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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

DUZÃO MORTIMER - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Cantor, compositor e instrumentista, Duzão Mortimer volta ao nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde traz informações sobre sobre a carreira, o novo  álbum entre outros detalhes biográficos

Por Bruno Negromonte


Tal qual um alquimista, Duzão Mortimer sabe dosar tudo aquilo que constitui a sua sonoridade como é possível observar nos mais distintos projetos musicais aos quais vem se dedicando ao longo das últimas três décadas. Seja em projetos coletivos ou em carreira solo, Duzão traz como marca maior naquilo que apresenta um certo q de hibridismo que não o faz divagar aleatoriamente sem saber onde vai chegar. Pelo contrário, é nesse despretensioso contexto que le vagueia firme nos gêneros que a música brasileira tem por melhor como vem sendo possível perceber aqui mesmo em nosso espaço onde o artista mineiro já esteve presente em algumas matérias, dentre as quais a pauta "EQUILÍBRIO E ENERGIA REGEM A MÚSICA DO HOMEM DE LABORATÓRIO", matéria publicada recentemente e que apresenta o seu mais novo projeto fonográfico. Hoje, Duzão volta ao nosso espaço para mais esta entrevista exclusiva. Excelente leitura!!


Se analisarmos a sua discografia veremos que os intervalos existente em seus primeiros projetos são longos. Agora em carreira solo houve um encurtamento nestes intervalos. Sem as amarras inerentes tão presentes nas decisões coletivas a inspiração, no seu caso, flui melhor?

DM - Olha, Bruno, a questão é do tempo para dedicar-me à música. Eu sou professor universitário desde 1983. Me aposentei em 2016 mas mantenho a posição de professor de pós-graduação na Faculdade de Educação da UFMG. Tenho, portanto, alunos de mestrado e doutorado e projetos de pesquisa. No entanto, estou com mais tempo para dedicar à música, sendo daí que vem a maior velocidade nos projetos.


Em sua opinião o que difere este mais recente trabalho do seu projeto anterior?

DM - O trabalho anterior, ‘Trip Lunar”, era mais intimista, com arranjos mais variados e uma sonoridade bem mineira. Mesmo as canções mais pra cima tinham uma certa complexidade. Praticamente toda as letras são do Marcelo Dolabela, que foi e continua sendo o principal letrista das minhas canções. Não havia um tema que predominasse, ainda que grande parte das letras falassem em amor. Assim, ora abordava-se as desventuras de uma Trip Lunar, em que amantes se separam em viagens a Buenos Aires ou Tel Aviv, ora nos corações meninos que são guardados como pássaros que ainda não sabem voar. No “Homem de Laboratório”, ao contrário, predomina uma veia mais pop, com rock, funk, reggae, blues, baião e samba, ainda que os arranjos continuem a ser sofisticados. A essa simplicidade nas músicas soma-se a maior presença minha enquanto letrista, também com mensagens mais diretas e menos sofisticadas, muitas relacionadas a problemas ambientais. Veja, por exemplo, Buraco de Ozônio. Fala diretamente dos possíveis efeitos do buraco na camada de ozônio e do efeito estufa, ainda que com uma clara licença poética. A única sofisticação, que pode passar despercebida ao ouvinte, é a coleção de substâncias químicas que já foram responsáveis por graves acidentes químicos – como o isocianato de metila, que foi responsável pelo Desastre de Bhopal, na Índia, o maior acidente industrial químico ocorrido até hoje. Na madrugada de 3 de dezembro de 1984, 500 mil pessoas foram expostas às 40 toneladas de gases tóxicos – o principal deles é justamente o isocianato de metila – que vazaram da fábrica de pesticidas da empresa norte-americana Union Carbide. A principal causa desse desastre foi a negligência com a segurança. No primeiro momento morreram 3.000 pessoas, mas esse número pode ter chegado a 10 mil, devido a doenças relacionadas à inalação do gás. Da mesma forma, o Césio 137 é o isótopo radioativo responsável pelo Desastre de Goiânia, em 1987, e o mais perigoso isótopo disperso no Desastre de Chernobyl, ocorrido em 1986. Assim, “Buraco de Ozônio” sintetiza uma importante mensagem do disco, que diz respeito aos produtos da Ciência e da Tecnologia que escapam diretamente ao nosso controle e ameaçam o meio ambiente e a nossa existência no Planeta.


O que você destacaria como marca maior deste disco?

