PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

RAUL BOEIRA E MÁRCIA BARBOSA - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Lançado recentemente, “Cada qual com seu espanto” é a primeira parceria fonográfica entre Raul Boeira e sua esposa Márcia Barbosa, atestando que a sintonia entre ambos paira para além da vida afetiva.

INTUITY BORA BORA JANGA

Siga a sua intuição e conheça aquela que vem se tornando a marca líder de calçados no segmento surfwear nas regiões tropicais do Brasil. Fones: (81) 99886 1544 / (81) 98690 1099.

EM NOVO DVD, A BANDA PEQUI CONVIDA JOÃO BOSCO E NELSON FARIA

Em seu segundo DVD, o bem sucedido projeto de extensão e cultura da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) busca suplantar as adversidades com muito trabalho, talento e parceiros pra lá de especiais.

RENATO BARUSHI E SEUS REMENDOS

A princípio nas plataformas digitais, o novo álbum do cantor, instrumentista e compositor mineiro reafirma seu talento a partir de diversos nuances.

SENHORITA XODÓ

Alimentos saudáveis, de qualidade e feitos com amor! Culinária Brasileira, Gourmet, Pizza, Vegana e Vegetariana. Contato: (81) 99924-5410.

OS AMANTICIDAS - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Batizada a partir de uma das faixas presente no disco Às Próprias Custas S.A (1983) do cantor e compositor Itamar Assumpção, Os Amanticidas chegam como titulares no time da nova vanguarda paulista.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

WILSON DAS NEVES, 80 ANOS

Em seu aniversário, Wilson das Neves lança livro e continua na estrada




Há 62 anos manejando suas baquetas com maestria, o baterista carioca Wilson das Neves completou 80 anos de vida em junho, mas vem comemorando a data nos palcos do país desde o dia 10 de junho, quando apresentou-se no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, ao longo de três noites. O momento festivo contou também com ilustres convidados. Na sexta, seu show teve participações especiais de Elza Soares e Luiz Melodia. No sábado, houve a participação do parceiro de música Paulo César Pinheiro e da cantora e pianista Maíra Freitas e, no domingo, o rapper Emicida e o músico Cláudio Jorge marcaram presença na apresentação. Como diria o próprio Das Neves, ‘Ô sorte’!. Esse bordão, aliás, é digno de nota: usado pelo baterista com frequência em suas falas, sempre em tom de alegria e exaltação, ele já virou sua marca registrada nos bastidores da MPB.

Nos três dias de shows, foi vendido no Sesc o livro Ô Sorte! Memórias de Um Imperador, uma breve biografia de Wilson das Neves, de autoria de Guilherme Almeida, lançado pela editora Multifoco. Para o palco, Das Neves diz que vai levar o repertório de seus quatro discos, nos quais também é intérprete – O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996), Brasão de Orfeu (2004), Pra Gente Fazer Mais Um Samba (2010) e Se Me Chamar, Ô Sorte (2013) –, além de sete canções inéditas. Compositor compulsivo, ele já tem centenas de canções em seu baú. “Só com o Paulo César Pinheiro, são quase 80 músicas”, revela o músico, em entrevista ao Estado, por telefone, ainda do Rio. “Faço melodia. Não sou poeta. Se não tivesse parceiros, não teria letra. Eles são importantes.

No show, há também os já mencionados encontros. Na sexta, o momento com Luiz Melodia teve Mestre Marçal. Paulo César Pinheiro que esteve com o amigo no sábado. Juntos, fizeram duas parcerias deles: Som Sagrado – que, segundo Beth Carvalho já definiu, fala tudo aquilo que todo sambista sente – e Partido do Tempo (“essa é a primeira que fizemos juntos", lembra Das Neves). No mesmo dia, a cantora e pianista Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila, participou de Estava Faltando Você. No domingo, ele recebeu outros dois convidados: Emicida, onde cantaram Se Me Chamar, Ô Sorte, de seu mais recente álbum – os dois já fizeram shows juntos e Das Neves fez participação especial na música Trepadeira, no disco do rapper, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui – e Cláudio Jorge, com o qual fzeram Traz Um Presente Pra Mim, parcerias dos dois.

"Falaram para eu convidar meus parceiros e chamei os mais chegados.” Segundo o músico, se o Chico Buarque estivesse no Brasil, também participaria, mas ele está na França, para comemorar o aniversário, no dia 19. “Ele está compondo.” E previsão de Chico voltar a fazer disco e shows? “Quando ele quiser”, responde Das Neves. Os shows em São Paulo foram registrados e devem render CD e DVD ao vivo, ainda sem previsão de lançamento.

Wilson das Neves, por vezes, é descrito pela alcunha de ‘baterista de Chico Buarque’, por fazer parte da banda do compositor há mais de 30 anos. Um dado reducionista para a nobre biografia do baterista. Das Neves é, sim, baterista de Chico, a quem costuma chamar carinhosamente de “chefia”, mas sua carreira é muito mais ampla. E autônoma. Ele já gravou com mais de 750 artistas e acompanhou mais de 100, incluindo Ney Matogrosso, Elizeth Cardoso, Elza Soares e até Sean Lennon, filho de John Lennon.

Criado no bairro de São Cristóvão, Das Neves cresceu ouvindo a trilha sonora das festas na casa da tia e também o tambor tocando no candomblé. Mas o músico só conseguiu bancar seus estudos de bateria aos 18 anos, quando passou a servir no Exército e ganhar o próprio dinheiro. Tempos depois de dar baixa no quartel, já estava trabalhando no ofício. Já o exercício de seu lado de compositor e cantor veio mais tarde. Só em 1973, começou a compor. E, em 1996, após anos tocando para outros artistas, recebeu convite para gravar suas composições. Lançou, então, o primeiro álbum solo, O Som Sagrado de Wilson das Neves. Vieram depois outros três discos. Ao falar de seus 80 anos, Das Neves diz que ainda tem muita coisa para aprender. “Continuo estudando e aprendendo.”


Biografia sobre o músico está sendo lançada

Dois projetos relacionados a Wilson das Neves – e que já existem há anos – estão se concretizando justamente na mesma época em que o baterista faz 80 anos de idade. E nem foram pensados de propósito para a data. Pura coincidência. Está sendo lançado o livro Ô Sorte! Memórias de um Imperador (Editora Multifoco, 114 págs; R$ 40), de Guilherme Almeida, descrito como uma breve biografia de Wilson das Neves. O título foi vendido durante os três dias de shows do músico no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, mas o lançamento oficial foi realizado no Rio, no dia 16 de junho, no Multifoco Bistrô, com direito a pocket show de Clarice Magalhães e convidados. Há ainda um documentário, que, segundo o próprio Das Neves, depois de muitos anos, conseguiu patrocínio e está sendo editado.


Documentário e livro recuperam vida e obra do músico. A biografia foi ideia de Guilherme Almeida, fã do baterista. Mas não chega a ser uma biografia não autorizada, pois teve a ajuda do biografado. Das Neves concedeu mais de 15 horas de entrevista para o autor e lhe deu o contato de outros entrevistados. Almeida colheu depoimentos de nomes como Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Stéphane San Juan, Elza Soares, entre outros. O posfácio é do compositor e músico Cláudio Jorge.



