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domingo, 31 de dezembro de 2017

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*




56 - Posfácio, por Ana Duarte / Agradecimentos especiais



Eu posso dividir a minha vida com Pery em antes e depois deste livro.

Como todo casal quando aprofunda um relacionamento, nós também contamos um ao outro sobre nossas vidas, nossas famílias. Foi assim meu primeiro contato com suas lembranças da infância, dos pais, e do início de carreira. Um desabafo num dia difícil, uma lembrança gostosa vinda à tona num pôr de sol na cobertura da Barra, confidências no jantar após um show com seu pai em São Paulo... Achava que conhecia toda a sua história, e que sabia quanto sua infância havia sido difícil. Estava enganada. Quando se escuta um trecho aqui, um outro meses, ou anos depois, é muito diferente do que encarar a carga dessas emoções de uma só vez. Ter acesso a to-das as suas dores e alegrias, num desabafo sincero e confuso, foi muito forte. Me vi diante do mais íntimo do seu ser. Acompan-hei todo o conflito que ele viveu para decidir escrever este livro. Fui testemunha do doloroso processo de revolver suas memórias, muitas vezes, interrompido por crises de choro convulsivo. Pery escrevia por dias seguidos, para depois parar por meses, sub-jugado pelo peso de suas dores. Foi uma ver-dadeira catarse para ele: expurgou todos os seus fantasmas e redimiu todos os seus sentimentos. E mudou para sempre o nosso amor. Mais amigos e cúmplices ficamos. Desde então, se aquietaram as minhas cobranças, e passei a compreender que ele me oferece o que tem de melhor, e muito, muito mais do que recebeu. Se não é tão carinhoso como eu gostaria — mesmo sentindo falta disso —, hoje entendo o porquê. Se já era um grande pai, agora o enxergo ainda mais especial. A nossa história de vida ganhou um sentido ainda maior. Me sinto privilegiada por ter dividido com Pery o desafio de escrever a sua história. E muito honrada por ter tido em minhas mãos a responsabilidade de organizar, em livro, sentimentos tão delicados. Deus sabe que tratei com o maior respeito e carinho suas lembranças. Sinto imenso orgulho da sua coragem em se expor sem censura ao mundo. Mais orgulho ainda do que sinto quando o vejo cantar divinamente num palco.

Sua maior fã, e eternamente apaixonada,

Ana Duarte


Agradecimentos especiais

A Jose Messias, com quem viajamos no tempo para resgatar a verdadeira essência dos acontecimentos. Aos queridos Dorival Caymmi e Stella, que nos abriram sua casa e suas lembranças. A Nelson Gonçalves, por sua escancarada sinceridade. A Amalia, esposa de Vicente Paiva, por nos trazer fatos importantes do passado. A Raul Sampaio, pela forma respeitosa ao compartilhar comigo suas memórias de tantos anos ao lado de meu pai. Aos queridos Luis Vieira, Virginia Lane, Marlene e Emilinha Borba, pelo carinho. Ao Bily, meu irmão e guardião do acervo familiar, pelas fotos de nossa infância. Ao Helio, irmão mais velho, pela lembrança de fatos mais antigos. Às minhas tias Margarida, Lila, e em especial, a tia Nirinha, pelas fotos de Herivelto e do Pery bebê. A Edith, nossa tia do coração, pela sua preciosa memória. Ao Nacib, maior fã de Dalva, que nos abriu seu arquivo pessoal de fotos e reportagens. Ao amigo Bily Blanco, pelo apoio e espírito crítico ao primeiro manuscrito. A Ricardo Cravo Albin, pelas fotos da festa dos 80 anos de Herivelto. A Sergio Cabral, Max Nunes, Chico Anysio, Herminio B. de Carvalho e Bibi Ferreira. A Antonio Sergio Ribeiro, pelo material cedido de sua coleção da antiga Revista do Rádio. A Silvia Regina, da Biblioteca Nacional, pela ajuda preciosa na pesquisa. A Leon Barg, do selo Revivendo, pelas fotos cedidas. À equipe Copy rights, em especial a Dra. Adriana Vendramini. Ao Fernando, da editora Vitale, pelo acesso à obra de Herivelto. Às Editoras Mangione & Filhos, ADDAF, SIGEM e Fermata, pela liberação das obras citadas. A Elifas Andreato, por ter viabilizado a nossa parceria com a Editora Globo. Aos editores da Globo, que deram suporte a nossa inexperiência, Eliana de Sá, Claudia Abeling, e, em especial, a Marcelo Ferroni, que pacientemente trabalhou conosco na finalização do livro. A Maurício Sherman, pelo carinho e pela aposta no projeto musical “Dalva e Herivelto”. A Ruy Castro, por ter sucumbido à curi-osidade de ler o nosso livro, nos brindando depois — ele, o profissional das letras! — com um prefácio tão especial. A Dalva e Herivelto, por existirem . E a Deus, por me fazer seu filho.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*




