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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra





A CASA DOS SONHOS DO MEU AMIGO



O projeto estava pronto, com a genialidade do arquiteto que fez o painel desenhado que se debruça ao longo do espaço externo do restaurante, dividindo o ambiente refrigerado daquele outro, ao ar livre. Uma mureta de vidro, encabeçada por pequena jardineira, era tudo o que queríamos. E tivemos. Transparência visual. Tudo feito com o cuidado de possibilitar aos frequentadores o aproveitamento integral das paisagens andantes que por ali trafegavam, indo ou vindo para a praia bem próxima. Tivesse Vinícius passado por ali, teria que pluralizar e alterar o título de sua música Garota de Ipanema, transformando-a em Garotas do Pina, tantas eram as belezas que por ali trafegavam. Mas uma maldita loja de construção pôs em promoção um tal de porcelanato. Pior: a mulher do dono do restaurante encantou-se com as vantagens oferecidas e, ao invés do transparente muro de vidro, afixou ali uma detestável parede, uma mureta de 60 centímetros, de cimento e revestido pelo tal do porcelanato, impedindo a contemplação integral, de nossa parte, daquelas que por ali passavam. Ficamos limitados à parcialidade visual que o ambiente passou a oferecer, permitindo-nos, apenas, o vislumbre da parte acima da cintura daquelas ‘praieiras’. E o ‘andar térreo’? Seria compatível com a beleza apurada na ‘sobre-loja’? Nunca saberemos, submetidos que estamos a esta tortura visual, dúvida atroz. Tanto me revoltei que deixei de frequentar o tal restaurante e, sempre que por lá passo, não resisto e, conjugado com o gesto característico, grito aos quatro cantos: aqui PRA VOCÊS, Ó! Pena que o caldinho de peixe que eles serviam era tão bom!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra





A MULHER QUE NÃO FOI


Ela não foi. Ficou de ir e não foi. Nem mandou alguém em seu lugar: melhor assim. Esse alguém talvez nem goste das cantigas do Chico, tampouco aprecie uma cerva gelada que só. Só sei que a danada não foi. Ou seja: meu amigo estragou água morna e sabão, gastando-os em banho tão demorado. Se seus dentes resistiriam a mais um dia sem escovação, para que escová-los, gastando pasta e escova? Pia e privada bem que poderiam ficar sem lavar: far-se-ia isto depois, com calma. Tudo em vão … Mas tudo bem. Vai ver o UBER ‘farrapou’ ou a babá que ficaria com seu filho adoeceu. Vai ver ela torceu o pé ao descer a escada ou engasgou-se com o cuscus, borrou o batom e deu-lhe preguiça de se ‘rebatonzar’ …Terá tido uma dor de barriga? Ou o calo do mindinho voltou a doer? Talvez tenha ido a um chá de caridade e esqueceu da caridade que iria fazer. Não sei a razão. Sei que ela não foi. Liga não – disse ao meu amigo – aproveita e deixa perdido o desodorante que se perdeu: quem sabe dona Solidão, que ‘tá já chegando ou já chegou, goste do cheiro dele ao cheirar o teu sovaco e se abanque por aí? A gente nunca sabe: a solidão é tão esquisita, tem uns gostos tão estranhos …

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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




A INSIGNIFICÂNCIA DE SER IMBECIL



Sou muito sensível a elogios. Adoro quando me chamam de imbecil. Tanto quanto Manoel de Barros. A diferença é que não tenho o talento dele. Mas quando comentam as insignificâncias que escrevo, seja em texto ou canção, fico feliz. Mais ainda e principalmente quando delas discordam. É indicativo de que alguém leu ou escutou e fez despertar o interesse de pelo menos uma pessoa, ainda que pensando diferente de mim. É o poder da palavra ou da música, guardada nos cofres da Poesia. É o nada e o tudo juntos com a magia do encantamento e o poder da sedução. Que seria de nós sem os Buarques de Holanda, Joões Cabrais, os Quintanas, os Vinícius e os Manoéis, os Barros e os Bandeiras? Sem falar nos Pessoas do além-mar. Eles nos bastam para suportar os verdadeiramente imbecis que se julgam superiores, sem o serem, claro. Por isso, me alegram, sobremodo, quando os comentários discordantes são daquelas pessoas reconhecidamente insignificantes e que nos dá prazer tê-las como discrepantes. Opiniões destes, tomo-as como elogio. E gosto de elogios.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




