PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

INTUITY BORA BORA JANGA

Siga a sua intuição e conheça aquela que vem se tornando a marca líder de calçados no segmento surfwear nas regiões tropicais do Brasil. Fones: (81) 99886 1544 / (81) 98690 1099.

ZÉ RENATO - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica de sua trajetória como instrumentista, compositor e intérpretes em diverso dos projetos nos quais participou.

VERSOS E MELODIAS INCRUSTADAS ENTRE O PLANALTO E O SERTÃO

Embevecido da cultura popular nordestina, Túlio Borges a faz de esteio para os versos e melodias que sustentam a trilogia a que se propõe.

QUEM FOI INALDO VILARIN?

Autor de canções como “Eu e o meu coração” (gravada por nomes como João Gilberto e Maysa), Inaldo Vilarin é mais um na triste estatística de um país sem memória

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sábado, 21 de outubro de 2017

AMANHÃ (SIMON)


Intérprete: Simon Compositor: Allan Fontes Arranjos: Danilo Ferreira Arranjo Vocal: Simon Baixo: Daniel Santos Bateria: Lello Araújo Rhodes: Junior Viana Guitarra e Violão: Danilo Ferreira Gravado, mixado e masterizado no Estúdio Prodart Produção musical: Danilo Ferreira e Allan Fontes Vídeo (vídeo music) Direção: Bianca Cabral e Simon Direção de edição: Leo F. Carter Roteiro e direção de fotografia: Simon Produção de vídeo/finalização: Bianca Cabral Produções Assistentes de direção: Denise Luque e Allan Fontes Comunicação digital: Estúdio Leo F. Carter (http://www.leofcarter.com/) Agradecimentos especiais: Miro e Gilvane Siga o Simon: Facebook: https://www.facebook.com/simonperfil/ Instagram: https://www.instagram.com/simonperfil/ Ouça o Simon: Spotify: https://open.spotify.com/track/0T56Bs... Itunes: https://itunes.apple.com/br/album/ama... Deezer: http://www.deezer.com/br/album/47747912 © 2017 Simon: http://www.simonoficial.com

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CANÇÕES DE XICO


HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS

Músico da melhor estirpe, Beto Hortis vem me acompanhando há algum tempo, participando dos nossos Forroboxotes. Reconhecido como excelente instrumentista tinha um viés pouco conhecido: de compositor. Ele mostrou-me, certa vez, uma melodia muito bonita e ainda sem letra. Como não sou besta, pedi-lhe autorização para ‘letrar’ aquela música e daí saiu CAVALO DO TEMPO. No JBF a versão com Tácyo Carvalho, ‘matuto’ de Ouricuri, que integrou o elenco de nosso Forroboxote 6, onde a música está inserida. Além desta gravação há o registro com Território Nordestino e Antônio Paulino.

CAVALO DO TEMPO
Beto Hortis e Xico Bizerra

Dona saudade, sele o cavalo do tempo
é o sentimento do amor que chegou
vou lá onde o carinho aflora
e a hora é agora
ela vive tão longe daqui
vou por entre as flores do campo
ligeiro feito um ‘relampo’
pro longe ser um bem ali

levo um milhão de estrelas
para acendê-las a cada anoitecer
levo um rio de águas claras,
borboletas raras dançando um balé pra você

LULA QUEIROGA LANÇA SEU QUINTO ÁLBUM SOLO, 'AUMENTA O SONHO'


Disco gravado no fim de 2016 apresenta o resultado da imersão do músico nos anseios da vida contemporânea 

Por Alef Pontes


Disco está disponível para audição nas plataformas digitais. (foto: Gabriel Melo/DP)


Lula Queiroga lança o quinto álbum solo, Aumenta o sonho. Gravado no fim de 2016, o disco chega às plataformas de streaming apresentando o resultado da imersão do cantor e compositor pernambucano nos anseios da vida contemporânea.

Em 11 canções, Lula explora a necessidade de almejar a beleza do que é simples, mas nem por isso pouco elaborado. ''Aumenta o sonho surgiu para contar que se você acredita em alguma coisa, vai atrás e dobra o sonho'', diz. Porém, esse ideal quase não se concretizou devido às reviravoltas no contexto político-cultural do país. Por pouco ele não abandonou o projeto, iniciado em 2013. ''As questões políticas afetaram muito. Quando percebi, a gente já estava vivendo outra realidade. Queria mudar, fazer outra coisa'', explica Lula.

Porém, da crise surgiu um novo olhar. ''Se você sobe um único degrau na caminhada, já está aumentando o sonho. É disso que fala o disco: do sonho pueril de uma criança que sonha em ser livre”, diz o compositor. O repertório traz parcerias dele com Pedro Luís (Casa coletiva), Manuca Bandini (Tardinha), Lucky Luciano (Duna), Lenine e Chico Neves (A balada do cachorro louco), Fabrício Belo (Futilosofia e Rio-que-vai-e-volta) e Yuri Queiroga (Minha cabeça é o fim).

Produção independente, em breve o trabalho deve ganhar lançamento nos formatos CD e vinil. ''Hoje em dia, o disco físico surge mais como presente. Trabalhamos um conceito gráfico mais elaborado para esses formatos'', conclui.


Confira:


TRENZINHO BRASILEIRO

Por Paulo César Feital




Lá vem ele...
Já ouço ao longe Os acordes estridentes Do seu apito dolente Nos trilhos do descampado
Sugando os seios da serra Já surge do vão da terra O trem dos desamparados.

Lá vem ele... Carregado de tristezas, Cheinho de desespero,
Se aproxima da estação,
Da vila da opressão,
Meu trenzinho brasileiro.

Vem parando,
Lamentando,
Grita, chora, chora e grita
Chora e grita, grita, chora, chora,
chor... cho...ch...ch...

Na estação não tem ninguém,
Ninguém espera quem vem,
Quem vem não tem mais ninguém,
Nem pai, nem mãe, nem parente.

E o viajante pressente
Que o Brasil, infelizmente,
É o exílio do passado
Onde quem faz a história
Não merece estar presente.

São dois vagões que formam a composição.
Na frente, em letras borradas pelo sangue das canções,
Se lê no primeiro carro,
Todo sujo pelo barro:
"Vagão das Desilusões".
Nele viajam calados,
Com os olhos injetados
Do choro da solidão:
Pixinguinha, Orestes, Noel,
João da Baiana, Donga e Sinhô,
Patápio, Custódio e Nazareth,
Francisco, Orlando e Ary,
Lamartine e Ataulpho,
Wilson, Geraldo e Ismael,
Antonio Maria e Dolores,
Ciro, Zéquinha e Dalva,
Lupicinio, Nelson, Cartola, Vinicius,
Clara e Ellis, Zé ketti ,
Mauro Duarte e Dominguinhos
Monsueto, Wilson e Candeia,
João Nogueira e Jamelão,
Rafael , Paulo Moura e Jair
Pery, Emílio, Belchior, Tapajos
Sivuca e tantos outros...