DM - Esta é a marca que destaca-se também em outras canções, por exemplo, o “Novo Homem”, poema de Carlos Drummond de Andrade que musiquei. Aí não são as ameaças químicas que importam, mas a ameaça genética. O ser humano está no limiar de criar uma nova espécie, um super-homem de laboratório, que derrotará as doenças e viverá muito mais. Ele “ganhará dinheiro e muitos diplomas, fino cavaleiro em noventa idiomas, chegará a Marte em seu cavalinho, de ir a toda parte mesmo sem caminho”. Mas esse super-homem é também o algoz da espécie humana, pois acabara com o Homo Sapiens. Ou o manterá para satisfazer seus desejos e caprichos, aprofundando a dominação do homem, agora pelo super-homem. Essa é a mensagem que busca passar no disco, sobre o nosso futuro. Acho que é hora de acordarmos para isso, questionarmos o que a Ciência e a Tecnologia têm produzido. Como, apesar dos benefícios inquestionáveis que vêm trazendo à vida de cada um e cada uma, ainda ameaçam a nossa existência sob duas formas distintas: uma é a destruição ambiental, a outra é a destruição genética. Afora essas duas canções que sintetizam a mensagem mais global do disco, há outras igualmente fortes, que questionam problemas mais locais, do Brasil, por exemplo, a violência em que vive o homem e a mulher da cidade grande, com medo tanto do bandido quanto da polícia. “A minha paranoia é a minha solidão”, diz “Luzes da Cidade”, que ao final propõe que se “apague as luzes da cidade, talvez a paranoia se dissolva em confusão, talvez essa penumbra reacenda uma paixão” pois “a luz há de brilhar na estrela e no luar”. Um disco com essas mensagens não poderia ser feito encima de temas musicais intimistas, mineiros. Ele tinha que conter uma veia mais pop, mais agressiva.


Por falar em marca, é muito perceptível tanto no "Trip lunar" quanto em "Homem de laboratório" o contexto agregador nos quais eles foram constituídos. Um exemplo disso é "Vidas secas", canção de autoria do Ivan Mortimer e presente em seu mais recente álbum. Como esse contexto é desenvolvido? É algo natural que vai amadurecendo no decorrer do projeto ou ele já existe ainda quando a coisa está no campo das ideias?

DM - O Ivan é meu filho e sempre me acompanhou, desde que retornei às cenas musicais em 2014, e mesmo antes, quando tentamos relançar “O Grande AH!...” com uma formação mais familiar. Natural que eu busque também divulgar suas músicas e isso só tende a aumentar à medida em que penso nos projetos futuros. No “Trip Lunar” ele comparecia tocando guitarra e baixo e cantando uma das canções, “Quem Inventou?”. Esse projeto foi o primeiro disco solo que fiz, depois de muitos anos sem produzir nada para o público. Natural que eu agregasse várias pessoas. Assim, havia a participação de vários cantores e músicos, como o Ladston do Nascimento, a Leopoldina, a Simone Wajnmsan, o José Luis Braga, o Marcos Pimenta, o Chico Amaral, o Elio Silva, a Daniela Rennó. Houve também a influência dos meus filhos na escolha de uma nova geração de músicos mineiros, como Alexandre Andrés, João Machala, Ygor Rajão, Henrique Staino, Rafael Pimenta, Joana Queiroz, Pedro “Trigo” Santana. Havia também arranjadores muito especiais dessa nova geração, como o Rafael Martini e João Antunes, e outros da minha geração, como Pedro Licínio. O disco foi produzido e dirigido musicalmente com muito carinho e dedicação pelo Thiakov, também da nova geração. Agora, no “Homem de Laboratório” eu coloquei mais a minha marca, pois canto todas as canções, algumas com vocais de Leopoldina, duas dividindo o lead vocal com Marcos Pimenta, um eterno parceiro e amigo, e uma com Juliana Perdigão, um nome emergente na música mineira. A exceção fica justamente para “Vidas Secas”, cantada pelo Ivan Mortimer. Em “Trip Lunar”, a minha presença como cantor estava diluída, e a banda de base era mais caseira, com os meus dois filhos, Lucas e Ivan, o filho de Marcos Pimenta, Rafael Pimenta, e Leo Lima, um parceiro de longa data, desde os tempos de “O Grande AH!...” No “Homem de Laboratório” eu toquei com uma banda de base que já me acompanhava em shows desde 2015, constituída pelo Vinícius Mendes, que assinou também os arranjos de sopro e teclados e a direção musical, o Gabriel Bruce, na bateria e alguns arranjos rítmicos, o Willian Rosa, no baixo, e o Ivan Mortimer, na guitarra. Portanto, há mais pega nesta banda, mais entrosamento, o que condiz com o astral do disco, mas pra cima. Evidentemente que diferentes músicos contribuíram com os arranjos, mas a sua presença no disco é mais diluída, colaborando com arranjos que já estão estruturados pela banda de base.


Quanto ao título "Homem de laboratório" pode subtender-se que se trata de uma sutil alusão à sua vida enquanto docente de química?

DM - Essa é uma leitura possível, um segundo sentido que propositalmente escapa na leitura. Mas o principal motivo é o poema do Drummond que musiquei, “Novo Homem”, que fala de um homem feito em laboratório, que ao final, acabou com o homem, bem feito. Agora, o que não tira a importância dessas canções para projetos que estamos desenvolvendo para o ano de 2018, e que falarei mais adiante.


Em tempos onde o dinamismo e a  urgência predominam, você vem (a partir do seu próprio tempo) apresentar um disco concebido em quase um ano e meio. como se dá essa relação com o tempo? 

DM - Eu tenho 62 anos, e isso faz toda a diferença. Não há pressa quando se atinge essa idade. O importante é deixar as coisas decantarem, amadurecerem, esfriarem para ouvir novamente. Além disso, eu mantenho outras atividades na minha vida de professor universitário. Mas o principal motivo é justamente dar tempo ao tempo para que a coisas se acomodem bem, para que fiquem próximas ao que realmente queremos. Um disco feito em pouco tempo não permite isso. Você põe o ponto final nas músicas muito rapidamente.


Por falar neste contexto como se dá o seu processo de composição?

