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ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

terça-feira, 26 de maio de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



Aquarela

A estrutura toda rimada e ritmada desta longuíssima canção (ou seria deste poema musicado?), de Toquinho, Fabrizio, Morra e Vinicius de Moraes, oferece beleza ao todo poético e demonstra o cuidado estético dos autores.
O título não poderia ser mais apropriado. Se na técnica de pintura em aquarela os pigmentos são dissolvidos em água, nesta canção lançada por Toquinho em 1983 - no disco Aquarela - as cores são agrupadas, e diluídas, a cargo da imaginação do ouvinte: "Basta imaginar".
Toquinho se tornou mestre neste modo de compor: buscando estimular a imaginação do ouvinte. Não é à toa que suas canções embalam as crianças. Vale registrar que, para a minha geração, fica difícil desvincular esta canção da famosa propaganda da Faber Castell (1983): que dava imagens aos versos da letra.
A letra articula imagens plasmadas por um narrador que canta enquanto faz (e vice-versa) sua aquarela. Enquanto a complexa melodia embala a magia sedutora do encantamento visual, em uma harmonia perfeita e comovente.
Cada situação é detalhadamente burilada com cores exatas e imagens corretas. O passeio proposto pelo sujeito da canção é curtido pelo ouvinte com um mergulho no mar da ilusão (real: nossa tradição é empirista e o sujeito investe nisso) que a arte proporciona.
O sujeito recupera a noção de experiência. A linguagem (o canto) é espaço da experiência, sem atingir o "cerne" dela: contar (cantar) é viver. "Aquarela" suspende o perigo e apresenta um tempo/espaço das delícias e isso afeta o ouvinte.
O objeto, substituído no título por "aquarela", é, de fato, a vida. A vida (a estrada percorrida por todos: aquele espaço pintado e habitado pelo ouvinte, durante a execusão da canção) é cantada em sua profusão de cores e possibilidades.
"O fim dela (da vida) ninguém sabe bem ao certo onde vai dar". O sujeito enfatiza o percurso que investe no meio, no acaso, em detrimento do fim. A única certeza é: um dia ela (a vida) descolorirá.


***

Aquarela
(Toquinho - Fabrizio - Morra - Vinicius de Moraes)

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva.

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul,
Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul.
Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená.
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar.
Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo,
E se a gente quiser ele vai pousar.

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida.
De uma América a outra consigo passar num segundo,
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá).
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá).
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (que descolorirá).





* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

ANA TERRA, 70 ANOS


Resultado de imagem para Ana Terra COMPOSITORA

Letrista. Escritora. Produtora. Em 1981, lançou o livro "Letras & canções", no qual compilou algumas letras anteriormente gravadas por boa parte de artistas da MPB. Anos mais tarde, publicou a novela "Estrela". Em 1994, escreveu crônicas para jornais do Rio de Janeiro. No ano de 1998, foi premiada no concurso de roteiros de longa-metragem do Ministério da Cultura com o texto "Os campos de São Jorge".
Em 1977, através de seu Selo Ana Terra Produções, lançou o LP "Cheiro verde", de Danilo Caymmi (na época, seu marido). O disco, com várias canções em parceria com o cantor, inclusive a que deu título ao disco, contou com a participação especial de Milton Nascimento na faixa "Lua do meio dia", em parceria com Danilo Caymmi. No ano seguinte, no LP "Clube da esquina", Milton Nascimento interpretou "Meu menino" (c/ Danilo Caymmi). No ano de 1979, em seu disco "Essa mulher", Elis Regina gravou, de sua autoria em parceria com Joyce, a música que deu título ao disco, e ainda "Pé sem cabeça" (c/ Danilo Caymmi). Sua parceira Joyce, em 1980, no disco "Feminina", incluiu a canção "Essa mulher". Nesse mesmo ano, o grupo Boca Livre gravou "Nossa dança" (c/ Danilo Caymmi). No ano seguinte, Joyce, no LP "Água e luz", gravou "Banho-maria" e "Mais uma vez, mais uma voz", parceria de ambas. Na década de 1980, Angela Ro Rô gravou uma de suas composições mais conhecidas, "Amor meu grande amor" (c/ Angela Ro Rô), que mais tarde seria regravada também com sucesso pelo grupo Barão Vermelho. Em 1983 Tunai no LP "Olhos do Coração" gravou "Ouro Preto", parceria de ambos. No ano seguinte, em 1984, lançou pela Philips/PolyGram, o LP infantil "Histórias do céu e da terra", com projeto e letras de sua autoria. Do disco participaram A Cor do Som, Joyce, Maesro Nelsinho, Monarco, A Velha-Guarda da Portela, Raphel Rabello, Sivuca e Zizi Possi em composições de parcerias com Tunai, Mú Carvalho, Joyce, Nelson Angelo, Zeca Barreto, Arnaldo Pereira e Elton Medeiros.



Neste mesmo ano, de 1984, no disco "Em Cartaz", Tunai incluiu "Pelo Ar do Brasil", parceria de ambos. Em 1995, em seu CD "Grande tempo", pela gravadora Velas, Fátima Guedes interpretou "A dois" (c/ Sueli Costa). Ainda na década de 1990, a convite de Francis e Olívia Hime, letrou duas músicas de Chiquinha Gonzaga, participando do disco em homenagem à maestrina, juntamente com outros letristas, como Paulo César Pinheiro e Abel Silva. No ano de 1998, foi lançado para o mercado brasileiro o disco "Bossa carioca", da cantora nipo-brasileira Lisa Onno. Nesse CD, originalmente lançado no Japão, foram incluídas duas composições de sua autoria "A dois" (c/ Sueli Costa) e "Diz a ela", em parceria com Lisa Onno. Entre seus vários intérpretes estão Emílio Santiago, Maria Bethânia, Nana Caymmi ("Aperta outro") e Marina Lima. No ano de 2002, ao lado de Chico Buarque, Abel Silva, Antônio Cícero, Paulinho Lima, Elisa Lucinda, Alcione, Leila Coelho Frota, Adélia Prado, Afonso Romano de Sant'Anna, Ritchie, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Gabriel, O Pensador, José Carlos Capinam e Murilo Antunes, entre outros, num total de 149 pessoas, participou do álbum com quatro CDs em homenagem ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. O álbum intitulado "Reunião - O Brasil dizendo Drummond" foi lançado pelo selo Luz da Cidade, do poeta e letrista Paulinho Lima. Neste mesmo ano, Lucinha Lins no disco "Canção brasileira" (em homenagem à obra de Sueli Costa) interpretou de sua autoria "Minha arte" e "Insana", ambas em parceria com Sueli Costa. Neste mesmo ano, de 2002, Tunai regravou "Ouro Preto" e "Pelo Ar do Brasil" no CD "Sem Limites", lançado pela gravadora Universal Music.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

PAUTA MUSICAL: A METEÓRICA CARREIRA DE LILA DE OLIVEIRA, POR LAURA MACEDO

Por Laura Macedo



A meteórica carreira de Lila de Oliveira


Margarida Oliveira, conhecida artisticamente primeiramente como Lila Margarida / Lila de Oliveira, depois apenas como Lila, era irmã de Dalva de Oliveira. Nos anos 1940 fez parte do Trio Madrigal e foi também uma das Pastoras de Ataulfo Alves.

