PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

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CARNAVAL DO RECIFE

Cobertura oficial da festa mais democrática existente no país e seus mais distintos nuances.

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FÁTIMA DE CASTRO É BOSSA, É BLUES E O QUE MAIS VIER EM BOA MÚSICA

Em "Bossas e Blues", a cantora e compositora pernambucana reafirma-se como uma grande intérprete a partir de canções que nos remete aos áureos tempos de nossa MPB.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O CARNAVAL E O CAPITÃO ZUZINHA

Por Bruno Negromonte


Semana de carnaval! Panis et circencis para o meu povo! Apesar das coisas, hoje em nosso país, estarem mais para circo. Falo isso porque me vejo transfigurado de palhaço constantemente a cada nova notícia oriunda de Brasília. Às vezes, a fantasia me serve ao ler notícias locais também, afinal é carnaval! Pelo menos o nariz de palhaço, as vestimentas e os adereços que certos políticos insistem em nos adornar o ano inteiro nos cabem mais adequadamente.

Pois bem, deixemos as agruras de nossas rotinas de lado e demos vazão a alegria… falemos da folia de momo! Assunto sobre o tema proposto não falta, tanto que foi difícil escolher o assunto a ser abordado para esta semana. Sei que aqui, entre leitores e colunistas, existem pessoas de extremo conhecimento musical sobre o frevo e seus variantes como muitos podem atestar ao ler assiduamente o Jornal da Besta Fubana.

Na época em que a gravação de uma canção não tinha disponível tantos recursos quanto hoje e que devido a esse tipo de precariedade todos os músicos aglomeravam-se na frente de um captador (que mais parecia um grande gramofone) para captar as gravações (todas feitas ao vivo!), sem edição alguma, num acetato em cera. Eis que nessa época havia um músico dos mais atuantes no carnaval. Não falo de Nelson Ferreira (que no último dezembro completou-se 35 anos de seu falecimento), nem do não menos saudoso Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (que ao longo de 2012 completa-se 15 anos que partiu), mas sim de outro artista que ao longo deste ano vale a pena lembra-lo pela passagem dos 60 anos do seu falecimento. O músico a qual me refiro e hoje quero trazer ao público do JBF trata-se de José Lourenço da Silva, popularmente conhecido por Capitão Zuzinha que faleceu em 1952, aos 63 anos e mesmo depois de cerca de 60 anos após sua morte ainda é reverenciado por aqueles que fazem e admiram o mais genuíno ritmo do nosso carnaval.

Capitão Zuzinha, talvez hoje seja mais conhecido como o nome da rua que liga as avenidas Visconde de Jequitinhonha e Mal. Juarez Távora, no bairro de Boa Viagem do que o exímio e mítico músico que foi. Mais ressaltar aqui que José Lourenço da Silva é um dos nomes mais importantes da história do frevo. Capitão Zuzinha nasceu no município de Catende (cidade a 142 km da capital Recife), no dia 10 de fevereiro de 1889. Ainda adolescente, por volta dos 17 anos, começou sua carreira de regente estando à frente, nessa época, da Banda Saboeira de Goiana (banda criada no município da mata norte pernambucana em 1849). Zuzinha permaneceu na cidade de Goiana durante toda infância e adolescência, saindo da cidade apenas aos 26 anos, quando transferiu-se para a capital para assumir a função de mestre da banda da polícia militar (função essa que agregando ao seu nome a patente conseguida na carreira militar).

Hoje, merecidamente trago Capitão Zuzinha a nossa coluna, o exaltando e o colocando no merecido lugar juntamente com os grandes nomes do frevo pernambucano, pois trata-se de um dos nomes que participam ativamente da gênese do ritmo musical que hoje é a marca registrada do carnaval pernambucano.

Deixo abaixo para audição uma das várias composições do Mestre Zuzinha, escolhi esta por estar contextualizada com o período de momo, pois trata-se do hino da cidade de Olinda, República maior dos bonecos gigantes. Excelente carnaval à todos!


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

VÔTE, ESCUTA SÓ: PAPARAZZI POR UM DIA

Por Paulo Carvalho



Todo mundo que gosta de fotografia, sonha com seu dia de paparazzi. Ou seja, fotografar alguém famoso(a) numa situação pouco convencional.

Certo dia, alguns anos atrás, estávamos em Girona, cidade catalã, acompanhados pelos nossos anfitriões, fomos passear pelo famoso Caminho de Ronda, na Costa Brava. Este caminho vai da Espanha até a França, margeando um mar de águas azuis, um lugar fascinante, muito bonito, refúgio da máfia italiana em tempos idos. Um verdadeiro paraíso, só para os ricos da Europa. 



Quem será?

Câmera na mão, fotografando paisagens lindíssimas, quando de repente, a uma distância de mais ou menos quatrocentos metros, bem abaixo de nós, vejo um barco parado com algumas pessoas tomando banho de sol. Observando direito percebi que estavam sem roupas, coisa comum naquela região. Foi aí que resolvi fotografar, quem sabe, poderia ser uma artista, ou qualquer pessoa famosa, seria a minha oportunidade como paparazzi. 



A famosa quem?

Calmamente, coloquei uma tele objetiva de 400 mm, na máquina, sobre um tripé, e lasquei o dedo. Claro, a falta de experiência neste tipo de foto, a lente com baixa qualidade, não saiu bem como eu queria. Guardei a foto, na tentativa de reconhecer na modelo uma super star. Que nada. Nunca mostrei em nenhum site, hoje resolvi mostrar para vocês. Mostro uma outra foto do mar, esta já postada, para que vejam a beleza das águas deste mar azul.


Costa Brava


Críticas e sugestões para o e-mail: voteespiaso@gmail.com

NELSON FERREIRA: 40 ANOS DO ADEUS DO DONO DA MÚSICA PERNAMBUCANA

Maestro marcou a cultura do estado durante seis décadas

Por José Teles


O maestro Nelson Ferreira à frente de sua orquestra, 1950


Nelson Heráclito Alves Ferreira, nasceu em 9 de dezembro de 1902, em Bonito, no agreste pernambucano, numa família musical. O pai Luiz Alves Ferreira, comerciário, foi um violonista competente. A irmã mais velha, Laura, por exemplo, deu a Nelson Ferreira as primeiras aulas de piano, seu instrumento ao longo de quase 60 anos de carreira, contados a partir da impressão da primeira composição, aos 14 anos, a valsa Vitória. A música foi uma encomenda da Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana. As irmãs Ladyclaire e Olga Linda formariam, já nos tempos do rádio, a dupla Lady e Linda.

