PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

PAUTA MUSICAL: ARACY DE ALMEIDA – INTÉRPRETE DA PRIMEIRA COMPOSIÇÃO DE JACOB DO BANDOLIM

Por Laura Macedo



Aracy de Almeida – Intérprete da primeira composição de Jacob do Bandolim,


O objetivo dessa despretensiosa postagem é destacar/divulgar que foi Aracy de Almeida quem deu o ponte pé inicial na carreira de Jacob do Bandolim, gravando sua primeira composição intitulada: “Se alguém sofreu”. No selo do disco foi grafada como “Si alguém soffeu”, com letra e música do bandolinista, o que é considerado raro. O bandolim que se escuta, em ‘tremolo’ é tocado pelo próprio Jacob, na sua estreia em Disco.

“Se alguém sofreu” (Jacob do Bandolim [letra/música]) # Aracy de Almeida e Conjunto Regional RCA Victor. Disco Victor (34.209-B) / Matriz (80722). Gravação (31/03/1938) / Lançamento (maio/1938).


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Fontes:
– Fotomontagem: Laura Macedo.
– Site YouTube / Canal: “Choro e Poesia”.

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MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Geraldo Azevedo

domingo, 30 de agosto de 2020

BONDE ALEGRIA - GOLDEN BOYS

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

 Tradução de let it be, título de um grande sucesso dos Beatles, Deixa Estar completa 50 anos em 2020... mesmo tempo em que o grupo vocal britânico chegou ao fim

Por Luiz Américo Lisboa Junior



MPB4 - Deixa Estar (1970)


Se perguntarmos hoje a qualquer jovem o que ele sabe sobre o ano de 1970 muito provavelmente ouviremos que foi o ano em que o Brasil ganhou o tri campeonato de futebol no México. Essa resposta por si só demonstra duas coisas, a primeira que o futebol é uma paixão tão grande que seus feitos ao longo da história não são esquecidos e a outra é o profundo desconhecimento sobre a história pátria, ou seja, ao mesmo tempo em que o futebol é uma coisa presente, as torturas, o milagre brasileiro, o presidente Médici, a Transamazônica, soam como referencias bem distantes, so lembradas no colégio ou em algumas reportagens televisivas.

É claro que os pais dos jovens que viveram esse período e tinham noção dos acontecimentos os relatam para seus filhos de acordo com seu ponto de vista, outros não estavam nem um pouco preocupados com o que ocorria e nesse aspecto vivenciaram a época mas dela não guardam a mínima recordação histórica, apenas o trivial de seu dia a dia.

Contudo, é importante ressaltar que nesses trinta e seis anos muitas coisas mudaram, o país redemocratizou-se, a juventude perdeu o vigor participativo nas causas sociais, ou seja não é mais tão engajada como antes, a nossa educação publica foi destruída restando dela so escombros do que um dia já foi, os valores seguiram em outra direção, pois se antes era importante ter umas referencia ideológica seja ela qual for para compreender o mundo e relacionar-se com ele, nos dias que correm o que importa é ganhar dinheiro suificiente para ir as compras já que o mercado de consumo e seus apelos sedutores são a representação do que se almeja como felicidade e realização.

Em 1970 não existia a Internet, as pessoas comunicavam-se através do telefone, comercialmente pelo telex, ou via Embratel, inaugurando a fase dos registros em tempo real, foi assim com a copa do México a primeira a ser transmitida ao vivo. O noticiário era através da televisão ou dos jornais, não se falava em aldeia global, mas tínhamos já as informações precisas ainda no calor dos acontecimentos, não havia o chamado tempo real, mas sim o tempo ideal para a informação não ficar velha, era esse em grosso modo as formas de percebermos as coisas em nosso redor e assim tentar conviver com elas. Mas, aqui no Brasil a imprensa estava sob um rigoroso esquema de censura e por mais criativos que fossem seus profissionais para nos mostrar a verdade dos fatos essa so era veiculada de acordo com as conveniências governamentais. Porem nos restava uma válvula de escape, ou seja, um outro meio de demonstrar e revelar as nossas idéias e não nos deixarmos sucumbir pela repressão do pensamento, esse meio era a musica popular que vivia, apesar de tudo o que lhe ocorria como o exílio de artistas, um certo esvasiamento intelectual e censuras de toda ordem, um período glorioso já que o essencial era a mensagem e a qualidade artística do produto apresentado a população, pois ainda não estávamos contaminados pela musica camisinha que ocorre em sua maioria nos dias de hoje, usa-se, usufrui-se um pouco do prazer momentâneo e depois joga-se fora, claro que esse é um conceito genérico, pois sei que ainda há casos de amores permanentes em que a qualidade do sentimento ainda perdura e nossos heróis ainda continuam por aí.

Mas em 1970 o sonho acabou, foi-se embora os The Beatles e aqui em terras abaixo da linha do Equador um grupo vocal de Niterói, o MPB 4 um dos maiores e mais longevos que já tivemos, estavam em plena atuação produzindo discos memoráveis e dentre eles, neste ano um denominado Deixa estar... que é a tradução de let it be titulo de uma música e do último disco dos Beatles. No centro da capa do LP do grupo inglês estão quatro fotos de seus integrantes formando um quadrado, no disco do MPB 4 a idéia foi reaproveitada com uma colagem de parte do rosto de seus componentes, Magro, Aquiles, Miltinho e Ruy, mas se a referencia é explicita a mensagem nele contida nada tem a ver com rock e sim com musica popular brasileira da melhor qualidade revelando um painel heterogêneo de nossa canção, com seu toque de engajamento característico daqueles tempos, era a musica popular usando toda a criatividade de seus artífices a serviço da preservação e da conscientização social necessária em tempos de guerra de idéias, onde o politicamente correto era incorreto para alguns, mas não para maioria, portanto, criatividade literária aliada a uma bela melodia era a melhor receita para se dizer a verdade e sentir-se um pouco mais livre.

Esse disco do MPB 4 surge neste cenário e traz canções que refletem esse período de contestação misturando um repertório tradicional com musicas também assinadas por compositores que renovavam o nosso cancioneiro, por isso nele desfilam ao mesmo tempo, Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida; Gago apaixonado, de Noel Rosa e Derramaro o gai, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas; Deixa estar, de Mauricio Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho; Candeias, de Edu Lobo; Yara bela, de Toninho Horta; Liana verde bandeira, de Ronaldo Pereira e Toninho Horta; Beco do Mota, de Milton Nascimento e Fernando Brant; Lamento, de Tom Jobim, e as politicamente corretas, O crime, de Macalé e Capinam, o antológico samba, Amigo é pra essas coisas, assinado por Aldir Blanc e Mar da tranqüilidade, de Ruy, Cynara e Aquiles.

Eis aí um trabalho que nos da uma dimensão que apesar de vivermos entre a realidade e a fantasia de um ano difícil, o Brasil conseguia produzir momentos mágicos e atemporais, o resultado desses conflitos entre o bem e o mal não esmaeceram o talento e a beleza de nossa canção e o MPB 4 soube muito bem captar esses sentimentos dispares realizando um disco fundamental para historia musical recente de nosso país. Alias o MPB 4 não é apenas mais um grupo vocal surgido nos anos sessenta mas sim e com certeza, duvido quem há de me contestar, o maior e mais importante dentre todos que apareceram na cena musical brasileira nos últimos 40 anos, sua obra é um referencial de uma época que já adentra a três gerações e o seu repertório ao longo dos anos nos revela a fina flor da musica brasileira, continuando atual e vigoroso. Vida longa, pois!

Itabuna, 2 de março de 2006.



