PROFÍCUAS PARCERIAS
Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.
ENTREVISTAS EXCLUSIVAS
Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.
HANGOUT MUSICARIA BRASIL
Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.
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quinta-feira, 16 de julho de 2020
terça-feira, 5 de maio de 2020
A INQUIETUDE CRIATIVA DE ALFREDO DIAS GOMES
Em uma sequência de discos lançados anualmente desde 2015, o músico apresenta agora 'Jazz standards', projeto que reúne alguns clássicos do gênero musical norte-americano
Por Bruno Negromonte

Filho de dois ícones da teledramaturgia nacional (Janete Clair e Dias Gomes), o baterista carioca Alfredo Dias Gomes preferiu seguir outro viés para dar vazão ao seu talento artístico quando se lançou como instrumentista a pouco mais de quatro décadas atrás. Ao longo desta estrada, Alfredo teve a sorte de dividir o palco com alguns dos mais conceituados e relevantes artistas da música popular brasileira desde quando aventurou-se a dar os seus primeiros passos, ou melhor, se aventurar entre compassos. Para se ter ideia, a sua carreira de modo profissional já teve início com um dos mais relevantes e conceituados instrumentistas brasileiro de todos os tempos: Hermeto Pascoal. Ao lado do "bruxo", o baterista, então com 18 anos, gravou em 1980 o disco "Cérebro Magnético", terceiro álbum gravado pelo alagoano na Warner e que composto por canções como "Dança Da Selva Na Cidade Grande", "Religiosidade", "Correu Tanto Que Sumiu" entre outras reitera a inconfundível maestria experimental que Hermeto desenvolve ainda hoje como ninguém. Além dessa primeira experiência fonográfica, ainda houve a sua participação em inúmeros shows ao lado do multi-instrumentista, com destaque para o "II Festival de Jazz de São Paulo" e o "Rio Monterrey Festival". Na sequência, ao longo dos anos, sua atuação ao lado de nomes como Ivan Lins, Lulu Santos, Ritchie, Kid Abelha, Sérgio Dias dentre outros corroboraram significadamente para substanciar a sua arte neste mosaico sonoro composto pelos mais distintos gêneros que o músico vem procurando agregar ao firmar parcerias também como nomes que compõe o cenário instrumental brasileiro a exemplo dos conceituados Ricardo Silveira e Victor Biglione, Torcuato Mariano; e dos saudosos Arthur Maia e Nico Assumpção.
Inquietamente criativo, o baterista também vem somando ao longo das últimas décadas à sua carreira projetos pessoais como é o caso do grupo Heróis da Resistência, que formado ao lado do cantor e compositor Leoni, o guitarrsita Jorge Shy e o pianista Lulu Martin foram responsável por sucessos do rock nacional a partir dos anos de 1980 a exemplo das canções "Dublê de Corpo", "Só Pro Meu Prazer", "O Que Eu Sempre Quis" entre outros hits que tocam até os dias atuais. Apesar do estrondoso sucesso do grupo, a ideia de lançar-se em carreira solo começou a permear sua cabeça ainda na década de 1980, quando em 1985 lançou o single "Serviço Secreto". No entanto, só a partir da década seguinte o músico percebeu que já era hora de alçar esse vôo. Deste então vem lançando projetos fonográficos regularmente desde 1991 em álbum que contou com a participação especial do Ivan Lins. Nessa sequência ao longo de quase três décadas o músico trouxe para o grande público projetos como "Ecos" (2000), "Looking Back" (2015), "Corona borealis" (2010) entre outros álbuns que contaram com a participação de alguns dos principais nomes da música instrumental brasileira a exemplo de Marcelo Martins, Glauton Campello, Arthur Maia, Torcuato Mariano, Nico Assumpção, Marco Lobo, Márcio Montarroyos entre outros expressivos nomes que corroboraram tanto para dar corpo e alma para canções autorais como também para releituras a exemplo de "Milestones" (Miles Davis), "500 miles high" (Chick Corea), entre outras, em uma sequência de destacáveis álbuns a exemplo do "Solar", projeto autoral que foi apresentado aqui mesmo em nosso espaço ao longo de 2019.
Em síntese "Jazz standars" é um disco simbólico por duas razões: uma para o grande público, outra para o próprio intérprete.r Primeiro por, de modo coeso, sintetizar como poucos álbuns lançados no mercado brasileiro a história sonora de um gênero musical e segundo por ter sido a realização de um desejo antigo do autor como ele mesmo comenta: “Já venho com esse pensamento há algum tempo, pois são clássicos. E quis gravá-los sem pensar como eles foram gravados, ou seja, sem aquela preocupação de ouvir, exatamente para não ser influenciado. Obviamente, já ouvi os originais em outras ocasiões. Então, gravei como se fossem canções novas. Realmente, as toquei de uma maneira inédita, ou seja, à minha maneira.”. A inquietude artística de Alfredo permite-o não apenas uma frenética produção fonográfica como a que temos acompanhado ao longo dos últimos anos, mas também gera a possibilidade a ele de permear caminhos sonoros pouco convencionais ou nunca explorados nestas estradas vicinais que os mais distintos gêneros musicais permitem. Mesmo quando tudo parece ser óbvio, Dias Gomes mostra-se inventivo, e com uma assinatura bastante pessoal, chancela de modo singular o que poderia tornar-se até mesmo trivial. Desse modo, as tônicas fogem do esperado e as releituras surpreendem como é o caso deste recente projeto, seu primeiro álbum, literalmente, como um legítimo jazzman. Um sonho realizado, "Jazz standars" não é apenas um álbum deleite para os amantes do gênero, mas a reiteração sonora de um talentoso artista que mostra-se sem amarras, fronteiras ou rótulos; em um trabalho que universaliza as aptidões que o constitui e que foram lapidadas ao longo das distintas experiências somadas a partir dos palcos e dos estúdios de gravação pelo qual passou.