55 - Herança


Uma filosofia espiritualista afirma que todos nós, antes de nascer, escolhemos nossos pais: se isso for verdade, eu declaro em alto e bom som musical que sou imensamente feliz por ter escolhido quem escolhi. Pois tenho uma herança a saborear. Não foi uma herança que me deixasse muito dinheiro, e jamais me importou esse fato. Foi uma herança de brilho interior e de muita luz a iluminar o palco de minhas lembranças. Nessa cena aberta – o grande show da vida –, fui ao mesmo tempo plateia e ator. E por isso tenho amado a vida em sua essência – feita de tamanha fragilidade e força, ao mesmo tempo. O tempo, inexorável e preciso, transcorreu firme e suave, silencioso e paciente. O grande barulho da existência de meus pais já não desperta muita gente. Definitivamente transformados em mitos, suas letras e músicas ainda fazem sonhar e chorar a alma dos mais sensíveis. Às vezes viajo no tempo e ainda ouço o vozerio nervoso de Dalva e Herivelto saindo para um show, minha mãe se pintando pelo caminho; sinto o perfume que usavam, escuto meu pai repassando o repertório no carro. Eu ainda me vejo criança na coxia, ad-mirando cada passo, cada movimento do Trio, cada frase musical, os duetos, as vozes, os arranjos, as letras. Seria capaz de cantar cada música, no lugar de qualquer um deles Hoje sou um homem de meia-idade que adoraria ter minha mãe e meu pai por perto, e desfrutar de sua velhice curtindo os meus filhos, seus netos. E, mais do que os consagrar com honrarias, gostaria de lhes oferecer este enorme perdão que o tempo trouxe, quando o mundo e as pessoas lhes fazem justiça. Depois de tudo que vivi, não me presto a qualquer julgamento do comporta-mento de meus pais. Eles foram os meus pais. Com eles aprendi a ver a beleza da vida. A ver música em cada som . Em meio ao sofrimento deles, aprendi a ter e oferecer per-dão. Talvez esta seja a palavra mais importante em toda a minha vida com os dois: perdão. O meu hoje é feito de perdão. É feito de muito, muito amor. Faz bastante tempo que eu os perdoei por não terem organizado melhor a nossa infância. Que os perdoei por não saberem como demonstrar o amor que sentiam por nós dois, e do qual eu e o Bily precisávamos tanto. Faz tempo já os perdoei por não terem tido o cuidado de evitar que víssemos tanta coisa que vimos e que nos marcou profundamente. Não guardo rancor de nada, absolutamente nada. As possíveis mágoas ou dores, eu as transformei em experiência de vida. Meu tempo vem transcorrendo também, suave e firme. Aprendi muito cedo o valor de estar em sintonia com a vida. A minha visão de mundo é diferente da minha visão de vida. Procuro obter da vida o melhor que eu possa colher. Aprendi que, em qualquer circunstância, a vida não tira nem oferece absolutamente nada: a vida é o que é. Nós é que devemos tomá-la como a maior razão de tudo. O mundo são as pessoas. A vida é Deus. Lógico que ficaram marcas. É natural que eu não seja um tipo de homem certinho e centrado. Tenho minhas loucuras como qualquer pessoa, que erra e acerta, condizente com minha condição de ser humano. Sou a pessoa que eu mesmo construí. Minhas experiências de vida fizeram de mim um indivíduo corajoso, encarando os obstáculos com armas leais, sem covardia. Movido por um vulcão de força e determinação, e um profundo sentimento de justiça, fui obrigado a desprezar qualquer senti-mento de autopiedade e a edificar o respeito por mim mesmo. Aprendi que não existiriam acertos se não houvesse erros. O que interessa é o tamanho de nossa investida di-ante da vida. A dignificação da caminhada. Desde cedo, aprendi a valorizar a busca da beleza. A amar a grandeza do mundo que me serve de moradia, pois sempre tive dentro de mim um conhecimento do maior, do belo, do Superior. Aprendi a respeitar o meu corpo, esse templo que Deus me deu. Sei que por isso tive uma relação muito cautelosa com a bebida e com as drogas. Se por curiosidade ou fraqueza recorri a alguma droga em dado momento, ou então me excedi na bebida, nada me fez prosseguir nesse caminho, achando que isso me daria uma realidade melhor do que a que eu mesmo pudesse construir. A minha realidade é feita de ontens, hojes e amanhãs. E eu preciso estar de cabeça-feita com autoconhecimento e respeito por mim, para poder lidar com o mundo. As coisas mais lindas e mais saborosas da vida só serão realmente desfrutadas se eu estiver de cara limpa, ou pelo menos consciente do deleite a que estou me entregando. Sem fugas. Pleno de mim mesmo. Mas isso nunca foi ou é fácil, porque, queiramos ou não, certos padrões que recebemos no princípio de nossa existência nos acompanham e marcam pro-fundamente nosso comportamento. O amor formou vertentes dentro de mim que com frequência correm em direções conflitantes. Sempre senti em meu interior um barulho muito grande. É um barulho forte em relação ao amor. Meu relacionamento com o amor é algo muito complicado. Nunca foi uma relação calma, serena. A inquietação sempre povoou minha cabeça e meu coração. Sempre senti falta de uma plenitude. Talvez pela minha essência artística, ou por tudo a que assisti em minha infância, eu tenha fantasiado muito na busca do amor, deixando-o muito distante desse sentimento feito do dia a dia com uma mulher de carne e osso, quando se constrói uma vida e, enquanto envelhecemos juntos, podemos saborear o caminho percorrido. Houve momentos no passado em que vivi numa enorme inconstância. Enxergava o amor como a conquista de um prêmio, ou de um troféu. Se aquele tivesse sido conquistado, havia a obrigação de se conquistar outro. Com as trocas constantes, vinha o sabor de perda, de fragilidade, de solidão. Acompanhado do gosto amargo de uma ressaca. De várias ressacas. Casei, descasei, casei de novo, me apaixonei por pessoas certas e erradas; fiz filhos, sou mal interpretado por um deles, talvez sufoque de proteção o que vive comigo. Me deixei envolver, fiz sofrer, sofri; errei, consertei, não consertei; fiquei doido, fiquei apático; bati, apanhei, não respondi; odiei, desprezei, desprezo ainda; traí, fui traído. Amei e fui amado como ninguém . Enfim, “confesso que vivi”. Hoje também tenho a minha casa, meus sonhos e realizações. Cresci e me tornei pai e marido. Sou um artista que trabalha no ofício aprendido desde o berço com meus pais. A cada dia me aprimoro no que mais sei fazer – cantar. E canto com a certeza de que com meu canto eu me lanço ao mundo e sigo meu grande destino. Vivo hoje em Miami, com alguma paz, não total, mas bem maior da que o Brasil de agora poderia me oferecer. Cheguei aqui seis anos atrás, em busca de um mundo que pudesse receber a minha música e o meu eu, sem preconceitos nem limitações. No entanto, sou um eterno apaixonado pelo Brasil, viajo sempre para o meu país para tomar a bênção à saudade. Para regar e colher os frutos da minha semeadura de mais de 40 anos de carreira. Costumo dizer que sou um “exilado cultural”. Mas, ao contrário do exil-ado político, não fujo de nada, apenas ainda me permito desafios. Sinto um vigor juvenil ao enfrentar novas plateias, novos aplausos, novas conquistas. Serei sempre um apaixonado pela música. Mais do que isso: sou viciado em música. Ela me entorpece, acalma, empolga, me faz pensar, esquecer, lembrar, enfim, me motiva a viver. Tenho certeza de que nada me foi mais fiel e gratificante do que a música. Porque mesmo cercado da família, dos amigos, das conquistas, a solidão é a minha grande companheira. Sim . Em meu entender, nós somos a grande solidão universal. E, ao descobrir isso, trabalho o meu interior e faço da minha solidão o tesouro maior que equilibra o meu íntimo. Como sempre diz meu amigo Luis Gasparetto: “Só você vai ficar com você o resto da eternidade”. Longe de mim ser um solitário, ao contrário, apenas seleciono com quem dividir meus momentos para enriquecê-los. Eu gostaria de amar mais os amigos desta caminhada. Saber dividir com eles os meus sonhos. Gostaria de saber amar melhor os meus filhos. Saber ser o melhor amigo deles. Gostaria de ter convivido mais com minha filha Paula. Gostaria de amar melhor a mulher que vive comigo e suporta por demais as minhas incertezas; que já enfrentou barras incríveis comigo, e com o meu trabalho; altos e baixos, às vezes mais baixos do que altos. A companheira que me faz trabalhar, criar mais e produzir melhor. Que me instiga com a sua boa crítica a me aperfeiçoar. Um senti-mento especial nos une, e se transformou numa liga muito forte entre nós. Ela representa o esteio da minha vida. Desde os conselhos na carreira até a elaboração deste livro, que sem ela não existiria. Com seu estímulo o escrevi em rompantes de emoção, num depoimento desordenado das minhas lembranças – trabalho feito à mão, que ela pacientemente deu forma em seu notebook, organizando com carinho os meus pensamentos da primeira à última linha do que foi escrito. Sou orgulhoso herdeiro de todas as min-has lembranças. Elas me ajudaram a ser o homem que sou. O artista que sou. Jamais poderia ser outra coisa na vida. Tenho música nas minhas veias. O palco é o meu oxigênio. Sou um artista à moda antiga, de quando os ídolos eram escolhidos pelo público, e não pelo marketing que fabrica sucessos para consumo rápido. A música e a arte no Brasil têm sofrido muito na última década com a industrialização dos sentimen-tos. O que era artesanal, feito com o coração e para os corações, deu lugar a uma grande indústria dominada apenas pelo volume de comércio, levando ao endeusamento dos re-cordistas de vendas, nem um pouco preocupados em construir uma carreira – o que implica uma jornada muito mais longa, nem sempre só de sucessos. Com isso, artistas que se dedicaram ao cultivo da maior qualidade e da beleza sofreram bastante, e o abandono tomou conta de suas carreiras. Muitos grandes artistas brasileiros, e também eu, fazemos parte dessa geração que foi deixada à margem da máquina voraz que se alimenta de resultados rápidos, imediatistas, e não tem compromisso com nenhum legado de cultura para as gerações vindouras. Assim, para meus filhos Bernardo e Paula, não posso deixar outra herança que não seja a do trabalho, da perseverança, do amor à vida e, principalmente, a do perdão. Em to-dos os sentidos. Meus bens materiais são muito poucos. Meus bens espirituais e mo-rais quero que lhes sirva de luz para guiar seus passos. Que eles estejam na vida de uma maneira forte e decisiva. Descobri a essa al-tura da existência que viver é armanezar coragem para conduzir com calma os rumos da nossa própria solidão. Espero que suas decisões sejam tomadas em nome da justiça, do amor ao mundo e aos outros seres que lhes servem de parceiros nesta caminhada. Que eles se orgulhem muito dos seus avós, de suas mães, do seu pai, e do amor que sempre norteou os passos de quem os precedeu neste mundo. Que iluminem sempre os meus filhos, as Minhas duas Estrelas. Que nasci de uma fêmea de grande luz E de um homem gigante em cantar o amor Da emoção de um instante maior Eu, Cujos olhos abri e eram cor do mar E enxerguei toda a luz que me dava o sol E aprendi a cantar pra viver Eu, Que em versos meu berço cobri E com música aos poucos cresci E de sonhos eu me alimentei Eu, Que com arte reguei meu jardim Só com flores fiz rimas pra mim E hoje sigo o destino que herdei  Eu, Cantador de emoções de poetas mil Portador de alegrias pros corações. Eu sou Pery




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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*






