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Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

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Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

WILSON SIMONAL EM UM DISCO EM QUE CONFIRMA SUA VERSATILIDADE

Ironicamente, o disco tem uma faixa premonitória do destino de Simonal

Por José Teles



O chato destas descobertas da MPB dos anos 60 e 70, é que o pessoal se fixa num disco só. Vejam Os Novos Baianos, tem-se a impressão de que só gravaram Acabou Chorare (particularmente, gosto muito do primeiro, Ferro na Boneca, tinha nada no Brasil na época). É assim com Belchior, de Alucinação, que não aguento mais, ou Gonzaguinha, da sua época mais chata, dos samboleros politicamente corretos. O melhor dele são os primeiros LPs, sobretudo o primeiro, que foi proibido pela censura do regime militar. Gonzaguinha foi um dos mais visados pelos censores.

Para escutar em época de confinamento, Show em Si... monal, de 1967, gravado ao vivo no Teatro Record, registro da celebração do primeiro ano do programa homônimo, exibido pela TV Record, a Globo da época. Wilson Simonal estava no auge da carreira. O show é um espetáculo todo marcado, com roteiro, começo, meio e fim. Ele mostra que não deve nada a nomes da Broadway, feito o americano Sammy Davis Jr.

Vai de citações de comerciais de rádio e TV, a tiração de onda em cima das canções “subversivas de Geraldo Vandré (“ O terreiro lá de casa/não se varre com vassoura/varre com ponta de sabe/bala de metralhadora”), João do Vale e outros autores engajados. “Você que está me ouvindo, você que está sorrindo, você precisa confiar cada vez mais nesta, confiar nos seus autores, compositores e confiar na música brasileira. E mesmo se você não tiver um dia ninguém que em possa confiar. Você pode confiar na Shell”. Brinca com um jingle badalado. A Shell, pouco tempo, depois usaria os Mutantes no comercial de TV cantando o jungle (que eles incluíram num disco do grupo).

Ele vai se alternando entre o bom humor, e esbanjando talento cantando Dorival Caymmi, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, e seus grandes sucessos, do efêmero movimento da Pilantragem. Mas com um timing perfeito. 

Show em Si...monal é de 1967, soa às vezes datado, mas mostra a versatilidade de Simonal. Ele imita todo mundo. Até canta uma paródia, como moda caipira, de Something Stupid, estourada no mundo inteiro com Frank e Nancy Sinatra, rebatizado de Rocinha Estúpida. Em seguida imita Hebe Camargo, Não existia no país, talvez nunca mais existiu, um showman igual. Muito menos cantando como ele cantava.

Simona era como se definia Coalhada, jogador de futebol, personagem de Chico Anísio: Jogo em todas as posições, chuto com as duas,e meto a bola onde quero”. Quer entender a fama de Wilson Simonal? Ouça este álbum. Em que se acompanha com o SomTrês – Cesar Camargo Mariano (piano, Sabá (contrabaixo), e Toninho (bateria). E mais os músicos convidados, Isidoro “Bolão” Longano Bolão (Sax tenor), Carlos Alberto (sax alto), Dorival ‘Buda” Auriani e Magno “Maguinho” de Alcântara (Trompetes).


PREMONIÇÃO

Agora a ironia do destino. No meio do show, para ler um Jornal da Tarde, edição do futuro que recebeu de um marciano, seu amigo. Ele começa a ler os títulos das matérias. Lê várias, todas engraçadas. Talvez tenha deixado de ler uma, porque não tinha nada de engraçado nela. O jornal imginário é de junho do ano 2000. Mesmo mês, e ano, em que ele morreria.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Justiça

Composição: Ernâni Alvarenga - Paquito 

Intérprete - Eduardo Gudin - Paulo César Pinheiro

Ano - 1973

Disco - 
Elizeth Cardoso - Mulata Maior - Copacabana - COLP 11751


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

HOJE TEM MARMELADA? O CIRCO NA MÚSICA BRASILEIRA!

Por Tito Guedes




Cheiro de pipoca, ruído de espanto e risadaria de criança ao fundo. Cores vibrantes, um ar de magia e um clima lúdico e festivo. O circo é uma atração que vive na memória afetiva de muita gente e é constantemente explorado pela literatura, o cinema e a música como cenário perfeito para histórias repletas de emoção, romance e poesia.


No dia 27 de março comemora-se o Dia do Circo! A data foi escolhida em homenagem ao palhaço Abelardo Silva, conhecido como Piolin, que nasceu nesse dia no ano de 1897, em Ribeirão Preto.

Para celebrar esta data, o IMMuB relembra agora exemplos de como o circo foi emoldurado em nossa memória musical, seja em discos ou em músicas de artistas que fizeram da lona colorida o mote de suas canções. Confira abaixo!