Maiores informações:
Google play - https://play.google.com/store/music/artist/Alfredo_Dias_Gomes?id=Aojrxbalvbqvt5bayc7qmrrzkli&hl=pt_BR
Spotify - https://open.spotify.com/album/3MmHc6TClT83LJQMEZ0Zqg
Napster - https://br.napster.com/artist/alfredo-dias-gomes/album/alfredo-dias-gomesAmazon - https://www.amazon.com/s?k=alfredo+dias+gomes&i=digital-music&ref=nb_sb_noss
Itunes- https://itunes.apple.com/br/artist/alfredo-dias-gomes/298829349?l=en
CD Baby - https://store.cdbaby.com/Artist/AlfredoDiasGomesReverbnation - https://www.reverbnation.com/alfredodiasgomes
segunda-feira, 4 de maio de 2020
UM CLIQUE PELA MÚSICA DE QUALIDADE
Em tempos de isolamento social, artistas buscam alternativas para dar vazão à criatividade assim como recursos para manterem-se
Por Bruno Negromonte
Incerteza é a palavra de ordem no atual contexto social que vivemos. Coronavírus, divergências políticas, crise econômica , entre outros fatores, formam a conjuntura vigente a qual o desespero e o caos tomam conta de uma sociedade que tem buscado viver um dia após o outro. No entanto, até esses momentos de incertezas, insegurança, isolamento também pode se transformar em uma arte, uma arte em constante circulação através das ferramentas e plataformas virtuais existentes na internet.
Inspirados e inspiradores, artistas nos mais distintos lugares do planeta tem buscado alternativas diversas para a ausência de shows e eventos durante essa campanha de isolamento social. Seja em uma live solidária nas redes sociais ou através de campanhas, cantores, compositores, profissionais de eventos, pessoas ligadas ao contexto cultural de algum modo tem lidado com adversidades para além da doença.
Não longe dessa realidade, o instrumentista e compositor gaúcho Rodrigo Nassif também tem enfrentado estes dois contextos: o Covid-19 assim como também a escassez de eventos. Não se deixando abater pela conjuntura atual, o artista lançou-se nas plataformas de crowdfunding objetivando uma campanha para poder continuar fazendo lives no todos os dias em suas redes sociais tendo como propósito demonstrar o passo a passo a construção das canções instrumentais, desde o improviso cru até a finalização como material estruturado e pronto para gravar. Uma alternativa para o músico residente em Porto Alegre e que, apesar de ter se apresentado em alguns dos palcos mais renomados do Brasil e do Exterior (tais como Blue Note RJ, Sesc Pompeia em São Paulo, Teatro São Pedro em Porto Alegre, Shapeshifter Lab - Brooklyn , Nova Iorque e Jazz Fórum em Tarrytown , NY) teve a totalidade de suas apresentações com seu trio transferidas ou canceladas, assim como para um público que admira uma boa música instrumental. Para contribuição segue o link:
quinta-feira, 12 de março de 2020
CONSUELO DE PAULA - ENTREVISTA EXCLUSIVA
De volta ao nosso espaço, a cantora, instrumentista e compositora mineira hoje, em um excelente bate-papo, vai além de "maryákoré", seu sétimo registro fonográfico lançado recentemente.
Por Bruno Negromonte
Consuelo de Paula é uma daquelas artistas que consolidaram a sua carreira longe dos grandes canais midiáticos. Dona de um trabalho genuíno, sua arte não se ajoelhou à Indústria Cultural e toda a moenda que a constitui. Profunda, faz-se necessário imergir nas entranhas do Brasil para apreender e traduzir aquilo que o seu canto e sua musicalidade é capaz de nos traduzir como tivemos a oportunidade de mostrar a partir da pauta "EM NOVO PROJETO, CONSUELO DE PAULA APRESENTA-SE VISCERAL", publicada recentemente em nosso espaço. Hoje a artista volta ao Musicaria Brasil para falar sobre reminiscências relacionadas à música e ao instrumento ao qual se dedicou, sua trajetória artística, aquilo que permeia a sua inspiração entre outras informações. Boa leitura!
Qual
a lembrança mais remota que você tem com a música? Vem de sua infância ou ela
veio chegando sorrateiramente depois?
Consuelo de Paula - Respondo com a
primeira imagem que chegou assim que eu li a sua pergunta. Eu, ainda muito
menina, ouvindo música com algumas amigas que iam até a minha casa (minha
família ainda morava na casa de minha avó paterna) para verem a expressão que
eu fazia ao escutar canções, pois assim diziam perceber melhor a beleza da
música. Como se através da minha admiração, que se traduzia em expressão, elas
vissem a arte que morava ali naquele disco de vinil. É uma lembrança que me
deixa impactada. Uma imagem que me diz muito, que conta para mim quem eu sou:
uma encantada pela arte musical e que talvez seja isso mesmo o que eu vim fazer
por estas bandas do universo.
E o instrumento?
Como você o descobriu e se deixou envolver pelo violão?
CdeP - Certa vez um parente distante que morava em São Paulo nos visitou - e ele
tinha um violão. Ele me ensinou duas músicas e em quinze minutos eu já tocava e
cantava Luar do Sertão e João de Barro – acho que eram estas. Meu pai e minha
mãe resolveram então me presentear com um violão: eu tinha treze anos de idade.
Vou lhe contar uma coisa que nunca contei até agora. Eu achava que meu
instrumento seria o piano e só recentemente, em Maryákoré, eu me casei
definitivamente com meu violão. Só agora ele se tornou parte de mim, a extensão
do meu corpo, de verdade. Em Maryákoré ele é a minha arma, o meu remo, o meu
barco, o meu tambor, o meu guia, o meu movimento de amor e de luta.
