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Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A ESCOLHA CERTA DE AMANDA GARRUTH

Depois de uma mudança abrupta em seu destino, esta artista carioca nos apresenta o primeiro fruto gerado a partir desse novo caminho trilhado por ela: Hora e lugar.

Por Bruno Negromonte


A vida nos traz reviravoltas interessantes ao longo de nossa passagem por ela, muitas vezes exige concessões diversas em detrimento aos nossos desejos, as vezes as escolhas não são julgadas como as melhores, porém foram aquelas que nosso coração e intuição definiram como melhor caminho. Hoje iremos abordar uma dessas estórias de vida interessantes, onde a protagonista ilustrará esta matéria com uma surpreendente biografia como vocês poderão atestar a partir de então.

Nascida no Rio de Janeiro, Amanda Garruth Maia Rodrigues só veio a se interessar no aprendizado do canto após os 20 anos de idade, a razão é justificada a partir das próprias palavras da artista, que diz: "Eu nunca planejei ser cantora nem nasci em uma família de músicos (apenas meu avô materno foi clarinetista na juventude)". Essa escolha de início se deu tendo por objetivo apenas seu hobby, onde as aulas eram vista como um grande momento de lazer. Porém, gradativamente, as técnicas e o música como um todo foi entrando na vida de Amanda e aquilo que era diversão foi ocupando espaços cada vez maiores na rotina da jovem, concomitantemente à faculdade de letras e a vida profissional como professora de inglês.



No entanto, essa opção de enveredar por caminhos antes não trilhados geralmente nos exige algo em troca que muitas vezes parecem sacrifícios inconcebíveis para alguns, quando na verdade nada mais é que a plenitude da satisfação pessoal para aquele que optou por tal escolha. E talvez essa seja a justificativa mais coerente para embasar o fato desta carioca abandonar o curso de mestrado em linguística aplicada para dedicar-se a carreira artística. Não que isso tenha ocorrido de maneira abrupta, mas gradativamente a música foi a envolvendo de maneira tal que acabou ocupando espaços antes dedicados a outras atividades. A expressão artística foi ganhando força de tal modo que o foco da artista mudou de direção a partir do abandono do mestrado e, embrenhando-se de forma intensa no universo musical, procurou descobrir mais sobre música. Em consonância com as aulas de inglês, intensificou as aulas de canto além de introduzir em sua rotina aulas diversas, dentre as quais aulas de violão, teclado e percepção musical, tudo para aprimorar a teoria daquilo que, na prática, já se faz perfeitamente harmonioso por natureza.

O seu começo se deu como o de muitos, e até chegar a esse trabalho que aqui vos apresento, Amanda Garruth também teve seu talento testado nos palcos. O início se deu através de recitais da primeira escola de música onde estudou e três anos depois, em 2006, veio o primeiro espetáculo ainda sem nome. Nesse período houve também diversas "canjas" em um restaurante de sua cidade, apresentando-se também, esporadicamente, em alguns eventos e em canais de TV fechada. No ano posterior já tendo gravado um CD-demo, decide gravar um single com duas músicas autorais, assumindo, então, um lado até então oculto de sua vertente artística: a letrista.



Esses primeiros trabalhos tiveram uma significativa repercussão, principalmente a partir de Cachoeiro de Itapemirim (ES), local escolhido para o lançamento do single e cidade natal da família da artista. A partir do single, veio o show “Vida-Ciranda”, que teve diferentes apresentações no RJ em 2008 e 2009. Em paralelo, foi montado o espetáculo “Lado B Inglês”, somente com músicas na língua inglesa, que teve apresentações pelo Rio de Janeiro ao longo dos anos de 2008 a 2010. Essas apresentações somadas com as teorias adquiridas ao longo desses anos de aulas trouxeram o respaldo necessário para que Garruth pensasse no primeiro registro fonográfico de maneira profissional. A proposta ganhou a adesão do músico Thiago Rudrea, que propôs uma parceria entre ele, o Studio Mercury (Israel Santana) e a artista, e assim surgiu esse primeiro registro, o álbum "Hora e lugar", sob produção de Rudrea.

O álbum conta com 11 faixas dentre as quais seis são de autoria da própria Amanda, são elas: "Cantiga do tempo (Passaredo)" "Delicadeza" (em parceria com Eric Brandão), "Opção derradeira" (com Vilmar Filho), "Falta" e "Vida-ciranda" (com Jorge Canaan) e "O monte" (com Thiago Rudrea). Da canção "Cantiga do tempo" (única canção composta apenas pela Amanda) vem os versos que originaram o título do álbum; "Delicadeza" vem como faixa-bônus e foi gravada ao vivo no estúdio, segundo a própria cantora a canção desde a pré-produção do disco que permeia seus desejos de incluí-la. É como a própria artista relata: "Ela esteve nas minhas melhores e teimosas intenções desde a pré-produção." Com o violão de Thiago Martins brinda-nos com uma referência singela à bossa nova (movimento musical que faz parte de sua formação musical). Há presente neste trabalho as duas canções que fizeram parte do single de estreia da artista que ganharam novos arranjos: "Vida-ciranda" (letra originalmente escrita para transformar-se no ritmo que a intitula, porém agora com mais vigor, volta neste disco com um arranjo que remete à diversidade dos ritmos brasileiros) e em tom meio jazzístico vem "Falta", a primeira parceria da artista.

O álbum segue com "Sua lenda" (Marcello Santos - Dubas), "Namorando o ar" (Gedley Braga e Lina de Albuquerque (Lavadeiras) - Tupy) (canção que conta com a participação do Dalton Coelho, diretor, regente e violonista do grupo vocal ‘Dá o Tom’), "Sim" (Vilmar Filho) que é, nas precisas palavras da intérprete, "uma oração em forma de música contemporânea". O arranjo, que remete ao tango e valoriza a percussão, deu à canção a obscuridade e a clareza que ela carrega, segundo a própria Amanda. Em "Opção derradeira", canção da lavra da artista, vem a ser a primeira e única melodia que ela letrou até então. Seria um "samba papo-cabeça contagiante", como define a artista.



Na trinca final de canções há "Percussìvé" (Felipe Azevedo), canção onde desde a primeira audição a artista a associou a uma de suas composições, não resistindo seque a letra nem tão pouco ao ritmo. Garruth acha essa composição uma canção inteligente de chão, de força e altamente brasileira; "O monte" (última canção a entrar no repertório, pois apesar da letra já ter sido escrita anteriormente pela Amanda, o Thiago Rudrea musicou especialmente para este projeto). Nela há a participação de dois coros (o primeiro com crianças e o segundo com algumas senhoras) dando um certo ar de singeleza a faixa. E por fim "Vertigem de altura" (Mário Pimentel e Fábio Mendes), um samba belíssimo e contagiante que aborda a lei do retorno, onde o protagonista além de um comportamento hostil, ignora a existência de Deus. Sem dúvida alguma esta canção tem tudo para configurar-se em um dos hits de sua carreira. Garruth a define da seguinte forma: "Esta canção é uma bronca dada com luva de pelica."

Tendo como produtor o musicista Thiago Rudrea, o álbum foi gravado no Studio Mercury e contou com a participação do próprio Thiago na concepção de boa parte dos arranjos presentes no álbum, além de tocar alguns instrumentos, Luciano Oliveira (teclado e acordeom), Marcio Chagas (bateria), Thiago Martins (guitarra, viola de 6, de 12 cordas e violões), Régis Gonçalves (percussão), Luiz Gomes e Sérgio Moreno (baixo), Marcelo Braga (flauta), Adriano Ávila (trompete), Carlos Chagas (guitarra), Wallace Peres (violões) e Henrique Garcia (cavaco). O álbum ainda conta com a participação de outros artistas na elaboração de alguns arranjos, como foi o caso das faixas "Vida-ciranda" e "Falta", que conta com um arranjo coletivo e "Opção derradeira" sob arranjos de Thiago Rudrea e Vilmar Filho. Além de um coro composto pelas crianças Mariana, Bernardo e Lorenzo Giácomo e um segundo composto pelas senhoras Adyr Sá, Alda Simas, Marlene Lessa e Shirley Telles. "Hora e lugar" chega como prova documental de uma escolha certa, onde a artista de fato se encontrou nessa nova escolha e hoje vive plenamente feliz com essa opção. No encarte a artista escreve que é um trabalho para ouvir onde e quando preferir, porém deve ser ouvido com atenção. Com essa ressalva acho que não é preciso mais nenhuma recomendação.


Maiores informações:

Site Oficial - http://amandagarruth.com.br/
Youtube - http://www.youtube.com/user/amandagarruth?feature=watch
Facebook (Página) - http://www.facebook.com/page.amandagarruth
Twitter - @amandagarruth
Orkut (Comunidade) - http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=26644011
Orkut (Perfil) - http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=7224546951129256153
Contato para shows e aquisição do álbum: amandagarruth.contato@gmail.com
Tratore - http://tratore.com.br/cd.asp?id=7898270417511


O álbum pode ser adquirido através dos seguintes endereços:
FNAC - http://www.fnac.com.br/hora-lugar-FNAC,,musica-563852-2135.html
Livraria Cultura - http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=11035419&sid=621223076131224110409289918
Pérola Negra - Tel: (71)336-6997 - http://www.perolanegracd.com.br/
HPI - Tel: (21)3215-4943
Baratos Afins - Tel: (11) 3223-3629
Discoteka - rod - Tel: (11) 5906-0456
Pop´s Discos - Tel: (11) 3083-2564


Compra Online:
UOL Megastore:http://megastore.uol.com.br/acervo/mpb/a/amanda_garruth/hora_e_lugar
Amazon.com - http://www.amazon.com/exec/obidos/ASIN/B00420N37G/iopr-20
Itunes - http://itunes.apple.com/us/album/hora-lugar/id391183912
Emusic - http://www.emusic.com/listen/#/album/-/-/12127674/?fref=150042
Sonora - http://sonora.terra.com.br/#/Cd/126748/hora_lugar

ENTREVISTA EXCLUSIVA - GONZAGA LEAL

Artista rebuscado, Gonzaga Leal pauta a sua carreira em refinados projetos. Seja no palco ou em disco, seus trabalhos destacam-se tendo como característica principal o requinte.