Discografia Oficial

Elza Soares - Baterista: Wilson das Neves (1968)

Faixas:
01 - Balanço Zona Sul
02 - Deixa Isso Para lá
03 - Garota de Ipanema
04 - Edmundo(In The Mood)
05 - O Pato
06 - Copacabana
07 - Teleco Teco Nº 2
08 - Saudade da Bahia
09 - Samba de Verão
10 - Se Acaso Você Chegasse
11 - Mulata assanhada
12 - Palhaçada


Juventude 2000 - Wilson das Neves e seu Conjunto (1968)

Faixas:
01 - Juventude 2.000
02 - Brazzaville
03 - Goin' Out Of My Head
04 - Wave
05 - Don't Go Breaking My Heart
06 - Domingo No Parque
07 - Tem Dó
08 - João Belo
09 - O Amor Esta Pra Nascer
10 - Nanã
11 - Tema Prô Gaguinho
12 - O Abominável Homem Das Neves




Som Quente É o das Neves - Wilson das Neves e seu Conjunto (1969)


Faixas:
01 - Estou chegando agora
02 - Berimbau
03 - Mambito de arake
04 - Santeiro
05 - Unidunitê
06 - Pick up the pieces
07 - Rock around the clock
The saints rock'n roll (Haley-Gabler)
08 - Os caras querem
09 - Que é isso menina
10 - O canto do pagé
11 - Tema pra Elizeth
12 - Sá Nega 



Samba Tropi - Até aí morreu Neves - Wilson das Neves e seu Conjunto (1970)

Faixas:
01 - Na na Hey Hey Kiss Him Goodbye
02 - Essa Moça Tá Diferente
03 - Sarro
04 - Vênus
05 - Repouso
06 - Raindrops Keep Fallin’ On My Head
07 - Cloud Nine
08 - Feira
09 - Evil Ways
10 - Moeda Reza e Cor
11 - Bebete Vãobora
12 - Come Together

O Som Quente É O Das Neves - Wilson das Neves E Seu Conjunto (1976)

Faixas:
01 - Estou Chegando Agora
02 - Berimbau
03 - Mambito de Arake
04 - Santeiro
05 - Unidunitê
06 - Pick Up The Pieces
07 - Rock Around The Clock (De Knight / Freedman)
08 - Os Caras Querem
09 - Que É Isso Menina
10 - O Canto do Pagé
11 - Tema Pra Elizeth
12 - Sá Nega

.



O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996)
Resultado de imagem para O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996)
Faixas:
01 - O samba é meu dom
02 - Debaixo do cobertor
03 - Soberana
04 - Som sagrado
05 - Tentação
06 - Taça de vinho
07 - Grande hotel
08 - Anftrião
09 - Um samba pro Ciro Monteiro
10 - Partido do tempo
11 - Mestre Marçal
12 - Bisavó Madalena
13 - O Dia Em Que O Morro Descer e Não for Carnaval
14 - Fundamento

Brasão de Orfeu (2004)

Faixas:
01 - Imperial
02 - Fonte de Prazer
03 - De Muito Longe
04 - Ensinamento
05 - Samba pra Mim Mesmo
06 - Jóia Perdida
07 - Amor da Minha Vida
08 - Lupiciniana
09 - Traço de Giz
10 - Resto de Dor
11 - Enganos
12 - A Divina
13 - Brasão de Orfeu


Pra Gente Fazer Mais Um Samba (2010)

Faixas:
01 - Pra Gente Fazer Mais Um Samba
02 - Não Dá
04 - Assédio
05 - Estava Faltando Você
06 - Folha No Ar
07 - Coquetel
08 - Minha Trajetória
09 - Quem Espera Nunca Alcança
10 - Passarinho De Gaiola
11 - Ingrata Surpresa
12 - Nos Braços Do Amanhecer
13 - Velha Guarda Do Império


Se me chamar, ô sorte (2013)
113090680SZ


Faixas:
01 - Se me Chamar, ô Sorte!
02 - Cara de Queixa
03 - Trato
04 - O Dono da Razão
05 - Ao Nosso Amor Maior
06 - Fragmentos do Amor
07 - Jeito Errado
08 - Peão de Obra
09 - Limites
10 - Feito Siameses
11 - Licor, Sereno e Mágoas
12 - Máscara de Cera
13 - Não Existe Mais Saudade
14 - Samba Para João



Fonte: Estadão

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

PAUTA MUSICAL: A RÉPLICA DE PEDRO CAETANO À COMPOSIÇÃO DE DORIVAL CAYMMI


Por Laura Macedo


Dorival Caymmi e Pedro Caetano


Os compositores a chamada “Velha Guarda” tinham o hábito de diante de uma determinada composição, responder com outra. Esse o caso de Pedro Caetano, quando Dorival Caymmi lançou “O que é que a baiana tem”, atacando de “O que é que tem?”.




O que é que a baiana tem” (Dorival Caymmi) # Carmen Miranda e Dorival Caymmi. Disco Odeon (11710-A) / Matriz (6023). Gravação (27/2/1939) / Lançamento (abril/1939).






Pedro Caetano, Joel de Almeida e Dircinha Batista


O que é que tem?” (Pedro Caetano/Joel de Almeida) # Dircinha Batista e Bohemios da Cidade. Disco Odeon (11743-A) / Matriz (6117). Gravação (2/6/1939) / Lançamento (julho/1939).




A jovem cantora/compositora Antonia Adnet está lançando o terceiro disco da carreira - "Tem + Boogie Woogie no Samba".


A produção coube a Antonia juntamente com o pai e grande músico Mário Adnet. Os elegantes arranjos valorizam uma seleção cuidadosa, com ótimas surpresas, descobertas no rico baú de preciosidades do nosso cancioneiro. Um exemplo é “O que é que tem?”, parceria de Pedro Caetano e Joel de Almeida, com letra que valoriza a mulher carioca, feita como resposta a “O que é que a baiana tem?” de Dorival Caymmi. Antonia divide a interpretação da música citada com a amiga e, também, cantora/compositora - Roberta Sá. Uma delícia!

O que é que tem?” (Pedro Caetano/Joel de Almeida) # Antonia Adnet com participação de Roberta Sá. Álbum - “Tem + Boogie Woogie no Samba”. Selo Biscoito Fino, 2015.



************


Fontes:

- Fotomontagem: Laura Macedo.

- Portal Cultura Brasil - Música Popular Brasileira.

- Revista Carioca (nº 194 / P. 44 /1939).

- Site YouTube / Canais: “luciano hortencio” / “Gilberto Alves Gonçalves” / “Biscoito fino”.

************

NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*



O grupo ficou besta, diante de uma farsa tão divertida e competente, de uma dupla de tanto talento, tão rock’n’roll. “Eu sou astrólogo, eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim, eu sou astrólogo, e conheço história do princípio ao fim.” Era como eles cantavam com sinceridade em “Al Capone”. Raul e Paulo, estourando um sucesso atrás do outro, atingindo o Brasil de A a Z, ídolos de pirados, friques e doidões do Oiapoque ao Chuí, estavam mergulhados em seu maior projeto: a “Sociedade Alternativa”. Fizeram até um hino, um hino-rock, um grito de guerra, que o público cantava com entusiasmo nos shows. Era um manifesto anárquico e libertário, alegre e divertido, absolutamente subversivo por qualquer
critério. Nos shows, o público gritava de punhos cerrados: “Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa!”  E Raul respondia: “Faze o que tu queres, pois é tudo da lei.” O problema era que Raul e Paulo queriam materializar a “Sociedade Alternativa”, comprar um grande terreno no interior, construir a “Cidade das Estrelas”, organizar uma comunidade com regras e estatutos baseados na doutrina satânica de Aliester Crowley, fazer um jornalzinho, promover shows e reuniões: a sociedade, de alternativa, virava civil, com CGC e tudo. E colocava a dupla no radar da paranóia militar.