Com o nome de Lila Margarida, gravou alguns discos em 78 rpm em companhia da irmã mais famosa. Lila foi ‘crooner’ da boate Drink, nos anos de 1960, onde participou do conjunto de Djalma Ferreira, os ‘Milionários do Ritmo‘, fazendo parte no coro feminino. Lila gravou apenas dois discos e posteriormente abandonou a carreira musical em função do casamento.

“Doce mentira” (Aristeu Queiroz/José Batista/Jorge Faraj) # Dalva de Oliveira e Lila Margarida. Disco Odeon (14.429-A) / Matriz (13250). Gravação (21/01/1959) / Lançamento (fevereiro/1959).

Seus dois Discos gravados são: “Lila – A Madrugada na Voz” (1961) e “Gosto da Noite” (1963). Antes participou do disco – “Isto é o Drink” (1960), interpretando duas faixas.


“Pra que mentir” (Luiz Bandeira/Djalma Ferreira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Isto é o Drink’, 1960.

“Caminhando” (Luis Bandeira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘‘Isto é o Drink’, 1960.



Lila de Oliveira estreou com o disco – “A Madrugada na Voz” (Columbia/1961). O disco é sambalanço em estado bruto, com acompanhamento do conjunto do maestro, arranjador e trombonista Astor Silva, presidente da gravadora Columbia. Samba de gafieira, samba de boate, samba de “teleco-teco”, sambolero…

Os arranjos eram jazzísticos, com solos de guitarra, metais e um piano rítmico, bem percussivo. O coro formado pelas vozes dos músicos que suingavam com o restante do conjunto. Da mistura de todos esses sub-gêneros do samba, tidos como popularescos, surgiria o cultuado e refinado “samba-jazz”, ápice da originalidade à brasileira.

Ainda não vertidos para o “samba-jazz”, do primeiro disco de Lila, um tema se tornou um clássico do estilo: “Nunca mais”, de letra melancólica, mas com ritmo contagiante, um “lamento” na voz de Lila.

“Nunca mais” (Ed Lincon/Silvio César) # Lila de Oliveira. Álbum Columbia ‘A madrugada na voz’, 1961.

“Gota de orvalho” [infelizmente não consegui identificar o autor. Essa faixa é do disco

Álbum Columbia ‘A madrugada na voz’, 1961“].


No seu segundo disco, “Gosto da noite” (CBS/1963), Lila contou com acompanhamento do conjunto da casa, já acrescido de um balançante órgão, instrumento que tão bem se adaptou à sonoridade do LP, cujo repertório teve metade das faixas ocupada por composições de Sílvio César.

Vamos ouvir algumas faixas do seu segundo Disco “Gosto da Noite” (1963).

“É um estouro”, de Jayme Silva e Neuza Teixeira (os mesmos autores de “O pato”, que se transformou em “standard” na interpretação de João Gilberto) abre o disco, e Lila nos conta a história da mulata dançarina de boate, que deveria ser efetivamente “um estouro”.

“É um estouro” (Jayme Silva/Neusa Teixeira/Luiz Pereira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

“Quero amar” (Ed Lincon/Durval Ferreira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

“Confissão” (Luiz Bandeira/Djalma Ferreira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

A única balada do álbum, de Newton Pereira e Ivan Paulo da Silva, o maestro Carioca, é chorosa, matéria-prima para a boemia do início dos 1960: “Somente a noite é companheira, fiel à minha dor, somente a noite sabe onde está o meu amor”.

“Gosto da noite” (Newton Pereira/Ivan Paulo) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

Com suingue irresistível, “Conselho a quem quiser voltar” e “Pra quê?”, do quase onipresente Sílvio César, foram “música de fundo” de muitas reconciliações amorosas, apesar do ritmo cadenciado e da irreverência da letra desta última, na voz doce de Lila: “Pra que fazer comédia assim? Se eu gosto de você, e você gosta de mim”.

“Conselho a quem quiser voltar” (Silvio Cesar) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

“Pra que?” (Silvio Cesar) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

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Fontes:
– Blog Memória da MPB (AQUI).
– Blog Toque Musical (AQUI).
– Fotomontagem: Laura Macedo.
– Site #Radinha/Áudios (AQUI).
– Site YouTube/Vídeos/Canais: “Irapuan Marques da Silva”.

CHICO ELION, 90 ANOS

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No Dicionário da Música do Rio Grande do Norte, de Leide Câmara – o mais completo glossário da música potiguar – Chico Elion é a primeira imagem que se vê, ainda jovem, com seu violão em punho, em uma praia natalense.

Segundo o compêndio de 521 páginas, Chico nasceu na antiga Vila da Princesa, hoje, Assu, em 16 de maio de 1930. Residiu em Natal já na infância. Seu primeiro instrumento foi um cavaquinho, feito por um marceneiro amigo do pai, comerciante.

Sua estreia nos palcos se deu na reinauguração do Convento Santo Antônio, como bandolinista. Depois passou a se apresentar nas festas do Ginásio 7 de Setembro, onde estudava, ao lado do pianista Newton Ramalho, irmão do compositor Hianto de Almeida.

Como cantor, estreou aos 18 anos já no Rio de Janeiro, na Rádio Nacional, no programa de Manoel Barcellos, interpretando a música ‘Lavadeira’, de sua autoria em parceria com o cearense Canelinha.

Fim dos anos de 1940, criou o trio Los Brasileirinhos, com Manoel Neves e Zélia Amorim. Em 1951, fundou o Trio Acaiaca, depois Conjunto de Boate Acaiaca, que se apresentava nas grandes festas natalenses.

No mesmo ano também fundou o Quarteto Marupiara, primeiro conjunto de quatro vozes do RN, que atuou até 1952. Em 1954, ele foi morar no Rio de Janeiro por seis anos.

Chico Elion foi o mentor das Irmãs Ferreira, trio formado por Chiquinha do Acordeon, Francineth e Déa (com quem veio a se casar), na passagem do baião e xaxado para o estilo “romântico”.

Na década de 1970 foi presidente da Ordem dos Músicos do Brasil, seção do RN, da qual é sócio fundador. Foi dono da casa de show Beco da Música, onde recebeu músicos e cantores de todo o país.

Das 400 composições de Chico Elion, destaca-se Moinho D´Água, com a qual recebeu disco de ouro pelas 10 mil cópias vendidas. A canção foi gravada por intérpretes até da França.

Ranchinho de Paia, outro clássico seu, consagra o chão natalense, tal qual a Praieira de Othoniel Menezes e Eduardo Medeiros. O nome da canção é nome de rua no bairro Lagoa Azul, em Natal. Foi composta em 1952 e eternizada na voz de Luiz Gonzaga, no LP A Festa (1981).

O arranjador das duas músicas é o argentino José Bragatto, também arranjador de Astor Piazolla.