A família mudou-se para o Recife, quando a mãe do compositor, a professora Josefa Torres Ferreira foi transferida para a capital, e foram morar no Bairro de São José, um dos focos do Carnaval recifense. Os genitores o queriam professor, mas o garoto preferia o piano, ou jogar de goleiro nas peladas da campina 13 de Maio. Os estudos, na Escola Normal Oficial, ficavam em terceiro plano. Não terminou o curso, foi arrastado pela música, depois de publicar a primeira composição. Aos 18 anos, os jornais já o tratavam por “maestro”. O sucesso de Nelson Ferreira podia ser medido pelo anúncio, nos jornais, em janeiro de 1920, da sexta edição de sua valsa Milusinha. Na década de 20, o “insigne maestro” Nelson Ferreira dirigia a orquestra que tocava durante a exibição dos filmes no Moderno, o cinema da elite pernambucana (começou a tocar em cinemas em 1917, no Cine Pathé) Era também um dos mais requisitados autores de trilhas de musicais e dramas teatrais.

Nelson Ferreira pairou sobre o show business pernambucano da década de 20 até meados dos anos 70. Uma característica comum a quase todos os grandes compositores, maestros, do frevo, a fidelidade atávica ao Recife. Nelson só se ausentou por mais tempo da cidade duas vezes. Em agosto de 1922, como músico de bordo, do Caxias, viajou para a Alemanha. Passou três meses longe de Pernambuco. Ficou mais cinco meses fora, no Rio, tocando no Cine-Teatro-Central, no Centro da então capital da República (funcionava no mesmo prédio do lendário Café - na verdade Leiteria - Nice).



Ao contrário de seu amigo/rival Lourenço da Fonseca Barbosa, Capiba, que, mesmo que imensamente talentoso, não dependia financeiramente da música, Nelson Ferreira sempre foi um músico profissional. Compunha profusamente, e a inspiração podia vir espontaneamente ou por encomenda. Borboleta Não É Ave, que tem a primazia de ter sido o primeiro frevo gravado, composto para uma agremiação que ajudou a fundar, o Bloco Concórdia. Coincidentemente, o cantor que faria no fim da vida um frevo para a Bahia, foi gravado pela primeira vez por um baiano, Manuel Pedro dos Santos (1870/1944), o Bahiano, um dos primeiros astros do disco no Brasil. 


O DONO DA MÚSICA 

Nos anos 60, como diretor artístico da Rozenblit, Nelson Ferreira era cognominado “O Dono da Música”, pejorativamente, pelos autores que não conseguiam ter suas músicas selecionadas pelo maestro. Mas ele se “apoderou” da música pernambucana em junho de 1931, quando foi contratado para dirigir a orquestra da Rádio Clube, formada por músicos escolhidos, em sua maioria por ele. Como todo poderoso diretor artístico da emissora, cargo que assumiu em 1934, idealizava programas e sugeria ou definia contratações. Uma de suas decisões foi, em 1947, contratar Claudionor Germano como cantor solo, tirando-o do grupo Azes do Ritmo. Mais tarde, escolheria o cantor para gravar os dois mais emblemáticos LPs de frevo lançados pela Rozenblit, em 1959, para o Carnaval de 1960: Capiba 25 anos de Frevo, e O Que Eu Fiz e Você Gostou, com composições suas. 

Mas seu maior sucesso aconteceu há 60 anos, com o frevo de bloco Evocação, gravada com o Coral do Batutas de São José, uma música tão popular em Pernambuco quanto Vassourinhas. Gravada em 1956, para o Carnaval de 1957, Evocação, com uma letra que nem os próprios pernambucanos entendiam bem, estourou no Carnaval Carioca, e daí Brasil afora. Foi o mais bem sucedido frevo gravado na Rozenblit. Ele compôs outras seis evocações (estas numeradas). A sétima delas tem o subtítulo de Ruas da Minha Infâncias. 

Famoso pelos frevos canção, Nelson Ferreira, que não achava que dominava o frevo instrumental, é autor de alguns dos mais perfeitos exemplares do gênero. Dois deles, Gostosão e Isquenta Muié, já o colocariam em destaque como compositor de frevo de rua. Mas ele foi também um dos mais inventivos arranjadores da música brasileira. Como diretor da Rádio Clube ou da Rozenblit, criou incontável número de arranjos, que não se preocupava em guardar. Fazia-os com extrema facilidade, e deixava-os sobre o piano, no estúdio, e quase todos jogados no lixo pelo da faxina, testemunham os músicos e cantores que conviveram com ele. 

Nelson Ferreira, “O Moreno Bom”, epíteto como também o tratavam na imprensa, foi o dono da música até o final dos anos 60, quando a Rozenblit iniciou seu caminho para a falência, e o rádio passou a tocar todo tipo de sucesso no Carnaval. Nelson Ferreira continuou trabalhado no que mais gostava: animar festas. Com sua sempre azeitada orquestra tocou até o fim. Quando faleceu tinha vários bailes agendados para o Carnaval de 1977. 

O progresso teimava em tirar de linha gênios feito ele. E melhor metáfora para esta luta contra a mudança dos tempos aconteceu em 1974, quando foi notificado de que a casa onde morava desde 1937, seria demolida para a abertura da Avenida Mario Melo (inspiração da Evocação nº3). Saiu de lá com a família para um apartamento tão pequeno que não tinha espaço para o piano. Só viveria mais dois anos. sua última composição, feita para mais um LP Capital do Frevo, intitula-se Vamos Aprender a Amar o Recife.

BEZERRA DA SILVA, 90 ANOS

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CONHEÇA OS DISCOS DE FREVO LANÇADOS EM 2017


Por Fabio Passa Disco
Mesmo com toda a dificuldade de divulgar os novos frevos nas rádios, os cantores/compositores pernambucanos não deixam de produzir novos discos para o Carnaval; e esse ano está sendo especial. Até o momento já foram lançados nove discos dedicados ao gênero e um relançamento importante.

O relançamento foi do mestre maior da folia, o cantor Claudionor Germano, que nos brinda com o antológico “O Bom do Carnaval”, em formato CD. O disco foi gravado inicialmente para a RCA (atualmente Sony Music), em 1980, e conta com as presenças de Dominguinhos e da Orquestra do Maestro Edson Rodrigues. No repertório, clássicos de Capiba, Nélson Ferreira, Luiz Bandeira, João Santiago. O trabalho também apresenta novas composições de Lula Queiroga (que no disco assina como Luiz Queiroga Filho), Sérgio Andrade (da Banda de Pau e Corda) e Plácido de Souza.