54 - O amor é o ridículo da vida

As pessoas que amam de verdade, sem condições ou medos, são as que enxergam o ser amado como ele é, sem censuras, culpas ou julgamentos. As que não amam de verdade são as que procuram encobrir os defeitos, as falhas ou as atitudes que possam “manchar” a imagem — principalmente dos que morreram — e assim tiram das pessoas o direito de serem autênticas, isentas de hipocrisia e, acima de tudo, de serem humanas. É nesse contexto de humanidade que coloco o meu amor por meus pais. Sem críticas ou condenação. Apenas relato a história de amor e dor que vivi com eles, com a humildade de ser humano que também erra, com o amor de filho e com a admiração de artista que sou. Se tudo for analisado com os olhos de hoje, com a filosofia minimalista atual, com o comportamento desprovido de emoção de agora, talvez alguém diga — como já disse um jornalista numa matéria sobre Francisco Alves, publicada na Folha de S.Paulo — que a separação de meus pais foi forjada e comercialmente planejada, que era somente uma discussão feita para levantar dinheiro. Mas, se mergulharmos no universo deles, veremos que havia dentro dos dois uma verdade maior do que o dinheiro ou as vantagens advindas da separação pudessem oferecer. Havia nos dois um sentimento de fidelidade à sua grande verdade. Havia em meu pai, que foi quem primeiro colocou a história nos jornais. Era um grito verdadeiro. Não havia farsa nem mentira. Foi cruel, foi estúpida e irresponsável toda a separação, mas ninguém poderá dizer que foi mentirosa. Acredito que brigas e desavenças sempre existirão entre os casais. E, por causa delas, o mundo troca ou modifica seus aspectos, senão seria tudo igual, tudo como começou. Com meus pais não foi diferente. E hoje, passados tantos anos, procuro colocar toda a história mais perto de mim, mais próxima da análise que amigos, parentes e, por que não, o grande público passaram a me oferecer como subsídio. Nessa busca da verdade — avaliando o comportamento de ambos, a razão das brigas e o drama que os vitimou, antes de consider-ar qualquer um deles como o “grande culpado” — reafirmo que tudo poderia ter sido bem diferente para ambos se meu pai tivesse conduzido tudo de maneira total-mente diferente do que fez. Ele construiu um abismo enorme do qual não conseguiu mais sair, mergulhando no cenário frágil que construiu a sua volta. Por outro lado, arrisco dizer que minha mãe teria preferido jamais ter ficado sozinha — mesmo com todo o sucesso — e ter continuado a viver ao lado do homem que a fez conhecer tanta beleza. O único amor que experimentou verdadeiramente. Lamento muito que tenham se destruído tão profundamente, em igual proporção, e seguido caminhos tão adversos dos que sonharam nos tempos do Teatro da Pátria, nos idos de 1936 para 1937. Assim, revendo a forma de meu pai levar sua vida amorosa, observo que ele nunca encerrou um relacionamento para começar outro. Foi assim com Dalva, que surgiu quando ainda estava com Mariazinha; foi as-sim com Lurdes, que entrou em sua vida ainda casado com Dalva. Enquanto o dinheiro e o sucesso não chegavam, meu pai foi um marido atencioso e dedicado. Quando o trabalho do Trio es-tourou, ninguém o segurou mais. Jamais preservou minha mãe de suas infidelidades, ao contrário: parecia querer que ela soubesse quem ele estava namorando, fosse uma garota do cassino ou uma cabrocha da escola. E mais grave: transou com Isaurinha Garcia na cama onde dormia com Dalva. Quando minha mãe reclamava, exigindo outro comportamento, ele encerrava a discussão com porradas. Mesmo com minha mãe já sabendo de seu caso com Lurdes, meu pai impôs um casamento de aparências a ela, antes da ida para a Venezuela, para dar continuidade aos contratos do Trio. Morando com Lurdes, continuava sua carreira de conquistador e chegou a ter um filho, que não conheceu, com uma componente do trio da sua irmã Nazinha (Hedinar). Na época em que vivia com minha mãe, colocava dentro de casa um montão de homens para comer e beber, a qualquer hora do dia ou da madrugada. Nunca houve privacidade na vida deles. Ele mesmo declarou em sua biografia: “Dalva era uma pessoa muito recatada, tranquila e não esboçava sentimentos agressivos. Depois, transformou-se. Aprendeu a ser agressiva, primeiro com insultos e depois descendo ao terreno físico”. Ora, como ele poderia esperar que uma mulher permanecesse recatada e tranquila nessa situação? Será que era esse seu desejo? Acho que minha mãe até tentou, ao permanecer tanto tempo na formação do Trio. Como mulher e profissional, suportou o que advinha dessa atitude. Tentou, ao achar que o conhaque poderia apagar as dores e decepções que o amor por aquele homem estavam causando. A partir daí, a bebida foi tendo um papel fortíssimo em sua vida, a ponto de ser a razão maior de sua destruição. Não se pode esquecer que a bebida entrou em sua vida ainda no início, quando estava com meu pai. E também não podemos esquecer que os traumas advindos de sua vida a dois não terminaram com a separação. Ainda permaneceram nas canções e nas ofensas públicas. Ele a acusou nos jornais de traí-lo. Pode até ter acontecido… Uma mulher ferida em seu amor é capaz de muita coisa, certa ou errada. Mas o pior de tudo foi que “o segredo deles não ficou entre quatro paredes”. Meu pai, movido pela raiva, e também para se defender, atacou-a publicamente. A polêmica musical talvez tenha começado quando Dalva gravou “Tudo acabado”, que era um desabafo sutil, sem in-tenção de provocar. Ao responder à gravação com o infeliz samba “Caminho certo” , meu pai angariou um ódio indescritível entre as pessoas. Ao começar esse processo com David Nasser, as opiniões a respeito dele se tornaram péssimas e, a partir daí, passaram a governar — ou desgovernar — o seu mundo. Mas existe também o lado dele, o homem que tomou algumas atitudes impensada-mente, em rompantes de mágoa, dor e até vingança, quando o que se esperava era que não se importasse mais com minha mãe. Afinal, não saíra de casa porque havia se apaixonado por outra mulher? Uma mulher que já existia muito tempo antes em sua vida e de quem disse — até ditou para seu livro — que “havia encontrado o grande amor da sua vida”? Ora, por que então a tentativa de atingir tão profundamente minha mãe, tornando pública a vida de casados em capítulos de jornal e musicando de forma tão violenta a relação que havia terminado? Ele não pensou, não ponderou as consequências e pagou um preço altíssimo. Sofreu muito, em que pese toda a sua atitude nascida do rancor. Meu pai passou a ter uma reação interior de mágoa e dor. Sei que sofreu muito e se agarrou à nova mulher. Também sei que ela o ajudou muito. Começava uma nova vida com Lurdes em Santa Teresa. Com sua personalidade pragmática, ela se tornou o refúgio que ele precisava naquele contexto. Mas não foi o bastante para ele. O mais importante para o artista Herivelto, o seu Trio de Ouro, o verdadeiro, já não existia; os momentos de brilho se apagaram e os aplausos do público silenciaram para ele. Seu interior estava arrasado e o grande júri popular passou a execrá-lo. Naquela época, me lembro, era frequente ele beber muito mais do que o habitual. Lurdes não tinha a personalidade alegre e receptiva de minha mãe com os amigos que ele acostumara a acolher em casa. Aos poucos, meu pai descobria que ela se preocupava mais com o status social das visitas do que com seu talento musical. O que foi deixando Herivelto sem aquele caldeirão de criatividade ao qual estava acostumado. Com a briga, os compositores importantes ficaram com Dalva. Suas aparições não despertavam tanto interesse no público como antes. E ele absorvia tudo tristemente, sem dar o braço a torcer. Meu pai sempre foi duro na queda. Sofria bastante. Penso que ali ele começou a morrer um pouco por dentro. Enfim, um período rico e feliz havia terminado. Criou-se um antagonismo enorme ao seu nome e a sua pessoa. Ele agora precisava ter muito cuidado com “onde” e “como” aparecer para o público. Foi uma barra cruel e pesada, pois estava mais exposto do que nunca ao julgamento de quem lia o Diário da Noite, ouvia as canções que compunha e presenciava as suas atitudes impensadas. Atitudes de quem queria se livrar de um grande problema e cada vez mais se afogava nele. Mas garanto: meu pai amargou muito toda essa situação. Ficou desnorteado e sem chão. Quando minha mãe lançou “Tudo acabado”, foi uma surpresa enorme para ele, pois ficou frente a frente com uma realidade: Dalva de Oliveira podia seguir sem Herivelto Martins. Continua-ria a existir sem ele, com mais brilho e sucesso. Foi apenas uma pequena amostra do que estava por vir. Meu pai apelou, respondendo com uma pro-vocação de baixo nível. A constatação da perda não era apenas em relação ao amor ou à mulher. A grande perda era em relação ao Trio, à sua realização artística. Sem Dalva, seu alcance artístico ficava esvaziado. Sei que a grandeza do compositor o segurou — e vai eternizá-lo —, mas, após a separação, o artista Herivelto nunca mais teve a mesma glória, nem acesso aos grandes palcos, nunca mais recebeu a mesma sublime ovação dos tempos com minha mãe. Ao contrário de Dalva. Ela cresceu infinitamente com seu canto, a ponto de colocar sua gravadora trabalhando 24 horas por dia para atender ao fabuloso sucesso. Ela atravessou fronteiras, ganhou o mundo. E o coração das pessoas. A briga deles ficou presente demais na vida das pessoas, na época. Se hoje, passados tantos anos, ainda desperta paixão, imaginem quando o incêndio total era diário. No entanto, não se deve pensar que todos to-maram o partido de minha mãe. Havia pessoas que acreditavam que a razão estava com meu pai. E era natural que assim fosse. Afinal, o julgamento de suas vidas estava nas mãos de quem lesse o Diário da Noite ou mesmo ouvisse as canções. E isso abria es-paço para qualquer sorte de análise. O que favorecia muito a minha mãe era o fato de que jamais escreveu uma linha se-quer nem ditou ou afirmou nada em entrevistas que revidasse as declarações ou condenasse as atitudes de meu pai. Mesmo que fosse para se defender. Essa atitude, consciente ou inconsciente, deu a ela uma condição espetacular de desfavorecida, de vítima. Só suas canções falavam em sua defesa. Até hoje, dentro da minha busca da neutralidade, não sei o que fez minha mãe tomar tais atitudes: se foi medo de meu pai ou uma postura de sabedoria numa hora tão crítica e decisiva. Ninguém vai poder saber se ela se sentiu pequena para superar um ataque tão grande ou se foi muito superior à pequenez do ataque de Herivelto. Mas isso já não tem a menor importância, transcorrido mais de meio século… O que ficou de tanta vida, a própria vida já arquitetou o tamanho que passaram a ter, por terem construído tanto para um país saborear suas emoções através de tanta música bonita, numa explosão de arte sincera, autêntica e sensível. Engraçado foi ver que o tempo conduziu as coisas à sua própria maneira, escreveu seu próprio enredo e os reuniu numa última canção. Nunca mais haviam se falado, pouco se viram, desde então. Mas, em 1970, quando retornei dos Estados Unidos, meu pai me mostrou uma música nova. Era “Fracassam - os”. Na época, ele poderia ter dado essa música para muitas cantoras: Ângela Maria, Clara Nunes, Maria Bethânia e outras. Mas, ao saber que Bily estava produzindo um compacto para Dalva na Odeon, fez questão de que minha mãe a gravasse, mesmo estando rompido com ela. Bily lhe mostrou a música e ela adorou. Essa atitude rompia um silêncio de quase vinte anos entre eles. Para meu pai, Dalva era a intérprete ideal para “Fracassamos”, pois a letra é uma verdadeira síntese do que viveram em suas vidas: Nosso alicerce está ruindo Fragorosamente está ruindo E quanta coisa juntos nós realizamos Porém agora reconheço, fracassamos Nosso alicerce é igual à torre de Babel Só não conseguiu chegar ao céu Já não nos entendemos mais Nossos carinhos são banais O nosso amor já não tem gosto de amor Vivemos juntos, nada mais Era como se Herivelto, pressentindo faltar pouco para a luz de Dalva se apagar, sentisse a urgência de encerrar um ciclo. Fechar a mandala criada entre eles. A gravação dessa música, uma das últimas composições de meu pai e uma das últimas gravações de minha mãe, reuniu novamente o compositor e sua intérprete maior. Duas décadas depois da separação, esse episódio tem sabor de uma grande peça pregada pela vida, nossa grande “produtora”. Soava como despedida. Uma triste e amorosa despedida.



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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*




