PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

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sábado, 20 de outubro de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


GEOGRAFIA DAS MÚSICAS – MANGARATIBA
Mangaratiba- RJ

Quando miúdo ouvia muito “Mangaratiba”, na voz de Luiz Gonzaga, parceria do rei com Humberto Teixeira.

A vitrola ficava acesa o dia inteiro. O aparelho servia para tocar a trilha de cada um dos que se hospedavam ali, na faixa, na casa de vovô, no bairro de São José, Recife-PE

Eram Gonzagão, Jakcson, Gordurinha, Ary Lobo, Marinês, Nelson, Ãngela Maria, Dalva, Marlene, Emilinha, Trio Irakitan, Dick Franey, Lucio Alves e uns novatos – Edu Lobo, Chico Buarque, Ivan Lins, João Donato, Zimbo Trio, além de outro bocado de músicas de todos os gêneros.

Eu, parcularmente, era muito chato e usava da prerrogativa de ser neto do dono da casa para interromper Orlando Dias, por exemplo…

Uma música que sempre me deixou curioso foi “Mangaratiba”, principalmente pelo título que me parecia muito próximo da prosódia e de um termo de origem nordestina e não conhecia, não sabia se era cidade, fruto ou nome de um pau.

Mais tarde, vim saber que era um dos mais belos balneários do Rio, lugar onde todo high-society carioca tinha casa, mansão.

Mangaratiba é um munípio da microrregião de Itaguaí-RJ, contíguo à Regiao Metropolina do Rio de Janeiro, estado do Rio. Está a 85 km da capital e possui cerca de 40 mil habitantes, segundo o IBGE.

Mangaratiba é um termo originário do Tupi antigo e significa “ajuntamento de mangarás”, da junção de mangará (termo que designa plantas da famílias da aráceas) e tyba (ajuntamento).


Mangaratiba (Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira), com Gonzagão



Pra falar a verdade, fiquei sabendo das peculiaridades de Mangaratiba há pouco tempo. Além de originária de um povoado de pescadores, depois tornado um dos mais bonitos templos do litoral do Rio, a escondida cidade ficou muito famosa para nós, não fluminenses, principalmente por conta da presença da nata da máfia da corrupção nacional, incluindo o ex-governador Sergio Cabral e o interessante Fernando Cavendish.

Sim, Neymar também está lá numa bela mansão, tratando do dedinho, tão valioso, que poderá nos ajudar a ganhar mais uma Copa. Mas, este não é um meliante, ganha seu dinheiro fazendo gols e lances mágicos pelos campos do mundo inteiro…

sábado, 13 de outubro de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA


Por Joaquim Macedo Junior

GRANDES MÚSICOS/COMPOSITORES ERUDITOS-POPULARES DO NE – ANTONIO MADUREIRA
Antonio Madureira e ponto!


Poucos estados oferecem tanta gente boa para as artes e o pensamento brasileiros com o Rio Grande do Norte. Apenas para refrescar a memoria: Cussy de Almeida, os Madureira, Câmara Cascudo e por aí vai.

Hoje, me redimo e finalmente falo de Antonio Madureira, a quem sempre admirei, respeitei, mas nunca o tinha trazido para esta coluna individualmente.

Antônio José Madureira nasceu em Macau (RN), em 1949, mudando-se para o Recife aos 19/20 anos.

É músico, maestro, violonista e compositor, que associou a música erudita à, em 1970, juntamente a Ariano Suassuna.

Ponteado – Antonio Madureira



Integrou o Quinteto Armorial, com o qual lançou quatro discos: “Do Romance ao Galope Nordestino” (1974); “Aralume” (1976); “Quinteto Armorial” (1978); e “Sete Flexas” (1980).


Nordestina – Antonio Madureira


Pesquisador nato das mais profundas raízes da música popular do nordeste, fez além do curso de violão na Escola de Belas Artes do Recife/PE, o curso de contraponto e harmonia na Escola Jaime Padre Diniz e Etnomusicologia e regência.


Romance da Nau Catarineta – Antonio Madureira

Alguns trabalhos de Antonio Madureira com Instrumentos populares do nordeste ; “O Baile do menino Deus”; “Bandeira de São João”; “Opereta do Recife”; “Brasílica, o romance da Nau catarineta”.