Entre os lançamentos, destaque para o DVD “Acerto Lírico” de Getúlio Cavalcante, gravado ao vivo no Teatro de Santa Isabel, com releituras de seus principais sucessos como “O Bom Sebastião” e Último Regresso”. A cantora Nena Queiroga também lançou recentemente “Pernambuco Para o Mundo”, em DVD, gravado ao vivo no Cais da Alfândega, com participações de Lenine, Elba Ramalho, Maria Gadu, André Rio, Ivete Sangalo, os maestros Spok e Forró, entre outros. Os frevos presentes no DVD são “Voltei Recife” (de Luiz Bandeira), “Último Regresso” (Getúlio Cavalcante), “Frevo do Galo” (Carlos Fernando/Geraldo Amaral), e diversos assinados pela própria Nena, como “Chuva de Sombrinhas”, “Água por favor” e “Até Fevereiro”.



André Rio foi outro nome a engrossar a lista de lançamentos de frevo em 2017. Ele lançou uma coletânea intitulada “Meu Carnaval é Frevo”, com participações de Chico César, Alceu Valença, Dominguinhos, Cezzinha. O disco traz clássicos assinados por J. Michiles (“Bom Demais” e “Me Segura Que Senão Eu Caio”), Luiz Bandeira (“Voltei Recife” e “É de Fazer Chorar”), entre outros.

Cristina Amaral: Chuva de Alegria (EP, 2017).


Já Cristina Amaral lançou o EP “Chuva de Alegria”, que conta com as participações dos paraenses Gaby Amarantos e Arthur Espíndola, em canções assinadas por J. Michiles (“Recife Manhã de Sol”), Marrom Brasileiro (“Arrêa a Lenha”) e André Rio (“O Bicho Vai Pegar”). Quem também vem de EP e repleto de convidados é o paraibano João Lacerda, com “Folia de Rei”, que conta com a presença do seu pai Genival Lacerda (numa releitura de “Severina Xique-Xique”) e mais Alceu Valença (em “Morena Tropicana”), Maestro Spok, Caju & Castanha, entre outros.

O grupo Som da Terra vem de frevo de bloco, com releituras de “Madeira Que Cupim Não Rói” (Capiba), “Valores do Passado” (Edgar Moraes), “Evocação n°1” (Nelson Ferreira) e novos frevos de Rogério Rangel, Kayto, Rominho e Bráulio de Castro. Para finalizar a lista, temos Adelmo dos Passos com o álbum “O Frevo é Bom”, o pianista Antônio Carneiro da Silva apresenta o “Pé na Folia” e a dupla Fredy & Mary mistura as tintas em “Do forró ao Frevo”. Pois é; frevo não falta, o que falta é boa vontade das rádios em tocarem esses novos trabalhos. Evoé!


Fonte:
Descompasso

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



Musa da música

A relação entre sereia e cancionista aqui quer situar-se nos debates acadêmicos gerados na encruzilhada da "imanência versus transcendência" (NIETZSCHE: 2001; 2011), da "performance vocal" (ZUMTHOR: 2010), da "gestualidade vocal" (TATIT: 1996) e da "vocalização do logos" e "expressão vocal" (CAVARERO: 2011). Para gerar um conceito de sereia como estrutura mítico-estética fortemente ligada à cultura brasileira em sua pluralidade de mitos, línguas, tradições e estéticas, cunhei a expressão neo-sereia. 

A neo-sereia é a reciclagem antropofágica da sereia mítica. A nova sereia evocada aqui surgiu para dar conta do instante-já da canção, diante da inexistência de um termo que compreendesse em si a sinestesia do fato cancional: do breve momento em que o cancionista é mais que um cantor, intérprete, enunciador e se promove a sereia singular do ouvinte. Ou seja, a neo-sereia está no interlugar que vai do ouvido aberto à escuta do ouvinte à boca indiciadora de alguém vivo do cancionista. Dito de outro, o cancionista é neo-sereia quando canta o ouvinte de modo singular e essa singularidade vem da disposição (voluntária) do ouvinte em ouvir o cancionista. A neo-sereia instiga o ouvinte a experimentação da vida.

A reprodutibilidade técnica me permite pensar essa sereia contemporânea: resultado da ação do cancionista e do ouvinte; sereia que guarda o mesmo ímpeto da esfíngica sereia homérica, com o suplemento dos meios técnicos de mediação de hoje. A ideia de uma transsereia, uma sereia trans-histórica contida no núcleo duro do gesto de ser cantor, está na base das performances vocais que aqui analiso.

Sei que o uso do prefixo "neo", em sua banalização contemporânea, provoca incômodos epistemológico e filológico. No entanto, como a proposta de um léxico para as análises de performance vocal é também um dos objetivos deste trabalho, e a "banalização" da escuta cotidiana, "relaxada" é seu corpus, creio que o "neo", como o, literalmente, "novo", abrange e dá conta da tarefa a ser executada. O novo de novo, de cada escuta de "mesma" canção.

Desse modo, nem todo cancionista é neo-sereia, mas toda neo-sereia é um cancionista midiatizado. Procuro demonstrar isso com uma detalhada revisão do mito da sereia e sua permanência nos modos de escuta contemporânea de canção, quando identifico não mais uma relação de transcendência entre ouvinte e cantor, mas de imanência, com este cooperando com aquele na sua expressão imanente, ambos, cúmplices fratriarcalmente. Assim, por ser a certeza da presença de alguém vivo - com boca, garganta, úvula, saliva -, a neo-sereia perde qualquer caráter metafísico e foca na corporalidade, na performance de um corpo que vocaliza sua unicidade.

A fim de evitar o uso abusivo do termo, estabeleço uma semiologia da neo-sereia, apontando com rigor didático as especificidades da categoria. Para isso, através da análise das canções, proponho uma série de processos constitutivos da construção metafórica do termo: os mecanismos de artificialização do cantor sendo neo-sereia, por exemplo. Tais mecanismos alicerçados na mídia utilizada sustentam a base da poética da neo-sereia.

A neo-sereia não é um simulacro (BAUDRILLARD: 1991) da sereia, não é um avesso do real. Ao contrário, é o real do avesso, já que contém em si os sintagmas da sereia mítica e indicia a presença física de alguém. Ou seja, a neo-sereia devora o suposto modelo original sem querer atingir a essência deste que inexiste e está disposta a fingir “deveras” fundindo alquimicamente simulacro e real. Em síntese, "sujeito teatral" (BARTHES. S/Z, 1992), a neo-sereia revela o "logro magnífico", a "trapaça salutar" (BARTHES: Aula, 1992) que finca o ouvinte e o cancionista à vida. E é justamente este fincar que assusta e é terrível e belo na neo-sereia: sua demoníaca capacidade de colocar o ouvinte e o cantor na vida, no mundo.