DM - Eu, atualmente, componho basicamente por duas vias: uma é pura inspiração e as músicas vem de primeira, completas, e aí vou trabalhar com letras e adaptá-las ao formato da música. Outra via é o trabalho árduo encima de temas que surgem. Eu trabalho profundamente esses temas, vou remoendo-os mesmo, até que encontro uma saída e a música se completa. Quase sempre uso o instrumento para compor, seja o violão e a guitarra, seja o piano. Já fiz muitas músicas em conjunto com o Marcelo Dolabela, buscando nas suas letras a sonoridade adequada para compor uma canção ou compondo a letra na medida da música, mas já faz tempo que não uso essa alternativa.


Como se deu a escolha do repertório? (uma vez que o disco mostra-se abrangente e coerente ao se tratar dos gêneros apresentados) 

DM - O repertório vem naturalmente quando pensamos na estrutura de cada disco. No “Trip Lunar” havia essa coisa da mineiridade e da doçura, e isso predominou na escolha do repertório. No “Homem de Laboratório”, a pega mais pop foi fundamental e isso também predominou na escolha do repertório. Portanto, cada disco tem sua estrutura pensada antes mesmo de escolher o repertório e isso determina essa escolha, pois fica fácil buscar, entre as minhas canções, aquelas que têm a cara que definimos para o disco.


Ao longo dessas quase três décadas de carreira, você apresenta uma extensa produção acadêmica em detrimento à sua trajetória enquanto músico. Hoje talvez você se encontre em uma situação mais confortável para  dedicar-se ao hobby. Como tem sido hoje a resolução desse binômio?

DM - Eu me considero um “músico de laboratório”, ou seja, não consigo pensar na minha vida atual sem a música e sem o trabalho da universidade. Quando comecei na Universidade, em 1983, estávamos a todo vapor com “O Grande AH!...”. Em 1988 fizemos o primeiro disco, e 1989 foi um ano de muitos shows, estava a todo o vapor. Mas em 1990 eu comecei a fazer doutorado, algo que era fundamental para ter uma carreira na Universidade. E aí percebi que não dava para conciliar as coisas, que a carreira universitária demandava muito. Assim, fizemos mais um disco, Mariantivel, em 1997, mas esse já foi um projeto feito sem muito tempo. Abandonei a carreira de músico naturalmente, eu queria desenvolver minha profissão de professor universitário e ela exigia dedicação exclusiva. Agora, em 2013, quando decidi fazer o disco solo, “Trip Lunar”, era como um teste para o meu futuro. Eu queria voltar para a carreira de músico, cantor e compositor e um disco era a melhor solução para marcar um reinício. Em 2014 o disco ficou pronto e partimos para o lançamento. Eu, ao mesmo tempo, pedi minha aposentadoria em 2016 e agora estou com mais tempo para dedicar à essa velha/nova carreira. Só que não tem sido fácil, as coisas mudaram muito, mas eu continuo teimando em fazer música e em lançar novos projetos. Aí surgiu “Homem de Laboratório”, que começou a ser feito em 2016 e está aí, na praça. Já tenho um novo projeto no forno, mas em 2018 vou me dedicar a divulgar o “Homem de Laboratório”.



Como estão a questão da divulgação deste novo projeto para 2018?

DM - Pois é, como eu falei, a vida de músico continua difícil. Aí, temos que pensar em alternativas para conseguir divulgar o trabalho e nos firmar no cenário musical. Esse novo disco é justamente a fusão entre o Duzão químico e o Duzão músico - é nesse filão que eu pretendo atuar. Fazer projetos de aulas-shows nas escolas públicas, para turmas de adolescentes, discutindo os temas de ciência e tecnologia que povoam o “Homem de Laboratório” e que procurei sintetizar nesta entrevista: a destruição do meio ambiente e os resultados da revolução genética que podem aniquilar o Homo Sapiens. Eu recupero também algumas canções didático-científicas que estavam, por exemplo, no disco “1989” de “O Grande AH!....”. “A Terceira de Newton” é uma estória bem humorada dos três dias na vida de Newton que antecederam a formulação da sua Terceira Lei. Assim, essa aula-show, que será feita unicamente por mim, terá vários elementos de ciência e de música e os alunos serão convidados a elaborar algo nesta fronteira. Depois de fazermos aulas-shows em algumas escolas de um bairro que tem um Centro Cultural, faremos um show neste Centro, agora com toda a banda, para mostrar o “Homem de Laboratório” para uma plateia mais
ampla, mas que tem por base os adolescentes que participaram das aulas–shows.
Esse é o principal projeto pra 2018 e com ele pretendo começar a romper essa diferença geracional que separa a minha música do adolescente.



