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sábado, 10 de dezembro de 2016

PETISCOS DA MUSICARIA: LENINE, MAIS UM ESPETÁCULO ESPECIAL – AGORA COM MARTIN FONDSE

Por Joaquim Macedo Junior


Lenine e seus encontros especiais, desta vez com o ótimo Martin Fondse


Tenho tanta afeição ao trabalho de Lenine e a sua própria pessoa que vou abrir esta coluna – sobre o trabalho “The Bridge” – com o que há de mais formal e sisudo entre as apresentações de nosso grande artista. Sei que é uma vã tentativa de distanciar-me da confusão inevitável: colunista-fã! Mas farei assim.

Bem, Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, mais conhecido como Lenine, nasceu no Recife em 2 de fevereiro de 1959. É cantor, compositor, arranjador, letrista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro químico e ecologista. Ah, criador de orquídeas também.

Possui cinco troféus “Grammy” latino, dois prêmios da APCA e ganhou por nove vezes o Prêmio da Música Brasileira.

Estima-se que Lenine tenha composto, gravado e produzido mais de quinhentas canções, algumas registradas nas vozes de Elba, Milton e Gil, entre outros. Atualmente, ocupa a 38ª cadeira da Academia Pernambucana de Letras.


O disco vem com o seguinte repertório (*)

01. Abertura – Maurício de Nassau Bridge (Martin Fondse)
02. A ponte (Lenine e Lula Queiroga)
03. A rede (Lenine e Lula Queiroga) / Eendracht Bridge (Martin Fondse)
04. Chão (Lenine e Lula Queiroga) / Loopbrug Bridge (Martin Fondse)
05. O universo na cabeça do alfinete (Lenine e Lula Queiroga)
06. O dia em que faremos contato (Lenine e Bráulio Tavares) / Ravelin Bridge (Martin Fondse)
07. Paciência (Lenine e Dudu Falcão) / Rio-Niterói Bridge (Martin Fondse)
08. Hoje eu quero sair só (Lenine, Mu Chebabi e Caxa Aragão) / Iran Foot Bridge (Martin Fondse)
09. Miragem do porto (Lenine e Bráulio Tavares)
10. Relampiano (Lenine e Paulinho Moska) / Tyne Bridge (Martin Fondse)
11. A causa e o pó (Lenine e João Cavalcanti)
12. Martelo bigorna (Lenine) / Golden Gate Bridge (Martin Fondse)
13. Rosebud (O verbo e a verba) (Lenine e Lula Queiroga)
14. Leão do Norte (Lenine e Paulo César Pinheiro)
15. O silêncio das estrelas (Lenine e Dudu Falcão) / Stargate Bridge (Martin Fondse)
16. Jack soul brasileiro (Lenine) / Vecchio Bridge (Martin Fondse)
17. Do it (Lenine e Ivan Santos) / Rock Bridge (Martin Fondse)

(*) Importante registrar que a escolha das músicas que aqui reproduzo foi absolutamente aleatória. Ao escolher duas, terei deixado 15 lindas outras de lado.

Semana passada, foi a vez de Lenine no Recife: fez show, dia 04/11, no Teatro Guararapes, com a turnê “Carbono” e participou de noite de autógrafos na Passa Disco, onde lançou o CD e DVD “The Bridge”.

Habituado a adquirir tudo de bom que a Passa Disco comercializa já havia me antecipado ao pedido do novo trabalho de Lenine – atualmente ESGOTADO – e o recebi na sexta-feira. Foi ligação à primeira vista. É simplesmente imperdível, magnânimo, a se ouvir sem fim. Ah, Martin Fondse e demais músicos solistas virtuosos.


The Bridge:

“A ponte” arquitetada pelo ‘cantautor’ Lenine com os arranjos do premiado maestro holandês Martin Fondse e sua orquestra.

A Martin Fondse Orchestra é formada por um prestigiado conjunto de músicos europeus como Dirk-Peter Kölsch (Alemanha) na bateria, Eric van der Westen (Holanda) no baixo, Mete Erker (Holanda) no saxofone e clarone, Irma Kort (Holanda) no oboé, Søren Siegumfeldt (Dinamarca) como tenor saxofone, Annie Tangberg (Noruega) no violoncelo e Vera van der Bie e Herman van Haaren (Holanda) no violino. Martin dirige e toca piano e vibrandoneon.

Trata-se de uma sinfonia de instrumentos de cordas e sopros que, desde 2013, acompanha Lenine na jornada de suas “comemórias” por atravessar três décadas no exercício da música. Após apresentações de sucesso na Alemanha, Áustria, Holanda, Portugal, Estados Unidos e Brasil entre 2013 e 2014, The Bridge está sendo visto novamente no Brasil.



Martin Fondse e sua orquestra

Sejam pontes conotativas ou as denominadas sobre o Rio Capibaribe, em Recife, ou o Amstel, em Amsterdã, a música “A Ponte” – uma parceria dos conterrâneos Lenine e Lula Queiroga – dá título ao show The Brigde: um belo cruzamento musical transatlântico da arte dos dois insulares de nascimento.

Traz um conceito novo da obra de Lenine, definido em arranjos de Martin Fondse, numa combinação de instrumentos e sons que transitam pelo jazz, pela música clássica e outros gêneros. O repertório inclui o mais recente trabalho do compositor, “Carbono”.

– Minha opção de abrir esta coluna da maneira mais formal possível foi mesmo para fugir a qualquer possibilidade de excessos e elogios hiperbólicos.

É fácil entender: ainda quando no Recife, por sorte, tive alguns poucos contatos com o “Oswaldo Lenine” na sua casa de Boa Viagem. Era coisa de quem conhecia amigo do amigo.

O fato me foi marcante e já estava claro, ali, que tínhamos um novo grande talento da música brasileira.

Pois, então, desde “Baque Solto” e “Olho de Peixe”, conheço cada evento musical de Lenine, desde a magnífica apresentação no “Cité de La Musique”, passando pelo ‘Quanta Ladeira’, que ajudou a fundar, até a participação em programas de TV, com a saudosa d. Selma do Coco.

O que mais me impressiona nele é a extrema qualidade em todos os discos, gravações e produções, além de uma uniformidade poucas vezes vista em nossos compositores populares. Que não se confunda uniformidade com repetição ou monocórdia, por favor.

A mim, me emociona, a capacidade de agregação desse grande artista. Estando com maiores (por idade, tempo, fama etc) ou menores (por critérios semelhantes), Lenine é sempre o mesmo: vai até a boca do gargarejo e volta para se esconder na “cozinha” e ser mais um músico em prol de um grande show ou uma performance melhor.

Lenine é um cara que me passa extrema sinceridade, firmeza de posições e uma paz e uma suavidade pouco vistas nesse ambienta competitivo.

Salve Lenine, que continue fazendo pontes!!

Parabéns.

O SOM DO VIINIL

A HISTÓRIA MUSICAL DO RÁDIO NO BRASIL

Há 20 anos atrás as músicas mais executadas no Brasil eram as seguintes:

01 - Garota Nacional (Skank)
02 - Estou Apaixonado (Estoy Enamorado) (João Paulo e Daniel)
03 - Macarena (bayside boys mix) (Los Del Rio)
04 - Sem Medo de Ser Feliz (Zezé Di Camargo e Luciano)
05 - Recado a Minha Amada 
(Katinguelê)
06 - À Primeira Vista (Daniela Mercury)
07 - Eu Juro (I Swear) (Leandro e Leonardo)
08 - Indiferença 
(Zezé Di Camargo e Luciano)
09 - É o Tchan (Pot-Pourri) (Gera Samba)
10 - Beleza Rara (Banda Eva)
11 - Dança da Cordinha (É o Tchan)
12 - Vai Sacudir, Vai Abalar (Cheiro de Amor)
13 - Minha Estrela Perdida 
 (Gian e Giovani)
14 - Doce Mistério (Leandro E Leonardo)
15 - Felicidade Que Saudade de Você 
(Zezé Di Camargo e Luciano)
16 - Teu Charme (Os Morenos)
17 - Não Vá Ainda (Zélia Duncan)
18 - Pinga (Pato Fu)
19 - A Namorada (Carlinhos Brown)
20 - S.O.S. Brasil (Cidade Negra)
21 - A Dança do Bumbum (É o Tchan)
22 - Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Kid Abelha)
23 - Tic, Tic Tac (Carrapicho)
24 - T o Pensando Nela
 (Gian e Giovani)
25 - Me Dê Uma Chance (Cleiton e Camargo)
26 - No Compasso do Criador (Katinguelê)
27 - Bom Bocado (Art Popular)
28 - Chora, Viola (Rionegro E Solimões)
29 - Com Qual Carícia 
(João Paulo e Daniel)
30 - Água Mineral (Timbalada)
31 - O Samba Não Tem Fronteiras (Só Pra Contrariar)
32 - Soul de Verão (Fame) (Sandra de Sá)
33 - Brasil é o País do Suingue (Fernanda Abreu)
34 - Florentina (Tiririca)
35 - Teu Cafuné (Maurício Mattar)
36 - Tão Seu
 (Skank)
37 - Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo (Roberta Miranda)
38 - É Uma Partida de Futebol (Skank)
39 - Papel de Chiclete (Gian e Giovani)
40 - Devagar, Devagarinho (Martinho da Vila)
41 - Sozinho 
(Raça Negra)
42 - Vermelho 
(Márcia Freire)
43 - À Primeira Vista (Chico César)
44 - Vem Ser Feliz (Ricardo Chaves)
45 - Mama Africa 
 (Chico César)
46 - Templo (Renata Arruda)
47 - Coração Gelado (José Augusto)
48 - Coração Sertanejo 
(Chitãozinho e Xororó)
49 - Leva (Placa Luminosa)
50 - Firmamento (Cidade Negra)
51 - Lourinha Bombril (Os Paralamas do Sucesso)
52 - Na Boquinha da Garrafa (Companhia do Pagode)
53 - Bailão de Peão (Chitãozinho e Xororó)
54 - A Feira (O Rappa)
55 - Preciso de Você (Netinho)
56 - Nas Ondas do Partido (Fundo de Quintal)
57 - Tanajura (Negritude Jr.)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