E sentada lá no fim,
Num velho banco de couro,
Chiquinha com a rosa morta Do cordão "Rosa de Ouro"
E o trem range sofrimento, Num soluço lento, lento, Destilando na fumaça
A memória de uma raça
No vagão do esquecimento.

Que povo é esse, meu Deus,
Que detesta ser chamado
De colônia e filial,
Mas que brinca o carnaval
Balançado pelo funk e hip hop
E nas horas de aflição
Já te chama na oração
De "my brother,de "my God"?
Que povo é esse,meu Deus?

O segundo carro é o mais deprimente.
Gente que até muito pouco tempo
Fazia parte desse mundo muito louco,
Dando um pouco de alento
A índios, negros, caboclos,
Que no planeta da gente
São chamados de pingentes 

Chora , grita , grita, chora,
Grita, chora, chora, grita,
chor...cho...ch..ch...

Que povo é esse , meu Deus,
Que detesta ser chamado
De colônia e filial
Mas que brinca o carnaval
Balançado pelo funk e hip hop
E nas horas de aflição
Já te chama na oração
De "my brother",de "my God"?
Que povo é esse , meu Deus?

Mas quem esquece não é o povo,é a"nata".
Gente que nunca viu a beleza das cascatas,
A jaçanã pelo mangue,
O tiê num vôo-sangue
Avermelhando essas matas,
Ou um mulato no sapê
Cantando as suas bravatas.

No último vagão ouvem-se gritos.
É o "Carro dos Alaridos",
O "Vagão dos Oprimidos".
Parece sardinha em lata,
É gente feito sucata,
Mortos-vivos e feridos.
É o "Carro dos Aguerridos"!
É tanta gente morena,
Um cheiro de alfazema
Misturado com suor,
Fragrância que eu sei de cor
Pelo vício dos sentidos.
É o "Carro dos Abandonados",
Dos párias, dos maus fadados,
Da miséria e caridade.
É o "Vagão da Humanidade"!
É gente que por mais que eles tentem,
A ternura jamais arrefece!
É o povo, gente. É o povo,
E o povo jamais esquece!

Chora,grita , grita , chora
Grita , chora,
Se levanta e chor...cho.. ch...

E lá no final dos trilhos,
Correndo atrás do vagão,
Chegando assim tão sozinhos,
Gritando: -“Esperem, tinha uma pedra no caminho
No caminho tinha uma pedra”,
Em alta voz e bom som,
Os últimos dos esquecidos:
Antonio Carlos Jobim,
Poeta Carlos Drumond.

Chora, grita, grita, chora,
Chor... Ch..Ch...

Vai maestro, leva o povo
Maquinista Villa Lobos,
Vai e não volta mais,
Leva esse negro pé-de-cana,
Esse mulato tão louco,
Esse povo meio gira,
Vai cantando as Bachianas...
Vai rangendo as Bachianas...
Lamentando as Bachianas...
Meu trenzinho caipira!!

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*




Canção: Tá Compreendido - Homem Moderno

Composição: Aloysio Figueredo - Nelson Figueiredo

Intérprete - Nelson Figueiredo

Ano - 1960

LP - Bon Voyage - Aloysio e seus Teclados - Copacabana CLP 11137



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

VÍDEO MOSTRA CAETANO VELOSO CANTANDO FUNKS 'PROBIDÕES'


Imagens mostram o cantor e compositor baiano cantando as músicas 'Dj toca aquela' e 'Quem me viu mentiu' 


Caetano Veloso canta funk na internet. (foto: Flickr/Reprodução)


Caetano Veloso é uma sumidade quando o assunto é a música popular brasileira. O cantor e compositor baiano é reconhecido internacionalmente por suas canções e parcerias memoráveis, além de ter encabeçado a Tropicália, no fim da década de 1960. O que ninguém esperava é que ele soubesse cantar alguns funks 'proibidões', subgênero do estilo que traz letras sobre assuntos um tanto quanto polêmicos, como sexo e violência. 

Em um vídeo divulgado no Twitter por Danilo Rodrigues, rapaz que trabalha com o cantor, Caetano aparece cantando as letras de dois funks com a melhor das desenvolturas. Na gravação, ele mostra que sabe cantar Dj toca aquela, de MC Novinho, e Quem me viu mentiu, de MC Maneirinho. ''Eu fiquei de cara que Caetano conhece todos os funks. Tá aí, tive que filmar'', escreveu Danilo, na publicação. 

Confira:

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PAULO MIKLOS - FAIXA A FAIXA (A GENTE MORA NO AGORA)


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)





Chegou um senhor e perguntou se todo o acervo de CDs que tenho na loja, estão no computador.

Eu respondi que não... Uso o computador pra outras funções.
E ele voltou a perguntar: E se eu quiser um desses CDs?

Oxente... É só comprar!

PELO TELEFONE - MÚSICAS DO CATETE 2 (A MÚSICA POPULAR NA REPÚBLICA)

Por André Diniz



No texto anterior, o Presidente Hermes da Fonseca era caricaturado na música popular como um azarado. Ter pouca sorte não quer dizer que o homem fosse um ingênuo na política. Hermes elegeu seu vice Venceslau Brás, em 1914. Com 500 mil votos a mais que seu adversário, o problema de Venceslau não vinha dos minguados eleitores da Primeira República, mas sim de uma ferida na perna que nenhum médico dava jeito. Reza a lenda que o presidente resolveu buscar a ajuda dos famosos orixás da baiana Ciata. Curado, Vesceslau ajudou a consolidar na literatura da cultura popular carioca, a imagem mitológica da casa da Tia Ciata, como referência da afrodescendecia. 

E foi justamente na casa da baiana, na Cidade Nova, que surgiu o lendário samba “Pelo telefone”. O nome “samba” existe na literatura desde o século XIX como sinônimo de festa, encontro com comilança, dança e música. O gênero foi resultado de muitas misturas musicais referidas aos ritmos da África e da Europa. Mas foi com os signos da cultura afro que ele ganhou legitimidade na area urbana do Rio de Janeiro. 