As tardes na Philips continuavam animadas. No estúdio, recebemos uma visita especial: diversos executivos da matriz holandesa que faziam uma visita à filial brasileira, para ver de perto o que eles estavam considerando um fenômeno de sucesso e lucratividade. Tim Maia, que estava gravando, saiu discretamente para fumar um baseado no seu “garrastazu”, que era como ele chamava um esconderijo, um mocó, um lugar secreto, dizendo com grande lógica que  era a palavra mais “limpeza” que existia, a que menos despertava suspeitas. Claro: era o nome do ditador-presidente, general Emílio  Garrastazu Médici. O “garrastazu” de Tim era uma salinha escura, úmida e de difícil acesso, cheia de canos e bombas, onde ele fumou tranquilamente seu baseado, sem nem desconfiar que estava na central do ar condicionado: não só o estúdio como o andar inteiro foram invadidos por um cheiro de maconha como nem nas ruas de Amsterdam se sentia. Meio constrangidos, os diretores brasileiros explicaram aos holandeses que Tim, além de muito peculiar, era o maior vendedor de discos da companhia — e eles acharam tudo muito divertido. Mas Tim estava preocupado: tinha comprado um terreno no alto do Sacopã, com uma bela vista para a Lagoa, e construído uma casa destinada a ser a sede de sua gravadora Seroma (Sebastião Rodrigues Maia). Deu tudo certo. O único problema é que Tim tinha construído a casa não no seu terreno, mas no do vizinho, que entrou imediatamente com uma inédita ação de despejo. Acabou comprando o terreno do vizinho por um preço absurdo e vendendo o seu baratíssimo. Em Ipanema, no final do ano, o poeta Torquato Neto, uma das forças criativas do tropicalismo, autor de algumas de suas melhores letras e companheiro de Gil e Caetano no exílio em Londres, fechou as portas e janelas de seu apartamento e abriu o gás. Não foram só musicais as grandes transformações de Elis depois da separação de Ronaldo e do início do namoro com César Mariano. Pessoalmente, ela começou a sofrer as conseqüências da radicalização política quando foi convidada — junto com outros artistas — para cantar nas Olimpíadas do Exército.

Um convite como esse era virtualmente indeclinável. O coronel encarregado do evento ligava para o empresário do artista e convocava, amavelmente. No caso do artista “já ter compromisso”, se dispunha a “interceder” com o clube que já tinha contratado um show no mesmo dia, convencê-lo a mudar a data, num tempo em que qualquer patente militar ao telefone já fazia tremer o interlocutor. Pagava o cachê normal do artista. Mandava buscar e levar em casa. Para recusar, só mesmo dizendo que não cantava para o inimigo. E Elis cantou. Foi chamada de traidora, amaldiçoada no meio musical, colocada no temido “cemitério dos mortosvivos” que o cartunista Henfil mantinha no Pasquim. Ficou furiosa, mudou drasticamente de atitude e passou a acrescentar uma nova prioridade a seu repertório: músicas com letras políticas, mesmo que metafóricas. Mudou-se para São Paulo
e saiu da TV Globo. Caiu na estrada, de ônibus, com músicos, técnicos, produtores e assistentes, se apresentando em 36 cidades do interior de São Paulo, no que imaginava ser um circuito alternativo, de estudantes. Como Bob Dylan e Joan Baez, ela queria cruzar o país com seu pessoal, como uma família, cantando para os jovens e rebeldes, conversando com eles, cantando pela liberdade e pela resistência democrática. Mas não foi nada disto: a turnê, organizada a seu pedido pelo empresário Marcos Lázaro, não tinha shows em clubes — que Elis detestava, achava caretas e comerciais —, só em ginásios e grandes auditórios. 

Mas o público não era de estudantes, como ela esperava: os ingressos eram caros e era o mesmo pessoal que a assistiria nos clubes que ela desprezava, que gritava para que ela cantasse “Upa neguinho”, “Madalena” e “Quaquaraquaquá”, tudo o que ela não queria. No final da turnê, rompeu seu contrato de dez anos com Marcos Lázaro, não queria mais ser uma cantora “comercial”, queria prestígio e independência — e redenção política. No novo disco gravou quatro músicas da nova sensação de compositor, o mineiro João Bosco, sofisticadíssimas, com letras de alto nível artístico e político de Aldyr Blanc, mais quatro de
Gilberto Gil, reflexões existenciais como “Oriente” (“Se oriente, rapaz...”), que abria o disco.
Para completar, dois velhos sambas, talvez as melhores faixas do Lp. “Folhas secas”, uma obraprima, das últimas, do veterano Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, e um samba de velhos carnavais, um clássico popular de Pedro Caetano: “É com esse que eu vou”. Com essas duas gravações perfeitas, Elis cristalizava um estilo de cantar samba, oposto à estridência jazzística de Samba eu canto — assim e à exuberância rítmica dos sambões de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. Mínima, discreta, sintética, Elis escondia as sílabas com dicção perfeita, dava menos volume à voz, sofisticava as divisões rítmicas, valorizava os silêncios, não desperdiçava nada. Epa! Parece que ela — finalmente — também se rendeu à magia de João Gilberto. Uma parte do seu público sentiu como “frieza” e “distanciamento” esse novo jeito de Elis cantar samba; outra encantou-se com seu refinamento e sutileza, combinados com uma soberba base musical, liderada pelo piano de César, valorizando as harmonias elegantes num ritmo irresistível.

Mas, cinco anos antes, por causa de um samba, Elis provocou a ira — certamente silenciosa — de João Gilberto. João tinha criado um arranjo — vocal e instrumental — absolutamente inovador e magistral para o velho e esquecido samba “Nega do cabelo duro”, de Rubens Soares e David Nasser. Suas divisões rítmicas, suas sequências de acordes surpreendentes transformavam a música completamente. João tinha criado uma pequena obra-prima, mais uma. Empolgado, cantava-a para amigos, em casa, pelo telefone. Até que um deles, provavelmente uma, com bom ouvido e memória musical, de tanto ver João tocar e cantar, aprendeu tudo tintim por tintim. E, empolgada, mostrou ao amigo Roberto Menescal, que, mais empolgado ainda, mostrou para César e Elis, que, empolgadíssima, aprendeu e gravou, tal e qual o original. João se sentiu roubado, passou a ter um cuidado quase paranóico com o que mostrar e a quem, se aperfeiçoando na arte de jamais tocar duas vezes a mesma música com os mesmos acordes. Mas era tarde demais: o bem já estava feito. Em maio de 1973, Elis era uma das estrelas do grande evento da Philips — o festival “Phono 73” —, três noites em São Paulo com todo o seu elenco milionário reunido em duplas, algumas delas surpreendentes e provocativas, como Caetano Veloso e o rei do “brega jovem”, Odair José, grande sucesso popular com suas músicas de amor para prostitutas (“Eu vou tirar você desse lugar”) e empregadas domésticas, na crista da onda com o hit “Pare de tomar a pílula”. Mesmo sendo um festival sem prêmios, promovido por uma gravadora, na plateia do Phono 73 os ânimos estavam exaltados. O público e a imprensa ansiavam por novidades, surpresas, intervenções políticas, rebeldia e resistência. A Philips esperava gravar tudo ao vivo e lançar em três discos, valorizando e movimentando seus talentos em duetos, somando públicos, lançando novas músicas e novas versões de antigos sucessos, misturando suas estrelas estabelecidas com as jovens revelações musicais.