MÚSICAS:
01) Deixa estar (Mauricio Tapajós/Hermínio Bello de Carvalho)
02) Liana verde bandeira (Toninho Horta/Ronaldo Pereira)
03) Gago apaixonado (Noel Rosa)
04) Candeias (Edu Lobo)
05) Beco do Mota (Milton Nascimento/Fernando Brant)
06) Derramaro o gai (Luiz Gonzaga/Zé Dantas)
07) O crime (Macalé/Capinam)
08) Pelo Telefone (Donga/Mauro de Almeida)
09) Mar da tranqüilidade (Ruy/Cynara/Aquiles)
10) Lamento (Tom Jobim)
11) Yara bela (Toninho Horta)
12) Amigo é pra essas coisas (Aldir Blanc)

sábado, 29 de agosto de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

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Rosa de Ouro

“Rosa de ouro, que tesouro
ter essa rosa plantada em meu peito
Rosa de ouro, que tesouro
ter essa rosa plantada no fundo do peito...”
PAULINHO DA VIOLA, HERMÍNIO BELLO e ELTON MEDEIROS,


“Rosa de Ouro” O Rosa de Ouro foi um musical imaginado, fomentado e construído a partir das experiências ocorridas no Zicartola. Em 1965, no Teatro Jovem – no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro –, Aracy Cortes, Clementina de Jesus, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Paulinho da Viola, Nelson Sargento e Anescar do Salgueiro, dirigidos pelo poeta Hermínio Bello de Carvalho, fizeram o público e a imprensa se curvarem diante do elenco que apresentava músicas de Geraldo Pereira, Paulo da Portela, Ismael Silva, Henrique Vogeler, Lamartine Babo, Sinhô.
Era louvável que a burguesia da Zona Sul carioca e a imprensa batessem palmas para um repertório formado marcadamente por sambas ditos tradicionais. E também para o clima de rancho carnavalesco, de jongo e corimas, de teatro de revista em tempo de bossa nova. Uma das grandes surpresas para o público nesse espetáculo foi a revelação de Clementina de Jesus. Descoberta por Hermínio Bello no morro da Mangueira, Clementina estreou na vida artística com mais de 60 anos de idade. Sua voz reverberava as raízes negras entoando os caxambus, jongos, lundus e corimas aprendidos na infância.
“O palco escurecia, os atabaques rufavam e um facho de luz acompanhava a entrada em cena daquela majestática figura, envolta em rendas. A voz poderosa ecoava grave na acústica do Teatro Jovem, o público em religioso silêncio: ‘Benguelê/ Benguelê/ Benguelê/ Ó Mamãe Simba, Benguelê’. ” E chegava Clementina...
O Rosa de Ouro firmou a imagem de valorosos compositores de samba e lançou, ao lado de Clementina, o talento do jovem Paulinho da Viola. 

Opinião
“Podem me prender
podem me bater
podem até deixar-me sem comer
que eu não mudo de opinião...”
ZÉ KÉTI, “Opinião”

Possivelmente, o show Opinião foi a primeira resposta musical ao golpe militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart. Para o amigo leitor ter um painel da dramaticidade do golpe, não havia 20 anos que o Brasil saíra do Estado Novo getulista. A cultura estava em ebulição, a sociedade se organizando, as instituições democráticas respirando e lá se foi, com
o comício de João Goulart pelas reformas de base (saúde, educação, saneamento, reforma agrária), o sonho de erguer um país politicamente plural, de sólidas raízes democráticas.


O golpe de 1964

O ano de 1964 poderia entrar para os anais da história como “o ano que não deveria ter existido”. Era o início de um ciclo que há muito a UDN – União Democrática Nacional, partido formado por setores “moralistas” da classe média, pelo empresariado ligado ao capital internacional e por políticos conservadores de direita – tentava implantar. O golpe militar de 1964, realizado na madrugada de 1o de abril, afetou diretamente a vida cultural do
país. A Rádio Nacional, por exemplo, passou a perseguir os artistas que eram vistos como “comunistas”, após intervenção dos militares. Era o macarthismo tupiniquim. A cantora Nora Ney e seu marido, o também cantor Jorge Goulart, tinham posições políticas socialistas e haviam excursionado pelos países do Leste europeu. Por conta da firmeza de seus ideais políticos o casal seria muito perseguido pelo violento governo militar. Nora Ney e Jorge Goulart foram os primeiros cantores a serem demitidos da Rádio Nacional.


Debaixo do fechamento do Congresso Nacional, o samba unia-se aos descontentes com a quartelada. Ainda não era 1968 (fatídico ano do Ato Institucional no 5, medida que abriu as portas para a tortura e o “desaparecimento” de inúmeros militantes antigolpe), e a oposição ao regime ainda podia mostrar suas asinhas.
Esse foi o papel do Opinião – aglutinar força e opinião contra a ditadura. Sob a direção de Augusto Boal, com texto de Armando Costa, Paulo Pontes e Oduvaldo Viana Filho, a peça estreou no dia 11 de dezembro de 1964 no teatro do shopping center da rua Siqueira Campos, em uma realização do grupo Opinião com o Teatro de Arena de São Paulo.
A montagem era resultado do trabalho dos Centros Populares de Cultura ligados à UNE. Nela atuavam um compositor do morro, Zé Kéti, um do campo, João do Vale, e uma jovem oriunda da bossa nova, Nara Leão (depois substituída pela baiana Maria Bethânia), com direção musical de Dori Caymmi.
Por sua relevância na trajetória do samba, vamos olhar um pouco mais de perto alguns dos personagens desses antológicos musicais. Parênteses: como já foi dito, Paulinho da Viola começou sua vida “profissional” no Zicartola, mas seu trabalho já foi mais detalhadamente comentado no capítulo “O samba das escolas”, visto que é na escola portelense que seu coração deitou fortes raízes.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

UM SUCESSO QUE JÁ DURA 50 ANOS: FOI UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA

Por Henrique Cazes




Mais jovem sambista da geração que despontou com o sucesso do Zicartola em 1964, Paulinho da Viola, aos 22 anos de idade, se revelou um ótimo compositor e intérprete, sem contar o violão seguro, que embalou os discos do "Conjunto A Voz do Morro" e o musical "Rosa de Ouro". Seus primeiros trabalhos já exibiam um artista refinado, que percorria diferentes escaninhos do repertório de samba, interpretando com sabedoria e criando com originalidade. A seu talento e habilidade somou-se o conhecimento musical, adquirido no contato com Esther Scliar e o Instituto Villa-Lobos, instituição que hoje é parte da UNIRIO. Tudo isso preparou Paulinho para viver no final da década de 1960 uma situação excepcional, incomum para um artista da música brasileira: atingir simultaneamente altos níveis de prestígio e popularidade.

Fora do chamado "Mundo do samba", o prestígio de Paulinho cresceu com a vitória de "Sinal fechado" no 5º Festival da TV Record em 1969. O certame premiou uma composição de perfeito acabamento tanto em letra e melodia quanto na moldura harmônica, que cria o clima angustiante de um diálogo não concretizado ou, como definiu o jornalista João Máximo no perfil biográfico do autor: "dois monólogos em um só, dois solitários seguindo a vida". Lançada em um compacto simples logo depois do festival, a música encantou os progressistas e conquistou uma nova gama de fãs para o artista.

E por falar em festivais, no ano anterior, Paulinho participou de forma quase involuntária do 4º Festival da TV Record. O samba "Sei lá Mangueira", composto sobre a letra de Hermínio Bello de Carvalho foi inscrito por este e defendido com muita garra por Elza Soares. A cantora ganhou o prêmio de melhor intérprete, mas a música não ficou entre as cinco primeiras colocadas. Desde esse fato, Paulinho ficou preocupado de, ocupando o cargo de presidente da ala de compositores da Portela, criar um mal estar em sua escola, pela exaltação a outra agremiação. Para resolver esse problema, só um samba que não deixasse dúvida sobre sua paixão pela escola de Oswaldo Cruz.