O samba carnavalesco “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, composto em 1916 e gravado em 1917, pelo cantor Bahiano, é um marco da ascensão do ritmo como popular e vendável: 

O chefe da folia
Pelo telefone 
manda me avisar 
Que com alegria
Não se questione para se brincar… 

No mesmo carnaval de “Pelo telefone”, o compositor Sinhô, o mais importante nome da primeira leva do samba, cutucava o presidente Venceslau Brás em “São Brás”: 

Sobem a carne e o feijão, 
Desce o brio da nação.
E o povo anda casmurro, 
Pagando imposto pra burro… 

“São Brás”, apelido popular do presidente, se manteve neutro até quando pôde na Primeira Guerra Mundial. Mas em 1917 a sopa acabou, e o país teve de abandonar sua neutralidade e entrar na Primeira Guerra Mundial contra a Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália). Lutamos ao lado dos Estados Unidos e da Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia). O compositor Caninha, membro da primeira geração do samba, em 1919, comemorou a vitória da Tríplice Entente em o “Kaiser em fuga”, celebração cívico-momesca da derrota de Guilherme II, então imperador da Alemanha: 

Monsieur, cadê ele?
O Kaiser já fugiu.
Já sumiu-se pra bem longe, 
Que o inimigo não viu… 

De fato, a ascensão do termo samba na indústria fonográfica carioca fica evidente nos anos subseguentes do sucesso de “Pelo Telefone.” A partir do final dos anos 20, o gênero se distanciaria da influência do maxixe com uma nova instrumentação (surdo, cuíca, tamborim) e uma acentuação rítmica mais africana, através da obra dos compositores do morro de São Carlos, no bairro do Estácio de Sá – no trio elétrico Ismael Silva, Bide e Marçal. Seria esse modelo de samba que navegaria pelas ondas do rádio para as principais praças urbanas do Brasil.

POETA REÚNE ARTISTAS EM PROJETO MUSICAL PARA AJUDAR A CAUSA ANIMAL

5.set.2017 - O poeta Ulisses Taveres já publicou mais de 130 livros e é conhecido por atuar como defensor da causa animal


O poeta e escritor brasileiro Ulisses Tavares, de 66 anos, reuniu um time de artistas para apoiar a causa animal e resolveu lançar um CD com verba revertida para entidades protetoras. "A causa virou crise", comenta. 

"Os abrigos e protetores voluntários estão sem doações suficientes e abarrotados de cães e gatos retirados das ruas, além disso, muita gente abandona os seus pets por falta de recursos. Se as famílias não conseguem alimentar seus filhos como poderiam cuidar dos filhos da natureza?", 

Pensando nisso, a ideia de unir nomes de peso da cena musical resultou em um trabalho que conta com composições do poeta ao lado de Sérgio Sá e Cris Reis. Entre os intérpretes, estão como Carlinhos Brown, Jorge Vercillo, Elba Ramalho, entre outros.

Toda a renda obtida com a venda do CD será destinada para instituições parceiras que defendem a causa animal.

"Mais de 60 seres humanos unidos para dar voz a quem não pode falar", diz o encarte do álbum, que pode ser adquirido através do e-mail uuti@terra.com.br ou pelo telefone (11) 99712-8700, por R$ 20.

"A ideologia dos bichinhos, garanto, é bem primitiva: comer e sobreviver, para poderem continuar nos dando seu amor incondicional", ressalta o poeta.

Além de ter mais de 130 livros publicados, Ulisses também exerce outra função: a de vendedor.

"Compra uma balinha para ajudar o poeta a continuar poeta, doutor", é assim que o escritor aborda os seus clientes nos faróis de avenidas movimentadas de São Paulo. Ulisses conta que sempre viveu para a poesia e viu os seus direitos autorais zerarem, por isso pensou em uma alternativa para aumentar sua renda.

"Poeta também precisa comer, pagar IPTU, enfim, sobreviver. Os animais não têm culpa de nada nessa selva de pedra que criamos. Cada saquinho de balinhas que vendo significa comida na boca dos peludinhos", finaliza.