Quando entrou no palco, tensa e de cara fechada, Elis foi recebida com frieza pelo público passional e politizado. Entre os aplausos pouco entusiasmados, alguns assobios e uma voz raivosa que grita “Vai cantar na Olimpíada do Exército!”, provocando uma pororoca de vaias e aplausos e a réplica “Respeitem a maior cantora do Brasil”, atribuída a Caetano. Pior — ou melhor — se saíram Chico Buarque e Gilberto Gil, que tinham feito uma música perfeita para expressar o momento e o estado de espírito que vivíamos, de repressão e sofrimento, de medo e desconfiança, apropriadamente chamada, em tempos de boca calada obrigatória, “Cálice”: “Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue.” A música era um protesto tão sentido, tão doloroso e apropriado, tão óbvio, que a Censura Federal naturalmente a proibiu. Mesmo não constando da lista aprovada pela Censura, Chico e Gil decidiram cantá-la, sem a letra, só dizendo a palavra “cálice”. E assim tentaram fazer, no meio da gritaria do público, e nem isto conseguiram. O som do microfone foi cortado. Na versão oficial, por agentes da repressão, porém o mais provável é que tenha sido um funcionário mais apavorado da Philips, para evitar represálias. Ou talvez o censor, abominável presença obrigatória que acompanhava todos os shows, tenha mandado o técnico cortar o som. O fato é que Gil e Chico não conseguiram cantar — embora com isso tenham provocado ainda mais barulho.

A grande vitoriosa do Phono 73 foi Gal Costa, sem fazer política, estritamente musical e até religiosa, dividindo o microfone com Maria Bethânia na lindíssima e inédita “Oração a Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi. As duas, filhas do terreiro do Gantois, Iansã e Oxum, respectivamente, levantaram o público e no final da música, de mãos dadas, se beijaram na boca. De Gal também foi a música que se tornou o maior sucesso popular do Phono 73, uma esperta reinterpretação do velho sucesso local “Trem das onze”, um clássico “samba italiano” de Adoniram Barbosa delirantemente recebido pela platéia paulistana. O público envaidecido cantou entusiasmado com Gal o refrão edipiano. “... minha mãe não dorme enquanto eu não chegar, sou filho único, tenho minha casa pra olhar não posso ficar (breque), não posso ficar.” 

Depois de uma viagem a Paris, Londres e Nova York, que Marília não conhecia, passamos a morar juntos numa cobertura em Copacabana. Convidada pela TV Globo para estrelar um especial mensal — “Viva Marília!” — que entraria no lugar do “Elis especial”, Marília me chamou para ser o produtor musical e um dos roteiristas do programa, junto com Domingos Oliveira e Oduvaldo Vianna Filho. A direção musical seria de Guto Graça Mello e eu faria também as letras das músicas que seriam compostas especialmente para o programa, onde Marília receberia convidados para quadros de comédia, drama e musicais. A surpresa era a indicação da TV Globo para a direção: a dupla Miele e Bôscoli. Na primeira reunião de produção, pela primeira vez depois de tudo que tinha acontecido, fiquei cara a cara com Ronaldo. Nos cumprimentamos com naturalidade e até com certa efusão tensa e exagerada. Eu estava aliviado por encerrar aquela briga, aquela culpa, aquela história pesada de amor e traição. Acho que ele também, embora com Ronaldo fosse impossível ter certeza do que ele realmente sentia. Como dois Escorpiões, ele era de 28 e eu de 29 de outubro, guardamos os ferrões e nos entendemos. Ele estava casado de novo, com uma advogada, eu com Marília. Elis era uma palavra proibida.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe , com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

TOM ZÉ COMEMORA 80 ANOS EM MINITEMPORADA NO RECIFE



Tom Zé retorna ao Recife para uma minitemporada na Caixa Cultural Recife. De 28 de setembro ao dia 1º de outubro, o público poderá conferir o baiano ao vivo com o showTom Zé 80 anos. Os ingressos custam R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia) e começam a ser vendidos a partir do dia 27/09 das 10h as 20h na bilheteria da Caixa Cultural Recife junto ao Marco Zero.

Tom Zé reelaborou músicas de vários de seus discos, incluindo o recente Vira lata na Via Láctea que contou com a participação de diversos músicos desta nova geração. Apesar dos 80 anos, o baiano continua com uma disposição invejável. “Eu me encontro com uma pulsante força de espírito que tem a confiança de me acompanhar e de aparecer nos lugares em que eu canto, e que se torna minha força e capacidade de compor”.

Tom Zé vem ao Recife trazendo como convidada especial a cantora paraense Luê. A sua banda de apoio é formada por Daniel Maia, produtor dos discos de Tom Zé há alguns anos (guitarrista e vocalista), Jarbas Mariz (violão, bandolim, percussão e vocal), Felipe Alves (baixo e vocal), Cristina Carneiro (teclados e vocal) e Rogério Bastos (bateria). Tom Zé não poupa elogios aos instrumentistas: “Minha família, que aqui é chamada de banda há pelo menos vinte anos, são músicos pra quem não é preciso garimpar adjetivos”.

Nascido na cidade de Irará, Tom Zé é um dos principais nomes do movimento tropicalista que irradiou música do Brasil para o mundo nos anos 1960. Há quarenta anos lançou o elogiado disco Estudando o Samba, tido como inovador por sua ousadia formal e que o consagrou perante crítica e público. Já foi tema de três documentários e é autor do livro Tropicalista Lenta Luta.


Fonte: O Grito!

domingo, 25 de setembro de 2016

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Por Bruno Negromonte


Autora de "Velório de um sambista",
Dora ganhou destaque ao longo dos anos de 1950 e 1960


Esta semana trago novamente uma grande intérprete da música popular brasileira que infelizmente caiu no limbo do esquecimento e que hoje só tem espaço em locais que prezam pelo saudosismo e pela qualidade de registros fonográficos como é o caso deste nosso cantinho.  Nascida em 1922 no Rio de Janeiro, Dora Freitas Lopes aos 14 anos de idade, fugiu de casa com a intenção de ser cantora de Rádio. Alguns anos depois já se apresentava em casas noturnas de sua cidade natal assim como também de São Paulo. Por volta de 1947 conquistou o primeiro lugar no famoso e rigoroso programa de calouros apresentado pelo compositor Ary Barroso na Rádio Nacional, onde interpretou "Plac-plac", canção de autoria de Francisco Malfitano que tornou-se um grande sucesso em 1939 na voz da Dircinha Batista. Ainda nos anos de 1940 gravou pelo selo Star o seu primeiro disco com os sambas "Volta pro teu barracão" e "Roubei o guarani". A década seguinte veio acompanhada de diversos registros fonográficos para a artista, dentre eles, os batuques "Toma cachaça" e "Cão cambieci", marchas tais quais "Moço direito", "Pegando fogo" os samba-canções "Inclemência", "Baralho da vida", "Você morreu pra mime sambas como "Vou beber", "Me abandona", "Lei da razão" e o sucesso "Minha chave é você", parceria com Hamilton Costa e Waldemar Silveira gravado na RCA Victor por Dircinha Batista. Vem desse período as suas primeiras incursões internacionais, situação esta que acabou propiciando, ao longo dos anos anteriores, apresentações suas em países como França, Itália, Suíça, Venezuela, México e Estados Unidos, sempre buscando divulgar os mais distintos ritmos brasileiros por onde passou.

