PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

INTUITY BORA BORA JANGA

Siga a sua intuição e conheça aquela que vem se tornando a marca líder de calçados no segmento surfwear nas regiões tropicais do Brasil. Fones: (81) 99886 1544 / (81) 98690 1099.

ZÉ RENATO - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica de sua trajetória como instrumentista, compositor e intérpretes em diverso dos projetos nos quais participou.

SENHORITA XODÓ

Alimentos saudáveis, de qualidade e feitos com amor! Culinária Brasileira, Gourmet, Pizza, Vegana e Vegetariana. Contato: (81) 99924-5410.

QUEM FOI INALDO VILARIN?

Autor de canções como “Eu e o meu coração” (gravada por nomes como João Gilberto e Maysa), Inaldo Vilarin é mais um na triste estatística de um país sem memória

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sábado, 19 de agosto de 2017

PROGRAME-SE


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CANÇÕES DE XICO


MADRUGADA, 3 HORAS


São 3 horas. Da manhã. E nada do sono chegar. Estará ele vindo de trem, dos antigos, maria-fumaça à frente, a puxar-lhe vagarosamente? Ou, pior ainda, estará vindo no lombo de um burro velho e preguiçoso? Suas contas estão em dia, seu coração passou recentemente por consulta e o doutor garantiu-lhe uma saúde boa. Também não fuma, bebe apenas socialmente e não faz maiores extravagâncias. Até dorme cedo, quando o sono lhe dedica amizade. Do ponto de vista amoroso sua situação também era 12 por 8. Sei apenas que são 3 horas. Da manhã. E o sono não chegou. Àquela altura melhor que não chegasse mais, pois dali a pouco haveria de levantar e começar um novo dia, igual aos últimos, parecido com os futuros, com todas as horas acordadas, todos os minutos despertos, todos os segundos alegres e saltitantes. Como agora. Embora o relógio marcasse 3 horas. Da manhã.

COMEÇA POR PINTAR A TUA ALDEIA...

Dando início a série de reportagens em comemoração aos 75 anos do cantor e compositor pernambucano Bráulio de Castro, hoje destacaremos a intrínseca relação entre a sua obra e o seu torrão natal

Por Bruno Negromonte





Nada mais adequada do que a citação do russo Leon Tolstoi para batizar esta matéria. Quando o escritor eternizou a frase "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia" não imaginava que anos depois, de modo inconsciente, alguns levariam a sério tal afirmação em um país tropical a milhares de quilômetros distância do autor. Da poesia à música, muitos nomes vem ao longo dos anos enaltecendo a beleza natural de canto a canto do nosso país. De um lado, fala-se da fauna em canções como "Urubu", "Passaredo", "O rouxinol", "As baleias" a partir de inspirações pontuais de compositores que ganharam notoriedade nacional; do outro nossa flora é enaltecida a partir de registros como "Sabor colorido", do cantor e compositor pernambucano Geraldo Azevedo entre tantas outras que registram em verso e prosa toda a diversidade que é peculiar ao nosso país. Soma-se a este contexto personagens como o índio (a exemplo de "Cara de índio" e "Um índio"), a preocupação com a preservação do meio ambiente ("Xote ecológico") e enaltação do mesmo ("Festa da natureza"). Somas-se a este contexto, não podemos deixar de citar nomes dos saudosos Dorival Caymmi (que fala com uma propriedade singular do mar, do chão e das peculiaridades da Bahia como poucos) e Luiz Gonzaga (que ao lado de seus notáveis parceiros foi capaz de retratar o Nordeste como um lugar unidimensional). E é neste Nordeste provinciano e de vasta riqueza natural, onde cada um dos seus recantos inspiram versos e melodias, que outros nomes buscam retratar a verdadeira identidade de uma região singular, onde o Sertão surge como espaço privilegiado, muitas vezes tomado como "o lugar em que reside a nossa autentica nacionalidade" como bem definiu Maria César Boaventura.



Foi nessa privilegiada região que nasceu Bráulio de Castro, cantor e compositor que chega hoje aos 75 anos de vida (onde cerca de seis décadas desta vem sendo dedicada à música). Filho de bom Jardim, cidade do agreste pernambucano localizada a pouco mais de 100 quilômetros da capital, o cantor e compositor cresceu entre a capital e esta cidade berço natal de grandes musicistas e que por isso chegou a ser batizada também como "a terra da música". Na infância e juventude teve a oportunidade de conviver com nomes como o do maestro Levino Ferreira (nome que se destacou como um dos maiores compositores do estado a partir de valsas, maracatus, peças folclóricas e religiosas, e principalmente frevos). Autor de significativo destaque no gênero frevo-de-rua, Levino teve uma intrínseca relação com o avô de Bráulio de Castro, o escultor e músico Admário Gomes de Castro presidente fundador em 22 de outubro de 1932 do Grêmio Litero Musical Bonjardinense. Soma-se a estes, outros músicos a exemplo de Airton Barbosa (Fundador do Quinteto Vila Lobos), Mestre TetéDinamérico SedíciasDimas Sedícias, Maestro Correia de CrastoJosé Pessoa Sedícias (o Zé Bague) que corrroboraram não apenas para despertar o interesse do menino Bráulio como também, anos mais tarde, serviram de inspiração para algumas das canções que compôs relacionadas a cidade que lhe deu a régua e o compasso da composição. Vale o registro também de uma bucólica beleza e de um cotidiano que já não é mais possível observar nas cidades interioranas, mas que vive nas reminiscências do compositor inspirando-o para traduzir e eternizar em versos e canções muito daquilo que lhe constitui.

Com 51 canções dedicadas ao seu torrão, Bráulio de Castro é, sem sombra de dúvidas, o compositor que mais enalteceu sua terra natal. Não há compositor que dentro de sua obra já tenha dedicado 52 canções ao seu berço natal (se existe, desconheço). De modo despretensioso, o bonjardinense registra, com olhar clínico e lírico os casarões em estilo europeu, as Igrejas, a Pedra do Navio (que ilustrou a capa do primeiro álbum em homenagem a cidade), entre outras paisagens e personagens que eternizaram-se a partir da voz do próprio compositor assim como também do auxílio luxuoso de nomes como o de Fátima de CastroMaciel Melo, Caju e Castanha, Genival Lacerda, Walmir Chagas, Expedito Baracho, Ivan Ferraz, Dominguinhos, Petrúcio Amorim, Sagrama, Djalma PiresCoral Batutas de Bom Jardim entre outros nomes de relevante expressão do cenário musical que contribuíram com talento e sensibilidade para eternizar, sem sombra de dúvidas, o município mais enaltecido em verso e prosa do Estado de Pernambuco a partir de três excelentes álbuns lançados: "Meu Bom Jardim" (lançado ainda na década de 1990), "Bom Jardim - Terra da música e das flores de ouro" e "Minha terra" (lançados ao longo da última década juntamente com os livros "No Tempo da Pândega e do Deboche" e "Arrancaram os olhinhos do cavalo e outras estórias eplopéticas"Vale o registro que o autor e compositor ainda tem em sua bibliografia o livro "Vamos lá Dentro – No Tempo da Bacia d’Água", pela Editora Bagaço, que traz como tema histórias presenciadas e ouvidas sobre a vida boêmia e notívaga da capital pernambucana a partir da avenida Rio Branco, famoso reduto onde mulheres, em décadas passadas, se prostituíam.  