Por Bruno Negromonte



Estamos vivendo uma época em que, com raras exceções, os ditames midiáticos acabam por reger o que é considerado de boa qualidade ou não dentro de nossa cultura; porém o que nos chama a atenção são os critérios de avaliação fundamentais para a determinação daquilo que é louvável de uma boa classificação ou o inverso.

E é nesse contexto cultural regido por forças aquém do talento e bom gosto que Gonzaga Leal vem galgando seu espaço dentro do cenário musical brasileiro sem preocupar-se com rótulos e estigmas. Artista arrojado, este pernambucano de requinte inquestionável veio ao conhecimento do público do Musicaria Brasil recentemente com a matéria EM UM ÁLBUM DE PRECIOSIDADES, GONZAGA LEAL SE FAZ OURIVES COM AS CANÇÕES e agora volta ao nosso espaço para conceder esta entrevista exclusiva onde fala um pouco sobre o início da carreira, projetos futuros e como se dá a escolha do seu repertório.

Dentro das suas mais remotas lembranças de infância gostaria de saber qual o momento que você lembra que de fato fazia-se acreditar que o pequeno Gonzaga seria artista.

Gonzaga Leal - Venho de uma família bastante musical, minha mãe era cantora de igreja e logo cedo me iniciou no aprendizado de cânticos sagrados. O rádio vivia constantemente ligado, o que me deixava absolutamente embriagado com tudo que ouvia. A minha vó, mãe da minha mãe, tinha uma linda voz e de maneira muito singela me iniciou no repertório de Dalva de Oliveira. O maestro Moacir Santos vez por outra, aparecia na casa dos meus avós e travava com eles grandes conversas sobre música. Naquela época, muito guri, não fazia a menor ideia da dimensão daquele grande artista que sempre fazia o roteiro entre Flores e Serra Talhada. Ele era amigo de toda a minha família. Sempre fui muito requisitado para atuar em peças de teatro no colégio, ora cantando, ora representando. Essas cenas todas por mim vividas, foram pouco a pouco consolidando em mim o desejo de ser artista, muito embora não tivesse nenhum incentivo por parte da minha família. Meu pai, um homem muito silencioso, comedido e discreto, dele sempre ouvi que ser artista é algo muito bonito, no entanto, muito árduo e perigoso.



A sua vinda para a cidade do Recife foi, a princípio, para dar início a sua graduação ou você já trazia o desejo de dar vazão a esse lado artístico que já se evidenciava em Serra Talhada com nomes como Rosa Pau Ferro e Edézio?

GL - Apesar de não ter o incentivo familiar para me tornar artista e sim para ser doutor, a música sempre exerceu sobre mim uma enorme força e uma necessidade. E foi dessa forma que fui negociando comigo mesmo e com a minha família cursar a universidade e paralelamente me encaminhando para a música. Tinha a clareza do meu destino de que um dia artista me tornaria. A convicção das dificuldades só acentuava em mim o desejo de seguir. O contato com o movimento musical no diretório acadêmico da universidade contribuiu por demais para as minhas certezas e enfrentamentos.



Em que momento e de que forma aconteceu essa sua introdução nesse contexto cultural recifense? Houve alguma dificuldade?

GL - Me inicio na cena musical recifense participando do programa Cidade Encantada da queridíssima Tia Linda na TV Jornal do Commércio, no final da década de 60, início da década de 70. Foi uma passagem muito breve, porém bastante decisiva para conhecer os mistérios, as dificuldades e o glamour da vida de artista. Conheci nesse período dois grandes artistas bastante decisivos na minha formação como artista. A cantora Marlene e o cantor Luiz Vieira. A Marlene me ensinou os segredos de ser intérprete e o Luiz me levou para cantar na noite. A Marlene que tornou-se minha amiga e que até hoje mantenho contato, dela sempre ouvi: “O melhor cantor é aquele que através do seu canto faz tremer corações.” Com isso ela tentava me mostrar a diferença entre ser cantor e ser intérprete. Eis a razão pela qual dou tanta importância ao texto da canção. Não sei cantar uma música que não cale fundo dentro de mim. Já deixei até de gravar canções por não saber dar a força de intérprete a uma única palavra. Acredito que nesse aspecto há uma verdade, mas também, uma destituição, uma incompetência, uma fragilidade. Quanto às dificuldades sempre tive muita clareza, mas como bom sagitariano, nunca deixei de manter a seta apontada e me apropriar da paixão. Assim entendendo, reduzia a minha solidão e reafirmava em mim a convicção de que ser artista é um ofício de paixão.



A pergunta que aguça a curiosidade de muitos que acompanham a sua carreira é o porquê que só depois de anos foi que veio o seu primeiro registro fonográfico mesmo você tendo uma bem sucedida carreira nos palcos com espetáculos diversos nos anos que antecederam o álbum “Um olhar brasileiro”?

GL - Sou um homem muito exigente comigo mesmo. Sou o mais critico de mim, o mais inseguro de todos. Portanto nunca me senti devidamente preparado para o enfrentamento do estúdio, da critica e do público. Navegava em águas muito serenas que me protegia disso tudo. Precisei do aval de Dadá Malheiros, grande músico, grande amigo. E do seu irmão Fabiano Menezes, ambos músicos da Orquestra Sinfônica, com os quais já vinha trabalhando. Naquela época fazíamos um espetáculo chamado PÁSSARA (ver repertório de shows no site – www.gonzagaleal.com.br) que foi muito bem recebido pela critica e com o qual cumprimos uma temporada muito feliz. Um repertório muito ousado, uma direção musical precisa, uma direção cênica poética e músicos extraordinários. Mesmo assim a insegurança batia mais forte e o medo me tomava. Precisei que o mestre Dadá Malheiros me abalasse com suas palavras: “Você está pronto para gravar este repertório. Ou vai ser agora, ou nunca. Estou disposto para te levar para o estúdio, só basta agora você querer.” Não tive outra alternativa que não me render a força da indicação do meu diretor, a quem muito respeito, admiro e confio. Foi uma das experiências de maior impacto que já vivi. Um rito de iniciação absolutamente forte e decisivo para entender e fazer o que hoje cumpro como artista. Certamente que se não fosse Dadá Malheiros, meu sempre amado diretor, arranjador e amigo, não estaria dando esta entrevista.



Você que vem apresentando-se nos palcos desde 1974 com espetáculos bem elaborados que são sucessos de crítica e público por onde passou, porém só teve seu primeiro registro fonográfico 21 anos depois. Há desse período que antecedeu o primeiro disco algum espetáculo que você recorda e sente-se triste hoje por não tê-lo registrado em disco?

GL - Tenho uma enorme divida e ressentimento comigo de não ter gravado o repertório de dois shows por demais importantes na minha trajetória artística. Ambos sobre a batuta do mestre Canhoto da Paraíba e seus preciosos músicos. Os shows “Quando a dor não tem razão” e “Pra quem quiser me visitar”, se eles envolviam uma enorme beleza musical advinda da poesia do violão do Canhoto e do repertório por ele indicado (ver repertório de shows no site – www.gonzagaleal.com.br) significou pra mim um enorme aprendizado do fazer musical. Canhoto, a quem todos chamava de Curinguinha, foi o primeiro a me incentivar a gravar e me apontar possibilidades, que nem de longe eu tinha noção. Sempre com seu jeito maneiro, carinhoso e incisivo tentava desconstruir em mim uma subjetividade covarde que me amarrava e amedrontava. Mas ao mesmo tempo não deixava de me assegurar: “Seu tempo vai chegar, não deixe que ele passe. Fique atento.” Isso pra mim converteu-se em mantra que carrego comigo pela vida afora. Muita sorte minha ter cruzado com essas pessoas tão lindas e queridas na minha vida. Será que são coisas do destino, das minhas próprias buscas ou de ambas? Não faço a menor ideia. Continuo buscando compreender, procurando não ser negligente com nada.



Conta a sua biografia que as suas reminiscências musicais mais remotas são oriundas do aparelho de rádio que havia em sua casa ainda em Serra Talhada, onde nele você ouvia artistas considerados de “época de ouro do rádio” como Orlando Silva, Silvio Caldas, Francisco Alves entre outros. É impressão ou você traz arraigado hoje em seu trabalho marcas desses artistas? (visto que em seus trabalhos há canções do repertório de Dircinha Batista (Você tem açúcar, 1941), Silvio Caldas (Florisbela, 1939) e Orlando Silva (Última estrofe, 1935).

GL - Essas referências todas compõem o gráfico e a partitura que me formataram artisticamente. Através de todos que fizeram o rádio, fui percebendo a dimensão do que é ser artista. Quero um dia, não sei quando, juntar-me a um outro colega de oficio, montar um espetáculo a partir do repertório de Orlando Silva e Francisco Alves. Essas canções todas que você se refere e que gravei, antes de qualquer coisa ou influência, elas fazem parte da minha memória musical – afetiva. Esse singelo mosaico musical interpretativo de um tempo sempre exerceu sobre mim uma enorme tensão. Não consigo entender um artista fora do seu tempo e suas significações. Não tenho a menor paciência do novo pelo novo.



Você anda com dois projetos futuros em andamento que são aparentemente bastante distintos. A realização destes projetos tem sido em consonância ou você vai priorizar um deles e depois se engajar na conclusão do segundo?

