PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

domingo, 31 de maio de 2020

INTIMIDADE (LINIKER E OS CARAMELOWS)

SR. BRASIL

sábado, 30 de maio de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

Resultado de imagem para ALMANAQUE DO SAMBA


Candeia

“De qualquer maneira,
meu amor, eu canto
de qualquer maneira,
meu encanto, eu vou sambar...”
CANDEIA, “De qualquer maneira”

Desde muito cedo Candeia freqüentava rodas de samba e de choro. Seu pai, além de tipógrafo, era flautista e amigo de bambas como João da Gente, Paulo da Portela e Zé da Zilda. Além das rodas de capoeira e terreiros de candomblé, Candeia também freqüentava a escola de samba Vai como Pode, que, algum tempo depois, daria origem à Portela.
Ainda muito menino começou a compor, e em 1953, aos 17 anos, um samba seu em parceria com Altair Marinho, “Seis datas magnas”, levou a Portela ao primeiro lugar no carnaval, conseguindo notas máximas em todos os quesitos. Foi o primeiro de muitos sambas vitoriosos, todos tendo Waldir 59 como parceiro. A Portela foi campeã com seus sambas nos anos de 1955, 1956, 1957, 1959 e 1965. Com 22 anos, Candeia entrou para a Polícia Civil e começou a trabalhar como investigador, sem imaginar que essa função abriria caminho para a tragédia que abalaria sua vida. Conta-se que em uma ocasião, ao bater numa prostituta, esta teria rogado uma praga para Candeia. Coincidência ou não, fato é que na noite seguinte, em meio a um acidente de carro, ele saiu atirando e acabou levando um tiro que o deixou preso a uma cadeira de rodas até o fim da vida.
Esse revés se refletiu em suas composições. Sambas como “Peso dos anos” e “Pintura sem arte” são só alguns exemplos de sua relação com a deficiência. A partir daí começou a ficar recluso, não saía de casa e também não recebia visitas. Amigos como Martinho da Vila o trouxeram de volta ao samba e à vida. Tempos depois, dizia ele num samba: “De qualquer maneira, meu amor, eu canto/ de qualquer maneira, meu encanto, eu vou sambar”.
Voltando às rodas de partido-alto, Candeia se tornou também uma das expressões máximas da defesa da cultura negra no Brasil, em sambas como “Dia de graça”. Nos anos 1960, criou o grupo Mensageiros do Samba, que se apresentava no Zicartola, e participou do movimento de revitalização do samba realizado pelo Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE.
Em 1975, por discordar dos rumos que o samba das escolas estava tomando, fundou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, ao lado de parceiros como Wilson Moreira e Nei Lopes. Foi o primeiro presidente do conselho deliberativo da nova escola, inicialmente com sede em Rocha Miranda, mudando-se depois para Coelho Neto, bairros do subúrbio carioca. O Quilombo nasceu na mesma época em que Candeia, em parceria com Isnard, publicou o livro Escola de samba, árvore que esqueceu a raiz.
Foi nesse período que Clara Nunes gravou um samba de sua autoria que fez muito sucesso, “O mar serenou”, e que Candeia gravou um disco antológico, “Os quatro grandes do samba”, ao lado de Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.
O ano de 1978 é manchado de tristeza pela morte de Candeia, mas é marcado também pela gravação do LP Axé, considerado por muitos sambistas e pesquisadores de nossa cultura um dos mais importantes da história de nosso samba.
Na segunda metade dos anos 1990, Candeia voltou a ser lembrado nas vozes de dois grandes nomes do samba. Martinho da Vila gravou em seu CD Tá delícia, tá gostoso um pot-pourri chamado “Em memória de Candeia”, que tinha as faixas “Dia de graça”, “Filosofia do samba”, “De qualquer maneira”, “Peixeiro grã-fino” e “Não tem veneno”. E Zeca Pagodinho incluiu no CD Deixa clarear um samba com a marca de Candeia, composto por Alcides Malandro Histórico, “Vivo isolado do mundo”.
Candeia, como dizem amigos e críticos, foi o Zumbi dos terreiros cariocas, desbravando caminhos e lutando pelo orgulho negro. E hoje, nas rodas de partido-alto, seguimos o pedido feito por ele em “Testamento de partideiro” e rezamos por ele sempre sambando. “A chama não se apagou/ nem se apagará/ És luz de eterno fulgor, Candeia/ O tempo que o samba viver/ o sonho não vai acabar/ e ninguém irá esquecer, Candeia...”, diz o compositor Luiz Carlos da Vila sobre o mestre, parceiro e amigo, na música “O sonho não se acabou”.


Paulinho da Viola

“Se um dia meu coração for consultado
para saber se andou errado
será difícil negar
Meu coração tem mania de amor
amor não é fácil de achar
a marca dos meus desenganos ficou, ficou
só um amor pode apagar”
PAULINHO DA VIOLA, “Foi um rio que passou em minha vida”