Fonte: https://portalnoar.com.br/

domingo, 24 de maio de 2020

BONDE ALEGRIA - ADELAÍDE CHIOZZO

sábado, 23 de maio de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

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Portela

“Portela
eu nunca vi coisa mais bela
quando ela pisa a passarela
e vai entrando na avenida...”
MAURO DUARTE e PAULO CÉSAR PINHEIRO, “Portela na avenida”


A Portela é a escola carioca com o maior número de títulos conquistados no carnaval. Tem origem no bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz, fundado em 1926 e rebatizado dois anos depois de Vai como Pode. No dia 1o de maio de 1934, alguns dirigentes da escola de samba Vai como Pode queriam renovar a licença de funcionamento da agremiação e foram ao delegado Dulcídio Gonçalves, que fez uma proposta inesperada ao grupo: mudar o nome da escola. E o novo nome acabou sendo aceito. Nascia o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela.
Seus fundadores tornaram-se baluartes da Azul-e-branco de Oswaldo Cruz e, pela excelência de suas criações, são referência em todo o mundo do samba: Paulo Benjamim de Oliveira, Antônio Caetano, João da Gente, Antônio Rufino, Heitor dos Prazeres, Alcides Dias Lopes, o “Malandro Histórico”, e Manoel Bam-Bam, entre outros.


Paulo da Portela

“Cidade,
quem te fala é um sambista
anteprojeto de artista
teu grande admirador...”
PAULO DA PORTELA, “Cidade mulher”

Paulo Benjamim de Oliveira, mais conhecido como Paulo da Portela, foi o grande organizador do samba em Oswaldo Cruz. Aliás, Paulo representou para a comunidade mais do que isso. A elegância, a auto-estima e a determinação fizeram dele uma referência cultuada pelos moradores do bairro e pelos mais notórios representantes da estirpe musical portelense: “Em Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira/ todos só falavam de Paulo Benjamim de Oliveira”, dizem os versos do compositor Monarco em “Passado de glória”.

Paulo Benjamim de Oliveira teve uma infância pobre, cresceu no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro, trabalhando como entregador de marmitas e lustrador de móveis. Na década de 1920 a família foi morar em Oswaldo Cruz, e ali Paulo começou sua relação com o carnaval, fundando um dos primeiros ranchos da região, o Ouro sobre Azul. Em 1922, criou com Antônio Rufino e Antônio Caetano, futuros fundadores da Portela, o bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz. Data desse tempo o apelido artístico Paulo da Portela – referência à estrada do Portela –, que servia para diferenciá-lo de outro Paulo, sambista de Bento Ribeiro. Seu nome veio antes da escola.
Foi na casa do seu Napoleão (pai de Natal da Portela) que Paulo começou a se embrenhar no mundo do samba, indo a festas onde se tocava e dançava jongo e conhecendo gente como Ismael Silva, Baiaco e Brancura, sambistas do Estácio.
O papel de Paulo como líder na defesa e na luta pelo reconhecimento das escolas de samba começou ainda em 1926, quando passou a ser organizador do Conjunto Carnavalesco Escola de Samba de Oswaldo Cruz. O curioso é que, antes de fincar pé na estrada do Portela, a agremiação teve várias sedes, uma delas especialmente curiosa: um vagão de trem, que partia por volta das 6 da manhã da Central do Brasil em direção ao subúrbio.
Foi Mário Reis o primeiro a gravar, em 1931, uma composição de Paulo da Portela, “Quem espera sempre alcança”. O ano de 1935 marca alguns eventos importantes: a escola de samba Vai como Pode ganhou o carnaval com um samba de Paulo, mudou de nome e passou a se chamar Portela. No mesmo ano, Paulo foi eleito pelo jornal A Nação o maior compositor de samba do Brasil. Nos anos seguintes ganhou os títulos de Cidadão-Momo e Cidadão-Samba.
A Portela venceu o carnaval de 1939 com outro samba de sua autoria, apontado por muitos como o primeiro samba-enredo da história, pois Paulo conseguiu estruturar toda a escola em função de sua composição.
Ao lado de Cartola e Heitor dos Prazeres, começou a apresentar, em 1940, o programa A Voz do Morro, na Rádio Cruzeiro do Sul. No ano seguinte, Paulo rompeu relações com a Portela e saiu da escola logo depois de a Azul-e-branco vencer o carnaval com mais um samba seu, “Dez anos de glória”, feito em parceria com Antônio Caetano. Sua mágoa se traduziu em uma de suas mais belas músicas:
“O meu nome já caiu no esquecimento/ o meu nome não interessa a mais ninguém/ E o tempo foi passando/ a velhice vem chegando/ já me olham com desdém/ Ai quanta saudade de um passado que se vai lá no além/ Chora cavaquinho chora/ chora violão também/ O Paulo no esquecimento não interessa a mais ninguém/ Chora Portela, minha Portela querida/ Eu que te fundei, serás minha toda vida.”
Paulo foi para uma escola de Bento Ribeiro, a Lira do Amor. Candidatou-se, sem sucesso, a vereador pelo Partido Trabalhista Nacional em 1945, com o apoio de agremiações carnavalescas e do jornal Diário Trabalhista, chegando mesmo a participar de comícios do Partido Comunista Brasileiro. No dia de seu enterro, que contou com cerca de 15 mil pessoas, o comércio de Madureira, de luto, fechou as portas. A história de Paulo da Portela confunde-se com o surgimento do próprio samba carioca. São vários os depoimentos que o colocam como brilhante orador e grande liderança, um verdadeiro professor, como era chamado e é lembrado até hoje por vários sambistas.
A Velha Guarda da Portela gravou um vinil, que hoje já existe em cd, com as principais músicas de Paulo: “Linda Guanabara”, “Homenagem ao Morro Azul”, “Quem espera sempre alcança”, “Linda borboleta”, “Cocorocó” e outras.


Cristina Buarque

A portelense Cristina Buarque é a memória do samba carioca. Com seu talento de cantora, tem sido um frutífero elo entre a nova geração e os baluartes do gênero. Cristina gravou os principais sambistas do Rio, com destaque para os trabalhos dedicados a Noel Rosa e Wilson Batista, e imortalizou a composição de Manacéia “Quantas lágrimas”. Sua forte ligação com a Velha Guarda da Portela tornou-a quase um membro efetivo do grupo.





* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

BARTÔ GALENO, 70 ANOS

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Bartolomeu da Silva nasceu em Sousa, na Paraíba, em 20 de maio de 1950. Com 10 anos de idade, mudou-se para Mossoró, Rio Grande do Norte, na época do surgimento do movimento da jovem guarda. Bartô, como era chamado, passou a cantar na Rádio Rural e a participar de vários programas de calouros, nos quais frequentemente ficava em primeiro lugar, chegando a ser considerado "a mais bela voz do Rio Grande do Norte".

Em dado momento, o padre Américo Simonetti, em reconhecimento, deu-lhe uma passagem para a cidade de Recife, em Pernambuco. De lá, Bartô foi para São Paulo, onde entrou em contato direto com os músicos da jovem guarda, como Roberto Carlos, Jerry Adriani e José Roberto. Bartô começou a carreira como compositor, o que rendeu-lhe vários contatos. 
Seu primeiro álbum como cantor viria a ser lançado somente em 1975, intitulando-se Só Lembranças,  pela gravadora Tape K, estreante na época.

Sua voz foi descoberta por Ozéias de Paula, que o encaminhou para a gravadora.
Em 1978 lançou o álbum No Toca-Fita do Meu Carro, cuja faixa homônima acabou tornando-se seu maior sucesso. 
Em 1997 lançou a coletânea 20 super Sucessos, com a participação de Agnaldo Timóteo.
Em 2009 foi destaque na Virada Cultural na cidade de São Paulo e lançou o álbum Paixão Errante.