Contemporânea de nomes como Dalva de Oliveira, Pixinguinha, Dolores Duran, Silvinha Telles, Ary Barroso entre outros; Dora passou por gravadoras como a Continental (onde fez registros de canções como os sambas-canção "Toda só",   "Samba não é brinquedo", "Tenho pena da noite", entre outras); a pernambucana Mocambo (onde registrou faixas como o samba "Maria Navalha", a marcha "Fila de gargarejo", o samba "Samba borocochô", entre outras). Aliás, foi na Mocambo que a artista lançou o seu primeiro Long Play intitulado "Enciclopédia da gíria", projeto onde gravou autores como César Cruz (autor da faixa que batiza o disco), Zeca do Pandeiro, Arthur Montenegro, Ari Monteiro entre outros. Além de atuar em discos chegou a fazer parte também do casting das rádios Nacional e Mayrink Veiga. Sem contar o sucesso internacional que alcançou ao participar de uma excursão pela Europa e América do Norte onde apresentou-se divulgando ritmos brasileiros em diversos países tais quais  México, Estados Unidos, Suíça, França e Itália. Vale o registro do álbum que gravou pela Beverly em 1965. Intitulado de "Minhas músicas e eu", o disco incluiu várias músicas de sua autoria: "Dona solidão", "Madrugada zero hora", "Com Dolores no céu" e "Dúvida". Ao longo de sua carreira, atuou na vida noturna de Copacabana, convivendo com toda a boêmia das décadas de 1950, 60 e 70. Dora Lopes é também reconhecida por ter sido uma das primeiras cantoras notadamente homossexual da MPB. Vale o registro de sua carreira em números. Ao longo das décadas de 1950 à 1980 gravou um total de 19 discos em 78 rpm pelas gravadoras Sinter, Continental e Mocambo, além de 3 LPs. Como compositora seu maior êxito foi o "Samba da Madrugada".

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

MARTINHO DA VILA LANÇA PRIMEIRO DISCO DE INÉDITAS EM NOVE ANOS

"De bem com a vida" tem formato de cordas, pouca percussão e parcerias


Resultado de imagem para martinho da vila

Martinho da Vila, 78 anos, acaba de fazer um dos grandes discos de sua trajetória. Na mão contrária da superpopulação de instrumentos e produções que tomam as gravações de estúdio, ele tira quase tudo para fazer um álbum bastante limpo que, a princípio, seria ainda mais "intimista", conforme conta: 

– Eu só queria um cavaquinho, um violão e eu mesmo fazendo um ritmo. Muito arranjo prejudica o recado que a letra deve passar, prejudica até a melodia. Hoje em dia, está tudo ritmado demais. Se deixar, fazemos samba apenas para as pessoas dançarem.

O novo disco de Martinho é De bem com a vida, com músicas inéditas depois que o sambista passou nove anos sem um novo trabalho conceitual. Se estivesse nos anos em que as gravadoras imortalizavam canções, várias delas ficariam para a posteridade. Além do formato de cordas e pouca percussão, Martinho conta com parceiros de luxo (como João Donato, Jorge Mautner e Arthur Maia) e com a produção de André Midani, o lendário ex-diretor das gravadoras Philips e Warner, que estava há três décadas longe dos estúdios. 

– Quando o convidei, ele respondeu dizendo que estava há muito tempo sem ir para o estúdio. E que nunca havia feito um disco de samba – disse o produtor.

Pois o álbum que reconduz Midani ao mercado e Martinho às inéditas é inspirado. Escuta, cavaquinho!, a primeira, é fruto de uma parceria com Geraldo Carneiro, na qual o violão faz uma declaração para o cavaco. Na sequência,Choro chorão é um chorinho de 1976 e, Danadinho danado (com Zé Catimba) foi lançada pela cantora Simone em 1995.

O clássico Disritmia, lançado pelo sambista em 1974 no disco Canta canta minha gente, dá dois frutos no novo repertório. O primeiro veio de um pedido da cantora Roberta Sá, chamada Amanhã é sábado, que ela lançou em Delírio, de 2015. Roberta queria que Martinho fizesse uma canção, desta vez, para uma mulher cantar. Ele aproveitou e criou Disritmia às avessas, com a mulher chegando exausta do trabalho, pedido colo ao marido. "Estou um bagaço, amor / Preciso de colo / Preciso de colo amor, estou em bagaços".

Com Carlinhos Vergueiro, Martinho fez Desritmou, outra cria de Disritmia. "Encontrei meu ex-amor / A mulher que eu sempre amei / E jamais deixei de amar / Mesmo estando distante / Ela me abriu os braços / Com sorrisos me saudou / Eu fiquei emocionado / Meu coração desritmou". Mas a tal mulher se revela outra, modificada pelo tempo, e o narrador se entrega à decepção.

Aos poucos, Martinho paga uma conta que pendurou em 1975, quando lançou a música que iria lhe dar mais dores de cabeça na vida: Você não passa de uma mulher. O feminismo no início de sua militância apontou o machismo do sambista em uma letra difícil de ser defendida mesmo por quem não via maldade no sambista. "Olha a moça inteligente / Que tem no batente o trabalho mental / QI elevado e pós-graduada / Psicanalizada, intelectual / Vive à procura de um mito / Pois não se adapta a um tipo qualquer / Já fiz seu retrato, apesar do estudo / Você não passa de uma mulher (viu, mulher?) / Você não passa de uma mulher (ah, mulher)". Hoje Martinho diz que, mesmo tendo feito a música de propósito para responder à patrulha que se armava contra os sambistas, não teria usado a expressão infeliz, "você não passa".

– A música fez muito sucesso, mas sofreu também muita resistência. Era a época de um feminismo que queria masculinizar a mulher, e eu acabei fazendo essa música para provocar mesmo. Penso hoje que, em vez de 'você não passa', eu deveria ter usado algo como 'não se esqueça' –admitiu.

O samba, como o rap, sempre foi machista, lembra Martinho:

– O país sempre foi, e os compositores sempre foram mais homens. Basta lembrar de Amélia (de Mario Lago). 

Além do novo disco, Martinho passou pela Bienal do Livro de São Paulo, na última quarta, para falar sobre seu novo romance, Barras, vilas e amores, sua terceira ficção dentre os 14 livros que já lançou. 

– Criei uma história fictícia, mas muito possível de acontecer.

BARRAS, VILAS E AMORES
Autor: Martinho da Vila Ed.: Sesi (216 págs., R$ 42)


Fonte: Estadão Conteúdo

sábado, 24 de setembro de 2016

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


SÉRIE DOSE DUPLA IV – “A VIOLEIRA”


Elba – a violeira


Inspirado no musical “Pobre Menina Rica”, de Vinícius de Moraes, Miguel Faria Jr dirigiu o filme, comédia musical, “Prá Viver um Grande Amor”, protagonizado por Patrícia Pilar, Djavan e grande elenco.