Como
se deu a sua caminhada artística até a culminância do seu primeiro álbum “Samba, Seresta e Baião”, de 1998?
CdeP - Na cidadezinha mineira, Pratápolis, eu participava de tudo que tinha
relação com a música, poesia e teatro. E eram coisas muito simples: serenatas,
peças teatrais no colégio, fanfarra, festivais, danças, poesias, bailes e
carnaval. Ainda aos treze anos eu fundei um bloco carnavalesco só de mulheres.
E bem antes disso, já me vestia de rainha na época das festas do congado.
Depois fui estudar em Ouro Preto e eu me lembro de ter ficado assustada com a
reação da plateia quando cantei no Theatro Municipal de Ouro Preto, durante uma
“calourada”. Senti medo do que meu canto havia provocado nas pessoas. Muitos
disseram: ainda vai ter muito palco em sua vida. Depois de formada, em 1988, eu
vim para São Paulo e aqui comecei a montar um show por ano. Até que eu criei o
show “samba e baião” em 1996 e vi que aquilo já era a primeira obra e que deveria
ser registrada em CD e que a partir dali eu começaria a me dedicar somente à
música. Demorei a me apresentar às pessoas como cantora, só depois de gravar o
primeiro cd (lançado em 1998) e demorei mais ainda a me apresentar como artista
(só depois de terminar a minha trilogia: samba, seresta e baião; tambor e flor;
dança das rosas).
São
duas décadas de carreira fonográfica com trabalhos que apesar de distintos em
diversos aspectos confluem de modo bastante coerente. Como você procura
“costurar” esses projetos de modo que não destoem?
CdeP -Que maravilha
a sua pergunta! E que bom que você ouviu desta maneira. Sim, cada um é bem
distinto e todos estão imensamente ligados, como uma obra só. A costura vem
naturalmente porque uma obra aponta a outra e conversa com a anterior. Acho que
mantenho o essencial e a partir desta essência vou criando. E, claro, o
pensamento artístico é meu guia, sempre.
Outra
característica dos seus projetos é essa espécie de auto delegação. Percebe-se o
seu compromisso para além do canto ao assumir para si também a concepção, direção
e a produção. Por qual razão você opta por ser desse modo?
CdeP - Aconteceu naturalmente também. Como ao criar as canções que fariam parte
de cada cd, eu já percebia a cor, as imagens, o cheiro rs, a textura, o som,
tudo que fazia parte da estética daquele álbum, eu precisava produzi-lo. Sim, o
canto é apenas um dos elementos. E a voz, os instrumentos, arranjos etc., estão
ali para que a canção e o roteiro expressem o que precisam expressar, como num
filme, como na sétima arte.
Sua
música está intrinsecamente relacionada com as letras, percebe-se isso em
projetos como “O tempo e o branco”,
projeto inspirado no universo poético de Cecília Meireles. Além disso você é
autora do livro “A Poesia dos
Descuidos” (em parceria com Lúcia Arrais Morales). Há pretensões de
dar continuidade a esse contexto no campo literário também e o desejo de lançar
mais algum livro? Sim, sempre tentei que as letras das canções
sobrevivessem sem as melodias e vice versa, para que ao se unirem pudessem
parecer um milagre. Tenho sim a intenção de lançar outro livro, mais livre no
sentido da poesia escrita sem imagem ou melodia, pois em A Poesia dos
Descuidos, a palavra está ligada a imagem.
Em
relação ao mercado, a sua arte não busca fazer em concessão, e isso acaba por ter
um preço como, por exemplo, a falta de espaço em determinados espaços
midiáticos. Como você vê essa lógica de mercado onde, como diz Caetano em “Sampa”, a força da grana acaba por
destruir (ou ocultar) coisas belas e comprometidas com o cerne de nossa
cultura?
CdeP - O mundo da grande mídia, ligado ao mundo do grande
mercado, foi se aprofundando na direção do avanço do capitalismo selvagem
(atualmente indo em direção a total barbárie). Essa mídia, além de praticar o
jabá (a propina), só mostra, só toca o que as três gravadoras que dominam o
mundo do disco querem. Quando eu estava começando, logo após lançar o meu
primeiro cd, um produtor de uma destas três grandes gravadoras me procurou. E a
proposta incluía mudar a forma de cantar, a respiração tinha que ser
obrigatoriamente ligada à pop music dos Estados Unidos da América e os
compositores eram todos ligados ao ramo do que chamam de entretenimento (Sullivam
e Massadas, outros ligados ao mundo sertanejo music, etc.). Enfim, eu não era
na verdade a pessoa que ele queria e jamais poderia ou saberia fazer daquela
maneira. Os motivos da arte são outros. Não tenho nada contra estes outros
ramos, mas não é o que sei fazer. Não tenho nada contra o pop (aliás, adoro e
ouço muitos artistas pops do mundo independente), mas o que tenho a expressar
pede outra respiração. Afinal, o mundo é diverso. E precisamos disso tudo. Mas,
seria um desastre se fôssemos os poderosos do mundo do capital e impuséssemos o
samba para o mundo inteiro. Já pensou? Não haveria blues, nem jazz, nem nada
que não fosse a célula rítmica do samba tocando no mundo. Seria um assassinato
da mesma forma que exterminaram milhares de expressões artísticas do mundo. O
louco é que as pessoas não esquecem facilmente quem são e não perdem a
capacidade de entrar em contato com diversos estilos de arte musical. Quando a
gente faz projetos como o Pixinguinha percebemos a grandeza da ligação imediata
que se estabelece entre a gente e o público nas praças. De qualquer forma
seguiremos fazendo, eu e muitos colegas, de vários mundos, ritmos, vozes e
poesias diversas, a música que tem que ser feita. Acredito que sem a arte, o
principal da gente morre, acaba nossa possibilidade de ampliar o voo e sem
movimento não tem voo, não tem vida.