GL - Estarei em 2012 completando 25 anos de carreira, o que me excita cometer ousadias e transgressões. Esses dois projetos aos quais você se refere me são muito caros e preciosos. Quero sim realizá-los. Não medirei esforços. Hoje trabalho com uma banda e um diretor musical que me deixam muito confortável para realizarmos projetos bordados de ousadia e tingidos de determinação. Graças a Deus conto com esses parceiros nos quais confio e tenho amizade e percebo que todos eles depositam em mim confiança e respeito. Com esses temperos qualquer pessoa pode realizar projetos inimagináveis. Como só sei realizar uma coisa de cada vez, e isso compõe uma das minhas incompetências, certamente que um projeto sucederá ao outro. Ainda não posso adiantar qual deles virá primeiro.



Um desses projetos pelo o que a imprensa tem noticiado se chamará “Teatro – Na boca de cena nasci”, onde você prestará uma homenagem ao Teatro de Santa Isabel. Você poderia falar um pouco sobre esse projeto?

GL - O teatro pra mim tem o significado de um templo e o palco a representação de um oratório. É um dos espaços, fora a minha casa, no qual onde me sinto melhor, confiante e sacralizado. Dos teatros onde me apresentei no Brasil, o Teatro de Santa Isabel é o que pra mim encerra uma grande dimensão afetiva. Ele é de uma beleza e magia enorme, foi lá que lancei todos os meus discos de carreira e o teatro onde mais me apresentei. Não faço a menor ideia de quantas vezes pisei naquele palco. Nada mais justo da minha parte prestar-lhe uma homenagem através de um cd, contemplando um repertório de montagens teatrais. Há um só tempo pretendo reunir neste album todos os pianistas que me acompanharam ao longo desses anos todos, ou seja, será um cd de voz e pianos com repertório de trilhas de montagens teatrais, algumas delas encenadas no palco do Teatro de Santa Isabel. Sem contar que sou um apaixonado pelo teatro. Sempre que vou montar um repertório para um cd ou um show, parto sempre de aspectos dramatúrgicos que as canções encerram entre si. Ao realizar qualquer trabalho artístico tenho sempre a tendência de antecipar a cena.



Salve engano, o segundo projeto em vista trata-se de um álbum onde a viola brasileira norteará todo o trabalho não é isso?

GL - Sou um homem do interior que vim muito cedo para a capital, no entanto o sujeito brejeiro, romântico, interiorano continua habitar em mim com muita potência. Da mesma maneira que o repertório dos cantores que fizeram o rádio exercem sobre mim encantamento, a sonoridade das violas através das suas mais diversas afinações, vem me conquistando pouco a pouco. Sem falar que muito precocemente em Serra Talhada já ouvia o som misterioso desse instrumento. Mais uma vez aqui, falo de memória. Quero dizer também que convivo com um violeiro, Claudio Moura, hoje meu diretor musical há pelo menos 12 anos. Ele é um dos grandes responsáveis pelo fascínio que a viola hoje exerce sobre mim. Nas minhas andanças pelo Brasil fui conhecendo violeiros entre os quais o Chico Lobo de Minas, de quem gravei duas lindas modas de viola, e assim pouco a pouco venho me apropriando de um repertório que mantém uma linda interface com a sonoridade da viola brasileira. No meu ultimo álbum “E o que mais aflore” a viola se diz presente em quase todas as faixas. Neste cd quero sim, ter comigo violeiros do Brasil e jovens violeiros pernambucanos, a exemplo de Hugo Lins, Caçapa, por quem tenho admiração e respeito. Adelmo Arcoverde, nosso grande violeiro estará também presente ao lado do Claudio Moura, Chico Lobo e Pereira da Viola. Espero que todos eles aceitem o meu convite para fazer parte deste projeto.



Uma característica interessante em seu repertório é a diversidade com que ele é constituído sem necessariamente cair um lugar-comum. Você consegue mesclar de maneira interessante desde canções de artistas locais, obras de domínio público chegando até a grandes pérolas do cancioneiro nacional, porém tudo isso dentro de uma unidade tão coerente e distinta que seu trabalho acaba se destacando naturalmente. Como se dá a escolha de seus repertórios para compor seus álbuns?

GL - Curiosíssima sua pergunta. Porque ela antes de qualquer coisa fala de um entrevistador que tem conhecimento de quem vai entrevistar. Sinceramente isso é uma raridade. Isso me deixa muito confortável e alegre e com total disponibilidade para responder quantas perguntas você me faça. Você não sabe que prazer estou experimentando em responder as suas indagações. Me dedicar a ouvir música diariamente com disciplina e rigor é uma das tarefas que faz parte do meu oficio. Vou ouvindo as canções, me apropriando delas, sorrateiramente me tornando um coautor. Algumas dessas canções, vão sendo abraçadas pela minha voz em função da minha extensão vocal e da força do texto. Dois critérios pra mim absolutamente imprescindíveis para que eu me sinta confortável na emissão da voz e formatação do canto. Isso implica em prazer e sofrimento, uma vez que se trata de um processo de muitas idas e vindas. Nunca é algo lógico e carteziano. Muito pelo contrario, trata-se de um processo bifurcado com muitas linhas de fuga. Construir um repertório que traga no seu interior uma coerência dramatúrgica é preciso muita paciência, determinação, cuidado e rigor. Quando penso em repertórios, me reporto a imagens e ao sonho. Sou um intolerante a repertórios onde as canções não guardam um significado entre si. Não tenho a menor paciência.


Recentemente você trouxe a Recife o espetáculo “Porcelana” onde dividiu o palco com a cantora Alaíde Costa. Há intenção de levar esse projeto pelos palcos do Brasil?

GL - Quanto ao show Porcelana, onde Eu e Alaíde fizemos juntos, era um desejo antigo e que só agora podemos realizar. Víamos fazendo participações nos shows um do outro ao longo desses 20 anos de convívio. Ela chegou inclusive a fazer uma participação em um dos meus álbuns. Todos ficamos muito satisfeitos com o resultado das duas récitas que fizemos em Recife. O show é regido por uma simplicidade, ao mesmo tempo pontuado por zonas de passagens que assegura uma certa densidade ao espetáculo como um todo. Era tudo que queríamos. Os músicos que fizeram conosco, Alex Sobreira (violão), Adilson Bandeira (clarinete), e Tomás Melo (percussão) arremataram com poesia sonora todo o conceito do trabalho. Através dos nossos produtores em São Paulo e Rio de Janeiro já está assegurado temporadas nas duas capitais. Alaíde por sua vez tem me motivado bastante transformarmos o show em um cd. Por enquanto são papos embrionários, mas que interessa a nós dois, e que certamente a qualquer momento poderemos dá um start nesse desejo. E claro que eu vou adorar se isso acontecer.
Finalizando, quero te agradecer muitíssimo pelo seu interesse em me entrevistar e te desejar muita sorte pela vida afora.


Gonzaga Leal - Agenda (Janeiro)
26/01/12 - Espetáculo "E sentirás o meu cuidado - Gonzaga Leal canta Capiba" - Janeiro de grandes espetáculos - Teatro de Santa Isabel (Recife/PE) - 20hs (informações: (81) 355 3322)
27/01/12 - Show Porcelana com Gonzaga Leal e Alaíde Costa - Casa de Seu Jorge (Recife/PE)- 22hs (Informações: (81) 30341066)
28/01/12 - Show Porcelana com Gonzaga Leal e Alaíde Costa - Casa de Seu Jorge (Recife/PE)- 22hs (Informações: (81) 30341066)

Maiores Informações (shows e aquisição dos cd's):
Leal Produções Artísticas Ltda.
Rua Raul Lafayette, 191 - sala 403
Boa Viagem - Recife - PE
CEP: 51021-220

Fone/fax: (81) 3463.4635 e 8712.5110

Site Oficial - http://www.gonzagaleal.com.br/

Youtube (Canal) - http://www.youtube.com/user/gonzagaleal1

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

LÔ BORGES, 60 ANOS

Salomão Borges Filho, mais conhecido como Lô Borges chega aos 60 anos no ano em que completa-se 40 anos do lançamento de um marco da música mineira e brasileira: o álbum Clube da Esquina.

Por Bruno Raphael

o cantor e compositor Salomão Borges Filho nasceu em Belo Horizonte, no bairro de Santa Tereza, em 10 de janeiro de 1952. É o filho do meio dos 11 filhos de Salomão Magalhães Borges, jornalista autodidata, e Maria Fragoso Borges, professora primária. O apelido “Lô” ganhou na infância. Aos 10 anos, mudou-se para o Edifício Levy, no Centro de Belo Horizonte, onde aproximou-se do violão e fez suas primeiras composições. Nessa época, conheceu duas pessoas que se tornariam grandes parceiros e formadores do Clube da Esquina: Beto Guedes e Milton Nascimento. Entre os 12 e 15 anos, no auge da Beatlemania, Lô montou com seu irmão Yé, Beto Guedes e Márcio Aquino o conjunto “The Beavers” (Os Castores) que só tocava Beatles e fez um relativo sucesso na capital mineira. Ainda na adolescência, voltou à Santa Tereza e lá compôs “Clube da Esquina” em parceria com Milton Nascimento e seu irmão Márcio, a música que daria nome a toda uma geração de músicos mineiros.

Por volta dos 17 anos, a convite de Milton, Lô mudou-se com Beto Guedes para o Rio de Janeiro a fim de conceber, gravar e co-assinar o disco “Clube da Esquina” (pontapé inicial do movimento e que se tornaria um marco na música popular brasileira.). Depois deste álbum, Lô dividiu-se entre a vida em comunidades hippies e a gravação de registros solo bissextos como o “Lô Borges” (1972), mais conhecido como o “Disco do Tênis”, “Via Láctea” (1979) , “Um Dia e Meio” (2004), bem como participações no “Clube da Esquina 2” e “Os Borges”, que gravou com sua família.