Antonio Jose Madureira

Após à dissolução do grupo, continuou sua carreira musical, marcada pela convergência entre o erudito e o popular, através dos discos Brasílica – O Romance da Nau Catarineta (1992), com Cecília Didier; Romançário (1996), com Rodolfo Stroeter; da criação do Quinteto Romançal, com os discos Ancestral (1997) e No Reino da Ave dos Três Punhais (1999); e mais recentemente no disco Segundo lançou Romançário (2009), com Sérgio Ferraz.

Movimento Armorial

Mestre Ariano


O Movimento Armorial foi uma iniciativa artística de se criar uma arte erudita, a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro.

Um dos seus fundadores e diretores foi o escritor Ariano Suassuna. Procura orientar para esse fim todas as formas de expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura, entre outras expressões.

“A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos “folhetos” do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a Música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus “cantares”, e com a Xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados”. (Texto de Ariano Suassuna, no Jornal da Semana, Recife, 20 maio 1975).

O Movimento surgiu com a colaboração de um grupo de artistas e escritores do Nordeste do Brasil e o apoio do Departamento de Extensão Cultural da Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco.

Teve início no âmbito universitário, mas ganhou apoio oficial da Prefeitura do Recife e da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco.

Foi lançado oficialmente, no Recife, no dia 18 de outubro de 1970 (fará 48 anos este mês), com a realização de um concerto e uma exposição de artes plásticas, realizados no Pátio de São Pedro, no centro do Recife.

Segundo Suassuna, “armorial” é o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, a heráldica é uma arte muito mais popular do que qualquer coisa.

Desse modo, o nome adotado significou o desejo de ligação com essas heráldicas raízes culturais brasileiras.

sábado, 6 de outubro de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


DIA DO NORDESTINO (8 DE OUTUBRO)


Ontem, segunda-feira, 8 de outubro, foi o “Dia do Nordestino”, criado em São Paulo, data instituída em 2009.

Homenageia o centenário do nascimento de Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como “Patativa do Assaré”, poeta popular, compositor e cantor cearense.


“Vozes da Seca”, de Zé Dantas e Luiz Gonzaga

Escolhi “Vozes da Seca” para comemorar nosso dia. A épica canção continua dizendo mais do que tudo sobre a região nordestina.

Nas eleições em curso, o Nordeste permanece como ponto de desequilíbrio entre os pretendentes à presidência.

Ora para ser taxado de curral eleitoral do PT, ora como alvo imediato dos anseios do candidato do PSL.

Quando a região terá voz ativa e independente, deixando de ser uma massa uniforme de interesses imediatos eleitorais e não um território de 9 estados pronto a recusar “esmolas” e seguir seu destino de progresso e igualdade social, sufocados por clichês e generalizações malditos?

Parece que ainda está longe esse momento…

sábado, 29 de setembro de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


GRANDES MÚSICOS E COMPOSITORES DO NORDESTE – MARCONI NOTARO
Marconi Notari: um talento da psicodelia pernambucana anos 1970


Poeta e músico brasileiro, Marconi Notaro nasceu em Garanhuns, em julho de 1949 Foi um representante da cena musical psicodelica do Recife, na década de 1970.

Fez trabalhos com Ave Sangria, Zé Ramalho, Lula Côrtes, Lailson, Robertinho de Recife e outros.

Sua obra mais conhecida é o álbum “No Sub Reino dos Metazoários”, de 1973.


Fidelidade – Marconi Notaro – Álbum “No Sub-reino dos Metazoários (1973)



Recolho aqui texto do jornalista Fernando Rosa, do site “Senhor X”: – o LP ‘No Sub Reino dos Metazoários’ enquadra-se na linhagem de obras como os discos de Lula Côrtes & Lailson – ‘Paebirú’ e ‘Satwa’, clássicos da psicodelia nacional.

Em alguns momentos, ultrapsicodélico o disco abre com o samba ‘Desmantelado’ (composto por Notari em 1968), com regional formado por Notari, Robertinho de Recife, Zé Ramalho e Lula Côrtes.

A segunda faixa, ‘Ah Vida Ávida’, com ‘Notaro jogando água na cacimba de Itamaracá’, mais Lula na ‘cítara popular’ e Zé Ramalho na viola indicam o que vem a seguir, um misto de alucinada psicodelia com pinceladas da mais singela música popular, como o frevinho ‘Fidelidade’.


Desmantelado – Marconi Notaro – Album “No Sub-reino dos Metazoários” (1973)

O momento mais radical do álbum é a quinta faixa, ‘Made in PB’, parceria de Notaro com Zé Ramalho, um rockaço clássico, destacando a guitarra distorcida de Robertinho de Recife.