CIBALENA E CHUVA



E a dorzinha no pé da barriga não quer ir embora. Solidária, insiste em me fazer companhia, em não me deixar só. Começando com a letra ‘c’, além de chuva, a única coisa que posso tomar é comprimido. É um depois do café, um depois do almoço e mais um após o jantar. Tome ‘cibalena’. Meu bucho ‘não está valendo um cibazol’, como se dizia lá rua Tianguá de minha infância. O doutorzinho que eu fui, que por ironia do destino se chama Carlos (a letra ‘C’ me persegue) proibiu chocolate, café, Coca-Cola, cerveja, conhaque, charque e cachaça. E ainda me enfiou uma mangueira goela abaixo, com uma câmara na ponta para, segundo ele, bater uns 3×4 das minhas tripas. Que indiscrição. Pior foi quando eu vi os retratos do meu interior: pense numa paisagem feia! Meu consolo é saber que as tripas de Luana Piovani e da morena da ‘Dona do Pedaço’ não devem ser muito diferentes das minhas. Todo interior deve ser feio que nem o meu, acredito. E tem um cantor mineiro, acho que Vander Lee, que cantava que era belo o interior do seu interior. O meu é feio que só a gota serena. Vôte! Acho que Vander Lee nunca bateu uma ‘chapa’ do interior do seu interior. Só sei que depois que eu vi os retratos do bucho por dentro nunca mais eu como dobradinha. Deus me defenda. Também, quando eu ficar bom vou me empanturrar de chocolate, café, Coca-Cola, cerveja, conhaque e cachaça. Cibalenas, nunca mais. Até quando doutor Carlos voltar a recomendá-las.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra





REVISTA DO RÁDIO



Não se conhecia maldades na casa de minha infância. Havia, logo à frente, do outro lado da rua, um imenso capinzal onde se criava vacas. A rua era nosso campinho de futebol, bola de meia, raramente de borracha. No quintal, um pé de limão e um outro de doces siriguelas, tudo vigiado por Tupã, amigo fiel de meu pai. Na tentativa de salvá-lo, quando um dia o cão caiu no cacimbão, meu pai perdeu sua Parker 51, de estimação, que escapuliu do seu bolso para fazer companhia a Tupã. Mas o melhor daquela casa é que existia, no quarto, uma cômoda antiga, escura, quatro gavetas, sobre a qual eu folheava, escondido de minha mãe, a Revista do Rádio, detendo-me na coluna em que se via vedetes daquele tempo, como Virginia Lane e Renata Fronzi, com pouquíssima roupa para os padrões da época. Que belas coxas tinha a Lane. Quantos sonhos sonhados com a Fronzi. Belos joelhos. Joelhos e coxas: tudo que nos era permitido ver. Não havia Playboy, nem Ele e Ela: apenas uma tal de Status, precursora das duas, mas recatada em relação a estas. Eram outros os tempos, sem internet, sem WhatZap, sem redes sociais. Nosso telefone, preto, pendurado na parede, se resumia a um 3-20-26. Televisão, só a do vizinho, onde víamos Renato Aragão em preto e branco, às quartas-feiras, antes de ele ir ser famoso no Rio de Janeiro. E era só. Bastava-me a Revista do Rádio, de periodicidade mensal. Um mês de espera pelas fotos das vedetes que enfeitavam meu pensar. No mais, era escola, bola de meia e inocência plena à espera da nova Revista, no final de cada mês, na casa 142 da Francisco Parreão, em frente ao capinzal, onde jogávamos bola sentindo o aroma de bosta das vacas que ali moravam.