Entre suas composições mais famosas destacam-se, entre outras, Paisagem da Janela, Para Lennon e McCartney, Clube da Esquina n.º 2 e O Trem Azul.É considerado um dos compositores mais influentes da música brasileira, tendo sido gravado por Elis Regina, Milton Nascimento, Flávio Venturini e até por ídolos do pop-rock, como Nenhum de Nós, Ira!, Skank e Nando Reis, entre outros; além disso, muitos de seus 11 irmãos tornaram-se músicos, como Márcio Borges, seu parceiro constante, e Telo Borges, autor, junto com o irmão Márcio, de "Vento de maio", música que foi gravada por Lô e também por Elis Regina. "Meu tesão na vida é criar coisas que eu mesmo não espero que possa criar. Como compositor, eu acho que isso é tão fundamental quanto beber água."



Ao lado de Márcio Borges, Milton Nascimento, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Wagner Tiso, Toninho Horta e Túlio Mourão, entre outros viu nascer um movimento que marcou a música brasileira e que tem esse nome porque nasceu devido ao hábito desses compositores mineiros (com exceção de Milton, que nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado em Três Pontas, MG) se reunirem na esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, para trocar idéias musicais.

Das 21 faixas do disco intitulado Clube da esquina, oito são de sua autoria, em parceria com Márcio Borges, Ronaldo Borges e Milton Nascimento. Sua participação foi fundamental nesse disco, ajudando a caracterizar a sonoridade do Clube da Esquina, o que faria mais tarde o guitarrista americano Pat Metheny enviar um amigo ao Brasil "para tentar descobrir a causa da originalidade da música feita por The Corner Club, a qual eles ouviam nos Estados Unidos desde meninos" ( Cf. Márcio Borges. Os sonhos não envelhecem. São Paulo: Geração Editorial, 1996, p. 351). Na contracapa do disco, seu nome aparece em destaque ao lado do de Milton Nascimento.

Em 1973, lançou pela EMI-Odeon um LP solo, que ficou conhecido como o ''Disco do tênis''. O LP, que contou com a participação de Beto Guedes, Flávio Venturini, Vermelho e Sirlan, porém não atingiu o sucesso esperado. Em 1978, foi lançado "Clube da Esquina 2", que contou com apenas duas composições suas: "Pão e água" (c/ Roger e Márcio Borges) e "Ruas da cidade" (c/ Márcio Borges).

Em 1979, gravou o LP "Via Láctea". Em 1980, lançou "Os Borges", com composições de Yé Borges, Márcio Borges, Marilton Borges, Telo Borges, Nico Borges e Solange Borges, além de "Eu não sou como você é", de sua autoria. Suas canções foram gravadas por vários intérpretes, como Milton Nascimento, Nana Caymmi, Simone e Gal Costa. Elis Regina gravou "O trem azul" (c/ Ronaldo Bastos), título do último show da cantora, que gerou o álbum duplo homônimo, gravado ao vivo e lançado, em 1982, pela Som Livre.



Ainda na década de 1980, lançou os LPs "Nuvem cigana" (1982), "Sonho real" (1984) e "Solo" (1987). Em 1996, gravou o CD "Meu filme", contendo parcerias inéditas com Caetano Veloso ("Sem não") e Chico Amaral, além da participaçãos de músicos como Marcos Suzano, Milton Nascimento e o grupo Uakti.

Em 2000, voltou a se reunir com os amigos do Clube da Esquina, em encontro informal na casa de seu irmão Márcio Borges, para comemorar os 30 anos da canção que compôs em parceria com Márcio, "Um girassol da cor do teu cabelo", gravada no primeiro disco do Clube.

Em 2001, lançou o CD "Feira moderna", contendo suas canções "Trem de doido", "Um girassol da cor do seu cabelo", "Ela" e "Tudo que você podia ser", todas com Márcio Borges, "Equatorial" (c/ Márcio Borges e Beto Guedes), "Nuvem cigana", "O trem azul" e "Sonho real", todas com Ronaldo Bastos, "Para Lennon & McCartney" (c/ Márcio Borges e Fernando Brant), "Clube da esquina nº 2" (c/ Márcio Borges e Milton Nascimento), "Paisagem da janela" (c/ Fernando Brant) e a faixa-título (c/ Beto Guedes e Fernando Brant), além de "Fé cega, faca amolada", (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), "A página do relâmpago elétrico" (Beto Guedes e Ronaldo Bastos) e "Vento de maio" (Telo Borges e Márcio Borges).

Em 2003, lançou o CD "Um dia e meio", contendo sua canção "Quem sabe isso quer dizer amor" (c/ Márcio Borges), gravada originalmente por Milton Nascimento no CD "Pietá" (2003), além das inéditas "Tudo em cores pra você", "Olá como vai" (c/ César Maurício) e "Qualquer lugar", todas com César Maurício, "Até o amanhecer", "Sonho novo" e "Topo do mundo", todas com Márcio Borges, "Chega pra ficar" (c/ Ronaldo Bastos), "Açúcar Sugar" (c/ Tom Zé), "Por que não" (c/ Arnaldo Antunes), a canção-título (c/ Chico Amaral) e "Tão bom", essa última sem parceiro. Fez show de lançamento do disco no Canecão (RJ), com a participação de Samuel Rosa, do grupo Skank, seu parceiro em várias canções, como "Dois rios".



Lançou, em 2007, o CD "Bhanda", tendo a seu lado os músicos Giuliano Fernandes (guitarras e sitar), Barrat (baixo e sintetizadores), Robinson Matos (bateria) e Victor Mazarelo (teclados). No repertório, suas canções "Trem das coisas" e "Carnaval de cor", ambas em parceria com seu irmão Marcio Borges, e "O som das estrelas", entre outras.

Mesmo com diversas canções de décadas atrás com sua assinatura conhecidas pelo público (como "Para Lennon e McCartney", "O Trem Azul" e "Clube da Esquina nº 2"), Lô Borges nunca quis seguir o estereótipo do compositor que se consagra quando jovem e torna o resto de sua carreira uma versão genérica de seu ápice. “Não fiz música só aos 18 anos de idade”, dispara. “A partir da composição inédita é que vem a parceria, o estúdio e o álbum. Se não, você fica sendo aquele cara datado dos anos 70. Eu posso até não acertar, mas não é por falta de procura. Muitas das pessoas da minha geração fazem músicas muito bissextamente. Não tenho nada contra a carreira de ninguém, mas meu temperamento é de buscar coisas novas a cada ano.


Horizonte Vertical

Essa ideia é reforçada em Horizonte Vertical, que mostra uma faceta de Lô Borges que até os parceiros mais próximos ainda não haviam ouvido, como na música “On Venus”, cantada em inglês e com uma sonoridade espacial. “Lembro que quando mostrei esse álbum pro Milton [Nascimento], na casa dele, ele falou: ‘Esse Lô Borges eu não conhecia!’ [risos]”, conta Lô. “Tem uma canção no meu disco anterior [Harmonia] chamada “Chegado”, que é uma coisa meio Nirvana, sei lá. Eu peguei o violão e fiz uma música meio atonal como canhoto, igual ao Kurt Cobain.

Outra mudança em Horizonte Vertical é o foco maior em composições ao piano, algo que, segundo Lô Borges, veio naturalmente nas músicas. “O piano e o violão sempre funcionaram muito dentro da minha composição”, observa. “‘Um Girassol da Cor do Seu Cabelo’ e ‘Paisagem da Janela’ eu fiz ao piano, por exemplo. Nesse álbum específico, o piano está presente no meu dia-a-dia. O diferencial mesmo é que eu gravei com dois músicos [Barral e Robinson Mattos], então tive muito tempo para pensar nos detalhes de sonoridade.



Lô Borges destaca também a família como parte importante do processo de criação do disco. Dedicado ao filho Luca, de 13 anos, o álbum é também uma carta à sua geração. “[Na produção de] todas as músicas que fiz com o Samuel Rosa, que foram cinco (duas entraram no álbum), eu levava meu filho e ele ficava brincando com o do Samuel. Mas meu filho gosta de AC/DC, Guns N’ Roses e Led Zeppelin. Para ele, Lô Borges é um mero detalhe [risos]. O filho do Samuel, que tem 12 anos, já acenou pra mim e falou: ‘Pô, essa harmonia é muito louca, cara!’.”

A música feita nos anos 60 e 70, segundo Lô Borges, tem interessado mais os jovens do que a música contemporânea. “Essa geração está muito interessada, porque se for pegar o que está acontecendo na música brasileira para esse pessoal, digamos que é meio empobrecedora”, opina. “Não vou citar artistas, mas essa música de mídia nunca foi grande coisa, há muitos anos.

Influência dos Beatles
Com Beatles e George Martin eu aprendi a cantar, compor e arranjar. Acho que qualquer disco meu vai trazer uma referência beatle”, diz o Lô Borges-fã. Aos 12 anos, as influências do garoto mineiro se resumiam a obras como o disco Chega de Saudade, de João Gilberto, e as harmonias de Tom Jobim. “Comecei pelo mais difícil [risos]”, diverte-se o músico. “Quando surgiram os Beatles, eu fui ver o A Hard Day’s Night [filme lançado em 1964, conhecido no Brasil como Os Reis do Iê-Iê-Iê] no cinema. Entrei e ouvi aquele primeiro acorde [imita o som da guitarra de “A Hard Day’s Night” com a voz], e ali já mudou tudo na minha vida. Costumo dizer que, por mais que eu já conhecesse música brasileira, meu primeiro contato com os Beatles transformou meu DNA rapidamente. Não que eu fique em casa escutando, porque o que eu já escutei deles não preciso escutar nunca mais! [risos]”



Reunião?
Com o disco Clube da Esquina completando 40 anos de existência em 2012, a possibilidade de uma reunião parece depender apenas de Milton Nascimento. “A gente não tem conversado sobre isso”, revela Lô Borges. “Até me encontro com ele de vez em quando, mas essa coisa do Clube da Esquina, como foi ele que nos convidou pra fazer o álbum... qualquer coisa que for acontecer em relação aos 40 anos tem de partir do Milton Nascimento. Ele é o titular da pasta, entendeu? [risos]. Eu só vou ter vontade se o Milton me convidar, caso contrário vou continuar fazendo meus álbuns, pois estou numa fase muito legal. Aliás, caso não ocorra a reunião, eu considero Horizonte Vertical um presente meu aos 40 anos do álbum, para os fãs.