As músicas ‘Antropológicas 1’ e ‘Antropológica 2’, como a maioria das outras canções, são improvisos de estúdio, reunindo os músicos já citados, com ótimo resultado sonoro e poético.

O álbum, do catálogo da Rozenblit, espera uma cuidada reedição oficial. O LP original é praticamente impossível de ser encontrado, mas uma ótima cópia em CD já circula no universo de colecionadores.

Estampa do movimento: uma febre na época


A capa é um desenho de Lula Côrtes, tão chapado esteticamente quanto o som que o tosco papelão embalava, com uma foto de Marconi Notaro no centro, com o rosto dividido entre a capa frontal e a contracapa

“Antropologica 1”, de Marconi Notaro – Coletânea inglesa de música brasileira, lançada em 2011


Com produção do pessoal do grupo multimídia de Lula Côrtes e sua mulher Kátia Mesel, o disco foi gravado nos estúdio da TV Universitária de Recife e da gravadora Rozenblit, também na capital pernambucana.

Marconi Notaro faleceu no Recife, em 24 de outubro de 2000.

sábado, 22 de setembro de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior



OS GRANDES MÚSICOS E COMPOSITORES DE NOSSA REGIÃO – ZÉ MANOEL

Zé Manoel: uma das grandes revelações da música brasileira


José Manoel de Carvalho Neto – Zé Manoel – é de Petrolina-PE, onde nasceu em 1980. Compositor, cantor e pianista lançou, em 2015, o elogiado disco “Canção e Silêncio”, com patrocínio do Natura Musical, produção musical de Carlos Eduardo Miranda e produção das bases adicionais de Kassin. Arranjos de orquestra de Fabio Negroni, Mateus Alves e Letieres Leite.

É considerado uma das gratas revelações da música pernambucana e brasileira. Zé Manoel estudou piano clássico com a professora Lúcia Costa, que lhe apresentou compositores como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Zequinha de Abreu, Chopin, Bach. Essa mistura de referências lhe aguçou o interesse pelas valsas, choros, tangos e lhe levou à música popular.


Água Doce – Álbum Canção e Silêncio – Zé Manoel


Aprendeu harmonia ouvindo Tom Jobim, standards de Jazz e tocando na noite. Aos 13 anos, foi recebido com surpresa pelos jurados do concurso para escolha do hino do centenário de Petrolina, presidido pelo também petrolinense Geraldo Azevedo, onde chegou até a final.

Por volta dos 18 anos, iniciou suas atividades profissionais fazendo piano bar. Em seguida, montou o grupo Chaleira Blues (com a cantora Camila Yasmine e o violonista e compositor Eugênio Cruz), onde iniciou as suas pesquisas sobre a música brasileira, especialmente a que foi produzida na década de 70.

Integrou, como acordeonista, a banda Matingueiros, além de acompanhar diversos artistas locais e de participar da banda dos musicais Pocket Shows do diretor de teatro Cássio Lucena.


Sol das Lavadeiras – Zé Manoel e Grupo Bongar


Em 2004, participou pela primeira vez do Festival Edésio Santos da Canção em Juazeiro – BA, onde foi premiado com a segunda colocação. Nesse mesmo festival, voltou a ser premiado com o terceiro lugar por 2 vezes e primeiro lugar por 4 vezes, nos anos posteriores.

Em 2005, escreveu e acompanhou ao piano a música tema do evento ”Um Mundo para a Criança e o Adolescente do Semiárido, da UNICEF”, cantada por um coral de 120 crianças num evento realizado na Ilha do Fogo, entre os estados de Pernambuco e Bahia, com a presença de representantes políticos, de comunidades e o embaixador da UNICEF no Brasil Renato Aragão, visando discutir projetos voltados para as crianças e adolescentes que vivem em situações de risco no semiárido brasileiro.

Em 2007, Zé Manoel muda residência para a capital pernambucana, onde inicia seus estudos acadêmicos na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no curso de Música – Licenciatura. Logo em seguida, sai em excursão no navio espanhol Sky Wonder, pela costa brasileira e uruguaia, onde atuou como pianista do quarteto de MPB Sobre As Ondas, liderado pelo cantor Gean Ramos.

Em 2009, grava o seu primeiro EP, homônimo, onde toca e canta suas próprias composições, com produção musical do também petrolinense radicado em Recife, Albérico Júnior.