Merecedor de reconhecimento por parte do Guinness World Records como o autor musical que mais enaltece a sua terra a partir de registros fonográficos, o compositor pernambucano vem sendo capaz de traduzir em arte peculiaridades extraídas de uma memória privilegiada e lembranças de uma época que hoje só existe no imaginário popular de sua região a partir de personagens como Dona Santa Parteira, Mestre Faustino, Beatriz dos espelhos, Dotô Mota, Zé Bague, Benedito e o seu terno, Marly Mota,  Viana, Cabo Velho, Mestre Noventa, Zé Gomim, entre outros. Há também o registros da típica rotina interiorana onde Bom Jardim, longe dos holofotes tão comum aos grandes centros urbanos, ganha destaque na música popular brasileira a partir dos mais distintos gêneros existentes em nosso cancioneiro. Essa gama de ritmos impressiona não apenas por sua diversidade, mas por enaltecer uma cidade coadjuvante mas que aos olhos de um filho apaixonado passa a protagonizar valsas, frevos, forró ou qualquer outro gênero. Se muitos falam (mesmo que de modo pontual) do sertão, do litoral, Rio de janeiro, Bahia, Salvador e afins; No entanto, só um foi capaz, sem maiores pretensões, de eternizar uma cidade com tamanha cumplicidade, sensibilidade e lirismo. Com sete décadas e meia de vida e uma memória privilegiada, não é de se espantar que Bráulio de Castro, ilustre filho de Bom Jardim, ainda contribua (e muito) na confecção desse genuíno e sonoro cartão-postal.

A HISTÓRIA MUSICAL DO RÁDIO NO BRASIL

As dez canções mais populares no Brasil em 1967 (há exatos 50 anos) eram as seguintes:

01º - Gina – Wayne Fontana
02º - Coração de Papel – Sergio Reis
03º - Namoradinha de Um Amigo Meu – Roberto Carlos
04º - Love Me, Please Love Me – Michel Polnareff
05º - A Praça – Ronnie Von
06º - O Bom Rapaz – Wanderley Cardoso
07º - Bus Stop – Hollies
08º - Travessia – Milton Nascimento
09º - Quando – Roberto Carlos
10º - Somethin Stupid – Nancy Sinatra & Frank Sinatra

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*




Canção: A Morena

Composição: Chiquinha Gonzaga - Ernesto de Sousa

Intérprete - Vânia Carvalho

Ano - 1979

LP - Chiquinha Gonzaga - Evocação II.



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

OTTO FALA DE DOR, AMOR E DO BRASIL EM SEU NOVO DISCO

Cantor faz da poesia uma aliada para falar dos temas. Roberta Miranda e Andreas Kisser são convidados especiais do artista pernambucano

Por Fellipe Torres



"Canto o amor. O amor político, social, irrestrito" (Otto, músico) (foto: Zenza Said/divulgação)


Ficou difícil avaliar a discografia de Otto depois de 2009, quando o cantor e compositor pernambucano surpreendeu público e crítica com o sexto e (de longe) melhor álbum de sua carreira, Certa manhã acordei de sonhos intranquilos. Comparações à parte, o recém-lançado Ottomatopeia, sucessor de The moon 1111 (2012), apresenta faixas muito boas, sem, no entanto, causar tanta empolgação pelo conjunto da obra.

Produzido pelo conterrâneo Pupillo (da banda Nação Zumbi), parceiro de longa data, o álbum tem pontos altos justamente em dois “rescaldos”. Meu dengo (1986) havia sido regravada em dueto com Roberta Miranda (de quem Otto se diz fã) para a trilha do longa-metragem Quase samba (2015), de Ricardo Targino. Teorema, por sua vez, reuniu o suingue paraense das guitarras e teclado de Manoel e Felipe Cordeiro para compor o filme Sangue azul (2014), de Lírio Ferreira.

“Teorema é uma canção sobre amor, não chega a ser sofrência. É um som do Norte, com participação de grandes mestres contemporâneos da música feita por lá. É um som para dançar, para beber, para amar. É para safadeza”, diverte-se Otto.

Ottomatopeia se insere no contexto de uma certa continuidade discográfica de sua carreira, acredita o cantor. “Meus discos falam a mesma língua, vêm das mesmas essências, dos mesmos ancestrais. Vêm do urbano brasileiro, da interação, da homogeneidade. Eles são brasileiros do mundo, do universo. Se as pessoas acham que falo de dor, falo sim. Mas, na real, falo de amor. Canto o amor – o amor político, social, irrestrito”, defende.

O cantautor pernambucano revela que escreve diariamente. “Vivo de poesia. Morrerei poeta. Viverei poeta. Dançar é minha amplitude, é o que mais gosto. Cantar também, mas dançar é o meu gozo”, diz.


PEGADA

Anunciado como um disco de pegada mais rock, Ottomatopeia, na verdade, chama mais a atenção por forçar a mão nos sintetizadores e instrumentos percussivos. Felizmente, algumas (poucas) faixas saem ganhando com essa decisão – caso de Atrás de você (uma das mais notáveis do repertório) e É certo o amor imaginar?, cadenciada pelo coral formado por Bruno Giorgi, Marco Axé, Bactéria e Gustavo da Lua. “Essa é uma das músicas de que gosto para o show. Muito simples, é só esta pergunta: É certo o amor imaginar? A gente deveria fazer essa pergunta. Politicamente, também. Vamos imaginar uma coisa melhor. É um balanço, um suingue, a bateria... Uma música que se despedaça”, define Otto.

Das 11 faixas, outro destaque positivo é Bala, lançada como single antes de o disco sair – decisão acertada, pois se trata de uma boa candidata a hit. Escolhas menos impactantes são a parceria com o veterano compositor Zé Renato (Carinhosa) e o encerramento com Orumilá, com a participação do guitarrista Andreas Kisser (Sepultura).


Otto por Otto

OTTOMATOPEIA

Nesse disco, atravesso de novo o Brasil, vou a Belém, a Pernambuco... Nunca teria um estilo único de música. O disco sempre vai ter camadas contemporâneas. Sempre será conceitual, vou transmitir alguma história, um momento meu, um Otto atual, essa mistura. Posso garantir que não saí do que sou. Só fiz outras coisas.


ÍDOLO

Uma das pessoas que me fizeram ser quem sou foi Reginaldo Rossi. Se puder cantar tudo como ele cantou, de tango, bolero, samba... Ele foi um intérprete incrível, um visionário, ensina que palco é isto: sentimento, show. E que o público é um ser íntimo, com quem a gente precisa fazer trocas. Falo em nome de muita gente que ouve minhas músicas.


BRASIL

O disco foi feito durante cinco anos, enquanto aconteciam muitos problemas no Brasil. A musicalidade do álbum reflete esse momento do país. O Brasil está em um caos tremendo, uma ruptura da democracia terrível. A gente vai ter que sobreviver a isso tudo com muita clareza. Estou com 49 anos e sou uma pessoa que vê as pessoas muito do alto. Em breve, o Brasil voltará por mãos mais conscientizadas. A justiça vai ser feita. A bala que dispara contra o tempo volta. A gente vai passar por toda essa luta e vai retomar. O mal não cabe. Ele explode. Ele derrete. Ele se extermina. Quando a gente nasce, é para sermos bons. Não é mais questão de direita ou esquerda, é questão de justiça. As questões sociais, humanísticas, os avanços que aconteceram... Tudo isso reforça a necessidade de eleições diretas, da retomada do povo e de suas escolhas. Para um bom esquerdista, a vitória sempre virá.