Diferente da musa, cujo canto é mudo aos ouvidos dos comuns mortais e só acessível pela mediação do poeta ou do rapsodo (CAVARERO: 2011), a sereia decodifica o canto pretensamente divino (transcendente) oferecendo-o a todos os ouvintes indistintamente. Por sua vez, a neo-sereia concentra o canto da musa (testemunha ocular, relatora do relato absoluto) e da sereia (narradora que "resume" o relato da musa).

É um religare à musa, em forma de evocação, o que compõe a canção "Musa da música", de Dante Ozzetti e Luiz Tatit. Do turbilhão das discussões sobre os modos de fazer canção na contemporaneidade, o sujeito da canção embala (guarda e nina) uma figura de musa que virá restituir à canção sua potencialidade - "que é capaz" - de ser-cantante do ouvinte.

Conta, canta, tenta, sente, mostra, zela, troca e grita são os verbos que abrem cada estrofe da letra e indiciam a ação da "musa da música", esta entidade que convida o ouvinte a experimentar a vida. Na voz de Ná Ozzetti (Embalar, 2013) o sujeito, tal como pede a letra, "aposta na canção", na palavra cantada muito próxima à palavra falada. 

Se a canção "protela a extinção" do ouvinte e do cantor, a neo-sereia - Ná Ozzetti cantando e chegando a mim via fones de ouvido do celular - é a musa-sereia que afirma isso: "Musa da música / Mãe das Américas / Filha da África-fé / Filha da África fé / Na poética pós / Na genética pré", no carrefour, na encruzilhada do relato historiográfico com os miasmas da memória mítica, linguística, estética da cultura brasileira.


***

Musa da música
(Dante Ozzetti / Luiz Tatit)

Conta
Que desponta
Que está pronta
Que é capaz

Canta
Não adianta
Mal levanta
Canta mais

Tenta
Experimenta
Movimenta
Não tem paz

Sente
De repente
Que é urgente
Corre atrás

Mostra
Pra quem gosta
Que aposta
Na canção

Zela
Por aquela
Que protela
A extinção

Troca
A que sufoca
E não lhe toca
O coração

Grita
Que é bonita
A que excita
E dá tesão

Musa da música
Mãe das Américas
Filha da África-fé
Musa da música
Mãe das Américas
Filha da África fé
Na poética pós

Na genética pré




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

VIÚVA E FILHA DE NANÁ VASCONCELOS MUDAM-SE PARA OS EUA

Patrícia Vasconcelos vai em busca da obra que marido deixou no exterior

Por José Teles


Patrícia Vasconcelos, preservando a memória de Naná


No último mês de janeiro, Patrícia Vasconcelos, viúva do percussionista Naná Vasconcelos, embarcou, com a filha Luz Morena, para os Estados Unidos. Ela foi morar em Nova Iorque. Foi para lá por causa dele, para melhor cuidar da extensa obra que ele deixou, a maioria produzida no exterior. Há 17 anos, Naná Vasconcelos fez o inverso. Trocou Nova Iorque pelo Recife por causa de Patrícia. Veio para casar. Namoravam há quatro anos. Um relacionamento que não foi inicialmente bem recebido. Patrícia é filha de um irmão de Naná, sua sobrinha, portanto. Ela sabia que ele era uma pessoa importante na música, mas não se ligava muito nisto. Recém formada em engenharia, seu interesse era com as ciência exatas, até o dia em que conheceu o tio que vivia nos Estados Unidos.

“Numa das vezes que ele veio à minha casa, eu estava no quarto lendo. Minha mãe bateu na porta avisando que ele estava chegando. Ele me convidou pra dar uma volta com ele em Sítio Novo, eu morava lá. Depois ele me pediu pra deixar ele no hotel. Ficamos conversando na frente do hotel, em Boa Viagem. A coisa foi evoluindo, espontânea, Foi se transformando numa coisa que senti que era diferente o sentimento. Ele perguntou se podia ligar pra mim. Ligava e mandava cartas. Fui vendo que o sentimento era uma coisa muito forte. Então ele ele deixou tudo lá e veio morar aqui. Veio por causa de mim. Ele estava em evidência lá, e corria o risco de ser desvalorizado morando aqui. Mas veio”, conta Patrícia. Ela confessa que não foi fácil no começo: “Teve um pouco de problema, mas como Naná era uma pessoa muito responsável, digno, a gente foi absorvendo isso”.

Depois de casada com Naná, Patrícia continuou trabalhando na sua profissão, até que, nove anos atrás, tornou-se empresária do marido, e passou a conhecer mais a fundo o universo da música, e a entender mais a complexidade da obra do percussionista. A esta obra ela se dedica em tempo integral desde a sua morte, em março do ano passado. Um trabalho hercúleo feito em ritmo de formiguinha. 

A obra de Naná Vasconcelos é um dos motivos para ela se mudar para Nova Iorque: “Eu vou porque Luz quer fazer moda lá, e porque trabalhar a obra de Naná lá é mais fácil. Naná morou vinte e sete anos lá, então 70% do que ele fez foi lá fora. Luz é cidadã americana, herdou a cidadania dele, eu consegui o green card. Na UTI, ele disse a Luz que fosse realizar o sonho dela, estudar nos Estados Unidos. Talvez ela comece história dela lá na moda. Pra ela tem este significado, pra mim vai ser uma forma de manter o trabalho dele. Estou primeiro indo pras coisa mais fáceis. Fiz um mapeamento de editoras, contratos, estou descobrindo as coisas e falando diretamente com gravadoras, editoras,” explica Patrícia, mostrando o mais recente disco de Naná, uma coletânea lançada na Itália, com selo da ECM, Naná Vasconcelos - The Story Teller, com Jan Garbarek, Egberto Gismonti, Pat Metheny e Paul Motian.

O legado de Naná Vasconcelos além de se estender por Noruega, Itália, França, Estados Unidos, não apenas em discos solo, mas também nas co-participações e inúmeras trilhas, contém ainda a obra brasileira do artista que, só depois de sua volta ao Brasil gravou nove discos, além de aceitar convites para tocar em dezenas de gravações. Afora isso, no acervo que deixou em casa há muitas fitas de rolo, cujo conteúdo Patrícia diz que não teve tempo ainda de conhecer: “Ele não parava de produzir, e ainda tem discos inéditos, como o que fez com Fagner e Manassés. Achei a fita, só que nem um nem outro, me procurou sobre este disco. Há outro com Yamandú Costa, que nunca foi lançado, é uma obra muito grande, e complexa”.