CANÇÕES DE XICO


HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 51


COBERTOR DE ESTRELAS

Mais uma que consta de nossos Forroboxotes, o de número 3 – MULHERES CANTADEIRAS DE UMA NAÇÃO CHAMADA NORDESTE, na belíssima interpretação de MARIA DAPAZ, uma de minhas parceiras mais freqüentes. A música é de minha autoria em parceria com um mestre do Bandolim, Adalberto Cavalcanti, conhecido como Beto do Bandolim


COBERTOR DE ESTRELAS
Xico Bizerra e Beto do Bandolim

prá ter certeza que nem tudo se perdeu
pr’eu ser feliz e ter motivos pra cantar
reencontrar a paz que um dia se escondeu
e toda noite, noite plena de luar
pra olhar pro ceu e ver milhões de estrelas
sonhar trazê-las pra ser nosso cobertor
saber que o amor ainda não me esqueceu
basta botar esses teus ‘ói’ em riba deu

prá ter sede bem ‘pertim’ do pote
prá dançar xote agarradinho com você
prá ser invernia toda hora
não ir embora, não, sempre te ter
pra ser feliz ficando aqui ao lado teu
basta botar esses teus ‘ói’ em riba deu

PESSOAS QUE SE ARREPIAM COM MÚSICA TÊM CÉREBRO ESPECIAL, APONTA ESTUDO


Uma das formas de arte mais antigas e sublimes, a música é uma combinação de sons e ritmos em uma organização de tempo. De diversas formas, está presente em nossa sociedade. Além disso, serve como uma espécie de marcador cultural, pois traz muitas informações sobre cada povo.

Exclusivamente humana, a música pode nos trazer sensações distintas. Há quem relate o aumento da frequência cardíaca e arrepios na pele com determinadas canções.

Cientistas da Universidade de Harvard decidiram estudar um pouco sobre esse fenômeno tão curioso do corpo humano. A pesquisa apontou um resultado curioso: quem se arrepia com música possui um cérebro considerado “especial”.

Cerca de metade da população mundial tem essa reação à música. Segundo os pesquisadores, quem se sente dessa forma com determinadas canções têm conexões especiais dentro do cérebro.


A pesquisa

Para estudar o caso, os cientistas estudaram reações de 20 pessoas – 10 que sentem arrepios com música e 10 que nunca sentiram isso. Cada um levou até cinco canções prediletas.

Cada voluntário teve sua reação estudada de forma geral. Batimentos cardíacos e suor da pele foram monitorados enquanto ouviam os trechos que mais gostavam das músicas. A intensidade de quem se arrepiou foi maior, segundo os pesquisadores.

Depois, um estudo específico relacionado ao cérebro foi feito com cada voluntário. As conexões entre as regiões cerebrais foram exploradas para se obter uma resposta.

Os cientistas descobriram que quem se arrepia tem mais fibras nervosas que saem do córtex auditivo e chegam ao córtex insular anterior e o córtex prefrontal. Essas regiões processam sentimentos e monitoram emoções. A boa conectividade cerebral deixa a experiência de ouvir música ainda mais intensa.


‘Orgasmo’?

Cientistas descrevem o arrepio enquanto se ouve música como ‘orgasmo na pele’. O motivo é simples: a reação biológica que temos nessa situação é semelhante à de um orgasmo.

Não estamos falando da questão sexual, mas como as substâncias químicas em nosso corpo reagem a situações do tipo. Uma dose de dopamina percorre o corpo em momentos de prazer, seja quando ouvimos uma boa música, fazemos sexo ou comemos.


Música como função evolutiva

Ainda não se sabe se a funcionalidade do ‘arrepio musical’ é desenvolvida ao longo dos anos ou se a pessoa nasce com essa capacidade. No entanto, o estudo serve para compreender a função evolutiva da música.

As conexões cerebrais, passadas entre gerações, têm alguma função para a sobrevivência humana. Ao longo dos séculos, essa capacidade deve ter sido desenvolvida com algum propósito mais rústico, ainda a ser apurado pelos cientistas.

JOSÉ MAURÍCIO MACHLINE, 60 ANOS

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Na adolescência trabalhou como juiz em exposições de cães para o Kennel Club.

No ano de 1989 criou, junto ao ex-ministro Mário Henrique Simonsen, o "Prêmio Sharp de Música". Durante 12 anos o projeto foi patrocinado pela Sharp e posteriormente, por cinco anos pela Empresa Time, a partir do ano de 2010, patrocinado pela Companhia Vale.

Atuando como medium trabalhou como chefe espiritual do Centro Espírita do Zé do Bem, casa de umbanda que desenvolve um trabalho de recuperação de doentes e dependentes químicos. Sobre esse tema, escreveu o livro "Eu não acredito em religião", lançado na Livraria Argumento no ano 2000.

No ano de 2012 o "Prêmio da Música Brasileira" completou 24 anos de atuação, tendo tido vários homenagens à obra de diversos compositores como João Bosco e Tom Jobim, entre outros.

Criador do "Prêmio Sharp de Teatro e Música". Também apresentador de televisão, sendo muito respeitado no meio artístico por suas ideias singulares com respeito à música popular brasileira. Entrevistou a maioria dos compositores e intérpretes brasileiros nos diversos programas que criou em distintas emissoras de televisão.

Em 1999, aventurou-se em produzir, arranjar e cantar o CD "Toques de umbanda", revelando, com este disco, a outra face de sua personalidade. Sobre seu trabalho, relatou o escritor Carlos Heitor Cony: "A começar pelo título, o CD de José Maurício Machline é instigante, até mesmo provocador. Na verdade, Zé Maurício não buscou nenhuma religião. A espiritualidade é que o foi buscar, numa vivência pessoal que o levaria gradativamente ao espiritualismo, aqui entendido em suas múltiplas formas, desde a paranormalidade pura e simples, até a integração neste "blended" espiritual que se expressa no sincretismo cultural que forma e informa a espiritualidade básica do povo brasileiro. Uma vez possuído não pela sua verdade mas pela sua vivência, José Maurício foi fundo no colorido e musical universo dos cultos populares que integram a formação da espiritualidade do povo brasileiro. Ele não pescou uma religião que o explicasse ou o tornasse feliz. Ele próprio se descobriu feliz e descoberto à medida em que se relacionava espiritualmente com as diversas entidades do panteão africano que aqui no Brasil se amoldaram sincreticamente com a religião estruturada dos europeus brancos que ocuparam e colonizaram a nossa terra. O CD "Toques de umbanda", revela a outra face de sua personalidade. Como no catolicismo medieval, o canto é a manifestação coletiva de fé e de anseio espiritual. O trabalho de José Maurício, já aqui denominado "Zé Maurício", é surpreendente. Produzido, arranjado, cantado, ele carrega o peso de sua experiência cultural e artística, já conhecida em outros momentos de sua biografia, para um campo que certamente fará deste CD um clássico dos pontos de nossos cultos populares".

No ano 2000, apresentou na TV Educativa do Rio de Janeiro o programa "Por acaso", no qual entrevistou personalidades e artistas.

Em 2002 lançou o CD "Mania de vocês", pela gravadora Radamés, no qual interpretou somente compositoras. O CD contou com as participações de cantoras e atrizes, entre elas, Camila Pitanga, com a qual dividiu a faixa "Desculpe o auê" (Rita Lee), Ivete Sangalo "Minha Nossa Senhora" (Fátima Guedes), Leny Andrade "Ouça" (Maysa) e Cláudia Ohana em "E.C.T" (Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown). O disco foi lançado em julho deste mesmo ano em temporada no Mistura Fina, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ainda neste ano, lançou o "Prêmio Caras da MPB", cuja primeira edição ocorreu no Canecão, no Rio de Janeiro.