47 - Amor enrustido

O amor pregara uma peça em meu pai e, por que não dizer, em minha mãe também . Não era a separação o que eles queriam . O que mais desejavam, com igual intensidade, era que nada tivesse acontecido como aconteceu. No entanto, lá estavam os dois, soltos no mundo, tratando de recompor suas vidas, em direções opostas, colando seus cacos. Sempre tive dentro de mim a nítida sensação de que, se pudessem ter voltado no tempo, os dois teriam capitulado diante da separação. Com meu pai, vou mais longe: tenho certeza de que ele teria apagado a atitude infeliz de expor sua vida em desairosos capítulos no Diário da Noite. O que inicialmente me parecia romantismo de filho se confirmou. Ao tentar buscar uma certeza nas pessoas que fizeram parte da vida e da intimidade de meus pais, confirmei (surpreso!) a minha percepção interior do drama que eles passaram a viver. Nessa busca da verdade, fui ao encontro de Nelson Gonçalves, grande companheiro de meu pai. Encontrei-o meio magro e abatido, se recompondo de um problema de saúde, mas o mesmo brilhante e sincero Nelson Gonçalves. Perguntei sobre todas as coisas que queria saber — seu tempo na Urca, quando morava na Cândido Gaffrée, as histórias do Cassino. Ele confirmou tudo: a boêmia na Lapa, sempre ao lado de Herivelto, como frequentava a nossa casa e a camaradagem existente entre ele e meus pais. Conversamos sobre a fase negra que meu pai viveu depois da separação de minha mãe. Nelson comentou: “Rapaz, eu estava sempre com Herivelto, e ele chegou a tomar alguns porres em nome do arrependimento que sentia!”. “Será que é sobre aquele assunto do Diário que eu estou pensando, Nelson?” “Olha, menino, a gente já tinha tomado algumas quando ele me disse um dia: ‘Nelson, reconheço que fiz uma tremenda cagada! Acho que cavei um buraco pra eu mesmo cair!’”. De Nelson ainda ouvi: “Sua mãe era apaixonada por seu pai, e assim permaneceu até morrer”. “E meu pai, Nelson?” “O caso do seu pai é diferente. Era um apaixonado enrustido. Sem dúvida, o amor de sua vida foi a Dalva, mas ele não permitiria jamais que soubessem ou que percebessem . Depois de tomar uma atitude, Herivelto não daria o braço a torcer jamais!” “E a Lurdes?” “Ela foi a mulher que o aguentou. O que não era fácil, você sabe. E com quem ele teve de sossegar, afinal não era mais criança, já tava nos quarentinha. Mas o Herivelto não tinha muito chamego com ela. Sabe como é, não havia paixão. Além do quê, sem briga, falando baixinho como ela falava, a Lurdes trazia ele num cortado.” Nesse papo, tive o insight do que sempre esteve em minha cabeça e tinha dificuldade de verbalizar. Sem querer, Nelson encontrou as palavras certas: meu pai manteve um amor enrustido por minha mãe! Essa constatação, feita como filho atento desde criança à trajetória do pai e que o acompanhou pela vida e pelos palcos, vem da minha observação do quanto ele produziu e da envergadura de sua obra enquanto esteve ao lado de Dalva de Oliveira. Seus mais consolidados sucessos foram escritos ao lado de minha mãe: “Caminhemos”, “Segredo”, “Praça Onze”, “Bom dia”, “Vem, a Bahia te espera”, “Bom dia, avenida”, “Isaura”, “Lá em Mangueira” e a consagrada “Ave Maria no morro”, só para citar alguns. Num levantamento rápido de sua discografia, pude verificar que mais de 150 das canções que escreveu ao lado dela foram lançadas com muito sucesso. Ao me aprofundar nas pesquisas sobre a obra de meu pai e ao entrevistar alguns amigos da época, fui encontrando ainda mais subsídios para esta “tese”. E também to-mando conhecimento de muitas obras com - postas por ele em decorrência da saudade e da tristeza que amargava por minha mãe. Deixo então que fale por si a obra legada para o mundo e que os historiadores se encarreguem de fixar para a posteridade o que digo. Sou apenas um filho que os amou, acima de qualquer análise. Quando minha mãe lançou o “Zum -zum” no Carnaval de 1950, de autoria de Paulo Soledade, o povo pensou que ela estava se referindo a meu pai, mas não estava. Era uma homenagem ao falecido Comandante Edu, do Clube dos Cafajestes. Paulo, grande compositor, era um dos seus companheiros de clube e escreveu a música para ele. Como tinha verdadeira adoração por minha mãe, pediu que a gravasse. Foi um tremendo sucesso:

Oi, zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum Tá faltando um
Oi, zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum Tá faltando um
Ele que era o porta-estandarte E que fazia laúza e zum-zum
Hoje o bloco sai mais triste sem ele Tá faltando um

Ao ouvir a música e ficar sabendo que as pessoas achavam que Dalva estaria se refer-indo a ele, Herivelto compôs com Benedito Lacerda “Ai, morena”:

Ai, morena
Seria meu maior prazer
Passar o Carnaval contigo
Beijar a tua boca
E depois morrer
Morena, tem pena
Se um dia isto acontecer
Serás minha rainha
Mais rainha do que és
E o Rei Momo beijará teus pés
Reparem no verso
Mais rainha do que és

— naquele ano, minha mãe foi eleita a Rainha do Rádio.

No mesmo ano de 1950, ele também escreveu com Benedito “Quando a idade chegar”, uma inspirada profecia dirigida apaixonadamente à minha mãe. Referia-se aos amigos (Ataulfo Alves, Nelson Cavaquinho, Marino Pinto, Paulo Soledade) que compunham as canções com que ela se de-fendia durante a briga:

Quando a idade chegar
E o espelho mostrar
O estado em que estás
Hás de lembrar dos amigos
Que já não te conhecem mais
Orgulho, vaidade
Sempre foi seu bem-estar
Não adiantou aconselhar
Não sou feiticeiro
Mas prevejo o teu fracasso
Cairás muito cedo de cansaço

Uma das mais belas músicas que meu pai compôs, “Quando o tempo passar”, em parceria com David Nasser, em 1951, é dessa fase:

Sei, quando o tempo passar
Ninguém mais vai lembrar
Que nós dois existimos
Sei, nosso amor foi um sonho
Um pássaro risonho
Que nós dois destruímos
Partirei
Mas sei que não irei sozinho
A noite vai no meu caminho
A noite e mais ninguém
Partirás
Serás feliz na tua estrada
Por outro amor iluminada
Pois não te quero mal nem bem

O mundo parecia cair sobre a cabeça de meu pai, ao mesmo tempo que martelava o sentimento de perda da mulher que ainda amava e de quem sentia muita falta. Nesse momento crítico, José Messias foi o amigo que esteve profundamente ligado a ele. Era seu grande confidente e com ele Herivelto podia se abrir de verdade. Assim, Messias assistiu a muitos porres, tomados em nome da saudade de minha mãe.  Numa tarde em 1950, vendo o amigo deprimido, propôs saírem para espairecer um pouco. Sentaram na praça Tiradentes e meu pai começou a beber um chope atrás do outro. Messias, que jamais bebeu, lembra que esta foi mais uma das muitas tardes e noites em que ficou sentado com Herivelto nos bares, horas a fio, apenas com um copo de leite na frente. Meu pai ficava louco ao ver o amigo e confidente bebendo “aquilo”, enquanto ele tomava cerveja ou uísque com gelo. Nesse dia, Herivelto estava muito per-turbado com os próprios pensamentos. O assunto girava e voltava ao nome de Dalva. Tanto falaram nela que meu pai começou a cantarolar:

Nem o chope que eu bebi
Nem o chope
Conseguiu me libertar dessa mulher
Nem o chope, meu Deus
Nem o chope
Meu sofrimento é o que ela quer

Mas como não conseguia sair desses versos, ligou para o parceiro Benedito Lacerda pedindo que viesse rápido, pois tinham de terminar uma marcha para ganhar o Carnaval daquele ano. Benedito chegou com o compositor Evaldo Rui. Escutaram a música, mas nada de pintar a continuação. Acabou que a melodia da segunda parte foi sugestão de Messias, que teve a ideia de “chupar” um trecho de conhecida canção russa (não lembro mais o nome). Em cima dessa sugestão, já completamente de porre, eles encaixaram o resto da música, que foi lançada por Nelson Gonçalves no Carnaval de 1951, com o nome de “Nem o chope”: 

Já bebi demais Já sofri demais
Eu já fiz o que um homem não faz
Bebo pra esquecer meu sofrimento
E ela não me sai do pensamento

Ao me descrever essa tarde, Messias também recordou que foi nessa época que meu pai adquiriu o hábito de passar o copo gelado na fronte. Vi esse gesto muitas vezes, um hábito que ele manteve até o fim . Diz Messias que a sensação era que o gelo esfriava-lhe a cabeça — e as saudades de minha mãe. Ele passava a noite girando na testa, de um lado para o outro, um copo gelado ou cheio de gelo dentro. E o papo, o porre e as confidências eram sempre: “Dalva! Que falta ela faz”. Como Herivelto não podia se referir explicitamente a Dalva (ou a outras mulheres), ELA era uma imagem muito forte e usada com frequência por ele. Para lhe agradar, Messias se valia da mesma imagem em suas composições. Assim, conseguia fazê-lo se identificar com o tema e atraí-lo para a parceria. “Era a única maneira de me fazer notar: criar em cima da paixão do Herivelto.” Uma passagem de 1957 retrata bem o vulcão de sentimentos ocultos que ainda dominavam meu pai. É o momento em que foi composta a música “Pensando em ti”. Estavam os dois na varanda do sítio em Bananal, ao cair da noite. Messias cantou para meu pai os versos iniciais de uma música inspirada em Dalva e Herivelto:

Pode o céu
Cair por cima de mim Pode o sol
Deixar de me iluminar
Pode tudo Neste mundo Me acontecer
Só não quero é perdê-la Pois sem ela, meu Deus
Eu não posso viver Eu adormeço Pensando nela
Eu amanheço
Pensando nela Eu passo o dia
A pensar na vida dela Viver sem ela
É pintar
Sem aquarela

Herivelto gostou da ideia e trabalhou com ele na primeira parte da música, que ficou assim:

Eu adormeço
Pensando em ti
Eu anoiteço
Pensando em ti
Eu não te esqueço
É dia e noite
Pensando em ti
Eu vejo a vida
Pela luz dos olhos teus
Me deixa ao menos
Por favor pensar em Deus

De volta ao Rio, meu pai foi se encontrar com David Nasser, que, num momento muito inspirado, escreveu a belíssima segunda parte:

Nos cigarros que eu fumo
Te vejo nas espirais
Nos livros que eu tento ler
Em cada frase tu estás
Nas orações que eu faço
Eu encontro os olhos teus
Me deixa ao menos
Por favor pensar em Deus

Enquanto isso acontecia, Messias, no seu cargo de secretário, permanecia do lado de fora da casa, esperando por Herivelto, enquanto ouvia sua ideia e seus versos serem desenvolvidos por David. Quando ele me contou essa história e disse que tinha a letra que fizera (e batizara de “Pensando nela”) guardada em algum lugar, não o deixei em paz até me mandar um fax com essa letra original de “Pensando em ti”, que transcrevi para vocês. Junto recebi esse recadinho dele: “Feito na varanda de pedra do sítio em Bananal, que foi meu e acabou sendo do Herivelto… Na hora, falávamos de Dalva. Herivelto falando com o ódio de quem ama e sente saudade!”. Messias explica também que o tema que propusera tinha tal identificação com Herivelto que acabou rendendo duas parcerias dele com David. Além de “Pensando em ti”, gravada por Nelson Gonçalves, compuseram no mesmo clima “Se adormeço”, gravada por Gilberto Milfont:

Se adormeço
O teu vulto invisível
A meu lado se deita
E a noite é mais noite
O sonho é mais sonho
A teu lado e sem ti
Se acordo e te vejo distante
Mergulhada nas sombras
Na noite de uns braços estranhos
Já fartos de ti
Contigo e sozinho
Sonhando no sonho
Na noite da noite
No frio silêncio
De todo abandono
Eu me lembro de ti
E te aperto nos braços
Te beijo na boca
Enxugo teu pranto
Mas acordo abraçando
Meus braços vazios
Vazios de ti