INFLUÊNCIA

Vi uma exposição em Paris (do fotógrafo japonês Araki Nobuyoshi). Minha mulher me apresentou Araki e juntei as torturas sexuais (presentes nas obras dele) com a tortura brasileira de 1964, com (o presidenciável Jair) Bolsonaro. A arte faz isso. O sexo e a tortura estão muito próximos. O encarte do disco tem cenas de tortura. Sugere que a gente não pode mais ser conservador, não pode continuar nessa onda política de mercado, senão vai virar refeitório e paiol de americano.


CARREIRA

Sempre me senti humilde e abençoado de ter conhecido Fred (ZeroQuatro), Chico (Science), a música da minha terra... A vida das pessoas é como um gráfico. Venho subindo, aprendendo a cantar, aprendendo a viver com paciência. Não busquei nada disso. Sei da minha importância. Tenho um público que está sempre comigo. Com a internet, isso aumenta mais ainda. Estou nesse caminho, assim como a música contemporânea pernambucana, como o cinema pernambucano, buscando alcançar um padrão de arte e passar uma informação para o público.



OTTOMATOPEIA

• De Otto
• 11 faixas
• No Hay Duda Produções
• Disponível nas principais plataformas digitais
• Informações: www.nohayduda.com.br

PROGRAME-SE


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)


Resultado de imagem para passadisco

Cliente chega na loja:

Que bom... Cheguei no lugar certo; quero até o meio dia um MP3 com tudo de Luiz Gonzaga. É mais de 10 paus?

Tô com pressa, vou viajar no fim da tarde... etc, etc, etc.

HERMETO PASCOAL LANÇA NOVO DISCO E DIZ: 'MINHA MÚSICA É ATUAL'

O 'Bruxo' usa piano, tamanco, flauta, colher e berrante para criar melodias das 18 faixas inéditas. Até silêncio o inspira

Por Ana Clara Brant


Aos 81 anos, Hermeto Pascoal garante: 'A cabeça funciona que é uma beleza'
(foto: Bárbara Cabral/Esp.CB/D.A.Press)


Os sons, sobretudo da natureza, sempre fascinaram Hermeto Pascoal. Quando menino, no interior de Alagoas, ele “compunha” os mais variados tipos de ruídos. Com o canudo de mamona de jerimum, fazia um pífano e tocava para os passarinhos. Na lagoa, passava horas fazendo música em parceria com a água. O material do avô ferreiro era pendurado num varal. E ali ficava Hermeto, tirando sons.

“O som está em todos os lugares, até no silêncio. Som é tudo. Só para você ter um exemplo, quando a gente vai para o topo da montanha e fica ali parado, o que escutamos é muito mais forte do que qualquer instrumento. É só se deixar levar. É preciso sensibilidade para perceber isso”, filosofa o compositor e multi-instrumentista.

Não poderia haver título mais apropriado do que No mundo dos sons para batizar o álbum recém-lançado pelo Selo Sesc, reunindo, depois do intervalo de 15 anos, o “Bruxo” e seu grupo. Contando com um time de primeira – Itiberê Zwarg, Rafael Altério, Fabio Pascoal (filho de Hermeto), Ajurinã Zwarg, André Marques, Jota P., Daniel Tápia, Flavio Scubi de Abreu, Olívio Valarini Jr., Thiago Baggio, Amanda Desmonts e Gregory Fenile –, o disco duplo traz 18 faixas inéditas. Boa parte delas presta homenagem a lugares (Viva São Paulo! e Salve, Pernambuco percussão!) e, principalmente, a pessoas – entre elas, Tom Jobim, Carlos Malta, Edu Lobo, Chick Corea, Astor Piazzolla, Miles Davis e Ron Carter.

“Quando a gente estava gravando, sempre me lembrava de alguém que queria homenagear, estivesse vivo ou não. Quer dizer, vivo todo mundo está. As pessoas que não estão mais neste plano estão vivas de outra maneira”, garante Hermeto.

A última faixa – Rafael amor eterno – é dedicada a um “anjo”: Rafael, bisneto dele e neto de Fabio Pascoal. O menino morreu com apenas 3 anos, em 2016. “Ele estava tomando banho de piscina quando, de repente, pediu para ir para o colo do vovô Fabio, meu filho. O Rafa comentou que estava meio cansado e acabou nos deixando. Deus o levou... Faço um solo de piano e ainda colocamos um áudio dele falando. Ficou uma coisa bem bonita”, revela.

O disco já está disponível nas plataformas digitais de streaming. Os shows de lançamento, no Sesc Pompeia, na capital paulista, estão marcados para 12 e 13 de agosto. Na próximas semanas, o CD físico chegará às lojas. Favorável às novas tecnologias, Hermeto acredita que o sistema da música digital só veio facilitar as coisas. “Ainda mais no caso de vocês, da imprensa. Se fosse esperar o disco chegar aí (na redação) via Correios, ia demorar demais. Você já baixou lá no seu computador, escutou. É prático demais, muito interessante. A única coisa que não acho muito legal nessa história de tecnologia é tocar em algo ligado ao eletrônico. Isso não dá pra mim. Para tirar som, tem que ser algo mais tangível, físico mesmo”, afirma.


TAMANCO 

No novo disco, a experimentação se faz presente mais uma vez. Entre os “instrumentos” utilizados por ele há piano, flauta, triângulo, bateria e pandeiros, mas também bacias, panelas de barro, bonecos, colheres de plástico, apito, berrante, canos de alumínio e até tamanco de madeira.

Por falar em objetos inusitados, desde que aprendeu teoria musical, Hermeto escreve partituras em qualquer coisa que vê pela frente. Qualquer mesmo: guardanapo, abajur, bandeja, copo, cartolina, chapéu e até assento de vaso sanitário.

“Meu processo de criação sempre foi pegar as coisas e sair tirando som. Quando aprendi teoria, as músicas iam surgindo na minha cabeça e queria dar vazão a isso. Escrevia as partituras onde dava, em qualquer objeto. Meu filho até sabe: quando a gente chega num restaurante, tem que esconder os guardanapos. Senão já viu... (risos). Pra você ter ideia, a tampa da privada deu três músicas, que ainda não foram gravadas. Uma nas beiradas, outra embaixo e a terceira composição no encosto”, diverte-se.

Com 81 anos de vida – completados em junho –, Hermeto Pascoal assegura: a saúde está ótima. Vez por outra, sente um pouco de dor nos dedos. Por isso, tem de fazer exercícios frequentemente. “Minha vista é incrível. Perdi meus óculos há um tempinho, foi quando percebi que não estava precisando mais deles. Conseguia enxergar tudo. E a minha cabeça funciona que é uma beleza”, ressalta.


RAPADURA DIET 

Mesmo a diabetes, descoberta há uma década, não é empecilho para nada. Aliás, ele adora doces. “Minha família tinha muita gente diabética. Só fui descobrir com 71 anos, então agradeço a Deus. Demorou bastante. Hoje, esses produtos diet facilitam muito. Continuo tomando o meu vinhozinho, mas pena que ainda não inventaram a rapadura diet. O dia em que fizerem, vou buscá-la onde for”, avisa.

Produzindo a todo vapor – tem agenda cheia para divulgar No mundo dos sons e lança outro disco em outubro, dessa vez com uma big band –, Hermeto diz que o segredo é não premeditar nada. “A gente tem que deixar fluir, sem pensar em nada, apenas sentir. Faço música desde que nasci, sempre com esse processo. Modéstia à parte, minha música é sempre atual. O negócio é esse: intuir e sentir”, conclui.