“Maryákoré” é um álbum imbuído de muitas
particularidades, dentre elas, a sua assinatura em todas as faixas, embora haja
a produção à quatro mãos em três delas. Como se deu essas parcerias?
CdeP - Sim, Maryákoré é resultado desta solidão maior, do mergulho neste modo de
respirar, cantar, tocar, escrever que é só nosso, de cada um. A primeira
parceria se deu quando li uma postagem da Déa Trancoso nas redes e já li cantando.
A letra dela fazia parte do que eu estava fazendo (acontece muito disso na
arte, nossas antenas captam coisas que se entrelaçam)! E a segunda se deu
quando o Rafael Altério me enviou uma melodia e escrevi a canção Remando Contra
a Maré. A melodia dele me levou para aquela menina vestida de rainha na festa
do congo. E é justamente “remando contra a maré” que liga fortemente a
Maryákoré à Consuelo de Paula das outras obras.
Ao
ouvir “Maryákoré” a primeira ideia
que me veio à cabeça foi a possibilidade de adentrar em uma espécie de portal
rumo a possíveis regressões sonoras e nessa “transcensão” há a possibilidade de
experiências sensoriais para além da audição. Foi essa a intenção quando você
começou a concepção do álbum? Como você o define?
CdeP - Ave! Não acredito que estou lendo isso. Você existe? Deixei fluir um
diálogo entre meu canto e o violão. Como o violão estava grudado em meu corpo,
veio algo que me deu essa sensação que você descreve também, mas ao mesmo tempo
a sensação de algo que eu nunca havia escutado. A conversa com algo de muito
antes com o presente e com a surpresa, o espanto. Isso me enlouqueceu (no bom
sentido). Parecia tão simples e tão estranho ao mesmo tempo. Acho que como a ideia
e o conceito eram os movimentos de amor e de luta misturados, resultou nisso...
Difícil explicar a criação, pois vem tudo rápido e junto: intuição, pensamento,
estética, necessidade de expressão, correnteza, razão, loucura, entrega,
melodia, letra, canto, arranjo, voz, violão, atitude, movimento, dança, corpo,
coração e alma. A gente faz, o artista faz, o resto não cabe mais a ele.
Quais
os projetos em vista para este ano que, como muitos costumam dizer, só começa
após o carnaval?
CdeP - Além de continuar realizando concertos sobre
maryákoré (adorei o show de lançamento que fizemos no SESC Belenzinho em janeiro
deste ano - e quero muito realizar outros – achei que a apresentação ao vivo
completou muito o que eu queria “dizer”), gravarei um CD com o João Arruda, o
Beira de Folha. E estou com saudades da intérprete, quero preparar algo neste
sentido (cantando outros autores) e enfim eu quero ser dirigida neste cd da
intérprete, não seria exatamente a continuação da minha obra (pelo menos é o
que sinto agora, mas vamos aguardar o que a inspiração irá ditar – eu
obedecerei rs). Continuamos também realizando o show em homenagem à Inezita
Barroso- eu, Maria Alcina, As Irmãs Galvão e Cláudio Lacerda (produção do
Thiago Marques Luiz e direção de Paulo Serau). Farei novamente o show Mamelucas
(eu, Cátia de França e Déa Trancoso). E quanto a continuação da minha obra
central, não sei dizer, às vezes acho sete um bom número para talvez encerrar
mesmo um imenso ciclo, mas já senti isso antes e estava errada, vieram ainda o
CD Casa, o DVD e CD Negra, o CD O Tempo E O Branco e Maryákoré. Maryákoré que
me deu um novo nome. Agora sou Maryákoré, Consuelo de Paula.
o sol
vai sumindo na curva do dia / ele cai do outro lado, na casa de lia / vou
saudar a gira do tempo ...vou cantar despedida ... até que o sol retorne da
casa de lia / com o cheiro da terra que os nossos olhos não alcançam / com
aromas de um novo dia / com aromas de um novo dia.
Maiores Informações:
Site Oficial - http://www.consuelodepaula.com.br/consuelodepaula.htm
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Dicionário da MPB - http://dicionariompb.com.br/consuelo-de-paula
Deezer - deezer.com/br/album/102671362
Spotify - https://open.spotify.com/album/7gEMg1TJcjbUktU5dtTXOz
Para aquisição do álbum:
Loja virtual - http://www.consuelodepaula.com.br/lojavirtual/
Pop Discos - https://www.popsdiscos.com.br/detalhe.asp?shw_ukey=47265Saraiva - https://www.saraiva.com.br/consuelo-de-paula-maryakore-digipack-10621758/p
Loja Tratore - http://www.tratore.com/produto/420405/consuelo-de-paula-maryakore
Americanas - https://www.americanas.com.br/produto/172660144/consuelo-de-paula-maryakore
Submarino - https://www.submarino.com.br/produto/172660144/consuelo-de-paula-maryakore
Americanas - https://www.americanas.com.br/produto/172660144/consuelo-de-paula-maryakore
Submarino - https://www.submarino.com.br/produto/172660144/consuelo-de-paula-maryakore
sábado, 7 de março de 2020
ANA DE OLIVEIRA E SÉRGIO FERRAZ - ENTREVISTA EXCLUSIVA
Instrumentistas de primeira grandeza, Ana de Oliveira e Sérgio Ferraz unem-se para celebrar a música e acabam nos presenteando com um álbum caracterizado por uma rica e cativante sonoridade
Por Bruno Negromonte

Nascido em 2018 durante um dos maiores festivais de música instrumental do país, o MIMO Festival, o Duo Ana de Oliveira e Sérgio Ferraz tem tido uma grande e positiva receptividade por parte do público e da crítica especializada ao se apresentar nos mais distintos palcos do Brasil assim como também na Europa. Tal receptividade fez com que a junção do violino e do violão também se expandisse para o estúdio, o que acabou resultando no irrepreensível álbum “Carta de Amor e Outras Histórias”, um projeto fonográfico singular e caracterizado por uma série de homenagens como foi possível perceber aqui mesmo em nosso espaço a partir da matéria "CORDAS EM SINTONIA", publicada aqui mesmo em nosso espaço recentemente. Hoje a dupla volta ao espaço para um bate-papo informal acerca da carreira, dos projetos, de como se deu este encontro entre outras peculiaridades. Excelente leitura!
