINIO - O Ciro Monteiro, uma porção de gente tinha gravado.

O PASQUIM - Seu grande sucesso gravado foi em 37, com Ciro Monteiro.

LUPICINIO - Eu sentei na mesa, pedi um cafezinho. Todo mundo cantando, era mais ou menos época do carnaval. Naquele tempo os caras botavam um níquel no bolso pra bater, outros batiam na caixa de fósforo, outros na parede, e eu tô escutando. Diz um pra mim: "Ô gaúcho, canta um negócio teu aí". Eu digo: "Eu não sei cantar essas músicas que vocês estão [ cantando." E ele: "Não, canta qualquer coisa aí". Aí eu (canta): "Você sabe o que é ter um amor, meu senhor Ter loucura por uma mulher..."

O PASQUIM - Ô rapaz!

LUPICINIO - Aí o Chico começou, psft, psft, assim cuspindo: "Canta outra aí". E eu mandei: "Quem há de dizer / que quem vocês estão vendo / naquela mesa a beber". Aí o Chico, psft, psft: "Isso é teu moleque? Isso é teu?" (risos). Eu sei que quando eu cantei a quarta música, o Chico me chamou lá pro canto, psft: "isso tudo... não dá para... Isso é teu?" "Aí ele me botou num Buick vermelho que tinha e me levou pro Turf, um clube de...

O PASQUIM - ...corrida de cavalo.

LUPICINIO - Não, o Turf era um clube de pif que tinha aqui no Flamengo. "Pft, cê não dá isso pra ninguém. Não dá isso pra ninguém. Vou gravar tudo". Aí eu fiz amizade com o Chico.

O PASQUIM - Você acha o Chico um bom intérprete seu?

LUPICINIO - Ah, o Chico foi um bom intérprete. Foi sim.

O PASQUIM - Ele não dá uma interpretação a você que não é exatamente a interpretação dele é um pouco "grandiloqüente" para a tua música. Não é não?

LUPICINIO - A voz do Chico era aquela. A voz do Chico era empostada. Ele não podia diminuir o tom.

O PASQUIM - Lupicínio, em 52, tinha uma dificuldade de comunicação muito grande. Temos a impressão que a grande dimensão nacional de tua música foi Linda Batista gravando "Vingança". Você acha que "Vingança. Você acha que “Vingança” foi a música que te projetou nacionalmente de forma definitiva?

LUPICINIO - Uma das coisas interessantes: a Linda não aprendeu "Vingança" comigo.

O PASQUIM - Não foi não?

LUPICINIO - Eu ensinei a "Vingança" para o Herivelto Martins. A primeira gravacão de “Vingança” foi feita pelo Trio de Ouro. Mas quem ia gravar mesmo -- e a Linda aprendeu com ele -- foi o Jorge Goulart. Ele cantava no Vogue, junto com Linda, Jorge Goulart, Linda e Nora Ney. Jorge Goulart aprendeu a música comigo no Rio Grande do Sul, chegou no Vogue e começou a cantar. A Linda aprendeu e quando o Jorge Goulart se descuidou, ela chegou e gravou. Quando o Jorge Goulart viu, a música já estava gravada. 
O Pasquim - Pelo que está dizendo, você nunca fez caitituagem em sua vida?

LUPICINIO – Nunca, nunca, nunca. A minha primeira música foi gravada sem eu saber. Me procuravam pra dizer que a minha música havia sido gravada. Nunca tive a mínima entenção de ser artista, compositor, nunca.

O PASQUIM – Você é uma prova de que uma pessoa isolada feito você, que não estava no local adequado para fazer música popular no estilo que você faz, pode aparecer, como você, afinal de contas, apareceu no Brasil inteiro. Você acha que o que eles chamam a "máquina" não é tão esmagadora quanto dizem?

LUPICINIO - A "máquina”é esmagadora. Pelo seguinte: ela evita, proíbe que apareçam os valores.

O PASQUIM - Mas você apareceu, de qualquer maneira.

LUPICINIO - Mas quando eu apareci não existia a "máquina".

O PASQUIM - O que você ensinou de mais importante, o que você transmitiu de mais importante?

LUPICINIO - Olha, eu vou dizer uma porção de frases e coisas que eu fiz. Por exemplo: "É melhor brigar junto do que chorar separado". Tem outra que diz assim: "Ela nasceu com o destino da lua / pra todos que andam na rua / não vai viver só pra mim".

O PASQUIM - É lindo. É uma grande frase.

LUPICINIO - Tem uma outra que diz assim: 
que efiz ~: "Vocês Maria de agora/ amem somente uma vez/ para que mais tarde esta capa/ não sirva em vocês”.

O PASQUIM - Ele está dizendo os versos importantes da vida dele.

LUPICINIO - Tem outro que diz assim, desses pobres moços: "Se eles julgam que o futuro / só ao amor dessa vida conduz / saibam que deixam o céu por ser escuro / e vão ao inferno à procura da luz". E assim tem uma porção de coisas.

O PASQUIM - Aquela que fala da Dona Tristeza e da Dona Alegria?

LUPICINIO - Eu gravei, mas o Jamelão não gravou.

O PASQUIM - Como é o nome dessa música?

LUPICINIO - "Rosário de Esperança". Eu vou só dizer os versos, cantar não dá.

O PASQUIM - Pode ser cantado. Depois nós escrevemos os versos, cantar não dá.

LUPICINIO - (canta) "Eu fui convidado por alguns amigos / pra ir a uma festa / beber e cantar / Peguei a viola afinei a garganta / e até pus a manta / pra me agasalhar / E fiz um convite pra Dona Alegria / melhor companhia / pra festa não há / Mas eu não sabia / digo com franqueza / que a Dona Tristeza / morava por lá. Cheguei satisfeito / alegria no peito / sorriso na boca/ viola no lado / Mas vi com surpresa / na primeira mesa / sentada com outro / a mulher que eu amei / Voltei desolado tristonho, magoado / viola do lado não bebi nem cantei".

O PASQUIM - Você tem alguma música que o tema não seja mulher?

LUPICINIO - Se tenho não me lembro no momento.

O PASQUIM - E o seu processo de criação para a música. Você medita sobre o tema, ou o negócio vai fluindo?

LUPICINIO - Medito sempre sobre o tema.

O PASQUIM - Mas de estalo, de vez em quando, sai um. Como aquela da vingança.

LUPICINIO - Todos são um tema real, coisas que acontecem na hora.

JAMELÃO – Ô Lupi, ultimamente, aqui no Rio, surgiu uma certa controvérsia a respeito de uma música da sua autoria. Essa música, inclusive no programa do Flávio Cavalcanti, foi mostrada como sempre deturpando um pouco a melodia. Mas, de qualquer forma, é uma promoção. E essa música passou a ser comentada por aqui com o nome de "Bicho do Pé". O título dessa música não é "Bicho de Pé", é "Sozinha". Eu gravei essa música, é uma das músicas mais solicitadas nos "shows" em que eu me apresento. Como foi que você teve a inspiração para fazer essa música? Qual foi o motivo, a coisa que gerou?