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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




BRILHO NO OLHAR DO AVÔ

Neto é aquela criaturinha que faz o olho da gente brilhar, quando ele chega por perto com seu sorriso moleque e sotaque de anjo. Ele pede o que quase não pode e a gente dá mesmo sabendo do quase não dever dar. Aquele bombom que maltrata os dentes, aquele chocolate ou até, crime maior, um pouquinho de coca-cola, tudo escondido do pai e da mãe. Tudo dentro daquele Contrato de Cumplicidade que em seu artigo primeiro diz: ‘Não revelar aos Pais nada do errado que seu avô comete’. Até porque quando eles forem avós farão o mesmo com os filhos do meu neto. Parece que estou vendo. A gente ensina a paz mas não resiste a uma luta de espada imaginária entre dois super heróis, ele e eu. Doces encargos do avô. Esse homem de cabelos brancos nunca cansa de ver o mesmo filminho, repetidas vezes, sabendo o final tanto quanto o neto que lhe obriga a isso. Mas, se ele gosta, é bom ver aquele mesmo filminho, repetidas vezes, sabendo o final tanto quanto ele. Contar histórias é outra tarefa própria dos avós. E a gente conta uma, duas, três, dez vezes a mesma história. Não sei qual dos olhos brilha mais, se o nosso ou o dele. Certo mesmo é que quando ele reconta pra nós a história que contamos, é nosso olho que brilha mais. E o avô ri grande que nem menino pequeno. De alegria porque percebe que ele assimilou direitinho os conceitos de união, paz, amizade, amor que a gente tentou passar nas histórias que a gente contou. E aí, inevitável, uma lágrima molha o brilho do olhar de avô. São 6 anos e ele continua a inventar cheiros para o meu jardim. Como não plantar-me num inverno de alegrias para florar risos no meu olhar de avô? Salve Bernardo, que me dá a alegria de ser avô. Feliz 7 anos, meu amiguinho/amigão, meu imenso companheiro. São 2190 dias inventando cheiros no meu pé de alegrias.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra






TEMPO FUGAZ



Sob o céu do Poeta descansam nuvens branquinhas, preguiçosas, donas da mansidão, mas que ao primeiro assobio de vento se alvoroçam pra virar chuva. É aí que as asas se abrem, batem e alçam vôos nunca dantes voados rumo à quimera de uma vida feliz, possível para os bons, os do bem. E o verbo dever, junto com a obrigação substantiva, desaparece, pois tudo que era devido deixou de sê-lo. Nada por obrigação, tudo por prazer. Nada a lamentar. Restará apenas a saudade do ontem passado e descumprido, da tarefa recomendada e deixada de lado, do canto calado e do poema por escrever. Mas o tempo é presente, embora fugaz, e o futuro é impaciente. E ele já está ali na esquina esperando a gente, silente e indecifrável, doido pra virar passado. E ele é rápido como o vento, ligeiro como a vida.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra





O ADESTRADOR DE BORBOLETAS



Ele adestra borboletas, cantando alto a Poesia que ela faz acariciando sonhos e pastorando nuvens. Moram a pequena distância, ele dela, mas não se conhecem. Ela sequer desconfia que o adestrador, no exercício de seu ofício, canta seus poemas. Ele, por sua vez, não imagina que seu canto deriva da poesia que ela escreve. Nunca se viram, nunca se encontraram. Os devaneios comuns aos dois, ao contrário, vivem de mãos agarradas a passear pelo infinito do bem pensar. Estão por se encontrar. Poesia e canto não sabem viver um longe do outro. Um belo dia, tenha certeza, o som invadirá o íntimo da Poetisa que sentirá, no fundo da alma, que suas rimas se transformaram em canção, que seus versos hoje são melodia, que seus corpos foram feitos um para o outro. E aí, sonetos suavizarão seus corações, cantigas bonitas embalarão suas vidas e cantilenas perenes se espalharão pela escola do adestrador, pelos caminhos e veredas das nuvens da Poetisa. Não tenho dúvidas. Amanhã, talvez, antes do primeiro vôo da borboleta azul, logo após as reticências da palavra, assim que o silêncio penetrar a profundeza das cores e a brancura das nuvens, eles se encontrarão para provar o estar vivo da bem-querença. A harmonia prevalecerá e a melodia estará pronta para ser executada. Antes que caia a gota inicial da água em que foi transformada aquela nuvem branquinha, numa chuva de amor e carinho, num borboletar de Paz. Assim é o amor.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