Ana
de Oliveira
Seu envolvimento com a música vem desde a
mais tenra idade não é isso? Quais são as suas reminiscências musicais mais
remotas e como se deu essa sua arrebatadora paixão pelo violino?
Ana - Eu ouvi o violino pela primeira
vez no rádio a caminho do jardim de infância, meu pai ouvia o Concerto de
Brahms para violino e orquestra e me apaixonei por aquele som ou sons.
Perguntei como era e pedi para tocar. As primeiras aulas foram engraçadas pois eu
não falava com a professora. Cochichava para minha mãe que falava para
ela...com o tempo eu comecei a gostar mais da dona Lola Benda uma violinista suíça
alemã que vivia em São Paulo.
Quanto a ida para a Alemanha. Como se concretizou essa viagem? Havia interesse de sua parte em dar continuidade aos estudos musicais no Exterior?
Ana - Sempre quis estudar fora do
Brasil, na época não havia muitas referências aqui e não havia internet,
youtube etc...desde meus 14, 15 anos estudei para tentar sair do Brasil e aos
19 consegui. Aos 20 anos ingressei na Staatliche Hochschule für Musik (Escola
Superior de Música) em Freiburg im Breisgau nno sul da Alemanha.
Quando veio a decisão que já estava na hora
de voltar para o brasil?
Ana - A saudade ficou insuportável,
chegava a doer. Passei 4 anos sem pisar no Brasil. Tirei umas férias para ficar
aqui uns 2 meses e experimentar voltar e foi muito bom. Eu senti que havia
muito mais necessidade de estar aqui do que imaginava, em todos os sentidos. Decidi
voltar, peguei minhas coisas na Alemanha, encerrei os trabalhos e voltei de
navio a partir de Gênova. Um bela viagem de 13 dias.
Como entrou a música contemporânea em sua vida uma vez que
o violino, dentro dos “padrões convencionais”, é um instrumento voltado mais para a música erudita?
Ana - Sempre tive interesse desde
sempre. Na Alemanha participei do grupo de câmara do Institut für Neue Musik em
Freiburg durante anos. Também trabalhei com músicos de jazz e free jazz,
principalmente com o violinista Harald Kimmig e com o baterista Dieter
Schröder. Mais recentemente no Brasil toquei com artistas como Egberto
Gismonti, e me dedico ao repertório de câmara brasileiro com diversos grupos,
principalmente o Trio Puelli, além do Duo com Sérgio Ferraz e meu trio de
cordas. Fiz também como trabalho de mestrado um livro sobre técnicas estendidas
de violino com inúmeros exemplos da música contemporânea brasileira.
Como se deu esse encontro com o Sérgio
Ferraz? Antes da participação no MIMO vocês já conheciam-se?
Ana - Eu conheci o Sérgio desde o
início do MIMO, mas de vista e poucas palavras. Em 2012 eu o assisti solando ao
violino o seu Concerto Armorial e daí conversamos mais. Em 2018 nos encontramos
por causa de uma rabeca e ali iniciou nosso duo. Nossa afinidade musical é
muito grande e esta formação de duo de cordas é muito intensa e enriquecedora.
Sérgio
Ferraz
Você vem de Garanhuns, terra de exímios
instrumentistas a exemplo de Dominguinhos, em sua família há algum
instrumentista? como se deu o seu encontro com o instrumento? Quais as
lembranças mais antigas do seu envolvimento com música?
Sérgio - Eu
nasci no ano de 1973 e vivi em Garanhuns até meus 7 anos de idade. A TV só
pegava depois do meio dia. Lembro de muita música em casa. No radio tocava,
Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Beatles, Elvis Presley, então eu ouvia tudo
isso. Meu pai era bancário, e sempre teve ótima voz, ele cantava no coral da
igreja. Minha mãe tocava acordeon em casa. Eu já desde cedo mostrava inclinação
para a música e artes em geral. Gostava de cantar, desenhar, dançar. Eu via os
Beatles na TV e eu de alguma forma sabia que eu faria parte de algo assim. Daí
corri pra conseguir um violão e comecei a aprender.
Aparentemente a sua musicalidade tem uma
visível influência de elementos do movimento armorial. Como se deu a sua
imersão nesse contexto?
