PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

ZÉ DO NORTE, 110 ANOS


Alfredo Ricardo do Nascimento nasceu em Cajazeiras (PB), em 18 de dezembro de 1908. Era cantor, compositor, poeta, folclorista e escritor, mas antes de desenvolver tantas atividades intelectuais, pegou no pesado. Trabalhou desde os nove anos na enxada, no sertão do Estado. Depois foi apanhador de algodão e tropeiro. Sempre cantou, mas não imaginava que isso iria tornar-se uma atividade profissional.


Em 1921, foi para Fortaleza, alistou-se no Exército e acabou indo servir no Rio de Janeiro, morando, mais tarde, próximo ao morro de Mangueira. Convidado por Joracy Camargo, atuou no show Aldeia Portuguesa, obtendo grande sucesso com uma embolada de sua autoria.

Acabou sendo levado para a Rádio Tupi onde cantou adotando o pseudônimo de Zé do Norte, em 1940. No ano seguinte, foi para a Rádio Transmissora Brasileira (atual Rádio Globo) e participou de programas, como Desligue, Faz Favor e Hora Sertaneja. Passou depois para as rádios Fluminense, Clube do Brasil, Guanabara (onde teve como sanfoneiro um iniciante João Donato) e Tamoio – nessa última, atuando como animador, organizador, cantor e declamador.

Zé do Norte publicou o livro Brasil Sertanejo em 1948 e, cinco anos depois, atuou como consultor do linguajar nortista e compositor num clássico do cinema brasileiro. Sua música Mulher Rendeira ficou mundialmente conhecida após ser incluída na trilha sonora do referido filme. "Olê muié rendera, olê muié rendá. Tu me ensina a fazê renda, que eu te ensino a namorá". Quem nunca cantarolou essa me3lodia? Ela é atribuída a personalidade de Virgulino Ferreira, "o Lampião", no filme "O Cangaceiro", de Lima Barreto, de 1953, que foi considerado o melhor filme de aventura do Festival de Cannes daquele ano.

Mesmo nordestina, a música de Zé do Norte é tão enraizada no imaginário coletivo, que a maioria das pessoas interpreta "Mulher Rendeira", como herança folclórica, de domínio público e autor desconhecido. A trilha do filme, que tem parte das músicas de outros autores, em muito contribuiu para tornar a música de Zé conhecida em todo mundo, já que, na época, a obra foi assistida em mais de 80 países e por quase 50 milhões de expectadores.

Entre as suas mais de 100 composições, a segunda mais famosa é "Sodade Meu Bem, Sodade" (1953), gravada pela primeira vez pela cantora, atriz e diretora brasileira, Vanja Orico. Foi regravada por vários artistas como Nana Caymmi, Maria Bethânia, Raul Seixas, Geraldo Azevedo, e ainda por estrangeiros, como a cantora folkamericana Joan Baez.  É dele também "Meu Pião", gravada em 1971 e imortalizada na voz de Geraldo Azevedo.

Por volta dos anos 60, vários artistas, como Bob Dylan e a própria Baez foram buscar no folclore americano e na música da América Latina fonte de inspiração. E é num de seus primeiros discos, o "Joan Baez 5", que encontramos a "Mulher Rendeira", com o título de "O Cangaceiro" e com os créditos de Zé do Norte, atribuídos ao seu nome de batismo, Alfredo Ricardo do Nascimento.

Suas músicas, além de atribuídas as coisas sertanejas, têm muito lirismo, como se vê em "Sapato de algodão ("eu fui dançar/ com meu sapato de algodão/ o sapato pegou fogo/ eu fiquei de pé no chão"), outra, de versos singelos, que também é atribuída em várias regiões do Nordeste, como música do folclore, é "Lua bonita", em parceria com Zé Martins, também de 1953 e regravada por Raul Seixas no disco "A Pedra do Gênesis" (1988).

Boa parte de suas composições ainda necessitam de um trabalho de catalogação. Sua obra é cantada hoje no Brasil e no exterior, embora nem sempre a fonte seja citada. É o caso por exemplo de Caetano Veloso "It's a long way" (disco "Transa" - 1972) em que no meio da canção versos de Zé do Norte são citados ("os óios de cobra verde/ hoje foi que arreparei/ se arreparasse há mais tempo/ não amava quem amei (...) arrenego de quem diz/ que o nosso amor se acabou/ ele agora está mais firme do que quando começou"), mas, nos créditos da música, eles são atribuídos ao compositor baiano.

Além de cantor e compositor, como folclorista Zé do Norte desempenhou um grande trabalho de pesquisa sobre o ritmo do "Coco", chegando a lançar vários "LPs". "Muitas vezes ele pegava as letras das músicas cantadas pelos cangaceiros, adaptava e registrava como dele. Mas antes que alguém o questionasse, ele dizia que se não fizesse isso, as belas canções se perderiam no tempo", afirmou o jornalista e crítico musical, Ricardo Anísio. O cantor e compositor baiano Xangai, já confirmou o lançamento de um disco totalmente dedicado às composições de coco compostos pelo poeta e folclorista paraibano. Zé do Norte faleceu no Rio de Janeiro, em 1979.

A seguir, a letra de duas de suas músicas mais conhecidas:


Mulher Rendeira
Olé muié rendeira
Olé muié rendá
Tu me ensina a fazê renda
Que eu te ensino a namorá

Lampião desceu a serra
Deu um baile em Cajazeiras
Botou as moças donzelas
Pra cantá muié rendeira.