Saindo da gravadora Odeon, que ficava no último prédio da Av. Rio Branco, Paulinho dobrou na Rua México e viu na vitrine de uma livraria um exemplar de "Por onde andou meu coração", livro de memórias de Maria Helena Cardoso. O título do livro puxou a ideia de uma composição com formato e extensão de samba enredo, falando da paixão pela Portela, uma obra prima cuja gravação original revelou ainda o maravilhoso canto coletivo da Velha Guarda da Portela. Colocada no 2º LP de Paulinho como sexta faixa do lado A, a gravação tem um detalhe curioso que me foi narrado pelo próprio Paulinho, em uma conversa recente. O timbre predominante na base harmônica não é o de um cavaquinho, como seria normal num samba enredo, mas sim de uma violinha (pequeno violão tenor de quatro cordas), tocado pelo próprio Paulinho em playback e que ajudou a encorpar a base, dando-lhe um timbre incomum.

O sucesso foi enorme e logo transcendeu os ambientes do samba, chegando aos bailes de Carnaval e até ao repertório das bandinhas que animavam as inaugurações no comércio de rua da época. Muitos anos depois, se você puxasse um violão no botequim, vinha logo alguém te perguntar: "você leva se um dia"? 


Conto aqui essa história de sucesso popular e qualidade artística caminhando lado a lado para lembrar que isso já aconteceu por aqui. Agora, não mais.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




A MOÇA DO CABELO VERDE


Lá vem ela, serelepe e fagueira, a moça do cabelo verde que todos os dias fura a fila do metrô e passa à frente de todos, com a maior cabeloverdice. As grávidas, os velhos, as mães com filho no colo, os deficientes, todos ficam para trás. Como ela aparentemente não está grávida, é jovem, não carrega um filho no colo, muito provavelmente ela é deficiente, do ponto de vista ético, sob a ótica mental e a isso se apegue para desrespeitar a todos. Só pode ser. Idade ela tem pra ter juízo. Talvez até tenha: apenas não o usa. Quando consigo entrar no vagão, já lotado, a moça do cabelo verde já está lá muito bem acomodada, sentadinha na janela, sorriso no canto da boca, celular na ponta dos dedos, como que a zombar de todos nós, pobres mortais, imprensados feito sardinha em lata. A falta de civilidade é imensa e me causa indignação. Todos os dias eu me entristeço pela quantidade cada vez maior de mulheres do cabelo verde ao nosso redor, furando fila, estacionando onde não deve, desrespeitando o direito alheio. E antes que me taxem de preconceituoso, vou logo avisando: homens também pintam seus cabelos de verde, de azul e de vermelho. Que bom se não houvesse tintura de cores extravagantes para o cabelo dessa gente.

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ROBERTO CARLOS TEM DISCO PROSCRITO LANÇADO POR SELO ESTRANGEIRO

Louco Por Você saiu na Europa com outra capa. O Rei veta o relançamento do LP, hoje o disco mais caro do Brasil.

Por José Teles

Malena, raridade do Rei - FOTO: Foto: reprodução


Ano que vem o disco mais cobiçado do Brasil chega aos 60 anos. Louco Por Você, estreia de Roberto Carlos em LP, com selo Columbia, a atual Sony Music. Tocou muito pouco, vendeu menos ainda (não se sabe quantidade exata, mas não deve ter passado de mil exemplares). Com suas manias, ou idiossincrasias, RC colocou o álbum no índex de itens relacionados a ele que não quer de volta ao mercado.
Em 2012, Louco Por Você chegou a circular em streaming na plataforma de música da Apple, mas logo os advogados do cantor deram em cima, e o disco voltou ao limbo. Uma vez participei de uma coletiva de Roberto Carlos, no Copacabana Palace, que era onde ele geralmente concedia entrevistas, quando lançava discos. Perguntei sobre Louco Por Você que , acho, completava 40 anos. Ele desconversou, e deixou um talvez no ar, sobre um possível lançamento.
Bem, eu no lugar dele, talvez também, não aprovasse o relançamento do LP. O repertório é totalmente desigual, mistura bossa nova, com Roberto ainda imitando João Gilberto, com bolero, calipso, rock, e como se achassem pouco, a capa é a mesma de um disco do organista americano, Ken Griffin, lançado em 1946.
Uma das canções, Forever (Marcucci/de Angelis), ganhou uma versão de Carlos Imperial ruim na época, hilárias anos depois, É que Imperial cismou de não traduzir “Forever”. Pelo final dos anos 70, “forever” virou sinônimo de, digamos, “porta dos fundos”. Aí veio Muçum com o dizendo “Forevis” a três por quatro. A música tem versos com o “Forever é para sempre”, ou “Meu amor será seu forever”.
Ele não deixa lançar, pois lá fora lançaram Louco Por Você, com uma capa pavorosa, com o selo Brazilian As Anything, provavelmente de alguma república da ex-União Soviética. O pessoal que vende LPs torce para que Louco por Você nunca seja relançado. É lenda, a história de que é o segundo disco mais caro do Brasil, depois de um álbum original de Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Enquanto Paêbirú era cotado a três para quatro mil, um exemplar em bom estado de Louco Por Você vende-se por dez mil facilmente.


RARIDADES

No Brasil o bolachão de 78 rotações foi comercializado até 1964, quando em quase todos os países a regra já era o compacto, simples ou duplo. O departamento de projetos especiais da gravadora, se é que isto ainda existe, poderia começar a pensar num box do cantor para celebrar o 60 anos do LP de estreia de Roberto Carlos, na Columbia (que virou CBS e depois foi adquirida pela Sony Music). Se não receber sinal verde para relançar o álbum proscrito, poderia reunir músicas de 78 rotações que não chegaram a fazer sucesso, e estão esquecidas. Uma delas, de 1962, tem um título sugestivo: Triste e Abandonado, de Hélio Justo e Erly Muniz, um 78 que teve no outro lado Susie, do próprio Roberto Carlos (ainda sem o parceiro Erasmo). Uma música que ele parecia gostar, porque a cita em outras canções mais à frente. Malena também é outra musa original, também no limbo. A música de Rossini Pinto e Fernando Costa foi lançada em também 1962, como lado B de Fim de Amor (Runaround Sue), versão de Gilberto Rochel para o hit americano de Ernie Maresca e Dion DiMucci. Afora isto, tem os compactos simples e duplos, que RC lançou até 1999, canções lançadas na coletânea As 14 Mais. Um precioso filão para os fãs, que permanece ocioso nos arquivos da gravadora.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Tamborim batendo

Composição: Marília Batista - Henrique Batista

Intérprete - Marília Batista

Ano - 1951

Disco - 
Carnaval 019-B


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

BIOGRAFIA DE LIA DE ITAMARACÁ É COSTURADA PELA TRAJETÓRIA DA CIRANDA EM PERNAMBUCO

Por Juliana Aguiar


Foto: Bruna Costa/Esp.DP FOTO


Para coroar uma trajetória marcada por dificuldades e conquistas, do trabalho como merendeira ao sonho concretizado de se tornar uma artista reconhecida, a cirandeira Lia de Itamaracá teve a história e carreira musical narradas na biografia Lia de Itamaracá: Nas rodas da cultura popular. O livro, escrito pela jornalista pernambucana Michelle de Assumpção e editado pela Cepe, será lançado nesta quinta (14), às 17h30, em evento on-line no Instagram (@cepeeditora). O encontro terá bate-papo entre a autora e o editor da Cepe, Diogo Guedes. A publicação é o quarto título da Coleção Perfis, que já apresentou as biografias do artista plástico José Cláudio, do xilogravurista J.Borges e do ex-prefeito de Olinda Germano Coelho, falecido no último dia 15 de abril.