A MOÇA DO CABELO VERDE


Lá vem ela, serelepe e fagueira, a moça do cabelo verde que todos os dias fura a fila do metrô e passa à frente de todos, com a maior cabeloverdice. As grávidas, os velhos, as mães com filho no colo, os deficientes, todos ficam para trás. Como ela aparentemente não está grávida, é jovem, não carrega um filho no colo, muito provavelmente ela é deficiente, do ponto de vista ético, sob a ótica mental e a isso se apegue para desrespeitar a todos. Só pode ser. Idade ela tem pra ter juízo. Talvez até tenha: apenas não o usa. Quando consigo entrar no vagão, já lotado, a moça do cabelo verde já está lá muito bem acomodada, sentadinha na janela, sorriso no canto da boca, celular na ponta dos dedos, como que a zombar de todos nós, pobres mortais, imprensados feito sardinha em lata. A falta de civilidade é imensa e me causa indignação. Todos os dias eu me entristeço pela quantidade cada vez maior de mulheres do cabelo verde ao nosso redor, furando fila, estacionando onde não deve, desrespeitando o direito alheio. E antes que me taxem de preconceituoso, vou logo avisando: homens também pintam seus cabelos de verde, de azul e de vermelho. Que bom se não houvesse tintura de cores extravagantes para o cabelo dessa gente.

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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




ALVISSÁRAS



Pela janela embaçada, vê-se nuvens de chuva mansa, de neblina preguiçosa, se espalhando nas pétalas azuis do céu, formando carneirinhos para logo em seguida desmancharem-se e virarem dragões ou manchas parecidas com gente que nem a gente. O chão quase enxuto bem reflete a tão pouca intensidade da água que cai. O sol, companheiro inclemente, insiste em travar luta com o nublado que, de certa forma, dá esperança ao homem do sertão. Mas vão-se os dias, e a seca, renitente, permanece. Até que tudo vira breu e o céu fica escuro, pesado, carregado, como se diz. Prenúncio de coisa boa, da felicidade que está por vir. Cai o primeiro pingo, o segundo e aí já não dá mais para contar, tantos os pingos que caem. É a chuva, é o inverno avisando que está chegando. Ajoelhemo-nos, paguemos as alvíssaras e gritemos viva a São José e obrigado a São Pedro. Eu bem que achei que estava bonito para chover.

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sexta-feira, 31 de julho de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra





PARAÍSO



A felicidade, de surpresa, avizinhou-se, bateu-me à porta, entrou e sentou à minha frente, pertinho dos livros, entre um Bandeira e um Graciliano. Usou a cadeira de balanço em que eu cochilo como se em casa estivesse. E estava. Foi quando todas as letras deram-se as mãos, arrumaram-se entre si e formaram versos bonitos, belas prosas. Pela janela, os relâmpagos, cor de arco-íris, enfeitavam tudo o que não era terra. Foi quando percebi que todas as estrelas esqueceram de dormir e brincavam naquele céu de pré-chuva, antes que as nuvens virassem neblinas perfumadas. Na calçada, sentados ao chão, os homens conversavam e brincavam que nem as crianças que lhes tinham ensinado a recitar o verbo amar. Ao longe, mas nem tanto, ouviam-se serenatas acompanhadas por violões afinados, tão diferentes dos fuzis que se anunciam, estes usados para fim ignóbil. Estávamos em plena terça-feira de carnaval e todos torcíamos para que aquela festa não se quarta-feirasse. Aos quatro ventos, meninos brancos, pretos e pardos, buchudos e magrelos, ricos e pobres bradavam anúncios de cursos intensivos de abraços e beijos na faculdade de carinho ali próxima, na outra esquina. Todos riam e cantavam e ninguém sonhava com o Paraíso. Precisava? Existia um outro além daquele?