LUPICINIO - Jamelão, você sabe que eu servi em Santa Maria, né? E o princípio de minha vida artística foi lá em Santa Maria. E lá eu conheci essas histórias. Lá eu fiz "Zé Ponte", fiz aquela (canta): "Felicidade foi-se embora / e a saudade no meu peito..."

O PASQUIM - Essa música é sua?Não é folclore?

LUPICINIO - "Felicidade" é. (Canta): "A minha casa fíca lá detrás do mundo / mas eu vou em um segundo / quando começo a cantar". "O pensamento parece uma coisa à-toa / como é que a gente voa / quando começa a cantar".

O PASQUIM - Que maravilha.

LUPICINIO - Aquela outra: "No meu casebre tem um pé mamoeiro / onde eu passo o dia inteiro / campeando a minha mágoa".

O PASQUIM - Nesse tempo todo de sucesso aqui no Rio, você nunca foi tentado a se estabelecer aqui? 

LUPICINIO - Eu gosto muito do Rio Grande do Sul.

O PASQUIM - As tuas raizes estão lá, e tal.

O PASQUIM - Lupi, e os convites que você teve para ficar em São Paulo?

LUPICINIO - Eu tive diversos convites. Até me deram um bar uma vez. Uma moça lá que eu namorei, até um bar me deu de presente. "Fica aqui que eu te dou o bar".

O PASQUIM - O homem é bom de bico. Até ganha bar. Quando foi isso?

LUPICINIO - 1968, mais ou menos.

O PASQUIM - E você não quis o bar?

LUPICINIO - Eu fazia um show no "Chicote" e tinha a moça do bar que ia me buscar todo o dia. "Se tu quiser ficar aqui e morar em São Paulo tu fica com o bar pra ti". Mas nem ganhando um bar de presente eu não quis ficar.

O PASQUIM - É verdade que você fez o hino do Internacional?

LUPICINIO - Não! Eu fiz o hino do Grêmio.. Sou do contra (canta): "Até a pé nos iremos / para o que der e vier Mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver".

O PASQUIM - Você sendo de tradição tão popular de comportamento, o Internacional é um clube muito mais ligado a sua família. Dos 21 irmãos, quantos eram Grêmio?

LUPICINIO - Lá é a metade por metade. Metade é gremista, metade é colorado. (Todos riem)

O PASQUIM - Vinte e um não dá metade. 

LUPICINIO - Tem um voto de Minerva. São 4 e 15. São quatro horas da madrugada e nós estamos aqui numa roda maravilhosa tocando músicas, e não pensamos parar ainda. Nós vamos continuar lá no "Grego", porque tem uma porção de amigos nos esperando lá para festejar um aniversário que começou ontem. Aniversário do meu amigo Albino Pinheiro.

(Corte. O local agora é o Restaurante El Grego. Muita movimentação e vozes falando ao mesmo tempo. Ritmo da entrevista: devagar, ou seja, ritmo de porre e madrugada. Fundo musical: Roberto Carlos.)

O PASQUIM - Nós saímos da casa da Júlia e chegamos no "Grego". É um lugar do Rio de Janeiro que não e muito conhecido da boemia. Eu queria, Lupicínio, que você falasse da relação entre o "Grego" e a sua boemia, pra você gostar tanto desse lugar.

LUPICINIO - O lugar onde sempre encontro tranqUilidade é o "Grego". É o centro dos gaúchos. Aqui se reúnem, pelo menos se reunia antigamente, todo o mundo, toda a gauchada. Quando eu quero encontrar os meus patrícios eu venho aqui no "Grego”.

(Jamelão, nesse momento, tenta se despedir, porque diz que tem que acordar cedo. Lupicínio tenta prendê-lo à mesa. Não se sabe o que vai acontecer. São exatamente cinco e meia da manhã.)

O PASQUIM - Qual a mulher que no Rio de Janeiro te impressiona, e você gostaria de conhecer melhor?

LUPICINIO - Olha aqui, se eu pudesse, queria conhecer todas as mulheres do Rio de Janeiro.

O PASQUIM - Lupicínio, com 50 e poucos anos, você é o padrão do boêmio brasileiro. Um camarada que, com seu comportamento e atitude, reflete isso para toda uma nação. Né, pô?

LUPICINIO - Eu acho que cada pessoa deve viver como se sente bem. Eu hoje estive falando com um dos meus professores, Joubert de Carvalho. Foi quem me ensinou a fazer versos. (canta): "Maringá, Maringá / depois que tu partisses / tudo aqui ficou tão triste / que eu passei a imaginá". Eu nasci na época de "Maringá”, do (canta): "Adeus Guacira, meu pedacinho de serra". Nasci na época do, como é? "... pescando no rio de gereré". Como é? Eu canto todas essas canções. Eu tô meio embira, e não posso lembrar agora. E preciso que se saiba que já são seis horas da manhã e nós estamos no Grego. (Pensa um pouco, depois canta): "Não quero outra outra vida pescando no rio gereré / tenho peixe bom, tem siri patola de dá com pé / Quando no terreiro / faz noite de luar..." Isso é de Joubert de Carvalho. Essa gente que me ensinou a fazer versos.

(Enquanto todos prestam atenção em Lupicínio, Jamelão sai à francesa.)

O PASQUIM - Como é que você se coloca diante do atual panorama da música brasileira? Você está entrosado ou você está em cheque com as novas tendências? Você acha que está legal, ou você se sente uma figura meio deslocada?

LUPICINIO - Eu não tenho nada com o ambiente artístico brasileiro. Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou boênio.

O PASQUIM - Mas você é um artista brasileiro. E você tem que se colocar nessa posição.

LUPICINIO - Eu sou boêmio. O meu negócio é estar assim como estou agora com o violão do lado, dentro de um bar, com vocês, e tomando as minhas biritas e cantando. Não faço comércio.

O PASQUIM - O que você acha de, digamos, Caetano Veloso?

LUPICINIO - Caetano Veloso? Ah, é ótimo compositor. Muito bom mesmo.

O PASQUIM - Você não se sente em choque com o que está se fazendo, porque tudo é música brasileira, né? 

LUPICINIO - Olha, todo camarada que produz no Brasil, seja ele de que forma for, Caetano Veloso, Gil, Chico Buarque... Apesar de que Chico Buarque ainda é naquele estilo antigo, que eles chamam, como é?, os "quadrados”. Mas acho o Chico um poeta maravilhoso, conservador daquele ambiente. Mas todos os que produzem, os que cooperam na arte brasileira, todos são bons.