Outra música para a minha mãe composta em parceria com José Messias foi “Jurei”, também de 1957: 

Jurei, tantas vezes jurei
Jurei, nunca mais perdoar
Porém, toda vez que ela vem
Meu perdão implorar
Não sei negar
Ela faz de mim
O que bem quer
Me acostumei a essa mulher
Quem muito apanha
Termina perdendo a vergonha

Conta Messias que todos esses versos foram compostos exclusivamente porque meu pai não conseguia parar de pensar em minha mãe. Mas é claro que nada disso podia trans-parecer. E, para não dar nenhuma bandeira, essas músicas eram mostradas para Lurdes como sendo a manifestação de algum amor de Messias.Para todos os efeitos, era Messias quem es-tava sentindo aquilo tudo. Ele confirmava e segurava todas as barras. Somente agora, passados quase cinquenta anos, com todos os envolvidos já mortos (Dalva, Herivelto e Lurdes), é que Messias se sentiu liberado para me confidenciar essas experiências com meu pai, o amigo e mestre dos primeiros tempos. Quando conversamos, perguntei também por que na parceria de “Pensando em ti” não saiu seu nome, mas apenas o de David. Com a generosidade que lhe é peculiar, respondeu: “Porque, na época, teu pai amargava um período terrível de desprestígio e ódio do grande público. Por onde passava, era desprezado e teve até o carro apedrejado. E como o David Nasser tinha um prestígio enorme como jornalista, foi obrigado a se segurar nele para tentar minorar seu drama e melhorar sua imagem . Por isso, essa minha homenagem a Dalva ficou embutida numa parceria só com o nome dele e do David”. Todas essas obras e confidências vêm realmente reforçar minha análise sobre o comportamento e os sentimentos de meu pai em relação à minha mãe. Vejo que o homem Herivelto, à parte seus compromissos com a casa, os filhos e os assuntos mais corriqueiros, ficava sempre subjugado pelo artista Herivelto. Este tinha mais desenvoltura, sentido criativo e encontrava mais prazer e amplitude ao mostrar sua verdadeira razão de viver. A música e sua obra determinavam-lhe os passos. Até mais que o coração. Pelo menos enquanto ele não se permitiu morrer por dentro. Nos meses em que minha mãe esteve in-ternada, durante todo o tempo no leito do hospital, antes de morrer, o que mais ela desejou foi que meu pai a visitasse. Devido a meu trabalho, ficava muito com ela nas madrugadas. E, naquele silêncio aterrador do hospital, ela me fez prometer que pediria a ele para ir vê-la. Nunca foi. Quando falei com ele, me oferecendo para acompanhá-lo numa visita durante a madrugada, horário em que não havia fãs nem a imprensa, ele me deu umas desculpas esfarrapadas, alegou que não queria mais ter seu nome envolvido nos jornais, blá-blá-blá. Como filho (e minha sensibilidade me autoriza a dizer), acho que ele não foi lá por medo. Medo de constatar que ali falecia o amor maior de Herivelto Martins, a mulher-inspiração da sua vida. A companheira de uma época brilhante, do seu momento mais fértil, quando a sua melhor obra aconteceu para o mundo e era ovacionado ao lado de minha mãe com o verdadeiro Trio de Ouro. Já vimos como a grande explosão de cri-atividade de meu pai aconteceu ao lado de Dalva. E o auge de sua realização artística também . Em minha percepção, acredito que tudo isso tenha influenciado sua posição de não ir ver minha mãe no hospital. Aquela era uma realidade muito forte para ser vivida por ele tanto tempo depois. Iria mexer demais com o seu mundo interior, e anterior. Qualquer outra explicação oferecida por quem quer que seja será pura especulação ou tentativa de encobrir a razão verdadeira. Medo, covardia. Medo dos fãs de Dalva. Sentimentos que até compreendo, mas que levaram muita gente que acompanhou esses fatos a condenar meu pai. Sem necessidade. Embora a história deles já fizesse parte do inconsciente coletivo, haviam se passado mais de duas décadas da separação, e mesmo que visitá-la fosse apenas uma atitude política para o público que os observava, teria ajudado muito a humanizar a imagem de meu pai. Ele perdeu a grande chance de se redimir de todo o acontecido não fazendo esse gesto da visita à minha mãe no leito de morte. Tentei dizer isso, mas ele não me entendeu. Preferiu ouvir outras vozes, que o aconselharam a não ir, mas que não pagaram o preço que ele teve de pagar: o julgamento da história.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*





53 - Adeus, minha Praça Onze, adeus

Na semana que antecedeu a morte de meu pai, tínhamos ido ao Rio assistir ao show de dois novos artistas, João Marcelo e José Carlos, lindas vozes masculinas que estavam fazendo uma homenagem a ele. Era o show Herivelto a gente canta assim. Fui com minha mulher, Ana, e combinamos de nos encontrar lá com Hélio, minha cunhada Sara, Yaçanã e meu pai. Tratava-se de uma síntese emocionante da obra de meu pai, e realmente desfrutamos muito do trabalho deles. Emocionado, com a homenagem Herivelto chegou às lágrimas. Sentado ao lado, vi a emoção tomar conta dele. Em determinado momento, pensei em lhe segurar a mão como prova de carinho. Para minha angústia, não consegui. Briguei comigo mesmo a noite inteira, travando uma batalha com meus pensamentos, mas não consegui segurar a mão de meu pai. Olhava para aquela mão envelhecida repousada sobre a perna, bem debaixo dos meus olhos, tão perto de mim . Mas tão longe. Por mais que quisesse, não conseguia levar minha mão até a dele. Dominado por essa sensação de impotência, aproveitando a semi-escuridão da casa noturna, chorei mansamente. Foi estúpido. Mas não consegui. Na verdade, uma barreira em nossa intimidade havia sido construída ao longo do tempo. E não foi possível transpô-la num momento tão decisivo. Pode parecer estranho, mas tenho um sentimento profundo de emoção quando falo de meu pai. A lembrança dele no palco, sozinho ou ao lado de minha mãe, leva-me muitas vezes a chorar. E, quando fico tomado dessa emoção, me vem sempre à mente minha mãe falando de sua “saudade de não sei o quê”… Hoje, acredito que essa mesma emoção tomava conta dela em seus momentos de entrega interior, levando-a às recordações de um tempo muito marcante e, consequentemente, às lágrimas. Meu pai teve esse poder. Ele foi muito forte. Ao lidar com minha mãe, ao lidar com a música e ao lidar com os filhos. Só que qualquer emoção em relação a ele que nos chegue à mente vem sempre acompanhada da vontade de tê-lo abraçado, ou ter tocado em suas mãos, ou sentido com mais intimidade sua presença. Isso jamais foi possível. Razão pela qual, lamentavelmente, uma semana antes de sua morte, eu não consegui segurar sua mão. Na morte de meu pai não houve a “pre-paração” que uma doença grave natural-mente traz aos parentes. Foi uma coisa repentina. E rápida. Havia estado quatro dias antes com ele no show Herivelto a gente canta assim, dirigido pela querida amiga e atriz Cristina Santos, com direção musical de Leandro Braga, outro grande talento e amigo. Nesse show, em 1992, fui surpreendido por facetas ainda desconhecidas para mim desse casal de amigos: a maturidade de Cristina no roteiro e na direção do show (convidei-a para dirigir um show meu, meses depois) e a inventividade musical de Leandro, que fez uma leitura maravilhosa da obra de meu pai, a ponto de ele ir cumprimentá-lo dizendo: “Maestro, muito obrigado pelo que fez com minhas músicas. Jamais pensei que eu fosse tão moderno”. Meu pai ficou tão impressionado com o show que resolveu apadrinhar o trabalho de todos e já no dia seguinte começou a ligar para os amigos importantes da área musical, como Ricardo Cravo Albin, Albino Pinheiro e Sérgio Cabral, convidando-os para assistir com ele ao show na semana seguinte. Ele me ligou contando que iria reunir esses amigos na quinta ou sexta-feira. Eu estava em São Paulo e me preparei para viajar para o Rio. Queria estar na reunião, só para compartilhar com ele a emoção daquela homenagem tão sensível e bonita, junto com seus amigos. Mas a semana seguinte não veio. Na noite de quarta-feira, logo depois do Jornal Nacional, recebi um telefonema de Bily dizendo que nosso pai havia passado mal pela manhã e fora levado em uma ambulância para o Hospital Samaritano. Essas palavras me deixaram assustado, além de muito bravo por estar sendo avisado tanto tempo depois. Discutimos, meu irmão disse que não me avisaram antes porque não havia motivo para me preocupar, era apenas um mal súbito, e que eu não precisaria vir ao Rio, a não ser que algo se complicasse. Apesar dessas palavras, não conseguia me tranquilizar. Na época, morava na Serra da Cantareira, em São Paulo, um verdadeiro paraíso em meio a uma reserva florestal, mas com o inconveniente de ser afastada da cidade e muito distante do aeroporto onde de-colava a ponte aérea para o Rio. Aprisionado em minha impossibilidade de estar perto de meu pai naquele momento, liguei para Hélio, mas não o encontrei em casa. Cada vez mais nervoso, liguei para o hospital e chamei a enfermeira-chefe, tentando saber o que real-mente estava se passando. Ela disse que meu pai já havia saído da UTI e estava em observação. Havia tido uma complicação nos pulmões. Ao ouvir a palavra UTI, meu coração disparou e pensei: “Meu Deus, então é grave!”. Minha cabeça rodava, cheia de suposições. Voltei a falar com Bily e ele disse que o médico também tinha dito que o mo-mento clínico de meu pai era de observação. Por volta das onze horas, no dia 16 de setembro de 1992, o telefone tocou pela ter-ceira vez: meu irmão Bily avisando que nosso pai havia morrido. Minha reação foi muito forte. Contou-me Ana (incrível, apaguei tudo da lembrança!) que comecei a chorar desesperadamente, enquanto socava as paredes e portas do nosso quarto, gritando que ficara sozinho no mundo. Assustada, Ana conseguiu aos poucos me acalmar. Ou, pelo menos, me tirar daquele transe em que mergulhara. Uma tristeza profunda tomou conta de mim, uma sensação estranha me comendo por dentro. Não me conformava de nessa hora estar tão longe de meu pai. Com minha mãe, houve uma longa pre-paração para o desfecho. Já se previa havia mais de um ano seu fim . Com meu pai, no entanto, estava sendo completamente diferente. Foi uma dor súbita. Uma dor imprevisível. Afinal, havia bem pouco tempo, ele fizera um check-up e os médicos disseram que tinha o organismo de um rapaz. Ele era muito saudável e não tinha nada de senil em seus 80 anos. Parecia um pesadelo: havíamos estado juntos fazia menos de uma semana, falamo-nos no dia anterior. Eu queria ir imediatamente para o Rio, mas não havia mais avião naquela hora da noite. Quis então ir de carro e Ana, com paciência, me fez ver que era bobagem, pois chegaria de carro na mesma hora do primeiro voo da ponte aérea. E, para me “convencer” melhor, deu-me um calmante forte e me fez dormir. Essa triste surpresa foi muito dolorida para todos. Em pleno ano de comemoração e homenagens aos seus 80 anos, Herivelto Martins morria repentinamente. Os amigos, a família, o público brasileiro choravam a perda de um de seus maiores poetas. Sei que ao longo de sua vida meu pai não cativou o carinho, a simpatia e a camaradagem necessários para que, em seu momento final, o povo rendesse uma homenagem efusiva e apaixonada. Mas o Brasil demonstrou que sabia estar perdendo um artista de envergadura. A imagem dele, quatro décadas depois, ainda era respingada por aquele Herivelto dos anos 50. Estava sem brilho, sem aber-tura para as novas ideias, e não se permitiu encaixar num contexto de vida mais leve e descontraído. Mantinha-se distante do povo, embora, de vez em quando, recebesse manifestações públicas de reconhecimento ao seu talento, surpreendendo-se pelo grande carinho demonstrado. Viajei para o Rio sentindo um grande vazio, a sensação de perda. Quando saltei do avião com meu filho Bernardo, que com apenas onze anos fizera questão de me acompanhar (Herivelto foi o único avô que meu filho conheceu, pois os pais de Ana faleceram prematuramente), e fui para a Câmara dos Vereadores, onde seu corpo estava sendo velado, ainda não acreditava no que estava vivendo. Perdia uma imagem que fora construída dentro de mim desde o berço, na casa de cômodos da rua do Senado. Perdia a palavra que emocionava o mundo à minha volta enquanto eu crescia. Perdia a inteligência que formou minha sensibilidade e meu gosto pela música. Não teria mais a contradição que meu pai representou: um poeta maior falando do amor e da beleza da vida, mas também o marido que bate e destrói tudo em sua volta. O homem que me mostrou as cores da vida — desde a mais escura até a mais clara e brilhante, em todas as tonalidades e forças. Não sei se todo adulto tem essa sensação desesperadora de desamparo ao perder um ente querido, como senti quando perdi meu pai. Uma criancinha sem pai. Creio que o tempo nos faz crescer, na marra! Mas num momento como esse aflora a nossa criança interior. Eu me senti órfão. Meu sentimento em relação a meu pai era de respeito e ad-miração. Se ele acertou ou errou como pai, já não importa mais. O que ficou de seus ensinamentos, da disciplina e do amor ao trabalho, isto sim é o que conta. Assim mesmo, só para mim, como filho. O restante, o tempo há de colocar em seu devido lugar. Como acontecera na morte de minha mãe, mais uma vez eu estava em cima de um carro do Corpo de Bombeiros, levando um dos meus pais para a morada final. No caminho da Câmara para o Cemitério São João Batista, algumas pessoas acompanhavam a passagem, acenando, outras até choravam o poeta que tinha dado tantas alegrias nas canções. A partir daquele momento, nada mais importaria, fosse para amar ou desprezar. Os pecados haviam morrido com ele. Tudo morrera com ele. Menos a sua música. Já não fazia a menor diferença como ele expressara sua personalidade ou sua conduta pela vida afora. A partir daí, restaria de Herivelto Martins a herança de sua obra maravilhosa. Tenho consciência de que o tempo já está se incumbindo de torná-lo um mito. Grande e forte. Indestrutível e respeitado. A eternidade se prepara para colocá-lo no mais alto grau de importância. Um verdadeiro ícone da música popular brasileira. 