As moças de Vila Bela
Não têm mais ocupação
De que ficá na janela
Namorando Lampião.


 Sodade Meu Bem, Sodade

Sodade, meu bem, sodade,
Sodade do meu amor,
Sodade, meu bem, sodade,
Sodade do meu amor.

Foi embora e não disse nada,
Nem uma carta deixou,
Os óios da cobra verde,
Hoje foi que arreparei,
Se arreparasse há mais tempo,
Não amava a quem amei.

Quem levou meu amor,
Deve ser o meu amigo,
Levou pena deixou glória,
Levou sodade consigo,
Arrenego de quem diz,
Que o nosso amor se acabou,
Ele agora está mais firme,
Do que quando começou.

Sodade, meu bem, sodade,
Sodade do meu amor,
Sodade, meu bem, sodade,
Sodade do meu amor . . .


Fonte: Cultura Nordestina

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

PAUTA MUSICAL: JOTA EFEGÊ - "ENTRE AMIGOS"

Por Laura Macedo


No alto, de mãos dadas, Cartola e Lamartine Babo. De pé, Sinhozinho, Jota Efegê, Lan, Marcel Camus e um de seus assistentes, e Dona Zica.

Em 1984, a TVE do Rio de Janeiro produziu um especial “Entre Amigos” dedicado ao jornalista/pesquisador musical Jota Efegê. Participaram, além do homenageado, Hermínio Bello de Carvalho, Carlos Drummond de Andrade, Álvaro Cotrim, o compositor Nássarae o desenhista Álvarus. O apresentador era Virgílio Moretzohn.

No programa“Entre Amigos”, Jota Efegê falou de patrimônios da cultura popular carioca, a Festa da Penha e o Teatro de Revista. Confira os trechos da conversa:

IMPERDÍVEL! (Fonte: Oficina de Coisas- Hermínio Bello de Carvalho).

domingo, 16 de dezembro de 2018

CURIOSIDADES DA MPB

Noel Rosa cursou, em 1931, um ano da faculdade de Medicina, beneficiado por um decreto que permitiu a entrada de estudantes na faculdade. Por influência do curso, compôs a música "Coração", cujos versos dizem: "Coração, grande órgão propulsor/ transformador do sangue venoso em arterial; coração, não és sentimental; mas entretanto dizem que és o cofre da paixão."

sábado, 15 de dezembro de 2018

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior 


Tropicália ou Panis et Circenses  (1968)


O ano de 1968 como diz Zuenir Ventura, não acabou, isso porque os fatos que nele ocorreram estão até hoje por aí sendo estudados e referenciados, pois são de um significado tão grande que ainda não foram de todo mensurados. Entre os inúmeros acontecimentos marcantes daquele ano temos a revolta dos estudantes em Paris, a passeata dos cem mil no Rio de Janeiro liderada por artistas e intelectuais, a decretação do AI 5 e o lançamento do LP Tropicália ou Panis et Circenses, síntese de um movimento musical revolucionário que iria mexer com a cabeça de muita gente. 

Liderando a Tropicália estavam os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, artistas e militantes culturais que iriam modificar a estética da nossa canção e propor uma discussão que teria como fonte inspiradora outro grande movimento cultural, a Semana de Arte Moderna de 1922. Vivíamos um período de profundas transformações e a juventude tomava as rédeas dessas mudanças, no campo musical o som mais ouvido daquele ano era um álbum gravado em meados de 1967 que estava fazendo muito sucesso pela sua concepção inovadora de não ter interrupção entre as faixas, simular efeitos sonoros de gravação ao vivo e incluir ainda citára, violino, orquestra e em algumas canções arranjos psicodélicos, tratava-se Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, um dos discos mais importantes de todos os tempos. 

O Brasil respirava o clima dos festivais e sentia uma forte pressão da ditadura que tentava a todo custo calar a voz dissonante dos jovens que lhe faziam oposição, nesse contexto a rebeldia tropicalista tomava corpo e tornava-se o assunto mais badalado da época, faltava apenas o seu manifesto oficial que amadurecia a cada instante, e que viria se materializar na gravação de um disco, que além de Caetano, Gil, Gal Costa e Tom Zé, contava ainda com as participações especiais de Nara Leão e dos Mutantes. 

Com produção de Manoel Berenbein e arranjos do maestro Rogério Duprat, incluía tiros de canhões, em "Coração materno", de Vicente Celestino, interpretada por Caetano Veloso, faixas ininterruptas, simulação de um jantar ao vivo em "Panis et circenses" e sons de rua em "Geléia geral", demonstrando nesses aspectos que o disco recebia forte influencia do trabalho dos Beatles. Seu repertório tinha por objetivo sintetizar o pensamento dos artistas tropicalistas e também do próprio movimento como um todo. 