Este trabalho lhe rendeu participações no projeto Observa e Toca Malakoff, no Festival RecBeat ambos em Recife, no Festival de Inverno de Garanhuns – PE e no festival Pré-Amp, que tem como premiação a gravação de um CD.

Com a premiação do Pré-Amp foi gravado o primeiro álbum do artista com as participações de músicos como Gilu Amaral da Orquestra Contemporânea de Olinda, Adelson Silva, baterista da Spok Frevo Orquestra do Grupo Bongar, Sergio Campelo do SaGrama, dentre outros, com produção de Carlinhos Borges e Albérico Júnior.


Quem não Tem Canoa Cai N’Água – Zé Manoel

Este disco também foi lançado no Japão pela editora Dessinne. A partir desse lançamento, várias portas se abriram para a carreira do pianista fora do estado e do Brasil.

Passou a integrar o casting da produtora francesa V.O. Music junto a artistas como Esperanza Spalding, Spok Frevo Orquestra, Milton Nascimento, Angelique Kdjo.

Participou como intérprete do álbum Beauty of The Night, do produtor alemão Meeco, junto a artistas como Eloisia (Nouvelle Vague), Joe Bataan, Jaques Morelenbaum, Freddy Cole, entre outros.

Teve duas músicas suas como parte da trilha sonora da série televisiva “Louco por Elas”, do diretor pernambucano João Falcão e lançou o Livro – CD infantil O Inventor do Sorriso, com o escritor Pernambucano Walther Moreira Santos, pela editora Melhoramentos.

Foi selecionado pelo edital Natura Musical 2013. Seu novo CD intitulado Canção e Silêncio (2015), quando contou com a presença do lendário Tutty Moreno.

O disco conta com arranjos do maestro baiano Letieres Leite, do pernambucano Mateus Alves e do carioca Fabio Negroni e tem as participações especiais de Juliano Holanda (Guitarra), Pupillo (Bateria), do percussionista Johann Brehmer e da cantora pernambucana Isadora Melo.

sábado, 8 de setembro de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

OS CLÁSSICOS E ERUDITOS DE NOSSA REGIÃO – FERNANDO MULLER

Por Joaquim Macedo Junior


Fernando Muller, o pianista paranaense, radicado em Pernambuco


Nascido no Paraná, Fernando Müller é professor de piano no Conservatório de Música de Pernambuco.

Ele também lecionou como professor adjunto na Universidade Federal de Pernambuco, onde atualmente trabalha como pianista de seu corpo.

De 2003 a 2013, foi pianista da Orquestra Sinfônica do Recife.

Como solista e músico de câmara, Fernando Müller atuou em várias cidades do Brasil, Alemanha e Canadá, compartilhando com o público a música do Brasil.



Preludio – de Fernando Muller, com o mesmo

Participou de muitos festivais e máster-classes, com pianistas renomados.

Em 2005, Müller gravou o “Concerto para piano”, de José Alberto Kaplan com a Orquestra da Paraíba.


Deneil Laranjeira e Fernando Muller – Miudinho II


Gravou composições de Inaldo Moreira em três CDs, entre 2009 e 2015.

O CD “Arruar” foi lançado em 2012 com peças para piano de compositores de Pernambuco.

Em 2014, lançou o CD “Território XXI” com o Grupo de Percussão do Nordeste.


“Sarau Roliudiano – Choro para Clarinete e Piano”, de Inaldo Moreira, com Fernando Muller ao Piano e Jaílson Raulino, no Clarinete

Fernando Müller concluiu seus estudos de graduação na Universidade Federal da Paraíba (UFPA) e obteve seu mestrado pela Universidade de Montreal (Canadá).

sábado, 1 de setembro de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior




OS CLÁSSICOS E ERUDITOS DE NOSSA REGIÃO – VITOR ARAÚJO

Vitor Araujo: prodígio e virtuose – erudito e popular, além de extravagante; alvirrubro militante!



Soube da existência de Vítor Araújo de forma prosaica. Não sabia que havia surgido um novo virtuose no Recife.

Não foi coisa de indicação ou chamamento para conhecer uma grande e alvissareira novidade musical.

O que me chamou a atenção foi que um garoto de 17 anos, este virtuoso, torcia por meu velho e conhecido Náutico, de esquadrões históricos no anos 1960, embora mais recentemente não conquistasse nada de grande relevância, a não ser alguns dos sempre honrosos títulos estaduais (aliás, domingo, na Arena, o time deixou de conquistar o acesso à série B – com público de 27 mil fanáuticos!).