O PASQUIM - As vezes, um compositor novo fala assim: "Ah, você não conhece o Lupicínio direito. Ele faz lparte do SDDA". Você acredita que o direito autoral no Brasil, em relação ao compositor, é o que ele merece, ou não? Você homem ligado, quando um compositor novo ou velho reclama, qual é a tua posição?

LUPICINIO - Eu faço parte das duas classes. O que está acontecendo não é que as sociedades não paguem os compositores, não queiram pagar. O que acontece é que a influência da música estrangeira no Brasil é o maior... como se diz?... é o maior...

O PASQUIM - Câncer, hem? Câncer?

LUPICINIO É o câncer que prejudica o compositor brasileiro. Eu vou explicar as razões.

O PASQUIM - E a mecânica da coisa, Lupicínio?

LUPICINIO - Se as sociedades brasileiras de compositores tiverem que pagar o direito autoral certo, certo como é, o compositor brasileiro não recebe nada.

O PASQUIM - Explica pra nós.

LUPICINIO - É o seguinte. No Brasil toca 90% de música estrangeira. Se nós cobramos 90% de música estrangeigeira em cruzeiros, e pagamos pros estrangeiros em dólar, as sociedades de autores brasileiros têm que pagar aos estrangeiros mais do que eles cobram. O dólar custa seis cruzeiros: (N.R.: nos bons tempos!) o cruzeiro custa um. O dia em que as nossas autoridades fizerem tocar no Brasil 90% de música brasileira... porque ninguém teve o peito ainda de mandar tocar 90% de música brasileira.

O PASQUIM - Lupicínio, você é uma figura legendária aqui no Rio de Janeiro, uma figura quase mitológica. Você tem consciência disso?

LUPICINIO - (continuando, sem tomar conhecimento) -- Vocês que tem a imprensa na mão devem saber que podem ajudar. Não só os composítores, porque não é só os compositores que estão sofrendo. São os artistas em geral que estão sofrendo essa coisa. Você sabe que o Brasil deve ter uma média agora, de... vamos fazer uma base mínima ... tem dez milhões de artistas.

O PASQUIM - Quê que é isso, rapaz?

LUPICINIO - Fazendo uma base mínima de dez milhões de artistas, entre amadores e profissionais. A TV Globo e a TV Tupi, no Rio de Janeiro e São Paulo, não tem lugar para dois mil trabalharem. Tem?

O PASQUIM - É claro que não.

LUPICINIO - Não tem. E no entanto só existem três canais pra poder trabalhar. Quem não vem ao Rio e São Paulo não tem onde trabalhar.

O PASQUIM - Tá certo Lupi. O Lupi, voltando a esse papo de boemia: Em Porto Alegre, se você está sentado mima mesa, qualquer gaúcho pode sentar? E o cara quando senta, pode chegar assim "Ô Lupicínio", e vai lá e te abraça, e te pega com intimidade? E no Rio de Janeiro, quando está aqui no "Grego", onde nós estamos às seis e meia da manhã, e o cara chega e te reconhece? Como é que você recebe?

LUPICINIO - Em todo lugar que eu chego eu sou o mesmo Lupicínio. Todo mundo fala comigo, todo mundo bebe comigo, todo mundo convive comigo. Gente de toda a classe, de todas as categorias. Pra mim o mundo tem o mesmo tamanho e todos os homens [74][75] têm o mesmo valor. Só tem uma coisa que eu escolho: os meus amigos pra sair comigo. Na hora de sair, ou pra frequentar a minha casa, é outro negócio.

O PASQUIM - Mas o pessoal que chega na mesa?

LUPICINIO - Ah, bebe todo mundo comigo.

O PASQUIM - Essa pergunta é uma questão de tradição nossa. Qual é o teu nível de instrução? E até que nível você resolveu estudar com a vida que levava?

LUPICINIO - Como curso oficial eu cheguei até o ginásio. Estudei a vida em cursos particulares e gosto muito de ler.

O PASQUIM - O que você lê?

LUPICINIO - Eu não leio literatura clássica. Eu só leio livros populares.

O PASQUIM - Por exemplo?

LUPICINIO - Eu gosto de ler livros de contos, livros policiais...

O PASQUIM - Érico Veríssimo?

LUPICINIO - Você sabe que eu leio. Jorge Amado, cê sabe que eu leio.

O PASQUIM - Que horas você vai dormir, que horas você acorda?

LUPICINIO - Eu acordo mais ou menos às 10 horas da manhã, dou comida pras minhas galinhas, pros meus passarinhos.

O PASQUIM - Ah, você cria? Você mora em casa grande, com quintal?

LUPICINIO - Minha casa tem uns 20 metros de largura, mas tem quase 200 metros de fundura.

O PASQUIM - Vai contando, vai contando. Vai em frente.

LUPICINIO - Aí a mulher vai me procurar no fundo do quintal, me achar pra me dar café. Aí, depois, me chama pra fazer comida.

O PASQUIM - Você faz a comida?

LUPICINIO - Eu faço a comida. Aí, então, eu durmo. Até as três, quatro horas da, tarde. Três horas eu levanto, tomo meu banho, me arrumo, e vou a SBACEM. Aí saio do escritório às sete horas e continuo a noite até as quatro da manhã. Às quatro eu vou pra casa.

O PASQUIM - Especifica.

LUPICINIO - Aí tem que passar de buteco em buteco, aqueles igrejinhas todas. Vou lá pro meu bar, que é o mais movimentado da cidade, o "Batelão". 

O PASQUIM - Você tem que ganhar uma mulher toda a noite, pó. Como é que você aguenta tanta mulher em cima de você?

LUPICINIO - Não, eu sou um rapaz direito. Nesse negócio de mulher eu sou um rapaz direito.

O PASQUIM - Só tem aquela tua?

LUPICINIO - Só da patroa. Sou só da patroa.

O PASQUIM - Apesar de fazer essas músicas todas maravilhosas que o Brasil inteiro sabe, você, a partir da tua ligação com a tua patroa...

LUPICINIO - A partir das quatro horas da manhã sou só da patroa.

O PASQUIM - Ah, aí você é só da patroa. Gessé, grande companheiro de Lupicínio, professor de violão, maravilhoso acompanhante de Lupicínio, grande boêmio. Gessé, fala alguma coisa de Lupicínio para O PASQUIM.

GESSE - Eu digo duas palavras só. Lupicínio é autenticidade e acabou-se.

O PASQUIM - Autenticidade? O pessoal quer saber de você que autenticidade é essa.