Gravado em maio de 1968 o LP trazia doze faixas, destacando-se "Parque industrial", de Tom Zé, título herdado de um livro de Patrícia Galvão, a Pagu, líder comunista e agitadora cultural nos anos vinte e trinta, onde temos um retrato bem satírico do Brasil, misturando, bandeirolas no quintal; céu de anil; aeromoças; jornal popular que não se espreme porque pode derramar; a lista dos pecados da vedete e o bordão "made in Brazil". Ao lado de "Geléia geral", de Gilberto Gil e Torquato Neto, formavam as músicas mais panfletárias do disco, sendo que esta última retrata o Brasil de forma alegórica, onde não faltam um bumba-iê-iê-boi; Mangueira onde o samba é mais puro; Pindorama, país do futuro; as relíquias do Brasil dentre outras representadas por uma doce mulata malvada e até um LP de Sinatra. A influencia aos intelectuais da semana de 22 esta no verso, "alegria é a prova dos nove" retirada do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. Em "Lindonéia", de Caetano Veloso, canção feita a pedido de Nara Leão, inspirada num quadro de Rubens Gershman, temos um bolero com uma letra pessimista e não convencional, aliás, desconstruir o formal era uma das características do grupo, onde não faltavam imagens como, policiais, sangue e cachorros mortos nas ruas despedaçados e atropelados. 

Em meio a tudo isso acrescente-se um jantar ao vivo em "Panis et circenses" incluindo na música a simulação de um disco interrompido no toca discos, dando um efeito muito interessante e que deve ter assustado muita gente, uma poesia concreta em "Bat macumba" e a celebração final com o "Hino ao Senhor do Bonfim". 

A capa foi realizada em São Paulo na casa do fotógrafo Oliver Perroy que fazia trabalhos para a Editora Abril e a sua criação foi coletiva, todos davam sua opinião e no final um resultado característico daqueles tempos de "underground" a la Andy Warrol, com pitadas tropicalistas tupiniquins como o terno e a valise de Tom Zé, o penico nas mãos de Rogério Duprat segurando como se fosse uma xícara, o Sgt. Pepper, Gilberto Gil, a saia e o penteado caipira de Gal Costa, o retrato de formatura do curso normal de Capinan, a seriedade dos Mutantes, ou será os The Mammas & the Papas? A boina de Torquato Neto e o rosto solitário de Caetano segurando o retrato de Nara Leão. Na contra-capa o texto de um suposto roteiro cinematográfico escrito por Caetano Veloso onde os personagens são os próprios tropicalistas travando um diálogo confuso e irreverente que mistura Celly Campelo, Pixinguinha, Jefferson Airplane, a maçã, butique dos Beatles e João Gilberto. 

Um disco verde amarelo, tropical, revolucionário, brasileiro, universal e eterno. 


Músicas: 
01- Miserere nóbis 
(Gilberto Gil/Capinan) 
Gilberto Gil 
02- Coração materno 
(Vicente Celestino) 
Caetano Veloso 
03- Panis et circenses 
(Gilberto Gil/Caetano Veloso) 
Os Mutantes 
04- Lindonéia 
(Caetano Veloso) 
Nara Leão 
05- Parque industrial 
(Tom Zé) 
Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Os Mutantes 
06- Geléia geral 
(Gilberto Gil/Torquato Neto) 
Gilberto Gil 
07- Baby 
(Caetano Veloso) 
Gal Costa e Caetano Veloso 
08- Três caravelas 
(A. Algueiró Jr./G. Moreau/ Versão João de Barro) 
Caetano Veloso e Gilberto Gil 
09- Enquanto seu lobo não vem 
(Caetano Veloso) 
Caetano Veloso 
10- Mamãe, coragem 
(Caetano Veloso/Torquato Neto) 
Gal Costa 
11- Bat macumba 
(Gilberto Gil/Caetano Veloso) 
Gilberto Gil 
12- Hino ao Senhor do Bonfim 
(João Antonio Wanderley) 
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes 



Ficha Técnica
Tropicália ou panis et circenses
Arranjos: Rogério Duprat 
Produção: Manuel Berembeim 
Técnico de gravação: Estélio

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

CANÇÕES DE XICO


LUZ

Era escuro. Na negritude daquela terra não se estranhava a pouca luz. Sempre foi assim e assim deverá continuar sendo por muito tempo. Pouca esperança há. Mas eis que no céu risca um relâmpago, como que a anunciar que uma claridade diferente estava por vir. Zefa esperava essa luz com a ansiedade que o tempo provoca em quem espera, embora portadora de outras luzes já tivesse sido. João, também já afeito ao escuro que predominava, aguardava tudo aquilo com a mesma ansiedade vivida quando Zezinho, filho mais velho, foi parido, tanto tempo atrás. Naquele instante, o milagre da vida se renovava, era o claro do novo, era hora do nascer. Contrações, gemidos, dores e a alegria de mais uma estrela chegando para alumiar aquele céu tão carente do claro, aquele chão tão precisado quanto as vidas de Zefa e de João. Num cantinho do quarto, à beira da cama, a chama acesa de uma lamparina a querosene ajudava a clarear a chegada de mais um. Fez-se festa na vida de todos naquela casa quando Francisco, apresentado à luz, chorou seu choro primeiro.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*



"Matriz CBO-533. Jucata, parceiro neste samba, é o pseudônimo de José Diaféria." (Samuel Machado Filho)



Canção: Vida dura

Composição: Henrique Vogeler

Intérprete - David Raw - Jucata

Ano - Setembro de 1955.