O filme, de 1984, me veio à mente exclusivamente por contar em sua trilha com uma canção – “A Violeira” -, de Tom Jobim e Chico Buarque – que adoro cantar, cantarolar quando esqueço a letra e, quando dá na telha, botar na vitrola para ouvir com Elba, Mônica Salmaso e Chico Buarque, entre outros que a gravaram.

“A Violeira”, de Chico Buarque e Tom Jobim, com Monica Salmaso:



Desde menina
Caprichosa e nordestina
Que eu sabia, a minha sina
Era no Rio vir morar
Em Araripe
Topei como chofer dum jipe
Que descia pra Sergipe
Pro Serviço Militar
Esse maluco
Me largou em Pernambuco
Quando um cara de trabuco
Me pediu pra namorar
Mais adiante
Num estado interessante
Um caixeiro viajante
Me levou pra Macapá
Uma cigana revelou que a minha sorte
Era ficar naquele Norte
E eu não queria acreditar
Juntei os trapos com um velho marinheiro
Viajei no seu cargueiro
Que encalhou no Ceará
Voltei pro Crato
E fui fazer artesanato
De barro bom e barato
Pra mó de economizar
Eu era um broto
E também fiz muito garoto
Um mais bem feito que o outro
Eles só faltam falar
Juntei a prole e me atirei no São Francisco
Enfrentei raio, corisco
Correnteza e coisa-má
Inda arrumei com um artista em Pirapora
Mais um filho e vim-me embora
Cá no Rio vim parar
Ver Ipanema
Foi que nem beber jurema
Que cenário de cinema
Que poema à beira-mar
E não tem tira
Nem doutor, nem ziguizira
Quero ver que é que tira
Nós aqui desse lugar
Será verdade
Que eu cheguei nessa cidade
Pra primeira autoridade
Resolver me escorraçar
Com tralha inteira
Remontar a Mantiqueira
Até chegar na corredeira
O São Francisco me levar
Me distrair
Nos braços de um barqueiro sonso
Despencar na Paulo Afonso
No oceano me afogar
Perder os filhos
Em Fernando de Noronha
E voltar morta de vergonha
Pro sertão de Quixadá
Tem cabimento
Depois de tanto tormento
Me casar com algum sargento
E todo sonho desmanchar
Não tem carranca
Nem trator, nem alavanca
Quero ver que é que arranca
Nós aqui desse lugar



“A Violeira”, de Chico Buarque e Tom Jobim, com Elba Ramalho


Além da letra típica, o xote gostoso, com sotaque da região, a saga contada na letra leva-me a muitos cantos e me relembra o Nordeste inteiro. Vou escutar de novo.

Se ainda assim, quiserem ouvir pelo letrista, que continuo a considerar um bom intérprete, apesar de tudo, ei-lo:


Quebrando o modelo do ‘Dose Dupla’, dessa vez não me contive e reproduzo três versões do mesmo mote.

O que acham?

CURIOSIDADES DA MPB

Diversos foram os parceiros de Vinicius de Moraes, até porque, para ele, a parceria era a consolidação de uma amizade. Em “Gente Humilde”, por exemplo, o poeta insistentemente pediu que Chico Buarque participasse da obra, que o fez com os versos “Pela varanda flores tristes e baldias como a alegria que não tem onde encostar”.

Tom Jobim, talvez uma das mais famosas parcerias musicais do país, trabalhou com Vinicius na trilha do espetáculo “Orfeu da Conceição”. Além dessa, a dupla leva a autoria dos sucessos: “A Felicidade”, “Chega de Saudade”, “Eu sei que vou te amar” e a pouco conhecida “Garota de Ipanema”, que foi a música mais tocada e regravada entre os anos 2008 e 2012, de acordo com o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição).

Como dissemos antes, muitos foram os parceiros dele. Confira uma listinha com alguns dos mais importantes nomes que se juntaram a Vinicius: Adoniram Barbosa, Antonio Maria, Alaíde Costa, Ary Barroso, Antonio Madureira, Azeitona, Baden Powell, Carlos Lyra, Claudio Santoro, Fagner, Francisco Enoé, Francis Hime, Garoto, Haroldo Tapajós, Ian Guest, Jards Macalé, João Bosco, Marília Medalha, Moacir Santos, Mutinho, Nilo Queiroz, Paulo Soledade, Paulo Tabajós, Pixinguinha, Toquinho e Vadico.

JARARACA, 120 ANOS

músico violonista, compositor e humorista


(Maceió, 29 de setembro de 1896 — Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1977)


José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca, foi um violonista, cantor de emboladas, compositor e emérito letrista brasileiro, nascido em Maceió, faleceu aos 81 anos na cidade do Rio de Janeiro. Era filho do poeta e professor muito conhecido Ernesto Alves Rodrigues e começou a tocar sua viola aos 8 anos de idade, inspirado em seus irmãos que também eram violeiros e seresteiros. Ainda criança conviveu muito com os boiadeiros que vinham das Minas Gerais, onde ouvia diversas estórias, que mais tarde iriam influenciar bastante a sua música. Em 1915 começou atuar juntamente com um grupo teatral na cidade Piranhas, em Alagoas. Dizem também que integrou o bando de Lampião por quase dois anos, e no início da década de 20 resolveu tentar a carreira artística.

Integrante da dupla Jararaca e Ratinho, uma dupla musical formada por José Luis Rodrigues Calazans, oJararaca , e Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho(Itabaiana/PB, 13 de abril de 1896 — Duque de Caxias/RJ, 8 de setembro de 1972). 

Severino Rangel, o Ratinho, começou a tocar ainda criança na Banda Musical de Itabaiana, no Estado da Paraíba, em 1914 mudou-se para Recife onde integrou a orquestra sinfônica local tocando trompete, saxofone e ainda dava aulas numa escola de aprendizes.

Por volta de 1919, Severino Rangel (Ratinho) e José Calazans (Jararaca) se conheceram quando passaram a integrar o Bloco dos Boêmios. Pouco tempo depois em 1921, formaram o grupo “Os Boêmios” e tempos depois o grupo passou a ser conhecido como “Os Turunas Pernambucanos”, onde cada um dos integrantes adotou o nome de um animal, foi quando José Luiz resolveu adotar o nome de Jararaca.

Com o novo conjunto, cantando “cocos” e “emboladas” com seus trajes típicos, percorreram diversos lugares e, incentivados por Pixinguinha, acabaram indo para o Rio de Janeiro em 1922. Depois que o grupo se desfez, José Luiz e Severino Rangel resolveram formar a dupla Jararaca e Ratinho e conheceram o sucesso quando passaram a cantar emboladas, fazendo apresentações satíricas e humorísticas, em São Paulo.

Seus principais sucessos foram Saxofone, por que choras? (1930), choro de Ratinho, Meu pirão primeiro (1932), batucada da dupla, e Mamãe eu quero (1937), marcha carnavalesca de autoria de Jararaca. 

Seu primeiro disco aconteceu em 1929, através da gravadora Odeon. Em 1937, Jararaca compôs a clássica “Mamãe Eu Quero” em parceria com Vicente Paiva e seu sucesso foi tanto que ultrapassou as fronteiras brasileiras.

"Mamãe eu quero" caiu na graça dos ianques a partir da versão da portuguesa naturalizada brasileira, Carmem Miranda, famosa no cinema de Hollywood, e ganhou mais de vinte uma versões em inglês, especialmente a difundida internacionalmente na voz de Bing Crosby.