NO MUNDO DOS SONS
. Hermeto Pascoal & Grupo
. 18 faixas
. Selo Sesc
. Disponível nas principais plataformas de streaming
. CD físico: R$ 30

RESPIRAR (SANDY)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*


Órbita

O pessoal do Les Pops já avisara: "A canção cansou de dizer coração / A canção cansou de sofrer por paixão / A canção cansou de chorar no refrão / A canção nem quer mais tocar / Cansou de não ter o que falar", retomando um tema lançado por Caetano Veloso em "Canção de protesto": "Por que será que fazem sempre tantas canções de amor e ninguém cansa e todo o mundo canta?".
Penso nessas questões enquanto ouço Órbita (2010), de Ana Clara Horta, um disco que investe mais no drama coletivo do amor, do que nas relações amorosas pautadas pelo "amor cortês", romântico. E com isso passeia pela contramão da indústria mercadológica, pois não repete o enfadonho esquema das queixas lírico/individuais.
Como amar depois de Shakespeare? Como amar depois da liberação sexual, quando os limites das manifestações do amor foram implodidos? Amar tornou-se complexo, pois, entre outras evocações, requer a predisposição de deixar o(s) outro(s) "livre para amar". Obviamente, por comodismo e conservadorismo, o processo de extroversão dessa mudança demora a chegar (chegará?) à efetuação coletiva. E o excesso de canções cantando a mesma coisa e de modo igual impera.
Enredada nos fios de náilon que tramam a rede-objeto retratado na capa do disco, Ana Clara Horta começa convidando o ouvinte: "Anda / Solta o que ainda lhe prende / Anda / Pra que o pé atrás? / (...) Deixa o amor correr ao léu". E seduz a imaginação: "Deixa / Me pegou na veia / Canto de sereia / Bote de cascavel / Vou lhe aquecer os pés / Cuidar do seu sono". 
Não é à toa que a maioria das letras das canções do disco orbite em torno do próprio gesto cancional - "Quero música na veia", "Ter um lugar pra mim / E querer visitar / Meu canto / Um som de concha do mar", "Desligando os nós / Religando os trens das ideais / Das brincadeiras, fez canção". Se musicalmente o disco parece não se diferenciar muito da tradição da canção-MPB, é na temática das letras e na voz justa de Ana Clara Horta que ele ganha em ruptura e proposta de renovação.
Todos esses versos parecem ser recolhidos na derradeira canção, "Culpe meu vício" (Ana Clara Horta), que diz: "A gente vai vivendo essa vida que vem / Descobre sem querer a vida real". É quando o cancionista investiga seus processos de composição que ele pode oferecer ao ouvinte essa "vida real", "vida em suspensão" só possível na arte, na experimentação, no devir do canto de alguém cantando. 
Ana Clara Horta compreende isso e faz de seu disco uma fonte de canções sirênicas, uma ilha de conchas do mar, uma rede sonora onde os nós são firmados com carinho e atenção. Mesmo quando flerta com o amor romântico, caso de "Melodrama", faz isso ironizando a situação amorosa, haja visto o título da canção. Antes já havia cantado, autorrefletindo-se : "E se for disfarce esse meu disparate / De ser cantora / Quero ir dar voltas na lua".
Por isso, talvez esteja na canção que dá nome ao disco, "Órbita", assinada pela própria cancionista, o núcleo que condensa o projeto de fazer a canção cantar sem a necessidade de evocar velhas fórmulas das "canções de amor" que empesteiam nossos rádios. Ouvindo os versos "Vou pra bem longe daqui / Aonde as lágrimas de chuva / Não encontrem com as minhas / Não mais" temos a confirmação dessa recusa ao fácil, ao palatável, ao consolo. Aqui a água "benze o tormento". Afinal, a voz de Ana já tinha sugerido que canta movida pelo "canto da sereia" e pelo "bote de cascavel".


***

Órbita
(Ana Clara Horta)

Vou pra bem longe daqui
Aonde as lágrimas de chuva
Não encontrem com as minhas
Não mais

Quero música na veia
O mesmo ingrediente o centeio de pães
Matinais
E se for disfarce esse meu disparate
De ser cantora

Quero ir dar voltas na lua
Pra ver minha alma se situar
Chegar à ilha desconhecida
Que é pra ver se saio de mim
E quem sabe me encontro
Numa outra órbita
Órbita
Órbita



* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

BETO GUEDES: TRÊS ÁLBUNS CLÁSSICOS SÃO RELANÇADOS EM FORMATO DIGITAL

Beto Guedes: três álbuns clássicos são relançados em formato digital

Por Marcelo de Assis


A gravadora Universal Music anunciou o relançamento de três álbuns clássicos de um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira: o mineiro Beto Guedes.

Os álbuns A Página do Relâmpago Elétrico (1977), Amor de Índio (1978) e Viagem das Mãos (1984) já estão disponíveis em formato digital nas principais plataformas do mercado.


A Página do Relâmpago Elétrico (1977)


A estreia de Beto Guedes, um dos nomes mais importantes revelados no célebre Clube da Esquina, se deu neste álbum que estampava na capa uma foto do cantor ainda menino, sem esconder as ranhuras do tempo.

Grande parte do repertório foi composto por Guedes mas contou também com as grandes parcerias de Ronaldo Bastos e Flávio Venturini. As faixas de destaque contam com Choveu, Chapéu de Sol e Lumiar, uma das mais lembradas da carreira de Beto Guedes.

Isso sem contar a faixa título e a belíssima regravação de Maria Solidária, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant.


Amor de Índio (1978)

Beto Guedes se encontrava enrolado em um cobertor na capa deste importante disco e contava com um luxuoso repertório onde a faixa-título foi admirada por outros grandes intérpretes como Elba Ramalho, Milton Nascimento, Maria Bethânia e Maria Gadú.

Luz e Mistério é uma rara colaboração de Beto Guedes com Caetano Veloso que também é parte integrante das pérolas deste álbum. Outros destaques ficam por conta de Feira Moderna, O Medo de Amar é o Medo de Ser Livre e Novena.


Viagem das Mãos (1984)

Este disco foi o maior sucesso comercial de Beto Guedes e seu repertório contou com uma versão de Till There Was You dos Beatles que virou até tema de novela. Outro grande hit foi Paisagem na Janela de Lô Borges e Fernando Brant.

Viagem das Mãos registrou a parceria de Milton Nascimento e Tunai na voz de Guedes em Rádio Experiência, além das canções O Amor Não Precisa Razão, No Céu, com Diamantes, Izabel e Nena.

O disco ainda contava com uma composição de Godofredo Guedes, o pai de Beto em Um sonho.

SOBRE ECAD E PLATAFORMAS DIGITAIS

Por Mauricio Bussab, sócio-diretor da Tratore




A confusão é generalizada, a desinformação extensa. Como funciona, afinal, o pagamento das plataformas de streaming (Spotify, Deezer, YouTube, etc.) para os artistas? E que mudanças estão sendo pedidas? E quais as decisões jurídicas que influenciam isso?

Vamos começar com uma informação que nem todo mundo sabe: as plataformas não pagam ao ECAD e quando pagam, é uma ninharia (aí é minha interpretação), apenas como uma gentileza e gesto de boa fé.

Mas as plataformas pagam os artistas? É evidente que sim: pagam e pagam muito, só não o fazem através do ECAD. Elas pagam gravadoras, as editoras, os próprios artistas diretamente, os agregadores (como a Tratore), a UBEM, os compositores… todos estes recebem e recebem muito. O grosso da arrecadação das plataformas vai para os criadores. Uma parcela minoritária fica com elas. Não caia na conversa que as plataformas são malvadas e não querem pagar os criadores. Veja quem está falando isso.