Vitor me abriu os olhos para romper um pouco essa coisa de que jovem só se associa aos vencedores de momento. Com tradição, clube de 1901, paixão e uma pitada de imponderável, é possível angariar torcedores onde existe hegemonia financeira e política em prol de uma só agremiação.

Nosso grande pianista era mais que um expoente torcedor, era um militante, como vemos nessas imagens, em que doa a camisa timbu para seu ídolo, Chico Buarque:



Vitor chegava mesmo a incluir em seus concertos a execução do frevo “Como Dorme”, do magistral Nelson Ferreira, o hino informal do Clube Náutico Capibaribe.


Canto n.3 – primeiro single do disco “Levaguiã Terê”



O pianista e compositor Vitor Araújo surgiu como o menino-prodígio que tocava Radiohead pisando no piano.

Começou a tocar aos 9 anos de idade e lançou seu primeiro álbum aos 18, resultado de um gosto musical eclético, que transita entre a música contemporânea, o popular e o erudito.

Já gravou ou dividiu o palco com diversos nomes – Otto, Junio Barreto, Mombojó, Seu Chico e Rivotrill – fazendo apresentações em várias cidades do Brasil.

Em 2008, recebeu o Prêmio de Revelação, da Associação Paulista de Críticos de Arte.


Samba e Amor, de Chico Buarque


Uma nota – nas redes sociais – do músico Felipe Ventura (Baleia, Xóõ) convocando o público carioca para o show de lançamento de “Levaguiã Terê”, terceiro disco de Vitor Araújo, no Solar de Botafogo, chamava atenção pela maneira como o amigo categorizava o pianista e compositor pernambucano: “ex-menino prodígio, atual jovem adulto prodígio”.

Como foi dito aqui, Vitor despontou muito cedo como músico virtuoso. Aos 17 anos, ele já lançava seu primeiro disco, o DVD “Toc – Ao vivo no Teatro de Santa Isabel” (2005, Deck).

Ali aparecia basicamente como intérprete de releituras de Luiz Gonzaga (“Asa branca”), de Villa-Lobos (“Dança do índio branco”) e até de Radiohead (“Paranoid android”).

O reconhecimento de seu talento fez o músico rodar o Brasil, seja com apresentações solo ou com a banda “Seu Chico”, que fazia versões de Chico Buarque. Apesar do retorno – financeiro, inclusive – o sucesso instantâneo cobrou seu preço.


Miudinho – Bachianas nº4 / Trenzinho Caipira (Villa-Lobos) | Instrumental SESC Brasil



Passaram quatro anos entre o seu primeiro disco e o “A/B” (2012, independente), quando viveu momento de muita agonia: tinha estagnado em seus estudos e não desenvolvera ainda uma linguagem própria, como reafirmou o músico. Era o reconhecido por algo com o qual não se identificava mais.

Só depois de lançar o “A/B” e participar de trabalhos de outros amigos, peças, filme é que se acalmou.

Capas dos dois primeiros discos:

Quatro anos depois, Vitor, agora com 28 anos, reapareceu com “Levaguiã Terê” (Natura Musical), disco que o consolida como o compositor que todos esperavam – é o primeiro trabalho em que ele escreveu para orquestra.

Inicialmente idealizado como um estudo do candomblé, o álbum foi se moldando durante seu longo e trabalhoso processo de composição e orquestração até se tornar o que o próprio músico define como uma ideia de sincretismo entre o indígena, o africano e o europeu.

Produzido pelo carioca Bruno Giorgi (“esse, sim, um prodígio”, define Vitor), o disco surge como um dos grandes destaques dos lançamentos do ano na nova música brasileira.

Para o concerto no Rio, Vitor revezou entre piano, synths e as vozes que ecoam por algumas faixas do trabalho.



Na complexa missão de adaptar o disco para apresentações ao vivo, o acompanharam Felipe S, vocalista e compositor da banda Mombojó (guitarra, baixo e MPC), o supracitado Felipe Ventura (guitarra), Hugo Medeiros (bateria), Rafa Almeida e Amendoim, ambos na percussão.

sábado, 25 de agosto de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA



Por Joaquim Macedo Junior


OS CLÁSSICOS E ERUDITOS DE NOSSA REGIÃO – ANTÔNIO MENESES
Antonio Meneses: o virtuoso que Pernambuco deu ao mundo!