Disco - Columbia CB-10.195-A



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Ricardo Silveira

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

CURIOSIDADES DA MPB

Em 1975, Dorival Caymmi compôs "Modinha para Gabriela", gravada por Gal Costa, para a trilha sonora da novela "Gabriela", da TV Globo. Em 2001, com o filho Dori Caymmi criou o tema de abertura da novela "Porto dos Milagres", de Aguinaldo Silva, baseada na obra de Jorge Amado.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

PAUTA MUSICAL: ELZA SOARES

Por Laura Macedo



A cantora Elza Laranjeira (16/6/1925 - 22/7/1986), que foi casada com o cantor Agostinho dos Santos, contribuiu bastante na transição do samba canção para a bossa nova. A maneira cheia de beleza e toda especial de interpretar, daquela professorinha do interior de São Paulo, encantou a todos.

Gravou um LP completo com composições da dupla Tom Jobim/Vinicius de Moraes. Na contracapa do disco, o Poetinha conta, de próprio punho, porque ambos julgaram ser “a professorinha cantora paulista” a melhor intérprete da parceria, naquele momento. Trata-se do LP “A música de Tom e Vinicius”. Também foi grande intérprete das canções de Dolores Duran.

domingo, 9 de dezembro de 2018

OLÍVIA BYINGTON, 60 ANOS

sábado, 8 de dezembro de 2018

MARICENE COSTA, 80 ANOS

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Em 1958, venceu o concurso "Voz de ouro ABC" (TV Tupi). Em seguida, assinou um contrato com a emissora para apresentar um programa exclusivo em horário nobre. Ainda nesse ano, lançou seu primeiro 78 rpm, contendo as músicas "Quem sou eu?" (Dolores Duran) e "O amor morre no olhar" (Guerra Peixe), recebendo o prêmio Tupiniquim da TV Tupi como Revelação do Ano. 


Em 1959, gravou um 78 rpm com as faixas "Olhe o tempo passando" (Dolores Duran) e "Silhuetas" (Ted Moreno). 

No ano seguinte, foi contratada pela TV Record de São Paulo. 

Em 1961, apresentou-se, com Pedrinho Mattar e Manfredo Fest, na casa noturna Cambridge (SP), e com Walter Wanderley, no Captain's Bar (SP). Nesse mesmo ano, viajou para Lisboa, atuando, com o Plínio Metropolo Quarteto, em programas de rádio e televisão, no Restaurante Galo e nas boates Maxim's e Cascais, onde cantou para o rei Juan Carlos da Espanha. 

Em 1962, lançou um 78 rpm com as músicas "O bolo" (Walter Santos eTereza Souza) e "Sonha, canta, vive" (Vera Brasil). 

No ano seguinte, gravou, com o trio de César Camargo Mariano, um compacto duplo que incluiu "Garota de Ipanema", "Ah se eu pudesse", "Crediário do amor" e "Bossa na praia". 

Em 1964, registrou, em compacto simples, pela primeira vez, uma música de Chico Buarque: "Marcha para um dia de sol". 

No ano seguinte, apresentou-se no "Show da Balança", do Colégio Mackenzie, produzido por Manoel Poladian, que resultou na gravação da faixa "Amanhã", de Walter Santos e Tereza Souza. 

Em 1966, viajou para os Estados Unidos, realizando shows em Minneapollis, Los Angeles e Nova York, ao lado do trio de Walter Wanderley. Foi citada pela revista "Downbeat" e ouvida por Tony Bennet, Judy Garland e Eddie Fischer. 

No ano seguinte, gravou "Carolina" (Chico Buarque) e "Margarida" (Gutenberg Guarabyra), músicas vitoriosas no Festival Internacional da Canção, com produção de Agostinho dos Santos. 

Ainda na década de 1960, participou dos seguintes festivais: Festival Brasil Canta no Rio, em 1965, com "Moda" e "Até mais vê" (c/ Carlos Castilho e Vitor Martins), tendo sido contemplada com o prêmio de Melhor Intérprete; Festival Excélsior, em 1966, com "Inaê" (c/ Vera Brasil), classificando-se em segundo lugar; Festival Internacional da Canção (TV Globo), em 1967, com a música "Todas as coisas do mundo" (c/ Pingarilho e Marcos Vasconcelos); e Festival da Record (1968), interpretando, com o Grupo Folclórico de Solano Trindade, uma música de C. Castilho e Chico de Assis. 

Em 1970, apresentou-se, com o Som Imaginário, no cenário da peça "O Balcão", no Teatro Ruth Escobar, transformado em programa da TV Cultura. 

Trabalhou como atriz, na década de 1970. Atuou nos espetáculos " Medo de vivo é solidão" (Teatro de Bolso), com direção de Sebastião Milaré, "Morte e vida Severina", "Adeus fadas e bruxas" e "Donana". Fez cursos de teatro e de corpo com Eugênio Kusnet, Alberto D'Aversa e Marika Gidali. 

Em 1974, integrou o Grupo Eles, juntamente com Cristina Pereira, Ricardo Blat, Thereza Freitas e Rinaldo Genes, participando do show "Quem vai querer comprar bananas". 

De 1976 a 1978, retomou sua carreira solo de cantora, com o show "Tenho sede", que inaugurou o Teatro Markantti, apresentando-se, em seguida, no show "Interiores", no Teatro Anchieta, com direção de Jacob Hillel, e em outros para crianças da Febem, num projeto da Secretaria de Estado da Cultura. 