O que o ECAD quer? Que as plataformas paguem a eles. Por quê? Ostensivamente, porque dizem que streaming é execução pública (como o rádio). Isso é verdade? Não. Streaming não é execução pública quando existe interatividade, quando o usuário escolhe o que vai ouvir. Streaming é execução pública no caso de rádios online, em que o usuário não escolhe o que vai tocar. Simples assim.

E o que dizem os juízes? Basicamente concordam com isso. Em um caso recente de Oi FM versus ECAD houve ganho de causa para o ECAD. Fazia todo o sentido que o órgão fosse pago, porque a Oi FM não era interativa. Mas em outro caso recente no TJ-RJ, do ECAD versus Sonora/Terra, o ECAD perdeu a ação por unanimidade porque o Sonora era interativo. E não existe execução pública em streaming interativo. Curiosamente, o ECAD não menciona este outro caso em debates recentes sobre o assunto.

Nenhum destes processos ainda teve impacto no recolhimento para o ECAD. O caso Oi já tem recurso no Supremo.

E como se posicionam os artistas nesta questão? Por incrível que pareça, estão divididos. Os independentes tendem a preferir que o dinheiro não venha pelo ECAD, pelo histórico que têm com a associação. Grandes artistas tendem a preferir o pagamento via ECAD, porque seus contratos com as grandes gravadoras são ainda menos vantajosos do que recolher pela associação. Isso explica porque certas associações de artistas se posicionam tão claramente pró-ECAD nesta questão.

Algumas gravadoras mais antigas têm, com os mais tradicionais artistas do país, alguns contratos muito antigos, escritos na época do LP e onde o digital, se tem repasse, é muito pequeno e onde não há muita transparência. Isso contrasta com os recursos oferecidos pelos agregadores que pagam porcentagens altas e fornecem relatórios diários aos artistas e selos com quem tem contrato. E também contrasta com outros contratos mais modernos, inclusive com os assinados hoje com essas mesmas gravadoras.

Muitas vezes, quando você vê uma matéria de um grande artista que recebeu centavos do digital apesar de milhões de plays, é por isso. A plataforma está pagando a um representante que tem um contrato muito desfavorável com o artista. Porque pode ter certeza: a plataforma repassa ao próximo elo da cadeia a parte do leão. E agregadores, se forem o próximo elo, também repassam a parte do leão. Mesmo os pequenos selos modernos tem essa prática. O problema são alguns contratos antigos com certos representantes. E estes artistas estariam em melhor situação se recebessem pelo ECAD. Mas eles são poucos. A maioria preferiria manter a situação da forma como está.

O resumo da ópera é esse então: o ECAD tem interesse em entrar no pagamento feito pelas plataformas aos artistas e está brigando por isso. Hoje as plataformas pagam os artistas por outros caminhos, mais eficientes para a maioria deles, mas há exceções a essa regra.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

PAUTA MUSICAL: ARACY DE ALMEIDA E FRANCISCO ALVES

Por Laura Macedo


O que esses dois intérpretes da nossa excelente MPB – Francisco Alves e Aracy de Almeida têm em comum, além de cantarem divinamente bem?

RESPOSTA: Nasceram no mesmo dia 19 de agosto. ELE, em 1898 e ELA, em 1914, portanto, se vivos, estariam completando 119 anos e 106 anos, respectivamente.

Francisco Alves foi o mais influente cantor brasileiro da primeira metade do século. De sua estreia sob uma lona de circo em 1918 até sua morte trágica em 1952, foram 34 anos de primeiro plano, de sucesso, de impressionante presença, arrastando em sua carreira inúmeros seguidores, quando não imitadores.

Aracy de Almeida não foi apenas a intérprete do melhor da MPB. Nos tempos do Rádio, era anunciada como o "Samba em Pessoa". Grande intérprete de Noel Rosa, e quem também foi amiga pessoal, tornou-se uma das mais fortes personalidades da nossa MPB.

Quando da sua morte, alguns obituários de jornais referiram-se ao fato de ela ser apenas uma das juradas de programas de calouros, omitindo-lhe a condição de deusa do canto popular que ela sempre fora.

Para matar as saudades dos aniversariantes do dia – Aracy de Almeida e Francisco Alves -, selecionei alguns vídeos com suas interpretações de clássicos do nosso cancioneiro.







MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*




28 - Que Rei sou eu?

Meu pai tentava reorganizar a vida com Lurdes e retomar a carreira. Devido aos capítulos no Diário da Noite, amargava uma situação difícil — a segunda versão do Trio ia perdendo a credibilidade e o carinho do público, dia a dia, show a show. A atitude de contar em capítulos a vida com minha mãe deixou marcas muito feias. E revelou uma faceta que o fez se arrepender muito: a de homem ressentido, que reagira ao descobrir que a ex-mulher podia existir artisticamente sem ele e, pior, fazer sucesso! A primeira consequência foi ficar sem contrato com a Rádio Nacional, a número um, que preferiu Dalva de Oliveira a uma re-montagem do Trio de Ouro. Ele foi então para a Rádio Tupi. Mas sempre se consider-ou muito injustiçado pelo pessoal da Rádio Nacional. Contava que até contrataram pessoas para vaiá-lo num Festival de Carnaval no Teatro João Caetano, do qual participou com o Trio de Ouro e Nelson Gonçalves, de-fendendo a música “Ai, morena”. Orgulhava-se muito da forma com que enfrentara toda a vaia. Ordenara a Nilo e Noemi que ficassem no fundo do palco e mantivera-se na frente, ousadamente jogando beijos e curvando-se ao público em agradecimento, como se estivesse sendo aplaudido. Vendo aquela cena, Nelson Gonçalves, companheiro de tantas jornadas, também foi para a frente do palco e postou-se ao lado de Herivelto, até que a vaia foi diminuindo, o público começou a aplaudi-los e eles puderam cantar. Meu pai se gabava de sua experiência com plateias, aprendida no circo, que o fez sair-se tão bem nesse incidente. Mas, em seu egocentrismo, costumava “esquecer” a participação de Nelson na história quando a contava. Avaliando esse incidente hoje, o que me parece é que ninguém pagou para vaiar ninguém . Foi ele mesmo quem desencadeou a confusão e a gritaria, ao narrar pelos jornais a vida a dois, com a ajuda do jornalista David Nasser. Isso sim provocou a ira e a revolta do grande público, que até pouco tempo antes não se cansava de aplaudi-lo no Trio de Ouro, ao lado de Dalva. Foi essa narrativa e o samba “Caminho certo” que provocaram um ódio tão grande no público a ponto de não mais respeitá-lo como o grande compositor que era. O que fazia com que a vida e a carreira de meu pai fossem um pouco melhor eram o Carnaval e a sua Escola de Samba de Salão. Tudo o que se relacionasse a isso o absorvia muito: a seleção das mulatas e ritmistas, a escolha do repertório e dos figurinos, ideias novas para os shows, tudo era feito com amor e cercado de alegria. Como os participantes da escola eram pessoas humildes, não se preocupavam em analisar o que Herivelto fazia de sua vida. Para eles, meu pai era apenas o grande compositor, o patrão que oferecia a chance a quem jamais havia imaginado pisar em certos lugares, como restaurantes, boates ou hotéis cinco-estrelas. E muito menos conhecer o país, levando sua arte em cima dos palcos. A Escola tinha esse clima. Muita animação, alegria e, acima de tudo, disciplina, porque meu pai, como já disse, era homem de “enfrentar os crioulos”. Era realmente durão. Mas ai daquele que fizesse alguma coisa contra qualquer um dos componentes. Ele os protegia como se fossem seus filhos. Ou até muito mais! Não aceitava que se referissem a eles como negros, de modo pejorativo. Eram artistas, eram músicos. Somente ele podia, carinhosamente, chamá-los de crioulos ou crioulas. Uma vez, em um hotel de Maceió, não querendo hospedar negros, disseram que havia lugar somente para Herivelto. Ele não titubeou: foi para outro hotel com todos eles. Além da escola de samba, Herivelto foi se dedicando às composições, com a parceria cada vez mais intensa com David Nasser, e ao mundo político do autor, que ele começava a descobrir e a participar. Como era um guerreiro em potencial, não se deixava abater. Para o compositor que perdera sua intérprete maior, criar músicas para Nelson Gonçalves em parceria com David Nasser era uma grande válvula de escape — além de ótima fonte de renda, pois Nelson estava es-tourando em todo o Brasil, sendo chamado de “gogó de ouro”. Para ele meu pai entregou “A camisola do dia”, “Nega manhosa”, “Pensando em ti”, “Atiraste uma pedra”. De-pois, aderindo à era do tango, ele e David compuseram “Carlos Gardel”, “Vermelho 27”, “Hoje quem paga sou eu”, além da homenagem do samba-canção “Francisco Alves”, todas gravadas por Nelson. “Caminhemos” havia sido lançada em 1947 por Francisco Alves, mas ao ser re-gravada por Nelson Gonçalves, em 1951, foi espontaneamente incorporada pelo grande público à polêmica musical devido ao seu tema.