Uma coisa puxa a outra. Encerrado o concerto da OSESP sábado retrasado, era inevitável visitar a loja de discos, cds, dvds e outras mídias da Sala São Paulo.

O problema dessa loja é que a visita despretensiosa se torne sedução irresistível e você decida comprar algum produto. Como são quase 100% importados, os preços ficam muito altos, inacessíveis mesmo.

Acabara de ouvir peças de Richard Wagner e Béla Bartok, com a Sinfônica de São Paulo e estava ainda com a audição aberta em plenitude.

No caixa, para não sair de mãos abanando, encontrei um cd de Antonio Meneses, com o pianista André Mehmari, por R$ 20,00.

Antonio Meneses e André Mehmari executam “Baião de Dois”, de Mehmari
Na apresentação do cd, Danilo Santos de Miranda, diretor geral do SESC de São Paulo, que produziu o disco, afirmou que era o primeiro trabalho de Meneses com repertório de música popular, gravado no Brasil.

De imediato, coloquei no som do carro e continuei ouvindo música de altíssima qualidade, agora em trânsito para casa.

Meneses e Mehmari


O disco traz Bach, Astor Piazzolla, Tom Jobim, André Vitor Correa. Entre estas, um frevo, uma valsa, um choro e um baião, de autoria de Mehmari, dando o tom da busca de Antonio Meneses por uma música mais próxima de sua juventude.

Antonio Meneses – Bach – Sarabande

Antonio Meneses nasceu no Recife, em 23 agosto de 1957 (aniversaria, portanto, esta semana) e é radicado na Suíça.

Filho do trompista João Jerônimo Meneses, foi morar no Rio de Janeiro no primeiro ano de vida. O pai foi convidado para integrar o elenco do Theatro Municipal do Rio.

Começou a aprender violoncelo, participando de vários concursos. Aos 17 anos, foi estudar na Europa. Torna-se aluno da Escola Superior de Música de Düsseldorf, depois de Stuttgart, ambas na Alemanha.

Em 1977, venceu o Concurso Internacional de Munique, derrotando, por unanimidade, 40 candidatos. Apresentou-se com as Orquestras Filarmônicas de Moscou, São Petersburgo, Nova York e Israel, além das Sinfônicas de Londres, da BBC e Viena, bem como da Concertgebopuw, de Amsterdã e da Suisse Romande. Participou de gravações com a Filarmônica de Berlin e Herbert Von Karajan.


Antonio Meneses em Maringá (PR) – Villa-Lobos: Bachianas Brasileiras No. 5 Aria (Cantilena)
Seu instrumento é um Matteo Goffriler, do século 18 (equivalente, entre os violoncelos, ao violino Stradivarius).

Em 2011, os jornalistas João Luiz Sampaio e Luciana Medeiros entrevistaram Antonio Meneses, em decorrência de uma pausa forçada causada por um tumor benigno no pulso direito. A entrevista resultou no livro “Antonio Meneses – Arquitetura da Emoção”, acompanhado de um CD com obras solo e com participação do pianista Luiz Fernando Benedin.

André Mehmari

Pianista, arranjador, compositor e multi-instrumentista, músico de destaque no cenário nacional, é autor de composições e arranjos para algumas das formações orquestrais e câmera mais expressivas do país, como OSESP, Quinteto VIlla-Lobos, OSB, Quarteto de Cordas da Cidade de S.P, entre outros.

Como instrumentista, já atuou em importantes festivais brasileiros como Chivas, Heineken, Tim Festival e no exterior, como Spoleto USA e Blue Note Tokyo. A discografia já reúne oito cds solo, além de participações em numerosos projetos.

André Mehmari nasceu em Niterói em 22 de abril de 1977 e encontra a música ainda na primeira infância, influenciado pela mãe, a quem assistia tocar piano na sala de casa. O interesse pela música persiste e aos oito anos, ingressa numa escola de música em Ribeirão Preto, para onde a família havia se mudado.
Nessa época, descobre o jazz e a improvisação. Aos 11 anos, inicia carreira profissional e aos 13, integra trios, quartetos e faz apresentações solo em casas especializadas em jazz.

Desta época, datam as primeiras composições e arranjos para grupos musicais da cidade.

A precocidade do jovem músico vira notícia na TV, jornais e revistas. Ainda adolescente, começa a ensinar música e compõe pequenas peças de caráter didático, a convite de uma escola de música local. O resultado, 21 Peças Líricas um moderno complemento para musicalização infantil, aplicado com grande sucesso.