Unanimidade entre os fãs da música popular romântica, cantor e compositor citado e gravado por diversos cantores presentes nesta série, Bartô Galeno é tratado como rei por onde passa. Humilde, a voz macia e a cabeleira farta, é ainda um dos mais requisitados cantores de seu gênero, com uma agenda que pode chegar a cinco shows semanais. Aqui, acompanhado pela esposa Socorro, ao seu lado desde o início de sua carreira, Bartô conversa sobre sucesso, bebida e uma possível - e sempre protelada - aposentadoria.



Sentando no camarim improvisado, Bartô Galeno não acreditava: eram 7h30 da manhã de um domingo e o Largo do Arouche, região central de São Paulo, concentrava uma multidão. Esta tinha um caráter universal e particular: era formada pelos novinhos, os coroas, os de mãos dadas, os solteiros, os que haviam acabado de chegar, os que, latinha na mão, passaram a noite à procura de algo que não sabiam identificar. Mulheres e homens chamavam por seu nome. Quando ele entrou, os cabelos em dramáticos cachos, veio o barulho: palmas, gritos, fotos, "Bartô!", "Bartô!". Era uma recepção e tanto, principalmente para um horário malvado daquele. O cantor, era verdade, estava acostumado a um público efusivo: trinta anos antes daquele 3 de abril de 2009, estava em um camarim improvisado no garimpo de Serra Pelada. Escutou os novinhos, os coroas, os vários solitários, todos homens e poucos sóbrios, as garrafas de cerveja na mão. Chamavam por seu nome. Palmas, gritos, "Bartô!", "Bartô!" e tiros. Muitos tiros. Se assustou, a voz tremeu. Se acalmou quando explicaram os disparos: "É porque gostam de você". Era verdade: no fim do show, jogavam pepitas de ouro aos seus pés.

Das apresentações nos garimpos da selva amazonense ("era tanto nordestino ali isolado do resto do mundo") até o show realizado na Virada Cultural paulistana, Bartô, nascido em 1950, 40 anos de carreira, esteve em frente a milhões de pessoas que o trataram como um rei. Modesto, nunca reclamou para si o título relacionado tanto àquele que é sua grande inspiração (Roberto Carlos) quanto a outro cantor que compartilha de sua seara musical (Reginaldo Rossi). Mas a coroa, note-se, não é necessária: um exemplo é que o cantor e compositor de Sousa, na Paraíba, foi constantemente citado tanto pelos artistas que aparecem nesta série quanto pelos fãs da música popular romântica do País. Bartô chama atenção por onde passa: foi assim no dia da entrevista para esta reportagem, marcada em um shopping center no bairro do Meireles, em Fortaleza. No jardim do restaurante no qual a foto que ilustra esta página foi feita, um grupo de garçons reuniu-se para ver o cantor posar acompanhado por uma fita cassete. Antes, quando se dirigia ao local, um relógio dourado no pulso, o blue jeans à 70, acenou para fãs nos corredores. Fotos e "Bartô! Bartô!"

Não é fácil precisar a afetividade instantânea que sentimos pelo cantor e compositor a partir de qualquer contato mais aproximado (em um show, em uma simples audição ou em uma entrevista de duas horas). Baixa estatura, magrinho, o cabelo RC nos anos Lady Laura, a voz amaciada e meio tremida, ele é dono de uma conhecida simplicidade. Personifica o cara boa-praça que assume o tom conciliatório quando os egos ficam mais alterados, o moço simpático que não precisa sorrir mais alto, nem falar por último, nem mostrar que é o mais sagaz do grupo. Simplificando: Bartô é gente boa. Um exemplo foi a postura do cantor durante esta conversa: várias de suas respostas foram interceptadas pela esposa, Socorro, com quem está casado desde 1975. Perguntou-se quando ele deixou a Paraíba para morar no Rio. "Foi em 1969, no dia 2 de julho de 1969, eu..." Aí vem ela: "Ah, foi no dia em que a Apollo chegou à Lua... Ele sempre conta essa história." O cantor sorri, toma outro gole de água e só responde: "É, foi, foi". (A expressão em repeteco seria usada várias outras vezes nos momentos em que Socorro tomou a fala para si.)

Mas antes de o homem chegar à Lua e Bartô ao Rio, há, é claro, a gênese do mito: o filho de João de Deus e Carlota foi pequeno, 10 anos, morar em Mossoró, Rio Grande do Norte (terra fértil dos cantores da música popular romântica, como atesta esta própria série). A família, que passava por dificuldades financeiras, logo montou um tabuleiro de frutas em uma pequena feira local. Bastinho Silva, o futuro Galeno, ajudava a vender os produtos enquanto começava a tocar violão e a cantar. A voz agradava e chegou aos ouvidos de um locutor da Rádio Rural, Manuel, dono de um programa de auditório. Bastinho terminou lá no palco, aplaudido (começava ali sua relação de amor com o público). Aí veio 1969: enquanto a Ditadura Militar provocava dor e assombro para alguns e felicidade e segurança para outros, o rapaz vencia o concurso A Mais Bela Voz. O título foi a mola que o impulsionou para o
Recife. "Fiquei por lá somente duas semanas." Trabalhou em um restaurante, arrumou as malas, foi para São Paulo, se aquietou no Rio. Não foi uma chegada solitária, é verdade: quem estava por lá era Oséas Lopes, o futuro Carlos André (presente nesta série), que mais tarde viraria estrela com Se meu amor não chegar. Era, no entanto, já prestigiado por conta do Trio Mossoró &"150; o grupo já havia encontrado o menino de Sousa em São Paulo, e foi lá que Bastinho morreu para dar vez a Bartô. "Isso não é nome de artista", disseram. Na operação do rebatizado, o Bartolomeu tomou o rumo natural do Bartô, mas o sobrenome era um problema. Pensaram até em manter o Silva, mas era simplicidade demais para concorrer com os Adrianis e Sorianos do momento. Aí surgiu o Galeno, bom reforço para o desenvolvimento da gênese do mito.



No Rio, Bartô escreveu canções para nomes como Odair José e Genival Santos (de Eu lhe peguei no flagra), também para Carlos André e Fernando Mendes. Seu parceiro mais comum era Antônio Pires (irmão do cantor Roberto Müller, outro dos sete cantores de coração partido trazidos neste especial). Havia uma espécie de fraternidade entre os diversos cantores nordestinos que tentavam ocupar um espaço legítimo em meio a imensa produção fonográfica carioca. "Era tudo muito difícil, mas nós nos ajudávamos. Escrevíamos à mesa, saíamos para beber e compor", lembra. Começou a ganhar dinheiro com a composição, mas não havia esquecido do título de Mais Bela Voz. Queria cantar. Como era comum na época, passou pelos programas de auditório, entre eles, é claro, o de Chacrinha. Bartô lembra-se bem da longa fila para o teste, no qual a triagem era baseada em um enorme pragmatismo: "Esse canta, esse não canta, esse só tem boniteza, bota ele pra cá". Com a ajuda de Carlos André, que estava trabalhando na Copacabana, conseguiu ser apresentado aos produtores da gravadora Tapecar. Em 1975, gravou o LP Só lembranças, lançado no ano seguinte. O álbum, relançado em 1978, fez sucesso: Cadeira vazia e Amor vagabundo tornaram-se hits. Em 1977, veio Pelo menos uma palavra, que antecedeu aquele que seria o Sgt. pepper"s, o Dark side of the moon de Bartô: o LP No toca-fitas do meu carro, cuja faixa-título o elevou para o panteão da música popular romântica nacional. A música, autobiográfica, foi inspirada nos momentos de solidão que o cantor passou enquanto dirigia seu Chevette, o primeiro carro que comprou na vida.