GESSÉ - Eu ouvi vocês perguntando pro Lupi, por que que ele, lá no Rio Grande do Sul, fazia samba. O samba é mais velho, o samba vem do choro. O Lupi ouvia o pai dele fazer choro. O choro veio do lundu, do maxixe. Não precisa vir ao Rio de Janeiro pra fazer samba. Os estilos saem diferentes. O estilo do samba do Rio Grande do Sul, o estilo aqui, o estilo do samba do Recife. Mas origens são sempre as mesmas. As origens são aquelas que vieram lá de trás, onde nota o coco, o maracatu - que outro estilo de samba -, o xaxado. Isso tudo é samba. E isso, meu filho, está principalmente na cor, na raça. Você não precisa aprender. Isso nasce sozinho. O ruim é louro fazer isso. Este precisa vir aqui aprender, sentar no banco da escola. Mas quem já tem na cor não precisa vir aprender. Já nasce, tá no berço. 

O PASQUIM - E você, onde é que aprendeu esse balanço todo?

GESSÉ - Ah, eu vim beber água na fonte. Bebi água na fonte, sim.

O PASQUIM - Você participou do movimento musical aqui no Rio de Janeiro?

GESSÉ - Minha formação musical foi aqui no Rio de Janeiro.

O PASQUIM - Você é gaúcho?

GESSÉ - Eu sou gaúcho. Mas vim beber água e aprender violão aqui, na fonte.

O PASQUIM - E como foi o contato com o Lupicínio?

GESSÉ - Veio ao natural. Eu, chegando no Rio Grande do Sul, tinha que procurar o Lupicínio. O problema foi meu: procurar e encontrar o Lupicínio.

O PASQUIM - Há quanto tempo vocês transam juntos?

GESSÉ - Dez anos. Mas já com uma certa afinidade, tocando muitas vezes juntos.

O PASQUIM - Vocês já tem estabilidade?

GESSÉ - Algumas poeiras de muitas estradas nas sandálias da gente.

O PASQUIM - Lupi, talvez tenha alguma coisa que você queira dizer e que nunca ninguém perguntou numa entrevista. Isso é importante, porque às vezes a pessoa tem alguma coisa que dizer, e nunca ninguém pergunta. Que que você quer dizer, quer transmitir ou protestar? Alguma coisa que você sentiu, e nunca foi perguntado?

LUPICINIO - Olha, eu não sou de reclamar. A única coisa que eu estou reclamando, não é por mim, é um pedido que eu estou fazendo: que ajudem os nossos artistas. Pedindo ao governo que obrigue as estações de rádio, os barés, a por programação ao vivo, pra dar serviços a esses milhares de artistas brasileiros que andam por si, e não tem onde trabalhar. Os únicos estados que tem -- ainda -- lugar para artista trabalhar é Rio e São Paulo, que não podem acomodar esses artistas todos do Brasil. 



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Fonte: O Som do Pasquim: Grandes entrevistas com os Astros da Música popular Brasileira. 2ª ed., Rio de Janeiro: CODECRI, 1976, pp. 65-76

sábado, 30 de agosto de 2014

BATATINHA, O DIPLOMATA DO SAMBA BAIANO

Se vivo estivesse, Batanhiaa, que é considerado por muitos o maior nome do samba baiano, estaria completando 90 anos

Por Lourival Augusto



O jovem Oscar da Penha

Batatinha, ou melhor, Oscar da Penha, nasceu em Salvador, na Maternidade Climério de Oliveira, em 5 de Agosto de 1924. Filho de família pobre, e numerosa (9 irmãos), morava na antiga rua dos Campelas, hoje 3 de Maio, no Pelourinho, bairro de onde nunca sairia em toda a sua vida. Logo cedo o menino Oscar e seus irmãos ficaram órfãos por parte de pai. Aos dez anos foi trabalhar numa marcenaria para ajudar a família. Ali ficou até os 14 anos quando ingressou como office-boy no "Diário de Notícias", jornal do grupo dos "Diários Associados", de Assis Chateaubriand. Após atingir a maioridade, foi promovido a auxiliar tipográfico. Trabalhou também no periódico “Estado da Bahia”, sendo depois, como profissional de gráfica (prelista emendador), admitido como funcionário público da Imprensa Oficial (hoje Empresa Gráfica da Bahia), função que manteve até a sua aposentadoria. Era casado com Marta dos Santos Penha e juntos tiveram nove filhos.

Desde os 15 anos já compunha suas músicas, mas começou na carreira artística no rádio, inicialmente como cantor em 1944, levado pelas mãos do pernambucano Antonio Maria, que estava chegando a Salvador para dirigir a Rádio Sociedade da Bahia, emissora do grupo dos "Diários Associados" do famoso jornalista Assis Chateaubriand. O programa era intitulado "Campeonato do Samba". Observando o jovem Oscar cantarolando coisas inéditas suas, e de artistas da época, especialmente do cantor paulista Vassourinha, o futuro autor de "Ninguém me ama/ninguém me quer.." é o primeiro a lhe incentivar a mostrar suas composições. A partir de então, Oscar da Penha tornava-se um participante ativo desse mundo do rádio, concorrendo como calouro e como compositor. Foi assim que tirou um segundo lugar cantando 212, um samba de Roberto Martins e Mário Rossi.

Àquela época o rádio era o ponto central das atenções das pessoas, sendo a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, um modelo de inspiração para todo o país. Por sua vez, a Rádio Sociedade da Bahia era uma das mais importantes do Norte/Nordeste, possuindo um cast de locutores, operadores, atores, cantores e até uma orquestra sinfônica. Os sambas de Oscar da Penha passaram então a fazer parte do repertório dos programas da emissora.




Surge o Batatinha

Mas, de onde vem o nome artístico, Batatinha? Esse episódio tem uma história curiosa e que demonstra a grandeza do Sr Oscar da Penha. Por causa das suas vitórias nesses concursos de sambas, os seus admiradores passaram a lhe elogiar, dizendo: "Oscar da Penha, você é batata!" (expressão que seria semelhante a bamba na gíria carioca). Determinada noite, o compositor e locutor Antonio Maria, em um dos programas, anunciou: "E agora senhoras e senhores, ouvintes da Rádio Sociedade da Bahia, o compositor Oscar da Penha, o nosso Batatinha!". Outras versões dizem que o apelido dado pelo compositor de "Menino Grande" teria sido apenas "o Batata", e que o Oscar da Penha, na sua humildade, teria retrucado: "Não sei se sou batata, acho que sou apenas uma pequena batata, uma batatinha". Daí teria vingado o seu nome artístico – Batatinha - a partir de então, referência para o mundo do samba baiano. Esta última versão foi confirmada pessoalmente pelo próprio compositor, em entrevista concedida ao produtor Fernando Faro, no programa "Ensaio" TV Cultura, SP, acrescentando que o Antonio Maria, com este apelido, fazia também uma alusão ao cantor paulista Vassourinha, que era o sambista preferido do Batatinha, quando este se apresentava como calouro.