Fonte: Dicionário da MPB

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*



Canção: Na asa do vento

Composição: Luiz Vieira e João do Vale

Intérprete - Luiz Vieira

Ano - 1959

Álbum: Luiz Vieira - Retalhos do Nordeste.



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

VINTE ANOS SEM RENATO RUSSO, O ÍDOLO REBELDE E SOFRIDO

Em 11 de outubro de 1996, o artista que "nomeou a sujeira e o vazio de sua época" sucumbia a complicações decorrentes da aids

Por Daniel Jelin



Renato Russo: “A morte está perto e quero aproveitar ao máximo”. Foto: Oscar Cabral/VEJA





VEJA de 16 de outubro de 1996

Há exatos 20 anos, morria o líder da Legião Urbana, Renato Russo, vítima de complicações pulmonares e renais decorrentes da aids. Reportagem de capa de VEJA relatou os últimos dias do “artista rebelde que com versos e rock nomeou a sujeira e o vazio de sua época”.

Na tarde de domingo passado, o telefone tocou no apartamento do cantor e compositor Renato Russo, líder da banda Legião Urbana, em Ipanema. Ele atendeu. Do outro lado da linha estava o ator Marcelo Berê, querendo saber notícias do amigo. “Estou mal e eu não posso mais nem falar”, disse-lhe Russo com um fiapo de voz e passou o fone para o enfermeiro que estava ao seu lado. Na sexta-feira passada, o corpo de Russo era transportado do apartamento para o cemitério do Caju, onde, conforme as instruções que dera à família, seria cremado no sábado. Renato Russo morreu à 1h15 da madrugada de sexta-feira, vítima de complicações pulmonares e renais decorrentes da Aids. Aos 36 anos, desapareceu como um dos mais bem-sucedidos artistas da MPB dos últimos quinze anos, com 5 milhões de discos vendidos. Calava-se o artista rebelde que com versos e rock nomeou a sujeira e o vazio de sua época.

Renato Russo foi mais do que um sobrevivente da explosão do rock nacional dos anos 80. Autor de todas as letras do Legião Urbana e homem de frente nos shows da banda, ele desenvolveu uma notável habilidade para traduzir as emoções e a inquietude dos jovens brasileiros de mais de uma geração. Seu público atual não era feito de trintões e quarentões nostálgicos, mas de adolescentes para os quais as mensagens de Russo continuavam a ser palavras de ordem. Em suas letras e interpretações, falava de amor como os jovens gostariam de saber falar. Bradava contra a miséria familiar como seu público gostaria de fazer na sala de jantar de casa. E, quando virava seu olhar para o governo e os políticos, enunciava opiniões às vezes extremadas, às vezes ingênuas, mas sempre raivosas. Esse era o segredo de sua popularidade.

A edição de VEJA de 16 de outubro de 1996 destacava cinco frases ditas pelo cantor ao longo daquele ano, segundo relato dos amigos.

Em janeiro: “Quando chegar aos 50 anos, vou escrever meu livro”.

Em julho: “Depois desse trabalho (referindo-se ao último disco, A Tempestade), eu quero descansar”.

Dois meses antes de sua morte: “A morte está perto e quero aproveitar ao máximo este momento para aprender com a própria vida e com a morte”.

Um mês antes: “Quando eu tomo o coquetel (de AZT e outros) é como se tivesse comendo um cachorro vivo. E o cachorro me come por dentro”.

Cinco dias antes: “Estou mal e eu não posso mais nem falar”.

A reportagem de VEJA examinava também a trajetória artística de Renato Russo:

VEJA de 16 de outubro de 1996

Poesia e contestação se fundem num resultado muitas vezes desconcertante na obra deixada por Renato Russo. Para dar vazão a seu universo conflituoso, Renato tomou emprestados versos de Camões, descreveu amores absurdos, passou lições de moral. Às vezes foi também repetitivo e até um pouco canastrão. Mas sempre manteve o controle sobre sua carreira, indiferente ao mito criado pelo fanático público da banda que ele liderou. O Legião Urbana era do contra — vendeu seus 5 milhões de discos sem nunca ter adotado procedimentos recorrentes da indústria fonográfica. Jamais quis tocar em festivais patrocinados por grandes empresas. Raríssimas vezes compareceu a programas de auditório em que seus colegas de profissão batem cartão para empurrar as vendas de discos. Raramente fazia shows e dava de ombros para os gêneros musicais em voga no mercado. Não usava o surrado recurso baiano de inventar polêmicas na imprensa sempre que lançava um disco. Adotou uma postura que nenhum outro artista ou grupo arriscaria. Talvez por isso tenha preservado sua autenticidade e carisma.

Renato Russo escreveu alguns dos hinos da geração roqueira dos anos 80. Será, música tocada em literalmente todos os shows do Legião por exigência dos fãs, Ainda É Cedo, Tempo Perdido, Pais e Filhos e uma dezena de outras canções que arrebataram o coração de estudantes. O estilo musical do grupo foi definido no álbum Dois, de 1986. O disco vendeu mais de 1 milhão de cópias e emplacou vários sucessos nas rádios, obrigando as emissoras a colocar no ar uma música de quase oito minutos — Eduardo e Mônica —, o que é totalmente fora dos padrões radiofônicos. Se com o grito de protesto Renato excitou a juventude, sua maior contribuição viria com a maturidade de seus versos. Isso fica claro no disco As Quatro Estações, de 1989. É nele que estão as letras mais densas de Renato, e também onde ele revela suas fontes de inspiração — um anônimo hindu, a Bíblia, Bukkyo Dendo Kyokai, Luís de Camões, entre outros. “O resultado da música que ele fez sobre o soneto de Camões é belíssimo, além de ser um procedimento pouco usual no ambiente do rock”, diz o compositor e professor de letras José Miguel Wisnik.


VEJA de 27 de março de 1985

Estreia em disco – VEJA acompanhou a trajetória bem sucedida da Legião desde seu primeiro disco, de 1985.

Reportagem de 27 de março daquele ano observava a euforia roqueira em Brasília e retratava a banda de Renato Russo como o melhor exemplo do estilo brasiliense, “que não usa o bom humor como principal ingrediente”e guarda distância “dos acordes românticos de Lulu Santos ou do Kid Abelha”.

“A gente começou tocando rock com três acordes e hoje ainda não somos grandes músicos”, admitia Renato.


VEJA de 19 de junho de 1988

Se os discos eram bem recebidos pela crítica, os shows da Legião, imprevisíveis, nem sempre terminavam bem. Um deles ficou particularmente famoso: em junho de 1988, um show para 42 mil pessoas no estádio Mané Garrincha, em Brasília, terminou com mais de 200 feridos – nenhum em estado grave. “Aquele que deveria ser um dos maiores concertos de música da história da cidade transformou-se em uma sequência de atitudes desastradas que começou com a organização precária, prosseguiu com a brutalidade da polícia e atingiu o apogeu no momento em que o líder do grupo de rock, Renato Russo, passou a provocar o público classificando-o como ‘fascista’ e ‘boboca’ ao microfone”, relatava reportagem de VEJA.


Renato Russo: rei do rock

A coroa do rock – Emplacando sucesso atrás de sucesso, Renato Russo acabaria se firmando como o “novo rei do rock”, como retratou VEJA de 17 de outubro de 1990. A reportagem notara a guinada da banda, que trocava o som “pesado e primal” por “canções que falam de amor e melodias mais elaboradas”. O grupo rodava então o país em turnê, e com ela afastava o estigma da violência.

A Legião, dizia a reportagem, herdava do RPM a coroa abandonada do rock nacional. Mas as semelhanças entre as bandas paravam por aí. Se Paulo Ricardo tinha “pose de astro pop inglês e voz sensual”, Renato tinha a “aparência de um jogador de pôquer em fim de noite e a sensualidade de uma vovó de pijamas”.

Renato já então sabia que era portador do vírus da aids, mas não tornou pública a doença, que só se manifestaria muitos anos depois. Em 1996, contraiu uma série de infecções oportunistas e foi internado várias vezes. Mesmo debilitado, conseguiu concluir A Tempestade. Não quis posar para as fotos de divulgação. Estava 20 quilos mais magro. Morreu três semanas após o disco chegar às lojas.

ZOOMBIDO

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

VÔTE... ESCUTA SÓ: TIGANÁ SANTANA


Por Paulo Carvalho


Tiganá Santana


A Bahia tem nos dado grandes músicos, cantores compositores, tantos que fica até difícil enumerar, esquecerei alguns com certeza. Mas só de lembrança, sem nenhuma pesquisa mais profunda, podemos falar de Dorival Caymmi, e família já atingindo a terceira geração, Batatinha, Elomar Figueira, Xangai, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Betânia, Gal Costa, Virgínia Rodrigues, Bule-Bule, Wilson Aragão, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Tom Zé, e Carlinhos Brown. Não vamos falar do lixo, pois tem, pra dar e vender, tanto lá como aqui. Coisas que vem e passam sem deixar rastros na história.