“Antigamente era Paulo da Portela, agora é Paulinho da Viola.” É assim que Monarco saúda em forma de samba os dois maiorais da Portela: Paulo, de que falamos antes, e Paulinho, o menino tímido que virou padrinho da Velha Guarda da escola e compôs o samba de maior sucesso e marca da identidade da Azul-e-branco de Oswaldo Cruz: “Foi um rio que passou em minha vida, e meu coração se deixou levar...”
Esse samba redimiu uma certa “boa mágoa” que a escola guardou de seu ilustre compositor. Tudo ocorreu porque o poeta Hermínio Bello de Carvalho, que apresentou Paulinho ao grupo do Zicartola e acabou por se tornar seu amigo e parceiro, pediu a Paulinho que colocasse melodia em uma poesia que havia feito para sua escola do coração, a Mangueira. Letra de Hermínio, música de Paulinho, uma pitada de sentimento e inspiração, só poderia ter dado na criação de um verdadeiro poema da Verde-e-rosa, “Sei lá, Mangueira”. O pessoal de Owaldo Cruz ficou com ciúmes, e Paulinho se redimiu ao compor o belo samba que se tornou um clássico portelense.
Por falar em Zicartola, foi ali que Paulo César Baptista de Faria aproximou-se da música de Cartola, ganhou seu nome profissional e recebeu seu primeiro cachê, entregue pelo próprio Divino. Cartola era um deus para o mundo do samba. E não foi diferente para Paulinho. Músicas do mestre, como “As rosas não falam”, passaram a influenciar diretamente o jovem que freqüentava o sobrado na rua da Carioca acompanhando sambistas como Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Guilherme de Brito, Carlos Cachaça e Zé Kéti. Certo dia, Cartola virou-se para ele e disse:
“Paulo, você está vindo aqui, usando seu tempo para tocar e não está ganhando nada. Tome aqui um dinheiro pra ‘passagem’. ” Era o primeiro cachê que o músico Paulo César recebia.
Foi também no Zicartola que ele virou Paulinho da Viola. Conversando com o jornalista Sérgio Cabral, Zé Kéti ficou encantado com a musicalidade do garoto, sua voz terna e afinada e seu violão bem tocado, mas o nome Paulo César não combinava com sambista.
– Que tal Paulo da Viola?, indagou Zé Kéti, talvez inspirado em Mano Décio da Viola, veterano compositor do Império Serrano.
– Paulinho... Paulinho da Viola é melhor, completou Sérgio. Zé Kéti, sambista portelense já reconhecido no mundo do samba, foi um dos grandes incentivadores do compositor e cantor Paulinho da Viola. Ao que Paulinho correspondeu com raro talento. Mas esse talento de um compositor antenado que ouvia as harmonias e melodias de diversas tendências da música brasileira tinha duas influências musicais cristalinas em sua formação: o samba e o choro.
Paulinho da Viola é filho de César Faria, violonista do antológico grupo de choro Época de Ouro, fundado por Jacob do Bandolim. A casa do menino Paulo era portanto o reduto de chorões e sambistas, visto que muitos instrumentistas de choro acabavam tocando com renomados cantores ou compositores de samba. Sua formação de violonista e cavaquinista se deu executando o que há de melhor na linhagem dos dois gêneros.
É aí que entra a diferença da obra de Paulinho. Ele bebe na tradição da musicalidade carioca, mas se manteve sempre antenado às novidades de seu tempo, um mundo pós-bossa nova e tropicalista. Ouve música clássica, jazz, canção sertaneja, Tom Jobim. Sua harmonia é requintada, ao passo que suas letras aproximam-se da poesia moderna. Parece mesmo que usa a paciência e a disciplina adquiridas no hábito de marceneiro para construir cada pedacinho de sua música. O som dos choros e dos sambas que compõem a obra de Paulinho é dos mais vultosos das últimas décadas.
Seus dois LPs lançados em 1976, Memórias 1 – Cantando e Memórias 2 – Chorando, são marcos na discografia brasileira. O crítico da época no Jornal do Brasil, José Ramos Tinhorão, chegou a dizer: “Após alguns anos de carreira, qualquer cantor, músico ou compositor começa a pensar seriamente na possibilidade de produzir pelo menos um disco perfeito. Pois Paulinho da Viola acaba de conseguir dois – de uma vez!”
Nos dois discos, um de samba e outro de choro, estão algumas das obras-primas do compositor: “Coisas do mundo minha nega”, “Perdoa”, “Vela no breu”, com Sérgio Natureza, “O velório do Heitor”, “Rosinha, essa menina”, “Choro de memórias”, entre outros. E sempre há espaço para os compositores tradicionais, uma marca de Paulinho que Zeca Pagodinho também cultiva: “Nova ilusão”, de Claudionor Cruz e Pedro Caetano, “Pra que mentir?”, de Noel Rosa e Vadico, “Chorando”, de Ary Barroso, além de composições de Pixinguinha e Benedito Lacerda.
Paulinho da Viola tornou-se uma grande referência na história da música brasileira. Seu trabalho foi reconhecido em 1992 com o Prêmio Shell pelo conjunto de obra. Em 1996, Paulinho estreou o show Bebadosamba, que acabou lançado em CD duplo. Encontramos aí sua história, seus amigos, seus parceiros, suas músicas e muito de sua vida.
O começo do novo milênio trouxe boas novidades para o sessentão Paulinho.
O escritor e jornalista João Máximo lançou um livro sobre sua vida, e Isabel Jaquaribe dirigiu, com sucesso nacional, o filme Meu tempo é hoje, em que retrata a vida de Paulinho e sua amistosa relação com o tempo. O roteiro é do jornalista Zuenir Ventura.
É, Paulo, seu tempo virou história.


Monarco e a Velha Guarda da Portela

Aos seis anos de idade, Hildemar Diniz recebeu o apelido de Monarco. Criado em Oswaldo Cruz, desde menino ia às rodas de samba, freqüentadas por bambas como Paulo da Portela.
Só estudou até o terceiro ano primário, mas começou cedo, aos 11 anos, sua carreira de compositor. Desde 1950 faz parte da ala de compositores da Portela, onde teve como um dos principais parceiros o compositor Alcides Malandro Histórico.
Na década de 1960, saiu da Portela e foi para a Unidos do Jacarezinho.
Depois de alguns anos voltou para a Azul-e-branco e passou a fazer parte da Velha Guarda da escola. Monarco tem dois filhos que vêm se destacando no mundo do samba: Marcos Diniz, que faz parte do Trio Calafrio, e Mauro Diniz, um dos sambistas mais conceituados atualmente.
Os sambas de Monarco fizeram e fazem sucesso nas vozes de Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Beth Carvalho, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Clara Nunes, Maria Creuza e Zeca Pagodinho. Certa vez o pesquisador Sérgio Cabral chamou Monarco de historiador do samba, porque vários personagens históricos da Portela e de outras escolas ficaram imortalizados em suas composições. Sua linha melódica dolente, inspirada em sambas de terreiro, é acompanhada por sua voz grave, num estilo que lembra muito os sambistas de morro. São dele as pérolas “Quitandeiro”, com Paulo da Portela, “Lenço”, com Chico Santana, “Passado de glória”, “Tudo menos amor”, com Walter Rosa, “Coração em desalinho” e “Vai vadiar”, com seu mais constante parceiro, Ratinho de Pilares.
A voz do samba – título de um disco seu, mas que também pode perfeitamente lhe servir de alcunha – assumiu o comando da Velha Guarda da Portela após a morte de Manacéia, outro ícone da escola. Monarco fez parte do grupo criado em 1970 por Paulinho da Viola a fim de registrar as composições de portelenses históricos. A Velha Guarda lançou um LP no mesmo ano, Portela, passado de glória. Era integrada, no início, por Chico Santana, Alcides Dias Lopes, Ventura, Aniceto, Alberto Lonato, Monarco, Mijinha, Vicentina, Iara, Armando Santos, Cláudio, Antônio Caetano, João da Gente e pelo líder, Manacéia.
A valorização dos compositores históricos das escolas de samba ganhou lastro, e Império Serrano, Mangueira, Salgueiro, entre outras, também passaram a organizar os seus tradicionais sambistas.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

MÚSICO EVALDO GOUVEIA MORRE DE COVID-19

Compositor, cantor e violonista compôs “Sentimental Demais”

Compositor, cantor e violonista Evaldo Gouveia

Vítima de Covid-19, o compositor, cantor e violonista cearense Evaldo Gouveia morreu nesta sexta, 29, em um hospital particular de Fortaleza, aos 91 anos, segundo informação de seu biógrafo, Ulysses Gaspar. O corpo do artista foi sepultado na manhã de hoje, no Cemitério Jardim Metropolitano, com a presença de sua esposa, a cantora Liduína lessa, seguindo os protocolos de saúde da pandemia. 

Com saúde fragilizada desde o final de 2017, conforme informação de Ulysses, o músico apresentou um quadro de pneumonia nesta época, em São Paulo, quando se internou e teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Voltou para Fortaleza, onde ficou em tratamento, até contrair o vírus que o debilitou ainda mais. 

Natural de Orós, Gouveia é autor de 1200 composições e tem 700 músicas gravadas. Autor da famosa “Sentimental Demais”, regravada por vários artistas, foi alçado ao sucesso ainda na era de ouro do rádio, entre 1940 e 1950, logo tornando-se uma referência da MPB. Seu sucesso foi impulsionado por nomes como Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Alaíde Costa e Maysa Monjardim. Antes da carreira solo, foi um dos fundadores do Trio Nagô, ao lado de Mário Alves e Epaminondas Souza.


Fonte: Correio do povo


O VIOLÃO 7 CORDAS DE VALDIR SILVA NA MÚSICA (80 ANOS)


Os irmãos Valter e Valdir Silva (1. e 3. da esq. p/ dir) aos 17 anos no Regional do Niquinho, com Niquinho (bandolim e Zezinho (pandeiro)

Os violonistas e pesquisadores Guilherme Lamas e Rafael Thomaz escreveram o artigo O Violão 7 Cordas de Valdir Silva na música "Exemplo", canção gravada ao vivo na TV Eldorado no fim da década de 1970, e o apresentaram no XXVIII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa de Pós-Graduação em Música, edição 2018, em Manaus. 