Discografia Lô Borges

Clube da Esquina (1972)
Em 1972, a família Borges morava no boêmio bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte. Ali nasceu uma música, um disco e um movimento. “Clube da Esquina”, o disco e a música foram lançados em 1972, quando Lô tinha apenas 18 anos. Muitos poderiam achar muita responsabilidade por dividir um disco com Milton Nascimento, bem como, muita ousadia em gravar “Um Girassol Da Cor Do Seu Cabelo” cantando ao piano, com uma orquestra regida por Eumir Deodato, em apenas dois canais. Como se isso não bastasse, o disco ainda tem “O Trem Azul”, “Cais”, “Paisagem da Janela”, “Nada Será Como Antes” e “Clube da Esquina nº 2″. O movimento a que o disco deu o nome nasceu a partir daí. Na época em que foi lançado, “Clube da Esquina” recebeu críticas positivas, mas a esmagadora maioria não soube reconhecer a genialidade ali registrada. Hoje, 32 anos depois, o disco é reverenciado como um dos dez, se não um dos cinco discos mais importantes da MPB.

Faixas:
01 - Tudo que você podia ser (Márcio Borges - Lô Borges)
02 - Cais (Milton Nascimento - Ronaldo Bastos)
03 - O trem azul (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
04 - Saídas e Bandeiras nº 1 (Milton Nascimento - Fernando Brant)
05 - Nuvem cigana (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
06 - Cravo e canela (Milton Nascimento - Ronaldo Bastos)
07 - Dos cruces (Carmelo Larrea)
08 - Um girassol da cor de seu cabelo (Márcio Borges - Lô Borges)
09 - San Vicente (Milton Nascimento - Fernando Brant)
10 - Estrelas (Márcio Borges - Lô Borges)
11 - Clube da Esquina nº 2 (Lô Borges - Milton Nascimento)
12 - Paisagem na janela (Lô Borges - Fernando Brant)
13 - Me deixa em paz (Ayrton Amorim - Monsueto)
14 - Os povos (Márcio Borges - Milton Nascimento)
15 - Saídas e Bandeiras nº 2 (Milton Nascimento - Fernando Brant)
16 - Um gôsto de Sol (Milton Nascimento - Ronaldo Bastos)
17 - Pelo amor de Deus (Milton Nascimento - Fernando Brant)
18 - Lilia (Milton Nascimento - Fernando Brant)
19 - Trem de doido (Márcio Borges - Lô Borges)
20 - Nada será como antes (Milton Nascimento - Ronaldo Bastos)
21 - Ao que vai nascer (Milton Nascimento - Fernando Brant)


Lô Borges (1972)
Seria difícil imaginar que um garoto de 19 anos faria, no mesmo ano de 1972, um trabalho tão ou mais inovador que o anterior, mas a verdade é que isso aconteceu. O “disco do tênis” (como ficou conhecido) é considerado um clássico experimental e à frente de seu tempo. Canções como “Canção Postal”, “O Caçador” e “Faça Seu Jogo” são resultado de uma maratona: “eu compunha uma música de manhã e a gravava à noite”, diz Lô, com um brilho de quem se lembra daqueles belos momentos como se tivessem acontecido ontem.

Faixas:
01 - Você fica melhor assim (Lô Borges - Tavinho Moura)
02 - Canção postal (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
03 - O caçador (Márcio Borges - Lô Borges)
04 - Homem da rua (Lô Borges)
05 - Não foi nada (Lô Borges)
06 - Pensa você (Lô Borges)
07 - Fio da navalha (Lô Borges)
08 - Pra onde vai você (Márcio Borges - Lô Borges)
09 - Calibre (Lô Borges)
10 - Faça seu jogo (Márcio Borges - Lô Borges)
11 - Não se apague esta noite (Márcio Borges - Lô Borges)
12 - Aos barões (Lô Borges)
13 - Como o machado (Lô Borges)
14 - Eu sou como você é (Lô Borges)
15 - Toda essa água (Lô Borges)


A Via Láctea (1979)
Passados sete anos sem registrar absolutamente nada do que compunha, este hiato só seria quebrado em 1979 com o lançamento de “A Via Láctea”. De novo um clássico. Nove entre dez canções de qualquer compilação de Lô Borges são deste disco: “Clube da Esquina 2″ – com uma letra criada por Márcio Borges, em cima do instrumental registrado no disco “Clube da Esquina”, “A Via Láctea”, “Equatorial”, “Vento de Maio”, “Tudo Que Você Podia Ser” e “Nau Sem Rumo”.

Faixas:
01 - Sempre-viva (Márcio Borges - Lô Borges)
02 - Ela (Márcio Borges - Lô Borges)
03 - A Via-Láctea (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
04 - Clube da Esquina nº 2 (Márcio Borges - Lô Borges - Milton Nascimento)
05 - A olho nu (Márcio Borges - Lô Borges)
06 - Equatorial (Márcio Borges - Beto Guedes - Lô Borges)
07 - Vento de maio (Telo Borges - Márcio Borges)
08 - Chuva na montanha (Fernando Oly)
09 - Tudo que você podia ser (Márcio Borges - Lô Borges)
10 - Olha o bicho livre (Rodrigo Leste - Paulinho Carvalho)
11 - Nau sem rumo (Márcio Borges - Lô Borges)


Os Borges (1980)
O ano de 1980 foi muito especial para Lô e sua família. “Os Borges” é um projeto especial que reuniu toda a família, com apenas dois convidados: Milton (que era “da família”) e a pimentinha Elis Regina. Um belo disco que mostrou ao mundo o clima que reinava na casa dos Borges, traduzido em imagens, através da capa, que mostrava o quarto dos meninos, com violões pelo chão e pôsteres pela parede.

Faixas:
01 - Em família (Yé Borges - Márcio Borges)
02 - Carona (Marilton Borges)
03 - Voa, bicho (Telo Borges - Márcio Borges)
04 - Um sonho na correnteza (Yé Borges - Márcio Borges)
05 - Ainda (Telo Borges - Márcio Borges)
06 - O sapo (Folclore)
07 - Eu sou como você é (Lô Borges)
08 - Outro cais (Marilton Borges - Duca Leal)
09 - No tom de sempre (Chico Lessa - Márcio Borges)
10 - Qualquer caminho (Márcio Borges)
11 - Daniel (Solange Borges - Nico Borges)
12 - Pros meninos (Nico Borges - Duca Leal)


Nuvem Cigana (1981)
“Nuvem Cigana”, de 1981, é o disco em que Lô regrava a faixa-título, já registrada no “Clube da Esquina”. Mais uma vez, as composições teriam letras de Márcio e Ronaldo Bastos, com a inclusão de Murilo Antunes no “Clube”. Músicas como “A Força do Vento” de Rogério Freitas e “Viver, Viver” – esta com participação de Milton Nascimento – são uma amostra da capacidade de composição de Lô, que consegue manter um nível altíssimo o tempo todo.

Faixas:
01 - Todo prazer (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
02 - A força do vento (Rogério Freitas)
03 - Vida nova (Lô Borges - Murilo Antunes)
04 - Vai vai vai (Lô Borges)
05 - Uma canção (Ronando Bastos, Lô Borges)
06 - Nuvem cigana (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
07 - Ritatá (Telo Borges)
08 - Viver, viver (Márcio Borges - Lô Borges - Murilo Antunes)
09 - O vento não me levou (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
10 - O choro (Lô Borges)


Sonho Real (1984)
“Sonho Real”, lançado em 1984, se abre com bela faixa “Tempestade”, parceria com seu irmão mais novo, Telo. Mais uma vez, o trio de letristas (Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Murilo Antunes) se faz presente, mantendo assim a chama do Clube acesa.

Faixas:
01 - Tempestade (Telo Borges)
02 - Sonho real (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
03 - Nenhum mistério (Murilo Antunes - Lô Borges - Ronaldo Bastos - Murilo Antunes)
04 - Vagas estrelas (Márcio Borges - Lô Borges)
05 - Bom sinal (Telo Borges - Márcio Borges)
06 - Um raio de sol (Márcio Borges - Lô Borges)
07 - Feliz aniversário (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
08 - Arma branca (Murilo Antunes - Paulinho Carvalho - Ronaldo Bastos - Murilo Antunes)
09 - Você fica melhor assim (Lô Borges - Tavinho Moura)
10 - Fios d’água (Instrumental) (Lô Borges)


Solo (ao vivo) (1987)
Em 1987, Lô faz seu primeiro e até agora único registro oficial ao vivo de sua carreira. “Solo Ao Vivo” foi gravado no Rio de Janeiro em uma proposta “violão-piano-voz”, acompanhado apenas por seu irmão Marilton. As participações especiais de Milton Nascimento (em “Um Sonho Na Correnteza”) e de Paulo Ricardo – então no auge de sua carreira com o RPM – em “Para Lennon e McCartney” ajudam a abrilhantar este álbum que jamais foi lançado no país. Um privilégio para o público estrangeiro.