Maiores Informações:
Site oficial -
http://duzaomortimer.com.br
Amazon - https://www.amazon.com/Trip-Lunar-Duzão-Mortimer/dp/B00IZNQVDE
Bandcamp - https://duzaomortimer.bandcamp.com
Itunes - https://itunes.apple.com/us/album/trip-lunar/id840161884
Last.fm - https://www.last.fm/pt/music/Duzão+Mortimer
Soundcloud - https://soundcloud.com/eduardo-mortimer

sábado, 25 de novembro de 2017

EQUILÍBRIO E ENERGIA REGEM A MÚSICA DO HOMEM DE LABORATÓRIO

Após regressar de uma trip lunar,  Mortimer imerge nas peculiaridades sonoras do Brasil

Por Bruno Negromonte



As ligações químicas entre dois átomos se estabelecem quando a força de união entre eles é suficiente para dar origem a um agregado estável (ao menos é o que diz alguns teóricos a respeito de tema). Pelo que parece, a música também faz-se capaz de criar um contexto semelhante. Nela, o "agregado estável" transfigura-se em distintos contextos. Uma parceria (mesmo que bissexta), a química presente na junção de diferentes sonoridades, ou até mesmo na constituição e confecção de instrumentos musicais. Um dos exemplos mais conhecidos da relação entre a qualidade do som e a química são os famosos violinos Stradivarius. O seu som inimitável parece estar ligado ao tratamento químico da madeira e sobretudo às características do verniz utilizado no acabamento. Tudo isso aparentemente explica que a química é capaz associar-se a música para nos trazer verdadeiras situações onde prevalecem  agradáveis sensações de sinestesias. Talvez, por todo o seu embasamento acadêmico, Duzão se dê conta desta intrínseca relação existente e use do seu know-how para poder, equilibradamente, dar vazão a sua arte. Entremeado neste contexto o multifacetado Duzão Mortimer firma-se com relevante destaque no cenário artístico mineiro. Após o lançamento do seu primeiro álbum solo em 2014 agora o cantor, compositor, acadêmico e instrumentista volta ao mercado fonográfico com "Homem de laboratório", projeto que destaca-se por algumas características que vem pontuando a sua  trajetória discográfica desde o lançamento do primeiro álbum ao qual participou e que no próximo ano completa três décadas.




Duzão Mortimer deu início a sua vida artística na década de 1980 de modo paralelo a sua carreira acadêmica em Minas Gerais. Bacharel e licenciado em Química desde 1980, o professor Eduardo Fleury Mortimer possui mais de setenta artigos publicados e ultrapassa a marca dos 140 trabalhos em eventos das mais diversas áreas de conhecimento. Envolto a vida acadêmica, fez da América do Norte e do Continente Europeu a oportunidade que faltava para também agregar elementos das respectivas culturas à sua sonoridade. Como dito, Duzão foi capaz de apreender um ritmo próprio em sua carreira, criando um modo particular de conduzi-la. Talvez por isso a sua discografia seja composta por apenas quatro títulos em quase três décadas de carreira: um LP lançado em 1988, um CD em 1997 com O Grande Ah!, grupo que contava com a presença do professor universitário e músico Marcos Pimenta (figura recorrente na carreira de Mortimer), seu primeiro disco solo lançado em meados de 2014 intitulado "Trip Lunar" e agora este, "Homem de laboratório". O disco tem início reiterando a questão ambiental a partir de "Buraco de ozônio", faixa que reforça a necessidade da conscientização humana. Para dar ênfase a proposta do disco, o compositor traz na canção elementos que embasam o porquê podemos ser considerados pejorativamente "homens de laboratório". "Luzes da cidade" retrata, em forma de canção, a máxima de que  “À noite todos os gatos são pardos”. O amor e seus nuances chegam em "Céu de vagabundo"... Diferente da clássica "Adeus América", Duzão em "Buda de neve" despede-se da América não para voltar ao Brasil, mas para ir ao encontro da cultura oriental. A poesia mineira faz presente a partir do poema "O novo homem", de autoria de Drummond e musicado por MortimerAlém das faixas "Buda de neve", "Fórmulas mágicas" e "Pânico" (todas instrumentais), o disco ainda apresenta o samba "Uma nódoa, um nada um não", o rock "Papéis", o forró "Vidas secas" e o reggae "Nada de narda" celebrando os gêneros musicais reafirmando a ideia inicial desta matéria: as ligações, as conjunções (neste caso, a sonora).

Gravado no Estúdio Mortimer (localizado na capital mineira) entre março de 2016 e maio de 2017, "Homem de laborarório" foi produzido por Duzão sob co-produção do seu filho Lucas Mortimer Vinícius Mendes. Na base da tecitura sonora do projeto além de Duzão Mortimer (violão, guitarra e voz), nomes como Vinícius Mendes (teclado, flauta, sax tenor, alto e soprano), Gabriel Bruce (bateria), Willian Rosa (baixo), Ivan Mortimer (guitarra e voz). O disco ainda conta com os convidados Rafael PimentaPC GuimarãesBruno Oliveira e Igor Neves em "Uma nódoa, um nada, um não", João Machala e William Alves (sopros em "Síndrome da China", "Luzes da Cidade" e "Nada de Narda"), Isaque Macedo, Wagner SouzaMarx MarreiroBill Lucas, Marcílio Rosa  e as vozes de Juliana Perdigão (em "O Novo Homem"), Leopoldina (em "Buraco de Ozônio", "Céu de Vagabundo" e "Síndrome da China") e Marcos Pimenta (em "Nada de Narda" e "Uma nódoa, um nada, um não").