“Lia é uma artista que acompanho desde minha estreia como repórter de cultura no Diario de Pernambuco, há 20 anos. Já a tinha entrevistado por diversas vezes”, relembra Michelle. A jornalista diz que, desde o convite da Cepe, em agosto de 2018, sentiu o peso da responsabilidade de escrever a história sobre uma das artistas populares mais importantes da geração. “Eu me fiz a seguinte pergunta: que contribuição maior eu poderia dar, além de apenas reunir os principais fatos, discos, projetos, muitas dificuldades e outras tantas conquistas de Lia?”, questionou.

O passado de Lia, o trabalho como merendeira em uma escola pública e a vida mais íntima foram revisitados pela cirandeira e pela jornalista durante longas horas de conversas. “Lia é mais fechada, e foi interessante também esse processo de tentar penetrar em seu universo particular. Um obstáculo vencido a partir de entrevistas que fui fazendo com Obra será lançada com bate-papo on-line no Insta entre a autora, Michelle de Assumpção, e o editor da Cepe, Diogo Guedes pessoas próximas, que foram me dando não só informações sobre a vida de Lia, mas também me ajudando a criar uma conexão entre a trajetória da cirandeira e questões pertinentes sobre a cultura popular de Pernambuco”, ressalta a autora.

A narrativa conta a história de Lia ao mesmo tempo em que refaz a trajetória da própria ciranda como manifestação cultural em Pernambuco. “Não me ative só a contar a história de Lia, mas contextualizá-la dentro da história da própria manifestação. Lia não surge no cenário da música independente de qualquer movimentação, pelo contrário, o Festival de Ciranda do Recife, que a lançou para o grande público, recebia dezenas de cirandeiros, vindos de todos os bairros e regiões do estado. A ciranda bombava em Pernambuco. Alguns desses, como Mestre Baracho, eram altamente conceituados pelos folcloristas e pela mídia de então”, explica.

No livro, também são elencados personagens importantes que vieram antes dela como Mestre Baracho e Dona Duda, além de cirandeiros contemporâneos de Lia e os da nova geração. “Sabemos pouco da história dos nossos mestres e mestras, e sobre as manifestações que eles representam. Então, contar a trajetória desta que é uma das mais importantes artistas populares brasileiras, dentro deste contexto maior, acredito que seja a grande contribuição do livro”, destaca.

A maior dificuldade para Michelle foi resgatar a história da ciranda, porque ainda há poucos escritos sobre o assunto. “Não existe muita bibliografia, o que me ajudou bastante foi o Inventário da Ciranda, produzido pela Associação Respeita Januário. Além das matérias antigas de jornais como o Diario, desde os anos 1960 até os anos 1980, e os escritos do Padre Jaime Diniz das décadas de 1950 e 1960”, conta. As pesquisas da jornalista permitiram que o livro fizesse importantes correções da história de Lia, como o seu encontro com a ciranda. “Ao contrário do que já foi muito divulgado, Lia, que adorava cantar quando menina, não cresceu ouvindo ciranda. A ciranda, por sinal, uma inegável marca identitária da ilha, só chegou a Itamaracá pela voz e mãos da própria Lia, no final da década de 1970”, ressalta a escritora.

O passado de Lia, como os tempos de merendeira em escola pública, é revisitado na obra (Foto: Leo Caldas/Divulgação)

O livro conta como Maria Madalena Correia do Nascimento ficou conhecida como Lia nos anos 1960, depois que a cantora Teca Calazans, incorporando versos de Antônio Baracho cantados pela cirandeira, acrescentou: “Esta ciranda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá”. “A criação do mito Lia de Itamaracá a partir de uma canção foi, para mim, um grande desafio. Tive medo de contradizer o que a própria artista sempre afirmou sobre a composição. Acredito, no entanto, que encontrei uma resposta justa para o dilema, ou a polêmica, como a própria Lia se refere ao fato.”

Em 2019, aos 75 anos, Lia de Itamaracá lançou o disco Ciranda sem fim, através do edital Natura Musical, e quebrou um hiato de sete anos sem produções musicais. No mesmo ano, a artista foi reconhecida como doutora honoris causa pela UFPE, tornou-se tema de livros, atuou no premiado filme Bacurau, apareceu em programas de TV nacionais e até inspirou grife de moda-praia. “Lia conquistou novos mercados, dialogou com outros gêneros. Tudo isso sem deixar de ser cirandeira, sem sair da ilha, sem deixar de ser representante dessa cultura.”

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)

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Um senhor adentra o recinto... Passa quase meia hora olhando os CDs.

Não compra nada e diz a frase: "Eu sou a única pessoa no MUNDO que ainda compra CDs".

75 ANOS DE ELIS REGINA: OS SONHOS MAIS LINDOS (PARTE 03)

Por Tito Guedes


“Os sonhos mais lindos sonhei/ De quimeras mil, um castelo ergui...”. Não há quem leia os versos iniciais de Fascinação e não os associe imediatamente à voz poderosa de Elis Regina. O mesmo acontece com diversas outras músicas consagradas por ela, como Atrás da porta, Tatuagem, Casa no campo ou Águas de março. 

A partir de 1965, Elis entrou em uma curva ascendente de sucesso, prestígio e domínio de sua técnica vocal, o que a fez chegar nos anos setenta como a grande cantora nacional, capaz de arrebatar as plateias mais exigentes e com a proeza de não desafinar nem mesmo quando chorava! 

O fato é que depois do álbum Em Pleno Verão, de 1970, quando deixou de lado certos radicalismos estéticos, Elis diversificou seu repertório e trouxe um frescor que caiu muito bem na discografia que produziu nessa época. Outro fator que contribuiu para essa renovação foi o encontro com o músico e arranjador César Camargo Mariano, com quem se casou. Juntos, os dois criaram alguns dos melhores discos e shows da história da música brasileira. 

O start dessa parceria foi dado com o disco Elis, de 1972. Nele já estão presentes os compositores que se tornaram recorrentes nessa nova fase da artista: Chico Buarque, Ivan Lins, João Bosco, Aldir Blanc, para citar apenas alguns. A capa, que mostra Elis sorridente em um grande jardim, refastelada em uma cadeira e vestida de branco, tem forte ligação com a letra de Casa no campo, “rock rural” de Zé Rodrix e Tavito que se tornou emblemático tanto dessa fase da vida de Elis (recém-separada de Bôscoli e engatando um novo casamento com César), quanto daquele período na vida política e social do Brasil. Eram muitos os jovens que cantavam a plenos pulmões aquela letra de espírito quase hippie: 

Eu quero uma casa no campoOnde eu possa ficar no tamanho da pazE tenha somente a certezaDos limites do corpo e nada mais…

Em 1974, os dois seriam responsáveis pelo nascimento de outra obra-prima da discografia brasileira: o disco Elis & Tom. Gravado em Los Angeles, nos Estados Unidos, entre março e fevereiro daquele ano, o álbum promoveu a união explosiva da maior cantora do Brasil com o maior compositor do Brasil, o “maestro soberano” Antônio Carlos Jobim. Produzido por Aloysio de Oliveira e com arranjos magistrais de César Camargo Mariano, o álbum passou por um processo criativo conturbado, com inúmeras discordâncias entre Tom e César, mas o resultado foi impecável. Em 2007, ele foi considerado o 11º melhor disco de música brasileira de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil. 

Só a faixa de abertura desse disco serviu para fazer História. Trata-se do dueto de Elis e Tom em Águas de março, a faixa mais celebrada do álbum. Além dessa, há também no repertório clássicos que caíram muito bem na voz de Elis, como Só tinha de ser com você, Modinha e Fotografia.