Como já foi aqui registrado, Oscar da Penha, o Batatinha, fazia suas músicas, desde a década de 1940, entretanto, a primeira gravação em disco dos seus sambas só aconteceria em 1960, através do cantor carioca Jamelão. Isto se deu pela amizade que “o eterno cantador dos sambas-enredos da Mangueira”, mantinha com os compositores baianos, desde que passara a visitar, com freqüência, a cidade de Salvador, especialmente durante os festejos de Iemanjá, no bairro de Amaralina. Ciceroneado pelo também saudoso cantor e compositor baiano, Tião Motorista, àquela época motorista de táxi, Jamelão viria a conhecer todos os sambistas de Salvador da época, e entre eles, Oscar da Penha. Dessa amizade sairia a promessa de gravar uma música do Batatinha. De volta ao Rio de Janeiro, levando na bagagem um repertório de sambas dos baianos, o intérprete favorito de Lupicínio Rorigues, entre outras composições, escolheria para gravar "Jajá da Gamboa", de Batatinha. Esta foi a chave que abriu caminho para o compositor no sul do Brasil.

Um outro momento importante para o nosso biografado, ainda no ano de 1960, deu-se com a inclusão de uma música sua, "Diplomacia", na trilha sonora do filme "Barravento”, do genial cineasta baiano, Gláuber Rocha. Neste filme essa canção é interpretada por um personagem de um pescador (Meu desespero ninguém vê / Sou diplomado em matéria de sofrer)


A importância de Maria Bethânia

Na verdade, a primeira pessoa a difundir nacionalmente o nome de Batatinha, foi Maria Bethania, que já em seu primeiro álbum, "Maria Bethania", RCA Victor, 1965, lançou, unidos numa mesma faixa, dois sambas dele: "Só Eu Sei" e "Diplomacia" (com J. Luna). Em 1971, ela o homenageia de novo, inserindo no show-disco, "Rosa dos Ventos", Phillips, um bloco todo dedicado a ele, onde explicita o seu carinho e amor pela obra do mestre. Bethania dá o seu depoimento sobre o compositor e canta "Toalha da Saudade", "Imitação" e "Hora da Razão" (a primeira e a última em parceria com J.Luna).

Em 1972, no disco "Drama", Phillips, Maria Bethania, mais uma vez, grava Batatinha. Desta feita foi a canção "O Circo", uma marcha rancho que fala da tristeza de um menino pobre que, na impossibilidade de assistir a um espetáculo de circo, se conforma em ficar do lado de fora da lona ouvindo apenas as gargalhadas do público ("todo mundo vai ao circo / menos eu, menos eu/ como pagar ingresso / se eu não tenho nada?/ fico de fora escutando a gargalhada").
Pronto! O Brasil, pouco a pouco, começa a conhecer aquele compositor de rara inspiração, ombreando no mesmo nível de criação popular, com um Cartola ou um Nelson Cavaquinho, conforme opinião do cantor e compositor Paulinho da Viola, inserida na contracapa do disco “Samba da Bahia”.

Vários fatores contribuíram para que a obra de Batatinha quase ficasse no anonimato total. Era um homem simples e que não via a música como objeto apenas de consumo. Por isso nunca se preocupou em “catituar” espaço para as suas composições. Enquanto muitos artistas baianos, em busca do sucesso, migravam para o Sul do país, ele permaneceria em sua Salvador, no seu Pelourinho, freqüentando tranqüilamente as suas rodas de sambas e boêmias com os amigos. Era uma pessoa desprovida de ambições na vida, nasceu pobre e morreu pobre. Formava com o alegre Riachão, sua antítese no comportamento musical, com Panela (também falecido no anonimato), e mais tarde com os mais jovens companheiros, como Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Tião Motorista e Walmir Lima, o QG de resistência do samba na Bahia.


Enfim, as primeiras gravações com a sua voz

A sua estréia em disco deu-se no ano de 1968, através de um compacto duplo da extinta gravadora JS, que teve o título "Batatinha, Futebol Clube". Alguns anos depois, em 1973, após uma temporada na Bahia, o compositor Paulinho da Viola, levou para o Rio de Janeiro as notícias da existência daquele excelente grupo de sambistas baianos. Foi então que a gravadora Polygram, através de seu selo Fontana-Especial, resolveu produzir um disco com esses artistas.

O diretor de produção, Paulo Lima, improvisou um estúdio no teatro Vila Velha, em Salvador, registrando o disco intitulado "Samba da Bahia", onde Batatinha estreava como cantor e com as suas próprias canções. Dividindo o projeto com ele, estavam os também estreantes em disco, o Riachão (responsável por sete músicas do lado A) e o Panela (cantando nas faixas 5 e 6 do lado B). Batatinha gravaria as faixas 1,2,3 e 4 do lado B, "Diplomacia:" (c/ J. Luna), Ministro do Samba (uma homenagem ao Paulinho da Viola), "Inventor do Trabalho" (essa seria mais tarde gravada por Nora Ney) e "Direito de Sambar".

Esse disco, hoje raridade apenas em LP (vinil), está a merecer uma reedição como documento histórico. Na contracapa deste trabalho há um depoimento de Maria Bethania e um texto do Paulinho da Viola. O autor de "Foi Um Rio que Passou Em Minha Vida" assim se expressa sobre Batatinha: "felicidade para aqueles que têm o privilégio de estar perto dele e conhecê-lo. Eu o coloco ao lado de um Nelson Cavaquinho e um Cartola....Batata, sinto um prazer imenso em ser seu amigo..."




Em 1976, Batatinha entrou no estúdio da gravadora Continental, para registrar, o seu primeiro disco solo, o "Toalha da Saudade". Na contracapa, o jornalista baiano, Jehová de Carvalho, fala um pouco das dificuldades do amigo compositor, revelando que ele tinha, às vezes, que vender seus sambas para "figuras inescrupulosas", como forma de sobrevivência. Nesse LP encontra-se a belíssima canção "Espera", em parceria com Ederaldo Gentil. Essa canção foi recentemente regravada pelo cantor Luiz Melodia, para o CD, "Pérolas Finas", disco independente, promovido por amigos em homenagem ao cantor e compositor Ederaldo Gentil, outro grande esquecido do samba baiano. O disco "Toalha da Saudade", do Batatinha, também ainda não foi reeditado em CD.

Uma das músicas dessa fase do mestre Batata, "Hora da Razão" (c/ J. Luna), seria regravada no ano seguinte por Caetano Veloso (com aquele toque mágico de sempre), no seu disco dedicado ao carnaval, "Caetano...Muitos Carnavais..." Phillips, 1977. Mesmo assim, com esse prestígio e reconhecimento por parte de artistas e músicos, o mestre continuava um ilustre quase desconhecido para a grande maioria do resto do país. 