MARACATU

Patrícia acha que Naná foi mais prestigiado aqui do que sua obra, sobretudo em Pernambuco, onde a maioria o conhecia como o maestro das nações de maracatu, na abertura do Carnaval do Recife. Não aparenta frustração por não ter aprovado o projeto do disco póstumo de Naná, que não passou no edital do Natura Musical. É um disco de poucas faixas, porém longas, músicas que ele compôs já debilitado. Algumas trabalhadas pelo maestro Jardim, outra por Egberto Gismonti. Mas não esconde a satisfação de saber que o Carnaval vai começar novamente com as nações de maracatu, regidas durante 15 anos por Naná Vasconcelos:

“Até antecipei minha viagem para antes do Carnaval, porque não estava acreditando mais que iria acontecer. Já foi feito reunião com os mestres, estão desenhando a parte final. As pessoas de todo Brasil perguntam muito, jornalistas do mundo todo, perguntam se vai ter. Os mestres não aceitam outro regente. Eles vieram aqui, conversaram comigo, querem continuar, mas a gente não quer que outra pessoa comande. Naná era a voz dele, nesta questão de ficar. Se todos artistas fizessem o que Naná fez a cultura popular não estaria em segundo plano. Naná não pegou só pra tocar no carnaval, passou o ano todo valorizando, abriu portas pra eles. O trabalho dele foi tão imenso, eu divido por células. Tem por exemplo a célula jazz. O maracatu foi uma das células de Naná. Me disseram que vão fazer uma estátua dele para ser colocada no Marco Zero”. 

Ela diz que em reunião com a prefeitura pediu que o lugar dele não fosse substituído, que continuasse com a mesma sintonia, com mais autonomia aos mestres: “Naná preparou os mestres, e o evento pode continuar com os maracatus, o grupo Voz Nagô. Se tiver homenagem eu volto para assistir a homenagem. Eles estavam decidindo se haveria convidados. Pode não permanecer, mas em ter este ano, eu acho que já foi uma vitória. Tudo vai depender, na minha opinião, do sucesso do evento. talvez se esta junção dos mestre regendo, isto depende de muita coisa. Da coordenação entre eles. Em dando certo o evento tende a permanecer. Tem ai uma capa de um jornal de Jerusalém, ele regendo os maracatus, viro um evento de projeção internacional. Este ano vão ser 15 nações. Sugeri que o roteiro musical fosse feito com músicas dele, que ninguém conhece”.

Na espaçosa e confortável casa onde mora, no Rosarinho, as lembranças de Naná Vasconcelos permeiam o ambiente. São troféus, discos, pôsteres, muitas fotos. Há um espaço reservado para os instrumentos, para as roupas que usavam em apresentações, e na abertura do Carnaval, seus discos. Patrícia estendeu as lembranças para a própria pele. Tatuou uma estrela igual a do tapete que ela usava no palco, outra com o nome do marido e da filha, mais um pequeno berimbau ao lado do qual está a rubrica de Naná. No anular usa duas alianças. A casa já começa a ser assediada empreiteiras. Querem um prédio no lugar, batizado com o nome do músico. Ela diz que não lhe interessa isso. Quer outro destino à casa:

“Tenho ideia de fazer ocupações. A gente monta o set de Naná, imprime uma fotos bem legais, faz uma semana de palestra, com um show que tenha a ver. Minha casa se fosse na Alemanha já teria se transformada num centro de visitas, para escolas, músicos, turistas. É uma referencia dele aqui. Por isso não vou fazer nada com ela. Vou manter, o custo dela é caro. mas não tenho coragem de fazer nada. Já veio construtora oferecendo compra. Com esta casa quero fazer uma fundação”. Durante a entrevista, no final da tarde, na pérgula da piscina, onde Naná costumava receber os amigos, tranquila, Patrícia diz que, de Naná, além das muitas lembranças, só vai levar na bagagem uma echarpe, das muitas que ele usava no palco.

GILBERTO GIL FAZ CANÇÃO PARA YAMANDÚ COSTA

'Sinto que minha responsabilidade só aumentou', disse Yamandú diante da homenagem



Yamandú Costa estava em um táxi, saindo do Aeroporto do Galeão em direção à sua casa, no bairro de Botafogo, no Rio, quando recebeu o vídeo em que Gilberto Gil aparece cantando para ele. Sim. Gil, do alto da poltrona da qual pode ver a música brasileira a dois palmos acima da mortandade, pegou o violão e compôs uma canção para o jovem violonista gaúcho Yamandú cheia de ginga e devoção. Isso mesmo. Gil faz em geral deferências às três colunas que seguram o teto de sua eterna casa de pau a pique que o acompanha desde a infância em Ituaçu, no interior da Bahia: Dorival Caymmi, João Gilberto e Luiz Gonzaga, com um Bob Marley de lambuja. Ele sabe a força que têm suas notas e suas palavras, não as desperdiça nem as coloca no tabuleiro das jogatinas para lançar moda. Gil está dois palmos acima disso.

Pois desta vez, entre um e outro horário dos medicamentos que toma para o tratamento de uma insuficiência renal, Gil apanhou o violão, lembrou da paixão furiosa que move as mãos de Yamandú Costa e gravou para lhe entregar, nas palavras do próprio violonista, "um abraço musical". Mas foi mais do que isso. Gil estendeu um tapete vermelho a Yamandú, como se vê poucas vezes na música brasileira. "Eu mesmo não me lembro de uma música que fale de um músico dessa forma", diz Yamandú, ainda sob o efeito anestésico do susto.

É assim que Gil canta sorrindo enquanto é gravado por um celular: "...Yamandú, com seu violão ligeiro, parece que é pressa mas é só suingue à beça / e bossa e pulsação no corpo inteiro / Só quem segue o Yamandú / é o frisson do pandeiro / Vê se pegue o Yamandú, lá vai / o Yamandú não deu / e o Yamandú chegou primeiro".

Há, como sempre, um jogo harmônico acompanhando a letra, que Gil nunca explica. Aqui, seus acordes caminham cromaticamente, casa por casa, criando uma tensão e simulando uma corrida. É a forma de dizer sobre o estilo Yamandú de tocar, algo que fez o crítico Tárik de Souza chamá-lo de "Jimi Hendrix do violão". "Eu vou hoje mesmo ver o Gil em uma festa na casa do (jornalista) Moreno para agradecê-lo pela música", diz Yamandú. "Sinto que minha responsabilidade só aumentou, imagine Gil falando isso de você."


Fonte: Agência Estado 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

PAUTA MUSICAL: A ARTE PLURAL DE LUIZ PEIXOTO

Por Laura Macedo 



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O bom artista sobrevive ao tempo. Um bom exemplo é Luiz Peixoto que atuou de forma plural nas artes brasileira como Compositor, Teatrólogo, Poeta, Pintor, Caricaturista e Escultor. Se vivo estaria completando 129 anos.

Foi parceiro de Ary Barroso, Marques Porto, Almirante, Vicente Paiva, Hekel Tavares, Noel Rosa, Radamés Gnattali e tantos outros.