No início da década de 1980, gravou seu primeiro LP, "Maricene Costa", interpretando músicas de Paulinho Nogueira, Antonio Adolfo e Frederyko. O disco contou com a participação de Halter Maia, Sérgio Sá, Antonio Adolfo e Grupo Medusa, 

De 1981 a 1985, apresentou-se nos seguintes shows: "Mulher, vai cavar a nota", com sambas falando sobre a mulher e o trabalho, com pesquisa de José Ramos Tinhorão para simpósio feminista; "Fala poesia", com poemas musicados das poetas Olga Savary, Renata Pallottini e Hilda Hilst; "Estopim", no Centro Cultural de São Paulo; e "Não importa onde vá", com direção de Gilda Murray, no Teatro Sérgio Cardoso. 

Gravou "Joana louca", no vinil da compositora e instrumentista Priscilla Ermell. 

Em 1986, apresentou o show "Humano/Urbano". Ainda nesse ano, participou da equipe da diretora e atriz Míriam Muniz, como orientadora vocal do Curso para Cantores e Atores realizado na Funarte (SP). 

Em 1987 e 1988, participou, como convidada especial, do "Epifânia", espetáculo multimídia da Bienal Nacional, dirigido por Fernando Carvalhaes, cantando a 5ª Bachiana de Villa-Lobos e interpretando diversos personagens. 

Apresentou-se nos shows "Rosa de maio" e "Muito prazer em conhecer", sobre Custódio Mesquita, realizados na Funarte. 

Em 1992, lançou o LP "Correntes alternadas", realizando show no Teatro Crowe Plaza (SP) e em em vários estados brasileiros. 

Atuou como pesquisadora do Museu da Imagem e do Som no projeto "Os primeiros ritmos gravados no Brasil". 

Apresentou-se em shows no Masp e no Teatro do Sesi (SP). 

De 1997 a 1998, apresentou-se em diversas casas noturnas de São Paulo e em outras capitais do país com o show "Os sábios costumam mentir", com poesias de Waly Salomão musicadas por Gilberto Gil, Jards Macalé, Lulu Santos, Caetano Veloso e João Bosco, entre outros. 

Em 1999, lançou o CD "Como tem passado!!", com arranjos e instrumental de Izaías & Chorões, a partir de uma pesquisa de José Ramos Tinhorão sobre os primeiros gêneros musicais gravados no Brasil (de 1902 a 1929). Esse trabalho de pesquisa recebeu prêmio de qualidade da Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil, Palácio Itamarati, em abril de 1999. 

Em 2000, realizou o show "Como tem passado!!", acompanhada por Izaías Bueno (bandolim), Israel Bueno (violão sete cordas), Dudáh Lopes (piano e teclado), Gerson Araújo (clarinete, sax e flauta) e Eraldo (percussão), com direção artística e musical de Dyonisio Moreno e arranjos de Israel Bueno e Dyonísio Moreno, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo (SP).

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

CANÇÕES DE XICO


HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS


Ainda saboreando os prazeres de ser avô, posto mais uma cantiga que fiz pra Bernardo, chegado no dia 7 de outubro de 2013, 6 horas da noite. A letra foi ‘melodiada’ por meu amigo e parceiro Leninho, presença constante em minha obra musical e que é também o intérprete da canção. Dedico a todos os avôs que, como eu, ‘babam’ suas crias com o maior amor.

MÃO DE AVÔ
Xico Bizerra e Leninho

chegou abraçando às seis horas
aquele a quem vou segurar pela mão
será ele meu irmão mais novo
e eu serei seu mais velho irmão

qualquer muito à frente dele é nada
todo nada nele vai ser tudo
minha palavra restará calada
mas meu coração nunca estará mudo

meu poetinha, rima verdadeira
um belo soneto que canta o amor
que sejas terno pela vida inteira
serás valente, se preciso for

e alegrarás a minha cantiga
irás com ela aonde ela for
terás carinho dessa alma antiga
e a mão amiga desse teu avô

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*




Canção: Dodô borocochô

Composição: Manezinho Araújo - Fernando Lobo

Intérprete - Jorge Veiga & Ruth Barros

Ano - Julho de 1951.

Disco - Continental 16.434-A



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

ALUMIA (ZÉ GUILHERME)

CARLOS POYARES, 90 ANOS

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Capixaba, foi para o Rio de Janeiro integrar o Regional do Canhoto ao lado de Abel Ferreira.

Durante anos foi considerado o principal chorão do histórico selo Discos Marcus Pereira.

Em 1947 tocou nas rádios Clube do Brasil, Mauá e Tupi.

No ano de 1957, substituiu Altamiro Carrilho no Regional do Canhoto, atuando na Rádio Mayrink Veiga até 1964, quando foi extinta.

Nas décadas de 1950 e 1960, atuou como flautista e ator em nove filmes.

No ano de 1965, trabalhou com o grupo Opinião no show "O samba pede passagem", além de apresentar-se em espetáculos no Rio e São Paulo. Neste mesmo ano ganhou o "Prêmio Estácio de Sá" na categoria "Melhor do Ano", oferecido pelo jornal Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, pelo LP "Som de prata, flauta de lata".

Nos anos 70, participou do Regional do Evandro, apresentando-se em boates paulistas. Neste período, gravou três discos, sendo que o segundo "Som de prata, flauta de lata", destacou-se entre o conjunto de sua obra.

Em 1975, recebeu a chave de São Paulo quando compôs "Cidadão paulistano", um de seus maiores sucessos.

No ano de 1979, gravou o LP "A real história do choro".