Em 1994 houve uma movimentação de seus amigos e admiradores e, com o patrocínio da Fundação Cultural do Estado, foi gravada a sua terceira bolacha (disco vinil de 12 pols) solo, "Batatinha - 50 Anos de Samba". As primeiras tiragens (poucas, é verdade) foram esgotadas rapidamente, então, novamente os mesmos amigos e admiradores, bancaram outras prensagens desse disco. Esta nova distribuição saiu com uma capa diferente da edição original, embora o disco em si fosse o mesmo. Esse registro continua inédito em versão CD, permanece como um tesouro de alguns fãs e colecionadores, portanto é coisa rara como os outros LPs. Neste trabalho fonográfico, Batatinha registraria, entre outras canções, a antológica, "O Circo", além de homenagear Gordurinha, outro importante autor baiano, da mesma forma relegado ao ostracismo.


Diplomacia, o canto do cisne

Mais uma vez o velho Batata estava totalmente esquecido e esnobado por aqueles que detêm o poder de dizer o que deve ser gravado e/ou tocado na MPB. Por isso Batatinha era “um produto” descartado do mercado fonográfico. Curiosamente foi devido, indiretamente, a esse fenômeno batizado indevidamente de axé-music, vilão responsável pela inversão de valores no mundo fonográfico baiano, o motivo para que Batatinha retornasse à mídia e, conseqüentemente, ao disco. Os compositores conterrâneos Paquito, J. Velloso e Jorge Portugal, escreveram uma série de artigos pelos jornais de Salvador, onde "desciam o malho" na chamada axé-music, e a sua exclusividade massacrante imposta nas execuções das estações de rádio locais (o famoso JABÁ). Em determinado momento, citaram o nome de Batatinha como exemplo desse descaso com a nossa verdadeira música baiana. Um dos debatedores resolveu perguntar por que a indústria fonográfica não fazia um disco com o velho mestre Batatinha. Como não houve resposta dos empresários do setor, "resolvemos, então, encampar o projeto sozinhos", diz Paquito, um dos idealizadores do disco.

Munidos de um pequeno gravador, Paquito e J. Veloso, este último sobrinho de Caetano Veloso, localizaram o mestre, já neste tempo, com problemas graves de saúde. Fizeram várias entrevistas com ele, e se espantaram, vendo que ele não havia feito registro algum de suas composições. O seu arquivo era a sua memória, nem um simples caderno, nada! Foi um trabalho de paciência, de amor mesmo de fãs para com seu ídolo, numa fase decisiva da vida do compositor. Enquanto respondia às perguntas e cantarolava suas canções, Batatinha batucava na caixinha de fósforos, o instrumento que usava para compor. Desta forma ele ia recordando suas canções. Paquito e J. Veloso conseguiram recuperar, desta forma, cerca de 70 músicas, muitas das quais inéditas. Em conjunto com o autor, foram selecionadas 16 das suas mais representativas músicas, sendo que esse material serviu de base para o CD homenagem, intitulado, "Diplomacia - Antologia de um Sambista", EMI-ODEON - 1977. Paquito e J. Veloso foram responsáveis pela produção do disco, sendo esse o primeiro trabalho da dupla nesse particular. 

O projeto demandou dois anos para ser concluído. O próprio compositor convidou seus velhos companheiros do samba baiano, Riachão, Valmir Lima, Edil Pacheco e Nelson Rufino, além de Maria Bethania, sua principal e maior divulgadora, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e a mineira/baiana, Jussara Silveira, na época grande revelação como cantora. Uma falta notada no disco foi a do velho parceiro Ederaldo Gentil, afastado da vida artística por problemas de saúde. Infelizmente Batatinha já andava bastante doente e não teve a alegria de ver esse disco acabado.

Nesse percurso, mesmo confiante em ver o seu primeiro CD pronto, a doença se agravara, sendo ele internado no hospital para não mais sair com vida. Algum tempo depois de ter colocado a sua voz, já um pouco fraca, nas doze canções que interpreta nesse disco, no dia 3 de janeiro de 1997, aos 72 anos, morreria de um câncer fulminante na próstata, o velho Batatinha, o Diplomata do Samba Baiano.





No trabalho de garimpagem de Paquito e J. Veloso, eles afirmam terem encontrado composições alegres e jocosas, que festejam a boêmia e a malandragem sadia. Nesse seu primeiro, e último CD póstumo, encontramos uma prova de que Batatinha nem sempre era um compositor de temas tristes. A mostra está nas hilariantes canções, "Jajá da Gamboa", "De Revólver, Não!" e "Bebé Diferente", onde, nesta última, ele retrata um bebé malandro que, em vez de leite, quer mamar outra coisa (pinga).

Após a sua partida, poucas homenagens lhe foram feitas, é verdade, porém algumas merecem registro. A TV Cultura, SP, através de Fernando Faro, um dos maiores responsáveis pela memória musical do país, reprisaria, na semana seguinte à morte do Batatinha, o especial "Ensaio", gravado com o compositor dois anos antes. O bloco afro Olodum, no carnaval do mesmo ano, saiu às ruas com mortalhas pretas e amarelas em sua lembrança. Em São Paulo foi promovido um show intitulado "Diplomacia - A Música do Batatinha", que teve a participação dos novos cantores Paquito, Jussara Silveira e Vania Abreu, além dos cariocas Élton Medeiros e Dona Ivone de Lara. O ponto máximo desse show foi a presença do eterno companheiro de boêmias do homenageado, o antológico, Riachão, outro que, somente agora, teve o seu primeiro CD gravado, com a produção dos mesmos Paquito e J. Veloso. O carnaval revitalizado do bairro onde ele sempre viveu, o Pelourinho, passou a chamar-se "Circuito Batatinha".

Essas "flores depois da vida", ainda são muito poucas, oxalá possa sua obra ser resgatada para as novas gerações. Seria de bom alvitre que o Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria da Cultura, pudesse resgatar, e disponibilizar ao público, toda a obra do Batatinha (que não é grande, diga-se de passagem). Mesmo o último disco "Diplomacia", inicialmente independente, e que seria depois encampado pelo acervo EMI-ODEON, praticamente, não é encontrado com facilidade nas lojas.

PROGRAME-SE


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

PROGRAME-SE


DONGA, 40 ANOS DE SAUDADES

Um dos baluartes do samba, Donga estaria completando quatro décadas de vida se estivesse vivo


Filho de Pedro Joaquim Maria e Amélia Silvana de Araújo, casal que teve ao todo nove filhos. Seu nome de batismo era Ernesto Joaquim Maria, mas gostava de assinar Ernesto dos Santos. O pai era pedreiro construtor, e tocava bombardino nas horas vagas. A mãe, a famosa Tia Amélia do grupo das baianas do grupo da Cidade Nova, gostava de cantar modinhas e promovia inúmeras festas e grandes reuniões de samba. 