Longe de ser conceitual, "Homem de laboratório" busca apresentar características que regem a sonoridade do cantor, instrumentista e intérprete. Mesmo sendo um projeto híbrido, o disco não permite-se ao desencontro, pois a fusão de elementos rítmicos trazem ao resultado final uma coerência aparentemente inimaginável. Aliás, a sonoridade dos projetos apresentados por Mortimer é algo de merecido destaque uma vez que passa longe de todo e qualquer estigma existente, marca esta que segue o passo do álbum anterior. Outra destacável característica é a ênfase à sua verve autoral, ora solo ou a partir de distintas parcerias, Duzão despretensiosamente foge do lugar-comum. Se a química é a ciência que estuda a constituição da matéria pouco importa... para este homem de laboratório a música faz-se mais relevante, pois através de uma combinação harmoniosa e expressiva de sons mostra-se capaz de nos conduzir de um modo que fugimos das regras convencionais. Sem contar que na arte (assim como na natureza) nada se perde e tudo se transforma como preconizou Lavoisier. Música é isto: é biológico, quântico, composição, substância... e só alguém com profundo conhecimento a respeito, um homem verdadeiramente de laboratório, é capaz de enxergar plenamente.  


Maiores Informações:
Site oficial -
 http://duzaomortimer.com.br
Amazon - https://www.amazon.com/Trip-Lunar-Duzão-Mortimer/dp/B00IZNQVDE

terça-feira, 5 de agosto de 2014

PROGRAME-SE


sábado, 12 de julho de 2014

DUZÃO MORTIMER - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Após um hiato de quase duas décadas o professor Eduardo Fleury Mortimer volta a cena musical em "Trip Lunar", projeto que marca o seu reencontro com antigos parceiros e artistas da nova cena musical mineira

Por Bruno Negromonte


Em 25 anos de carreira Duzão Mortimer lançou apenas três álbuns. Os dois primeiros com a banda O Grande Ah! nas décadas de 1980 e 1990 e agora este cujo o título é "Trip Lunar". Sua escassa discografia apresenta números irrelevantes se levarmos em consideração a produção acadêmica do professor Mortimer  como tivemos a oportunidade de apresentar aqui mesmo no Musicaria Brasil ao longo do último mês de junho a partir da pauta O TALENTO QUE SOBREPUJOU A DESPRETENSIOSIDADE. Hoje Duzão Mortimer volta ao nosso espaço para este bate-papo exclusivo onde fala sobre a sua carreira como como docente, o porquê desses longos hiatos em sua discografia e também como tem sido a receptividade do público em relação a "Trip Lunar", este que é o seu primeiro projeto solo em mais de 25 anos de carreira entre outros assuntos que vocês podem conferir logo abaixo. Boa leitura a todos!




Dentre suas lembranças qual é a reminiscência mais antiga do seu envolvimento com a música? Houve alguma influência para que você que você viesse a tornar-se músico?

Duzão Mortimer - Olha, eu penso que o envolvimento com a música quase sempre vem do ambiente em que você vive, particularmente o familiar. A minha mãe tocava piano e eu herdei o piano que ela havia ganho como presente de casamento. Quando eu tinha 8 anos, minha mãe comprou um violão e começou a aprender. Assim que ela aprendeu algumas canções, começou a ensinar, primeiro para as minhas 2 irmãs mais velhas. Logo chegou a minha vez de aprender. Mas curiosamente eu sou canhoto e só havia um violão na nossa casa. Então, resolvi tentar assim mesmo, com o violão destro. Tive uma enorme dificuldade para aprender. Minha mãe me mandava para o quarto, fechar bem a porta, ninguém tinha paciência para ouvir os ruídos que eu produzia tentando aprender a tocar. Mas eu era insistente e finalmente, depois de muito esforço, começou a sair um som. Aí, rapidamente eu aprendi todas as músicas que minha mãe sabia e comecei a aprender outras na rua, com os vizinhos. Sim, pois essa era uma época em que a música fervilhava, ecoava por todos os cantos. Em cada esquina de Belo Horizonte havia um “conjunto”, tentando traçar o caminho aberto pelos Beatles. Eu considero que o Beatles revolucionaram a música também pelo fato de serem apenas 4 e conseguirem fazer música. Isso era, de certa forma, novidade, pois até então o que pintava no mercado era big bands, com vários músicos, o que dificultava enormemente quem queria percorrer esses caminhos. Havia também a Bossa Nova, mas essa era mais sofisticada e só vim a conhecer mais tarde. Nesta época, o que pululava em Belo Horizonte eram bandas tocando Beatles e Jovem Guarda.  Então, já nesta época eu comecei a me envolver com bandas: me lembro da primeira em que eu dava uma canja ou outra, que se chama “The Exotics”. Todas as bandas eram formadas por duas guitarras, baixo e bateria ou por guitarra, teclado, baixo e bateria, tinham nomes em inglês começados por “The”, a exemplo dos Beatles.


Por falar em influências, você na condição de músico acabou exercendo-a em sua clã. Como você enxerga esse interesse pela música por seus filhos? Há mais estímulos para que eles continuem contextualizando-se com este universo ou você está sempre buscando dar conselhos para que eles ponderem as escolhas nesta área?