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




UMA VALSA E UM SORVETE


Ele chegou na estação muito antes da chegada do trem que o levaria. Nem seu barulho nos trilhos se ouvia. Além de sempre apressado, a vontade de chegar era maior que o tempo que lhe sobrava naquele lugar distante e sem flor. Queria chegar logo no País dos Duendes cor do Céu. Um deles o aguarda para levar-lhe à praça central, onde também ela estará a espera-lo, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar e um sorvete de umbu cajá. Daqueles de casquinha. Nem importa ter ou não açúcar. Irrelevante para ele: às favas a glicose. De mãos dadas e corações alegres, seguirão até o coreto onde anjos entoarão a Valsinha de Chico. Suas mãos desconhecem o verbo se soltar. Seus pés se entrelaçarão num dançar alegre e feliz, bem-dizendo a vida. Marcarão para o dia seguinte. Mesmo local, mesma hora, mesmo tudo. Menos o sorvete: amanhã o sorvete será de felicidade plena com cobertura de alegria e paz. Muito melhor que o de mangaba. Tão bom quanto o de umbu cajá.

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sexta-feira, 3 de julho de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




SÁBADOS


Como eram bons os meus sábados, longe da escola, do professor durão e do diretor que adorava me suspender. Só porque eu pulava o muro e ia embora antes de a aula terminar. Eu que nunca botei areia no tanque de seu Gordini marrom, que ficava parado lá atrás da Secretaria, longe de seus olhos vigilantes. Sábados de altas conversas com os passarinhos e as borboletas. E, para cada sábado feliz, um domingo avexado e sorrateiro na esquina, aguardando o desamanhecer, sua hora de chegar, anunciando que a segunda-feira estava por vir. No relógio do tempo a semana é cheia de sábados passados e de outros tantos que estão por vir, sem terças ou sextas-feiras, pois o coração da gente sabe nada, nadinha, de calendários: só entende de alegrias e saudades, de flores e de partidas, de encontros e de lágrimas, de amor e desamor. Entende nada das Quintas. Nem das Quartas-Feiras. Não sabe o que é tempo. Mas adora os Sábados.

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sexta-feira, 19 de junho de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra






O SERESTEIRO DA PRAIA DOS BRANCOS MORROS



Lá vem o seresteiro anônimo pelas brancas areias da praia de Morro Branco, entre altas dunas e falésias das mais variadas cores e tons. Uma mão no ouvido e a outra apontando estrelas. Calem-se todos para que ele continue seu ofício, sua missão de cantar. Isso basta. Não importa se o entendamos, se sua voz é bela, se a afinação é perfeita: basta ouvi-lo. Pouco interessa a canção, pode até ser algo bobo: importa o cantor e sua mensagem, a esperança que nela se contém. Bobagem musical só os desalmados enxergam. Sua alma, por si só acalentada, ajuda a acalentar tantas outras, ternurizando cantigas que ouvimos e que, de tão belas, quase sempre conseguimos fazer coro. Façamos como ele: cantemos. Qualquer coisa. Alguém ficará feliz com nossa voz, por mais desafinada que possa parecer. Outros ouvirão e, quem sabe, nos acompanharão e conosco cantará. E que o seresteiro anônimo continue a alegrar as cores das noites e as areias de um branco morro, arejando as dunas das almas e afagando as falésias coloridas do coração de quem por ali vive e ama.