Por duas vezes, é selecionado para participar como bolsista do Festival de Inverno de Campos do Jordão (1993 e 1994).

Em 93, é orientado por Roberto Sion e Gil Jardim, integrando a big band do festival, com a qual atuou até 96.

Em 94, tem a oportunidade única de conhecer o lendário maestro Moacir Santos, participando de sua classe de arranjo.

Depois, realiza seu primeiro concerto com composições próprias no Festival Internacional Música Nova, em Ribeirão Preto (1995).



Pouco depois, retornaria para o Festival de Inverno de Campos do Jordão como solista, acompanhado pela Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo (1999).

sábado, 18 de agosto de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


OS CLÁSSICOS E ERUDITOS DE NOSSA REGIÃO
Cussy de Almeida


Cussy de Almeida era conterrâneo e contemporâneo de minha mãe, igualmente papa-jerimum, dona Dagô.

Como minha primeira professora de história da música, mamãe me apresentou a todos os grandes músicos regionais e nacionais – de Cussy de Almeida a Anastácia; de Marlos Nobre a Jackson do Pandeiro; de Antonio Meneses a Gilberto Gil.

Sempre estive na audição de Cussy. Hoje – pelo assunto que estou visitando – fui buscar mais dados sobre o grande maestro.

Natural de Natal-RN foi um recifense, de coração. Aos seis anos, revelou-se um menino prodígio ao iniciar-se na arte musical, conforme testemunho dos seus professores de violino, Carlos Tavares e José Monteiro, ao apresentar-se no primeiro recital público, acompanhado ao piano por sua irmã Hilza de Almeida, no Teatro Carlos Gomes, hoje Alberto Maranhão.

Aboio – Camerata Candela – Trecho do concerto de estreia – 01/2010 na Haute École de Musique de Genebra, Suíça.

Em 1947, com 11 anos, fez a primeira tournée de concertos nas cidades de Mossoró-RN, Natal, João Pessoa, Recife e Salvador, obtendo grande êxito.

Aos 14 anos, foi residir no Recife, matriculando-se no Colégio Oswaldo Cruz. Passou a estudar violino com o maestro Vicente Fitipaldi e ingressou na Orquestra Sinfônica do Recife.

Em 1958, por recomendação de Villa-Lobos, foi cursar em Paris, o “Conservatoire Superieur de Musique”, com o mestre René Benedetti. Lá, recebeu o prêmio “Albert Lulin”, destinado ao aluno de maior talento.

Dois anos depois, ganhou o cobiçado “Premio de Virtuosidade do Consertório de Genebra” (Suíça).

Arrial do Cabo, com o mesmo ao violino. Disco “Mergulhador”.

Ingressou, por concurso, na “Orchestre de la Suisse Romande”, sob a regência de Ernest Anserment, com a qual participou dos festivais de Montreux, Lausanne, Viena e Atenas. Integrou a gravação da obra orquestral de Claude Debussy (me iniciado também por Dagô).

De volta ao Brasil, dedicou-se ao magistério, lecionando nas universidades do Rio Grande do Norte e da Paraíba.

Cussy de Almeida


Pesquisou e estudou a música Nordestina em suas raízes e manifestações populares, associando-a ao barroco religioso e à temática folclorica urbana do país, quando criou a Orquestra Armorial de Câmera.

Realizou trabalhos em parceria com os compositores Guerra Peixe, Capiba, Clovis Pereira e Jarbas Maciel.

Nascido em Natal-RN em março de 1936, morreu no Recife, em julho de 2010, aos 74 anos.

Um dos maiores legados de Cussy foi o incentivo à formação e o trabalho à frente da Orquestra Cirança Cidadã, projeto de inclusão social idealizado pelo juiz de direito João José Rocha Tarquino.

Música de Cussy de Almeida, álbum “Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco” (1984); do Projeto Nelson Ferreira – FUNARTE
Cussy foi o primeiro diretor artístico da orquestra e seu principal mentor. A iniciativa é a profissionalizaçao musical de crianças e jovens que vivem no bairro do Coque, no Recife.