Com suas anedotas, causos e adivinhações calcadas no espírito troçador que tinham os verdadeiros artistas, deixaram mais de 800 discos de 78 rpm e dois LPs onde alternavam números musicais com vasto anedotário.

Além de cantores e compositores, eram também humoristas. A dupla protagonizou o filme No Trampolim da Vida, de 1946 e o filme Loucos por Música, lançado em 1950.

Nos anos 60 e 70, a dupla participou de alguns programas de televisão, como Balança mas Não Cai, Uau e Alô Brasil, e Aquele Abraço. Depois da morte de Ratinho, Jararaca trabalhou no programaChico City, na Rede Globo, no papel do cangaceiro Sucuri e assim continuou sua atuação até a sua morte em 1977.

Para ouvir mais, composições de José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca:


- Gato cabeçudo (1929)




Para ouvir mais, JARARACA E RATINHO:

- catirina (versos do folclore) - gravada em 1930

- Acende a Luz (193?)

- Bambo do bambu (1940)

- Sapo no Saco (1940)

- A LALÁ TÁ CÁ (1944) - Gravação Odeon Disco 78 rotações

- LÁ VAI DESAFIO (1948) - Gravação Odeon Disco 78 rotações




Outras parcerias: 

- Zé Barbino (1940) - Composição de Pixinguinha e Jararaca

- Meu pirão primeiro (1944) - Jararaca e Valfrido Silva - c/ Bezerra da Silva 

- O Boto - c/ Família Jobim, composição de Jararaca & Tom Jobim



No cinema:

- “Mamãe Eu Quero” (1937) - do Filme 'Garota Enxuta' (1959)




Links relacionados:











Fonte: http://www.cultura.al.gov.br/

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

CANÇÕES DE XICO


HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 40



SOLNASCENÇA

Poeta Pernambucano, radicado em São Paulo, deu-me o prazer de parceirizar essa bela canção. A intrpretação é de Flávio Leandro e está inserida no FORROBOXOTE 6 – BAIÃO: DO REINO ENCANTADO DO NOVO EXU ÀS VEREDAS DO RESTO DO MUNDO E ADJACÊNCIAS

SOLNASCENÇA
Xico Bizerra e Biguá

tu é fulô fulorando,
um pé-de-amor brotando nos canteiros da canção
é água fresca do riacho,
carinho colhido em cacho no roçado da emoção
é a poesia e é o mote,
é o cheiro no pé-do-cangote, a reza rezada com fé
é a chuva chovida em fevereiro,
solnascença de amor o tempo inteiro
é um safrejar de cafuné

o meu amor é nuvem que se derrama no meio da plantação
o meu amor é invernia pintando de verde o meu sertão

POR 43 ANOS INÉDITA, JOIA DA MPB É RESGATADA


'Os Arcos - Paixão e morte', suíte de João Bosco e Aldir Blanc, era ousada para os padrões de 1973 


Aldir Blanc e João Bosco dedicaram ousada parceria à Lapa carioca (foto: Acervo/2004)


Um tesouro da MPB foi encontrado: Os Arcos – Paixão e morte, a suíte de João Bosco e Aldir Blanc que ficou 43 anos inédita. Gravada por João para seu disco de estreia, foi sumariamente arquivada, talvez pela duração (nove minutos equivaliam a três faixas de um LP), mas muito provavelmente pela incompatibilidade entre sua ousadia formal e a insensibilidade dos executivos da RCA Victor.

A composição era mesmo ousada para os padrões de 1973: um longo poema de versos livres escrito por Aldir para o parceiro acrescentar melodia. O resultado é a dramatização da Lapa numa época em que o bairro boêmio carioca havia perdido sua magia. Estava, numa palavra, morto – e como tal é retratado.

“Só dois loucos de primeira viagem podiam se atrever a uma obra como aquela”, diz Aldir. João a vê como atestado “de que a parceria estava destinada a dar certo” – por causa da suíte, não apesar dela. A ideia de uma obra sobre os Arcos, simbólica divisória entre dois lados da Lapa (segundo Aldir, “entre o acabar para sempre e o continuar”), foi de Cláudio Tolomei, parceiro da dupla.

Pronto o poema, Aldir enviou-o por carta para Ouro Preto, onde o mineiro João Bosco estudava engenharia. “Não conhecia a Lapa, ou melhor, não conhecia o Rio. Tudo que sabia vinha das histórias que meu pai me contava ou de coisas que li. Mas a imaginação é perfeita para se construir o que não se conhece”, explica João. O clima é de uma Lapa que vivia seu momento fúnebre, lembra o compositor, observando que os sinos usados num dos movimentos lembram os enterros em Minas.


POR CARTA

João Bosco e Aldir Blanc se conheceram em 1971, apresentados pelo amigo Pedro Lourenço. João estudava em Ouro Preto, Aldir morava no Rio de Janeiro. Trabalhavam “por carta”. Em 1972, João se mudou para a capital fluminense. Sua primeira gravação, lado B de um disco de bolso do Pasquim (no lado A, Tom Jobim lançava Águas de março), já tinha letra de Aldir: Agnus sei. Em 1973, surgia a chance de um LP pela RCA Victor, com produção de Rildo Hora e orquestrações de Luizinho Eça.

Disco gravado, incluindo a suíte, veio o veto. Por decisão da gravadora, metade dele, seis faixas, teria de ser refeita, agora com arranjos de Rogério Duprat, a contragosto dos artistas. Mesmo assim, foi a partir daquele álbum, chamado João Bosco, que a dupla passou a ter composições gravadas por Elis Regina e outros.

A suíte volta à cena graças à cantora Mariana Baltar, que decidiu dedicar um disco só a letras inéditas de Aldir. Rildo Hora pôs à disposição dela e dos músicos Jayme Vignoli e Josimar Carneiro velhas fitas de rolo. Ali a suíte foi encontrada. Por ora, o acesso a Os Arcos... só é possível pela internet (radiobatuta.com.br), mas Mariana Baltar está decidida a gravá-la.

Fonte: Redação EM Cultura

O TEATRO MÁGICO LANÇA CLIPE DE 'TUDO QUE FAÇO PRA SER'; ASSISTA

Fernando Anitelli aparece no vídeo desconstruindo a imagem com que ele sempre aparece nos shows do grupo



O Teatro Mágico lança clipe para música 'Tudo que eu faço pra ser'. (foto: Reprodução/YouTube)


A banda O Teatro Mágico lançou nessa segunda-feira, 5, seu novo clipe. O vídeo da música Tudo que faço pra ser está disponível no Youtube e faz parte do álbum Allehop. Já são mais de 17 mil visualizações.

A produção mostra o vocalista do grupo, Fernando Anitelli, retirando a maquiagem característica com que ele se apresenta nos shows. Isso reflete a ideia do que a letra da música aborda, um reencontro consigo mesmo, de diferentes formas, não apenas numa única imagem. "Quero conhecer todos os outros de mim [...] experimentar antes de querer [...]", são alguns dos versos da canção.

O Teatro Mágico é conhecido por suas apresentações performáticas e por suas canções com letras que incitam a reflexão e são quase sempre recheadas de poesia. O grupo já lançou seis álbuns, o primeiro em 2003, Entrada para Raros, e o mais recente Allehop, de 2016. 