O propósito dos autores era analisar "a execução do acompanhamento e solo de violão de sete cordas do música Valdir Silva na música 'Exemplo' de Lupicínio Rodrigues" através do estudo e transcrição do vídeo, evidenciando particularidades da execução do violão de sete cordas, como detalhes técnicos das duas mãos e o uso de cordas presas como solução para tonalidades inusitadas.

O artigo completo está disponível na biblioteca do site para download.  




Fonte: 
https://www.violaobrasileiro.com/
 

sexta-feira, 29 de maio de 2020

UM CAFÉ LÁ EM CASA

Por Nelson Faria


PICOLINO DA PORTELA, 90 ANOS

Resultado de imagem para Picolino da PortelaFuncionário aposentado do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis.
Apresentou-se em vários clubes e rodas de samba do Rio de Janeiro.
Compôs a primeira música aos 16 anos de idade. Pertenceu à Ala dos Compositores da Portela até o seu falecimento.
Em 1946 já compunha para o Bloco Unidos da Tamarineira, de Oswaldo Cruz.
Com Candeia e Valdir 59, entrou para a Portela, passando a integrar a Ala dos Compositores, na época presidida pelo compositor Wanderley.
Compôs os sambas-enredos da Portela "Samba do gigante", feito em homenagem ao "IV Centenário da Cidade de São Paulo", em 1954 e "São Paulo Quatrocentão", que classificou a escola em 4º lugar do Grupo 1, no desfile daquele ano.
Integrando a Ala de compositores da Portela, fez apresentações entre 1955 e 1956 no Clube High-Life, juntamente com a Orquestra Tabajara e a Orquestra do Maestro Cipó. Mais tarde, fundou a Ala dos Malabaristas, a qual liderou durante cinco anos, transferindo-se para a Ala dos Compositores, da qual exerceu a presidência por dois anos.
Compôs "Legados de D. João VI", em 1957, samba-enredo com o qual a Portela foi campeã no desfile daquele ano.
Em 1963, ao lado de Casquinha, Candeia, Casemiro, Arlindo, Jorge do Violão e Davi do Pandeiro, formou o grupo Os Mensageiros do Samba, que fez parte do Movimento de Revitalização do Samba de Raiz, promovido pelo Centro de Cultura Popular (CPC) em parceria com a União Nacional dos Estudantes (UNE). Com esse grupo, gravou o LP "Mensageiros do samba", pela gravadora Philips. O disco contou com músicas compostas pelos integrantes do grupo, como "Se eu conseguir" (c/ Casquinha e Picolino) e "Lenço Branco", esta última, somente de sua autoria.
Formou o Trio ABC da Portela, juntamente com Noca da Portela e Colombo. Com o Trio, participou de vários espetáculos de samba e alguns festivais, como o "II Concurso de Música de Carnaval", organizado pelo Presidente do Conselho Superior de Música Popular Brasileira do Museu da Imagem e do Som, Ricardo Cravo Albin, em 1968, quando inscreveu duas composições do trio. A primeira composição inscrita foi "Portela Querida", que foi classificada em quinto lugar, sendo interpretada, com grande sucesso, por Elza Soares, que a gravou na Odeon, e a segunda, "É bom assim", interpretada pelo cantor Gasolina.
No ano de 1969 sua composição "Chorei, sofri, penei", classificou-se em primeiro lugar no Concurso de Carnaval do Teatro Municipal de São Paulo.
No ano de 1970 Elizete Cardoso no LP "Falou e disse", lançado pela gravadora Copacabana, incluiu de sua autoria "Você foi um atraso em meu caminho", parceria com Jair do Cavaquinho.
Foi autor ainda de "Atrás do meu caminho", gravada por Elizeth Cardoso. Ainda fazendo parte do Trio ABC da Portela, compôs "A dor que vem do Brás", gravada por Eliana Pittman, que anteriormente já tinha gravado de sua autoria em parceria com Caipira "Tô chegando, já cheguei" .
Entre outras músicas lançou ainda "Puxa, que luxo" (c/ Luiz Ayrão), gravada por Luiz Ayrão.
Em 1978 Martinho da Vila gravou "Querer é poder" (c/ Colombo e Noca da Portela) e, em 1997, "Nem ela, nem tu, nem eu", também de sua autoria.
Em 2003 sua composição "Portela querida" foi regravada no CD "Noca da Portela - 51 anos de samba".
Entre seus intérpretes destacam-se, além de Martinho da Vila e Elza Soares, Eliana Pittman na regravação de "Lenços brancos", Pastoras da Velha Guarda da Portela "Lenços brancos" (LP 'Samba no chão, 1962) e "Secretário da Escola" (Picolino e Monarco) Tuco e seu Batalhão de Sambistas.

Fonte: Dicionário da MPB

quinta-feira, 28 de maio de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: A divina dama

Composição: Math Shilkret - Aratimbó

Intérprete - Alda Verona

Ano - 1929

Disco - 
Parlophon 13.004-A - matriz 2830




* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).


OSCAR CASTRO NEVES, 80 ANOS

Resultado de imagem para Oscar Castro NevesViolonista emérito, compositor, arranjador, produtor, Oscar Castro Neves sabe tudo de música. Veio ao mundo bem acompanhado: nasceu trigêmeo, em 15 de maio de 1940, no Rio de Janeiro, numa família em que todos tocavam algum instrumento. Tinha 16 anos quando compôs “Chora tua tristeza”, seu primeiro grande sucesso. Pouco depois, em companhia de Antonio Carlos Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal e tantos outros artistas de uma geração excepcional, tornou-se um dos criadores da Bossa Nova, movimento que ainda hoje delicia inúmeros apreciadores, em todo o mundo. Oscar teve notável participação no primeiro concerto de bossa nova nos Estados Unidos, realizado em 22 de novembro de 1962, no Carnegie Hall, Nova York. A partir de então, consolidou-se como um artífice da abertura do mercado norte-americano à música brasileira. Excursionou com Dizzy Gillespie, Stan Getz, Lalo Schiffrin, Laurindo de Almeida e gravou com Quincy Jones, Ella Fitzgerald, Herbie Hancock, Barbra Streisand, Paul Winter, Dave Grusin, Toots Thielemans, Harry Belafonte e até Michael Jackson. Em 1971, juntou-se a Sérgio Mendes e, como violonista, diretor musical e às vezes co-produtor, gravou mais de 15 discos com o Brazil 66, grupo com o qual apresentou-se em quase todas as grandes salas do circuito internacional. 10 Com “Soul of Tango”, que produziu, em 1999, para o violoncelista Yo-Yo Ma, Oscar alcançou imenso sucesso popular e acabou agraciado com o grammy na categoria “best classical crossover”. Outra gravação, “Leaning into the night”, com o guitarrista Ottmar Liebert, permaneceu nas paradas da Billboard Classical Crossover por mais de um ano. Compôs e orquestrou a música de vários filmes, entre os quais “Blame it on Rio”,“Gabriela” (com música de Jobim), “LA Story”,“He said, she said” e “Larger than life”. Durante seis anos, produziu a noite brasileira no Hollywood Bowl, em Los Angeles. Entre seus créditos mais recentes, encontra-se a trilha sonora do seriado “Watching Ellie” para a rede de televisão NBC. Essa extraordinária bagagem musical assegura a Oscar Castro Neves a admiração do público e os aplausos da crítica, que destacam a sua sofisticada concepção harmônica e a textura delicada e rica de seus trabalhos para orquestra. Mas tudo isso é pouco para definir o homem. Nele, o que mais impressiona é a dimensão humana, a alegria de viver, a delicadeza para com todos e a calorosa devoção à família e aos amigos. Oscar é, enfim, uma flor de pessoa. Sou seu fã desde menino e tive enorme prazer em organizar a conversa registrada abaixo, que contou ainda com a participação de Sérgio Mielniczenko.
Morreu nos EUA, aos 73 anos, vítima do câncer.