DM - Eu penso que na época em que o Ivan Mortimer nasceu respirava-se os primórdios de “O Grande Ah!” na minha vida. Eu começava a compor mais consistentemente, pois havia conhecido o Marcelo Dolabela (poeta, meu parceiro) por intermédio da Regina, a Ré, minha mulher. Eu me lembro do Ivan, quando estava aprendendo a falar, ele já cantava, ou melhor, balbuciava, umas tantas músicas que viriam a constituir o primeiro repertório dessa nova banda, que se lançou profissionalmente em Belo Horizonte no ano de 1983. Então, a música entrou na vida dos meus filhos muito naturalmente, pelo ambiente mesmo. O Ivan era incrível, pois ele tinha um cavaquinho que pretensamente tocava e subia no palco para juntar-se a “O Grande Ah!” sempre que podia. Ele era super musical, desde sempre. A partir dos 6 anos eu coloquei tanto o Ivan como o Lucas no Centro de Musicalização Infantil da Escola de Música da UFMG, e foi aí que eles tiveram a iniciação musical, algo que foi bem diferente no meu caso, que havia sido iniciado pela minha mãe e na rua. O Ivan, quando foi fazer vestibular, decidiu fazer Composição na Escola de Música e eu dei força. Mas com dois anos de escola ele trocou de curso e foi fazer Biologia, algo que também apoiei. O Lucas foi fazer Educação Física, depois fez mestrado na área de Fisiologia do Exercício e aí decidiu largar para mexer com produção musical, algo que discutimos bastante, pois o Lucas se encaminhava bem para fazer carreira acadêmica e eu dava a maior força. Mas ele acabou saindo da Educação Física, e apesar de lamentarmos a sua decisão, também demos força. Agora ele está fazendo a minha produção e isso é fundamental.


Por que o título do álbum acabou sendo “Trip Lunar”

DM - Primeiro, tem uma faixa do álbum com esse nome. Mas o mais importante é que esse nome resume a viagem que foi fazer todas essas canções. Pois a maioria foi feita no interstício da minha produção para “O Grande Ah!”. São canções que eu sempre gostei, que foram muita inspiradas, e que não tinham tido oportunidade de serem tocadas. Quando me decidi a voltar a fazer música profissionalmente, no ano passado, resolvi que essas eram canções que não podiam se calar. Como elas foram feitas numa longa e louca viagem, veio o nome “Trip Lunar”.


Eu enxergo este projeto como uma grande celebração, onde se é possível perceber não apenas o reencontro de velhos amigos mas também uma espécie de encontro de gerações com novos talentos da cena musical mineira. É mais ou menos por aí a intenção?

DM - Sim, e desse encontro de gerações é que eu tiro toda a energia para fazer esse trabalho. Nos shows, o pessoal que tem me acompanhado regula em idade com os meus filhos. No disco, toquei também com ex-integrantes de “O Grande Ah!”, com o Léo Lima e o Elio Silva. O Marcos Pimenta cantou uma música. A banda de base, que estruturou todos os arranjos, foi composta por mim e pelo Léo Lima, dessa geração de “O Grande Ah!”, e pelo Ivan Mortimer e Lucas Mortimer, meus filhos, e pelo Rafael Pimenta, filho do Marcos Pimenta. Eu considero que tocar com a nova geração é fundamental para não se fazer um som datado, que tem um certo ranço. Essa nova geração é que abre possibilidades de novos caminhos. Então tenho tocado com o Ivan Mortimer, Rafal Pimenta (os dois revezando entre o baixo e a guitarra), Yuri Vellasco (bateria), Henrique Staino (Sax tenor), Ygor Rajão (Trompete e Flugel horn), João Gabriel Machala (Trombone de vara) e Alexandre Andrés (Flauta). É uma turma da pesada, que coloca muita energia nestas músicas.


Esse encontro com a nova geração pode ser considerada uma espécie de reciclagem para aquilo que você produz? (uma vez que já passaram mais de 15 anos desde o seu último projeto fonográfico)

DM - Com eu disse, eles deixam minha música com sabor de música atual, nova, sem ranço, não datada.





Sua intensa vida acadêmica de certo modo interferiu em sua carreira artística ao longo desse tempo? (Falo isso porque você, em mais de 25 anos de relação com a música, tem apenas três registros fonográficos)

DM - Sim, claro. Em 1990 eu decidi, com base na necessidade de criar meus filhos e dar uma vida melhor para minha família, a me dedicar à carreira acadêmica e parar com a música, pelo menos no nível de envolvimento com que eu vinha fazendo. Em 1989 foi um grande ano para “O Grande Ah!”, nós tocamos a beça, demos vários shows em BH, pelo interior de Minas, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Quando fiz as contas, percebi que infelizmente não dava para viver disso. Então, em 1990 comecei a fazer doutorado na USP, em 1992 fui para a Inglaterra fazer um sanduíche do meu doutorado, e lá carimbei meu passaporte, ou seja, me iniciei numa carreira internacional na área de Educação em Ciências. Não dava tempo para fazer música, pois a carreira acadêmica demanda muito, é uma loucura. Portanto, os envolvimentos que tive com música, como o CD Mariantivel em 1997 e alguns trabalhos aqui e ali com “O Grande Ah!”, foram pequenos, esporádicos e pouco consistentes. Em 2013 achei que era hora de rever essa equação e voltar a me dedicar de corpo e alma a música, desacelerando paulatinamente a minha carreira acadêmica. Acabou que esse ano lancei o “Trip Lunar” e também um livro, em parceria com Charbel El-Hani, pela Springer, editora acadêmica internacional, que se chama “Conceptual Profiles: a theory of teaching and learning scientific concepts”. Mas é justamente o cruzamento de duas tendências: acelerar a produção musical e desacelerar a produção acadêmica.