Faixas:
01 - Trem de doido (Márcio Borges - Lô Borges)
02 - Faça o seu jogo (Márcio Borges - Lô Borges)
03 - Canção postal (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
04 - Equatorial (Márcio Borges - Beto Guedes - Lô Borges)
05 - Um sonho na correnteza (Yé Borges - Márcio Borges)
06 - Caçador (Márcio Borges - Lô Borges)
07 - Pra Lennon e McCartney (Márcio Borges - Lô Borges - Fernando Brant)
08 - Clube da Esquina nº 2 (Márcio Borges - Lô Borges - Milton Nascimento)
09 - Sonho real (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
10 - O trem azul (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
11 - Paisagem da janela (Lô Borges - Fernando Brant)
12 - Um girassol da cor de seu cabelo (Márcio Borges - Lô Borges)


Meu Filme (1996)
Quase dez anos separam o anterior deste “Meu Filme”, o disco que o próprio Lô considera como o mais emblemático de sua carreira, ao lado do “disco do tênis”. E não é para menos. O disco foi gravado quase todo com voz, violão e percussão a cargo do mestre Marcos Suzano e do aclamado grupo instrumental Uakti. É claro, as participações especiais dão um charme a mais ao disco: o velho amigo Milton toca sanfona em “Alô”, parceria dos dois; Caetano Veloso assina a letra de “Sem Não” enquanto Chico Amaral, principal letrista do Skank, assina a faixa-título com Lô. É neste disco que Lô Borges inaugura sua bem sucedida parceria com Samuel Rosa (Skank), de quem regravaria “Te Ver”.

Faixas:
01 - Meu filme (Chico Amaral - Lô Borges)
02 - Pura paisagem (Márcio Borges - Lô Borges)
03 - Sem não (Caetano Veloso - Lô Borges)
04 - Solto no mundo (Lô Borges)
05 - Alô (Lô Borges - Milton Nascimento)
06 - A cara do sol (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
07 - Vertigem (Márcio Borges - Lô Borges)
08 - Vai vai vai (Lô Borges)
09 - Blue Girl (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
10 - Te ver (Chico Amaral - Lelo Zaneti - Samuel Rosa)


Feira Moderna (2001)
“Feira Moderna” (2001) é uma coletânea com regravações de alguns de seus maiores sucessos. Com exceção da faixa-título, que foi a primeira gravação de Lô para a parceria sua com Beto Guedes e Fernando Brant, motivado após ouvir a versão acústica dos Paralamas. As participações especiais deste disco vão de Edgard Scandurra – um velho fã da música de Lô – a Samuel Rosa. Um disco para antigos fãs relembrarem e novos terem seu primeiro contato com a música de um gênio sempre precoce chamado carinhosamente de Lô.

Faixas:
01 - Feira moderna (Beto Guedes - Lô Borges - Fernando Brant)
02 - Trem de doido (Márcio Borges - Lô Borges)
03 - Fé cega, faca amolada (Milton Nascimento - Ronaldo Bastos)
04 - Equatorial (Márcio Borges - Beto Guedes - Lô Borges)
05 - A página do relâmpago elétrico (Beto Guedes - Ronaldo Bastos)
06 - Um girassol da cor do seu cabelo (Márcio Borges - Lô Borges)
07 - Nuvem cigana (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
08 - O trem azul (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
09 - Vento de maio (Telo Borges - Márcio Borges)
10 - Para Lennon & McCartney (Márcio Borges - Lô Borges - Fernando Brant)
11 - Clube da esquina nº 2 (Márcio Borges - Lô Borges - Milton Nascimento)
12 - Paisagem da janela (Lô Borges - Fernando Brant)
13 - Ela (Márcio Borges - Lô Borges)
14 - Sonho real (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
15 - Tudo que você podia ser (Márcio Borges - Lô Borges)


Um Dia e Meio (2003)
Mais um hiato de sete anos sem gravar nada inédito, Lô Borges lança, no final de 2003 e de maneira totalmente independente, “Um Dia e Meio”, álbum que não só o recoloca no alto do panteão dos grandes gênios da música, como o aproxima das novas gerações através de seu som – mais moderno e atual. São ao todo 12 faixas, composta por Lô em parceria com alguns dos maiores nomes da MPB, de hoje e de sempre. Da geração “Clube da Esquina”, estão presentes no disco Márcio Borges e Ronaldo Bastos, enquanto Chico Amaral e César Maurício representam a geração que aprendeu muito de seu ofício ao beber na fonte do Clube. Além deles, dois grandes nomes da música brasileira fizeram questão de contribuir para o disco: Arnaldo Antunes e Tom Zé.

Faixas:
01 - Tudo em Cores pra Você (Lô Borges - César Maurício)
02 - Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor (Lô Borges - Márcio Borges)
03 - Qualquer Lugar (Lô Borges - César Maurício)
04 - Até Amanhecer (Lô Borges - Márcio Borges)
05 - Chega Pra Ficar (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
06 - Açúcar Sugar (Lô Borges - Tom Zé)
07 - Porque Não? (Lô Borges - Arnaldo Antunes)
08 - Sonho Novo (Lô Borges - Márcio Borges)
09 - Topo do Mundo (Lô Borges - Márcio Borges)
10 - Um Dia e Meio (Lô Borges - Chico Amaral)
11 - Olá Como Vai (Lô Borges - César Maurício)
12 - Tão Bom (Lô Borges)


Bhanda (2006)
BHANDA, o mais novo disco de canções inéditas do cantor e compositor Lô Borges, constituindo-se o 11º álbum lançado, ao longo de quase 35 anos de contribuição à Música Popular Brasileira. Concebido e produzido coletivamente com os músicos que Lô arregimentou para o projeto, BHANDA foi integralmente gravado e mixado em Belo Horizonte, no compasso de uma faixa por mês, entre Maio/2005 e Junho/2006, quando foi finalizado no Sterling Sound Studios (NYC).

Faixas:
01 - Segundas Mornas Intenções (Lô Borges - Chico Amaral)
02 - Pode Esquecer (César Maurício - Barral)
03 - O Tempo É Esse (Lô Borges - Chico Amaral)
04 - Universo Paralelo (Lô Borges - Márcio Borges)
05 - Gira (Lô Borges - Márcio Borges)
06 - Bicho de Plástico (Lô Borges - César Maurício)
07 - Nossa Mágica (Lô Borges - Márcio Borges)
08 - Carnaval de Cor (Lô Borges - Márcio Borges)
09 - Trem das Coisas (Lô Borges - Márcio Borges)
10 - O Som das Estrelas (Lô Borges)


Intimidade (2008)
Menino prodígio da MPB, Lô Borges viu aos 17 anos a sua composição Para Lennon e McCartney virar um hino brasileiro na voz de Milton Nascimento. Pouco mais tarde, vieram as parcerias com os amigos do Clube da Esquina e o legendário disco que os lançou. “Você na cabeça” é um dos versos de Trem Azul (com Ronaldo Bastos). Um dos principais sucessos de Lô, a canção foi não só gravada por Elis Regina, como nomeou o último show da cantora e o álbum do espetáculo, lançado em 1982, pela Som Livre. Os dois sucessos são relembrados na voz do seu criador no DVD e no CD Lô Borges Intimidade, no qual o artista revisita, para um público selecionado, atuais e antigas composições. Um breve olhar pelo repertório, que inclui músicas que se tornaram clássicos: Um girassol da cor do seu cabelo, Feira moderna, Paisagem da janela, Clube da Esquina, revelam porque Lô nunca saiu da cabeça de várias gerações.

Mineiro, o vocalista do Skank Samuel Rosa é um dos herdeiros da sonoridade do Clube. No DVD, o cantor reverencia Lô Borges ao dividir o palco nas canções Clube da Esquina nº 2 e Dois Rios – esta composta por Lô e Samuel com Nando Reis e gravada pela banda no álbum Cosmotron, de 2003. A partir dos anos 2000, Lô compôs e fez mais de 30 shows com Samuel Rosa, além de outras músicas em parceria com Tom Zé, Nando Reis, Arnaldo Antunes, demonstrando grande capacidade de transitar por gerações e estéticas diferentes da que o lançou. No DVD Lô Borges Intimidade, o artista também apresenta outra parceria da nova safra. Fecha a apresentação, a faixa Sem não, que Lô compôs com Caetano Veloso – gravação do álbum “Meu filme”, lançado em 1996, pelo mineiro. A linda Quem sabe isso quer dizer amor foi feita com seu irmão Márcio, e esteve no repertório de Pietá – show e DVD de Milton Nascimento de 2006.

O DVD Lô Borges Intimidade é uma realização Canal Brasil em parceria com a gravadora Som Livre. Acompanha o cantor e compositor a banda formada por importantes músicos e amigos de longa data do artista, como Giuliano Fernandes (guitarras e vocais), Renato Valente (baixo), Robinson Matos (bateria) e Gerson Barral (teclados e synths).

Intimidade – A série Intimidade promove shows intimistas que fogem do formato tradicional de gravar espetáculos em auditórios, com o músico no palco e uma grande platéia. A idéia é realizar uma espécie de ensaio filmado, em que cada artista esteja em seu ambiente de trabalho, cercado de amigos e poucos fãs. A série já lançou os DVDs Guilherme Arantes Intimidade e Oswaldo Montenegro Intimidade.