Em dezembro 1975, Elis Regina iniciou um dos projetos mais bem sucedidos de toda a sua carreira. Não, não era um show comum. Era um espetáculo, com toda a grandeza e glamour que o termo traz em si. Trata-se de Falso Brilhante, que ficou em cartaz até fevereiro de 1977 em São Paulo, somando 257 apresentações e um público total de 280 mil pessoas. Criado coletivamente com a equipe, com direção cênica de Myriam Muniz e musical de César Camargo Mariano, o espetáculo se propunha a traçar uma retrospectiva da carreira de Elis. O repertório de 42 músicas eram divididos em duas partes e a infraestrutura era grandiosa: um enorme cenário que evocava elementos circenses, com trocas de figurino e os músicos todos caracterizados.

Em 1976 foi gravado um disco homônimo, que registrou 10 das canções presentes no show. Embora limitado em relação à grandiosidade do espetáculo, o álbum Falso Brilhante é, sem dúvida, um dos trabalhos essenciais da discografia de Elis Regina e foi responsável pelo lançamento de um compositor ainda desconhecido pelo público: Belchior. Dele, Elis gravou Como nossos pais e Velha roupa colorida, duas músicas de alto teor político e contestatório, com letras que tratam criticamente da situação do país naquele período, então imerso em um repressivo regime militar. 

Não à toa, são duas músicas que ressoam em protestos até hoje, bem como outras músicas “engajadas” gravadas por Elis nesse período, como Deus lhe pague, O bêbado e a equilibrista e Cartomante.

Para além de todos esses trabalhos antológicos, talvez o momento de maior glória de Elis Regina (ao menos segundo sua própria concepção) tenha sido a apresentação no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, em 1979. Ela se apresentou na Noite Brasileira da 13ª edição desse que é até um hoje um dos principais festivais de música do mundo. 

Ante de subir ao palco, Elis teve uma crise de choro, emocionada com a constatação de que ela, filha de uma lavadeira, pisaria no mesmo palco por onde já passara Ella Fitzgerald. E ela não apenas pisou no palco. Mesmo muito nervosa, fez um show avassalador (como se fosse novidade), e foi ovacionada pelo público durante 11 minutos seguidos! No final da noite, voltou ao palco para uma jam session com o músico Hermeto Paschoal, considerada histórica até hoje. 

Elis não aprovou seu desempenho nessa noite (por conta do nervosismo, que afetou a voz) e por isso vetou o lançamento de um disco com o áudio do show. Mesmo assim, o álbum Montreux Jazz Festival foi lançado postumamente pela Warner em 1982. Se o lançamento foi justo ou não com a memória da artista, o fato é que ao menos temos o registro de um dos momentos mais importantes de sua carreira. 

Em janeiro de 1982, quando ninguém esperava, Elis Regina morreu em decorrência de uma overdose. Vitimada pelo mesmo furacão emocional que lhe deu o dom de emocionar o mundo através do canto, ela deixou um país órfão e gerou uma verdadeira comoção nacional.

Até hoje, ninguém foi capaz de ocupar o seu lugar, e nem nunca será. Isso porque Elis não deixou seu lugar vago. A chama de sua arte ainda queima como fogo, e sua obra ainda despertará por muitos anos o mesmo fascínio que despertava nos ouvintes do século passado. Quente, inebriante, porque “és fascinação, amor…” 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



Epitáfio

Na canção "Distração" Zélia Duncan canta: "Se você não se distrái, a vida fica mais dura, o tempo passa doendo". Estes versos iluminam a mensagem da canção "Epitáfio", de Sérgio Britto, já que aqui temos a voz de um sujeito lamentando as escolhas feitas ao longo da vida.
Do disco A melhor banda de todos os tempos da última semana (2001), dos Titãs, o sujeito de "Epitáfio", diante do espelho, relaciona uma série de comportamentos simples mas que, quando incorporados pelo indivíduo, parecem dar o real sentido da existência, como ver o por do sol.
Tal e qual o sujeito de "Distração", de Christiaan Oyens e Zélia Duncan, o sujeito de "Epitáfio" quer deixar à vida a tarefa de seguir o próprio curso. Com o valor das surpresas do acaso em permanente atomização, ambos parecem adeptos da filosofia "Deixa a vida me levar, vida leva eu", cantada por Zeca Pagodinho em "Deixa a vida me levar", de Serginho Meriti.
Na primeira parte de "Epitáfio", o sujeito observa as faltas: devia ter amado, chorado, arriscado e errado mais; enquanto na segunda parte, ele observa os excessos: devia ter complicado e trabalhado menos. Ambas se completam tematizando o receio humano contra a distração em relação à cobrança das seriedades da vida e de suas questões implícitas.
A primeira e a segunda parte são traduções do sujeito em estado de contemplação. Até a melodia é mais lenta e os verbos estão no passado. Porém, no refrão de pegada melódica mais forte surgem sopros de esperança com verbos no futuro: "O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído", diz.
Fica a mensagem de que "é preciso saber viver", é preciso "brincar de ser criança", "rir de si mesmo" aproveitando o tempo que não pára aceitando as pessoas como elas são e sem fazer tempestade em copo d'água. É preciso amar como se não houvesse amanhã, pois, ao final, a cada um cabe as alegrias e a tristeza que vier.


***

Epitáfio
(Sérgio Britto)

Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

A ERA DOS FESTIVAIS: QUANDO O SINAL FECHOU (PARTE 03)


Por Tito Guedes


Depois das performances de Gilberto Gil e Caetano Veloso no festival da Record de 1967, a polarização entre MPB e Jovem Guarda no cenário da música brasileira foi quebrada com o surgimento da Tropicália. O movimento, que surgiu em plena Era dos Festivais, foi liderado pelos dois baianos e se propôs a ressignificação da MPB, introduzindo nela influências estrangeiras, guitarras e uma linguagem mais pop (como a Jovem Guarda já fazia), amparados no conceito de antropofagia cultural de Oswald de Andrade: deglutir o que vinha de fora e transformar essas referências em um produto que dialogasse com a vida brasileira. 


1968 - A Tropicália em ação 

Deu certo. Nos festivais de 1968, foi crescente o número de guitarras elétricas presentes nos arranjos. O festival da Record daquele ano, por exemplo, contou com a vitória de “São, São Paulo meu amor”, do tropicalista Tom Zé, além da performance arrebatadora de Gal Costa com a música “Divino, maravilhoso”, da grife Gil & Caetano, que se tornou emblema do período:

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte!




Mas foi no III Festival Internacional da Canção Popular que aconteceu um dos happenings mais memoráveis do movimento tropicalista. Caetano Veloso foi rejeitado por grande parte do público, que não viu com bons olhos a radicalização da sua performance, quando apresentou a música "É proibido proibir" com figurino de plástico, cabelo comprido e uma dança em que mexia os quadris de trás pra frente. Isso tudo pareceu “desbundado” demais aos olhos da esquerda universitária. 

Na eliminatória da fase paulistana, no TUCA, irritado com as vaias da plateia à sua apresentação e com a desclassificação de Gilberto Gil pelo júri, Caetano interrompeu a música e proferiu um discurso que entrou para a história: 

“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada! [...]” 

Por fim, Caetano se auto-desclassificou e prometeu nunca mais participar de festivais. O áudio dessa apresentação, felizmente, foi lançado em um compacto com o apropriado título “Ambiente de festival”. 

O REBELDE CAETANO DE 1968 – Blog da Consequência
O sinal começa a se fechar

Nesse mesmo festival, o FIC de 1968, Geraldo Vandré concorreu com aquela que se tornaria sua canção mais conhecida, “Pra não dizer que não falei das flores”, uma franca canção de protesto contra a ditadura militar que logo se tornou a favorita do público. 