Bartô diz que praticamente sustentava toda a Tapecar com a venda dos seus discos o sucesso fez com que o cantor passasse por gravadoras maiores, como a WEA, a Continental, a RGE (nos anos 90, ele também foi lançado pela recifense Polydisc). Vendas e cabeleiras ainda mais fartas, ele manteve a mão no freio e não deixou o sucesso provocar abalroamentos: continuou a prezar pela própria humildade. Mantinha, também, o hábito de beber com os colegas cantores e compositores. Socorro, que além da entrevista compartilhava uma água mineral com o marido, conta que era uma época difícil. "Ele saía e não voltava, passava dias fora de casa." Ela enfrentava, não em um Chevette, mas em casa, a solidão quando o marido passava meses em turnê. "Eu chorava, me sentia só." Bartô, lembrando-se das farras e dos shows com os amigos, pensa alto o que talvez não devesse ser verbalizado: "Mas era tão bom..."Hoje, com a saúde mais frágil, ele jura ter deixado a bebida para trás. Precisa de fato cuidar de si para dar conta da agenda apertada: há noites em que faz três, quatro shows. "Eu penso em parar, mas, quando acaba um mês, já tem outro todo lotado." Geralmente, vende as apresentações em uma espécie de "pacote": três shows saem por R$ 15 mil. Se for um show único, o preço é elevado. Apresenta-se bastante no Sudeste, onde vive (Rio de Janeiro).

Os shows são concorridos e é comum, segundo ele, encontrar jovens que estão o descobrindo agora. Os depoimentos dos novos fãs por vezes provocam o riso do cantor. "Eles dizem meu pai, quando era vivo, gostava de você" ou então "Ele não bebe mais, mas quando bebia, curtia muito seus discos", conta. Outra gafe comum "e que Bartô adora falar" é confundirem músicas populares de outros cantores como sendo dele. "Bartô, canta Fuscão preto, Bartô, canta no hospital, na sala de cirurgia." Ri de novo. Pouco depois, quando lhe pedem para se enrolar na fita cassete que remete ao seu maior sucesso, ele se anima. Apesar de meio abatido (Bartô estava doente no dia da entrevista), apesar de estar há poucas horas de realizar mais um show, ele passa quase uma hora posando para fotos. No final, enrola de volta toda a fita magnética. "Vão precisar dela? Quero pra mim." Levou o objeto como uma espécie de suvenir de um dia que queria lembrar. Como se a celebridade, o rei que deveria ser cortejado e lembrado, o cara gente boa e talentoso, não fosse ele.




Aprendizado nos bares da zona rural

"No toca-fita do meu carro? É a melhor que tem!", diz o agente de saúde Antônio José de Melo, 61 anos, outro fã que conhece profundamente não apenas a obra de Bartô, mas de cantores também importantes como Waldick Soriano e Evaldo Freire. Sua iniciação começou em meados dos 70, quando começou a trabalhar na Fundação Nacional de Saúde (FNS). Visitava frequentemente povoados pouco urbanizados, sítios onde o consumo musical era pautado basicamente pelas canções dramáticas dos cantores populares. Passava dias nestes locais e, à noite, ia se divertir nos bares, onde a tríade cachaça, música romântica e dor de cotovelo predominava. Durante anos na estrada, Antônio terminou levando, à sua maneira, uma vida parecida com aquela experimentada por Bartô, este andando no Chevette particular, o outro, nos carros institucionais do Governo Federal.
A convivência auditiva com os cantores tornou-se paixão e o agente de saúde iniciou a compra de vinis "tem alguns raríssimos, entre eles alguns do próprio Bartô. Vivendo há décadas em Carpina (Zona da Mata Norte), ele também passou a conferir, aos sábados, as apresentações que vários desses artistas realizavam no programa apresentado pelo radialista Paulo Marques. A compra de vinis virou um hábito.
Conhecido na cidade por seu enorme interesse nas canções românticas populares, Antônio chegou a receber em casa a visita do cantor José Ribeiro (presente nesta série), que estava na cidade para um show. Lamenta, no entanto, nunca ter visto uma apresentação de Bartô. "Ele não aparece por aqui. Se eu encontrasse ele, ia perguntar porque é que não grava mais", diz.
Com o aparecimento do CD, passou a investir na mídia e deixou de ouvir seus discos de vinil ("É bom ouvir estes discos mais alto, e hoje tá mais difícil"). Também adquire coletâneas vendidas na rua, mais acessíveis. Como outros entrevistados, reclama tanto do preço dos CDs vendidos em lojas quanto da homogeneização da música popular atual. "É aquele bando de mulher gritando, ninguém sabe quem é quem."

sexta-feira, 22 de maio de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




CAIXINHA DE ESTRELAS


Abri lentamente a caixinha de meu guarda-estrelas sem mexer no papel prateado que embrulhava a lua. Deixei-os lá, papel e lua, e retirei, uma a uma, as estrelas de todas as cores que ali dormiam. Percebi que a lua não gostou daquela solidão e a ela devolvi as estrelas roxa e vermelha. As demais, com elas fiquei e levei-as a passear. A estrela branca me indicava o caminho da Paz e segui seu roteiro. No meio do caminho ela sonhou com Dom Helder e desapareceu nas asas de uma pombinha. A estrela verde, levei-a, a seu pedido, para ver o verde mar. Encantou-se com um peixinho cor-de-rosa e sumiu na primeira onda. À azul mostrei o céu e ela se apaixonou por um arco-íris que acabara de se abrir e se embrenhou no meio de tantas cores. Restou-me a amarela, que não resistiu ao primeiro apelo e chamamento do Senhor Sol e a ele foi-se unir. Voltei ao guarda-estrelas, desembrulhei a lua, guardei-a bem junto ao peito e até hoje ela me faz companhia todas as noites, alegrando meus momentos. As estrelas roxa e vermelha, deixei-as guardadas na caixinha para quando a Lua se cansar dos meus afagos e resolver morar em outros céus. Espero que elas não tenham a sorte que as outras tiveram, encontrando complemento às suas belezas e qualidades e por elas me trocando. Aliás, melhor pensando, que elas encontrem rosas e ametistas, vermelhas e roxas, e sejam felizes.

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quinta-feira, 21 de maio de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Ciúme doentio

Composição: Luiz de França - José Batista

Intérprete - Gilberto Alves

Ano - Junho de 1951

Disco - 
 RCA Victor 80- 0775-A 


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).