Seu primeiro instrumento foi o cavaquinho, que começou a aprender aos 14 anos de idade, ouvindo as músicas de Mário Cavaquinho, de quem era grande admirador. Pouco depois passou a tocar violão. Em 1932, casou-se com a cantora Zaíra de Oliveira, com quem viveu até a morte desta, ocorrida em 1952. Tiveram uma filha, Lígia dos Santos, pesquisadora e personalidade influente na vida musical carioca.

Em 1953, casou-se novamente, com Maria, que, no ano 2001, lançou-se como cantora, já aos 90 anos de idade, chegando a gravar um CD, editado pelo ICCA em 2003.

Por volta de 1913, passou a integrar o "Grupo do Caxangá", conjunto organizado por João Pernambuco, de inspiração nordestina, tanto no repertório, como na indumentária, onde cada integrante do conjunto adotava para si um codinome sertanejo. Em sua primeira formação, o grupo reunia João Pernambuco (Guajurema), Caninha (Mané Riachão), Raul Palmieri, Jacó Palmieri (Zeca Lima), Pixinguinha (Chico Dunga), Henrique Manoel de Souza (Mané Francisco), Manoel da Costa (Zé Porteira), Osmundo Pinto (Inácio da Catingueira), Bonfiglio de Oliveira, Quincas Laranjeiras, Zé Fragoso, Lulu Cavaquinho, Nelson Alves, José Correia Mesquita, Vidraça e Borboleta.

Usava nesse grupo o nome de "Zé Vicente". No carnaval de 1914, o Grupo do Caxangá percorreu os principais pontos da Avenida Rio Branco, e "Cabocla de Caxangá" tornou-se grande sucesso musical.

Uma de suas primeiras composições foi a modinha "Olhar de santa", seguida por "Teus olhos dizem tudo", feita na mesma época e que receberia posteriormente letra de David Nasser. Entrou definitivamente para a história da música popular brasileira, por ter registrado na Biblioteca Nacional ( 27 de novembro de 1916) a partitura do "Pelo telefone", composição surgida numa reunião de samba realizada na casa de Tia Ciata, onde também estavam João da Baiana, Caninha, Sinhô, Pixinguinha, Mauro de Almeida, Buci Moreira, entre outros. O "Pelo telefone" tornou-se uma das composições mais polêmicas de todos os tempos. Desde o seu lançamento em dezembro de 1916, apareceram vários pretendentes à sua autoria, devido à própria natureza da composição, surgida numa roda de samba onde diversos participantes improvisavam versos e melodia. Mauro de Almeida, que aparentemente nunca se preocupou em afirmar sua participação na autoria, declarou em carta ao jornalista Arlequim ser apenas o "arreglador" dos versos.




Em 1917, teve os sambas carnavalescos "O malhador", parceria com Pixinguinha e Mauro de Almeida e "O veado à meia-noite", gravadas pelo cantor Baiano e coro, na Odeon. Outro grande sucesso popular do grupo doCaxangá aconteceu no carnaval de 1919 com o samba "Já te digo", de sua parceria com China, lançado pelo Grupo de Caxangá em resposta ao samba "Quem são eles", de Sinhô, que obteve sucesso no carnaval do ano anteiror. A polêmica começou, na verdade, quando Sinhô compôs "O pé de anjo", seu primeiro sucesso para o carnaval gravado por Chico Alves, que também estreava. A letra da marcha refere-se com ironia aos pés avantajados de China. Passado o carnaval, Isaac Frankel, gerente do Cinema Palais, solicitou a Pixinguinha que selecionasse músicos para apresentação na sala de espera do cinema. Foi assim constituído o conjunto "Os oito batutas", uma continuação com menos elementos do Grupo Caxangá. Contratados com a finalidade de tocar na sala de espera do cinema, o grupo tornou-se uma atração à parte, maior até que os próprios filmes. Ernesto Nazareth, Rui Barbosa e Arnaldo Guinle eram seus admiradores. O povo aglomerava-se na calçada só para ouvi-los. Conquistaram rapidamente a fama de melhor conjunto típico da música brasileira, empreendendo excursões por São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Bahia e Pernambuco. Ainda em 1919, João Pernambuco, notável violonista e compositor, foi incorporado ao conjunto, no qual permaneceu até o fim de 1921. J. Thomaz, baterista, compositor e maestro, substituiu Luiz Pinto da Silva em 1921. Em 1920, apresentaram-se em um almoço oferecido ao rei Alberto, da Bélgica, que estava em visita ao Brasil. Em 28 de janeiro de 1922, embarcaram para Paris, custeados por Arnaldo Guinle, por sugestão do dançarino Duque, divulgador do maxixe no exterior. Embarcaram apenas sete batutas, razão pela qual foram anunciados como Os batutas, ou melhor, Les batutas. Eram eles: Pixinguinha, Donga, China, Nelson Alves, José Alves de Lima, José Monteiro (voz e ritmo), Sizenando Santos (Feniano-pandeiro). Os dois últimos, faziam substituição a Raul e Jacó Palmieri. J. Thomaz, que não embarcou por motivo de doença, não teve substituto. Estrearam em meados de fevereiro no Dancing Sheherazade. A temporada prevista para apenas um mês prolongou-se até o final do mês de julho. Retornam ao país em meados de agosto, para participar das comemorações do centenário da independência do Brasil. Em agosto, foram contratados por Mme. Rasimi, empresária da Companhia Ba-ta-clan, para atuar na peça "V'la Paris", revista em dois atos e 31 quadros. A revista ficou em cartaz por oito dias, seguindo para São Paulo. O grupo, porém, não seguiu com a companhia francesa. O primeiro emprego do conjunto, após a volta ao Brasil, foi no Assírio, onde já haviam atuado. Nas apresentações, Pixinguinha por vezes trocava a flauta pelo saxtenor, presente que lhe foi dado por Arnaldo Guinle quando ainda estavam em Paris.



Em dezembro do mesmo ano, embarcam para a Argentina, como Os oito batutas, com os mesmos Pixinguinha, Donga, China, Nelson Alves, José A . de Lima, J.Thomaz, e os novos integrantes Josué Barros ao violão, e J. Ribas ao piano. Na Argentina, incorporaram Aristides Júlio de Oliveira (Julinho de Oliveira) e convidaram conjuntos brasileiros para participar de suas apresentações. Em 1923, gravaram para a Victor de Buenos Aires. Após a gravação, divergências entre os integrantes do grupo, o trouxeram de volta ao Brasil, juntamente com J.Thomaz e Julinho.

Em 1926, passou a integrar o "Carlito Jazz", grupo organizado pelo baterista Carlito para acompanhar a companhia francesa de revistas "Bataclan" que se exibia no Rio de Janeiro. Com esse conjunto viajou novamente à Europa.