Suas composições continuam a encantar as gerações de ontem e de hoje, confirmando a tese da perenidade do bom artista na linha do tempo.

01 - "Na batucada da vida" (Luiz Peixoto-Ary Barroso), com Dircinha Batista. Odeon, 1950.


02 - "Azulão" (Luiz Peixoto- Hekel Tavares), com Paraguassú. Columbia, 1930.


03 - "É luxo só" (Luiz Peixoto-Ary Barroso), com Elizeth Cardoso. Copacabana, 1958.

CARNAVAL DO RECIFE 2017 - SEMANA PRÉ-CARNAVAL TEM ENSAIO GERAL COM LENINE, ENCONTRO DE CABOCLINHOS E O BAILE DA PESSOA IDOSA



Com uma agenda extensa e opções para todos os gostos, a semana pré-carnavalesca do Recife começa na terça-feira (21), com o tradicional Baile da Pessoa Idosa, que promete reunir milhares de foliões. No mesmo dia, o Marco Zero recebe o 1º ensaio geral das nações de maracatu que vão se apresentar na Abertura do Carnaval. Na quarta-feira (22) à noite, acontece o último ensaio dos batuqueiros no Recife Antigo. Na quinta-feira (23), antes do início oficial da festa de Momo, os foliões podem começar a esquentar para a festa no 9º Encontro de Caboclinhos.


Baile de Carnaval da Pessoa Idosa do Recife

O 16º Baile Municipal da Pessoa Idosa acontece no próximo dia 21/02, no Classic Hall. A festa carnavalesca é gratuita e vai reunir 160 grupos de convivência de pessoas idosas que existem nas comunidades do Recife, e das instituições de longa permanência. No Baile serão apresentados a Rainha e o Rei da Pessoa Idosa 2017, eleitos no 8º concurso, no último dia 9 de fevereiro. A animação ficará por conta da orquestra do Maestro Spok e convidados.


Terça Negra especial

No dia 21/02, a Terça Negra Especial de Carnaval se despede do Pátio de São Pedro. A partir das 20h, se apresentam o Maracatu Nação Cambinda Africano, Coco Bojo de Macaíba, Maracatu Nação Almirante do Forte e o Afoxé Omo Badê.


9º Encontro de Caboclinhos

Quinta-feira (23), um dia antes do início dos festejos de Carnaval, vai acontecer o 9º Encontro de Caboclinhos na Rua da Moeda, que vai reunir 20 agremiações carnavalescas. A manifestação cultural que tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial, título conferido pelo IPHAN no ano passado, vai colorir o bairro do Recife com seus trajes e penachos. O evento acontece às 19h.


Ensaios gerais da abertura do Carnaval do Recife

A partir da segunda (20), começam os ensaios gerais do Palco do Marco Zero. O destaque fica por conta de Lenine e Virgínia Rodrigues, que ensaiam com maestro Edson Rodrigues, Coral Voz Nagô com 13 Nações de Maracatu de Baque Virado nas noites de terça e quarta (vide horários). Elba Ramalho, Alceu, Spok Frevo Orquestra e Maestro Forró são outras atrações dos ensaios.

20 de fevereiro (Segunda)
André Rio e Luciano Magno - 17h30
Orquestrão - 19h20
Orquestra Ademir Araújo - 21h40
Maestro Duda - 23h

21 de fevereiro (terça)
Marrom Brasileiro e Nonô Germano - 17h30
Homenagem a Naná (Lenine e V. Rodrigues) - 19h20
Orquestra Contemporânea de Olinda - 21h50
Recife de Bambas - 23h30

22 de fevereiro (quarta)
Nena Queiroga e Coral Edgar Moraes - 17h30
Homenagem a Naná (Lenine e V. Rodrigues) - 19h20
Spok Frevo Orquestra e Ed Carlos - 21h30
Alceu Valença - 23h10

23 de fevereiro (quinta)
Gustavo Travassos - 17h30
Elba Ramalho - 19h20
Orq. P. Bomba do Hemetério e Karinna Spinelli - 20h50
Almir Rouche e Convidados - 22h20

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*




05 - Nossas Vidas

Ao conhecer minha mãe, completamente apaixonado, Herivelto quis logo viver com ela. Dalva, sozinha no Rio, totalmente envolvida por Herivelto, pelo papo inteligente, deslumbrada com sua musicalidade, seduzida por seus olhos azuis, perdidamente apaixonada, aceitou a proposta. Uma proposta indecente para a época, pois dá para imaginar o escândalo nos anos 30: duas pessoas viverem juntas, sem casar?! Dalva chegara a mentir para a família em São Paulo, dizendo nas cartas que já estava casada com Herivelto. A situação financeira dos dois era terrível. Vindos havia pouco tempo de suas cidades, estavam começando a conquista da capital. Assim, embalados pela paixão, uniram suas pobrezas e, mais importante, sua musicalidade e seus sonhos. Os primeiros endereços do casal: rua do Lavradio, rua Pedro I, rua Silva Jardim, rua dos Inválidos, verdadeiros muquifos em volta da praça Tiradentes. Quando nasci, em outubro de 1937, meus pais moravam na rua do Senado, na Vila Rui Barbosa, em quarto alugado na casa de um alfaiate. Viveram assim um bom tempo, em cabeças de porco, pardieiros. Minha mãe lavava as camisas de meu pai e até os ternos de linho em banheiras. Passava nossas roupas em cima da cama. Cozinhava em espiriteiras a álcool, cuidava de mim e ainda cantava ao lado de meu pai, iniciando a carreira do Trio de Ouro. O dinheiro era escasso, trabalhavam em espaços chinfrins, circos, boates nos subúrbios do Rio. Somente em 1938 começaram a se apresentar nas rádios, o grande veículo de divulgação e valorização do artista na época. Não havia arrecadação de direito autoral; a venda de discos engatinhava. Para se ter ideia do incipiente mercado da época, os artistas tinham de vender quinhentas cópias de um 78 rotações para ter direito à gravação de outro disco. E não era nada fácil vender essas quinhentas cópias… Assim, o aluguel barato daquelas casas de cômodos era o que conseguiam pagar. Hoje, para quem lê esta história, aqueles lugares podem parecer pitorescos. Mas não era brincadeira. Morávamos em casarões velhos, malconservados. Muitas vezes, não havia quartos separados para cada família.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

MARIA BETHÂNIA ACEITA CONVITE PARA PARTICIPAR DO CARNAVAL DO RECIFE

Cantora baiana deve cantar na abertura da festa, em homenagem a Naná Vasconcelos



Cantora participou da folia de Momo do Recife em 2007. 