Fonte: BOL

terça-feira, 17 de outubro de 2017

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*




Fecho encerro

A canção, o teatro, a escultura, a arquitetura, a pintura, a poesia são linguagens em progresso, são exercícios de experimentação do gesto artístico. Até chegar ao formato consolidado que temos hoje – e que, por resistência e conformismo com o mercado, ainda vai imperar por longo tempo – a canção passou (passa) por várias transformações. Muitas dessas impostas pelo suporte. Mas, se no século XX a forma-canção parecia definitivamente assentada, consensualmente, os sons eletrônicos e a internet vieram destruir essa certeza. São muitas e descentradas as possibilidades de se fazer canção hoje.
Penso que compramos por muito tempo (por vezes acho que não a entendemos e/ou forçamos sua pertinência para nós brasileiros) a impossibilidade de transmissão da experiência, tal e qual Walter Benjamin nos apresentou e Adorno referendou. Embora esse tenha feito revisões no conceito de “aura”. Mas, pergunto-me: sendo as experiências outras, num mundo outro, cada vez mais veloz, as transmissões não precisam se realinhar? Há impossibilidade ou os canais de transmissão e recepção ficaram obsoletos?
Pensando sobre essas e outras questões, posso sugerir que o disco Nem (2014) é mais um trabalho de excelência de Cid Campos. Da primeira – canção que dá título ao disco e parece dialogar com “Uns”, de Caetano Veloso – à derradeira canção, Nem é Cid Campos dando forma sonora à forma verbal. Mas é mais que isso: há um desejo arcaico e moderno muito bem engendrado.
Não citei Caetano Veloso à toa. Caetano gravou “Circuladô de fulô”, trecho daproesia Galáxias, de Haroldo de Campos. “Fecho encerro”, gravada por Cid como canção, vem da mesma obra literária de Haroldo. E é sobre esse trabalho de musicar a palavra escrita que quero comentar, já que Cid Campos tem desempenhado tão bem tal função poemusística. Em Nem, por exemplo, temos textos de Rimbaud, Emily Dickinson e Augusto de Campos. Além do já mencionado texto de Haroldo.
No livro Galáxias o trecho que inicia com “Fecho encerro”, metalinguisticamente, encaminha o texto para o fim. Por sua vez, a voz de Cid Campos entra no ritmo passional de um livro que finda. Ele faz da voz de um narrador literário a verdade do sujeito da canção que encerra o disco.
Para tanto, Cid Campos alonga vogais e faz semi-pausas e pausas próprias da voz, do ato de falar e cantar. Ele age sobre um texto sem vírgulas nem pontos finais. Um texto que pede a interferência do leitor na construção significativa do percurso sonoro. Aliás, Galáxias é uma obra cuja estrutura permite mobilidades e construção de significações no trânsito entre materialidades possíveis. O trecho que se inicia com “Fecho encerro” destacado por Cid Campos é grafado em itálico, assemelhando-se à primeira página (“E começo aqui”), mas diferenciando-se do restante de todo o miolo (travessia) do livro. Encerrar como quem inicia. Eterno retorno.
Importa lembrar que, encartado ao livro Galáxias, o CD Isto não é um livro de viagem, traz Haroldo de Campos lendo sua escrita. Inclusive a página “Fecho encerro”. Mas se ali a voz do poeta é fala, com Cid Campos é canto, gestualidade cancional. Com Haroldo, a cítara de Alberto Marsicano; com Cid, além de suas guitarras, seu baixo e seu teclado solo, temos o teclado de Moisés Alves e a bateria de Alexandre Damasceno, oferecendo os sons cósmicos que as galáxias pedem. Em Haroldo, a entoação. Em Cid, a canção, a semiótica da melodia em movimentos de distensão e tensão: andamentos, deslocamentos, acelerações, recuos, pausas.
Como sabemos, o fato de alguns poemas terem a palavra “canção” no título não confere cancionalidade implícita ao poema. Aliás, temos canções cujos títulos são “Canção necessária”, “Canção que morre no ar”, “Canção pra você viver mais”. Bem como “Poema”, “Estado de poesia”, “Poesia”. Adriana Calcanhotto, por exemplo, inspirada por um poema de Wally Salomão, lançou um disco chamado A fábrica do poema (1994). É por aí, nessas afirmações da impureza das linguagens que podemos ouvir Cid Campos cantando, por exemplo, “me libro enfim neste livro”. O disco como livro: “como” do verbo comer. Temos aqui um questionamento das categorias, ou das tipologias, livro e disco.
Dito de outro modo, quando lemos mentalmente um poema imaginamos entoações, melodias, mas cabe a um cancionista traduzir, ou não, a linguagem verbal em linguagem cancional. Defendo que não devemos mais confundir poemas que pagam tributo às cantigas medievais – de amor, de amigo, de maldizer –, e que mais tarde foram assentadas em canções líricas populares e, depois, com a difusão da escrita, em poemas lírico/dramáticos, com aquilo que hoje entendemos – depois de Luiz Tatit, principalmente, aqui no Brasil – por canção.
Achar que canção é poesia musicada reduz a potência da canção enquanto linguagem artística e mantém a hiper-valorização da poesia escrita. Creio que Caetano Veloso respondeu a essa, a meu ver, falsa dicotomia quando cantou “Minha música vem da / Música da poesia de um poeta João que / Não gosta de música // Minha poesia vem / Da poesia da música de um João músico que / Não gosta de poesia”. Ou seja, canção é um “outro retrato”, aglutinador, porém diferente. Desse modo, o que Cid Campos apresenta em “Fecho encerro” é canção.
É importante observar: Galáxias não é um livro de canções. Assim como um livro de partituras, ou de letras de canções, também não é um livro de canções. A canção só é no instante-já cancional. No entanto, exatamente, por não ser canção, Galáxias pode ser, digamos, cancionável no trabalho do cancionista. Cid Campos demonstra isso.
Reforço: a letra de canção não é a canção. Por sua vez, a versão instrumental de uma canção é música, é trabalho do musicista, não do cancionista (que podeacumular funções), deixou de ser canção, já que suprimiu a voz de alguém cantando. Canção é performance vocal calcada na intencionalidade do emissor e na necessidade do receptor. Essa definição, obviamente, difere, por questões contextuais, sociais, éticas e estéticas, por exemplo, das trovas de Arnaut Daniel, dos lieder e, também, das songs without words de Schubert ou Mendelssohn.
Em “Fecho encerro”, Cid Campos aponta a restauração da voz do texto, a partir dos esquemas rítmicos oferecidos pelo próprio texto, libertando-o do silêncio da página e/ou da memória sonorafetiva do leitor. Cid encontra uma forma-canção transmissora da experiência do encerramento, ao capturar uma das possíveis dinâmicas vocais do texto. Ele localiza a abertura para a ponte que liga uma linguagem (palavra escrita) à outra (palavra cantada), posto que as linguagens estejam sempre negando suas auto-suficiências. Nesse sentido, uma está sempre aberta a outra, puxando a outra, supondo a outra.
Memória e imaginação são mecanismos utilizados pelo cancionista a fim de “melhor cantar”. Vem daí a eficácia do trabalho de Cid Campos. Não é o texto cabendo na voz, porém, o amálgama. Aqui não interessa colocar a poesia escrita em primeiro lugar. A canção é voz. Não saber sobre o que a letra trata também é um modo de ouvir canção. Dançar é outro jeito de ouvir. Viajar no som também. A palavra-som já basta. Não é preciso a palavra-sentido. Feito desse modo, o gesto de “musicar um poema” é, em si, uma teorização do próprio gesto, um ordenamento, uma posição ética, um investimento estético. No mais: “me zero não canto não conto não quero”.


***

Fecho encerro
(Cid Campos / Haroldo de Campos)

Fecho encerro reverbero aqui me fino aqui me zero não canto não conto não quero anoiteço desprimavero me libro enfim neste livro neste vôo me revôo mosca e aranha mina e minério corda acorde psaltério musa não mais não mais que destempero joguei limpo joguei a sério nesta sêde me desaltero me descomeço me encerro no fim do mundo o livro fina o fundo o fim o livro a sina não fica traço nem sequela jogo de dama ou de amarela cabracega jogo da velha o livro acaba o mundo fina o amor despluma e tremulina a mão se move a mesa vira 







* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

EM MANO QUE ZUEIRA, JOÃO BOSCO FAZ PARCERIAS COM OS FILHOS

Em Mano Que Zuera, João Bosco inaugura parcerias com Arnaldo Antunes e Roque Ferreira


No dia 15 de novembro, João Bosco, 71 anos, será homenageado na cerimônia do 18° Grammy Latino, em Las Vegas 


Mano Que Zuera, novo disco de João Bosco, lançado após oito anos sem trabalho de inéditas, é reflexo de uma ação em família. A alma do disco, claro, é “joãobosquiana” em toda sua essência, mas a presença de seus filhos está ali, em evidência ou nos detalhes. Seu filho, o escritor, compositor e filósofo Francisco Bosco, é parceiro desde o disco As Mil e Uma Aldeias (1997). Originalmente, João Bosco faria aquele álbum com Waly Salomão e Antônio Cícero, mas, como a entrada dos dois no projeto não foi adiante, Francisco chamou para si a parceria com o pai.

Vinte anos depois, essa parceria entre pai e filho se mostra ainda mais consolidada: além da concepção do novo disco assinada em dupla, das 11 faixas, cinco são de autoria de João e Francisco Bosco. Como a emblemática Onde Estiver. João apresentou ao filho uma música que ele achava que contava uma história, ao estilo de Bob Dylan - e que fugia de seu universo habitual. Pediu para Francisco colocar letra. E, para surpresa de João, ele devolveu aquela música com a história da relação pais e filho: “Onde estiver, sempre trago vocês/Dentro do meu coração”.

“Acho que tanto ele quanto a Julia (Bosco, a filha) devem ter passado um tempo sentindo falta da nossa presença. Aí convocávamos os tios para preencher essa ausência. Quando ele fez essa canção, fiquei feliz porque acabamos preenchendo um pouco aquela ausência de antes. Eu senti isso do mesmo jeito quando a Julia cantou a canção comigo no disco”, completa João, referindo-se à faixa Ultra Leve, que tem participação especial da filha nos vocais.