Fonte: Diário de Pernambuco


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*



Canção: Cebola cortada

Composição: Petrúcio Maia - Clodo Ferreira

Intérprete - Petrúcio Maia

Ano - 1980

Álbum - Petrúcio Maia - Melhor que Mato Verde




* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

EM NOVO DVD, A BANDA PEQUI CONVIDA JOÃO BOSCO E NELSON FARIA

Em seu segundo DVD, o bem sucedido projeto de extensão e cultura da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) busca suplantar as adversidades com muito trabalho, talento e parceiros pra lá de especiais.

Por Bruno Negromonte


Resultado de imagem para BANDA PEQUI E JOÃO BOSCO


Neste nefasto e degradante cenário musical que a mídia insiste em nos vender diariamente através dos mais diversos meios, há projetos que não podem deixar de ser propagados e enaltecidos sempre que possível. Como é de praxe, o Musicaria Brasil busca insensatamente confirmar que o pulso firmemente ainda pulsa nos mais recônditos lugares existentes em nosso país através das mais obstinadas figuras que dedicam tempo, talento e perseverança afim de alcançar esse propósito. São nomes que muitas vezes dedicam uma vida inteira em busca de oferecer aquilo que tem de melhor em seu ofício. Uma arte genuína, carregada de emoção e sentimento, que traz como estampa maior a verdade naquilo que faz. Esse tipo de contexto acaba por propiciar situações onde a música de qualidade não esmorece. São anônimos e incansáveis nomes que não vivem em busca do conhecimento dos grandes meios, pois se dão por satisfeito em apenas, de modo perseverante, executar aquilo que acreditam. Uma verdade muitas vezes herdada através de gerações por conta das tradições da cultura popular presentes nos mais inóspitos rincões existente em nosso país, o que acaba por nos fazer acreditar na teoria de que são esses aguerridos nomes, que vivem em defesa do que acreditam, que servem como força-motriz para a produção daquilo que resta (ou que ainda podemos chamar) por música de qualidade existente Brasil. Advindos dos mais distintos contextos existente do norte ao sul do país, faz-se necessário e fundamental a divulgação para além do trivial, pois levando-se em consideração não apenas a diversidade cultural, mas também a extensão territorial do nosso país é de se imaginar que o grande motor para aquilo que temos por cultura de qualidade vem da expressividade de contextos como o maracatu, as cavalhada, as congadas, da folia de Reis, marujadas e tantos outras. É como nos deixou registrado o folclorista, professor, historiador e jornalista Câmara Cascudo"Cultura popular é a que vivemos. É a cultura tradicional e milenar que nós aprendemos na convivência doméstica. A outra é a que estudamos nas escolas, na universidade e nas culturas convencionais pragmáticas da vida (...)."



Fugindo das regras mercadológicas tão em voga na cultura musical brasileira atual, e buscando abarcar as teorias do folclorista potiguar antes citado, existem inúmeros contextos em nosso cenário, e no caso da música, a coisa não se faz diferente como podemos observar a partir dos mais distintos exemplos, como é o caso dessa turma advinda lá do centro-oeste do país, e que traz já em seu nome uma forte identidade com a região, pois foi batizada a partir de uma fruta nativa encontrada no bioma existente naquela paisagens. Surgido a partir de um projeto de extensão e cultura da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG), Pequi vem ao longo de quase duas décadas de existência buscando não apenas propagar a boa música brasileira a partir da releitura de grandes compositores, mas também buscando fazer a sua parte para o bom cenário de nossa cultura através de canções próprias e arranjos imbuídos de originalidade ao longo desse tempo de existência como vem sendo possível atestar a partir de registros como o álbum "Banda Pequi, Leila Pinheiro e Nelson Faria" e o DVD homônimo ao nome da banda lançado em 2006Agora, uma década depois, a Pequi volta ao mercado audiovisual com o DVD João Bosco, Banda Pequi e Nelson Fariaprojeto que reitera a qualidade dos músicos envolvidos e o compromisso do imprescindível maestro Jarbas Cavendish (regência, coordenação e direção musical) em prezar por características que buscam aliar uma didática musicalmente eficiente em favor da qualidade. Talvez seja por essa perseverança que o som da Pequi tem ecoado de modo cada vez mais longínquo, propagando a boa música instrumental produzida ali, em uma região aparentemente inóspita à boa música popular brasileira, Brasil a fora.

Resultado de imagem para BANDA PEQUI E JOÃO BOSCO
Com um repertório que busca enfatizar a participação do cantor e compositor mineiro João Bosco a partir de composições como "Linha de passe(João Bosco - Aldir Blanc - Paulo Emílio), "Quando o amor acontece(parceria de Bosco com o carioca Abel Silva), "Jade" (única canção no projeto assinada apenas por Bosco), "Toma lá da cá", "Corsário", "Bala com bala e "Incompatibilidade de gênios" (toda de autoria da dupla Aldir Blanc e João Bosco. O disco ainda apresenta "Girando em torno do sol", canção de autoria de Jarbas Cavendish com os arranjos sob o cuidado de Bruno Rejan entre outras de relevantes compositores que ao longo do século XX escreveram em definitivo os seus nomes na história da música popular brasileira como é o caso da dupla Aloysio de Oliveira Tom Jobim que assinam o clássico "Inútil Paisagem", outra canção da lavra de Tom, só que desta vez em parceria com Vinícius de Moraes é "O morro não tem vez" e para findar a presença dos grandes compositores brasileiros "Manhã de carnaval" assinada por Luiz Bonfá e Antônio MariaTodas essas faixas vêm sob uma roupagem que preza a força e o talento da big band, assinadas por "estilistas" de peso como é o caso do arranjador e instrumentista Nelson Faria e do já citado  Bruno Rejan.

Com a captação de imagens feito pela TV Ufg sob direção de Michael Vallin o DVD ainda conta com outros nomes que acreditam na redenção da boa música popular brasileira a partir de trabalhos como este. É o caso de Antonio CardosoBruno PereiraNivaldo JuniorManassés Aragão (trompetes-flugels); Diego Amaral, Fábio Oliveira e Noel Carvalho (percussões); Jader Steter (bateria); Bruno Rejan (baixo elétrico-acústico); Luiz Fagner, André Luiz, Marcos Paulo, Pedro Henrique (trombone) e os saxofones e flautas executados por Anastácio Alves, Antônio Alves "Foka", Everton Loredo, Juarez Portilho e Marcos Lincoln, nomes que investiram sonhos, suor e seus respectivos talentos não apenas na realização de um projeto, mas na concretização de algo maior, que por circunstâncias diversas acabou ao  longo de uma década e meia saindo do plano da mera pretensão para uma realidade onde se faz possível não apenas atestar que a proposta inicial vem sendo brilhantemente cumprida pautada em aspectos como talento e alegria por parte de todos os envolvidos. A Pequi trata-se sem dúvida de uma realização que ganhou, de modo natural, uma força maior que a proposta de atuar como centro de formação específica na música popular brasileira, com aplicação predominantemente na prática instrumental. Entre os cascalhos culturais existentes na atual conjuntura brasileira, com amor e perseverança Jarbas Cavendish vem conseguindo escreve de modo ímpar a sua história não apenas no contexto musical do centro-oeste (uma região aparentemente inóspita para o tipo de música a qual se aventurou difundir) ao encontrar pequenas e talentosas pepitas de ouro sob a alcunha de alunos. Sorte nossa!



Maiores informações

Site Oficial - https://bandapequi.emac.ufg.br/

Facebook (Página) - https://www.facebook.com/BANDA-PEQUI-1378508709042934/

LinkWithin