A todos eles vem se juntar um artista dos mais completos, que, talvez, como alguns dos citados, não venha ser um sucesso de público, mais já é de longe reconhecido pela crítica, da Europa, Estados Unidos, Ásia e Oceania, como muito bem preparado, com enorme bagagem musical e cultural.

Tiganá Santana, nascido em Salvador, poeta, filósofo, compositor instrumentista. De voz grave e profunda, com um belo timbre, capaz de compor e cantar em línguas africanas, além de português, inglês e francês com desenvoltura. A facilidade com línguas estrangeiras se deve aos estudos objetivando segundo o desejo materno, a diplomacia. A música foi mais forte, perdemos um diplomata e ganhamos um grande artista.

Tem parcerias com Fabiana Cozza, Jurema Paes, e cita Tom Jobim como uma das suas influencias mais fortes, assim como a música que ouvia nos terreiros de umbanda e na África onde viveu e pesquisou ritmos os quais incorpora hoje a sua obra. Com Três discos gravados foi convidado de Fernando Faro para o programa ensaio, uma referência para grandes artistas.

GEOGRAFIA DAS EXPRESSÕES

Um ensaio fotográfico sobre o homem e seus territórios, focando as expressões diversas dos indivíduos no cotidiano e em suas respectivas paisagens. 

Por Fábio Nunes






8ª JAZZPORTO LEVA PROGRAMAÇÃO COM DERICO E MAESTRO SPOK PARA PORTO DE GALINHAS

A grande homenagem do evento será aos 80 anos do Maestro Duda, natural de Goiana, Zona da Mata Norte de Pernambuco, e referência na cena cultural do Frevo 



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De 8 a 11 de dezembro, a praia de Porto de Galinhas recebe a edição 2016 do JazzPorto, Festival de Jazz e Blues de Porto de Galinhas que traz ao balneário pernambucano alguns dos principais nomes do jazz e do blues no Brasil. Com entrada gratuita, este ano o evento contará com nomes como o do carioca e gaitista Jefferson Gonçalves, que abre o JazzPorto com a Jazz Blues Band, no dia 8, às 21h, no Café da Moeda. O saxofonista e vocalista do famoso sexteto do jornalista Jô Soares, Derico, é presença confirmada na programação, além do Maestro Spok, que apresentará alguns sucessos do frevo com a banda Esquinas do Blues, também na abertura do evento. 

Outro nome confirmado para a 8ª edição do JazzPorto é do gaitista baiano, Mauro Santoli, cuja apresentação será na sexta-feira (9). No dia seguinte, sábado (10), é a vez da Uptown Band, pioneira da cena do blues em Pernambuco e uma das organizadoras do evento, que irá comemorar 19 anos de estrada no Café da Moeda, às 21h, com homenagem aos 80 anos do Maestro Duda. No domingo (11), o gaitista Jeovah da Gaita faz show com a Jazz Blues Band, no Restaurante Pescaria, às 13h. 

O evento é organizado pela Fliporto Editora, Uptown Band, Esquinas do Blues e Café da Moeda, e tem uma expectativa de receber cerca de 6 mil pessoas, com uma movimentação financeira para o município de Ipojuca de R$3 milhões, entre os setores hoteleiros, comerciais e alimentícios. O patrocínio é da Bohemia, Broomer Men’s Wear e Mobile Studio, além de contar com o apoio da Associação de Hotéis, Pousadas e Restaurantes e do Convention Bureau de Porto de Galinhas e, de modo institucional, da Prefeitura de Ipojuca.


SERVIÇO:

8º JazzPorto – Festival de Jazz e Blues de Porto de Galinhas
De 8 a 11 de dezembro de 2016
Entrada gratuita, com consumo pago por mesa nos restaurantes participantes


Programação:

08/12:
21h, no Café da Moeda
Jefferson Gonçalves com a Jazz Blues Band
Maestro Spok (participação especial)

09/12:
21h, no Café da Moeda
Derico
Mauro Santoli (participação especial)

10/12:
13h, no Restaurante do Domingos
Blues Guittar Summit e Guilherme Gesteira

21h, no Café da Moeda
Uptown Band

11/12:
13h, no Restaurante Pescaria
Jeovah da Gaita com a Jazz Blues Band

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*






Um conhecido soneto de Gregório de Matos, feito "ao braço do Menino Jesus quando apareceu", começa dizendo que "O todo sem a parte não é todo, / A parte sem o todo não é parte, / Mas se a parte o faz todo, sendo parte, / Não se diga, que é parte, sendo todo". E encerra: "Não se sabendo parte deste todo, / Um braço, que lhe acharam, sendo parte, / Nos disse as partes todas deste todo".

O persuasivo poema quer certificar ao fiel que aquele braço-parte contem o significado do Menino-todo. Anotando sobre as relíquias da Igreja Católica, no texto "O corpo, a igreja e o sagrado" (História do corpo, vol 1, p. 97-98), Jacques Gélis anota que "a fragmentação do corpo santo não perturba a consciência religiosa. Esmigalhar o corpo multiplica até os benefícios da relíquia, pois cada parcela conserva a carga sacral primitiva: aqui, a parte vale pelo todo. Portanto, nada se opõe à dispersão dos restos e até seria prejudicial privar deles os outros fiéis".

Tal artifício de montar afetivamente o todo através de partes dispersadas pode ser identificado na Arte, e em especial na teoria da literatura, naquilo que Eisenstein e Chklovski chamaram de "princípio da montagem" e "procedimento da singularização", respectivamente. O primeiro, a partir do cinema e do ideograma e, o segundo, partindo da literatura de Tolstoi.

Por sua vez, se a mitologia é o estudo dos mitos, estes resistem ao tempo naquilo que seus mitemas – unidades constitutivas do mito – tem de capacidade de adaptação e reinvenção nos encontros culturais. Ou seja, o mitema é aquilo que no mito se repete, mas se adapta. Por exemplo: Iemanjá é a rainha das águas. Esse mitema pode ser detectado nos vários mitologemas (conjuntos de narrativas míticas sobre um tema) no mito Iemanjá. Deste modo, não estaremos cometendo um erro grave se dissermos que é nas (re)montagens dos mitemas – partes no mito –, e, consequentemente, na permanente singularização deste, que está o núcleo vital do mito: a tradição que se trai para continuar tradição.

Como já me referi em outro momento, segundo Verger (1981, p. 190), "Iemanjá, cujo nome deriva de Yèyé omo ejá ("Mãe cujos filhos são peixes"), é o orixá dos Egbá, uma nação iorubá estabelecida outrora na região entre Ifé e Ibadan, onde existe ainda o rio Yemoja. As guerras entre nações iorubás levaram os Egbá a emigrar na direção oeste, para Abeokutá, no início do século XIX. Evidentemente, não lhes foi possível levar o rio, mas, em contrapartida, transportaram consigo os objetos sagrados e os suportes do àse da divindade. O rio Ògùn, que atravessa a região, tornou-se, a partir de então, a nova morada de Yemanjá".

Mais adiante, Verger anota que "Iemanjá é uma divindade muito popular no Brasil e em Cuba. (...) Diz-se na Bahia que há sete Iemanjás: Iemowô, que na África é a mulher de Oxalá; Iamassê, mãe de Xangô; Euá (Yewa), rio que na África corre paralelo ao rio Ògùn e que frequentemente é confundido com Iemanjá em certas lendas; Olossá, a lagoa africana na qual deságuam os rios. Iemanjá Ogunté, casada com Ogum Alagbedé. Iemanjá Assabá, ela é manca e está sempre fiando algodão. Iemanjá Assessu, muito voluntariosa e respeitável." (p. 191).

Segundo Lydia Cabrera (Iemanjá e Oxum, 2002, p. 37), "podemos imaginar Iemanjá emanada de Olocum, com seu poder e suas riquezas, mas sem as características tremebundas que o associam mais à morte do que à vida, como sua manifestação feminina – 'Iemanjá é muito maternal' – e benéfica". A autora também dá sete nomes, mitologemas, qualidades, avatares, caminhos (para se chegar) a Iemanjá, em Cuba: 1- Iemanjá Awoyó é a primogênita. Aquela que usa os trajes mais ricos e sete anáguas para guerrear e defender seus filhos. Ela vive distante no mar e repousa na lagoa; come carneiro e, quando sai a passeio, usa as jóias de Olokum e coroa-se com Oxumarê, o arco-íris; 2- Iemanjá Ogunte é azul-clara e vive nos arrecifes próximos à praia. É a guardiã de Olokum. É uma amazona temível e mulher de Ogum, deus da guerra; Ela é severa, rancorosa e violenta; 3- Iemanjá Maleleo ou Maylewo mora nos bosques, em um pequeno poço ou manancial. Assemelha-se à Oxum pela relação com as feiticeiras. Tímida e reservada incomoda-se quando se toca o rosto de sua iaô (filha) e retira-se da festa; 4- Iemanjá Asaba é perigosa e voluntariosa. Usa uma corrente de prata no tornozelo. Seu olhar é irresistível; 5- Iemanjá Konla ou Akura vive na espuma da ressaca da maré, envolta numa vestimenta de algas e lodo. Por ser navegante, vive nas hélices dos barcos; 6- Iemanjá Apara vive na água doce, na confluência de dois rios, onde encontra sua irmã Oxum. Gosta de dançar, é alegre e muito correta. Cuida dos doentes, prepara remédios; 7- Iemanjá Asesu é a mensageira de Olokum. Vive na água agitada e suja. Muito séria e trabalhadora. É muito lenta em atender seus fiéis, pois conta meticulosamente as penas do pato a ela sacrificado, e caso se engane na conta, começa de novo indefinidamente.