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sexta-feira, 5 de junho de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra





DONA JUSTA ESTÁ NUA


Procura-se roupa decente para vestir a Justiça. Qualquer pano, qualquer trapo ou retalho que não seja uma toga. Sem venda a lhe tapar os olhos, despida de princípios de pesos justos em sua balança e com a espada embainhada contra os costados do humilde povo, a outrora honrada dona Justiça desfila nua pelas ruas, palácios e tribunais, pelas esquinas sinistras do Planalto, escarnecendo a todos e assumindo sua porção prostituída de caráter duvidoso que não resiste ao menor tilintar de moedas à sua frente. A origem do metal vil que corrompe – diretamente ou não, é o que menos importa: de Empresários ou Políticos provenientes, ele perverte da mesma forma e avilta com a mesma força. Pobre de quem nela um dia acreditou. Dona Justiça hoje habita o mais degradado dos cabarés e se entrega, lânguida e voluptuosamente em lascívia permanente com os poderosos e seus interesses inconfessáveis. Dona Justa está nua e sua venda a esconder-lhe a visão nada mais é que uma fraude.

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sexta-feira, 22 de maio de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




CAIXINHA DE ESTRELAS


Abri lentamente a caixinha de meu guarda-estrelas sem mexer no papel prateado que embrulhava a lua. Deixei-os lá, papel e lua, e retirei, uma a uma, as estrelas de todas as cores que ali dormiam. Percebi que a lua não gostou daquela solidão e a ela devolvi as estrelas roxa e vermelha. As demais, com elas fiquei e levei-as a passear. A estrela branca me indicava o caminho da Paz e segui seu roteiro. No meio do caminho ela sonhou com Dom Helder e desapareceu nas asas de uma pombinha. A estrela verde, levei-a, a seu pedido, para ver o verde mar. Encantou-se com um peixinho cor-de-rosa e sumiu na primeira onda. À azul mostrei o céu e ela se apaixonou por um arco-íris que acabara de se abrir e se embrenhou no meio de tantas cores. Restou-me a amarela, que não resistiu ao primeiro apelo e chamamento do Senhor Sol e a ele foi-se unir. Voltei ao guarda-estrelas, desembrulhei a lua, guardei-a bem junto ao peito e até hoje ela me faz companhia todas as noites, alegrando meus momentos. As estrelas roxa e vermelha, deixei-as guardadas na caixinha para quando a Lua se cansar dos meus afagos e resolver morar em outros céus. Espero que elas não tenham a sorte que as outras tiveram, encontrando complemento às suas belezas e qualidades e por elas me trocando. Aliás, melhor pensando, que elas encontrem rosas e ametistas, vermelhas e roxas, e sejam felizes.

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sexta-feira, 8 de maio de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




GARÇOM


Quando quis entrar no bar o garçom chato estava acabando de baixar a pesada porta. Ainda insisti, sedento que estava, mas ele é mesmo muito chato e disse um NÁO tão NÁO que eu fui parar no bar vizinho. Ainda bem que este estava aberto. Menos mal que todos os bares sejam iguais. Mudam os tira-gostos, a temperatura da cerveja amiga e o humor do garçom. Ainda bem que aquele garçom chato é exceção. Normalmente, os garçons são cúmplices, de tão solidários. E escutam nossas queixas, e enchem nossos copos, e até bebem conosco se a nossa solidão assim exigir. A palavra, antes engasgada na garganta, flui feito espumas ao vento, como dizia o Poeta. Basta haver quem as ouça. E a palavra solta alivia a dor, prepara o peito para mais um verso. Ou para outra saudade. Ou para a mais nova canção que está por brotar. Ou, ainda, na pior das hipóteses, para uma dose saideira, que nunca é a derradeira. Deus abençoe os Garçons. Principalmente os que não tem prazer em baixar a pesada porta do bar e que não aprenderam a dizer não.