A HISTÓRIA MUSICAL DO RÁDIO NO BRASIL

As 25 músicas mais tocadas nos rádios do Brasil no ano de 1945, há exatos 75 anos, foram:

01 - Maria Bethânia - Nelson Gonçalves
02 - Peguei Um Ita no Norte - Dorival Caymmi
03 - Bolinha de Papel - Anjos do Inferno
04 - Prece à Lua - Gilberto Alves
05 - Dora - Dorival Caymmi
06 - Que Rei Sou Eu - Francisco Alves
07 - Brasa - Orlando Silva
08 - Isaura - Francisco Alves
09 - Bodas de Prata - Carlos Galhardo
10 - Odeon - Fon-Fon e sua Orquestra
11 - Escandalosa - Aracy de Almeida
12 - Coitado do Edgard - Linda Batista
13 - Meus Amores - Nelson Gonçalves
14 - O Que Vier Eu Traço - Ademilde Fonseca
15 - Eu Nasci no Morro - Déo
16 - Coração Também Esquece - Jorge Veiga
17 - Leilão da Baiana - Violeta Cavalcantti
18 - Andorinha - Francisco Alves & Dalva de Oliveira
19 - Celia - Augusto Calheiros
20 - Pela Luz Divina - Ataulfo Alves
21 - Feitiçaria - Silvio Caldas
22 - Ela Vai Voltar - Orlando Silva
23 - Nanci - Francisco Alves
24 - Bela - Augusto Calheiros
25 - Vaidosa - Francisco Alves

quarta-feira, 20 de maio de 2020

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)

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De tantas historinhas ocorridas na PD, me recordei de uma agora, ouvindo o CD "Público" de Adriana Calcanhotto.

Uma senhora comprou o dito cujo e logo em seguida veio devolver dizendo que estava arranhado... Analisei o CD e não encontrei o arranhão. Pra evitar problemas dei um outro lacrado.

No dia seguinte ela volta e diz que o CD também estava arranhado... Foi aí que me lembrei que após a faixa "Carioca", tem uma vinheta chamada "Público", com palmas e scratches, que simulam arranhões.


Expliquei isso à cliente... Mas ela não aceitou e disse que queria um CD sem essas interferências. Então eu disse que iria devolver o dinheiro, pois não era um problema e sim uma opção da artista.

Mas se ela preferir, poderia fazer uma cópia pra ela pulando essa faixa. Seria uma cortesia. E ela ficaria com o CD original também.

Ela aceitou...

E aprendi que o cliente tem sempre razão.

BAÚ DO MUSICARIA



A exatamente cinco anos, esta era uma das matérias que estava sendo publicada em mês como este em nosso espaço:


Link para relembrar a matéria:

terça-feira, 19 de maio de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



Disfarça e chora


Com um excelente conjunto de músicos e composições que teriam várias gravações futuras, Cartola (1974) é um disco referencial para a história da nossa canção.
O acompanhamento melódico cadenciado de "Disfarça e chora" parece ir contra aquilo que sugere a letra. Ora, porque chorar se o samba está rolando? Mas é justo deste "contraste" que brota a beleza do momento, afinal "a tristeza é senhora, desde que o samba é samba".
Não é nada fácil disfarçar uma perda (amorosa, ou não), mas o sujeito (malandro), sugere que, como vem raiando o dia e o sambista não gosta e se lamenta da chegada do sol (afinal, assim, "as morenas vão logo embora"), o outro deve aproveitar esse lamento e "fazer de conta" que está chorando por causa da aurora. Não há momento mais certo!
A voz de Cartola (com o "r" dobrado, típico); os breves, mas pontuais, alongamentos vocálicos (que fazem o ouvinte sentir o langor de quem chora); a concisão da mensagem na letra; e o balanço da melodia são primorosos.


***

Disfarça e chora (Cartola / Dalmo Castelo)

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outra
Oh! triste senhora
Disfarça e chora
Todo o pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E o seu pranto oh! Triste senhora
Vai molhar o deserto





* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

CATONI, 90 ANOS

segunda-feira, 18 de maio de 2020

MPB COM TUDO DENTRO

Por Rodrigo Faour



MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

45 anos de um clássico da discografia do cantor e compositor mineiro

Por Luiz Américo Lisboa Junior


MILTON NASCIMENTO - MINAS (1975)

Até que ponto podemos determinar qual o mais importante trabalho de um artista? Será aquele que o revelou para o grande público ou o produzido na maturidade e que se torna por si mesmo uma obra de reconhecido valor? Essa é uma tarefa difícil que divide muitas vezes críticos, pesquisadores e ouvintes. Uns acham que é o disco que o lança no mercado por constar dele musicas que se tornariam referências alem de ser o marco fundamental de sua trajetória. Confesso que já me vi nestas situações e assumo desde já que esta é uma postura que em muitos casos tomo como parâmetro.

Contudo, vamos agora a uma outra questão, essa ainda mais difícil. Como se pode avaliar o trabalho mais significativo de um compositor/intérprete em cuja trajetória se revelam trabalhos de renomada qualidade e fundamentais na sua carreira e na cultura musical brasileira? Será por exemplo que Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi e outros do mesmo nível não teriam praticamente todo o conjunto de sua obra como referencia? E se tirarmos um único exemplar destacando-o entre os demais não iremos correr o risco de misturarmos preferência pessoal com uma análise critica isenta? Será também que esses artistas têm obras menores ou menos importantes? Em que contexto podemos nos basear para tal critério e postura opinativa? Na vendagem do disco? Na qualidade das musicas? Nos arranjos? Enfim, decidir qual o melhor é muito difícil, mesmo porque o melhor necessariamente não é o mais importante, por isso mesmo que os parâmetros de analise não são unânimes, mas, o que importa isso? Se tudo fosse consenso nossa vida seria de uma monotonia terrível.

Essas considerações para mim são necessárias para determinar os motivos que me levaram a escolher dentre os álbuns de Milton Nascimento o LP Minas lançado em 1975 como um dos discos fundamentais da musica popular brasileira e um marco na carreira desse notável artista.

Carioca, mas criado em Minas, Milton adquiriu uma mineirice que se revela em toda a sua obra, podemos ate afirmar que o seu nascimento no Rio de Janeiro foi um mero acaso, pois foi nas alterosas que sua sensibilidade brotou e dela ele extraiu toda a essência de sua musicalidade, daí Milton é Minas e Minas é Milton, um não vive sem o outro e ambos se complementam.

Depois de ter lançado discos antológicos e participado como uma das peças fundamentais do movimento Clube da Esquina que traria Minas Gerais definitivamente para o grande palco revelando compositores excelentes como Lô Borges, Marcio Borges e Beto Guedes, Milton Nascimento já se consagrara como um dos mais renomados compositores nacionais e também como um de nossos maiores intérpretes. Carreira consolidada, inclusive no exterior, sua criatividade era permanente, existindo sempre uma expectativa positiva em relação a um novo trabalho. Em 1975 davam-se os primeiros passos do governo Geisel e a esperança de um fim da ditadura que tanto prejudicou a produção cultural do país, além do mais a idéia de uma abertura política, lenta e gradual era um discurso que trazia esperanças e a diminuição dos rigores da censura uma realidade, apesar dos descalabros ainda cometidos.

Para quem viveu aqueles momentos a impressão que se tinha é que vivíamos numa legalidade irreal mas consentida, os piores momentos do golpe de 64 já haviam passado, o futuro era uma promessa alvissareira. No campo artístico os anos setenta foram decisivos para a modernização da musica popular e o estabelecimento de parâmetros qualitativos que lhe dariam uma visibilidade permanente tornando-se referencia de criatividade e talento. O clima portanto era propicio para o lançamento de grandes trabalhos e dentre eles, esse Minas, de Milton Nascimento.