Na década de 1980 manteve constante atividade fonográfica e tocou muito pelo Brasil e exterior.

Na década de 1990, viveu vários anos em Brasília, atraído pelo cada vez mais ativo epicentro do choro em que se transformou a nova capital.

Foi um dos idealizadores da Escola de Choro de Brasília e partiu com apoio oficial para suas missões de "embaixador" musical pelo exterior. Nesta mesma década de 1990 apresentou com seu conjunto um show que contou evolução do choro desde os ecos portugueses até os fins dos anos 90.

Considerado um dos principais flautistas do choro, já apresentou-se em várias excursões nos EUA, Europa e Japão. Com 60 anos de carreira, lançou seu primeiro CD em 1997 "Uma chorada na casa do Six", pela gravadora Kuarup. Neste disco, alternou clássicos e novidades. Além de músicas suas, o disco apresentou três composições de Roberto Barbosa, o "Canhotinho", e clássicos de Ernesto Nazareth, Orlando Silveira, Carioca, Jacob do Bandolim, Zé Toledo e Dante Santoro. O disco também prestou uma homenagem às melhores rodas de choro do país, como as da Casa do Six, em Brasília - Francisco de Assis Carvalho da Silva, o Six, é o único cavaquinista do mundo com seis dedos em cada mão, suas rodas têm por volta de 300, 400 pessoas, o que culminou com a sua ação de fundador e ex-presidente do Clube do Choro de Brasília.

Com vários LPs gravados, alguns já reeditados em CD, lançou em duo com Altamiro Carrilho, o LP "Pixinguinha de novo", disco no qual apresentou algumas composições inéditas do compositor.

Durante alguns anos apresentou o programa "Brasil seresta" e gravou dezenas de choros com seu instrumento mais original - a flauta de lata.

No ano de 2006 foi lançado o disco "Encontro dos mestres do choro" reunindo atuações raras e ao vivo de Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho, Raul de Barros, Abel Ferreira, Eudóxia de Barros, Carlos Poyares e Zimbo Trio. O encontro aconteceu em São Paulo no ano de 1977, nas comemorações dos 100 anos de nascimento do gênero choro. O show foi realizado no Palácio de Convenções do Anhembi com as participações do cavaquinho de Waldyr Azevedo; o trombone de Raul de Barros; o clarinete de Abel Ferreira; a flauta de Altamiro Carrilho e Carlos Poyares; o piano de Eudóxia de Barros e o grupo Zimbo Trio (Luiz Chaves, baixo; Hamilton Godoy, piano; e Rubens Barsotti, batera). Somente lançado em disco quase 30 anos após, a fita foi recuperada pelo produtor Decio Fischetti e traz a pianista Eudóxia de Barros e o flautista Carlos Poyares interpretando "Brejeiro" e "Apanhei-te cavaquinho", ambas de autoria de Ernesto Nazareth.


Fonte: Dicionário da MPB

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*


Vidraça

Demorei a escrever sobre Praia, disco que Mariano Marovatto lançou em 2013, por pura incapacidade de verbalizar o que sinto e penso a cada audição. Digo isso para afirmar a caoticidade desse texto constipado, mas urgente para sair.
Desde o primeiro contato, percebi que o disco precisava de muitas escutas. Como sempre faço, seja com um livro (um poema), seja com um disco (uma canção), tentei ouvir Praia em vários momentos, em diferentes situações - também de frente para o mar - e todas as vezes o disco me diz ter vindo do fundo escuro de um coração tropical. De outra margem possível e mais real, entre o solar e o lunar, entre a tristeza e a felicidade, porque o rigor formal e o experimento sonoro de Praia ao mesmo tempo nega e expõe algo profundo do Brasil, de nossa genética e contemporaneidade.
Marovatto decalca experimentos sonoros, a fim de compor um cântico íntimo e internacionalizante, roçando outras línguas. Para os sujeitos cancionais criados por Marovatto, a praia é um lugar entre o mar (aberto, sem cais) e o asfalto (opressor, sem salvação). A praia é ilha, como bem observou Ismar Tirelli Neto: "A Praia, aqui, é claustrofóbica. Mesmo que fosse imensa, mesmo que fosse a perder de vista – estaria toda ela contida em seus “botões”. Praia de ilha, praia de náufrago – uma solidão populosa de vozes espectrais, chiados fantasmáticos, dissonâncias, sons cuja procedência não conseguimos muito bem situar".
É bonito perceber como que sujeitos estranhos, que tinham tudo para "nadar e morrer na beira da praia" pairam a milímetros da areia (cama sonora), sem que isso indique redenção e/ou finitude. Tal resultado é obtido, tanto no procedimento de decalque sonoro já mencionado, quanto no apagamento da voz do cancionista. Assim, como um gesto de contra-selfie, ou um selfie por dentro do olho da câmera (sempre lenta), Mariano está e não está nos sujeitos das canções.
Cada espectro vocal que aparece em Praia está movido por uma paixão que reapropria os sujeitos cancionais com um vigor abstrato pouco habitual em canção. Abstrato e geométrico, naquilo que esse conceito tem de rigor, de exatidão, de movimento em direção à certeza.
Ouça-se o exemplo de "Vidraça", de Mariano Marovatto e Romulo Fróes. Aqui, a canção é pedra. Pedra é palavra escrita na palma da mão, essa "epiderme da alma", como Arnaldo Antunes cantou. Há um convite à audição da rua, das tais "vozes das ruas". "Pega essa pedra, leva pro colchão", diz o sujeito. A pedra-canção é eco e silêncio dessas vozes. Mas a rua é preciso ser escutada no cotovelo, ou seja, na espera, no devir, assim como o ciúme que "dói nos cotovelos, na raiz dos cabelos, gela a sola dos pés", como canta Elza Soares.
O sujeito de "Vidraça" tem ciúme da rua? Ele sugere que se "não tem vidraça no cemitério", esse campo santo povoado de vozes, só resta levar a pedra pro colchão. A pedra atravessa a voz e a melodia. E intimida: "Me conta agora / o teu segredo / sai dessa banda / derruba o prédio / desliga o rádio / me dá remédio / deságua logo essa constipação".
Que banda é essa mencionada pelo sujeito da canção? Banda musical, constipada e urgente de soltar o som? Outra banda da terra, oposta à banda em que ele vive? Essas questões são intensificadas na estrutura formal da canção. Tudo é dito/cantado numa quase-vinheta em câmera lenta. "E nunca o ato mero de compor uma canção / Pra mim foi tão desesperadamente necessário", cantaria Caetano Veloso.
A antena parabólica de Praia capta videoclips que testemunham e interrogam a melancolia tropical dos sujeitos das canções, sujeitos presos na praia-ilha à espera de vozes marinhas, sirênicas. Marovatto dilui esse aglomerado na água poluída do sangue poético-cancional. E o segredo dói pra fora na paisagem, arde ao sol do fim do dia. E mais não ouso dizer.