Faixas:
01 - O trem azul (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
02 - A Força do Vento (Rogério Freitas)
03 - Feira moderna (Beto Guedes - Lô Borges - Fernando Brant)
04 - Qualquer Lugar (Lô Borges - César Maurício)
05 - Clube da Esquina nº2 (Márcio Borges - Lô Borges - Milton Nascimento)
06 - Dois Rios (Samuel Rosa - Lô Borges - Nando Reis)
07 - Clube da Esquina (Milton Nascimento - Lô Borges - Márcio Borges)
08 - Segundas Mornas Intenções (Lô Borges - Chico Amaral)
09 - Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor (Lô Borges - Márcio Borges)
10 - Tudo Em Cores Pra Você (Lô Borges - César Maurício)
11 - Equatorial (Márcio Borges - Beto Guedes - Lô Borges)
12 - Nuvem Cigana (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
13 - Tudo Que Você Podia Ser (Márcio Borges - Lô Borges)
14 - Um Dia e Meio (Lô Borges - Chico Amaral)
15 - Um Girassol da Cor do Seu Cabelo (Márcio Borges - Lô Borges)
16 - Paisagem da janela (Lô Borges - Fernando Brant)
17 - Universo Paralelo (Lô Borges - Márcio Borges)
18 - Para Lennon e Mccartney (Márcio Borges - Lô Borges - Fernando Brant)
19 - Sem Não (Caetano Veloso - Lô Borges)


Harmonia (2009)
“Harmonia” é o cd mais recente do músico e vem com canções inéditas. Descrito como popular, erudito, inovador, musical e pessoal, o cd é fruto de um desafio que o próprio Lô Borges se propôs: inserir a orquestração de cordas em canções populares. “Harmonia” surgiu e foi concebido quando Lô Borges, depois de decretar o fim dos trabalhos de “Bhanda”, disco lançado em 2007, começou a compor alguns temas musicais que poderiam ser registrados com o auxílio das cordas. Assim, o músico e compositor entra em uma nova fase. O resultado final foi melhor do que se imaginava. “Foi realmente um desafio fazer este disco com cordas, mas não me trouxe nenhum stress. O projeto foi incomum, mas às vezes necessitamos de projetos incomuns em nossas vidas”, disse. Ao juntar o pop e o erudito em “Harmonia”, Lô Borges comprova sua teoria de que a música é mesmo universal e está “por aí”, pronta para ser captada por antenas parabólicas musicais.

Faixas:
01 - Caminho (Lô Borges - Márcio Borges)
02 - Chegado (Lô Borges - Márcio Borges)
03 - Cordão de ouro (Lô Borges - Márcio Borges)
04 - Transparente (Lô Borges - Márcio Borges)
05 - Onde a gente está (Lô Borges - Márcio Borges)
06 - Feita de luz (Lô Borges - Márcio Borges)
07 - Viva (Lô Borges)
08 - Imaginária (Lô Borges - Márcio Borges)
09 - Toda essa água (Lô Borges)
10 - Tudo de novo (Lô Borges - Márcio Borges)
11 - Vinheta 78 (Lô Borges)
12 - Fronteira (Lô Borges - Márcio Borges)
13 - Suite Imaginária (Lô Borges)


Horizonte Vertical (2010)
Faixas:
01 - De Mais Ninguém (Lô Borges - Ronaldo Bastos)
02 - On Venus (Lô Borges / Ronaldo Bastos)
03 - Antes do Sol (Lô Borges - Márcio Borges)
04 - O Seu Olhar (Lô Borges - Patricia Maês)
05 - Horizonte Vertical (Lô Borges - Samuel Rosa - Nando Reis)
06 - Xananã (Lô Borges - Patricia Maês)
07 - Da Nossa Criação (Lô Borges - Patricia Maês)
08 - Nenhum Segredo (Lô Borges - Samuel Rosa - Patricia Maês)
09 - Mantra Bituca (Lô Borges)
10 - Quem Me Chama (Lô Borges - Márcio Borges)
11 - Você e Eu (Lô Borges)
12 - Canção Mais Além (Lô Borges - Patricia Maês)

FURACÃO ELIS, 30 ANOS DE SAUDADES...

A intérprete que impulsionou a carreira de Milton Nascimento, João Bosco e Fagner. Essa era Elis Regina.

Por Bruno Mazieri


Era 1982 e o Brasil estava prestes a conferir o lançamento do filme de E.T., de Steven Spielberg e a inauguração do sambódromo do Rio de Janeiro (ambos em dezembro). Porém, o fato que talvez tenha mais marcado os brasileiros, naquele ano, foi a morte da cantora Elis Regina de Carvalho Costa ou, simplesmente, Elis.



No próximo dia 19, faz exatos 30 anos que a “Pimentinha”, como foi batizada - por assim dizer - por Vinícius de Moraes, foi encontrada morta no quarto de seu apartamento, em São Paulo, deixando órfãos seus três filhos (Pedro, João Marcelo e Maria Rita), além de uma legião de fãs.

Elis faleceu em São Paulo em 1982, depois de misturar bebida alcóolica com tranquilizantes. Seus três filhos atuam no ramo musical. João Marcelo Bôscoli é fundador da gravadora Trama e Pedro Mariano e Maria Rita são cantores.

Para a cantora amazonense Márcia Siqueira, Elis era uma artista única e incomparável. “Uma pessoa que consegue eternizar o seu trabalho, como ela fez, é de uma importância tamanha. Não apenas para as cantoras, mas em um geral. Ela é uma referência e uma escola”, afirma.

Confirmando o dito por Márcia, a também cantora Lucilene Castro vai além e declara que ela faz parte de uma geração de grandes artistas. “Ela cantava rock, samba, baladinha e tudo isso com uma propriedade única. Ela vem junto a importantes nomes como Maria Bethânia, por exemplo. Mas sem dúvida ela se destacava em absoluto”.

Como a maioria dos brasileiros, os artistas também receberam a notícia da morte da artista como um “choque”. O cantor Serginho Queiroz lembra que estava no Diretório Central Estudantil (DCE), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Lembro que estávamos conversando e, de repente, fez-se um silêncio. Apesar de ainda não cantar profissionalmente a época, pegamos um violão que estava por lá e começamos a lembrar das canções gravadas por ela. Era mais choro que cantoria, na verdade”.

Márcia Siqueira conta que tem vagas recordações, mas o fato causou um impacto muito grande. “As revistas e jornais só falavam disso. O Brasil meio que parou para receber aquela notícia”, conta.



Tributos

Em comum, os três artistas já realizaram tributos à cantora. Lucilene Castrou apresentou o “Viajando no comenta Elis”; Serginho Queiroz fez uma temporada, em 2002, no Teatro Instalação com “Brasil saudades de Elis”, parafraseando o LP da cantora intitulado “Elis saudades do Brasil” e; Márcia Siqueira mostrou o celebrado “Nós, Voz, Elis”.

domingo, 15 de janeiro de 2012

PERNAMBUCO FREVANDO PARA O MUNDO

Depois de dois álbuns que tornaram-se expoentes da música pernambucana, Fábio Cabral vem com uma nova compilação que tem tudo para tornar-se mais um referencial para a cena musical do estado.

Por Bruno Negromonte


Por volta de 2006, Fábio Cabral de Melo, proprietário de uma das últimas lojas genuinamente de cd's da cidade do Recife, concebeu uma coletânea composta exclusivamente por artistas do cenário musical pernambucano intitulada "Pernambuco cantando para o mundo" (título alusivo ao slogan da Rádio Jornal do Commercio: “Pernambuco falando para o mundo”). Talvez não soubesse o comerciante que a partir daquela ideia já germinava aquilo que viria brotar tempos depois: o recém-criado selo Passa Disco.

Dois anos depois, em 2008, em comemoração aos 5 anos da loja foi lançado o segundo volume da série, e agora, passado 04 anos, vem o terceiro da série (o primeiro pelo selo Passa Disco) intitulado "Pernambuco frevando para o mundo", um álbum duplo onde o ritmo mais representativo do estado desfila através das 32 faixas criteriosamente selecionadas. São nomes de destaque no cenário musical nacional como Geraldo Azevedo, Quinteto Violado, Lenine, Alceu Valença, Elba Ramalho e Claudionor Germano somando forças com artista da cena contemporânea musical pernambucana composta por nomes como Zé Brown, Orquestra Contemporânea de Olinda, Antúlio Madeira, Gonzaga Leal, Maciel Salu, Mamelungos, Herbert Lucena, Ortinho, Spok Frevo Orquestra entre outros. Sem contar que o álbum ainda traz em forma de resgate o grupo Limusine 99, banda surgida no início da década dos anos 70 como um dos expoentes do movimento contra-cultural do recife batizado de "Udigrudi", o grupo chegou a ganhar festivais e a plugar o frevo em uma época em que tal atitude era pouco convencional; sem contar que chegaram a participar do álbum "Frevo ao vivo", gravado ao vivo no teatro de Santa Isabel em 1974 pelo selo Marcus Pereira. Vale salientar que o disco será dedicado ao maestro Zé Menezes e certamente figurará como mais um trabalho fonográfico que se torna-se-á referência de nossa cultura musical ao longo dos anos.

Segue abaixo as faixas do álbum duplo:

Disco A
01 - Viva Pernambuco (Antúlio Madureira)
02 - Índia fatal (Herbert Lucena)
03 - Diabo louro (Alceu Valença)
04 - Pisando em brasa (Luciano Magno & Spok Frevo Orquestra)
05 - O bom Sebastião (André Rio & Nena Queiroga)
06 - Alegorias (Paraquedista Real)
07 - Casa de Marimbondo (Eddie)
08 - Tenha modos (SáGrama)
09 - Carnavais e São Joões (Rogério Rangel)
10 - Janelas (Orquestra Contemporânea de Olinda)
11 - Bairro dos meus amores (Gonzaga Leal, Cezzinha & Orquestra Popular do Recife)
12 - Trovão azul no frevo (Cláudio Rabeca)
13 - Queimando a massa (Claudionor Germano)
14 - Vulcão tricolor (Orquestra Popular da Bomba do Hemetério)
15 - Frevo maps (Digital Groove)
16 - Vinheta (Projeto Sal)

Disco B
01 - Elaboração frevo (Zé Brown)
02 - Micróbio do frevo (Silvério Pessoa)
03 - Roda e avisa (Elba Ramalho)
04 - Freio a óleo (Spok Frevo Orquestra)
05 - Tem frevo na latada (Josildo Sá)
06 - Terceiro dia (Bloco da Saudade)
07 - Não me ames (Ortinho)
08 - Engatinhando (Saracotia)
09 - Aquela Rosa (Maciel Melo)
10 - Fanfarra (Mamelungos)
11 - Aurora de amor (Coral)
12 - Galo do povo (Maciel Salu)
13 - Pot-pourri (Geraldo Azevedo)
14 - Frevo na primavera (Quinteto Violado)
15 - Hino do Elefante de Olinda (Ska Maria Pastora)
16 - Solavanco (Limusine 99)

sábado, 14 de janeiro de 2012

LUIZ GONZAGA É CEM!