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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*





52 - Meu irmão Billy, parceiro de uma vida

Bily tem uma visão de vida bastante diferente da minha, claro. É uma pessoa dotada de muita sensibilidade. Emotivo, mas com uma emoção toda interiorizada. Não se extravasa com facilidade. Às vezes, sinto como se ele tivesse vergonha dos sentimentos que tem, então os tranca. Cada um a sua maneira, digerimos as tormentas que pas-samos, juntos ou separados. Sinto que ele sempre procurou encontrar certas respostas ou apoios no modo como meu pai organizou a vida, na certeza de que tudo, ou quase tudo, pudesse estar mais se-guro quando colocado em seu devido lugar, sem dúvidas ou incertezas. Eu diria que a nova vida de meu pai com Lurdes o encantava um pouco mais. A casa, a mulher, os filhos, a organização de uma família, a situ-ação estável e sem sobressaltos, o caminhar sem riscos, enfim, a estabilidade burguesa. No íntimo, Bily é um indivíduo que perseguiu sempre a segurança, muito mais que a incerteza, embora a incerteza pudesse acenar com possibilidades maiores. Um exemplo: sempre tive a impressão de que ele gostaria de ser cantor, artista. Teria inclusive as condições básicas para isso: afinação, belo timbre, sensibilidade e… muito DNA. Porém, não foi o que aconteceu, pois faltou o fundamental, a vocação, que ele não tem . Pois é só a vocação, e não o talento, que nos dá a força necessária para correr riscos, trilhar as inseguranças e renascer a cada vez que pisamos o palco. Sem incertezas não existe o artista. Não existe a criação. Mas, enfim, ao dar prioridade à segurança, meu irmão Bily construiu uma bonita carreira de homem de TV na mais importante emissora do país, a Globo. Ficou na área artística, mas não quis pagar o preço de conhecer o êxtase total do artista: viver entre o céu e o inferno. Chegou perto, porém seguiu seu destino: a busca da estabilidade profissional. Talvez por ser o mais novo dos filhos de relações anteriores de meu pai, ele foi o que mais se ligou a Lurdes. Encontrou nela uma confidente e uma mentora e mantiveram um relacionamento carinhoso e afável. Nunca precisou discutir com meu pai sobre seu comportamento no mundo, como acontecia com nossa mãe. Não precisava chamar sua atenção por beber a mais nem sentir vergonha por algum vexame público que ele pudesse cometer. No novo modo de vida de meu pai, não precisava ter de estar sempre perdoando por condutas nem sempre de acordo com seus princípios ou os da sociedade. Por essas coisas todas, era muito mais fácil para ele o convívio com a casa de meu pai, na Urca. Conseguiu até se tornar íntimo dessa nova estrutura, pois tudo o que ele queria era se sentir parte de algo tão seguro, tão previsível. Nascido praticamente no dia do aniversário do meu pai — Bily é de 29 de janeiro e meu pai, de 30 —, eles têm muita coisa em comum no temperamento, o que facilitou sua adequação às regras dele. Talvez porque elas tinham a sua medida. Da mesma forma que a medida (ou a falta disso) de minha mãe tem muito mais a ver comigo. Como parceiros de uma odisseia gigantesca para duas crianças, Bily e eu desenvolvemos uma liga muito forte que vai além do amor de irmãos. Ele foi dotado de um amor enorme por mim e sempre foi extrema-mente carinhoso e atencioso comigo. Também tenho por Bily o maior amor do mundo. Aliás, não poderia ser diferente. Diferentes são apenas nossos pontos de vista em relação à vida que levamos, mas jamais discordamos de uma coisa: o que vivemos foi nosso e nos pertence. Nos ensinou. Moldou nossa filosofia de vida. Se divergirmos, é sempre uma divergência sadia, para que possamos nos oferecer, e a nossos filhos, um caminhar melhor do que tivemos, com o orgulho de quem teve um tesouro desde que nasceu. Sermos filhos de Dalva e Herivelto!



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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*