A cantora Maria Bethânia aceitou um convite da prefeitura do Recife para participar da abertura do carnaval da cidade, no dia 24 de fevereiro (sexta-feira). A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa da cantora ao Viver. De acordo com a produção da Abelha Rainha, foi repassada à organização da festa a lista com o que ela precisa, mas os trâmites burocráticos ainda não foram concluídos e nenhum contrato foi assinado. A assessoria de imprensa do carnaval também não confirma a participação dela.

A baiana deve participar de homenagem ao pernambucano Naná Vasconcelos, que faleceu em março de 2016. O percussionista liderava a cerimônia de início da festa recifense, regendo batuqueiros de várias nações de maracatu. Maria Bethânia se apresentou no carnaval do Recife em 2007, quando foi convidada por Naná, um dos mais respeitados percussionistas do mundo, para a cerimônia com os batuqueiros. Na ocasião, ela gravou a música Frevo nº 1 do Recife, composta pelo pernambucano Antônio Maria (1921-1964), para o CD 100 anos de frevo: É de perder o sapato. Bethânia, aliás, tem uma história curiosa com a canção: na década de 1970, ela a gravou sob o título (errrado) Frevo nº 2 do Recife, além de cantar Haroldo Marias, em vez de Haroldo Fatia, o verdadeiro homenageado, que é o autor do primeiro gol do Sport na Ilha do Retiro.

Maria Bethânia está com show marcado em Pernambuco para o dia 18 de março, no Classic Hall (Avenida Governador Agamenon Magalhães, s/n, Complexo Salgadinho, Olinda). A turnê, ainda não apresentada no estado, comemora 50 anos de carreira e inclui clássicos gravados por ela, como É o amor, Olhos nos olhos, Explode coração e Começaria tudo outra vez. O mais recente álbum dela foi Abraçar e agradecer, também em celebração às cinco décadas de trajetória artística, com faixas assinadas pelo irmão, Caetano Veloso, por Chico Buarque, Danilo Caymmi e outros. Os ingressos custam R$ 120 e 60 (meia), para pista, R$ 1 mil (mesa VIP para quatro pessoas), R$ 1,2 mil (mesa premium para quatro pessoas), R$ 1,2 mil (camarote no 3º piso para dez pessoas), R$ 1,5 mil (camarote no 2º piso para dez pessoas) e R$ 1,8 mil (camarote no 1º piso para dez pessoas). Informações: 3207-7500.

Assista a um trecho da apresentação em 2007:





Fonte: Viver/Diario - Diario de Pernambuco








domingo, 19 de fevereiro de 2017

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

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José de Lima Sobrinho e Durval de Lima ganharam fama em todo o país a partir dos nomes que adotaram para a carreira artística: Chitãozinho e Xororó. É bem provável que alguns estão a torcer o nariz para esta pauta, mas a abrangência da música de fato popular brasileira perpassa por nomes como o desta dupla, assim como tantos outros do gênero. Não podemos ignorar essa dupla que é recordista em vendas de discos no Brasil (venderam mais de 35 milhões de álbuns) e detentora de dois prêmios Grammy Latino. Fatos estes que talvez nem passasse pela cabeça daqueles dois jovens irmãos que deram início a carreira fonográfica a quarenta e sete anos atrás ao lançarem o primeiro LP oficial em 1970. Ainda neste primeira década de carreira gravaram discos como "A mais Jovem Dupla Sertaneja" (1972), "Caminhos de minha Infância" (1974), "Doce Amada" (1975), "A Força Jovem da Música Sertaneja" e "60 dias apaixonado" (1979), o projeto fonográfico mais exitoso da dupla até então. Com o álbum seguinte chegam a expressiva vendagem de 400 mil cópias, mas a consagração popular só viria um ano após o lançamento deste exitoso álbum com a canção "Fio de Cabelo" do disco "Somos apaixonados", que vendeu mais de 1,5 milhão de cópias e abriu as portas das rádios FM´s para a música sertaneja. O sucesso foi tamanho que semelhante aos artistas renomados e populares da década de 1960, a dupla ganhou, aos domingos, o programa de TV "Chitãozinho e Xororó Especial", que apresentado no SBT cantavam e recebiam convidados. Tal programa serviu para consolidar a carreira artística da dupla e popularizar ainda mais os irmãos que no mesmo ano participaram na Globo do especial Roberto Carlos cantando junto com ele "De coração pra coração". 

A década seguinte trouxe para a dupla passagens interessantes na carreira artística deles como quando eles gravaram em 1993 a canção "Words" com os Bee Gees para o disco "Tudo por Amor" lançado em português e espanhol. Vale destacar que este mesmo disco traz também que fez parte da trilha da novela de mesmo nome transmitida pela Telemundo,  rede de televisão americana. O sucesso desse trabalho foi tão grande que a dupla conquistou em junho daquele ano o primeiro lugar do "Hot Latin Singles" na parada norte-americana da revista Billboard, só Roberto Carlos tinha conseguido essa marca em 1989. As parcerias internacionais se sucederam a partir da gravação da canção "Ela não vai mais chorar" ("She's Not Cryin' Anymore") com o cantor de música country Billy Ray Cyrus para o disco "Coração do Brasil". Levando em consideração os números que cercam a carreira da dupla, há dados que chamam a atenção pela grandiosidade. Um exemplo é o show "Amigos", que, em 1995, a dupla encabeçou ao lado de Zezé di Camargo e Luciano, e Leandro e Leonardo. O show ocorrido em São Caetano do Sul, estima-se que tenha tido um público com mais de 100 mil pessoas. Além deste dado, pode-se contabilizar na conta da dupla 36 álbuns inéditos, 8 DVDs, centenas de discos de ouro, platina e diamante, mais de 6 mil shows, 1,8 milhão de vendas em um único disco, mais de 400 músicas gravadas, envolvimento em mais de 150 projetos de responsabilidade social, um público estimado em 100 milhões de pessoas entre outros dados. Em 2017 os irmãos paranaenses estão completando 47 anos de carreira e a marca de mais de 37 milhões de discos vendidos. São dados como estes que destacam a dupla dentro da música brasileira.

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

TONICO, 100 ANOS

sábado, 18 de fevereiro de 2017

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


SÉRIE “ESTRADA REAL” E “CIRCUITO DOS INCONFIDENTES”, MG

Impossível ir a Minas sem pensar em JK


Entre os anos 50 e 60, meu pai, em sua rixa pessoal com Belo Horizonte e Salvador, ficava fulo, quando se dizia que a capital mineira estava ultrapassando o Recife em população e, portanto, empurrando a capital nordestina para a quarta posição importância, além de São Paulo e Rio.

Nesses anos aí, Recife começou a receber uma leva de cento e tantos ônibus elétricos de BH, cidade que possuía uma topografia ruim para o uso dos silenciosos e bojudos veículos.