E, por causa dessas ausências, em algum momento, incomodou estar na estrada? “Não me incomodou em nenhum segundo e eu faria isso tudo novamente. Gosto da malandragem, e eu ouvia muito dos malandros: o que importa é o que vai dar na continuação; na continuação, tem de dar você”, responde o compositor, cantor e violonista mineiro.

Já a canção Duro na Queda lembra que a parceria de João e Aldir Blanc continua a pleno vapor. É inédita, mas, à primeira audição, há quem possa jurar que seja um clássico de Bosco e Blanc. “Fui musicando esse texto e ele foi se transformando num samba, mas ele flui muito naturalmente. Tem essa coisa desse samba clássico do subúrbio carioca, isso é uma coisa que a gente fez muito, aprendeu, tem uma certa experiência nisso”, afirma João.

Da parceria com Aldir, João resgatou ainda uma antiga composição, João do Pulo, que deságua na versão instrumental de Clube da Esquina n.º 2 (Milton Nascimento/ Lô/ Márcio Borges). “Quando eu estava trabalhando esse disco, essa música me veio de novo, mas não me veio sozinha: já me veio com fragmentos de Clube da Esquina n.º 2”, diz João. Há outras regravações especiais: Sinhá, de João e Chico Buarque, desta vez, num clima cabo-verdiano e muitas cordas, e Coisa n.º 2, de Moacir Santos.

No coração de pai de João cabem também os novos parceiros de música. E o disco Mano Que Zuera marca duas estreias: com Arnaldo Antunes, em Ultra Leve, e com Roque Ferreira, em Pé-de-Vento. Bethânia aproximou Roque e João. Já no caso de Arnaldo, “esse já era um encontro marcado” faz tempo. “Já nos encontramos outras vezes, anteriormente, e sempre falamos sobre uma possível parceria”. Uma parceria se esboçou nos bastidores de um programa de TV, mas não se desenvolveu depois. Mais recentemente, João estava fazendo um bolero meio bossa-novista, e se lembrou de Arnaldo. Às vésperas de entrar em estúdio, João recebeu de Arnaldo a letra da música, em sintonia com aquele cenário musical criado por João. “É uma canção em que ele mapeia o Rio de uma forma muito bonita, porque ele não deixa escapar nenhum lugar da cidade, da zona sul à oeste, ao subúrbio.” João, então, chamou a filha Julia para participar da faixa. “Por ser uma canção do Rio, achei legal ter uma voz masculina e uma feminina”.


SERVIÇO
Mano que Zuera - João Bosco
11 faixas
Som Livre
Quanto: R$ 29,90


Fonte: O Povo

ED MOTTA DESABAFA SOBRE PROBLEMAS FINANCEIROS: 'UM ANO SEM PAGAR CONDOMÍNIO'

Músico atribui dificuldades à polêmica provocada por ele em 2015 antes de iniciar uma turnê na Europa


Cantor estreia novo show nesta quinta-feira, em São Paulo. Foto: Facebook/Reprodução

Após uma declaração polêmica, na qual criticou os fãs brasileiros, Ed Motta revela estar passando por necessidades financeiras. Em 2015, prestes a iniciar uma turnê pela Europa, o músico fez uma postagem na internet chamando de "simplórios" os brasileiros que iam a seus shows no exterior. Prestes a voltar aos palcos, ele concedeu uma entrevista à rádio Jovem pan e admitiu ter se arrependido. 

"Errei terrivelmente na forma como reagi com as pessoas na internet e me arrependo amargamente, mas no Brasil, não vale a pena ser honesto", afirmou. "O problema de pôr a cara a tapa é um ano sem conseguir pagar meu condomínio. Fecharam as portas para mim e eu fiquei um ano passando necessidade. Virei uma espécie de Hitler", afirmou. 

Na época, o sobrinho de Tim Maia fez uma publicação no Facebook em que afirmava que o seu verdadeiro público na Europa era composto por pessoas "cultas", que não gritavam nomes de times ou pediam para ele falar português. "Verdade seja dita, que meu público brasileiro de verdade na Europa, é um pessoal mais culto, informado, essas pessoas nunca gritaram nada, o negócio é que vai uma turma mais simplória que nunca me acompanhou no Brasil, público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa gritar nome de time", disse ele.

Mês passado ele estreia o show Baile do flashback, no Bourbon Street, em São Paulo, e vai tentar ser mais pop do que em suas usuais apresentações. Em entrevista ao blog Música em letras, da Folha, ele revelou que teve dificuldades em lançar o disco AOR (2013) no Brasil. "Nos últimos quatro anos sobrevivo praticamente do mercado europeu. Hoje o que paga as minhas contas é o meu trabalho nesse mercado", contou.


Fonte: Estado de Minas

QUESTÃO DE TEMPO

Por Carlos Mauro




O mundo de agora se move a uma velocidade muito maior do que na época em que despertei minha atenção para a música de um modo especial. Hoje, a forma como se aprecia música reflete claramente essa "pressa" da vida atual. Performática por natureza, a música exige tempo do ouvinte para a sua fruição. Mas quem tem tempo para ouvir música? 

Eu mesmo confesso que não tenho disponibilidade para me sentar diante de um equipamento de som e colocar para tocar um disco (sim, sou do tempo em que se falava em "discos") com o único e exclusivo propósito de ouvir música. Boa parte dos meus amigos dizem que só ouvem musica quando estão no carro dirigindo-se de um lugar para o outro. Esta não é uma forma de audição dedicada pois, em regra e por questões de segurança, deve-se priorizar a atenção ao trânsito do que à música. Do contrário, o risco de o carro nos levar a um lugar e a musica nos transportar para outro. 

Duvido que, mesmo dentro de carros, alguém tenha tempo de ouvir atentamente as mais de três horas de música contidas na obra prima A Paixão Segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach. Está entre as obras musicais de que mais gosto. Porém há mais de quinze anos não a escuto de forma completa, dedicada e atenta. Aqueles que nunca a ouviram, poderão fazê-lo aqui

A julgar pelos primeiros seis minutos que ouvi, trata-se de uma execução excelente. É claro que esta é uma composição muito longa, estou dando um exemplo extremo. Mas serve para ilustrar o que estou dizendo. Para fruir desta maravilha composta por Bach, é necessário dispor de tempo. E, aparentemente, tempo é o que não se tem nos dias atuais, nem para ouvir belas canções de três minutos dedicando-se exclusivamente a elas.