Não, eu não posso lembrar que te amei
Não, eu preciso esquecer que sofri
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois
Vida comprida, estrada alongada 
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada
Vou indo caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Te encontro no mesmo lugar

Dessa forma, meu pai foi conseguindo manter o prestígio. Afinal de contas, não havia perdido o talento e a força de compor. Entregou também alguns sucessos a uma cantora que despontava para o estrelato e que dizia, sem nenhum receio, que sua fonte inspiradora e sua grande mestra na arte de cantar era Dalva de Oliveira. Seu nome era Ângela Maria, a quem meu pai deu “Recusa”, um bolero que fez sucesso, mas não tanto quanto a música dedicada ao Dia das Mães, feita em parceria com David, no fim dos anos 50 e também gravada pela Sapoti. Com uma linguagem muito simples, “ Mamãe” foi um estouro na praça e se tornou um verdadeiro hino às mães, em qualquer classe social. Mas comenta-se que David não queria escrever o que meu pai pedia e que Herivelto, com seu feeling popular, teve de insistir muito. Ela é a dona de tudo Ela é a rainha do lar Ela vale mais para mim Que o céu, que a terra, que o mar Ela é a palavra mais linda Que um dia o poeta escreveu Ela é o tesouro que o pobre Das mãos do Senhor recebeu Mamãe, mamãe, mamãe Tu és a razão dos meus dias Tu és feita de amor e esperança Ai, ai, ai! Mamãe Eu cresci, o caminho perdi Volto a ti e me sinto criança Mamãe, mamãe, mamãe Eu te lembro, chinelo na mão O avental todo sujo de ovo Se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe Começar tudo, tudo de novo Pode-se imaginar que, à medida que as canções da polêmica musical eram lançadas, o clima entre meus pais se transformou em guerra. A população, sempre atenta ao meio artístico, se dividia em suas preferências por um ou por outro. Na verdade, mais por Dalva, como os jornais da época demonstram . Movida pelos capítulos no Diário da Noite e pelo lançamento do samba “Caminho certo”, essa guerra contra minha mãe terminou tendo como grandes vítimas nós, crianças. Até Lurdes, toda vez que ouvia esse samba no rádio, dizia: “Eu odeio essa música. Herivelto foi longe demais com isso!”. Lembro-me de uma noite no apartamento de Santa Teresa. Meu pai e Lurdes estavam no quarto, e percebi que a conversa girava sobre a briga dele com minha mãe. Ela tentava levantar o moral dele, meio acabrunhado o dia todo, e também demonstrava preocupação comigo e com Bily em meio a tanta confusão: “É essa situação toda, Lurdes… Tá uma barra!”. “É, Herivelto, você foi muito longe. Pre-cisa pensar nos meninos também .” “Eu sei, ela me fez perder a cabeça…” Não falo por qualquer outro filho. Falo por mim . Eu o vi várias vezes ficar extrema-mente constrangido ao ouvir essa música ou quando ela era mencionada. Uma vez, o constrangimento chegou a ser um desabafo, uma espécie de pedido de desculpas indireto aos filhos. Tive o prazer de presenciar esse momento. Eu já havia voltado do Exército. Estava sentado atrás no carro dele e na frente ia Otelo. Iam papeando, falando de música, para variar, quando, de repente, tocou no rádio a maldita “Caminho certo”. Eu gelei. Para minha surpresa, Otelo encarou o assunto com meu pai: “Herivelto, essa música é uma vergonha pra sua carreira de compositor. Você nunca devia ter feito”. Espantado, pude assistir a meu pai responder acabrunhado a Telinho: “É, eu sei. A gente faz cada burrada na vida… E depois tem de encarar os filhos”. Fiquei duro lá atrás, nem respirava direito para ele não se lembrar da minha presença. Os pensamentos se misturavam: eu não sabia se ele tinha dito aquilo especialmente para eu escutar ou se havia esquecido da minha presença e desabafado com Otelo, seu grande companheiro. E aí chorei mansamente, as lágrimas correndo por minha face, torcendo para meu pai não perceber. Naquele momento, apesar de ter sido uma das vítimas de sua atitude, tomou conta de mim uma mistura de sentimentos: amor, perdão e pena por ele. Era uma vítima de si mesmo. Muitos anos se passaram sem eu entender. Lurdes já havia passado a ter domínio total sobre meu pai, comandando tudo o que acontecia ao redor. Por isso, em minha cabeça ficou sempre uma pergunta: se ela, como tanta gente, teve consciência da grande besteira que meu pai fez ao contar sua vida pessoal pelos jornais, por que não usou a enorme ascendência que tinha sobre ele para impedi-lo ou, pelo menos, fazê-lo parar? Essa pergunta sempre dançou em minha cabeça. E, à medida que eu crescia e passava a entender melhor o mundo dos adultos, mais essa questão representava um vácuo em meu raciocínio. Afinal, por que Lurdes não usou de sua força para evitar que meu pai sofresse tanto? E fizesse tantos sofrer? Ao promover muitas conversas para conseguir levantar todos os aspectos dessa história, comecei a encontrar algumas peças perdidas (ou desconhecidas para mim), que foram se encaixando com perfeição ao quebra-cabeça que me dispus a montar. Elas me mostraram ângulos que, na época dos acontecimentos, eu ainda não tinha maturidade para captar. Lurdes exercia um poder especial sobre meu pai. Como não era perdidamente apaixonada por ele, tinha capacidade de controlar os sentimentos e administrar melhor tudo o que se referisse a seu casamento. Como ele mesmo a define em seu livro: “Lurdes era uma pessoa muito lúcida e com uma visão clara e pragmática da vida”. Ela pertencia a uma camada mais alta da sociedade de Porto Alegre, e a educação que recebeu deu-lhe uma visão de vida mais elegante e uma posição social melhor. Graças ao pai e à herança que este deixou, sempre teve boa condição de vida no Rio. Ela não permitia que Herivelto esquecesse que era um homem vindo do interior, com um passado de pobreza, luta e sacrifícios. Um homem mais simples, e irascível. Com ela, no entanto, não havia gritos. Talvez porque não houvesse combustão no relacionamento deles… Estando numa posição superior, Lurdes não fazia questão de modificar o quadro da separação de Herivelto. Acho até que o fato de sentir meu pai abatido em seu drama pessoal dava a ela uma força e uma estabilidade que ele não tinha, mas que passava a buscar e encontrar nela. O preconceito e a moral da época pesavam sobre ele. Não era fácil enfrentar um desquite nos anos 50, ainda mais um desquite turbulento. Com a virada dos 40 anos pesando para Herivelto, Lurdes se tornou um ponto de referência para a imagem daquele homem separado de Dalva, um ponto de honra: perdera Dalva, mas… olha que beleza de morena, também de olhos verdes, que estava ao seu lado! E tão fina-mente educada! Sobre Lurdes também pesava o preconceito da época. Já desquitada e com um filho, não podia se dar ao luxo de outra separação, a moral da época não permitiria. Além disso, investira muito naquele homem, esperara muito por ele. Aquele casamento tinha de dar certo! Percebo que cada um a sua maneira precisava do outro para vir à tona. Para emergir socialmente. Numa época em que dificilmente uma mulher desquitada conseguia outro marido, meu pai assumiu Lurdes diante do mundo. E ela, em troca, com sua postura de mulher fina e educada, conferiu a ele o status de homem de sorte, devolvendo a respeitabilidade que o escandaloso desquite roubara. Em minha pesquisa, sempre encontro referência à grande habilidade de Lurdes em lidar com as pessoas. E me chamou especial-mente a atenção um personagem do qual ela tirou grande partido para impressionar meu pai. Ela era prima de um importante jornalista, Aparício Torelli, conhecido como Barão de Itararé. O apelido, decorrência de sua grande cultura e elegante personalidade, além do fulgurante humor, foi conferido por ele mesmo em referência a um episódio da Revolução de 1930, a batalha de Itararé, “a batalha que não existiu”. Suas crônicas eram muito apreciadas; seu humor e mordacidade, temidos. Lurdes recebia o Barão em casa com frequência, o que lhe dava um grande prestígio diante do meu pai, acostumado a receber apenas artistas e boêmios. Ainda não convivera com esse tipo de intelectual. Amigos dessa época, como Messias, me relataram a deferência com que esse primo de Lurdes era tratado por eles. Inteligentemente, ela começou a estabelecer um contraste entre eles. Enquanto meu pai tinha as narrativas escandalosas de David Nasser, uma ex-esposa sendo arrasada nos jornais e nas músicas e, enfim, vivia um drama plebeu, ela gozava da companhia de um intelectual como o Barão de Itararé. Com isso, colocava-se numa posição superior diante de meu pai, social e culturalmente. Ela procurava dominá-lo sob todas as formas, tirando partido das situações que visualizava como favoráveis. Mas não sei se tinha consciência de que a sua grande força estava no fato de que não competia com ele artisticamente. Meu pai jamais permitiu que houvesse competição, na música ou no palco, que ele não pudesse vencer. Foi esse o seu grande problema com minha mãe. Ele foi ficando louco com o grande destaque de Dalva de Oliveira. Ao receber suas instruções para fazer algo numa música ou num arranjo, in-tuitivamente minha mãe superava a encomenda, aperfeiçoava, dava o seu toque inspirado e… ficava maravilhoso. Resultado: conflito. Ele ficava com os louros do sucesso porque, sem dúvida, o arranjo era dele, mas louco de raiva porque constatava que o melhor resultado era Dalva quem oferecia e era a ela que o público dirigia o aplauso mais forte. Essa situação corrompeu o relaciona-mento deles. Com Lurdes ele nunca correu esse risco: era ele o artista da casa, era ele o ser maravilhoso e especial. Mas, por isso mesmo, tornou-se um produto nas mãos de Lurdes. Aquele homem que sempre fora movido a emoção, violão e boêmia, passou a ser enquadrado em outra realidade de vida. Conversando com Messias, que também escreve um livro de memórias, ele conseguiu verbal-izar bem esse novo contexto que meu pai passou a viver: “A Lurdes foi a mulher da vida do Herivelto. A Dalva, porém, foi seu verdadeiro e insustentável amor. A Lurdes fez a agenda dele, mas bloqueou a sua criatividade”. Com a sabedoria que os anos trazem, Messias encontrou as palavras certas para o que sempre senti e pensei da vida amorosa do meu pai. Assisti ao domínio de Lurdes sobre ele crescendo à medida que sua cri-atividade ia morrendo. Ela passou a enquadrá-lo numa regra que até então não existia para ele. A música de Herivelto passou a não ter mais tanta vida. Passou a ser apenas sucessos comerciais em que o mérito muitas vezes era dos intérpretes. Sem dúvida, continuava a ser o grande Herivelto, só que enquadrado num novo mundo sem a sua formidável liberdade de expressão e, creio, com alguma consciência do que es-tava acontecendo à sua volta. Ou deixando de acontecer. Mas não havia volta para ele. Por outro lado, ela também não podia se dar ao luxo de um rompimento com meu pai. Eles tinham medo de que o bonde da vida não passasse outra vez. O momento deles era tudo ou… tudo!


* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

PROGRAME-SE


domingo, 13 de agosto de 2017

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

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Hoje retomo a abordagem a esta banda que é uma das poucas surgidas ao longo da década de 1990 que mantém-se em evidência até os dias atuais sem perder a popularidade alcançada ao longo desses mais de duas décadas de estrada. Na abordagem encerrei falando a respeito do lançamento do álbum "Calango", o disco que abriu as portas do sucesso nacional para os garotos mineiros e foi responsável por apresentar canções que hoje são imprescindíveis nas apresentações da banda. Hoje retomo a carreira da banda a partir do lançamento do disco posterior, "Samba Poconé", disco que completou duas décadas ao longo do ano passado e que foi responsável por ratificar o sucesso da banda e a levou a apresentações para além das fronteiras nacionais. A Skank chegou à França, aos Estados Unidos, ao Chile, à Argentina, Suíça, Portugal, Espanha, Itália e Alemanha em shows próprios ou em festivais ao lado de bandas como Echo & The Bunnymen, Black Sabbath e Rage Against The Machine. O single "Garota Nacional" foi sucesso no Brasil e liderou a parada espanhola (na versão original) por três meses. A canção foi o único exemplar da música brasileira a integrar a caixa Soundtrack for a Century, lançada para comemorar os 100 anos da Sony Music. "Samba Poconé", inspirado nos filmes da Atlântida com Zé Trindade, Renata Fronzi e Grande Otelo e nos pequenos circos que percorrem o país, foi responsável por os discos da banda ganhar edições norte-americanas, italianas, japonesas, francesas e entre outras em diversos países ao redor do mundo. No Brasil, o disco chegou a 2 milhões de cópias vendidas e trouxe como  "Tão seu", a já citada "Garota Nacional" e "Uma partida de futebol", canção responsável pelo convite a participar do álbum "Allez! Ola! Olé!", disco oficial da Copa do Mundo de Futebol de 1998. O disco vendeu 1.800.000 cópias.