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sexta-feira, 24 de abril de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra






OS GATOS E OS RATOS


Os gatos estão todos metidos a besta. Hoje são amigos dos ratos. Até desconfiam de sua periculosidade e vivem a pedir testes de DNA para confirmar a existência real deles. Ratoeiras já não há e os togados da fauna felina, com a desqualificação das baratas delatoras e se aproveitando das vergonhosas ‘brechas legais’, libertam todos os ratos que roubam, que fazem o que não deve. Reveem e reinterpretam, a toda hora, a constituição animal, de forma a permitir aos ratos que eles continuem roendo e roubando, sobre todas as mesas, de ricos e de pobres. A balança está desprogramada e pende muito mais a favor dos ratos. Roedores já condenados, às vezes por até três tribunais, estão à solta, por ‘presunção de inocência’, pelo trânsito engarrafado e, por isso mesmo, por processos ainda não julgados definitivamente. Haja instâncias. Ao sair as condenações, se é que sairão restarão roedores com seus processos prescritos e eles próprios mortos, por decurso de vida. Assim como os gatos julgadores. Menos mal. Quem sabe no futuro os gatos voltem a ser gatos e cuidem dos ratos, como sempre foi na Constituição da Natureza. E que cumpram as verdadeiras funções atribuídas aos membros do Superior Tribunal Felino – STF. Com todas as vênias que o assunto possa suscitar.

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sexta-feira, 10 de abril de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra






VERSOS DERRADEIROS





Nossos versos nunca serão derradeiros. Outros virão, porque a Poesia jamais será jogada ao léu e sempre precisará ser lida. Diante do infortúnio, nós, passarinhos cantantes, vamos poetar, nos juntar em bando e fazer com que os do mal passem. Torcer para que eles levem na bagagem suas mazelas, preconceitos e maldades e aí, felizes e de asas soltas e canto livre, possamos brindar a liberdade e a alegria. Versar e cantar, toda a vida, toda hora, pois toda hora é hora de cantar. Se o tempo é nublado e o horizonte cinzento, pintemos um sol claro e um céu bem azul, da cor da nossa esperança, com nuvens mais que brancas, da mesma cor de nosso amor e de nossa coragem. Misturemo-nos, pretos e brancos, ricos e pobres, todos. Água e Óleo só não se juntam apenas nas frias leis da Física (ou da Química, nem sei). Se juntam, sim, na lei dos homens de bem, onde é proibido proibir. Mesmo que escrevamos os versos mais tristes esta noite, ainda assim eles cairão na alma como no pasto cai o orvalho e contribuirão para um amanhecer feliz. Discordar de Pablo Neruda? Jamais! Juntemo-nos. Apaguemos a escuridão. Passarinhemos!

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sexta-feira, 27 de março de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra







FALAR COM DEUS


Eu também, a exemplo de Leandro Gomes de Barros e do Poeta Maciel Melo, quis bater um papo com Deus. Fiquei com mais vontade ainda depois que ouvi Gil cantar sua música que trata disso. Eu queria apenas a resposta a alguns porquês: a justificativa para tão poucos com tanto e tantos com tão pouco; a razão de ser de a balança da Justiça nem sempre pender para o lado injusto; a partida de pessoas queridas antes do prazo desejado. Apaguei a luz, calei-me, folguei os nós dos sapatos e joguei a gravata no lixo. Deixei nus corpo e alma, mas de nada adiantou. Ele estava muito ocupado cuidando de quem precisava, apartando brigas, dirimindo conflitos, apaziguando as pessoas que gostam de guerra. Estava lá pras bandas do Oriente em busca de Paz. A exemplo dele, não encontrei essa Paz tão necessária. Talvez por isso, Deus não tenha tido tempo de me ouvir, não quis conversa. Seu Chefe da Casa Celestial explicou-me que Ele estava muito ocupado com coisa séria e eu era um Poeta, disse-me, feliz por natureza, e que, por isso, não precisava daquele encontro. Eu era quase feliz, respondi-lhe. Faltava-me esse bate-papo. Remarquei a audiência. Quem sabe terei melhor sorte e esclarecerei minhas dúvidas todas. Talvez até faça um Poema. Ou uma música. O líder de sua bancada na Câmara do Céu, barbas brancas quase arrastando na terra, garantiu-me o encontro. Dois ‘dedim’ de prosa com Ele não me fará mal. Tomara que não demore muito e eu me encaixe na Agenda de Deus.

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