Se Bach fosse um compositor de nosso tempo, certamente não comporia uma obra com mais de três horas de duração. Ao escrever sua música, iria pensar na forma como o público de hoje iria ouvi-la. Uma forma desatenta e não dedicada em que a música ocupa um lugar coadjuvante, sendo escutada enquanto se fazem "coisas mais importantes". Outra forma de consumo musical é o utilitário: dançam-se os ritmos da música ou colocam-se as melodias e harmonias nos espaços tal como se usam papéis de parede para criar um determinado "clima" no ambiente.

Por fim, a mais frequente das formas de audição musical não dedicada é a das tais "trilhas sonoras". De novelas, de seriados, de filmes, boa parte da música que se ouve hoje é "sem querer". Por conta disso, desenvolve-se um hábito social, uma atitude de "distração", de efemeridade em relação à música. Os músicos e compositores contemporâneos já perceberam isto. A questão é: considerando-se que o mundo atual expõe às pessoas em geral uma grande quantidade de estímulos que podem ser fruidos de imediato, como fazer com que o público renuncie por alguns momentos a todos estes estímulos imediatos para ouvir atentamente e de forma dedicada a música?

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PAUTA MUSICAL: 1º A GRAVAR "GAROTA DE IPANEMA"

Por Laura Macedo



Resultado de imagem para pery ribeiro GAROTA DE IPANEMA

Foi Pery Ribeiro quem gravou pela 1ª vez no seu segundo LP “Pery é Todo Bossa”, lançado pela Odeon no 78 rpm (14869-A), em 1963 – “Garota de Ipanema”-, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, uma das músicas brasileiras mais conhecidas em todo mundo.

Também no repertório, composições próprias e canções de Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Silvio César e Tito Madi, entre outros autores. Destaque para os maravilhosos arranjos do maestro Lyrio Panicalli.



MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*




37 - A obra de Herivelto

Meu pai coloriu a vida brasileira de forma magistral, com cores fortes e definitivas, sons de rara beleza, numa concordância melódica e harmônica que se perpetuará através dos tempos, numa rica expressão da arte popular. Posso também dizer que meu pai, Herivelto Martins, foi o cronista maior de sua cidade, o Rio de Janeiro. Ele escreveu sobre tudo e usava seu talento para chamar a atenção sobre o que se passava na cidade. Antecipou o fim da praça Onze, no samba memorável ao lado de Grande Otelo. Cantou o morro da Mangueira, homenageou a beleza triste da favela em sua Ave Maria, enalteceu as mulatas, as Estelas, as Isauras e as Olindas. Cantou cassinos e botequins. Anunciou o novo perfil da cidade com a construção da avenida Central (atual Rio Branco), que rasgou e remodelou o centro do Rio. Cantou o Morro do Castelo, que foi demolido para dar espaço ao aterro do Flamengo. Seus interesses eram mais amplos. Cantou do bondinho de Santa Teresa, no Rio, à cidade de Brasília para Juscelino. Escreveu para a Bahia e o Rio Grande do Sul. Cantou Francisco Alves e Carlos Gardel. Não vejo, na música popular brasileira, nenhum compositor com tamanha versatilidade de temas e ritmos. Na obra de Herivelto, quase setecentas canções, encontramos samba, marcha, samba-canção, valsa, tango, bolero, baião, 
canção, jongo, frevo, guarânia, batuque, rancheira, fox. Na capa do último disco de meu pai, Que rei sou eu? , produzido pela Funarte em comemoração ao Prêmio Shell da MPB dado a ele em 1987, o jornalista e pesquisador Tárik de Souza, em texto escrito especial-mente, afirmou que parece haver na obra de Herivelto vários compositores, tal o grau de diversificação no seu jeito de compor. Como músico e compositor surgido no in-ício do século, meu pai não recebeu nenhuma influência musical. Sua informação literária restringia-se aos poemas caipiras aprendidos em Barra do Piraí. Tudo o que fez, assim como Donga, Pixinguinha, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Braguinha, Ataulfo Alves, Lamartine Babo, Noel Rosa e toda a geração deles, foi de uma originalidade sem precedente na história musical do Brasil. Não tinham a quem seguir e então in-ventaram, inaugurando o caminho que todos das gerações subsequentes, sem exceção, trilhamos e ainda vamos trilhar. O pioneirismo era total. Não se pode esquecer que a gravação, o registro em disco, engatinhava também . Era apenas o início do mercado musical e as gravadoras começavam a se instalar no país. Edição não existia, registro muito menos. Tenho certeza de que a originalidade e o lirismo abençoaram aquelas cabeças e fizeram com que deixassem um legado espontâneo e genial. Tanto que, até hoje, nos curvamos e bebemos em sua fonte. Herivelto fez parte dessa geração e foi um dos seus gigantes, com uma obra magnifica-mente intuitiva e artesanal. Obra que atravessa o tempo pela unanimidade que provoca. Nascida da espontaneidade, sem ser dirigida ou manipulada, baseada somente nas informações trocadas entre eles, sem obedecer a qualquer regra imposta por ditaduras comerciais. Não se fazia música pensando no sucesso e no consumo, mas principalmente pelo orgulho, pela beleza da obra em si. E pela espontânea aceitação do público. Nada merecia respeito e consideração dos que viviam da música se não fosse calcado na qualidade, na beleza e numa verdade interior que traduzisse tão somente uma comunhão com a música. A música de meu pai tinha essa força e essa verdade, assim como a de Ary Barroso, Lamartine, Cay mmi, Braguinha, Lupicínio e todos os grandes da época de ouro. Tinham a soltura e a liberdade de criação que aos poucos foram morrendo no Brasil. Aliás, no mundo inteiro. Por causa dessa liberdade, o período se tornou tão pródigo em sons, rimas e nu-ances. E, mesmo estando essas pérolas musicais meio esquecidas na música atual, o leg-ado transcende o tempo e, qual uma fênix, renasce no canto popular, eternizando-se na memória de nosso povo. A geração que se seguiu, trazendo Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lira, Baden Powell, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, veio com uma força muito grande e realmente assustou os antecessores. Eles traziam um mundo desconhecido, cheio de novos sons, uma forma nova de tratar o amor, cheio de bossa, com muita ginga e balanço. Uma Bossa Nova. É importante dizer que a bossa realmente nova não nasceu somente daqueles que citei — e o mundo passou a enaltecer. Outros haviam muito antes prenunciado o novo es-tilo — Ciro Monteiro, Vassourinha, Noel Rosa, Mário Reis. Mas havia no elenco comandado por Tom Jobim o desejo de romper com a linguagem usada em relação ao amor, à mulher, à visão de mundo. O rompimento musical com o passado, um tanto escuro em sua forma de expressão, fez com que surgisse um aprimoramento do jeito de cantar, tocar e compor. Havia mais frescor, alegria e uma bossa diferente. Não se pode esquecer também que a Bossa Nova brotou de uma classe social emergente, mais abastada, e que conflitava com os representantes do movimento antecessor, gente mais pobre, sem recursos para tomar uísque e, muito menos, morar de frente para o mar. É claro que o choque foi tremendo. Só não foi maior o confronto porque os novos compositores, Tom principalmente, tinham uma admiração enorme por Ary Barroso, Caymmi e todos os outros. Meu pai, por exemplo, é uma das grandes paixões de João Gilberto, que gravou “Isaura” e “Ave Maria no morro”. Cada vez que me encontrava com João no Brasil ou em Nova York, a primeira coisa que falava era: “Oi, Pery ! Como vai teu pai? Já te falei: pra mim ele é e será sempre o mais importante”. Como a maioria dos seus contemporâneos, meu pai não assimilou de imediato a nova expressão. Demorou algum tempo para entender e passar a admirar o movi-mento. Acho que contribuí bastante para a aceitação dele ao me integrar à Bossa Nova. Principalmente quando gravei “Garota de Ipanema” pela primeira vez para o mundo. O sucesso foi tão grande que, acredito, colocou meu pai um pouco mais perto do movimento. Por fim, nos últimos anos, ele já enaltecia o trabalho daqueles que deixaram seus nomes gravados no maior movimento musical que este país conheceu. Recentemente, pude observar, surpreso, que algumas obras do meu pai de gênero mais interiorano receberam certa influência de Ary Barroso. Descobri isso ao assistir ao show Ary mineiro, das cantoras gêmeas Célia e Celma, minhas doces amigas. Como boas mineiras de Ubá, cidade natal do compositor, resolveram homenagear a faceta mais interiorana de Ary, tão pouco divulgada. E imediatamente me lembrei do meu especial amigo e vizinho na Serra da Cantareira, em São Paulo, o compositor Renato Teixeira, dizendo em minha casa como considerava meu pai um compositor com forte influência rural. Contou-me também que a primeira música que aprendeu no violão em sua terra natal foi um tema interiorano de Herivelto, “Caboclo abandonado”:

Quem visse aquele ranchinho
Lá na beira do caminho
À sombra de um pinheiral
Parava cheio de espanto
Ao ouvir de dentro o canto
De um sabiá divinal
Jamais alguém pensaria
Que neste rancho existia
Um caboclo abandonado
Quem partiu deixou lembranças
E ele guarda uma esperança
E ele canta amargurado
A rola nunca se esquece
De onde fez o seu primeiro ninho
O seu primeiro ninho de amor
Pode rolinha triste
Andar por onde quiser andar 
Mas ao seu primeiro ninho
Tem que voltar

O samba tinha em meu pai o representante mais dedicado. Mas, com o tempo, a modernidade exigiu que o samba começasse a falar de maneira mais íntima ao coração. Naturalmente, o blues norte-americano e as aparições, em meados dos anos 40, dos cantores românticos (os americanos Nat King Cole, Frank Sinatra e Bing Crosby, e o brasileiro Dick Farney) contribuíram para que se procurasse uma maneira de se comunicar mais ao pé do ouvido. O romantismo de meu pai, o lirismo da época e a própria história de sua vida deram muita força para que nascesse o samba-canção. Eu não diria que ele tenha sido o pre-cursor, mas tenho certeza de que, junto com o Caymmi de “Só louco” e o Braguinha de “Copacabana”, deu o passo inicial para que o samba-canção passasse a ser um gênero abraçado pelos que queriam falar mais de perto ao coração das pessoas. Chico Alves gravou de Herivelto “Culpe-me” e “Caminhemos”. Foram grandes sucessos. Sílvio Caldas gravou “Cabelos brancos”, outro sucesso. A partir daí, o samba-canção ficou total-mente integrado à alma do brasileiro. Aliás, meu pai, quando discutíamos os rumos da cultura nacional, gostava de dizer: “Pery, quando a música brasileira parecer mais decaída, quando a má qualidade quase matar a nossa cultura e o lixo estrangeiro mais estiver dominando a nossa música, há de sempre surgir um samba-canção pra sal-var a nossa dignidade cultural”. Assim espero, meu pai! 




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

GRAMMY LATINO DIVULGA LISTA DE INDICADOS; CONFIRA

Tiago Iorc, Mano Brown, Ludmilla e Metá Metá estão nas categorias para música em língua portuguesa


Mano Brown, Tiago Iorc e Ludmilla indicados ao 18º Grammy Latino.
(foto: BoogieNaipe/Som Livre/Warner Music Group/Divulgação)


A 18ª edição do Grammy Latino divulgou a lista com os indicados de suas 48 categorias. Entre elas, as específicas de língua portuguesa trazem artistas brasileiros como Tiago Iorc, Mano Brown, Ludmilla e Metá Metá. 

Iorc chega nesta edição com a indicação para melhor álbum pop contemporâneo, com Troco like ao vivo. Ele divide a categoria com AnaVitória (AnaVitória), Mano Brown (Boogie naipe), Jamz (Tudo nosso) e Ludmilla (A danada sou eu). 

Na categoria melhor canção, artistas veteranos como Diogo Nogueira e Nando Reis disputam o prêmio ao lado de novatos como Silva e Francisco, El Hombre. 

Nas categorias gerais, o músico Residente, fundador do grupo Calle 13, lidera com 9 indicações. Ele é seguido por Maluma com 7, Shakira com 5, Juanes com 5 e Luis Fonsi com 4. O evento com a revelação dos vencedores será realizado em 16 de novembro em Las Vegas, nos Estados Unidos. 


Abaixo, confira a lista dos indicados: 

Álbum do ano
Salsa Big Band — Rubén Blades com Roberto Delgado & Orquesta
Obras Son Amores — Antonio Carmona
A La Mar — Vicente García
Fénix — Nicky Jam
Mis Planes Son Amarte — Juanes
La Trenza — Mon Laferte
Musas (Un Homenaje Al Folclore Latinoamericano En Manos De Los Macorinos, Vol. 1) — Natalia Lafourcade
Residente — Residente
El Dorado — Shakira
Palabras Manuales — Danay Suarez


Melhor gravação
La Flor De La Canela — Rubén Blades
El Surco — Jorge Drexler
Quiero Que Vuelvas — Alejandro Fernández
Despacito — Luis Fonsi featuring Daddy Yankee
El Ratico — Juanes featuring Kali Uchis
Amárrame — Mon Laferte featuring Juanes
Felices Los 4 — Maluma
Vente P’a Ca — Ricky Martin featuring Maluma
Guerra — Residente
Chantaje — Shakira featuring Maluma