Nara Leão

Composta por Sidney Miller e gravada por Nara Leão no disco “Vento de maio”, a música “O circo” embarca no clima festivo e alegre de um espetáculo colorido que tem “charanga tocando a noite inteira”, além de “picadeiro” e “qualidade”.

Os últimos versos da letra deixam claro como o circo simboliza, para muitos, uma doce lembrança da infância:

Vai, vai, vai terminar a brincadeira
Que a charanga tocou a noite inteira
Morre o circo, renasce na lembrança
Foi-se embora e eu ainda era criança...






Jorge Ben Jor

“O circo é alegria de viver”, canta Jorge Ben Jor na segunda faixa do antológico álbum “Ben”. Com uma letra típica da grife incomparável do compositor, “O circo chegou” descreve um picadeiro alucinante e surreal, com personagens dos mais absurdos: macaco cientista, cabra ciclista, homem avestruz, leão sem dente, anão gigante... tem de tudo!

Uma música pra te fazer viajar e torcer para que esse circo chegue logo em sua cidade!





Alceu Valença 

No clássico disco “A Arca de Noé”, que reúne temas infantis de Toquinho e Vinicius de Moraes, “A Foca” foi gravada por Alceu Valença, um artista que traz a influência do circo em toda as suas performances até hoje. 

A divertida letra descreve uma das imagens mais associadas ao circo: a foca treinada que bate palma e equilibra uma bola no focinho. Na gravação, a interpretação de Alceu para os bichos das mais diversas nacionalidades é impagável!






Batatinha

Todo mundo vai ao circo
Menos eu, menos eu
Como pagar ingresso
Se eu não tenho nada?
Fico de fora escutando a gargalhada...

Esses versos de tristeza cortante são de autoria de Oscar da Penha, o Batatinha, um dos grandes nomes do samba da Bahia. “O circo” explora a dualidade da alegria/tristeza associada aos espetáculos circenses ao adotar uma melodia alegre, típica das melhores charangas, com uma letra tristíssima que fala de solidão de forma muito singela e sensível. 

A canção foi lançada por Maria Bethânia em 1972, no disco “Drama - Anjo Exterminado” e se tornou um clássico.





Maria Bethânia

Mais de vinte anos depois, no disco “Âmbar”, Maria Bethânia retomou a temática circense ao gravar um delicioso blues de sotaque romântico, também intitulado “O circo”. Parceria de Orlando Morais com o poeta Antônio Cícero, a música se apropria da ideia do circo como metáfora para a representação do amor.





Rita Lee

No álbum “Rita Lee e Roberto de Carvalho” de 1982, o casal lançou a música “O circo”, canção melancólica que também estabelece um contraste entre a aparente alegria do espetáculo e a melancolia da vida. A letra cita clássicos personagens, como o palhaço, a bailarina, o trapezista, a mulher barbada e o domador e narra as angústias e tristezas de todos eles.




Embora a música não tenha se tornado muito conhecida, deu origem ao nome da turnê com a qual Rita percorreu diversos estádios brasileiros ao longo de 1982 e 1983. O espetáculo era montado em um palco em forma de lona e a roqueira abria o show vestida de palhaço e fazendo as honras da casa. Felizmente, a atração foi gravada e virou um especial de TV da Rede Globo. 





Egberto Gismonti

O músico Egberto Gismonti dedicou não só uma música, mas um disco inteiro ao tema! O álbum “Circense”, lançado em 1980, conta a história dos personagens de um circo através de temas instrumentais inspirados pela sonoridade das trilhas desse tipo de espetáculo. 

Além de figurar na lista da revista Rolling Stone Brasil como um dos 100 melhores discos de música brasileira de todos os tempos, o álbum ganhou uma arte gráfica irretocável, com a capa feita a partir de uma sobreposição que mostra o rosto de Egberto sob a entrada do picadeiro. 


Chico Buarque e Edu Lobo

Criado originalmente para o Balé Teatro Guaíra, de Curitiba, “O Grande Circo Místico” estreou com enorme sucesso em 1983. Musicado por Chico Buarque e Edu Lobo, o espetáculo narra a história de amor entre um aristocrata e uma acrobata e a saga da família austríaca proprietária do Grande Circo Knieps, que vagava pelo mundo nas primeiras décadas do Século XX. 

As músicas de Chico e Edu foram reunidas em um disco com a participação de diversos intérpretes, como Gal Costa e Tim Maia. A trilha sonora, claro, tem diversas músicas inspiradas por temas circenses, como a “Valsa dos clowns”, gravada por Jane Duboc, “Ciranda da bailarina”, “Na carreira” e a própria “Circo místico”, eternizada nesse disco por Zizi Possi.




Seja como metáfora para o amor, a infância, a vida, ou de forma literal, o circo sempre esteve presente na música brasileira. Estes são apenas alguns exemplos que entraram para a nossa memória musical. Se lembrou de mais algum, não deixe de nos contar nos comentários!