***

Vidraça
(Mariano Marovatto / Romulo Fróes)

É bem mais fácil
não tem mistério
palavra escrita na palma da mão

Escuta a rua
no cotovelo
deserto, asfalto, latido de cão

Não tem vidraça
no cemitério
pega essa pedra, leva pro colchão

Me conta agora
o teu segredo
sai dessa banda
derruba o prédio
desliga o rádio
me dá remédio
deságua logo essa constipação





* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

JOÃO PACÍFICO, 20 ANOS DE SAUDADES...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

PAUTA MUSICAL: O "OFICINEIRO" HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO

Por Laura Macedo



Nassif e amigos, no ofício da garimpagem encontrei o recém inaugurado website Oficina de Coisas & Reparos - proposta pelo multifacetado Hermínio Bello de Carvalho – que divido, agora, com vocês.

Originalmente, a Oficina de Coisas foi uma série de aulas/palestras que Hermínio ministrou durante o ano de 2007, na Escola Portátil de Música, projeto dirigido pelos músicos Maurício Carrilho e Luciana Rabello. Ali, semanalmente, o oficineiro – como ele se auto-intitula – promoveu a sensibilização e instigou a percepção artística de dezenas de jovens estudantes. A cada encontro, partindo de um tema específico, Hermínio “passeava” pelos variados universos da arte – literatura, pintura, fotografia e, naturalmente, a música.

A interação com os alunos era feita por meio de um material didático inovador – as chamadas “apostilas sonoras” –, com textos e atividades criadas pelo próprio Hermínio. A orientação presencial do oficineiro tinha como objetivo estimular o pensamento e a ação. Prova disso foi um concurso de monografia instituído pela Oficina sobre o tema “Onomatopéia musical”, que logo desdobrou-se em livro e, depois, numa série de cinco espetáculos encenados pelos alunos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro.

Agora, com a criação do website Oficina de Coisas & Reparos, a atividade foi transposta para o ambiente virtual da internet. Na primeira sexta-feira de cada mês, durante o período de um ano, será publicado um texto de Hermínio no formato “apostila sonora”, isto é, um artigo propondo reflexões e atividades aos leitores. Este website é um espaço de debates, onde os internautas podem interagir com Hermínio, fazendo perguntas, esclarecendo dúvidas e enviando sugestões de pauta.

O projeto é mantido com recursos provenientes da seleção pública de projetos (categoria Midia Digital) da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

Saiba mais, aqui.

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior

Luiz Melodia - Pérola Negra (1973)

A inegável influência negra na musica brasileira transformou-a numa das mais ricas do planeta, se não fossem nossos irmãos africanos que para aqui vieram sofer no cativeiro infortúnios de toda ordem não teríamos a oportunidade de penetrar e incorporar toa a sua riqueza cultural, mas se o preço para essa inserção da cultura negra em nossos costumes foi muito dura e cruel o que dela temos hoje é um patrimônio inestimável. Deve-se também aqui exaltar a obstinação e a luta de nossos ancestrais africanos em não deixar que suas matrizes culturais fossem excluídas da convivência cotidiana de nossa sociedade impondo-a com muita luta a sua penetração e adquirindo ao longo da história o lugar de destaque que hoje muito nos orgulha. Dessa contribuição temos no caso da musica popular o samba como a sua maior representação. Contudo, é importante ressaltar que o Brasil mesmo conservando a sua integridade cultural sempre esteve aberto a sofrer influencias de outros povos e a incorporá-las ao nosso acervo artístico subtraindo dessas manifestações alienígenas apenas a forma mas enriquecendo-a com um conteúdo nosso, desse modo tudo o que aqui se produz ou se produziu acaba tendo uma conotação verde amarela. 