Para Antonio Risério (A utopia brasileira e os movimentos negros, 2007, p. 213): "Os brasileiros alcançaram realizar, ao longo dos séculos de sua existência histórica, a construção de um país ao mesmo tempo singular e plural, uno e caleidoscópico, tecendo a sua trama biossemiótica ao abrigo e à luz de uma língua portuguesa que se transfigurou, sincreticamente, para delimitar um novo espaço linguístico, o do português do Brasil".

Essa concepção de um signo uno e múltiplo, sincrético é muito bem exemplificado em Iemanjá (a grande mãe africana do Brasil), explicando, de viés, o motivo de, no Brasil, o orixá se identificar com Maria. "Porque o sincretismo não foi coisa de uma gente passiva, mas iniciativa de atores vitais de nossa história e de nossos processos culturais. (...) é mais correto pensá-lo no campo de forças ou no jogo semiótico das apropriações simbólicas", (Risério: 2007, p. 219).

É homenageando Iemanjá em suas sete mais conhecidas representações (mitemas) que o DVD Mães D’Água – Yèyé Omó Ejá (2010) reúne sete cantoras para interpretar canções que evocam e montam a Iemanjá una. Sendo força, energia, axé, Iemanjá é “montada” aqui em sua mitopoética pelas singularizações sutis lançadas nos filigramas entre versos, melodias e performances vocais.

É o caso de "Gandaia das ondas – Pedra e areia", de Lenine e Dudu Falcão. O sujeito da canção, tal e qual o sujeito de "O mar", de Dorival Caymmi, demonstra-se encantado com a beleza do mar que quebra na praia, inaugurando verdes novinhos em folha. "É bonito se ver na beira da praia / A gandaia das ondas que o barco balança / Batendo na areia, molhando os cocares dos coqueiros / Como guerreiros na dança", diz o sujeito.

Acompanhada pela Sinfônica Yèyé Omó Ejá, sob a regência do maestro Ângelo Rafael Fonseca, Luciana Mello faz o convite: "quem não viu vai ver / a onda do mar crescer". Para depois agregar os versos de domínio popular, da Ciranda de Lia de Itamaracá: "Eu tava na beira da praia / Ouvindo as pancadas das ondas do mar".

Importa destacar a referência a Dakar – "Rezo, paguei promessa / E fui a pé daqui até Dakar". Como sabemos, a capital do Senegal, na península do Cabo Verde, foi o maior centro de tráfico de escravos para a América, entre os séculos XVI e XIX. É nos versos de domínio público "Iemanjá, sai do mar / Vem buscar sua iaô / Ó santa de azul, ó santa do mar / Vem ver seus filhos, Iemanjá", que reconhecemos o sujeito da canção como um filho em estado de oração e de afirmação.

Foi Nietzsche, em Sobre a genealogia da moral e Além do bem e do mal, quem observou que, diferente da tradição domesticadora do humano da moral judaico-cristã, no mito reside a força do herói que não se deixa abater diante do destino, da moira. Em "Gandaia das ondas" o sujeito elogia a natureza ao mesmo tempo em que pede o amparo da deusa e se afirma: "Água, mágoa do mundo / Por um segundo / Achei que estava lá".

Para Vinicius de Moraes: “O negro americano, absorvido, como o negro brasileiro, pela escravatura, é originário das mesmas regiões da África que o nosso. (...) o que houve, com relação ao negro brasileiro, é que ele pôde, em terras brasileiras – e na Bahia com especialidade, conservar a força e a autenticidade dos seus mitos. O candomblé baiano é um híbrido antes bastante puro. (...) Já o negro americano sofreu o impacto do protestantismo, e os escravos tiveram que adaptar seu ritmo aos hinos religiosos protestantes que, em última instrução, resultaram nos spirituals e souls, de onde originou a forma de blues e, posteriormente, (...) no chamado ‘hot jazz’ de King Oliver, Louis Armstrong etc”. (“O negro no samba e no jazz”, em Samba falado, 2008, p. 15).

Toda feita em partes, Iemanjá se presentifica. Mimetizada na cantora, Iemanjá se fortalece fortalecendo o ouvinte que sente aconchegado no colo e útero da grande mãe, como ele, sincretizada, desterritorializada, porém, ela, ser resultado de nossa competência brasileira à tolerância, ao amálgama.


***

Gandaia das ondas - pedra e areia
(Lenine / Dudu Falcão)

É bonito se ver na beira da praia
A gandaia das ondas que o barco balança
Batendo na areia, molhando os cocares dos coqueiros
Como guerreiros na dança
Oh, quem não viu vá ver
A onda do mar crescer

Olha que brisa é essa
Que atravessa a imensidão do mar
Rezo, paguei promessa
E fui a pé daqui até Dakar

Praia, pedra e areia
Boto e sereia
Os olhos de Iemanjá
Água, mágoa do mundo
Por um segundo
Achei que estava lá

Eu tava na beira da praia
Ouvindo as pancadas das ondas do mar
Não vá, oh, morena
Morena lá
Que no mar tem areia

Iemanjá, sai do mar
Vem buscar sua iaô

Ó santa de azul, ó santa do mar
Vem ver seus filhos, Iemanjá

Odô odô odô odô odoiá



* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

SÃO PAULO - UM ESTADO DE EMOÇÕES E OUTRAS PECULIARIDADES

Livro reúne 36 anos de saudades de seu torrão natal, experiências de viagens, relatos profissionais e estórias diversas que foram somadas entre os anos de 2012 e 2015

Por Bruno Negromonte





Em 1976, quatro anos do autor deste livro partir da capital de Pernambuco tendo por objetivo desbravar a maior cidade do país, o cantor e compositor Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes lançava "Alucinação",segundo disco de uma carreira fonográfica iniciada dois anos antes como o álbum "Mote e glosa". Tal disco, surgiu predestinado ao sucesso, pois veio recheado de canções que viria anos depois ganhar o gosto popular e que acabariam por tornarem-se imprescindíveis nas apresentações do artista cearense. Dentre canções como "A palo seco", "Velha roupa colorida" e "Apenas um rapaz latino-americano" entre outras. Está lá também a canção "Fotografia 3x4", que de cara me fez acreditar ser a trilha sonora ideal para sintetizar esta obra lançada através da Editora Pasavento e cuja a capa remeteu-me aos lancinantes (porém verdadeiros) versos da canção onde, em dado momento, o autor entoa: "Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade disso Newton já sabia! Cai no sul grande cidade". O ilustrador Novaes soube capitar bem o espírito da coisa ao retratar o universo que se abria diante de um nordestino que chegava a maior cidade da América do Sul e uma das maiores metrópoles do planeta para dar início a um novo contexto pessoal e profissional, onde o medo inicial aos poucos foi dando lugar a uma espécie de encanto pautado na heterogeneidade de uma cidade que em 1980 tinha quase 8 milhões e meio de habitantes (enquanto a capital do seu estado de origem contava com "apenas" 1.240.937). Tal magnetismo (assim como também o medo de encarar as possíveis agruras) presentes na nova cidade é retratada em "São Paulo nos trilhos do coração", crônica que abre a primeira parte do livro ("Crônicas líricas e de reportagens").

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Ainda neste primeiro momento, Joaquim Macedo evidencia-se muito além do desbravador de uma megalópole (contexto que pode ser evidenciado na crônica "O desafio: Como conhecer São Paulo decorando o mapa") quando apresenta distintos temas que vão desde o trágico início do processo de redemocratização do país com a morte do presidente Tancredo Neves ("Os bastidores de uma tragédia anunciada"), perpassando pelos movimentos culturais paulistas e seus espaços de resistências como nas crônicas "Lira paulistana: Movimento cultural, vanguarda de Sampa", "Lira Paulistana e Itamar Assumpção" e "Manifestação em prol do brincante reúne milhares de pessoas"; as minúcias existentes para além do tão difundido e conhecido centro da capital paulista (como as crônicas "Liberdade, bairro de passagem, o mais cosmopolita" e "Perdizes, o mais completo bairro da cidade"; a abordagem do nome de um dos ícones da política paulista e nacional Mário Covas ("Histórias de um repórter de rua: O cidadão Mário Covas") e o curioso e emocionante encontro entre o repórter Macedo e o eu ídolo de infância ("O repórter e o mito"), entre outras tantas se prendermo-nos apenas a esse primeiro momento. Ao partirmos para a segunda abordagem do livro (Parte II - Crônicas de viagens) deparamo-nos com um autor que deixa evidenciar o prazer do usufruto dos lugares onde passa como nas abordagens feita a respeito de Tatuí  em três momentos, o Guarujá, Santos, a caverna do Diabo, Campos do Jordão e a curiosa interligação entre Amsterdã, Iguapé e Pernambuco. Tudo isso com uma riqueza de detalhes peculiar sempre deixando escapar nas entrelinhas uma forte ligação com seu torrão natal ao trazer detalhes comparativos e/ou correlacionados com o seu estado natal.