Eu não sei por que cargas d’água, nem quem era o marqueteiro da época. Tiveram a audácia de colocar uma faixa enorme na frente dos veículos: “PROCEDENTE DE BELO HORIZONTE”. Pronto, meu pai bufou; quis saber o que era aquilo, que diferença fazia o mesmo elétrico de Minas para os elétricos de Pernambuco etc. Fulo da vida, seu Joaquim nunca subiu os degraus de um desses ‘PROCEDENTES’. Vingou-se à sua maneira.

Passadas algumas décadas, as rivalidades já reduzidas, meu pai convivendo com os mineiros falecidos lá no céu, me pus eu, e minha eterna parceira, Eva, a visitar as Minas Gerais. Para mim, que gosta de ser viajar, era uma lacuna não conhecer Bel’ Horizonte e as Minas.

Deixarei para falar de culinária, futebol, hospitalidade, prosódia, cultura e tudo o mais no próximo “Megaphone”.

Desta vez, fico com o encanto anímico, atmosférico e astral que BH causa. Ao lado de nosso hotel, no bairro Savassi, ao lado da praça da Liberdade, ponteada pelo Palácio de mesmo nome e um verde sombreando ruas, travessas, avenidas e becos.

Agradável é palavra pouca para descrever o que senti em BH: um povo para lá de simpático, sô. Sem o contagio da megalópole, embora já seja.

A um quarteirão do hotel estava construído o que a nós nos parecia um réplica do Copan de São Paulo. Será que Niemeyer fez uma série de prédios tortuosos por aí? Vejam:

Edifício Niemeyer, em BH – Construído em 1954/55 para fim residencial


Edifício Copan, em SP – Construído por Niemeyer, a partir de 1951, concluído em 1966


O que mais me chamou a atenção no legado de JK como homem público foi a capacidade de congregar gente da mais alta qualidade em cada área de atuação.

Não vou ficar aqui apontando erros, equívocos que cometeu, por exemplo, ao dar prioridade às rodovias, em detrimento das ferrovias; na construção de Brasília, muitas lacunas orçamentárias a ser respondidas.

Permito-me, nesse momento, homenagear o médico, o militar, o homem público que foi prefeito biônico de Belo Horizonte, eleito de Minas Gerais e eleito presidente da República. Tantas outras mortes que estranhas que levaram outros personagens da história, sugaram também JK.

A mim, me parece correto dizer que estava sempre cercado dos melhores, Burle Marx, Portinari, Guignard, Niemeyer, Joquim Cardoso, Lucio Costa e muitos outros. A cultura era sua linguagem principal e com ela identificou um certo novo Brasil.

Bem, tem muito para contar. Fora dos guias e panfletos de turismo da cidade não havia a indicação do “Bar do Museu do Clube da Esquina”, no bairro, onde perto dali todas as turmas dos Clubes da Esquina, Minas, Gerais, Som Imaginário mantêm, com o empenho e a garra da Virgínia, um lugar especial onde quiser ouvir música de ótima qualidade, no clima e na linguagem da época e ficará alucinado como eu fiquei. E mais: os músicos, descendentes diretos dos ‘esquineiros’ estão lá todos os dias para tocar o que for bom, além da fabulosa música das Minas, é claro.

Semana que vem tem mais. Aí um gostinho para lembrar….


Girassol da Cor de Seu Cabelo, de Lô Borges e Milton Nascimento, 1972


Vento solar e estrelas do mar
A terra azul é a cor de seu vestido?
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?

Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?

Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo?
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol é a cor de seu cabelo?

Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?

O meu pensamento tem a cor de seu vestido?
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?

REVOLUCIONÁRIO, O PRIMEIRO ÁLBUM DE MILTON COMPLETA 50 ANOS COM FRESCOR

Por Mauro Ferreira, do G1




Quando lançou o primeiro álbum em 1967, em edição do modesto selo Codil, Milton Nascimento já tinha música gravada por ninguém menos do que Elis Regina (1945 – 1982), cantora que em álbum de 1966 dera voz à Canção do sal, composta por este artista carioca de alma musical mineira. Sem grande repercussão, o próprio Milton já havia feito gravações em discos do Conjunto Holiday e do Quarteto Sambacana, na primeira metade dos anos 1960. Contudo, foi a defesa vitoriosa de Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) na segunda edição do Festival Internacional da Canção (FIC) que abriu definitivamente as portas do mercado fonográfico para o cantor, compositor e músico criado em Três Pontas (MG). Vice-campeã deste festival de 1967, Travessia impulsionou a gravação do álbum de estreia do artista, Milton Nascimento, disco que completa 50 anos neste ano de 2017 com o frescor perene da obra deste artista de musicalidade original.

Ao longo das 10 músicas do álbum, Milton praticamente funda um escaninho na música brasileira, amalgamando sons do jazz, do samba-jazz, da música sacra, das trilhas das Geraes – inclusive o barulho do trem que atravessa toda a obra do compositor – e do rock feito no universo pop da época marcada pelo apogeu dos Beatles. Neste primeiro álbum, as duas obras-primas do repertório inteiramente autoral – Morro velho (Milton Nascimento, 1967), canção que vale por tratado sociológico sobre a relação entre patrões e empregados no Brasil da casa grande e das senzalas disfarçadas, e a obrigatória Travessia – têm arranjos originalmente criados pelo pianista Eumir Deodato, que abriu as portas do mercado fonográfico dos Estados Unidos para o cantor (tanto que, em 1968, Milton já lançava um álbum, Courage, direcionado para o público norte-americano).

Além de ter a marca de Deodato, o álbum Milton Nascimento foi gravado com o toque do Tamba 4, versão estendida do lendário Tamba Trio, formada naquele ano de 1967 por Luiz Eça (1936 – 1992) (arranjos e piano), Bebeto Castilho (flauta), Dório Ferreira (baixo) e Rubens Ohana (bateria). Não creditados como Tamba 4 na ficha técnica do disco, os músicos deste quarteto fantástico envolveram em modernidade atemporal músicas como Crença (Milton Nascimento e Márcio Borges, 1967), Três Pontas (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1967) e Outubro (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967).

Então em início de carreira, Danilo Caymmi toca flauta em Catavento (Milton Nascimento, 1967), música menos ouvida do repertório deste disco que deu frutos. Foi jogada no álbum Milton Nascimento a semente do som do Clube da Esquina que iria germinar ao longo dos próximos cinco anos. Milton Nascimento já está com o pé na estrada há mais de 50 anos, mas foi a partir deste já cinquentenário primeiro álbum que o Brasil e o mundo conheceram um som de personalidade singular, gerado a partir da vivência deste astro revolucionário que marcou a nascente MPB da era dos festivais sem ter ficado no olho do furacão tropicalista.

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