Embaixador José Vicente Pimentel

quarta-feira, 27 de maio de 2020

BAÚ DO MUSICARIA




A exatamente cinco anos, esta era uma das matérias que estava sendo publicada em mês como este em nosso espaço:



Link para relembrar a matéria:

LUIS CARLOS VINHAS, 80 ANOS

O nome completo de Luis Carlos Vinhas é Luiz Carlos Parga Rodrigues Vinhas. Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de maio de 1940. E faleceu, também no Rio, em 22 de agosto de 2001. Estava com 61 anos.

Luiz Carlos Vinhas foi um grande expoente da bossa nova. Era pianista e compositor.

O movimento musical, que recebeu o nome de BOSSA NOVA, começou em 1957, no Rio. E Vinhas juntou-se ao grupo e se salientou entre eles. Ele trabalhava como pianista no famoso bar: “ Beco das Garrafas”, que reunia muitos cantores e músicos famosos. Vinhas também participou das gravações de Elis Regina, Quarteto em Cy, Jorge Benjor, Maria Bethânia e muitos outros. Enfim, todos o procuravam. Vinhas formou um dos primeiros conjuntos musicais desse período, o “ Bossa Três”. Esse conjunto, em 1966, tendo Leny Andrade e Pery Ribeiro nos vocais, foi rebatizado de “ Gemini V”.

Seus discos: Luiz Carlos Vinhas gravou quase 20 discos. Citemos:” Bossa Três e Lennie Dale”, em 1962. “ Bossa Três”, em 62 também. “ Bossa Três e Jô Basile”, ainda em 62. “ Bossa Três e Seus Amigos” também em 62. “ Novas Estruturas”, em 64. “ Bossa Três Em Forma”, em 65. “ Bossa Três”, em 66. “Gemini 5”, em 66. “ Gemini 5- no México”, em 67. “ O Som Psicodélico de Luiz Carlos Vinhas”, em 68. “ Luiz Carlos Vinhas no Flag”, em 70. “ Luiz Carlos Vinhas”,em 77.” Baila com Vinhas”, em 82. “ Piano Maravilhoso”, em 89. “ Vinhas e Bossa Nova”, em 94. “ Piano na Mangueira”, em 97. “ Wanda Sá e Bossa 3”, em 2000.


Fonte: Museu da TV

terça-feira, 26 de maio de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



Aquarela

A estrutura toda rimada e ritmada desta longuíssima canção (ou seria deste poema musicado?), de Toquinho, Fabrizio, Morra e Vinicius de Moraes, oferece beleza ao todo poético e demonstra o cuidado estético dos autores.
O título não poderia ser mais apropriado. Se na técnica de pintura em aquarela os pigmentos são dissolvidos em água, nesta canção lançada por Toquinho em 1983 - no disco Aquarela - as cores são agrupadas, e diluídas, a cargo da imaginação do ouvinte: "Basta imaginar".
Toquinho se tornou mestre neste modo de compor: buscando estimular a imaginação do ouvinte. Não é à toa que suas canções embalam as crianças. Vale registrar que, para a minha geração, fica difícil desvincular esta canção da famosa propaganda da Faber Castell (1983): que dava imagens aos versos da letra.
A letra articula imagens plasmadas por um narrador que canta enquanto faz (e vice-versa) sua aquarela. Enquanto a complexa melodia embala a magia sedutora do encantamento visual, em uma harmonia perfeita e comovente.
Cada situação é detalhadamente burilada com cores exatas e imagens corretas. O passeio proposto pelo sujeito da canção é curtido pelo ouvinte com um mergulho no mar da ilusão (real: nossa tradição é empirista e o sujeito investe nisso) que a arte proporciona.
O sujeito recupera a noção de experiência. A linguagem (o canto) é espaço da experiência, sem atingir o "cerne" dela: contar (cantar) é viver. "Aquarela" suspende o perigo e apresenta um tempo/espaço das delícias e isso afeta o ouvinte.
O objeto, substituído no título por "aquarela", é, de fato, a vida. A vida (a estrada percorrida por todos: aquele espaço pintado e habitado pelo ouvinte, durante a execusão da canção) é cantada em sua profusão de cores e possibilidades.
"O fim dela (da vida) ninguém sabe bem ao certo onde vai dar". O sujeito enfatiza o percurso que investe no meio, no acaso, em detrimento do fim. A única certeza é: um dia ela (a vida) descolorirá.


***

Aquarela
(Toquinho - Fabrizio - Morra - Vinicius de Moraes)

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva.

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul,
Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul.
Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená.
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar.
Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo,
E se a gente quiser ele vai pousar.

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida.
De uma América a outra consigo passar num segundo,
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá).
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá).
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (que descolorirá).





* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

ANA TERRA, 70 ANOS


Resultado de imagem para Ana Terra COMPOSITORA

Letrista. Escritora. Produtora. Em 1981, lançou o livro "Letras & canções", no qual compilou algumas letras anteriormente gravadas por boa parte de artistas da MPB. Anos mais tarde, publicou a novela "Estrela". Em 1994, escreveu crônicas para jornais do Rio de Janeiro. No ano de 1998, foi premiada no concurso de roteiros de longa-metragem do Ministério da Cultura com o texto "Os campos de São Jorge".
Em 1977, através de seu Selo Ana Terra Produções, lançou o LP "Cheiro verde", de Danilo Caymmi (na época, seu marido). O disco, com várias canções em parceria com o cantor, inclusive a que deu título ao disco, contou com a participação especial de Milton Nascimento na faixa "Lua do meio dia", em parceria com Danilo Caymmi. No ano seguinte, no LP "Clube da esquina", Milton Nascimento interpretou "Meu menino" (c/ Danilo Caymmi). No ano de 1979, em seu disco "Essa mulher", Elis Regina gravou, de sua autoria em parceria com Joyce, a música que deu título ao disco, e ainda "Pé sem cabeça" (c/ Danilo Caymmi). Sua parceira Joyce, em 1980, no disco "Feminina", incluiu a canção "Essa mulher". Nesse mesmo ano, o grupo Boca Livre gravou "Nossa dança" (c/ Danilo Caymmi). No ano seguinte, Joyce, no LP "Água e luz", gravou "Banho-maria" e "Mais uma vez, mais uma voz", parceria de ambas. Na década de 1980, Angela Ro Rô gravou uma de suas composições mais conhecidas, "Amor meu grande amor" (c/ Angela Ro Rô), que mais tarde seria regravada também com sucesso pelo grupo Barão Vermelho. Em 1983 Tunai no LP "Olhos do Coração" gravou "Ouro Preto", parceria de ambos. No ano seguinte, em 1984, lançou pela Philips/PolyGram, o LP infantil "Histórias do céu e da terra", com projeto e letras de sua autoria. Do disco participaram A Cor do Som, Joyce, Maesro Nelsinho, Monarco, A Velha-Guarda da Portela, Raphel Rabello, Sivuca e Zizi Possi em composições de parcerias com Tunai, Mú Carvalho, Joyce, Nelson Angelo, Zeca Barreto, Arnaldo Pereira e Elton Medeiros.