Os versos “Vem, vamos embora que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora não espera acontecer” arrebataram as plateias nas eliminatórias e acenderam um alerta vermelho nos quartéis. Dizem que os militares chegaram a passar aos diretores do festival a informação de que se Vandré ganhasse, seria preso imediatamente. 

O júri, portanto, acabou dando a vitória para “Sabiá”, canção de Chico Buarque e Tom Jobim defendida por Cynara e Cybele. Quando anunciaram que “Pra não dizer que não falei das flores” estava em segundo lugar, o público se revoltou e vaiou a decisão do júri. Diante dos protestos, antes de reapresentar a canção, Vandré tentou acalmar a platéia enfurecida com uma frase que se tornou mítica: “A vida não se resume em festivais.”

IMG_fic68_1_1_RC1619GA - Memórias da ditadura
Este episódio, de velada interferência censória, prenunciava o que viria a seguir. Em 13 de dezembro de 1968, foi decretado o Ato Institucional Número 5, dando início a um dos períodos de maior repressão e violência no país. 

Um ano depois, a canção vencedora do V Festival da Música Popular Brasileira da TV Record descrevia de forma velada o clima de constante medo e desconfiança que se instaurou no Brasil depois do AI-5. “Sinal fechado”, de Paulinho da Viola, narra um diálogo entre dois amigos que se encontram num sinal de trânsito e parecem omitir o que realmente desejam falar:

Tanto coisa que eu tinha a dizerMas eu sumi na poeira das ruasEu também tenho algo a dizerMas me foge a lembrança…



1970 - A “ameaça” da black music

Apesar de ter revelado grandes canções da MPB, como “Universo no teu corpo”, de Taiguara, “O amor é meu país”, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza e “Feira moderna”, de Beto Guedes e Fernando Brant, a protagonista do V Festival Internacional da Canção Popular de 1970 foi a black music. 

As duas concorrentes que mais se destacaram na competição foram “BR-3” (Antônio Adolfo e Tibério Gaspar), defendida brilhantemente por Toni Tornado em performance cheia de suingue à la James Brown, e “Eu também quero mocotó”, de Jorge Ben Jor, defendida por Erlon Chaves e sua Banda Veneno. 

Em 1970, no entanto, no auge dos “anos de chumbo”, essas duas performances não foram vistas com bons olhos pelos militares, que temiam o levante de um movimento negro no Brasil, como os Panteras Negras dos Estados Unidos. Toni Tornado, apesar de grande vencedor da fase nacional, sofreu por anos com o estigma que ganhou a partir da teoria de que a música eternizada por ele, que falava da rodovia que liga Minas Gerais ao Rio de Janeiro, referia-se, na realidade, à aplicação de heroína.

Festivais da Canção: BR-3 e Tony Tornado - 1970
O caso de Erlon Chaves foi ainda mais chocante. Famoso produtor e arranjador de artistas como Elis Regina e Roberto Carlos, Erlon resolveu se lançar no FIC como um performer, com a defesa da irreverente “Eu também quero mocotó”. A música fez tanto sucesso (se tornou uma espécie de meme da época), que o maestro foi convidado a apresentá-la novamente na fase internacional do festival. 

No dia, em pleno Maracanãzinho, Erlon Chaves se apresentou acompanhado de modelos loiras que o rodeavam gritando, agarradas ao seu pescoço: “Eu também quero mocotó! Eu também quero!”. No final, trocou até um beijo com uma das modelos. O ato chocou grande parte de uma platéia branca e atenta à “moral e aos bons costumes” e os militares se irritaram. Erlon Chaves saiu do Maracanãzinho algemado e foi parar na delegacia, acusado de atentado à moral. 

Esses dois episódios, além de reforçar a disposição racista de muitos brasileiros, evidenciou que a ditadura militar foi ficando cada vez menos reticente em interferir nos festivais, que já pareciam cada vez mais subversivos. 


1972 - O sinal fechado

Dois anos depois, em 1972, por força da repressão, chegou ao fim a Era dos Festivais. Mesmo assim, o VII Festival Internacional da Canção Popular, considerado o marco final do período, proporcionou momentos especiais para a memória musical. 

Foi nesse festival que Raul Seixas deixou de ser o “produtor da CBS” e liberou o roqueiro que havia dentro dele com a apresentação antológica de “Let me sing, let me sing”. Além dele, brilharam também Sérgio Sampaio com “Eu quero é botar meu bloco na rua”. Isso sem contar com a grande vencedora da fase nacional naquele ano: “Fio Maravilha”, de Jorge Ben Jor e defendida por Maria Alcina.

Filosofia R.T.P * Dr. Paxeco (Oficial): (FOTOS) Raul Seixas - FIC 1972
Nessa ocasião, os festivais já eram palco oficial da insatisfação de artistas e jovens em relação ao regime militar, e as música ali cantadas serviam, muitas vezes, como hino de resistência. O governo sabia muito bem disso e passou a acompanhá-los mais de perto. Por isso, em 1972, ordenou que a presidente do júri, Nara Leão, fosse substituída imediatamente, já que havia dado uma entrevista em que criticava abertamente o regime. Como protesto, todo o júri se demitiu em bloco. Desesperada, a produção teve que substituir todos os jurados às pressas e o resultado foi desastroso: alguns deles nem sequer falavam português. 

Por causa disso, somado a um desgaste do formato, a Globo decidiu não realizar o FIC de 1973. Chegava ao fim a Era dos Festivais. 

Nos anos subsequentes, foram muitas as tentativas de retomar a febre dos festivais. Dentre as empreitadas que mais se destacaram, estão o MPB-80, da Rede Globo, no qual Eduardo Dusek ganhou projeção nacional com “Nostradamus”, e o Festival dos Festivais, também da Globo, em 1985, que revelou a cantora Leila Pinheiro.

Ainda assim, nenhuma das tentativas conseguiu resgatar o intenso e mítico período das competições que aconteceram entre 1965 e 1972. Hoje, nos restou o legado desse período tão fértil: dezenas de canções que se tornaram clássicos absolutos do nosso cancioneiro, uma série de ídolos e talentos revelados e a certeza de que a música popular brasileira é capaz de catalisar as mais importantes discussões do país. 

A Era dos Festivais pode ser lida hoje como o recorte de um período histórico que não deve ser esquecido. Sim, houve muita repressão, mas também houve resistência e, claro, muita música! E o bonito é que de lá pra cá, a música brasileira, por outros meios, continuou trilhando esse caminho de inquestionável importância. Afinal, a vida não se resume em festivais.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

MPB COM TUDO DENTRO

Por Rodrigo Faour




A ERA DOS FESTIVAIS: ENTRE VAIAS E APLAUSOS (PARTE 02)

Por Tito Guedes





Depois do histórico festival promovido pela TV Excelsior em 1965, nada mais foi como antes. Elis Regina se tornou a grande estrela da música nacional, nasceu a MPB e a Era dos Festivais começou a se inscrever na História. 

Em pouco tempo, outras emissoras também passaram a produzir suas próprias competições televisionadas, e essas atrações logo se tornaram a principal vitrine para os cantores e compositores brasileiros. O público, claro, embarcou de cabeça nessa nova tendência. 

Afinal, a televisão era ainda novidade em muitos lares, e sentar-se diante dela para torcer por sua canção preferida se tornou um deleite, mobilizando paixões com a mesma intensidade de outra paixão nacional - o futebol. 