Apesar de você participar da construção da melodia de todas as faixas do álbum “Trip Lunar” apenas uma delas possui letra e música composta exclusivamente por você. Você poderia falar um pouco sobre a escolha do repertório do álbum?

DM - São duas compostas exclusivamente por mim, pois tem uma instrumental e uma com letra nesse rol. O Marcelo Dolabela sempre foi um excelente parceiro, cheio de letras em que ele combina a fala sobre as cidades, do interior e as capitais, com as tramas amorosas. A “Trip Lunar” é um exemplo: “Buenos Aires em qualquer cais, boa viagem prá nós dois, a Télavive sigo em paz”. As músicas do Trip Lunar, particularmente, surgiram sempre de uma grande inspiração, e foram todas compostas em cima de letras que o Marcelo me passava. As letras do Marcelo são muito musicais. Veja o exemplo de “Muita Alegria”. Ela tem algumas palavras aparentemente nada musicais, como “naftalina” e “absorventes”. No entanto, no contexto da canção essas palavras se tornam naturais, pois a letra como um todo puxou uma  canção, também como um todo.


Ao longo destes períodos de hiato ao qual você procura dedicar-se a outras atividades você busca manter-se envolvido com música de algum modo ou afasta-se abruptamente deixando de lado o artista existente em você em detrimento ao seu lado professor e pesquisador?

DM - Como eu disse, eu me dediquei de corpo e alma a carreira acadêmica, e não dava muito tempo para fazer música. Mas eu nunca me desliguei totalmente da música, seja tocando violão, seja escutando música. Essas duas atividades eu sempre mantive, de forma que na hora de voltar tudo estivesse bem conectado na minha cabeça. Porque, apesar do grande envolvimento com a carreira acadêmica, de uma coisa eu tinha certeza: que um dia voltaria para a música.


Como tem sido a receptividade do público em relação ao álbum “Trip Lunar”?

DM - Tem sido excelente. As pessoas reconhecem a qualidade do trabalho e, aos poucos, vamos voltando às rodas musicais. É um trabalho duro e de paciência, mas tenho certeza de que em pouco tempo estarei completamente de volta a música e tocando para muitas outras pessoas além dos amigos. Mas estes são fundamentais para segurar a onda nesse recomeço.


Recentemente você esteve fora do país fazendo o lançamento internacional do disco não foi?

DM - Sim, em Nova York, numa casa excelente, a SOB’s. Foi uma excelente oportunidade de testar um esquema que pretendo implementar daqui pra frente. Eu toquei com músicos locais: o Lucas Mortimer, que está por lá fazendo um curso de engenheiro de som, e uma turma de brasileiros formados na Berklee College of Music, de Boston, que é a melhor escola de jazz e música popular do planeta. O André Vasconcelos é um excelente guitarrista, que está atualmente morando em Nova York; e o Apoena Frota, baixista, João Nogueira, tecladista, e ainda com uma canja da Kel do Nascimento, na voz. Ficou muito bom, consistente, com apenas dois ensaios, essa turma tirou de letras minhas canções. É claro que eles se dedicaram a tirar as músicas antes dos ensaios, são super profissionais. Esse é esquema que pretendo implementar em outras cidades do mundo: reunir músicos locais, ensaiar e dar shows.


Há alguma coisa agendada para este segundo semestre que você poderia nos adiantar?



DM - Pois é, estamos tentando marcar shows para Hong Kong, Tóquio, Paris e Lyon, para esse segundo semestre, com esquema semelhante ao que rolou em Nova York. Vamos ver se vai dar certo. Tem também shows em Belo Horizonte e em Mariana, Minas Gerais.




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sexta-feira, 20 de junho de 2014

O TALENTO QUE SOBREPUJOU A DESPRETENSIOSIDADE

Professor universitário, Duzão Mortimer trama suas músicas nos insights de sua produção acadêmica

Por Bruno Negromonte



"Como é mesmo que anda o tempo?" esta indagação feita por Caetano Veloso e Milton Nascimento em 2008 na canção "Senhor do tempo" é passiva das mais variadas respostas e justificativas, uma vez que trata-se de algo extremamente subjetivo. Para o artista em questão o tempo tornou-se um grande aliado, pois ele soube como poucos sorver o que de melhor havia a oferecer. Duzão Mortimer foi capaz de apreender um ritmo próprio em sua carreira, criando um modo particular de conduzi-la. Talvez por isso a sua discografia seja composta por apenas três títulos em mais de 25 anos de carreira: um LP  lançado em 1988, um CD em 1997 com O Grande Ah!, grupo que conta com a presença do professor universitário e músico Marcos Pimenta (figura recorrente na carreira de Mortimer) e agora o seu primeiro trabalho solo. Isso atesta que Mortimer foi capaz de aliar-se a um tempo que foge a regulamentos e medidas. Resultado talvez daquilo que assimilou em sua vida acadêmica entre números e fórmulas desde a época em que frequentava as bancas da Universidade Federal de Minas Gerais durante o curso de bacharelado e licenciatura em Química. Para que o tempo possa acompanhá-lo faz-se necessário adequar-se aos compassos e pilares de sua arquitetura sonora, é preciso imergir em seu próprio ritmo. Este é o único requisito necessário para fazer parte desta viagem a qual o músico mineiro nos convida. Neste novo projeto batizado de "Trip LunarDuzão assina as todas melodias presentes no disco (com exceção apenas de uma, que conta com a parceria de Marcos Pimenta). Quanto as letras, Marcelo Dolabela é o autor da maioriaDas dez faixas, oito levam a sua assinatura. exceção são apenas as canções "Coração Menino" (assinada em parceria com Marcos Pimenta e Duzão) e "Fogo nu", única faixa presente no disco que conta com letra e melodia de assinadas apenas pelo mentor do projeto. 