Joaquim Macedo Júnior, dispensa apresentações a quem acompanha tanto o Musicaria Brasil quanto o Jornal da Besta Fubana, pois assina coluna em ambos. Pernambucano, "Quincas" (como por muitos é chamado), é jornalista formado pela PUC-SP e pós-graduando em Jornalismo Cultural pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas). Radicado há décadas em São Paulo o jornalista traz em seu currículo as mais distintas experiências profissionais. Ainda na PUC atuou como assessor de imprensa da instituição. Soma-se ainda a sua experiência profissional duas passagens pela Câmara Municipal de São Paulo como assessor de imprensa de dois vereadores. Como assessor de Imprensa atuou no governo do Estado de São Paulo, no Diretório Estadual do PSDB em São Paulo e na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, assim como também no Idec - Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. Conta-se também a sua passagem pela Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU/SP) como gerente de Marketing Institucional e as diversas funções exercidas nas rádios paulistas. Como repórter, redator, apresentador, noticiarista, editor e produtor trabalhou em emissoras como Eldorado, Bandeirantes, Cultura, Excelsior (atual CBN) entre outras. Atualmente, é responsável pela Assessoria de Comunicação Joframa, além de prestar consultoria jornalística e atuar como revisor, escreve semanalmente (às terças) no "Jornal da Besta Fubana" assim como também aqui no "Musicaria Brasil", aos sábados, com os seus "Petiscos da Musicaria", e eventuais participações em Hangouts e outros contextos musicais presente no espaço.

Ao ler "São Paulo - Um Estado de emoções", será possível observar a partir das trintas crônicas muito bem selecionadas para este livro as mais distintas facetas do autor. Lá está presente o repórter, o turista (que não abre mão do lado repórter também), o pesquisador de minúcias, o amante da cultura popular, o ardoroso fã dos movimentos culturais e do futebol. Trata-se da história pessoal e das histórias vivenciadas e acumuladas ao longo dos anos por um nordestino que como tantos outros foi arriscar a vida em uma megalópole, mas que não abriu mão de suas origens, buscando evidenciá-las sempre que possível. Uma saudade do seu torrão natal que agora se faz impressa, e que mesmo que o tempo venha a torná-la amarela, eterniza-se a partir de efetivas e bem elaboradas linhas. Quincas fez-se capaz de nos presentear com um livro que traz consigo uma leveza peculiar, imbuída também de um contexto que não abre mão do didático, e que acaba por fazer da leitura, além de prazerosa, algo extremamente instrutivo. Dados biográficos, informações complementares sob os mais variados temas e lugares entre outras peculiaridades são encontradas em "São Paulo - Um Estado de emoções". Um excelente material que transpassa a fronteira do trivial e acaba tornando-se algo que vai para além da indicação de leitura como já se fez possível atestar a partir das oportunidades que o querido autor e amigo oportunizou a muitos a partir do lançamento, como foi o caso da noite de autógrafos no Museu Histórico Paulo Setúbal.







MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Roberto Carlos

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

PAUTA MUSCAL: O GENIAL RADAMÉS GNATTALI

Por Laura Macedo



O genial compositor, arranjador, regente e pianista, Radamés Gnattali é um dos músicos brasileiros que transcendeu preconceitos e o tradicional distanciamento entre a música dita erudita e a música popular. Suas participações nas duas áreas o colocam como uma figura emblemática da música brasileira como um todo.



Hoje compartilho com vocês a lindíssima composição de sua autoria intitulada - “De mansinho”.

De mansinho” (Radamés Gnattali) # Radamés Gnattali [Vero] (piano). Disco Continental (16.371-A) / Matriz (2565) / Lançamento (março/1951).



É impossível ouvi-lo tocar ao vivo, mas a magia da música que sai do seu instrumento continua bem saltitante na nossa lembrança e no legado que deixou gravado em várias mídias. Que as novas gerações saibam dar importância a esse genial artista.

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Agradecimentos especiais ao jornalista, professor e pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo (NIREZ) pela liberação do fonograma - “De mansinho”. E ao amigo Miguel Bragione pela foto do selo disco.

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Fontes:

- Áudio SouldCloud / Montagem: Laura Macedo.

- Fotomontagem: Laura Macedo.

- Foto Selo do disco: Miguel Bragioni.

- Projeto Disco de Cera/Arquivo Nirez (AQUI).

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NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*




No início do verão de 83, com o baterista Juba substituindo Lobão, a temporada de lançamento de As aventuras da Blitz, no Roxy Roller, foi triunfal, com duas sessões superlotadas por dia, uma às nove da noite e uma matinê às três da tarde para atender às massas mirins. A sensação era um falso strip-tease de Fernanda e Marcinha antes de começarem a cantar “era um biquíni de bolinha amarelinho/ Tão pequenininho mal cabia na Ana Maria/ Biquíni de bolinha amarelinho tão pequenininho/ Que na palma da mão se escondia” (versão de “Itsy Bitsy Weenie Yellow Polkadot Bikini”, dos anos 60). Mesmo com as meninas atrás de uma tela semitransparente, a garotada delirava só com as sombras das curvas. Pouco depois, Lulu Santos estourava nas rádios de todo o Brasil, não com um rock, mas com um bolero moderno, de verão, com guitarras e bongôs e o produtor Liminha grasnando como uma arara para dar “clima tropical” na introdução: o nosso “Como uma onda”, que tinha o intrigante subtítulo de “Zen-surfismo”. Assim que Lulu me mostrou a melodia senti cheiro de gol. Minha experiência no ramo me dizia “habemus hit”. Em algumas horas, escrevi a letra, misturando leituras de A arte do arqueiro zen, de Eugene Herringel, com alguns baseados e o Buda de Jorge Luís Borges, naveguei na eterna metáfora
das ondas (na citação “a vida vem em ondas como o mar”, do “Dia da criação”, de Vinícius), inspirado pelas praias cariocas no verão com seus surfistas e cocotas.

“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia tudo passa, tudo sempre passará, a vida vem em ondas como um mar num indo e vindo infinito. Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo tudo muda o tempo todo no mundo não adianta fugir nem mentir pra si mesmo agora, há tanta vida lá fora, aqui dentro, sempre, como uma onda no mar.” Foi um dos maiores sucessos populares do ano, era cantada em coro pelas multidões nos auditórios de TV e nos shows, Lulu se consagrava como um nome nacional: não só entre os jovens roqueiros mas no coração do grande público. “Como uma onda” integrava o Lp Ritmo do momento, pop de primeira de cabo a rabo, com hits como “Adivinha o quê” (inicialmente proibida pela Censura, moribunda mas ainda ativa) e “Um certo alguém” (com letra de Ronaldo Bastos). Rapidamente o disco alcançou a marca dos 90 mil vendidos. Recebido entusiasticamente no underground e na cena roqueira, o Lp de Lobão não chegou a ser um sucesso popular, mesmo com grandes músicas como “Cena de cinema” (com Bernardo e Marina), “Amor de retrovisor” e “O homem-baile” e a participação de algumas das maiores estrelas de sua geração como Ritchie, Lulu Santos e metade da Blitz: o guitarrista Ricardo Barreto, o tecladista William Forghieri, o baixista Antonio Pedro e o saxofonista Zé Luiz. E Marina Lima, por quem Lobão estava apaixonado.

Marina era uma morena apaixonante, de cabelos negros e crespos e corpo esguio, com uma voz rouca e macia, cheia de estilo e graça, nova cantora de pop sofisticado lançada pela Warner. Criada em Washington e irmã do poeta e filósofo Antonio Cícero, com 22 anos Marina de biquíni jogando frescobol era uma das sensações da praia do Posto Nove, em Ipanema. Nesse tempo eu não gostava de Marina, nem pessoal nem artisticamente. Muito pelo contrário. E certamente vice-versa. Assisti ao show de lançamento do seu primeiro disco, dois anos antes, naquele mesmo Teatro Ipanema, e achei que a garota era bonita e carismática, tinha personalidade na voz e um projeto de estilo. Mas estava tão nervosa, mas tão nervosa, tão desconfortável em uma malha colante negra que a deixava como nua, que foi um sofrimento ouvi-la. Também não gostei do disco, achei confuso e pretensioso. Na praia, na noite e nas festas nossas relações sociais eram tensas e secas. Ela me parecia agressiva, arredia, esquiva. Quando saiu o seu segundo disco, Olhos felizes, com grandes arranjos de Lincoln Olivetti e um repertório muito melhor, muita gente gostou, Lulu Santos e Lobão adoraram e me recomendaram. Dei uma ouvida rápida, não tinha o menor interesse naquela garota que eu achava tão antipática. Mas quando ouvi Maria Bethânia cantando o belíssimo bolero “O lado quente do ser”, me surpreendi ao saber que era de Marina e de seu irmão Antonio Cícero.