Sérgio - Essa
é uma ótima pergunta. Lá na segunda metade dos anos de 1980, eu e meus amigos
músicos pesquisávamos nos sebos do centro do Recife LPs raros. Numa dessas
encontramos LPs do Quinteto Armorial. Ouvir a música e a sonoridade do Quinteto
foi algo revelador pra nossa geração. É uma sonoridade áspera e brava assim
como o rock também. Eu ouvia aquele tipo
de sonoridade na música do Egberto Gismonti e do Hermeto Pascoal. Mas foi
mágico saber que aquela estética sonora musical surgiu em Pernambuco. Décadas
mais tarde eu gravei meu primeiro disco em parceria justamente com o Antonio
José Madureira líder do Quinteto Armorial. O CD chama-se ‘Segundo Romançário”
de 2009. Ainda nos anos de 1990 eu fazia parte de um grupo chamado Alma em Água
que misturava vários elementos inclusive da música indígena. Quando o Ariano
Suassuna foi secretário de cultura do governo de Miguel Arraes ele nos ajudou,
daí começou meu contato com ele. Em 2007 Ariano me chamou pra fazer parte da
assessoria dele pra o projeto das aulas-espetáculos que correu todo o estado de
Pernambuco. Em 2012, escrevi um o Concerto Armorial para violino e orquestra
dedicada ao Escritor. Esse concerto foi estreado no Teatro de Santa Isabel e
depois apresentado também no MIMO Olinda 2013.
Essa característica facilitou o convite do
Ariano Suassuna? Como foi essa experiência?
Sérgio - Bem,
acho que já respondi essa pergunta na pergunta anterior. Mas conviver de perto
com Ariano Suassuna foi uma experiência única. Ariano era um homem realmente
preocupado com a questão da formação cultural.
Sérgio, seu primeiro álbum solo teve a
primeira tiragem esgotada em cerca de 30 dias. Gostaria de saber como tem sido
a receptividade deste novo álbum?
Sérgio - “Dançando
aos Pés de Shiva” lançado no final de 2011 vendeu mil cópias em um mês. Foi uma
surpresa já que trata-se de um disco de música instrumental. Quanto ao nosso
novo trabalho “Carta de Amor e Outras Histórias”, um disco de também
instrumental em parceria com a fantástica violinista Ana de Oliveira vem
recebendo ótimas críticas de músicos e pessoas ligadas a ária de produção
cultural bem como do público em geral. Considero esse um trabalho muito
especial.
Como está a agenda de vocês para esse ano
de 2020? Já estão novas previstas apresentações?
Sérgio - Estamos
fazendo nossa agenda. Vem boas surpresas neste ano! Esperamos também puder
trazer esse show para outras partes do Brasil fora do eixo Rio-São Paulo.
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Link para se comprar o CD físico:
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
EM NOVO PROJETO, CONSUELO DE PAULA APRESENTA-SE VISCERAL
Entre meandros sonoros pouco explorados, a artista mineira passeia de modo seguro e cativante como é possível perceber em "maryákoré", seu sétimo registro fonográfico.
Por Bruno Negromonte

Quando nos referimos ao termo transcendência há quem afirme, sensorialmente, que seja algo que está relacionado com aquilo para além do mundo natural, real. Etimologicamente, transcender é sobressair, alcançar de uma maneira ou de outra algo que está fora dos limites que impõe o corpo; elevar-se sobre ou ir além dos limites de; situar-se para lá de... Dentre as mais distintas teorias sobre o termo (apesar de haver algumas divergências) pelo menos em um contexto todas elas são categoricamente convergentes: a arte é um dos caminhos para o alcance dessa tal transcendência e a música um dos portais mais acessíveis. Não há nenhum povo sem música. Nesse contexto sensorial nada é tão material como a música: a voz, instrumentos de sopro, de percussão e de cordas... e disso tudo resulta o que nos enleva, nos transporta para a transcendência, nos coloca lá donde viemos e lá para onde verdadeiramente queremos ir e talvez habitar. Se bem analisarmos poderemos perceber o quanto uma canção, um canto ou algo relacionado ao contexto sonoro é capaz de fazer, de algum modo, a alma transcender a um imaginário perfeito, a um estado único de equilíbrio. Homero, poeta épico da Grécia Antiga, nascido mais de 900 anos antes do início da era cristã, percebeu a existência desse, digamos, portal e soube usar muito bem o seu talento a favor da narrativa sobre o poder fascinante da música em um dos clássicos da literatura mundial. Feita de tempo, a música o pára, o transcende e tange o eterno. Em síntese é isso: Qualquer indivíduo que for questionado sobre quais são as suas percepções sobre uma determinada melodia, por exemplo, chegará a um ponto onde não poderá exprimir completamente, através das palavras, as sensações que a música lhe traz. E isso talvez seja a tradução mais visceral do termo transcender.
Por Bruno Negromonte

Quando nos referimos ao termo transcendência há quem afirme, sensorialmente, que seja algo que está relacionado com aquilo para além do mundo natural, real. Etimologicamente, transcender é sobressair, alcançar de uma maneira ou de outra algo que está fora dos limites que impõe o corpo; elevar-se sobre ou ir além dos limites de; situar-se para lá de... Dentre as mais distintas teorias sobre o termo (apesar de haver algumas divergências) pelo menos em um contexto todas elas são categoricamente convergentes: a arte é um dos caminhos para o alcance dessa tal transcendência e a música um dos portais mais acessíveis. Não há nenhum povo sem música. Nesse contexto sensorial nada é tão material como a música: a voz, instrumentos de sopro, de percussão e de cordas... e disso tudo resulta o que nos enleva, nos transporta para a transcendência, nos coloca lá donde viemos e lá para onde verdadeiramente queremos ir e talvez habitar. Se bem analisarmos poderemos perceber o quanto uma canção, um canto ou algo relacionado ao contexto sonoro é capaz de fazer, de algum modo, a alma transcender a um imaginário perfeito, a um estado único de equilíbrio. Homero, poeta épico da Grécia Antiga, nascido mais de 900 anos antes do início da era cristã, percebeu a existência desse, digamos, portal e soube usar muito bem o seu talento a favor da narrativa sobre o poder fascinante da música em um dos clássicos da literatura mundial. Feita de tempo, a música o pára, o transcende e tange o eterno. Em síntese é isso: Qualquer indivíduo que for questionado sobre quais são as suas percepções sobre uma determinada melodia, por exemplo, chegará a um ponto onde não poderá exprimir completamente, através das palavras, as sensações que a música lhe traz. E isso talvez seja a tradução mais visceral do termo transcender.