1966 - Começa o Fla x Flu 

Em 1966, a TV Record embarcou na onda dos novos palanques musicais televisionados e promoveu o II Festival de Música Popular Brasileira. Dele participaram estrelas como Roberto Carlos, Wilson Simonal, Maysa e muitos outros. 

Mas as preferidas pelo público se sobressaíram na competição desde as primeiras eliminatórias: “A banda”, de Chico Buarque, defendida por Nara Leão, e “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, defendida por Jair Rodrigues. 

As duas músicas eram muito diferentes entre si. Uma, singela e inocente, narra a passagem de uma bandinha por uma triste cidade do interior. A outra, engajada e imponente, trata da luta e resistência dos imigrantes nordestinos. 


Ambas ganharam torcidas apaixonadas e se tornaram as favoritas da competição. A repercussão foi tanta que extrapolou as paredes do Teatro Record ou as salas de estar dos lares brasileiros - ganhou as ruas. Se hoje os brasileiros brigam para saber quem é “coxinha” ou “mortadela”, em 1966 quase saiu no tapa quem era “A banda” com quem era “Disparada”. 

No dia da final, o clima era de total expectativa. Para a surpresa de todos (e revolta de muitos), o resultado foi um empate! Ambas foram agraciadas com o prêmio de primeiro lugar. Embora hoje em dia o Chico já não goste muito de sua “A banda”, a interpretação de Jair para “Disparada” é considerada por muitos o melhor desempenho de toda a sua carreira. 




A instituição das vaias

Nesse mesmo ano de 1966, a TV Rio resolveu embarcar na Era dos Festivais e criou o Festival Internacional da Canção Popular (que depois passaria a ser transmitido pela Rede Globo). Diferente dos outros, o FIC era dividido em duas fases. Na fase nacional, se escolhia a canção brasileira que iria competir na fase internacional, com canções do mundo todo. 

Na primeira edição, a vencedora brasileira foi “Saveiros”, de Nelson Motta e Dori Caymmi, defendida por Nana Caymmi. O público, no entanto, achou injusta a decisão do júri, e na hora em que Nana subiu ao palco para entoar o canto da vitória, foi vaiada estrepitosamente, como jamais acontecera em sua carreira e como definitivamente não merecia. 

O episódio ganhou muita repercussão e a partir daí as vaias se instituíram como personagem central dos festivais, que foram se tornando cada vez mais turbulentos. Assim, se o público não gostava de determinada música ou artista, vaiava sem dó nem piedade. Muitas vezes nem se ouvia direito a música concorrente, e sim uma batalha sonora de vaias raivosas e aplausos calorosos, que brigavam de igual para igual na tentativa de descobrir quem iria vencer. 

Era prática comum, por exemplo, as “torcidas organizadas de vaias”. A então estudante de jornalismo Telé Cardim ficou famosa pelo hábito de comparecer aos festivais apenas para vaiar as canções ou os artistas que ela julgava alienados em relação à situação política do país. Com o tempo, os próprios artistas a reconheciam na platéia e ela chegou a comparecer às competições com uma blusa que estampava um grande “U”. 

De acordo com o pesquisador Zuza Homem de Mello, em seu livro “A Era dos Festivais: Uma Parábola”, em um período no qual as pessoas não podiam votar nem se manifestar livremente nas ruas, os festivais se tornaram a válvula de escape para que a juventude exercesse sua liberdade de expressão. 

Por isso, episódios como a ferrenha torcida por “Disparada” e “A banda” e as vaias cada vez mais constantes representavam também o grito sufocado de cidadãos que encontraram na música uma oportuna e potente ferramenta política. 



1967 - Um ano decisivo 

Pode-se dizer que 1967 foi o auge da Era dos Festivais. É certamente um dos anos mais importantes de todo esse período - e em vários sentidos.

No FIC de 1967, por exemplo, o grande público foi presenteado com o surgimento de Milton Nascimento, que ali defendeu “Travessia”, canção de sua autoria que logo se tornou um clássico. Milton não ganhou (perdeu para “Margarida”, de Guttemberg Guarabyra), mas provou que ali nascia um grande artista. 

Nesse mesmo ano, o III Festival Internacional da Música Popular Brasileira da TV Record entrou para a História como um dos festivais mais memoráveis, a começar pela vitória de Edu Lobo e Marília Medalha com a brilhante “Ponteio”. 


Foi nessa edição que Caetano Veloso e Gilberto Gil, então desconhecidos pelo público, se apresentaram com músicas muito diferentes do que já se chamava de MPB, com inúmeras influências estrangeiras e o uso de guitarras elétricas nos arranjos, um verdadeiro pecado à época. 

Com “Alegria, Alegria”, Caetano falou em Coca-Cola e enalteceu figuras do universo pop como a atriz Brigitte Bardot. Com “Domingo no parque”, Gil apresentou uma letra diferente de tudo que se vira até então e revelou ao mundo uma das bandas de rock mais importantes da Século XX: Os Mutantes. 


A reação a essas inovações foi, claro, uma mistura ensurdecedora de vaias e aplausos. A ousadia dos dois incentivou um importante debate sobre a cultura brasileira e originou um movimento cultural que logo virou protagonista da cena musical brasileira. Sim, a Tropicália foi concebida e parida no palco desse festival.

Nessa mesma ocasião, o público presenciou uma grande virada na carreira de Chico Buarque. Depois de experimentar o sucesso comercial com “A banda” no ano anterior, o compositor adotou um tom político e engajado com a canção “Roda Viva”, defendida ao lado do MPB-4 em performance inesquecível. Pouco tempo depois, essa música deu origem a uma das peças de teatro mais importantes na luta contra a ditadura militar.


E como se não bastasse, foi também nesse festival que aconteceu o já mítico episódio da “violada” de Sérgio Ricardo. Irritado com as incessantes vaias da platéia, que não aprovara a mudança no arranjo de sua música concorrente, “Beto bom de bola”, o cantor se levantou do banquinho, esbravejou um “vocês venceram!”, quebrou o violão no palco e o arremessou ao público, como uma fera enjaulada que ataca os agressores. Foi desclassificado. 


Esses e outros acontecimentos (como a histórica interpretação de Roberto Carlos para “Maria, carnaval e cinzas”) renderam um famoso documentário, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil: “Uma Noite em 67”. 

Todos esses acontecimentos serviram como prenúncio de que a partir daí o clima iria pesar cada vez mais, acompanhando a tenebrosa atmosfera do país. Havia algo de podre acontecendo em Brasília, e o cheiro se alastrou para o palco dos festivais. O público foi ficando cada vez mais enraivecido e os artistas cada vez mais radicais e indignados.

Em 1968, já não haveria tempo a perder se temendo a morte ou uma desclassificação. Estariam todos atentos e fortes. 


domingo, 23 de agosto de 2020

A ERA DOS FESTIVAIS: NADA FOI COMO ANTES (PARTE 01)

Por Tito Guedes


Houve um tempo no Brasil em que as pessoas discutiam música como se falassem de futebol. Artistas que logo depois se transformariam em eternos ídolos nacionais despontavam quase simultaneamente. Famílias se reuniam diante da TV, então um novo e emergente objeto de consumo, para escutar e sobretudo torcer por música. As novidades do cenário musical do país ganhavam as primeiras páginas dos jornais e despertavam discussões acaloradas. 

Descrito assim, esse tempo pode parecer fictício, mas realmente existiu e é hoje conhecido como a Era dos Festivais. Abarcando o período de 1965 a 1972, foi marcado por uma série de competições de música popular que aconteciam anualmente, promovidos sobretudo pelas emissoras de TV. 

Trata-se de um momento decisivo para a música brasileira. Foi na Era dos Festivais, por exemplo, que surgiram ou se revelaram ao grande público nomes da importância de Elis Regina, Milton Nascimento, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, Ivan Lins, Evinha e muitos outros. 