Duzão Mortimer deu início a sua vida artística na década de 1980 e, de modo paralelo a sua carreira como músico, desenvolveu uma substanciada vida acadêmica em Minas Gerais. Bacharel e licenciado em Química desde 1980, o professor Eduardo Fleury Mortimer possui mais de setenta artigos publicados e ultrapassa a marca dos 140 trabalhos em eventos das mais diversas áreas de conhecimento. Substanciando a sua vida acadêmica na América do Norte e no Continente Europeu, Mortimer viu a oportunidade de também agregar elementos das respectivas culturas à sua sonoridade. Em "Trip Lunar" é possível observar as mais variadas influências a partir dos diversos gêneros abordados nesta verdadeira celebração que marca o seu retorno à cena musical. Em duetos com nomes da cena musical mineira Duzão interpreta canções como "Não" (em parceria com o músico José Luis Braga), "Claro feitiço" duo com o cantor e compositor Ladston do Nascimento e "Muita alegria", que traz a cantora e compositora Leopoldina Azevedo, artista que vem galgando uma espaço cada vez mais relevante no cenário musical mineiro. Do universo acadêmico Duzão contou com a adesão da coordenadora e professora titular da Pós-graduação do Departamento de Demografia da UFMG Simone Wajnman na faixa "Fogo nu" e Marcos Pimenta na canção "Coração menino". Há ainda presentes no disco a faixa homônima ao nome do projeto, a jazzística "Cidade Luz", a instrumental "Ponto de mutação", a marchinha "Quem inventou" e a "Bacia de latão", faixa com incursões no universo flamenco.

Para que a trip fosse completa o músico mineiro, sob a produção de Thiakov (que também executa violões de aço) e fotografias de Junia Mortimer, convidou para embarcar em sua sonoridade nomes como Leonardo Lima (piano elétrico e orgão), Yuri Vellasco e Lucas Mortimer (percussão e baterias), Daniela Rennó (vibraphone), Ivan Mortimer (guitarra solo), Rafael PimentaLaura Von AtzingenPedro "trigo" Santana Giodano Cícero (baixos, violinos e guitarras), Ygor Rajão (flugelhorn e trumpete), Henrique Staino (sax tenor e alto), João Machala (trombone), Joana Queiroz (clarinete), Rafael Martini (violão), Chico Amaral e Elio Silva (sax tenor), Bruno Pimenta (flautim), Alexandre Andrés (flauta), Waltson Tanaka (viola) e Claudio Urgel (violoncelo). O disco ainda conta com os arranjos de João Antunes e Pedro Licinio respectivamente nas cordas e metais, e de Rafael Martini na faixa "Fogo Nu".

Este primeiro projeto solo de Duzão mostra de modo pleno os lampejos das mais distintas influências que o substanciaram ao longo de sua formação musical. Sua arte não detém rótulo algum e não restringe-se a rica cena musical mineira, uma vez que o artista soube pincelar e apreender os mais diversos elementos por onde andou e que hoje substanciam a sua arte. Sua produção mostra-se de vanguarda a partir do momento que, na junção dos seus acordes, apresenta uma síntese daquilo que estar por vir. Em seu som tudo soa como novo, contemporâneo; e isso sem dúvida habilita-o estar entre os grandes destaques da música mineira apesar do pouco espaço na mídia. Como músico Mortimer deixa o seu lado acadêmico interferir em sua arte de modo proveitoso a partir das mais diversas alquimias e experimentações sonoras este trabalho acaba chegando como prova documental desta afirmação. "Trip Lunarsem dúvida alguma mostra que o tempo foi generoso com Duzão dando-lhe não apenas os ornamentos que destacam a música que produz, mas também todos os elementos que fazem-se fundamentais e revigorantes para seguir em frente sem consequentemente tornar-se mais do mesmo. O vigor que procura manter a partir de sua arte o capacita a sorver de cada fração dos minutos que lhe pertence aquilo que de mais precioso existe e isso o gabarita de modo singular. E é assim que de tempos em tempos o professor Mortimer deixa de lado teorias acadêmicas e elementos químicos para dar vazão ao heterônimo Duzão, cantor e compositor que esporadicamente dá o ar da graçaA cognição em conjunto com a sensibilidade, muniu o professor e químico de versos e melodias capazes de sobrepujar toda a despretensiosidade acadêmica. É o que percebe-se em "Trip Lunar" a partir de uma atmosfera composta por uma vigorosa unidade sonora. O disco acaba transformando-se em uma viagem imbuída de uma série de sensações caracterizadas pela leveza. Na audição do disco é possível a possibilidade de tomarmos conhecimento do tempo do artista e viajarmos em seu ritmo a partir daí fazendo jus a frase que José Saramago eternizou: "Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo".


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