Toda esse contexto teórico sobre transcendência foi para chegar ao nome de uma artista singular, uma artífice guardiã e detentora de uma das chaves que nos conduz a este portal sonoro rumo a esse regozijo. Seu nome? Maria Consuelo de Paula ou simplesmente Consuelo de Paula. Poetiza, cantora, compositora, instrumentista e produtora, Consuelo nasceu na cidade de Pratápolis, localizada na Mesorregião do Sul e Sudoeste de Minas e Microrregião de Passos a cerca de 398 km de Belo Horizonte. Sua arte traz por característica uma identidade muito marcante (pois a sua música não faz concessão) e um canto aprazível. Talentosa, a cantora não rende-se ao ao modismo convencional e por isso mantém-se firme naquilo que acredita como ofício. Tal qual Hermeto Pascoal, para ela o valor maior está nas notas musicais e não nas notas de dinheiro como é possível atestar em cada registro fonográfico. Desde o primeiro álbum lançado em 1998 ("Samba, Seresta & Baião") que o seu trabalho é passivo desta afirmação. Deste ao mais recente somam-se um total de sete álbuns em pouco mais de duas décadas de mercado fonográfico. São projetos como "Dança das rosas", "Tambor e flor", o CD e DVD "Negra" (que foi gravado em espetáculo ao vivo no Teatro Polytheama de Jundiaí), "Casa", "O Tempo e o Branco" entre outros que reiteram a sua aguçada sensibilidade a serviço da arte e da vida. Seja como intérprete de suas próprias canções (havendo como destaque o repertório composto em parceria com o saudoso Rubens Nogueira) ou cantando temas de outros autores, Consuelo de Paula apresenta uma musicalidade originária e de relevante apuro estético como é possível atestar também neste mais recente trabalho cujo título, Maryakorè, um neologismo que surge da soma do primeiro nome da artista a termos indígenas, africanos entre outros.
Com uma sonoridade bastante visceral, o álbum é um verdadeiro mergulho nos rincões do Brasil. Com alta precisão, a cantora, instrumentista e compositora soube onde se aprofundar assim como também imergir de tais entranhas. Essa viagem, somada o outros aspectos intrínsecos, trouxe como resultado um projeto fonográfico caracterizado por uma sonoridade para além do convencional, passiva à sensibilidade dos mais atentos. Uma ode aos sentidos e sensações, o disco conta com a participação dos músicos Carlinhos Ferreira (percussão) e Guilherme Ribeiro (piano), na apresentação daquilo que melhor foi absorvido pela artista ao aventurar-se no não convencional. Em dois movimentos e parcerias com nomes como Déa Trancoso, Paulo Nunes e Rafael Altério, Maryakorè é a lapidação da destreza a partir do seu estado bruto. É medula daquilo que podemos definir por arte; denso e forte, é raiz profunda de um Brasil intenso como pode-se perceber.
Como bem foi visto, a música tem o poder de nos transportar. Mítica, ela é o divino no mundo ou, pelo menos, o que nos abre à experiência ao divino em algumas situações. Talvez ela seja a tal beleza que o romancista russo Dostoiévski definiu como "salvadora do mundo". Caso não seja, não importa... a beleza pode ser algo mais real, mais audível como, por exemplo, o canto de Consuelo de Paula (que por si só já nos basta). Doce e conciso, o seu canto é uma das coisas que há de mais aprazíveis na música popular brasileira na atualidade. Indelével, seu talento não suprime-se ao apresentar-se inventivo, pelo contrário, mostra-se rico de tal maneira que serve até mesmo como parâmetro para ir de encontro à lógica obtusa de uma indústria cultural que preza por contextos escusos e que estão longe daquilo que muitos acreditam por arte. Xamã em seu ofício, Consuelo guia-se pela sensibilidade e permite-nos uma fascinante aventura no cerne de nossa cultura não apenas para que tomemos conhecimento da diversidade existente neste país de dimensões continentais, mas também para nos permitir uma apropriação que vai para além do tangível, algo muito mais sensorial do que paupável, uma viagem ao encontro de uma ancestralidade peculiar, onde a resistência transfigura-se em música e esta, imbuída de verdade, vai formando um caleidoscópio sonoro abrangente e interessante, passivo da possibilidade de conhecimento. Em síntese é isso: tal qual Caetano, essa mineira, nua com sua música, nos mostra devagarinho, de modo íntimo e intenso, o caminho que vai de tom a tom a nos proporcionar essa vertigem visionária que não carece de seguidor. Porangatu, Maryakorè!
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
CORDAS EM SINTONIA
De um lado violões, do outro violino. Resultado: “Carta de Amor e Outras Histórias”, uma ode à Música Instrumental de qualidade.