Neste mesmo ano, de 1984, no disco "Em Cartaz", Tunai incluiu "Pelo Ar do Brasil", parceria de ambos. Em 1995, em seu CD "Grande tempo", pela gravadora Velas, Fátima Guedes interpretou "A dois" (c/ Sueli Costa). Ainda na década de 1990, a convite de Francis e Olívia Hime, letrou duas músicas de Chiquinha Gonzaga, participando do disco em homenagem à maestrina, juntamente com outros letristas, como Paulo César Pinheiro e Abel Silva. No ano de 1998, foi lançado para o mercado brasileiro o disco "Bossa carioca", da cantora nipo-brasileira Lisa Onno. Nesse CD, originalmente lançado no Japão, foram incluídas duas composições de sua autoria "A dois" (c/ Sueli Costa) e "Diz a ela", em parceria com Lisa Onno. Entre seus vários intérpretes estão Emílio Santiago, Maria Bethânia, Nana Caymmi ("Aperta outro") e Marina Lima. No ano de 2002, ao lado de Chico Buarque, Abel Silva, Antônio Cícero, Paulinho Lima, Elisa Lucinda, Alcione, Leila Coelho Frota, Adélia Prado, Afonso Romano de Sant'Anna, Ritchie, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Gabriel, O Pensador, José Carlos Capinam e Murilo Antunes, entre outros, num total de 149 pessoas, participou do álbum com quatro CDs em homenagem ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. O álbum intitulado "Reunião - O Brasil dizendo Drummond" foi lançado pelo selo Luz da Cidade, do poeta e letrista Paulinho Lima. Neste mesmo ano, Lucinha Lins no disco "Canção brasileira" (em homenagem à obra de Sueli Costa) interpretou de sua autoria "Minha arte" e "Insana", ambas em parceria com Sueli Costa. Neste mesmo ano, de 2002, Tunai regravou "Ouro Preto" e "Pelo Ar do Brasil" no CD "Sem Limites", lançado pela gravadora Universal Music.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

PAUTA MUSICAL: A METEÓRICA CARREIRA DE LILA DE OLIVEIRA, POR LAURA MACEDO

Por Laura Macedo



A meteórica carreira de Lila de Oliveira


Margarida Oliveira, conhecida artisticamente primeiramente como Lila Margarida / Lila de Oliveira, depois apenas como Lila, era irmã de Dalva de Oliveira. Nos anos 1940 fez parte do Trio Madrigal e foi também uma das Pastoras de Ataulfo Alves.

Com o nome de Lila Margarida, gravou alguns discos em 78 rpm em companhia da irmã mais famosa. Lila foi ‘crooner’ da boate Drink, nos anos de 1960, onde participou do conjunto de Djalma Ferreira, os ‘Milionários do Ritmo‘, fazendo parte no coro feminino. Lila gravou apenas dois discos e posteriormente abandonou a carreira musical em função do casamento.

“Doce mentira” (Aristeu Queiroz/José Batista/Jorge Faraj) # Dalva de Oliveira e Lila Margarida. Disco Odeon (14.429-A) / Matriz (13250). Gravação (21/01/1959) / Lançamento (fevereiro/1959).

Seus dois Discos gravados são: “Lila – A Madrugada na Voz” (1961) e “Gosto da Noite” (1963). Antes participou do disco – “Isto é o Drink” (1960), interpretando duas faixas.


“Pra que mentir” (Luiz Bandeira/Djalma Ferreira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Isto é o Drink’, 1960.

“Caminhando” (Luis Bandeira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘‘Isto é o Drink’, 1960.



Lila de Oliveira estreou com o disco – “A Madrugada na Voz” (Columbia/1961). O disco é sambalanço em estado bruto, com acompanhamento do conjunto do maestro, arranjador e trombonista Astor Silva, presidente da gravadora Columbia. Samba de gafieira, samba de boate, samba de “teleco-teco”, sambolero…

Os arranjos eram jazzísticos, com solos de guitarra, metais e um piano rítmico, bem percussivo. O coro formado pelas vozes dos músicos que suingavam com o restante do conjunto. Da mistura de todos esses sub-gêneros do samba, tidos como popularescos, surgiria o cultuado e refinado “samba-jazz”, ápice da originalidade à brasileira.

Ainda não vertidos para o “samba-jazz”, do primeiro disco de Lila, um tema se tornou um clássico do estilo: “Nunca mais”, de letra melancólica, mas com ritmo contagiante, um “lamento” na voz de Lila.

“Nunca mais” (Ed Lincon/Silvio César) # Lila de Oliveira. Álbum Columbia ‘A madrugada na voz’, 1961.

“Gota de orvalho” [infelizmente não consegui identificar o autor. Essa faixa é do disco

Álbum Columbia ‘A madrugada na voz’, 1961“].


No seu segundo disco, “Gosto da noite” (CBS/1963), Lila contou com acompanhamento do conjunto da casa, já acrescido de um balançante órgão, instrumento que tão bem se adaptou à sonoridade do LP, cujo repertório teve metade das faixas ocupada por composições de Sílvio César.

Vamos ouvir algumas faixas do seu segundo Disco “Gosto da Noite” (1963).

“É um estouro”, de Jayme Silva e Neuza Teixeira (os mesmos autores de “O pato”, que se transformou em “standard” na interpretação de João Gilberto) abre o disco, e Lila nos conta a história da mulata dançarina de boate, que deveria ser efetivamente “um estouro”.

“É um estouro” (Jayme Silva/Neusa Teixeira/Luiz Pereira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

“Quero amar” (Ed Lincon/Durval Ferreira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

“Confissão” (Luiz Bandeira/Djalma Ferreira) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

A única balada do álbum, de Newton Pereira e Ivan Paulo da Silva, o maestro Carioca, é chorosa, matéria-prima para a boemia do início dos 1960: “Somente a noite é companheira, fiel à minha dor, somente a noite sabe onde está o meu amor”.

“Gosto da noite” (Newton Pereira/Ivan Paulo) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

Com suingue irresistível, “Conselho a quem quiser voltar” e “Pra quê?”, do quase onipresente Sílvio César, foram “música de fundo” de muitas reconciliações amorosas, apesar do ritmo cadenciado e da irreverência da letra desta última, na voz doce de Lila: “Pra que fazer comédia assim? Se eu gosto de você, e você gosta de mim”.

“Conselho a quem quiser voltar” (Silvio Cesar) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

“Pra que?” (Silvio Cesar) # Lila de Oliveira. Álbum ‘Gosto da Noite’ (1963).

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Fontes:
– Blog Memória da MPB (AQUI).
– Blog Toque Musical (AQUI).
– Fotomontagem: Laura Macedo.
– Site #Radinha/Áudios (AQUI).
– Site YouTube/Vídeos/Canais: “Irapuan Marques da Silva”.

CHICO ELION, 90 ANOS

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No Dicionário da Música do Rio Grande do Norte, de Leide Câmara – o mais completo glossário da música potiguar – Chico Elion é a primeira imagem que se vê, ainda jovem, com seu violão em punho, em uma praia natalense.

Segundo o compêndio de 521 páginas, Chico nasceu na antiga Vila da Princesa, hoje, Assu, em 16 de maio de 1930. Residiu em Natal já na infância. Seu primeiro instrumento foi um cavaquinho, feito por um marceneiro amigo do pai, comerciante.

Sua estreia nos palcos se deu na reinauguração do Convento Santo Antônio, como bandolinista. Depois passou a se apresentar nas festas do Ginásio 7 de Setembro, onde estudava, ao lado do pianista Newton Ramalho, irmão do compositor Hianto de Almeida.

Como cantor, estreou aos 18 anos já no Rio de Janeiro, na Rádio Nacional, no programa de Manoel Barcellos, interpretando a música ‘Lavadeira’, de sua autoria em parceria com o cearense Canelinha.

Fim dos anos de 1940, criou o trio Los Brasileirinhos, com Manoel Neves e Zélia Amorim. Em 1951, fundou o Trio Acaiaca, depois Conjunto de Boate Acaiaca, que se apresentava nas grandes festas natalenses.