Pouco depois, ao lado de Pixinguinha, organizou a Orquestra Típica Pixinguinha - Donga, conjunto composto só de instrumentos de sopro, criado para realizar gravações na Parlophon, e que acompanhava cantores como Patrício Teixeira e Castro Barbosa.

Na Odeon, o grupo conservava o nome de Orquestra Típica dos Oito Batutas.

Em 1927, teve o samba "Dona Clara (Não te quero mais)", parceria com João da Baiana, gravado por Patrício Teixeira na Odeon. Em 1928, já com o nome de Jazz-Band Os Batutas, o grupo excursionou pelo sul do país, estreando em Florianópolis no dia 28 de agosto. Em dezembro deste mesmo ano, a Orquestra Típica Pixinguinha - Donga, gravou "Carinhoso", música que havia sido composta cerca de dez anos antes e também gravada anteriormente. Ainda no mesmo ano, teve o samba "Foram-se os malandros", gravado em dueto por Francisco Alves e Gastão Formenti. Em 1929, formou a Orquestra Típica Donga, com a qual gravou na Parlophon o maxixe "O meu tipo", de Pascoal Barros. No mesmo ano, Afredo Albuquerque gravou a canção "Miss Brasil", parceria com De Chocolat. Em1930, compôs com Luiz Peixoto e Marques Porto a "Canção dos infelizes", gravada por Zaíra Cavalcânti. Em 1932, Patrício Teixeira gravou seu samba "Ri melhor quem ri por último" e a marcha "Brasil vitorioso". Em 1932, integrou o Grupo da Velha Guarda, conjunto organizado por Pixinguinha e que reuniu alguns dos maiores instrumentistas brasileiros da época, onde executava cavaquinho, banjo e violão. O grupo realizou inúmeras gravações na Victor, acompanhando também grandes cantores da época como Carmen Miranda, Sílvio Caldas, Mário Reis, entre outros. Em fins de 1932, Pixinguinha organizou na Victor a orquestra "Diabos do céu", com alguns dos integrantes do Grupo da Velha Guarda, estreando e disco e acompanhando Carmen Miranda na gravação de "Etc", samba de Assis Valente. No mesmo ano, a canção "No baile de máscaras", parceria com Valdemar Viana, foi gravada por Gastão Formenti na Victor. Em 1934, teve o samba "Metralhadora", parceria com Luis Menezes e Haroldo Lobo, gravado por Aurora Miranda na Odeon e a canção "Felicidade que eu não vi", parceria com Luni Montenegro, gravada por Gastão Formenti na Victor. Em1935, Augusto Calheiros gravou a valsa canção "Coração das plantas", parceria com P. Menezes e Moreira da Silva, a marcha "Depois de você", com Eduardo de Almeida. Em 1936, teve duas composições gravadas por Mário Reis, o samba "Esse meio não serve", parceria com Noel Rosa e a marcha "Tira...tira", parceria com Simões. No mesmo ano, Francisco Alves gravou na Victor a valsa "Pássaro urbano", parceria com Alberto Ribeiro.




Em 1938, gravou pela Odeon , com Seu Conjunto Regional, o samba "Pelo telefone", de sua parceria com Mauro de Almeida e o tango brasileiro "O corta-jaca", de Chiquinha Gonzaga. Em 1939, Neide Martins gravou duas marchas de sua autoria, "Uma estrela brilhou", parceria com Sá Róris e "Eterno sonho", parceria com Milton Amaral. Em 1940, Leopoldo Stokowski solicitou a Villa-Lobos que selecionasse e reunisse os mais representativos artistas de música popular brasileira, para gravação de músicas destinadas ao Congresso Pan-Americano de Folclore. Villa-Lobos incluiu no grupo escolhido a nata dos verdadeiros criadores nacionais de música: Pixinguinha, Donga, Cartola, João da Baiana e Zé Espinguela. As gravações realizaram-se na noite de 7 para 8 de agosto de 1940, a bordo do navio Uruguai atracado no Armazém 4. Foram registradas quarenta músicas, e dessas quarenta apenas dezesseis chegaram ao disco, reproduzidas nos Estados Unidos em dois álbuns de quatro fonogramas cada um, sob o título "Columbia presents " Native Brazilian Music" Leopold Stokowski". Nove composições de sua autoria foram selecionadas: "Cantiga de festa", "Macumba de Oxóssi", "Macumba de Iansã", o samba "Seu Mané Luís", as toadas "Passarinho bateu asas" e "Ranchinho desfeito", o "Pelo telefone" "Bambo do bambu" e "Que querê". Ainda no mesmo ano, compôs com David Nasser, a embolada "Na barra da tua saia" e o samba "Romance de um índio", gravadas por Manezinho Araújo. Também no mesmo ano, fez os arranjos para o motivo popular "Passarinho bateu asas", gravado por Almirante, que no mesmo disco, gravou seu samba "Seu Mané Luiz", parceria com Cícero de Almeida.



Em 1941, teve a marcha-rancho "Meu jardim", parceria com David Nasser, gravada por Déo. Em1950, teve a valsa "Corina", com Valfrido Silva, gravada na Odeon pelo trio vocal Trigêmeos Vocalistas. Em 1954, Almirante organizou em São Paulo o I Festival da Velha Guarda, reunindo vários músicos veteranos do choro. No segundo Festival da Velha Guarda, a caravana carioca formou em caráter regular um conjunto denominado Velha Guarda do qual faziam parte Pixinguinha, Donga, João da Baiana, entre outros. Em 1955, alcançaram grande sucesso na Boate Casablanca, constituindo a grande atração do show Zilco Ribeiro. Nesse mesmo ano, o grupo gravou seu primeiro LP na Sinter "A Velha Guarda", seguido de um outro "Carnaval da Velha Guarda". Ainda em 1955, Almirante gravou na Sinter o partido alto "Patrão prenda seu gado", parceria com João da Baiana e Pixinguinha e o samba "Nosso ranchinho", parceria com J. Cascata. Pouco depois de sua morte, ocorrida em 1974, a gravadora Marcus Pereira lançou seu único LP individual, em que interpretava várias de suas composições. O LP registra ainda trechos do depoimento concedido ao MIS em maio de 1966, gravação que obteve grande repercussão pública, já que foi a segunda feita para a posteridade, dela sendo entrevistador o próprio diretor do museu, Ricardo Cravo Albin.

No final dos anos 50 voltou a se apresentar com o grupo Velha Guarda, em shows organizados por Almirante. Enviuvou em 1951, casou-se novamente em 1953 e foi morar no bairro de Aldeia Campista, para onde se retirara como oficial de Justiça aposentado. Doente e quase cego, viveu seus últimos dias na Retiro dos Artistas, falecendo em 25 de agosto de 1974. Está sepultado no Cemitério São João Batista

Fonte: Dicionario da MPB e Titan Produções

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