“Eu gosto de ser mulher que mostra mais o que sente, o lado quente do ser, e canta mais docemente.” Em seguida, ela gravou o Lp Certos acordes e me mandou um, afinal eu ainda era um crítico respeitado e tinha uma coluna em O Globo. Escreveu com caneta prateada na capa: “Agora só falta você”, citando o rock de Rita Lee em desafio. Era verdade, todos os meus amigos gostavam de Marina. Quando ouvi o disco, ouvi de novo, e de novo, e fiquei ouvindo durante horas seguidas, maravilhado com os ritmos e sonoridades que ela tinha encontrado, as músicas que cantava, tanta novidade e qualidade. Uma fusão perfeita entre as complexidades harmônicas da bossa nova e os timbres elétricos do rock e da música negra americana, produzindo um pop altamente sofisticado. Um disco deslumbrante, com estilo e elegância, com graça e humor, leveza e profundidade.

Na capa em preto-e-branco, uma linda foto de Walter Firmo, meio desfocada, com Marina caminhando descalça na beira do mar, com a blusa entreaberta deixando entrever um seio moreno. Não só ocupei o espaço inteiro da coluna falando de Certos acordes e de Marina, como mandei-lhe flores gratas e entusiasmadas. Não faltava mais ninguém. Ficamos amicíssimos, trocamos confidências, falamos de música, fizemos planos, nos divertimos muito e acabei fazendo com Lulu uma música para ela. E depois outra, com Guilherme Arantes (“Marina no ar”). Marina era inteligente, amorosa e delicada, de uma grande honestidade artística, uma garota de muito estilo. Em Certos acordes, entre várias grandes músicas, uma parecia definir a própria artista, “Charme do mundo”: “Acho que o mundo faz charme e que ele sabe como encantar-me por isso sou levada, e vou, nessa magia de verdade...” Depois do “Verão do rock”, Marina gravou a romântica “Me chama”, de Lobão, com tanta emoção que a tornou um clássico instantâneo do pop brasileiro — e o primeiro sucesso popular de Lobão.

“Chove lá fora e aqui faz tanto frio, me dá vontade de saber aonde está você? me telefona, me chama, me chama, me chama...” “Bondinhos, bondinhos e mais bondinhos repletos de consumidores ávidos de música e de sexo” era o que invariavelmente o gerente Djalma reportava da estação da Praia Vermelha para o escritório no alto do Morro da Urca, nas noites de sextas e sábados. Mesmo debaixo de chuva, muita gente subia o morro para ver as novas bandas de rock brasileiro do Rio, de São Paulo e de Brasília. O Noites Cariocas não precisava de outras atrações além dos hits dançantes de Dom Pepe, da paisagem deslumbrante, da liberdade absoluta e dos matos aconchegantes: o show ao vivo era mais um extra para o público. As novas bandas de rock, mesmo desconhecidas, já encontravam esperando por elas três mil jovens pulando feito pipoca na pista e namorando a céu aberto. Gang 90, Blitz, Lulu Santos, Ritchie, Lobão, Barão Vermelho, Brilho da Cidade, todos tocaram no verão do rock no Noites Cariocas.

Mas o grande, o mais esperado e concorrido show do verão não foi de uma banda de rock, mas do rei do funk e do soul, Tim Maia. Depois de muitas negociações, Tim assinou um contrato para cantar no Noites Cariocas. Na noite do show, desde cedo, subiam bondinhos e mais bondinhos lotados de consumidores ávidos e logo a lotação estava esgotada. Nunca a casa recebeu tantos VIPs e tantos artistas: roqueiros, emepebistas e sambistas adoravam Tim Maia. Depois da meia-noite começamos a nos preocupar. Tim ainda estava em casa, na Gávea. E pelo papo, com pouca vontade de sair. Só sairia se recebesse o seu “levado”, que é como ele chamava o cachê, em grana viva. Tim não acreditava em cheques.

O produtor Nelson Ordunha, o Duda, deu um rasante na bilheteria e saiu em velocidade rumo à Gávea, com uma sacola de supermercado cheia de dinheiro. Tim abriu a porta do apartamento de calção e chinelo e o convidou para um drinque, uma fileira e um baseado. E
confessou, contando o dinheiro e rindo, que morria de medo de andar de bondinho. Para criar coragem tomou mais alguns uísques, jogou a sacola debaixo da cama e finalmente entrou no carro. No alto do morro, a galera estava inquieta, já se ouviam algumas vaias e gritos, temia-se o pior. Quando Duda finalmente chegou com Tim à estação na Praia Vermelha e respiramos aliviados, ele olhou para cima, para o bondinho balançando suavemente nos cabos, rosnou e disse: “Não entro nessa porra de jeito nenhum. Só com anestesia geral.” Durante intermináveis minutos, Duda e Djalma tentaram convencê-lo a subir. Num bondinho só para ele. Com a luz apagada. De olhos vendados. Bebendo uísque. Com uma gata lhe fazendo massagem, chupando seu pau, chicoteando-o, o que ele quisesse. Desde que subisse. Pedi para falar com ele no telefone. Implorei que subisse, em nome de nossa velha amizade. Os ânimos estavam exaltados na pista e a Banda Vitória-Régia já no palco, tocando o tema de abertura. Tim respondeu,  muito amistoso e jovial, com sua voz de trovão: “Meu amigo Nelsomotta (a única pessoa que, apesar da intimidade, só chamava os amigos pelo nome completo), eu tenho uma ideia muito melhor: em vez de eu subir, você manda o pessoal aqui pra baixo e a gente faz o show na praça.”

Soltou uma gargalhada, virou um copo de uísque puro e, empurrado por Duda e Djalma, embarcou no bondinho como um boi para o matadouro. De macacão de lamê prateado, subiu de olhos fechados e entrou no palco cantando “Vale tudo”, fez um show sensacional e a pista explodiu com seus sucessos. “Primavera”, “Gostava tanto de você”, “Réu confesso” e todos os que vinha acumulando desde 1980, quando lançou pela Warner um dos melhores discos de sua carreira: o Tim Maia Disco Club, com históricos arranjos funk-disco-samba de Lincoln Olivetti e clássicos como “Sossego”, “Acenda o farol” (“pneu furou? Acenda o farol!”) e “A fim de voltar”. Tim com a voz no seu ponto máximo de potência e precisão, vigor e maturidade, ainda com bom fôlego, ainda resistindo bem à devastação do álcool, da cocaína e da maconha, que consumia em quantidades industriais. E mais musical do que nunca. Depois desse, quando sua voz começa a declinar, ainda lançou dois discos poderosos — já por sua gravadora independente, a Vitória- Régia — com grandes hits como “Do Leme ao Pontal”, um passeio funksamba pelas praias cariocas, “Descobridor dos Sete Mares”, que se tornou um hino nas noites cariocas, e a suingada “Vale tudo”, com que abria — escancarava — os seus shows: “Vale tudo, vale o que vier, vale o que quiser, só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher. (O resto vale)” Só que em vez de cantar “nem mulher com mulher”, Tim gritava: “Nem amassar bombril!” E o público explodia de rir e de dançar. Foi em Tim Maia que Edu Lobo e Chico Buarque pensaram quando produziram um belíssimo score musical para o bale O grande circo místico, que lançou a deslumbrante “Beatriz”, cantada por Milton Nascimento. Na gravação do disco, para cantar a música “A bela e a fera”, Edu e Chico precisavam de uma voz forte e grave para interpretar o homem-fera do circo e convidaram Tim Maia. “Quando vocês falaram em besta-fera eu vi logo que ia sobrar para mim”, disse Tim soltando uma gargalhada e aceitando entusiasticamente.

No estúdio, muito simpático e cordial, recusou-se terminantemente a cantar a melodia como Edu tinha escrito, insistindo em mudar a última nota da primeira frase musical. Era uma blue note, uma nota torta, e, por mais que Edu insistisse e mostrasse no piano que a nota natural que Tim preferia não cabia no acorde, foi definitivo: “Não adianta, Edulobo, o povo não entende blue note.” E cantou como queria. Ficou uma das melhores faixas do disco. Em junho de 83, vindos de Brasília, os Paralamas do Sucesso (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone) gravaram um compacto com “Vital e sua moto”, que começou — como todas as novas bandas de rock — tocando na Fluminense FM, autocognominada “A maldita”, e de lá se espalhou pelos ares cariocas e brasileiros. A rádio, pra lá de alternativa (emitia de Niterói), foi uma criação do radialista Luiz ntonio Mello e do ex-empresário de Os Mutantes Samuel Wainer Filho, o Samuca. A partir de março de 82, a Fluminense foi a principal plataforma de lançamento das novas bandas: tocava do Clash ao The Cure até demos caseiras, promovia concursos e shows de rock, agitava dia e noite.