No mesmo ano também fundou o Quarteto Marupiara, primeiro conjunto de quatro vozes do RN, que atuou até 1952. Em 1954, ele foi morar no Rio de Janeiro por seis anos.

Chico Elion foi o mentor das Irmãs Ferreira, trio formado por Chiquinha do Acordeon, Francineth e Déa (com quem veio a se casar), na passagem do baião e xaxado para o estilo “romântico”.

Na década de 1970 foi presidente da Ordem dos Músicos do Brasil, seção do RN, da qual é sócio fundador. Foi dono da casa de show Beco da Música, onde recebeu músicos e cantores de todo o país.

Das 400 composições de Chico Elion, destaca-se Moinho D´Água, com a qual recebeu disco de ouro pelas 10 mil cópias vendidas. A canção foi gravada por intérpretes até da França.

Ranchinho de Paia, outro clássico seu, consagra o chão natalense, tal qual a Praieira de Othoniel Menezes e Eduardo Medeiros. O nome da canção é nome de rua no bairro Lagoa Azul, em Natal. Foi composta em 1952 e eternizada na voz de Luiz Gonzaga, no LP A Festa (1981).

O arranjador das duas músicas é o argentino José Bragatto, também arranjador de Astor Piazolla.


Fonte: https://portalnoar.com.br/

domingo, 24 de maio de 2020

BONDE ALEGRIA - ADELAÍDE CHIOZZO

sábado, 23 de maio de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

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Portela

“Portela
eu nunca vi coisa mais bela
quando ela pisa a passarela
e vai entrando na avenida...”
MAURO DUARTE e PAULO CÉSAR PINHEIRO, “Portela na avenida”


A Portela é a escola carioca com o maior número de títulos conquistados no carnaval. Tem origem no bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz, fundado em 1926 e rebatizado dois anos depois de Vai como Pode. No dia 1o de maio de 1934, alguns dirigentes da escola de samba Vai como Pode queriam renovar a licença de funcionamento da agremiação e foram ao delegado Dulcídio Gonçalves, que fez uma proposta inesperada ao grupo: mudar o nome da escola. E o novo nome acabou sendo aceito. Nascia o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela.
Seus fundadores tornaram-se baluartes da Azul-e-branco de Oswaldo Cruz e, pela excelência de suas criações, são referência em todo o mundo do samba: Paulo Benjamim de Oliveira, Antônio Caetano, João da Gente, Antônio Rufino, Heitor dos Prazeres, Alcides Dias Lopes, o “Malandro Histórico”, e Manoel Bam-Bam, entre outros.


Paulo da Portela

“Cidade,
quem te fala é um sambista
anteprojeto de artista
teu grande admirador...”
PAULO DA PORTELA, “Cidade mulher”

Paulo Benjamim de Oliveira, mais conhecido como Paulo da Portela, foi o grande organizador do samba em Oswaldo Cruz. Aliás, Paulo representou para a comunidade mais do que isso. A elegância, a auto-estima e a determinação fizeram dele uma referência cultuada pelos moradores do bairro e pelos mais notórios representantes da estirpe musical portelense: “Em Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira/ todos só falavam de Paulo Benjamim de Oliveira”, dizem os versos do compositor Monarco em “Passado de glória”.

Paulo Benjamim de Oliveira teve uma infância pobre, cresceu no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro, trabalhando como entregador de marmitas e lustrador de móveis. Na década de 1920 a família foi morar em Oswaldo Cruz, e ali Paulo começou sua relação com o carnaval, fundando um dos primeiros ranchos da região, o Ouro sobre Azul. Em 1922, criou com Antônio Rufino e Antônio Caetano, futuros fundadores da Portela, o bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz. Data desse tempo o apelido artístico Paulo da Portela – referência à estrada do Portela –, que servia para diferenciá-lo de outro Paulo, sambista de Bento Ribeiro. Seu nome veio antes da escola.
Foi na casa do seu Napoleão (pai de Natal da Portela) que Paulo começou a se embrenhar no mundo do samba, indo a festas onde se tocava e dançava jongo e conhecendo gente como Ismael Silva, Baiaco e Brancura, sambistas do Estácio.
O papel de Paulo como líder na defesa e na luta pelo reconhecimento das escolas de samba começou ainda em 1926, quando passou a ser organizador do Conjunto Carnavalesco Escola de Samba de Oswaldo Cruz. O curioso é que, antes de fincar pé na estrada do Portela, a agremiação teve várias sedes, uma delas especialmente curiosa: um vagão de trem, que partia por volta das 6 da manhã da Central do Brasil em direção ao subúrbio.
Foi Mário Reis o primeiro a gravar, em 1931, uma composição de Paulo da Portela, “Quem espera sempre alcança”. O ano de 1935 marca alguns eventos importantes: a escola de samba Vai como Pode ganhou o carnaval com um samba de Paulo, mudou de nome e passou a se chamar Portela. No mesmo ano, Paulo foi eleito pelo jornal A Nação o maior compositor de samba do Brasil. Nos anos seguintes ganhou os títulos de Cidadão-Momo e Cidadão-Samba.
A Portela venceu o carnaval de 1939 com outro samba de sua autoria, apontado por muitos como o primeiro samba-enredo da história, pois Paulo conseguiu estruturar toda a escola em função de sua composição.
Ao lado de Cartola e Heitor dos Prazeres, começou a apresentar, em 1940, o programa A Voz do Morro, na Rádio Cruzeiro do Sul. No ano seguinte, Paulo rompeu relações com a Portela e saiu da escola logo depois de a Azul-e-branco vencer o carnaval com mais um samba seu, “Dez anos de glória”, feito em parceria com Antônio Caetano. Sua mágoa se traduziu em uma de suas mais belas músicas:
“O meu nome já caiu no esquecimento/ o meu nome não interessa a mais ninguém/ E o tempo foi passando/ a velhice vem chegando/ já me olham com desdém/ Ai quanta saudade de um passado que se vai lá no além/ Chora cavaquinho chora/ chora violão também/ O Paulo no esquecimento não interessa a mais ninguém/ Chora Portela, minha Portela querida/ Eu que te fundei, serás minha toda vida.”
Paulo foi para uma escola de Bento Ribeiro, a Lira do Amor. Candidatou-se, sem sucesso, a vereador pelo Partido Trabalhista Nacional em 1945, com o apoio de agremiações carnavalescas e do jornal Diário Trabalhista, chegando mesmo a participar de comícios do Partido Comunista Brasileiro. No dia de seu enterro, que contou com cerca de 15 mil pessoas, o comércio de Madureira, de luto, fechou as portas. A história de Paulo da Portela confunde-se com o surgimento do próprio samba carioca. São vários os depoimentos que o colocam como brilhante orador e grande liderança, um verdadeiro professor, como era chamado e é lembrado até hoje por vários sambistas.
A Velha Guarda da Portela gravou um vinil, que hoje já existe em cd, com as principais músicas de Paulo: “Linda Guanabara”, “Homenagem ao Morro Azul”, “Quem espera sempre alcança”, “Linda borboleta”, “Cocorocó” e outras.


Cristina Buarque

A portelense Cristina Buarque é a memória do samba carioca. Com seu talento de cantora, tem sido um frutífero elo entre a nova geração e os baluartes do gênero. Cristina gravou os principais sambistas do Rio, com destaque para os trabalhos dedicados a Noel Rosa e Wilson Batista, e imortalizou a composição de Manacéia “Quantas lágrimas”. Sua forte ligação com a Velha Guarda da Portela tornou-a quase um membro efetivo do grupo.





* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

BARTÔ GALENO, 70 ANOS

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Bartolomeu da Silva nasceu em Sousa, na Paraíba, em 20 de maio de 1950. Com 10 anos de idade, mudou-se para Mossoró, Rio Grande do Norte, na época do surgimento do movimento da jovem guarda. Bartô, como era chamado, passou a cantar na Rádio Rural e a participar de vários programas de calouros, nos quais frequentemente ficava em primeiro lugar, chegando a ser considerado "a mais bela voz do Rio Grande do Norte".

Em dado momento, o padre Américo Simonetti, em reconhecimento, deu-lhe uma passagem para a cidade de Recife, em Pernambuco. De lá, Bartô foi para São Paulo, onde entrou em contato direto com os músicos da jovem guarda, como Roberto Carlos, Jerry Adriani e José Roberto. Bartô começou a carreira como compositor, o que rendeu-lhe vários contatos. 
Seu primeiro álbum como cantor viria a ser lançado somente em 1975, intitulando-se Só Lembranças,  pela gravadora Tape K, estreante na época.

Sua voz foi descoberta por Ozéias de Paula, que o encaminhou para a gravadora.
Em 1978 lançou o álbum No Toca-Fita do Meu Carro, cuja faixa homônima acabou tornando-se seu maior sucesso. 
Em 1997 lançou a coletânea 20 super Sucessos, com a participação de Agnaldo Timóteo.
Em 2009 foi destaque na Virada Cultural na cidade de São Paulo e lançou o álbum Paixão Errante.

Unanimidade entre os fãs da música popular romântica, cantor e compositor citado e gravado por diversos cantores presentes nesta série, Bartô Galeno é tratado como rei por onde passa. Humilde, a voz macia e a cabeleira farta, é ainda um dos mais requisitados cantores de seu gênero, com uma agenda que pode chegar a cinco shows semanais. Aqui, acompanhado pela esposa Socorro, ao seu lado desde o início de sua carreira, Bartô conversa sobre sucesso, bebida e uma possível - e sempre protelada - aposentadoria.



Sentando no camarim improvisado, Bartô Galeno não acreditava: eram 7h30 da manhã de um domingo e o Largo do Arouche, região central de São Paulo, concentrava uma multidão. Esta tinha um caráter universal e particular: era formada pelos novinhos, os coroas, os de mãos dadas, os solteiros, os que haviam acabado de chegar, os que, latinha na mão, passaram a noite à procura de algo que não sabiam identificar. Mulheres e homens chamavam por seu nome. Quando ele entrou, os cabelos em dramáticos cachos, veio o barulho: palmas, gritos, fotos, "Bartô!", "Bartô!". Era uma recepção e tanto, principalmente para um horário malvado daquele. O cantor, era verdade, estava acostumado a um público efusivo: trinta anos antes daquele 3 de abril de 2009, estava em um camarim improvisado no garimpo de Serra Pelada. Escutou os novinhos, os coroas, os vários solitários, todos homens e poucos sóbrios, as garrafas de cerveja na mão. Chamavam por seu nome. Palmas, gritos, "Bartô!", "Bartô!" e tiros. Muitos tiros. Se assustou, a voz tremeu. Se acalmou quando explicaram os disparos: "É porque gostam de você". Era verdade: no fim do show, jogavam pepitas de ouro aos seus pés.

Das apresentações nos garimpos da selva amazonense ("era tanto nordestino ali isolado do resto do mundo") até o show realizado na Virada Cultural paulistana, Bartô, nascido em 1950, 40 anos de carreira, esteve em frente a milhões de pessoas que o trataram como um rei. Modesto, nunca reclamou para si o título relacionado tanto àquele que é sua grande inspiração (Roberto Carlos) quanto a outro cantor que compartilha de sua seara musical (Reginaldo Rossi). Mas a coroa, note-se, não é necessária: um exemplo é que o cantor e compositor de Sousa, na Paraíba, foi constantemente citado tanto pelos artistas que aparecem nesta série quanto pelos fãs da música popular romântica do País. Bartô chama atenção por onde passa: foi assim no dia da entrevista para esta reportagem, marcada em um shopping center no bairro do Meireles, em Fortaleza. No jardim do restaurante no qual a foto que ilustra esta página foi feita, um grupo de garçons reuniu-se para ver o cantor posar acompanhado por uma fita cassete. Antes, quando se dirigia ao local, um relógio dourado no pulso, o blue jeans à 70, acenou para fãs nos corredores. Fotos e "Bartô! Bartô!"

Não é fácil precisar a afetividade instantânea que sentimos pelo cantor e compositor a partir de qualquer contato mais aproximado (em um show, em uma simples audição ou em uma entrevista de duas horas). Baixa estatura, magrinho, o cabelo RC nos anos Lady Laura, a voz amaciada e meio tremida, ele é dono de uma conhecida simplicidade. Personifica o cara boa-praça que assume o tom conciliatório quando os egos ficam mais alterados, o moço simpático que não precisa sorrir mais alto, nem falar por último, nem mostrar que é o mais sagaz do grupo. Simplificando: Bartô é gente boa. Um exemplo foi a postura do cantor durante esta conversa: várias de suas respostas foram interceptadas pela esposa, Socorro, com quem está casado desde 1975. Perguntou-se quando ele deixou a Paraíba para morar no Rio. "Foi em 1969, no dia 2 de julho de 1969, eu..." Aí vem ela: "Ah, foi no dia em que a Apollo chegou à Lua... Ele sempre conta essa história." O cantor sorri, toma outro gole de água e só responde: "É, foi, foi". (A expressão em repeteco seria usada várias outras vezes nos momentos em que Socorro tomou a fala para si.)

Mas antes de o homem chegar à Lua e Bartô ao Rio, há, é claro, a gênese do mito: o filho de João de Deus e Carlota foi pequeno, 10 anos, morar em Mossoró, Rio Grande do Norte (terra fértil dos cantores da música popular romântica, como atesta esta própria série). A família, que passava por dificuldades financeiras, logo montou um tabuleiro de frutas em uma pequena feira local. Bastinho Silva, o futuro Galeno, ajudava a vender os produtos enquanto começava a tocar violão e a cantar. A voz agradava e chegou aos ouvidos de um locutor da Rádio Rural, Manuel, dono de um programa de auditório. Bastinho terminou lá no palco, aplaudido (começava ali sua relação de amor com o público). Aí veio 1969: enquanto a Ditadura Militar provocava dor e assombro para alguns e felicidade e segurança para outros, o rapaz vencia o concurso A Mais Bela Voz. O título foi a mola que o impulsionou para o
Recife. "Fiquei por lá somente duas semanas." Trabalhou em um restaurante, arrumou as malas, foi para São Paulo, se aquietou no Rio. Não foi uma chegada solitária, é verdade: quem estava por lá era Oséas Lopes, o futuro Carlos André (presente nesta série), que mais tarde viraria estrela com Se meu amor não chegar. Era, no entanto, já prestigiado por conta do Trio Mossoró &"150; o grupo já havia encontrado o menino de Sousa em São Paulo, e foi lá que Bastinho morreu para dar vez a Bartô. "Isso não é nome de artista", disseram. Na operação do rebatizado, o Bartolomeu tomou o rumo natural do Bartô, mas o sobrenome era um problema. Pensaram até em manter o Silva, mas era simplicidade demais para concorrer com os Adrianis e Sorianos do momento. Aí surgiu o Galeno, bom reforço para o desenvolvimento da gênese do mito.