Por Abílio Neto*


Neste ano do centenário de Luiz Gonzaga, pretendemos também dar ênfase naquelas músicas do seu vasto repertório que, apesar de lindas, não foram lançadas nas suas coletâneas nem foram regravadas por outros artistas, caindo no esquecimento popular.

Como ele já tinha feito com Zé Dantas o grande sucesso Algodão,um baião de 1951,em 1955 também fez com Zé Dantas um xote exaltando um dos nossos principais produtos agrícolas de exportação: o café.

O xote "Café" foi lançado em julho de 1955 e fez um tremendo sucesso. Fica bem destacado na gravação para os ouvintes o belo acompanhamento de Luiz Gonzaga com um violão e uma percussão fantásticos. E o que dizer do solo da sua sanfona? Perfeito domínio do instrumento do qual ele sempre será lembrado como um dos expoentes no Brasil.


Homenagem de Benito di Paula

As festas do centenário de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, ídolo maior da nação nordestina, começaram no dia 14/12/2011 e se estenderão até 13/12/2012 quando atingirão o seu ápice. Pretendo ao longo deste ano colocar 25 postagens sobre o famoso cantor e sanfoneiro do Riacho da Brígida. Serão duas a cada mês (até novembro) e três em dezembro. Procurarei dar ênfase nesses escritos às homenagens que ele recebeu em vida de inúmeros artistas nacionais que gravaram (a seu modo) suas músicas dando vida nova a elas com interpretações pessoais inesquecíveis, entremeadas por algumas histórias interessantes sobre a sua vida.

Quero começar pela homenagem do grande artista Uday Veloso, que compôs uma música especialmente para ele. Uday é um fluminense nascido em Nova Friburgo em 30/11/1941, tendo completado 70 anos no final de 2011. O seu pai foi um funcionário da concessionária da Estação Leopoldina e tocava bandolim, piano e violão. Assim não foi surpresa quando o seu filho se tornou músico, cantor e compositor. E tudo começou lá no Morro da Formiga, na Tijuca, zona norte da cidade do Rio de Janeiro.

- Por que o nome Uday? - Meu nome quer dizer “chefe da tribo”. Grande parte do meu sangue é cigano, entendeu? E você sabe que os nômades e ciganos vieram todos da Índia? O princípio dos nômades, dos ciganos, é a Índia.

Aquele rapaz que se vestia diferente dos jovens da sua época subiu a escada do sucesso com o nome de Benito di Paula e começou sua vida artística cantando na boite Balalaika, em Copacabana, como crooner. Em seguida, mudou-se para o estado de São Paulo onde cantava e tocava piano em casas de shows de Santos e São Paulo (capital). Ficou famoso na Catedral do Samba no bairro do Bixiga.



Em 1972, sua composição “Retalhos de Cetim” fez grande sucesso em casas noturnas de São Paulo, em especial na Teleco-Teco, que era frequentada por sambistas como Ciro Monteiro e Monsueto. Em virtude dessa música ficar em evidência por meses seguidos, Benito foi convidado a gravar um compacto pela Copacabana, porém gravou foi outra música: “Ela”. Retalhos de Cetim teve gravação em um segundo compacto pela mesma gravadora, composição que lhe abriu as portas para o sucesso no Brasil e no exterior porque foi gravada por Jair Rodrigues, pela orquestra de Paul Mauriat e pelo violonista norte-americano Charlie Byrd (homenageado na música Charlie Brown). Este samba figurou entre as composições selecionadas pelo historiador Jairo Severiano como um dos maiores sucessos do ano de 1973. O compacto simples vendeu mais de 150 mil cópias.

O sucesso de Benito não foi uma coisa bem assimilada pela crítica especializada que falava dele com certo desdém, acho que também pelo visual de cabelos longos e bigode, incomum entre os sambistas da época. Como os seus sambas eram românticos, foi rotulado de cafona e brega. Depois ganhou ainda um título aparentemente pejorativo: “O Rei do Sambão Joia”.

Benito nunca deu ouvidos para isso até porque era consciente do seu imenso talento e foi consolidando uma brilhante carreira de músico, cantor e sambista, passando a ser conhecido e admirado internacionalmente. Entre seus fãs fora do Brasil destacaram-se personalidades da música como Ravi Shankar (tocador de cítara), a cantora Sarah Vaughan, o violonista Charlie Byrd (já citado) e o pianista e cantor Stevie Wonder.

Em 1975, Benito comandou o programa Brasil Som 7, da extinta TV Tupi, de São Paulo, do que resultou um disco lançado no mesmo ano no qual apresentou alguns de seus convidados, entre eles Elizete Cardoso, Wando e Bebeto. Nesse mesmo ano, ao lado de Elizete Cardoso, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Jorge Ben, Beth Carvalho, Sônia Santos, Quinteto Violado e Cláudia, integrou a delegação brasileira que participou do Festival do MIDEM (Mercado Internacional de Discos e Editoras Musicais), na cidade de Cannes, na França. Ainda em 1975, lançou a música Charlie Brown, que obteve grande sucesso, a ponto de Chico Buarque referir-se a Charlie Brown como se fosse uma personagem real. Eu presumo que era, sim. Acho que Benito se referia ao músico norte-americano Charlie Byrd.

- Na capa do seu terceiro LP, Um novo samba, você está no maior estilo cigano, com pulseiras, correntes, brinco e, na época, tava com aquele cabelón Luís XIV. De onde vem essa pegada? É negócio de cigano, né? - A gente gosta. Por que não se enfeitar pra vida, né? A vida merece que você se enfeite pra ela a toda hora, a todo minuto.

E foi justamente em 1975 que Benito di Paula compôs e gravou a canção-homenagem que mais emocionou Luiz Gonzaga: Sanfona Branca. Isto está escrito no livro A Saga de Luiz Gonzaga, da escritora francesa Dominique Dreyfus.

- Você era contrário à ditadura, mas, por outro lado, fez algumas músicas que eram favoráveis. Sim ou não? Qual era sua posição política na época? - Olha só. Eu fiz “Tudo está no seu lugar, graças a Deus” numa época muito difícil, porque ninguém venha me dizer que a época da ditadura era fácil. Ainda mais pra mim, que trabalhava à noite, tinha cabelo comprido, tinha de andar de madrugada. Toda hora era chamado pra dizer aonde ia, o que foi fazer, o que aconteceu. O Ziraldo chegou pra mim e disse que quando ele fazia um trabalho e ficava pronto ele falava: “Tudo está no seu lugar, graças a Deus”. Confundir isso com uma música pra ditadura? Tá maluco? Não tem sentido alguém fazer uma música pra ditadura, certo?



No programa Ensaio da TV Cultura de São Paulo, em 02/12/2009, Benito teve oportunidade de falar sobre Luiz Gonzaga e Adoniran Barbosa, duas lembranças que lhe arrancaram lágrimas:
- “Eu toco piano, mas não é nem de ouvido, nem por música, é por necessidade”. Com essas palavras Benito di Paula deu início a uma emocionante edição do programa Ensaio, que foi ao ar na quarta-feira (2/12/2009), a partir das 22h, sob o comando de Fernando Faro, na TV Cultura/Itararé. Entre os momentos mais marcantes da entrevista, estão os que Benito lembrou Adoniran Barbosa e Luiz Gonzaga. Sobre o sambista, ele comenta a parceria na música “Não Precisa Muita Coisa: - “Adoniran sempre me deu muita força pra cantar. Um dia ele chegou e falou “ó, tem um pedaço de samba aqui, aí tu leva e faz”. O Rei do Baião foi lembrado com extrema admiração: - “Luiz Gonzaga é uma coisa que está dentro de mim desde que nasci. Eu fico até com pena desse pessoal que trabalha com cultura e arte e não fala dele, não toca nada dele. São infelizes”. Emocionado, Benito cantou uma canção que compôs para Gonzagão chamada “Sanfona Branca” e ainda interpretou um trecho da composição feita por Luiz Gonzaga em resposta a essa homenagem: “Chapéu de Couro e Gratidão”, além da clássica Asa Branca.

Letra de Chapéu de Couro E Gratidão (Luiz Gonzaga e Aguinaldo Batista):

“Aquela sanfona branca
Aquele chapéu de couro...”

“Como é bonito, Benito
Quem é poeta é que vê
Como é bonito, Benito
Poetas como você
A minha sanfona branca
Cor da paz do sonhador
Sonha que é teu piano
Tocando coisas de amor
O meu sol nasce mais cedo
Não tem hora pra largar
Racha pedra, queima a pele
Dá mais força no cantar

Como é bonito, Benito...

A minha voz de Nordeste
Vai ter som universal
Quando nós cantarmos juntos
Meu baião na capital
Bato palmas, trago flores
De Januário, a benção
E no meu chapéu de couro
Nada mais que gratidão

Como é bonito, Benito...”

E é com esta canção muito querida pelos nordestinos, Sanfona Branca, que começo as homenagens dos artistas brasileiros a Luiz Gonzaga, o Eterno Lua, que terá sempre um lugar de destaque em nossa memória, corações e mentes.

Viva os Cem Anos de Luiz Gonzaga! Salve Benito di Paula com sua memorável canção Sanfona Branca!

Fontes:
Dicionário on-line da MPB de Ricardo Cravo Albin
Entrevista de Benito di Paula à revista Trip
Pesquisas minhas sobre a vida do artista



* Abílio Neto, pernambucano, 63 anos, é pesquisador, divulgador de música e também colecionador. Seu arquivo contém obras raras da MPB, mais especificamente frevos, sambas, forrós e choros. Tem mais de 150 artigos escritos sobre música publicados nos sites Migalhas e Besta Fubana. É membro da Academia Passa Disco da Música Nordestina, uma entidade criada para exaltar a boa música brasileira.

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