O disco pode ser considerado como uma síntese de seus, na época, doze anos de carreira, contando com a participação dos amigos do Clube da Esquina. O repertório nele contido traz canções que se incorporaram definitivamente nos clássicos de Milton e representam o ápice dessa sua trajetória. São musicas que marcaram também toda uma geração e fizeram parte da trilha dos anos setenta, consolidando-se hoje como marcos referenciais da musica popular brasileira de um modo geral.

No repertório apresentado temos, Fé cega, faca amolada, destacando-se o trabalho de Nivaldo Ornelas no saxofone mantendo um permanente dialogo com a interpretação vocal de Milton e Beto Guedes. O sucesso alcançado por essa música mereceu menos de um ano depois gravações do Zimbo Trio, MPB 4, fazendo parte ainda da trilha sonora do show Novos Bárbaros, com Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Beijo partido, esta de Toninho Horta, traz Milton num de seus grandes momentos como intérprete; Saudades dos aviões da Panair ou Conversando no bar, é uma canção cuja letra de Fernando Brant traz recordações de uma época em que Milton e seus amigos ainda tinham tempo para descobrir o mundo em conversas amistosas em mesas de bar.

Apesar de já ter sido gravada com sucesso por Elis Regina em 1974, reaparece neste LP com orquestração e regência de Wagner Tiso. Ponta de Areia, é outra permanente referencia em sua carreira, tanto que o próprio Milton a regravaria também em 1975 nos Estados Unidos no LP gravado com o saxofonista Wayne Shorter; Paula e Bebeto, uma das poucas parcerias de Milton e Caetano Veloso, é dentre elas a de maior sucesso. As outras canções do disco como a instrumental Minas que lhe da o nome; Gran circo; Trastevere; Idolatrada; Leila e Simples, formam junto com as outras um painel musical que marcaria uma ruptura na carreira de Milton, que é a sua forte ligação musical com o movimento Clube da Esquina, proporcionando a partir de então novos rumos e experiências conceituais em sua obra, apesar do lançamento em 1978 do LP Clube da Esquina II.

Por fim, perguntamos: Podemos afirmar ser esse o mais importante disco de Milton Nascimento? Muitos dirão que não, contudo, o importante não é o critério avaliativo já que a totalidade de sua obra é fundamental, mas o fato dele se inserir em um momento histórico/criativo na trajetória do artista que nortearia a partir de então novas descobertas e outros sensacionais trabalhos.

Itabuna, 13 de junho de 2006



Músicas:
01) Minas (Novelli)
02) Fé cega faca amolada (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos)
03) Beijo partido (Toninho Horta)
04) Saudade dos aviões da Panair (Milton Nascimento/Fernando Brant)
05) Gran circo (Milton Nascimento/Marcio Borges)
06) Ponta de Areia (Milton Nascimento/Fernando Brant)
07) Trastevere (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos)
08) Idolatrada (Milton Nascimento/Fernando Brant)
09) Leila (Venha ser feliz) – (Milton Nascimento)
10) Paula e Bebeto (Milton Nascimento/Caetano Veloso)
11) Simples (Nelson Ângelo)

domingo, 17 de maio de 2020

CURIOSIDADES DA MPB

A atuação de uma mulher na música era tão rejeitada pela sociedade da época que muitas pessoas não acreditavam que as composições de Chiquinha eram realmente feitas por ela. Mesmo declarada "morta" pelos pais, sua vida artística os incomodou pelo resto da vida. Não aceitavam o sobrenome Gonzaga sendo publicado como autor das músicas compostas pela filha.

SR. BRASIL

sábado, 16 de maio de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

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Carlos Cachaça

“Alvorada lá no morro, que beleza
ninguém chora, não há tristeza
ninguém sente dissabor
o sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
e a natureza sorrindo, tingindo, tingindo
(a alvorada)”
CARLOS CACHAÇA, CARTOLA e
HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO, “Alvorada”

Carlos Cachaça foi o introdutor de Cartola no samba e na malandragem. Conheceram-se em 1922, e três anos depois fundaram juntos o Bloco dos Arengueiros, precursor da Mangueira, da qual também foram pioneiros. Suas parcerias incluem clássicos do repertório do samba: “Alvorada”, também com o poeta Hermínio Bello de Carvalho, “Não quero mais amar a ninguém”, que inclui Zé da Zilda na parceria, “Quem me vê sorrindo”, “Vale do São Francisco”, “Todo amor”, “Tempos idos” e muitas outras.
Assim como Paulo da Portela teve seu nome adaptado para se diferenciar de outros “paulos” do pedaço, Carlos Moreira de Castro ganhou o apelido de Carlos Cachaça aos 17 anos de idade, na casa do tenente Couto – local de reunião musical onde também cortejava-se a bela filha do oficial bombeiro –, para diferenciá-lo de outros “carlos” que gostavam menos da purinha. Carlos Cachaça chegou à Mangueira antes de a Mangueira existir. Em todas as entrevistas que deu, sempre frisou que foi o compositor Elói Antero Dias que levou o samba para lá. Antes era só marcha-rancho. Depois o samba passou a acontecer na casa de Tia Fé e espalhou-se pelo Buraco Quente, morada de toda a sua vida.
Já como uma das referências do samba de morro, Carlos Cachaça compôs em 1934, para sua Mangueira, “Homenagem”, o primeiro samba que fazia alusões a personagens da história do Brasil. Sua forte veia poética levou-o a publicar um livro só de poesias e letras, lançado pela Funarte. Aliás, a própria Academia Brasileira de Letras exaltou a qualidade dos seus versos em “Não quero mais amar a ninguém”: “semente de amor, sei que sou, desde nascença...”.
Apesar da forte ligação com o mundo do samba e de suas primorosas composições, Carlos Cachaça passou praticamente anônimo pela Época de Ouro do rádio. Exceção à regra foi Araci de Almeida, que gravou a sua “Não quero mais...”. No ano de 1968, com Clementina de Jesus, Odete Amaral, Cartola e Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça participou, na Odeon, do LP Fala, Mangueira. Suas músicas incluídas eram: “Tempos idos”, “Alvorada”, “Quem me vê sorrindo” e “Lacrimário”. Só em 1976 gravaria o primeiro e único disco solo de sua carreira. Isso é ainda mais impressionante quando lembramos que se trata do fundador da Mangueira, parceiro de Cartola, criador de sambas-enredos históricos e vitoriosos e organizador da primeira ala de compositores de que se tem notícias.
O aniversário de 96 anos de “seu Carlos” foi um momento histórico: todo de branco, no centro do palco, assistia ao show apresentado por Guilherme de Brito e Nelson Sargento. A Velha Guarda da Mangueira trouxe inúmeros convidados à Cantareira, em Niterói: Luiz Melodia, João Nogueira, Chamon, Luiz Carlos da Vila, Pedro Amorim, Wilson Moreira, Moacy r Luz, Zé Kéti, Hermínio Bello de Carvalho, Paulo César Pinheiro, Cristina Buarque, Darci da Mangueira, Walter Alfaiate, Dorina e Dona Ivone Lara emocionaram e alegraram a noite, com mais de dois mil presentes. Foi a última grande homenagem ao seu Carlos, que poucos anos depois partiu para continuar a parceria com Cartola no céu. Seu nome virou poesia, no samba de Moacy r Luz e Aldir Blanc: “É tão bonito/ ver um sambista transformar-se em dança/ de ramos verdes onde o vento e a sombra/ transmitem aos filhos sua herança...”


Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

“Quando eu piso em folhas secas
caídas de uma mangueira
penso na minha escola
e nos poetas da minha Estação Primeira
Não sei quantas vezes
subi o morro cantando
sempre o sol me queimando
e assim vou me acabando...”
GUILHERME DE BRITO e NELSON CAVAQUINHO, “Folhas secas”


Para que o amigo leitor conheça um pouquinho melhor a figura de Nelson Cavaquinho, eis um breve roteiro de algumas de suas estripulias etílicas. Depois de mergulhar muito jovem na boemia carioca, ouvindo os choros e sambas pela madrugada, Nelson foi forçado pelo pai a se casar e arrumar um emprego na guarda da cavalaria da Polícia Militar. Isso lá pelos idos de 1932.
Seu Brás mal podia imaginar que a estabilidade financeira que havia arrumado para o filho notívago o levaria de vez para o caminho do samba e da boemia. A função de Nelson Cavaquinho era patrulhar os botecos dos morros, o que fazia com inegável eficiência, pois conversava e bebia com o arruaceiro até tudo se acalmar. O “bom” policial Nelson acabou se entrosando com Zé da Zilda, Cartola e Carlos Cachaça.
Conciliar o emprego na polícia com a vida de sambista foi ficando cada vez mais difícil. A gota d’água aconteceu num dia em que Nelson cumpria sua rotina de amarrar o cavalo ao pé do morro e subir para rodas de samba das quais só saía pela manhã. Ao voltar, não encontrou o cavalo, que havia se soltado e voltado para o quartel. O policial Nelson pediu baixa em 1938, com 27 anos, e a partir daí passou a viver somente de música, vendendo sambas regularmente.
Dedilhando o cavaquinho com apenas dois dedos, Nelson aprendeu a tocar o instrumento observando por horas a fio os chorões que executavam infindáveis variações em torno da linha melódica. Daí seu repertório incluir choros como “Gargalhada”, “Queda”, “Nair” e “Caminhando”.
Mas sua praia musical seria mesmo o samba. Foi com ele que Nelson Cavaquinho expressou toda sua poesia, em suas letras melancólicas e céticas, demarcando um campo muito particular no seio da música popular. Nelson teve muitos parceiros, e muitas músicas foram vendidas sem levar seu nome. A mais importante das parcerias foi certamente com Guilherme de Brito. Era uma dupla de compositores de amargo lirismo, voltada para as pequenas tragédias do cotidiano e para o caráter efêmero da vida.
Guilherme de Brito conheceu Nelson na década de 1940. Trabalhava na Casa Edison e já compunha seus sambas. Músicas de sua autoria, como “Meu dilema” e “Audiência divina”, haviam sido gravadas por Augusto Calheiros. Mas a rigidez do emprego não permitia que o menino nascido no musical bairro de Vila Isabel tivesse uma vida boêmia e construísse maiores relações no meio artístico. O encontro com Nelson mudaria o rumo dessa história.
“Conheci Nelson tocando nos botequins de Ramos. Logo nos tornamos parceiros. Ele me fez jurar fidelidade musical e chegou a querer registrar o nosso trato em cartório, mas o funcionário riu e disse que era impossível fazer isso”, lembra Guilherme.10 A dupla produziu letras eternas, de profunda poesia sobre a morte, a dor e a saudade: “Quando eu me chamar saudade”, “Minha festa”, “Folhas secas”, “Cinzas”, “Depois da vida” e “Pranto do poeta” são apenas algumas delas.
O êxito da parceria com Nelson despertou o interesse de alguns cantores por antigas composições de Guilherme. É o exemplo de “Quando as aves emigram” e “Palavras”, feitas com Leduvi de Pina e gravadas por Orlando Silva em 1959. Mas sua poesia mais marcante na MPB foi mesmo fruto das parcerias com Nelson Cavaquinho, como as letras dos sambas “A flor e o espinho” (“Tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com a minha dor...”), “Quando eu me chamar saudade” (“Sei que amanhã, quando eu morrer/ os meus amigos vão dizer/ que eu tinha um bom coração...”) e “Degraus da vida” (“Sei que estou/ no
último degrau da vida, meu amor/ já estou envelhecido, acabado...”).


Nelson Sargento

“Samba
agoniza mas não morre
alguém sempre te socorre
antes do suspiro derradeiro
Samba
negro forte destemido
foi duramente perseguido
na esquina, no botequim, no terreiro...”
NELSON SARGENTO, “Agoniza mas não morre”


Hoje o comunicativo Nelson Sargento é a continuação dessa estirpe verde-e-rosa na cultura musical carioca. Na casa dos 80 anos, Nelson mantém viva outras duas tradições do reino do samba: a do sambista-pintor e a do sambista-ator. Nelson Sargento foi morar em Mangueira ainda criança. Criado por Alfredo Português, figura respeitada no morro e no mundo do samba, o rapazola logo foi tomando gosto pela música e em pouco tempo aprendia violão com Aloísio Dias, Cartola e Nelson Cavaquinho, tornando-se parceiro do padrasto lusitano.
Quando deu baixa no Exército, Nelson acoplou ao seu nome a patente de sargento. Isso por volta de 1948, quando já fazia parte da ala de compositores da Mangueira, levado que foi pela boa lábia do compositor Carlos Cachaça (sempre ele!). Nesse mesmo ano, ao lado de Alfredo Português, a Mangueira apresenta seu samba-enredo “Vale do São Francisco”, obtendo o quarto lugar no desfile. Sete anos depois, com Jamelão e o mesmo Alfredo, compôs “Cântico à natureza”, samba que levou a Mangueira ao segundo lugar e é considerado um dos mais belos da história da escola. A partir de então projetou-se no mundo do samba, sendo convidado para shows e novas parcerias.
A adoração que Nelson Sargento desenvolveu pela Mangueira fez com que ele utilizasse sua extraordinária memória para recuperar dezenas de sambas cujo estilo influiu em sua obra. Não foi à toa que resgatou letras de Cartola que mesmo o Divino não lembrava de haver composto. Lançou o CD Inéditas do mestre Cartola, incluindo o samba “Velho Estácio”, de 1930, ao qual acrescentou a segunda parte.
Depois de ser presidente da ala de compositores da Mangueira, afastou-se da escola em 1962. Integrou nos agitados anos 60 o musical Rosa de Ouro, oriundo das reuniões musicais que ocorriam no Zicartola, e participou do conjunto A Voz do Morro, organizado por Zé Kéti após o fim da temporada do Rosa de Ouro. Fez parte também do grupo Os Cinco Crioulos.

Condecorado com a medalha Pedro Ernesto, Nelson Sargento vem realizando exposições de suas pinturas primitivas desde 1982. Participou também como ator, chegando a ganhar prêmios, dos filmes Perdi minha cabeça na linha do trem, Nelson Sargento no morro da Mangueira, ambos de Estevão Pantoja, Contagem regressiva, de Walter Salles Júnior, e Orfeu do Carnaval, de Cacá Diegues. O homem não pára. Claro que sua principal criação são as composições, de que são belos exemplos “Agoniza mas não morre”, “Vai dizer a ela”, com Carlos Marreta, “Berço de bamba”, e “Nas asas da canção”, com Dona Ivone Lara, entre muitas outras.




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