No Rio, Bartô escreveu canções para nomes como Odair José e Genival Santos (de Eu lhe peguei no flagra), também para Carlos André e Fernando Mendes. Seu parceiro mais comum era Antônio Pires (irmão do cantor Roberto Müller, outro dos sete cantores de coração partido trazidos neste especial). Havia uma espécie de fraternidade entre os diversos cantores nordestinos que tentavam ocupar um espaço legítimo em meio a imensa produção fonográfica carioca. "Era tudo muito difícil, mas nós nos ajudávamos. Escrevíamos à mesa, saíamos para beber e compor", lembra. Começou a ganhar dinheiro com a composição, mas não havia esquecido do título de Mais Bela Voz. Queria cantar. Como era comum na época, passou pelos programas de auditório, entre eles, é claro, o de Chacrinha. Bartô lembra-se bem da longa fila para o teste, no qual a triagem era baseada em um enorme pragmatismo: "Esse canta, esse não canta, esse só tem boniteza, bota ele pra cá". Com a ajuda de Carlos André, que estava trabalhando na Copacabana, conseguiu ser apresentado aos produtores da gravadora Tapecar. Em 1975, gravou o LP Só lembranças, lançado no ano seguinte. O álbum, relançado em 1978, fez sucesso: Cadeira vazia e Amor vagabundo tornaram-se hits. Em 1977, veio Pelo menos uma palavra, que antecedeu aquele que seria o Sgt. pepper"s, o Dark side of the moon de Bartô: o LP No toca-fitas do meu carro, cuja faixa-título o elevou para o panteão da música popular romântica nacional. A música, autobiográfica, foi inspirada nos momentos de solidão que o cantor passou enquanto dirigia seu Chevette, o primeiro carro que comprou na vida.

Bartô diz que praticamente sustentava toda a Tapecar com a venda dos seus discos o sucesso fez com que o cantor passasse por gravadoras maiores, como a WEA, a Continental, a RGE (nos anos 90, ele também foi lançado pela recifense Polydisc). Vendas e cabeleiras ainda mais fartas, ele manteve a mão no freio e não deixou o sucesso provocar abalroamentos: continuou a prezar pela própria humildade. Mantinha, também, o hábito de beber com os colegas cantores e compositores. Socorro, que além da entrevista compartilhava uma água mineral com o marido, conta que era uma época difícil. "Ele saía e não voltava, passava dias fora de casa." Ela enfrentava, não em um Chevette, mas em casa, a solidão quando o marido passava meses em turnê. "Eu chorava, me sentia só." Bartô, lembrando-se das farras e dos shows com os amigos, pensa alto o que talvez não devesse ser verbalizado: "Mas era tão bom..."Hoje, com a saúde mais frágil, ele jura ter deixado a bebida para trás. Precisa de fato cuidar de si para dar conta da agenda apertada: há noites em que faz três, quatro shows. "Eu penso em parar, mas, quando acaba um mês, já tem outro todo lotado." Geralmente, vende as apresentações em uma espécie de "pacote": três shows saem por R$ 15 mil. Se for um show único, o preço é elevado. Apresenta-se bastante no Sudeste, onde vive (Rio de Janeiro).

Os shows são concorridos e é comum, segundo ele, encontrar jovens que estão o descobrindo agora. Os depoimentos dos novos fãs por vezes provocam o riso do cantor. "Eles dizem meu pai, quando era vivo, gostava de você" ou então "Ele não bebe mais, mas quando bebia, curtia muito seus discos", conta. Outra gafe comum "e que Bartô adora falar" é confundirem músicas populares de outros cantores como sendo dele. "Bartô, canta Fuscão preto, Bartô, canta no hospital, na sala de cirurgia." Ri de novo. Pouco depois, quando lhe pedem para se enrolar na fita cassete que remete ao seu maior sucesso, ele se anima. Apesar de meio abatido (Bartô estava doente no dia da entrevista), apesar de estar há poucas horas de realizar mais um show, ele passa quase uma hora posando para fotos. No final, enrola de volta toda a fita magnética. "Vão precisar dela? Quero pra mim." Levou o objeto como uma espécie de suvenir de um dia que queria lembrar. Como se a celebridade, o rei que deveria ser cortejado e lembrado, o cara gente boa e talentoso, não fosse ele.




Aprendizado nos bares da zona rural

"No toca-fita do meu carro? É a melhor que tem!", diz o agente de saúde Antônio José de Melo, 61 anos, outro fã que conhece profundamente não apenas a obra de Bartô, mas de cantores também importantes como Waldick Soriano e Evaldo Freire. Sua iniciação começou em meados dos 70, quando começou a trabalhar na Fundação Nacional de Saúde (FNS). Visitava frequentemente povoados pouco urbanizados, sítios onde o consumo musical era pautado basicamente pelas canções dramáticas dos cantores populares. Passava dias nestes locais e, à noite, ia se divertir nos bares, onde a tríade cachaça, música romântica e dor de cotovelo predominava. Durante anos na estrada, Antônio terminou levando, à sua maneira, uma vida parecida com aquela experimentada por Bartô, este andando no Chevette particular, o outro, nos carros institucionais do Governo Federal.
A convivência auditiva com os cantores tornou-se paixão e o agente de saúde iniciou a compra de vinis "tem alguns raríssimos, entre eles alguns do próprio Bartô. Vivendo há décadas em Carpina (Zona da Mata Norte), ele também passou a conferir, aos sábados, as apresentações que vários desses artistas realizavam no programa apresentado pelo radialista Paulo Marques. A compra de vinis virou um hábito.
Conhecido na cidade por seu enorme interesse nas canções românticas populares, Antônio chegou a receber em casa a visita do cantor José Ribeiro (presente nesta série), que estava na cidade para um show. Lamenta, no entanto, nunca ter visto uma apresentação de Bartô. "Ele não aparece por aqui. Se eu encontrasse ele, ia perguntar porque é que não grava mais", diz.
Com o aparecimento do CD, passou a investir na mídia e deixou de ouvir seus discos de vinil ("É bom ouvir estes discos mais alto, e hoje tá mais difícil"). Também adquire coletâneas vendidas na rua, mais acessíveis. Como outros entrevistados, reclama tanto do preço dos CDs vendidos em lojas quanto da homogeneização da música popular atual. "É aquele bando de mulher gritando, ninguém sabe quem é quem."

sexta-feira, 22 de maio de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




CAIXINHA DE ESTRELAS


Abri lentamente a caixinha de meu guarda-estrelas sem mexer no papel prateado que embrulhava a lua. Deixei-os lá, papel e lua, e retirei, uma a uma, as estrelas de todas as cores que ali dormiam. Percebi que a lua não gostou daquela solidão e a ela devolvi as estrelas roxa e vermelha. As demais, com elas fiquei e levei-as a passear. A estrela branca me indicava o caminho da Paz e segui seu roteiro. No meio do caminho ela sonhou com Dom Helder e desapareceu nas asas de uma pombinha. A estrela verde, levei-a, a seu pedido, para ver o verde mar. Encantou-se com um peixinho cor-de-rosa e sumiu na primeira onda. À azul mostrei o céu e ela se apaixonou por um arco-íris que acabara de se abrir e se embrenhou no meio de tantas cores. Restou-me a amarela, que não resistiu ao primeiro apelo e chamamento do Senhor Sol e a ele foi-se unir. Voltei ao guarda-estrelas, desembrulhei a lua, guardei-a bem junto ao peito e até hoje ela me faz companhia todas as noites, alegrando meus momentos. As estrelas roxa e vermelha, deixei-as guardadas na caixinha para quando a Lua se cansar dos meus afagos e resolver morar em outros céus. Espero que elas não tenham a sorte que as outras tiveram, encontrando complemento às suas belezas e qualidades e por elas me trocando. Aliás, melhor pensando, que elas encontrem rosas e ametistas, vermelhas e roxas, e sejam felizes.

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