É claro que há algumas exceções como por exemplo o funk e o rap que incorporam elementos da cultura negra norte americana e transformam nossos jovens de periferia ou morros em meros coadjuvantes de negros americanos de bairros como o Bronks de Nova Iorque, numa inconsciente tentativa de sobreviver a sombra e ao espelho de seus pares da América do Norte. Mas se a problemática social daqui é mais cruel e existem especificidades que nos diferenciam dos americanos, nada justifica que copiemos uma arte que so tem características nacionais apenas no modo de se expressar literariamente, se é que podemos chamar de literatura as letras de raps e funks (argh!). De resto, roupas, acessórios, modo de ver e sentir a vida espelham-se nos seus ídolos da parte rica do planeta sonhando em ser um dia como eles.

Mas se a visão pode ser contestada ou ate considerada radical por muitos, vejamos o que seja então cultura brasileira formada por influencias musicais estrangeiras mas inegavelmente com sabor brasílico, puro. Essa fusão rítmica que invadiu nossa praia nos finais do sessenta e adquiriu substancia no inicio da década seguinte teve alguns representantes que hoje são tidos como elementos fundamentais para a compreensão da musica popular enquanto atividade cultural e de afirmação de nacionalidade.

Logo depois da consagração de Jorge Ben, do surgimento da Tropicália e da ascenção de Tim Maia novas tendências se vislumbravam para a musica popular que buscava caminhos alternativos para uma afirmação cultural que não desprezava o que estava sendo realizado fora de nossas fronteiras, mas buscando nela elementos que incporporados ao nosso padrão tradicional revitalizariam a nossa canção e daria a ela uma feição contemporânea e universal. Essa visão estava baseada principalmente na fusão do rock, do blues e da black music com a tradicional MPB. Um dos artistas que souberam captar este momento produzindo uma arte pessoal e instranferivel foi o carioca do morro do Estácio, Luiz Melodia. Nascido num berço do samba a sua musica receberia influencias que a unia a tradição de bambas como Ismael Silva, Newton Bastos, Alcebíades Barcelos e Armando Marçal incorporando elementos tropicalistas fundindo-os com o som que vinha da terra dos inaques, nacionalizando-o e surpreendendo pela qualidade literária e musical, ou seja revealando uma nova linguagem de produzir musica brasileira. 

Depois de ter algumas de suas composições gravadas por nomes como Gal Costa, Perola negra titulo de uma de suas mais conhecidas canções, composta inicialmente com o nome de My black mas substituída a pedido do poeta baiano Wally Salomon que a apresentou a Gal tendo esta interpretado e lançado do disco show Fa-tal o sucesso foi imediato e o nome de Luiz Melodia começava a se firmar de modo irreversível. Em 1972 Maria Bethania gravaria no LP Drama outro sucesso do jovem compositor, Estácio, holly Estácio, musica em que se observa divisões rítmicas inusitadas realçando a sua musicalidade ao nível da própria camada fônica do texto. 

De bem com o sucesso como compositor faltava se apresentar como interprete de suas próprias obras, desse modo lança seu primeiro disco em 1973 com o titulo de Pérola negra, surgido com uma provocante mistura de estilos musicais como por exemplo, pop em Vale quanto pesa; forró, em Forró de janeiro; rock balada, em Objeto h, soul em, Abundantemente morte, rock, em Pra aquietar; choro, em Estácio eu e você, mpb/pop em Magrelinha, a surpreendente Farrapo humano em que ele transita por diversos estilos conseguindo nessa fusão rítmica uma linguagem que retrata seu universo trágico e violento, caracterizado pela sua origem de menino pobre dos morros cariocas, alem das já citadas e gravadas pelas interpretes baianas.

Um caldeirão da mais alta qualidade que revela a busca de novas tendências musicais cujos resultados é a universalização da musica brasileira mantendo, porem, sua essência preservada. Desse modo atraves da sensibilidade e percepção artística de Luiz Melodia, vemos que quando a influencia é digerida na dose certa ela acaba por se tornar um produto de marca registrada verde amarela, afinal é preciso olhar para frente, observar tendencias, absorve-las, mas manter-se fiel a tradição, isso é revigorar e amadurecer a nossa estética musical, já a cópia, é um sinal oposto a todas essas questões. Desse modo ouvir Luiz Melodia, neste disco clássico/contemporâneo é poder observar que a musica brasileira se adequa mas não perde sua integridade, e é assim que deve ser, sempre.


Músicas: 
01) Estácio, eu e você (Luiz Melodia)
02) Vale quanto pesa (Luiz Melodia)
03) Estácio, holly Estácio (Luiz Melodia)
04) Pra aquietar (Luiz Melodia)
05) Abundantemente morte (Luiz Melodia)
06) Pérola negra (Luiz Melodia)
07) Magrelinha (Luiz Melodia)
08) Farrapo humano (Luiz Melodia)
09) Objeto h (Luiz Melodia)
10) Forró de janeiro (Luiz Melodia)

Ficha Técnica
Direção de produção: Guilherme Araújo
Direção musical: Perinho Albuquerque
Direção de estúdio: Sergio M. de Carvalho
Técnicos de gravação: Luigi, Luiz, Paulo Yeddo
Estudio: Phonogram/Somil
Arranjos: Perinho Albuquerque/Arthur Verocai/
Corte: Joaquim Figueira
Fotos e capa: Rubens Maia

domingo, 2 de dezembro de 2018

TONINHO HORTA, 70 ANOS

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