Canção do Ano (prêmio aos compositores)
Amárrame — Mon Laferte, compositor (Mon Laferte featuring Juanes)
Chantaje — Kevin Mauricio Jiménez Londoño, Bryan Snaider Lezcano Chaverra, Joel Antonio López Castro, Maluma e Shakira, compositores (Shakira featuring Maluma)
Desde Que Estamos Juntos — Descemer Bueno & Melendi, compositores (Melendi)
Despacito — Daddy Yankee, Erika Ender e Luis Fonsi, compositores (Luis Fonsi featuring Daddy Yankee)
Ella — Ricardo Arjona, compositor (Ricardo Arjona)
Felices Los 4 — Mario Cáceres, Kevin Mauricio Jiménez Londoño, Maluma, Servando Primera, Stiven Rojas e Bryan Snaider Lezcano Chaverra, compositores (Maluma)
Guerra — Residente e Jeff Trooko, compositores (Residente)
La Fortuna — Diana Fuentes e Tommy Torres, compositores (Diana Fuentes featuring Tommy Torres)
Tú Sí Sabes Quererme — Natalia Lafourcade, compositores (Natalia Lafourcade featuring Los Macorinos)
Vente Pa’ Ca — Nermin Harambasic, Maluma, Ricky Martin, Mauricio Montaner, Ricky Montaner, Lars Pedersen, Carl Ryden, Justin Stein, Ronny Vidar Svendsen e Anne Judith Stokke Wik, compositores (Ricky Martin featuring Maluma)


Melhor Fusão/Interpretação Urbana
Si Tu Novio Te Deja Sola — J. Balvin featuring Bad Bunny
Despacito (Remix) — Luis Fonsi e Daddy Yankee featuring Justin Bieber
El Amante — Nicky Jam
Dagombas En Tamale — Residente
Chantaje — Shakira featuring Maluma


Categorias para Música em Língua Portuguesa:


Melhor Álbum Pop Contemporâneo
AnaVitória – AnaVitória
Boogie Naipe – Mano Brown
Troco likes ao vivo: um filme de Tiago Iorc – Tiago Iorc
Tudo nosso - Jamz
A Danada sou eu – Ludmilla


Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa
Brutown – The Baggios
Aventuras II – Blitz
Boca – Curumim
MM3 – Metá Metá
JARDIM – POMAR – Nando Reis


Melhor Álbum de Samba/Pagode
+ Misturado – Mart’nália
Na luz do samba – Luciana Mello
Alma brasileira – Diogo Nogueira
Delírio no Circo – Roberta Sá
SAMBABOOK Jorge Aragão – Vários Artistas


Melhor Canção
Noturna (nada de novo na noite) – Marisa Monte, Silva & Lucas Silva
Por Silva com Marisa Monte
Pé na Areia – Cauique, Diogo Leite & Rodrigo Leite
Por Diogo Nogueira
Só posso dizer – Nando Reis
Por Nando Reis
Trevo (TU) – Ana Caetano & Tiago Iorc
Por AnaVitória
Triste, Louca ou Má – Francisco, El Hombre
Por Francisco, El Hombre


Melhor álbum de música sertaneja
Daniel – Daniel
(…) – Day & Lara
1977 – Luan Santana
Realidade ao vivo em Manaus – Marília Mendonça
5. Live – Simone & Simaria


Fonte: Estado de Minas

domingo, 15 de outubro de 2017

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB


Quem acompanha esta minha coluna já deve ter percebido a importância que dou a história do nosso cancioneiro e para isso tenho buscado trazer esporadicamente o nome de alguns artistas que em algum momento contribuíram para a história de nosso cancioneiro. Pra mim é algo extremamente gratificante poder mergulhar na história da MPB a partir de figuras que muitas vezes nem eu mesmo sabia que existiam. É um fascínio deparar-se com fatos, canções e situações que mostram o porquê a nossa música popular é tão respeitada em qualquer lugar do planeta. Pois bem, hoje trago o nome desta cantora que apesar de gravar muito pouco teve parcerias com Francisco Alves, o maior cantor da época em que ela atuou. É evidente que duetos com o cantor mais popular do país favoreceu e muito para a divulgação do seu nome, no entanto poucos foram seus registros fonográficos. Na verdade, pouco se sabe sobre sua biografia depois de 1932. Sumiu da mídia de modo que não se sabe maiores informações a partir da segunda metade da década de 1930. Mas voltemos ao início de sua carreira quando foi descoberta pelo revistógrafo Marques Porto no Bar Cosmopolita, um bar que existia no Passeio Público, onde apresentava-se cantando e dançando. Além dessa atividade, chegou a trabalhar também em alguns parques de diversões no subúrbio carioca até estrear, em março de 1926, na revista "Pirão de areia", no Teatro São José, liderando um grupo de black-girls e cantando com uma "charleston jazz band". Também com as Black Girls apresentou um número chamado "Bahiana, n'aime tu?", que era bisado e trisado diariamente. No entanto seu sexto sentido dizia que alguma coisa a mais ainda estava reservado para a sua carreira e foi em busca dessa intuição que ela seguiu.

Apresentando nos teatros de revista carioca começou a ganhar uma popularidade maior a cada nova apresentação e, embora contracenasse com atrizes de renome, como Otília Amorim, foi a atriz mais aplaudida na revista do São José. Vale o registro de que Rosa Negra atuou na Companhia Negra de Revista, primeira tentativa de criar no Brasil uma companhia teatral apenas com atores e atrizes negros. Um projeto ousado, mas que teve a simpatia de alguns grandes nomes da música e do teatro da época. A revista de estréia da Companhia Negra foi "Tudo preto", de autoria de De Chocolat, com música do maestro Sebastião Cirino e com Pixinguinha regendo a orquestra. Apresentada no Teatro Rialto, a revista fez muito sucesso e esta condição acabou por tornando Rosa uma das atrizes que mais se destacou ao interpretar "Ludovina cançonette", um número charlestônico, "Pérolas negras", outro número de sucesso, "Jaboticaba afrancesada" e "Banhistas", onde contracena com a vedete Dalva Espíndola. Nesta época chegou a ser comparada, por alguns críticos, a uma famosa vedete francesa que atuou na Companhia Bataclan chamada Mistinguette e bastante popular no voleho mundo. Em 1927 gravou com Francisco Alves o samba "Não quero saber mais dela", de Sinhô, que foi um grande sucesso, Em 1928, ainda com Francisco Alves, gravou o foxtrote "Moleque namorador", de Heckel Tavares e o fox "Que pequena levada", de J. Francisco de Freitas. Gravou ainda "Rosa preta" e "Quem quer casar comigo?". Sua atuação no mercado fonográfico foi tímida se comparada à sua atuação no teatro de revista da época. Além das já citadas participações chegou a participar também da revista "Chora menino", de Marques Porto e Luiz Peixoto, com a Companhia Brasileira de Revistas; participou do Teatro República com a Companhia Mulata Índia do Brasil a revista "Com que roupa?", de Luís Peixoto, atuou no Teatro Margarida Marx entre outras façanhas.

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

LEONARDO SULLIVAN - AO VIVO

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