46 - Lurdes, a Rainha-mãe

A personalidade calma e firme de Lurdes, além de conquistar meu pai, aos poucos foi conquistando também a confiança de um grupo seleto de frequentadores do centro espírita. Além de conselheira espiritual, fizeram dela sua confidente. Dessa forma, essas pessoas também passaram a ter acesso à casa na Urca, onde seus conselhos eram oferecidos num clima de mais intimidade. Ou até uma sessão espírita particular. Era um entra e sai, a qualquer hora do dia e da noite. Chegavam querendo logo subir para falar com Lurdes. Em cima, no quarto de casal, se desenvolvia a continuidade do centro. Ela os recebia e eles falavam, falavam … a ponto de Lurdes saber a vida completa de cada pessoa que subisse aquelas escadas. Muita gente da família também buscava sua palavra. Assim, ela passou a centralizar muita informação em suas mãos. E, é claro, isso lhe deu um poder fantástico. Tornou-se fácil ter o controle da família, pois todo e qualquer assunto passava por ela. Era o domínio total. Como acontece com frequência em torno de líderes espirituais, aos poucos foi se formando em volta de Lurdes uma grande corte, composta de artistas da Globo, políticos importantes, empresários influentes. E lá em - baixo, meu pai, que sempre tivera na vida espiritual uma forma de expiação do passado e uma busca de aprimoramento de sua conduta, foi ficando num papel de coadjuvante. A ele, que sempre havia sido o centro das atenções, restava apenas recepcionar quem ia procurar Lurdes. Ao mesmo tempo, via tantas pessoas importantes se mostrarem dependentes e obedientes da palavra e da orientação de Lurdes que experimentava certa sensação de superioridade. Fazia meu pai experimentar também seu quinhão de poder por meio da esposa. As muitas pessoas que transitavam entre o centro e a casa da Urca eram poder-osas, tinham força no mundo artístico, na política, tinham força financeira. Mas é claro que muita gente humilde e pobre também recorria a eles no centro. Nesses casos, meu pai e Lurdes ajudavam nas “obrigações” pedidas por algum guia do centro, bancando todo o material necessário. Como já disse, ele era muito sincero, muito honesto em sua conduta no centro espírita. O crédito que desenvolveu ao longo dos anos à frente do seu centro foi enorme. No entanto, esse esquema full time de mãe de santo da Lurdes foi trazendo consequências para a vida do casal. Primeiro, ela foi ficando muito fraca de saúde. A energia gasta para receber as entidades no centro, a continuidade desse trabalho dentro de casa, tudo isso era desgastante ao extremo. Mas, mesmo com a saúde debilitada (colocou ponte de safena duas vezes), continuava a fazer de seu quarto o ponto de reunião de pessoas especiais, além de ir ao centro em alguns sábados. Consequentemente, já não tinha mais tempo nem disposição para acompanhar meu pai no trabalho ou em passeios. Com o entra e sai das pessoas em casa, suas vidas foram perdendo a privacidade e intimidade tão necessárias. Acho que Lurdes ficou tão carregada com os problemas dos outros, noite e dia nessa posição de guia espiritual, que foi perdendo a capacidade de se desligar. Daí veio o problema da insônia. Eram tantas histórias, dramas, tristezas que não conseguia parar de pensar. Dormir tornou-se um sacrifício. Algumas vezes, como hóspede da casa, eu chegava de madrugada e ia até a cozinha comer algo. Ouvindo barulho, ela descia, completamente grogue, e sentava comigo para conversar. Eu quase não conseguia entender o que dizia. Tomava altíssimas doses de soníferos e mesmo assim só pegava no sono lá pelas cinco ou seis horas da manhã. Enquanto isso, meu pai, que dormia cedo, não a encontrava na cama no meio da noite e ia buscá-la na cozinha. Ela subia cambaleando e, claro, não conseguia dormir antes de o dia amanhecer. Isso deve ter sido um grande sofrimento para ela. Lurdes foi perdendo os limites entre o real e o espiritual, adotando uma posição de dona da verdade, em nome de seu dom . Não questiono o dom espiritual, mesmo porque presenciei muita gente ser confortada por esse dom, nem falo do trabalho de Lurdes junto aos estranhos. O que questiono é ela querer controlar a vida de todos na família em nome de suas privilegiadas informações do além . Passou a ser a rainha-mãe, a quem todos tinham de bater cabeça e submeter à sua análise seus problemas, recebendo soluções nem sempre tão condizentes com o que o assunto pedia. Sem querer julgar, apenas constatando sua forma de ser e levar a vida, posso dizer que Lurdes não permitia que nada acontecesse à sua volta sem que antes passasse pelo seu crivo e conhecimento. Fazia questão de dominar totalmente os fatos, assumindo uma superpostura: de aprovação ou não do que acontecia perto de si. Era assim com o centro, com os filhos, era assim com os “angustiados” que a procuravam e com meu pai. Pelo fato de não ter essa ascendência sobre mim ou sobre meus irmãos Hélio e Hélcio, sua atitude conosco era cordial, mas sem profundidade. Porém, no que pudesse exercer algum controle sobre nós, não pedia licença ou consentimento. Recordo quando tive um problema sério de saúde, uma pericardite aguda, e comecei a ser tratado em São Paulo, onde morava. Assim que tive uma melhora, resolvi passar o Natal com meu pai, no Rio. No dia 31 de dezembro, tive uma recaída e fui levado às pressas para o hospital. Fiquei na UTI algum tempo, antes de ir para o quarto. Todos ficaram preocupados comigo, parentes, amigos e fãs, e queriam me ver. Recebia muitas visitas e gostava disso. Me sentia querido e importante. Certo dia, apareceu Lurdes dando ordens e determinando quem deveria ou não me ver. A que horas eu podia ter visitas. Tentei ponderar, pedindo para ela não agir assim, pois, dentro do possível em minha recuperação, não fazia restrição a quem fosse me visitar. Todos mereciam minha consideração — aprendi isso com minha mãe. Não houve jeito. Ela desconversou um pouco e começou disfarçadamente a pro-mover uma escala das visitas. Ao perceber sua insistência, dei um grito no quarto e comecei a dizer, da forma mais calma possível, meio entre os dentes, que se ela quisesse me visitar seria um prazer enorme, mas que não se metesse no assunto das minhas visitas. Ela saiu pisando duro, contou para meu pai (do seu jeito, com certeza), e a partir daí não recebi mais a visita de ninguém da Urca. Fiquei chateado, pois, é claro, fazia questão da presença do meu pai. Não havia limites para Lurdes… Sua sede de comando era tão desmedida que atingiu minha mãe, numa situação inusitada e distorcida. E erradamente alimentada pela imprensa na época de sua morte, criando até hoje uma falsa ideia na cabeça das pessoas. Meu pai menciona em sua biografia que nos últimos tempos Lurdes se tornara confidente, conselheira e amiga da minha mãe. Para mim, e só para mim, isso retrata uma posição bastante confortável dele. Vejamos: ao ter a própria mulher empenhada em ser uma possível amiga de Dalva e em solucionar alguns de seus problemas, ele nos dá a impressão de que estaria aplacando cer-tos sentimentos. Que não teriam chance jamais de serem aplacados se não tivesse uma pessoa como Lurdes para substituí-lo ou fazendo o que ele deveria ter feito. Na verdade, deveria é um tempo de verbo ridículo, mas o que quero dizer é que meu pai, de forma cômoda, permitiu que Lurdes se comunicasse com minha mãe a ponto de oferecer ajuda espiritual. Por que não? Ela fazia isso com muita gente, alguém poderá dizer. Se minha mãe estivesse querendo o conforto de alguma mãe de santo, poderia ter lançado mão das mais respeitadas do país, que nos procuravam a toda hora oferecendo apoio espiritual. Lurdes não era a opção mais conveniente para ela. Porém, em sua carência e fragilidade, minha mãe aceitou esse assédio, se deixando enredar por tanta generosidade. Não era pessoa de colocar nenhuma malícia na atitude dos outros. Era muito aberta e, mais importante ainda, não cultivava ódios. Mágoas, sim. E, em sua ingenuidade, penso que também acreditava que, ao permitir a aproximação de Lurdes, teria mais chance de rever meu pai. Quem poderia impedi-lo de ir (sua atual esposa) não o faria, pois já haviam se confraternizado e colocado uma pedra em cima de tudo. Ledo engano. Acho que, ao ir com frequência visitar minha mãe no hospital, como que procurando substituir meu pai, Lurdes espelhava na realidade apenas uma postura arraigada de quem queria manter até o último instante controle total dos acontecimentos. Nada mais. Afinal, era meu pai que minha mãe queria ver, e não ela. Se quisesse realmente ser generosa, em vez de apenas posar, bem que poderia ter aproveitado seu domínio sobre meu pai intercedendo a favor de Dalva e, com seu apoio, dar a coragem necessária a ele para vê-la nos momentos finais. Vou mais longe ainda. Acredito que para Lurdes, que tão bem conhecia o interior de meu pai, Dalva sempre representou a grande rival. Aquela que reinava em sua emoção. A mulher-inspiração que nunca saiu de suas veias e de suas rimas. Ela devia considerar muito arriscado deixá-lo ficar frente a frente com um passado que não morrera em seu coração. E ter depois de colar os cacos novamente. Posando de boazinha para o mundo, como confidente e amiga de Dalva, Lurdes procurava apagar o próprio papel na separação deles. Por ela, meu pai largou tudo: a esposa, os filhos e o Trio de Ouro, seu grande oxigênio. Sua postura era regida pelo peso da consciência, sabendo em seu íntimo que o processo que se finalizava, agonizante, naquele hospital, havia começado num voo da Real havia mais de 25 anos. Acredito que foi uma tentativa extremada de atenuar sua responsabilidade em toda a história, mas daí a se tornar amiga de minha mãe vai uma distância enorme. Tiro meu chapéu para a sagacidade da “rainha-mãe”, mas ela não conseguiu me convencer. 



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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*