Desde então a banda vem acumulando diversos hits e projetos exitosos a partir de discos como "Siderado" (lançado em julho de 1998, o disco traz sucessos como "Resposta" e "Saideira"  e vendeu 750 mil cópias), "Maquinarama" (Vale o registro de que a partir deste disco a sonoridade da Skank sofre uma sutil modificação. "Maquinarama" é considerado um divisor de águas na carreira do grupo, que já não mais utilizou metais em suas gravações. O disco vendeu cerca de 250 mil cópias com destaque para a canção "Balada do Amor Inabalável"), o primeiro projeto "MTV ao Vivo em Ouro Preto" (lançado em 2001 e responsável pela venda de mais de meio milhão de cópias e a primeira posição nas paradas de sucesso para a balada "Acima do Sol"), "Cosmotron" (que chegou às lojas em 2003 trazendo como destaque as canções "Vou deixar" e "Dois Rios"). Nessa época a banda vive uma experiência inédita: através dos novos formatos de comercialização, é o ringtone com o maior número de downloads no país. Ainda constam na discografia da banda a coletânea "Radiola" (2004), "Carrossel" (Na época do lançamento de "Carrossel", o Skank também disponibilizou todo o conteúdo do álbum em um aparelho de telefone celular. Com esta ação, o Skank tornou-se a primeira banda brasileira a fazer esse tipo de ação mobile. O modelo W300 da Sony Ericsson, que vinha com todas as músicas do álbum de 2006, vendeu mais de 75 mil unidades e rendeu para a banda o primeiro Celular de Ouro do Brasil, certificação reconhecida pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD)). Como se ver, o sucesso nacional da banda fez com que a banda descartasse todas as pretensões de uma carreira internacional, embora o grupo tenha participado de inúmeros festivais pelo mundo afora.

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

JOÃO FALCÃO E ISADORA MELO PREPARAM ESPETÁCULO DORINHA, MEU AMOR

Teatro Arraial Ariano Suassuna recebe, em setembro, a estreia do espetáculo que o diretor descreve como "show teatral ou um teatro musical"

Por Mateus Araújo



João Falcão e Isadora Melo já trabalharam juntos na série Amorteamo e no espetáculo Gabriela, Um Musical


SÃO PAULO - Com A Máquina (2000), João Falcão fez uma revolução no teatro brasileiro, à beira do Rio Capibaribe, no Recife. Ousada na estética, forte no texto e com um elenco de impressionantes atores (a peça revelaria ao Brasil Lázaro Ramos, Gustavo Falcão, Wagner Moura e Vladimir Brichta), a história de amor de Karina e Antônio, ambientada na cidade sertaneja chamada Nordestina e encenada no então Teatro Armazém 14, se tornou uma das principais obras da carreira do diretor pernambucano radicado no Rio desde 1996.

São 17 anos que separam A Máquina, essa última criação de Falcão no Recife, do regresso artístico do diretor à sua cidade natal. Em setembro, ele estreia no Teatro Arraial Ariano Suassuna Dorinha, Meu Amor, "um show teatral, ou um teatro musical", brinca. A montagem é uma parceria de João Falcão com a atriz e cantora Isadora Melo. A moça foi dirigida por ele na série Amorteamo, em 2015, e no espetáculo Gabriela, um Musical, em 2016 ? este inédito em Pernambuco.

"Fiquei muito próximo de Isadora e aí propus criar uma coisa menor, com ela, para o teatro. Um show para Dorinha. Queríamos algo que tivesse uma temporada. Vamos ficar em cartaz toda quinta-feira", conta Falcão. "É um trabalho entre amigos. E para realizá-lo, abrimos um crowdfunding, que é legal porque envolve as pessoas, além de financiar algo independente. No momento político em que vivemos, achei que era um bom momento de fazer isso", explica o diretor, se referindo à campanha de financiamento coletivo lançada na semana passada na internet para arrecadar R$ 50 mil, que serão usados na produção do espetáculo ? até agora foram doados cerca de R$ 7 mil.



Isadora Melo

Espetáculo de amor e drama para teatros e cabarés, como resume o subtítulo da peça, Dorinha, Meu Amor junta música e dramaturgia, num estilo de teatro de revista. "Vamos contar histórias através das músicas", explica Isadora Melo, que vai cantar um repertório de clássicos brasileiros e internacionais, passando por Ângela Maria e Edith Piaf, costurados por referências à cultura pop e a lembranças pessoais. "Ainda estamos criando tudo", diz a atriz.

A peça surge na carreira de Isadora como um projeto paralelo à sua trajetória de cantora. "É uma possibilidade de explorar mais lado atriz da minha carreira. Isso acontece desde Gabriela, de maneira natural, e agora retoma numa hora incrível, e em paralelo a Vestuário", avalia a pernambucana, referindo-se ao seu primeiro disco solo, lançado em outubro. "João é uma pessoa com amplitude nacional. Um gênio. E é muito bom vê-lo voltar a atenção para Pernambuco, num momento propício, querendo estabelecer essa relação com a música, o teatro, a dança e coletivos, tanta gente massa criando por aqui".



Recife como incubadora de talentos

O desejo de João Falcão de voltar a criar no Recife surgiu em abril, após uma oficina de teatro musical ministrada por ele na cidade. "Eram 20 pessoas participando das aulas, muitos eu não conhecia. Fiquei impressionado com o talento. Aliás, sempre penso: que terra para ter talento ? e digo isso longe de qualquer bairrismo".

Dorinha, Meu amor é a primeira parte dessa retomada. "Minha ideia é fazer um grande musical com pernambucanos, no próximo ano", antecipa João Falcão. }"Um trabalho com atores e músicos locais. Eu quero que seja o primeiro de muitos outros trabalhos", completa. "Esse contato e essa volta ao Recife é um reencontro com coisas que eu não me lembrava mais: o humor, a cultura, o jeito de tratar as coisas que o recifense tem. Eu moro há tanto tempo fora, mas é sempre bom voltar. E quero encontrar mais pessoas".

Com a música pernambucana contemporânea João Falcão já estabeleceu uma relação mais próxima. "A atual geração de compositores me interessa bastante", afirma, que já teve em suas equipes nomes como Geraldo Maia, Juliano Holanda, Junio Barreto, Zé Manoel e Almério (que esteve também no elenco de Gabriela). "Certamente o novo musical será com composições de pernambucanos", garante. "Agora devo me aproximar mais do teatro. Já tenho notícias de grupos interessantes, como o (Coletivo) Angu - escutei coisas, vi trechos de vídeos - e do Magiluth. Pretendo assistir mais coisas, entender melhor o movimento".

Um dos mais pulsantes diretores de musicais do País - que resiste na criação de uma linguagem própria, centrada numa identidade nacional para essa seara teatral - Falcão defende a investida em criações originais. "Eu respeito todo mundo que faz qualquer tipo de arte, mas realmente não me interessa muito o estilo de musical franquia - que tem muita produção no Brasil e que normalmente consegue muito apoio, porque é produto testado e já teve um lançamento mundial. Nesse sentido, a gente deveria começar a arriscar mais em espetáculos inéditos, ousados, brasileiros, porque nossa música é imbatível. É preciso que a gente invista mais em teatro musical com dramaturgia".

Embora morando fora da cidade natal há 21 anos, o diretor pontua a criatividade recifense como um fator determinante na criação de obras singulares nas artes nacionais. "O Recife pode ser um centro gerador de criação de teatro musical, de espetáculos musicais e comédias. É uma cidade que tem tudo para isso. A gente já foi pioneiro em muita coisa, a gente tira muito leite de pedra. E minha cultura é muito essa, do que aprendi aqui, até meus 40 anos. O audiovisual pernambucano é uma prova disso", ressalta.

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