E agora preparem-se para mais uma sessão, porque o show tem que continuar! 



quarta-feira, 12 de agosto de 2020

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)

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É preciso ter muita paciência pra explicar a determinado tipo de pessoas que insistem em entrar em lojas de CDs para informar ao dono do estabelecimento que eles não ouvem mais mídias físicas.

É como você entrar num rodízio de carnes e informar que virou vegano, entrar numa igreja católica e dizer que virou evangélico, entrar numa concessionária de veículos e dizer que virou ciclista?

Sempre digo; a opção é sua. Você tem a liberdade de escolher o que quer e como quer ouvir.

75 ANOS DE ELIS REGINA: VIVA A BROTOLÂNDIA! (PARTE 01)

Por Tito Guedes


Para muita gente (e até para alguns verbetes de enciclopédia), a carreira de Elis Regina começou com sua vitória no I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, em 1965, quando arrebatou público e crítica com sua interpretação de Arrastão, música de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. A verdade, no entanto, é que antes de conquistar o Brasil nesse festival, Elis tinha uma carreira longa e já acumulava 4 álbuns em sua discografia.

Nascida a 17 de março de 1945, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Elis começou a cantar profissionalmente ainda menina, aos doze anos de idade. A estreia se deu na Rádio Farroupilha, em um programa apresentado por Ary Rego chamado “Clube do Guri”. Em 1960 ela foi contratada pela Rádio Gaúcha e em 1961, com apenas dezesseis anos, gravou pela Continental o seu disco de estreia. E erra quem pensa que seu batismo no mercado fonográfico tenha sido com um álbum sofisticado de samba ou bossa nova.

Seu primeiro disco se chama Viva a Brotolândia e é formado por um repertório eclético que mistura samba, bolero, rock e algumas versões de músicas norte-americanas. Elis não decepciona com a voz, mas ainda estava longe de dominar a técnica que lhe garantiria, no futuro, o título de “melhor cantora do Brasil”. Em sua “Brotolândia”, é nítida a influência que recebeu das grandes cantoras do rádio, sobretudo Ângela Maria, e uma inevitável semelhança com Celly Campello, a grande intérprete da “música jovem” em tempos pré-Jovem Guarda.

A arte gráfica e a foto da capa, com uma Elis simpática e sorridente, também emula uma aura “jovem”, imposta pelos produtores do disco. Algo que também aparece no repertório, com canções como Garoto último tipo, e até composições assinadas por ninguém menos que Carlos Imperial

Das músicas do disco, nenhuma se tornou muito conhecida - pelo menos não diretamente. Isso porque Baby Face, (letra de Fred Jorge sobre tema de Benny Davis e Harry Akst), foi gravada em 1979 pelas Frenéticas, mas com outra letra, escrita por Nelson Motta, de tom bem mais malicioso do que a versão gravada por Elis. Outro exemplo curioso é da música As coisas que eu gosto, versão de Fernando César para My Favorite Things, do musical “A Noviça Rebelde”, cuja melodia serviu de inspiração para o recente hit 7 Rings, da cantora pop Ariana Grande. 



Mas fora esses dois exemplos inusitados, o fato é que, apesar de não ter sido um fracasso, Viva a Brotolândia também não foi um grande sucesso e passou um pouco despercebido pelo público. Mas a boa voz de Elis lhe garantiu a gravação de mais 3 discos, que seguiram esse mesmo estilo jovem-romântico: Poema de amor, lançado em 1962, O bem do amor e Ellis Regina (assim mesmo, grafado com dois “l”), ambos lançados em 1963 pela CBS.

São quatro discos totalmente distantes do universo musical que caracteriza a obra posterior de Elis Regina. Ainda faltava a ela um amadurecimento técnico e vocal e a experiência de vida que lhe possibilitaria cantar com tanta propriedade músicas do peso dramático de Atrás da porta ou Dois pra lá, dois pra cá. Claro, há que se dar o desconto da idade: Elis ainda era uma menina que sonhava em viver de música quando gravou esses discos. Mesmo assim, é curioso pensar que, pouco tempo depois, ela estaria combatendo com unhas e dentes os artistas que gravavam esse tipo de repertório mais pop ou “jovem”, como se dizia à época. Ao longo de sua carreira, a própria Elis rechaçou esses discos iniciais e não escondeu em entrevistas o desconforto que eles lhe causavam. 

Ainda assim, mesmo que esses discos não sejam obras-primas e não possam ser comparados à discografia que Elis construiu a partir de 1965, eles não podem ser negligenciados pelos ouvintes contemporâneos. “Bons” ou “ruins”, consistentes ou não, é impossível apagar o valor histórico desses quatro álbuns. Juntos, eles constituem o registro primordial de uma voz que até hoje ressoa no inconsciente coletivo do Brasil. Foram os primeiros passos de uma gaúcha cheia de personalidade e talento que em pouco tempo se tornou a maior cantora do país. 




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