Foi na “maldita” que tocaram pela primeira vez os Paralamas e a nova banda carioca Kid Abelha e os Abóboras Selvagens. Logo que se mudou para a Lapa, o Circo Voador se tornou o grande palco alternativo do nascente BRock (expressão cunhada pelo jovem jornalista Arthur Dapieve e adotada pelo influente crítico Tarik de Souza, do Jornal do Brasil), com a programação “Rock Voador”, de Maria Jucá, que resultou no Lp lançado pela Warner. Sob sua lona generosa se apresentavam bandas novas como os Paralamas e o Kid Abelha e as novas estrelas do rock, como Lulu Santos, Blitz e Lobão. No Noites Cariocas, que era muito maior, passaram a se apresentar só os roqueiros que faziam sucesso no circo. A escalada de uma nova banda de rock no Rio de Janeiro começava com a banda tocando na Fluminense FM, depois no Circo Voador e se consagrava no Noites Cariocas, se apresentando para três mil pessoas. s vezes essa trajetória era cumprida em menos de seis meses, como aconteceu com os Paralamas, com o lançamento de seu primeiro Lp, Cinema mudo, e com o Kid Abelha, com o estrondoso sucesso nacional da atrevida “Pintura íntima”: “Fazer amor de madrugada, amor com jeito de virada.” O Brasil cantou e dançou com Paula Toller, a loura vocalista do Kid Abelha e co-autora do hit com seu namorado Leoni, baixista da banda. Venderam 100 mil discos em semanas. Conheci Eduardo Dusek quando ele era pianista e ator na montagem teatral anárquica e engraçadíssima de Antonio Pedro para Desgraças de uma criança, com Marco Nanini e Marieta Severo. Louro e altíssimo, com tanta vocação para a música como para a comédia, Dusek começou a fazer sucesso a partir de sua apresentação no festival MPB-80 da TV Globo, quando divertiu o público e a crítica, de fraque e cuecão, cantando Nostradamus, sua debochada versão cabaré-do-apocalipse do fim do mundo: “Vou até a cozinha Encontro Carlota, a cozinheira, morta! diante do meu pé, Zé! eu falei, eu gritei, eu implorei: levanta, me serve um café, que o mundo acabou.”

Dusek não ganhou prêmios, mas saiu como a grande revelação do festival. Ele não era um roqueiro, musicalmente, mas era muito na atitude e no espírito libertário, com um talento especial para o humor e o escracho. Fazia uma espécie de rock-cabaré, novidade que o público adorou. Quando chegou ao Circo Voador e ao Noites Cariocas já tinha dois Lps gravados e um hit estrondoso, “Rock da cachorra”, de Léo Jaime, um jovem roqueiro goiano que estava trabalhando com os cariocas do João Penca e seus Miquinhos Amestrados, que gravaram com Dusek no Lp Cantando no banheiro: “Troque seu cachorro por uma criança pobre, sem parente, sem carinho, sem rango e sem cobre. Seja mais humano, seja menos canino, dê guarida pro cachorro, mas também dê pro menino, senão um dia desses você vai amanhecer latindo.” Mais rock — e mais Brasil — era impossível. Os Miquinhos começam a se popularizar e lançam seu primeiro Lp, uma explosão de humor, alegria e rockabilly, com o sugestivo título de Os grandes sucessos de João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Mas foi só um pequeno sucesso, com “Telma eu não sou gay” (paródia debochada de Léo Jaime para “Tell me once again”) divertindo a juventude. No show do Noites Cariocas, os Miquinhos, Bob Gallo, Avelar Love, Cláudio, the Killer e Selvagem Big Abreu (apresentado como “o maior pau da banda”) fazem todo mundo dançar e levam os bailarinos às gargalhadas com suas grossuras e baixarias.

Rock é humor. E rock é barato. Para as gravadoras, a nova onda do rock tinha muitas vantagens, mas especialmente uma: os discos saíam baratíssimos em relação aos de MPB, com suas grandes orquestras e suas estrelas que ganhavam royalties e adiantamentos muito maiores do que a garotada, que assinava contratos por uma penca de bananas. Uma banda de rock não precisava de músicos contratados e maestros para escrever arranjos. Precisava só de horas de estúdio — muitas — e um produtor. Mas não precisava de um produtor para buscar ou encomendar músicas aos compositores. As bandas de rock compunham e tocavam seu próprio repertório, cabia ao produtor só selecionar o material e, no estúdio, dar forma ao produto final. No que Liminha, um dos maiores músicos de rock do Brasil, desde Os Mutantes, era mestre absoluto. E melhor ainda: bandas de rock eram lançadas e testadas primeiro em compactos baratos até chegarem ao Lp, formato-base da MPB. O que economizavam em custos e royalties, as gravadoras investiam em promoção e marketing. E, na onda do Plano Cruzado, comemoravam recordes de vendas. Rock é business.

Produzido por Ezequiel Neves, o melhor crítico de rock do país, o Barão Vermelho, de Cazuza, Frejat, Maurício, Guto e Dé, emplaca seu primeiro sucesso, ou quase: “Pro dia nascer feliz” explode mesmo é com a gravação de Ney Matogrosso, que vivia um caso amoroso com Cazuza e era uma das grandes estrelas pop do momento, com bem-sucedidas incursões no rock. A gravação do Barão é relançada em compacto e também arrebenta. Um ano antes, Cazuza (em parceria com Frejat) escreveu a belíssima “Todo amor que houver nessa vida” para o primeiro disco do Barão e chamou atenção para seu talento de letrista. A música não chegou a ser um grande sucesso popular mas ganhou o Prêmio Sharp — e também apareceu em vários jornais e revistas — como “melhor do ano”. E mais: Caetano cantou “Todo amor que houver nessa vida” em seu show no Canecão. “Ser teu pão, ser tua comida, todo amor que houver nessa vida e algum trocado pra dar garantia.

E ser artista no nosso convívio pelo inferno e céu de todo dia pra poesia que a gente não vive transformar o tédio em melodia...” Caetano me conta que há uma banda punk na Bahia divertidíssima, que esculhamba com Caymmi, João Gilberto, Gil, Moraes, Pepeu e ele mesmo, Caetano. Os jornais se recusam a imprimir o nome da banda e do espetáculo: no Circo Relâmpago de Salvador, o Camisa-de-Vênus arrebenta com seu primeiro show, “Ejaculação precoce”. João Gilberto, surpresa das surpresas, grava, do seu jeito cool e bossa nova, “Me chama”, de Lobão, para a trilha sonora de uma novela da Globo. É o primeiro grande nome da música brasileira a gravar um roqueiro dos anos 80. As novas bandas ainda são vistas com desprezo e desconfiança por boa parte da MPB, que ironiza a ignorância política dos roqueiros, debocha das músicas em três acordes, tocadas por músicos que não sabem tocar e cantadas por cantores que não sabem cantar, para um público que não sabe ouvir. Mas as jovens massas estão adorando, a abertura política está ajudando e o afrouxamento da Censura permite letras cada vez mais agressivas, que expressam melhor o ânimo atual e a eterna ânsia de liberdade e irreverência da juventude. Pela primeira vez, desde o início da Jovem Guarda, com Roberto e Erasmo, o Rock Brasil está em movimento. Agressivo, grosso e pesado, alegre, dançante e melodioso, o rock é o ritmo do momento. Mas sucesso mesmo é Roberto Carlos, muito romântico, com o Brasil inteiro cantando a sua nova música com Erasmo, um clássico instantâneo: “Quando eu estou aqui eu vivo este momento lindo...” Roberto Carlos canta “Emoções”, a massa que se amassa dentro do ginásio em Vitória enlouquece.

Acompanhado pelo público em coro e por uma grande orquestra de cordas e metais, regida por Eduardo Lages, com um arrebatador arranjo sinatreano, Roberto cumpre triunfalmente mais uma etapa de sua turnê nacional “Emoções”. Como um popstar internacional, o “Rei” viaja num Boeing privado, todo pintado de azul e branco, com grande comitiva, a mulher Miriam Rios, a mãe, dona Laura, de óculos gatinho, muito simpática e jovial, os 20 músicos e a equipe técnica, todo o equipamento de som e luz, seguranças e assistentes. São tantas emoções nessa vida musical. Uma delas é ser convidado por Roberto Carlos para viajar com ele e assistir às duas últimas etapas da turnê, em Vitória, e na sua pequena Cachoeiro de Itapemirim, onde tudo começou. No ginásio de Vitória, o povo ainda aplaudia delirantemente e Roberto já estava longe, a caminho do hotel. Pouco depois de entrar no meu quarto, o telefone tocou e ouvi a voz inconfundível, falando baixinho: “Oi bicho, é o Roberto (como se fosse possível confundir).


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