Por Bruno Negromonte
Por Bruno Negromonte

A diversidade da música instrumental brasileira está intrinsecamente associada à riqueza sonora existente em nosso país. Dentro deste nosso espaço de dimensões continentais cada região tem a sua peculiaridade, o que por seguinte acaba proporcionando não a fragmentação, mas a multiplicação de gêneros e ritmos. Essa afirmação evidencia-se ainda mais quando temos a possibilidade de enumerar os inúmeros artistas que contribuíram e vem contribuindo para a notoriedade do gênero instrumental em cada região do país. Se fomos até a região Sul podemos destacar nomes como Radames Gnattali, Airto Moreira, Renato Borghetti, Yamandu Costa, dentre vários; do Norte vem João Donato, um dos mais significantes nomes da música brasileira do século XX e ainda em atividade. Do Centro-Oeste não podemos deixar de destacar nomes como o da saudosa Helena Meirelles, reconhecida mundialmente por seu talento como tocadora de viola. Quanto ao Nordeste destaque para relevantes nomes e grupos, tais quais Moacir Santos, Nonato Luiz, Walter Wanderley, a Banda de Pífano de Caruaru, Sivuca, Hermeto Pascoal, Armandinho, Canhoto da Paraíba entre outros. Por fim o Sudeste com destaque para nomes como Raphael Rabello, Tom Jobim, Carlos Malta, Paulo Moura, Laurindo Almeida, Luiz Bonfá, Jacob do bandolim, Egberto Gismonti, Pixinguinha (isso só para destacar alguns). Destas duas últimas regiões é que vem os nomes que daremos notoriedade hoje não apenas por já estarem presentes neste rol de grandes instrumentistas brasileiros, mas também por apresentarem, cada qual com seu instrumento, relevantes trabalhos a favor da música brasileira instrumental.
De um lado Ana de Oliveira (violino), que desde os 05 anos de idade interessou-se por música a partir da influência do seu pai e ainda na infância imergiu na música começando a ter aulas de violino (instrumento o qual se apaixonou ao ouvir o concerto de Brahms para violino). Depois de passar pelas mãos de alguns professores particulares, Ana graduou-se na classe de Rainer Kussmaul na Escola Superior de Música em Freiburg, na Alemanha, país que também a fez se aproximar da música contemporânea. Ao retornar para o Brasil atuou como spalla da Orquestra Sinfônica Brasileira, criou e liderou grupos de câmara e vem atuando na música popular nos mais distintos projetos, dentre eles o Trio Puelli; além de outras incursões que a fizeram dividir os palcos e os estúdios com importantes nomes da música brasileira. Quando questionada sobre a sua paixão pela música costuma dizer: “Sempre soube que eu queria ser violinista”. Já Sérgio Ferraz (violões de oito e doze cordas) é natural de Garanhuns, agreste de Pernambuco. Iniciou desde cedo seus estudos na área, a princípio no Conservatório Pernambucano de Música, em seguida, na Universidade Federal de Pernambuco onde tornou-se bacharel. Músico atuante no cenário musical pernambucano desde os anos de 1980, Ferraz traz em sua bagagem projetos como o Alma em água, grupo que ganhou destaque nos principais festivais de música existentes em Pernambuco na década de 1990. No início do milênio formou o Sonoris Fábrica, projeto que une elementos da música nordestina com o jazz mantendo o mesmo prestígio do projeto anterior. Dentre outros projetos destaque para o Quarteto Romançal e o grupo de artistas que integraram as aulas-espetáculos do Escritor Ariano Suassuna. Em sua biografia consta, além de apresentações em palcos nacionais e internacionais, álbuns como seu primeiro CD solo “Dançando aos Pés de Shiva” (lançado em 2011), “A Sublime Ciência e o Soberano Segredo” e “Concerto Armorial”.
A junção destes dois talentos tem sido ovacionado tanto pelo grande público quanto pela crítica especializada. Um encontro musical coeso, onde a violinista Ana de Oliveira e o multi-instrumentista Sérgio Ferraz potencializam seus respectivos talentos a partir da união dos seus instrumentos. A possibilidade deste encontro concretizou-se no palco durante o MIMO Festival ocorrido na cidade de Olinda ao longo de 2018 tendo como proposta unir a abordagem de um repertório com principal enfoque na obra de compositores que são referências para ambos. Após esta estreia a dupla já soma apresentações em alguns dos mais importantes palcos do eixo Rio-São Paulo (tais quais o Blue Note SP e RJ, Sala Cecília Meireles, Casa do Choro, Centro de Referência da Música Carioca entre outros); além de Portugal, onde estiveram presente na programação do MIMO Festival Amarante, em julho de 2019, com grande aclamação do público. A parceria deu tão certa que rendeu o álbum “Carta de Amor e Outras Histórias”, projeto que conta com o design gráfico de Guga Burckhardt e capa de Romero Andrade Lima. Composto por composições de Sérgio e de Egberto Gismonti, o projeto fonográfico conta em sua ficha técnica com a participação especial do percussionista Marcos Suzano.
Como dito: o Brasil sempre foi celeiro de grandes músicos. Lugar de exímios instrumentistas que existem em profusão pelo país afora. A junção de talentos como estes não apenas reforça, mas potencializa essa afirmação. Como bem define o Maestro, compositor e membro da Academia Brasileira de Música Ricardo Tacuchian: “Nosso país não é um só: são muitos os “Brasis”. Ele é plural em suas origens e singular em sua maneira de ser (...)Era a convergência de dois “Brasis” diferentes, mas que se consubstanciou numa síntese que só a arte e o talento de ambos poderiam alcançar (....)". “Carta de Amor e Outras Histórias” chega confluente, unindo o "fácil" e o "difícil", tornando coerentemente uníssona a sonoridade de dois talentosos instrumentistas. Um projeto onde o erudito dá as mãos ao popular e proporciona ao ouvinte uma verdadeira viagem onde constam homenagens como “Dia de São Sebastião” (uma ode ao Rio de Janeiro), “Floresta do Navio” (um samba-baião composto em homenagem à Floresta, cidade natal do pai do compositor no sertão pernambucano), e uma ode ao Egberto Gismonti a partir de duas canções do seu repertório: “Lôro” e “Frevo”. Em síntese é isso: “O disco é um verdadeiro cordel musical, uma síntese do popular com o erudito, um encontro norte-sul, uma superposição temporal contemporâneo/medieval” como bem definiu Tacuchian. Resta-nos aguçar a sensibilidade e nos permitirmos essa prazerosa audição.
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