51 - Bandeira branca, eu peço paz

No início dos anos 70, como uma fênix, minha mãe renasceu do esquecimento em que mergulhara e voltou a brilhar nos palcos e na programação das rádios. Sua saúde já estava totalmente comprometida e a fazia alternar os palcos com os hospitais. Teve que se sub-meter a punções para retirada de líquido — seu abdômen estava enorme —, e na primeira, realizada no Hospital Pedro Ernesto, na Tijuca, os médicos confirmaram o diagnóstico de cirrose hepática. Já se desconfiava disso desde o desastre no Túnel Novo. Ainda internada, ela recebeu a visita de Max Nunes e Laércio Alves, que a convidaram para interpretar uma música deles num festival de Carnaval. Encantada com o desafio, ela aceitou, pedindo um tempinho para se fortalecer. Ao deixar o hospital, foi direto para o estúdio da Odeon gravar “Bandeira branca”. Eu tinha acabado de chegar do exterior. Ao ser sagrada uma das vencedoras, minha mãe fez questão de que eu subisse ao palco do Maracanãzinho com ela para receber o prêmio. Sem ter nada a ver com a festa, conduzindo-a por uma passarela enorme até a frente do palco, percebi quanto estava insegura e frágil ao se apoiar em mim . De cima daquele palco, abraçado a ela, provei a sensação divina de ouvir 20 mil pessoas gritando o nome de Dalva. Emocionada, ela chorava, apertando minha mão, ao receber aquela homenagem grandiosa e cheia de amor, o Maracanãzinho inteiro cantando a marcha-rancho “Bandeira branca”. Sobre essa participação no concurso, Maurício Sherman me contou uma história. A marcha não havia entrado para a seleção das trinta finalistas do festival de Carnaval de 1970, na TV Tupi. Ficou apenas na relação de reserva feita pela organização para eventuais problemas. Era a número 1 nessa lista. Por obra do destino, quando a produção do concurso teve de desclassificar por fraude uma das finalistas, Sherman, então diretor da Tupi, mandou avisar os autores de que “Bandeira branca” havia entrado para a final. A música entrou no concurso de Carnaval defendida por Dalva, tirou o terceiro lugar e se consagrou para o resto da vida. Transcendeu o universo carnavalesco e se tornou um clássico da música popular. E hoje, tenho certeza, ninguém se lembra nem do primeiro nem do segundo lugar desse concurso… Nesse período, minha mãe estava pro-fundamente triste. Mesmo que algumas coisas estivessem acontecendo para que ela pudesse se recuperar, mesmo que o sucesso trouxesse alguma alegria, mesmo assim um vazio e um sentimento de perda haviam tomado conta dela. Em toda a sua trajetória de vida, não conheceu a glória sem enfrentar a dor. A destruição, a fraqueza diante da bebida e um descontrole total da própria vida eram evidentes. Depois de ficar longe dela tantos anos, passou a me requisitar muito, fazendo questão de que eu estivesse com ela em todos os lugares. Foi assim quando resolveu dividir comigo a felicidade da consagração de “Bandeira branca” — pude sentir a imensidão do amor de minha mãe e quanto era generosa. Ao mesmo tempo, vi como estava frágil e angustiada. Nessa minha volta ao Brasil, ainda tive a felicidade de dividir o palco com minha mãe em alguns shows no Rio, São Paulo e Salvador. Trabalhar com ela era sempre uma grande fonte de prazer e aprendizado para mim . Além de uma verdadeira emoção, penso que desde os tempos de criança, ao vê-la no palco, no íntimo, sonhava com isso. Nosso último trabalho juntos foi uma temporada no Vivará do Rio, mais tarde Scala, num show produzido por meu irmão Bily e por Nuno. Ficamos uns dois meses em cartaz. Sentia que ela estava feliz e orgulhosa de trabalhar comigo. Nós três nos unimos para evitar que ela bebesse. Mas seu organismo estava cada vez mais fraco. Quem tem alcoólatra na família sabe que o problema vai se agravando, porque a pessoa já não se alimenta mais, vive da bebida. E o organismo fica sem defesa. Assim, minha mãe começou um entra e sai de hospitais. Com a cirrose, o abdômen acumulava muito líquido e ela tinha de ser inter-nada para os médicos fazerem punção em sua barriga. Esse quadro durou por volta de um ano. Até que seu estado se agravou e ela foi inter-nada na Casa de Saúde Arnaldo de Morais, de onde não mais conseguiu sair. Nesse hospital, foi tratada com grande carinho e devoção pelo dr. César Barroso, que comandava uma junta médica empenhada em salvá-la. Nos três meses em que passou in-ternada, o quadro clínico de minha mãe foi piorando. Surgiram hemorragias, que consumiam sua pouca força e exigiam dos amigos e dos fãs muita doação de sangue. Seu estado de saúde mobilizou mais do que os fãs de Dalva: mobilizou o país e a imprensa. O boletim médico ocupava as primeiras páginas dos jornais. Os fãs faziam plantão 24 horas por dia em frente do hospital. Atendíamos a ligações de pessoas de todo o país informando que estavam fazendo novenas e vigílias pelo seu restabelecimento. Éramos procurados por padres, pastores, mães de santo e rabinos, oferecendo a solidariedade de suas fés. Os colegas artistas entravam e saíam do hospital a toda hora. Conversando com Emilinha Borba, ela se lembrou de quando foi com o cantor João Dias fazer uma visita à minha mãe. Estavam de saída para São Paulo, onde iriam participar de um programa na TV Record. Vendo a grande despesa que ela estava tendo no hospital e recordando a generosidade que Dalva sempre tivera com todos, combinaram durante a viagem de pedir aos colegas para doarem seus cachês do programa de TV para o tratamento. Todos os artistas cooperaram . E Emilinha voltou ao hospital para nos entregar o dinheiro arrecadado. Toda essa solidariedade nos emocionava. Mesmo nos momentos em que não podia receber visitas, os amigos se acotovelavam na sala de espera à cata de notícias mais detalhadas. O apoio e o carinho com minha mãe nos sensibilizavam e nos davam força naquele momento difícil. Em meio a esse turbilhão, eu estava ensaiando com Leny Andrade o show Gemini 5, que iria estrear no Teatro Santa Rosa sob a direção de dois talentosos amigos, Mièle e Ronaldo Bôscoli. Podem imaginar o estado psicológico em que me encontrava? Ter-minava os ensaios e corria para o lado dela. O estado de minha mãe se agravava cada vez mais e ela entrou em coma pela primeira vez. Ficamos em alerta total. Não queria sair de perto dela. Interrompi os ensaios. Solidários e entendendo o meu momento, Mièle e Bôscoli chegaram a me oferecer o adiamento do show. Graças a Deus, ela ficou em coma menos de dois dias. Quando acor-dou e me viu a seu lado, perguntou: “O que o senhor está fazendo aqui? Não é hora do seu ensaio?”. “Ora, mãezinha, estou sem cabeça pra trabalhar. Estou preocupado com você. Quero que fique boa.” “Nada disso! Trate de ir ensaiar. O senhor tem um show para estrear. Isso é o que importa.” Estreei o show debaixo desse clima. Edith estava morando comigo num apartamento da avenida Nossa Senhora de Copacabana e me ajudava no camarim do Teatro Santa Rosa. Ela conta que, quando minha mãe acordava, ia logo perguntando: “Cadê o Pery ?”. Edith explicava o que eu estava fazendo e que estaria no hospital mais tarde. Minha mãe conversava um pouco com ela, mas logo a despachava para ir cuidar de mim, das minhas roupas, da minha comida. Porque, na análise de minha mãe, eu não podia ficar sozinho. A morte de minha mãe foi um processo que aconteceu devagarzinho. Entra e sai de hospitais, comas, noticiário falando dela o tempo todo. As pessoas acompanharam com profunda tristeza os acontecimentos. Uns vinte dias antes de ela falecer, o dr. César, ar-rasado em sua impotência, se reuniu conosco e anunciou a morte clínica dela, dizendo que não havia mais nada que pudessem fazer. Era apenas uma questão de tempo. Ela es-tava em coma nesse dia. Foi quando sofri de verdade sua perda. Quando finalmente se foi, a morte já havia se pronunciado dias antes. Quem já teve um ente querido sofrendo durante muito tempo com alguma doença grave sabe o alívio que a morte desse ser amado nos traz. O que aprendi sobre o ser humano nesse lento processo de agonia foi impressionante. Se surgia a notícia de que ela havia sofrido uma hemorragia, o noticiário todo se empolgava e crescia em intensidade. Homenagens com seus discos tocando nas rádios. As pessoas indo para as igrejas fazer promessas. Enquanto durava o perigo do grande mal, durava o interesse. Quando ela ia melhorando, arrefeciam as homenagens, os discos tocavam menos, os jornais iam deixando de falar nela. Como todos sabem, felicidade não vende jornal. Acontecia outra hemorragia, pronto!, começava tudo de novo. Jornais, rádios, interesse geral. À medida que ela melhorava, acabava tudo. Um amigo me preveniu: “Não se espante, Pery, de ver que, à medida que as hemorragias passam e o estado dela melhora, o povo, os jornais vão per-dendo o interesse. O povo precisa chorar forte, de verdade. Não interessa chorar um pouquinho apenas”. Até que minha mãe se foi e o povo teve sua grande notícia: Dalva morreu. Foi uma comoção nacional. O Rio parou. Telegramas vinham de todas as partes do país. O fã e ex-presidente Juscelino telefonou de Paris, além de mandar telegrama. O presidente Médici mandou telegrama. Políticos, religiosos, artistas se solidarizavam com a família pela morte de Dalva. O país chorou, e chorou muito. As revistas O Cruzeiro e Manchete dedicaram números especiais a minha mãe. Eu só havia visto algo parecido na morte de Carmen Miranda. E muitos anos depois, com Ayrton Senna. O velório no Teatro João Caetano durou o tempo necessário para passarem por ela, acre-dita-se, mais de 100 mil pessoas. Foi feita uma máscara mortuária, como derradeira homenagem. No longo caminho para o Jardim da Saudade, em Jacarepaguá, o povo chorava. O subúrbio do Rio com - pareceu em peso ao trajeto, divulgado pela imprensa, por onde passaria o carro de bombeiros com o caixão. A grande notícia acabava de ser dada e o Brasil inteiro chorava o desaparecimento de sua Estrela Dalva. Nunca vou me esquecer de alguns detalhes daquele dia. Ela havia estado em coma por uns três dias e acordara na manhã do triste 30 de agosto de 1972. Passamos todo o resto do tempo ao seu lado. Lembro que, quando ela acordava do estado de coma, seus olhos pareciam ainda maiores, mais brilhantes e mais verdes. Num momento em que estava sozinho com minha mãe no quarto, ela acordou de um sono curto. Perguntei baixinho: “Tudo bem, mãezinha? Está se sentindo bem? Quer alguma coisa?”. Ela me olhou com aqueles olhos lindamente verdes, segurou minha mão, levou-a até seu rosto pálido e me disse docemente: “Força, meu filho! Pra frente, campeão! Eu parto, mas vocês continuam”. Como eu não conseguia me lembrar de mais detalhes do dia de sua morte, liguei para meu irmão Bily para esclarecer algumas questões. E aí pude entender o porquê do meu “esquecimento”. Como Bily ouviu do médico que nossa mãe não passaria daquele dia, ficou preocupado comigo. Sabendo da minha forma intensa de reagir, pediu ao médico para me aplicar um calmante bem forte. Por isso tudo é tão embaralhado na minha cabeça ao me recordar desse dia. Por volta das cinco da tarde, Bily, Gigi e eu assistimos ao seu último suspiro. O silenciar do seu canto. A partir do seu silêncio, o Brasil cantou sozinho, e ainda canta, o grito de paz que ela pediu em toda a sua existência, dedicada unicamente a cantar o Amor, e traduzido em: Bandeira branca, amor Não posso mais Pela saudade que me invade Eu peço paz Saudade mal de amor, de amor Saudade dor que dói demais Vem, meu amor Bandeira branca Eu peço paz! Acredito que a morte de minha mãe deve ter mexido muito com a cabeça do jornalista David Nasser. Além dos pedidos de desculpas que procurou fazer à minha mãe enquanto ela viveu, ele se sentiu responsável o bastante para escrever uns quinze dias de-pois de sua morte, na revista O Cruzeiro, uma declaração até bonita, não fossem as dores que ele mesmo havia causado a ela. O que ele publicou nessa edição dedicada inteiramente à minha mãe era, sem dúvida, um enorme, um gigantesco pedido de desculpas. Inteligentemente, oferecia um retrato da conduta e da personalidade daquela que nos deixara havia poucos dias. Ali já não havia outra cabeça a fornecer subsídios comprometidos pelo despeito de marido ferido, como meu pai fez. Ali estava o ser humano se redimindo, já fora do prazo, pelo papel de narrador oficial de tanta imundície. Foi bonito, mas ele escreveu para o mundo que o julgava, não para Dalva, que já não podia ler nem saborear sua atitude. Apenas sei que minha mãe jamais guardou ódio em relação a David ou a qualquer pessoa em sua vida. Era realmente imbuída de uma profunda capacidade de perdão para com o mundo. “Viveu sem ódio, morreu em paz”, como David escreveu.




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