Simultâneo a um período de grande ebulição política, com a instauração da ditadura militar, esses festivais ajudaram a configurar novas formas de se pensar a cultura brasileira, trazendo para a esfera da música popular discussões políticas, estéticas, culturais, sociológicas e filosóficas. Tudo isso em meio a performances arrebatadoras, com torcidas ferrenhas, polêmicas e reviravoltas dignas de Hollywood.

O marco inicial da Era dos Festivais foi o evento promovido pela TV Excelsior em 1965, mas antes de chegar a ele é preciso voltar um pouco no tempo. Desde os anos 1930, competições de música popular eram comuns no Brasil. Tome como exemplo os famosos concursos de marchinhas patrocinados anualmente pela Prefeitura do Rio de Janeiro para escolher o hit do Carnaval. 

Fora isso, pouca gente sabe, mas cinco anos antes do histórico festival da Excelsior, em 1960, a TV Record promoveu a I Festa da Música Popular Brasileira. Inspirando-se no famoso Festival de San Remo, da Itália, aconteceu no sofisticado Grande Hotel do Guarujá, no litoral paulista. 


O evento, no entanto, não ganhou muita repercussão em termos musicais. Não foi televisionado, não contou com a participação de grandes estrelas e a vencedora "Canção do pescador" (de Newton Mendonça), não tocou nas rádios. Além disso, a música ficou em segundo plano em detrimento das distrações que o hotel cinco estrelas oferecia e do concurso de misses, que acabou roubando a cena no evento. 

Cinco anos depois, no entanto, o produtor Solano Ribeiro resolveu retomar a ideia de criar um festival competitivo de música no Brasil, e dessa vez pra valer. O I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior aconteceu entre os dias 23 de março e 06 de abril de 1965 e arrebatou a audiência. 

Durante cerca de duas semanas, o Brasil torceu por músicas como “Sonho de um carnaval”, de Chico Buarque, “Valsa do amor que não vem”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, e “Cada vez mais Rio”, de Luiz Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli. Essas e outras canções eram defendidas por intérpretes como Wilson Simonal, Elizeth Cardoso e Geraldo Vandré. 

Mas a grande vencedora foi “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. A canção foi defendida por Elis Regina, que ali se revelou ao grande público como uma cantora potente e madura, pronta para se tornar uma verdadeira estrela.


A interpretação de Elis para essa música foi um divisor de águas não apenas em sua carreira, mas na história da música brasileira. Com “Arrastão”, ficou consolidada o que chamaram “música de festival”, que passaria a ser adotada pela maioria dos compositores dali pra frente. 

A temática engajada, a letra poética e a melodia forte e contagiante passaram a ser a nova tendência musical do Brasil. Era novo e moderno, mas dialogava com o samba, a bossa nova e o jazz. Sem caber em uma definição específica, passaram a chamar esse tipo de música de MPB - Música Popular Brasileira. Nascia assim um novo gênero e uma verdadeira instituição cultural do país. 

Pelos anos seguintes, uma série de novos programas nesses moldes surgiram em outras emissoras e a Era dos Festivais entrou para o centro das discussões mais importantes do país. O fato é que depois desse festival, nada mais foi como antes na música brasileira. 

SR. BRASIL

sábado, 22 de agosto de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

Resultado de imagem para ALMANAQUE DO SAMBA


O Zicartola

“Eu estou na cidade
eu estou na favela
eu estou por aí
sempre pensando nela”
ZÉ KÉTI, “Diz que fui por aí”

Na primeira metade dos anos 1960, o meio cultural brasileiro passou a ser o palco de grandes discussões estéticas e políticas. Surgia o Cinema Novo, o Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), a própria une volante, o Movimento de Cultura Popular do Recife, o Teatro de Arena, a Revista Civilização Brasileira, o movimento neoconcreto, o poema-práxis e o método Paulo Freire de alfabetização. Essa dinamização do campo cultural, e seu atrelamento aos movimentos políticos, se fez refletir com intensidade no universo do samba.


Cinema Novo

“Uma idéia na cabeça, uma câmara na mão.” Esse foi o lema criado pelo genial baiano Glauber Rocha para definir o Cinema Novo. Influenciados pela nouvelle vague francesa (Godard, Truffaut) e pelo neo-realismo italiano (Antonioni, Fellini, Pasolini), os jovens cineastas ligados ao movimento criticavam o estilo dos filmes comerciais – os hollywoodianos – e queriam mostrar personagens como o camponês, o operário, o sertanejo, o homem simples do povo e sua cultura. Nelson Pereira dos Santos inaugurou o movimento com Rio, 40 graus, e o ápice se deu com O pagador de promessas, filme de Anselmo Duarte baseado na obra de Dias Gomes, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Os filmes Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, tido como o principal nome da geração, Cinco vezes favela, de Joaquim Pedro de Andrade, Roberto Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues e Leon Hirzsman, Porto das Caixas, de Paulo César Saraceni, Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, Gangazumba, de Carlos Diegues, Garrincha, alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade e Os fuzis, de Rui Guerra, também são bastante representativos do período.

A classe média intelectualizada passa a reconhecer na cultura popular um privilegiado motor de identidade do país. Locais como o restaurante Zicartola, no Centro do Rio, a gafieira Estudantina, na praça Tiradentes, e ainda os shows Opinião e Rosa de Ouro tornaram-se a coqueluche da rapaziada da Zona Sul carioca.
O Zicartola durou apenas de 1963 a 1965. O sobrado situado na rua da Carioca número 53, no Centro do Rio de Janeiro, local onde se servia música popular e comida caseira, foi um marco de revitalização do samba urbano tão popular que as filas de entrada se estendiam até a praça Tiradentes. Toda uma geração de compositores alijada das escolas de samba encontrou no pequeno sobrado seu novo endereço. Eram os filhos das escolas que agora “batucavam” com a geração bossa nova. Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Paulinho da Viola, Nara Leão, Nelson Sargento, Hermínio Bello de Carvalho, Carlos Ly ra e Araci de Almeida estavam entre tantos que dividiam as mesas do sobrado para o ritual do samba.
O compositor, ritmista e cantor Elton Medeiros, observador participante desde o começo do Zicartola, conta-nos um pouco dessa história: “O Zicartola nasceu dos encontros na casa do Cartola, na rua dos Andradas. O Cartola se reunia com a gente... Nós resolvemos ensaiar um conjunto que seria o primeiro A Voz do Morro. Era constituído de Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Joacir Santana, Ventura, Armando Santos, da Portela, e eu. Acontece que esse conjunto só se apresentou uma vez na televisão, na TV Rio, Canal 13, mas a coisa não foi em frente e a turma desapareceu. Ficamos Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e eu. Isso foi em 1962. Eugênio (Eugênio Agostini, sócio e financiador do futuro restaurante) desafiava a gente: ‘Sábado que vem todos têm que apresentar um samba novo.’ Daí surgiram ‘O sol nascerá’, ‘Luz negra’, ‘Diz que fui por aí’.
Eugênio trazia todo sábado uns cinco carros lotados. Um que não saía de lá era o Carlinhos Ly ra, que gravava tudo que a gente cantava. Até espirro... O Zicartola foi continuação disso tudo, já dentro de uma linha comercial.”


Synval Silva

A retomada do samba na década de 1960 fez ressurgir a figura do compositor Synval Silva. Um dos fundadores da escola de samba Império da Tijuca, o mineiro Synval foi autor de pérolas que estouraram nas vozes de Carmen Miranda, sua predileta, Orlando Silva e Odete Amaral. São de sua autoria “Adeus batucada”, “Ao voltar do samba”, “Coração”, “Agora é tarde” e “Madalena se zangou”.






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