PS – Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco: Adelmo de Oliveira Arcoverde viola 10 cordas; Geraldo Fernandes Leite percussão; Henrique Annes violão; Inaldo Gomes da Silva percussão; Ivanildo Maciel da Silveira bandolim; João Lyra viola Marco Cesar de Oliveira Brito bandolim; Marcos Silva Araújo contrabaixo; Mário Moraes Rêgo cavaquinho; Nilton Machado Rangel viola 10 cordas; e bandolim Rossini Ferreira.

sábado, 11 de agosto de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


OS CLÁSSICOS E ERUDITOS DE NOSSA REGIÃO

Josefina Aguiar: pianista pernambucana, amante de Grieg, executava Capiba e Nelson Ferreira


Pesquisava compositores e instrumentistas eruditos e classicos regionais, como o potiguar Cussy de Almeida, os pernambucanos Marlos Nobre, Antonio Meneses, Inaldo Moreira, entre outros.

Quase envergonhado pela desinformação, encontrei Josefina Aguiar, que, segundo os dicionários Ricardo Cravo Albin e Renato Phaelante e textos da Fundação Joaquim Nabuco, foi uma das mais completas pianistas brasileiras.

Josefina iniciou cedo sua carreira artística, conseguindo logo uma notória consagração pública.

Sua primeira audição foi aos 8 anos, na presença de amiguinhos, como o futuro político Marcos Freire.

O Recife, porém, só a ouviu tocar, pela primeira vez, no rádio. O pai a levara ao programa de Nelson Ferreira, na Rádio Clube de Pernambuco. Sem saber que estava no ar, tocou o adágio da Sonata ao Luar, de Beethoven.

O episódio rendeu-lhe fama imediata e um ilustre fã, o multiacadêmico, dramaturgo e escritor Valdemar de Oliveira, que viria a ser seu mentor.

A dificuldade em encontrar vídeos ou registros sonoros com Josefina Aguiar, levou-me a dispor de notícia do NETV de 2013 para apresentar um pouco de sua história e talento.


Com sólida formação musical recebida no Recife, Salvador, Rio de Janeiro, na Suiça e na Austria, foi a primeira menina solista a tocar na Orquestra Sinfonica do Recife (OSR), aos 11 anos.

É considerada um dos raros talentos que despontaram na década de 1940, em Pernambuco.

Sua garra em preservar a música classica tornou-a conhecida como “a dama da resistência” e de “leoa do Norte”.

Josefina Aguiar fundou o curso de música da Universidade Federal de Pernambuco, atuando nas áreas de piano, transposição e acompanhamento, solfejo, prática de conjunto, música de câmara e nas salas de canto e instrumentos melódicos.

Foi finalista do 12º Concurso Internacional de Munique, Alemanha, recebeu a medalha do mérito Joaquim Nabuco e o troféu cultural do Conselho de Cultura da Cidade do Recife.

Fez parte do TAP (Teatro de Amadores de Pernambuco) e atuou ao lado de grandes nomes internacionais, como Marion Mathaus, Claudio Santoro, Michael Haran e Corine Sertilange, entre outros.

Constam de seu repertório obras importantes, como a de Edward Grieg (Concerto em Lá Menor para Piano e Orquestra) – sua interpretação é conhecida como uma das mais famosas do Brasil.

Em dupla ou individualmente, Josefina era uma artista especial. As apresentações no Brasil foram inúmeras, incluindo a Escola Nacional de Música, no Rio de Janeiro.

Valorizava os compositores pernambucanos como Capiba, Nelson Ferreira, Alfredo Gama, Zuzinha, Misael Domingues e um desconhecido chamado José Capibaribe, que na verdade era um pseudônimo de Valdemar de Oliveira, aquele que se tornara seu fã desde a primeira apresentação na Rádio Clube de Pernambuco.

sábado, 4 de agosto de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


POR ONDE ANDAM?

Por onde anda Flora Purim?

Para nós, que acompanhamos Flora Purim desde os anos 1970, ela é musa, música e beleza.

Flora nasceu no Rio, em 06 de março de 1942. Desde miúda, convivia com a música, já que seu pai tocava violino e sua mãe era uma pianista amadora.

Ainda jovem, gostava de cantar, tocar piano e violão. Suas influências foram Billie Holiday, Dinah Washington, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan.

Open your eyes you can flay (Neville Porter/ Chick Corea) – 1976
Em 1967, Flora Purim mudou-se para os Estados Unidos, para estudar música na Califórnia. Cinco anos mais tarde, casou-se com o percussionista Aírto Moreira.
Trabalhou ao lado de artistas como Stan Getz e Gil Evans e integrou o conjunto “Return to Forever”, que excursionou com êxito pelos Estados Unidos, no início dos anos 70.

Em 1973, partiu para carreira-solo com o disco “Butterfly Dreams”, seguido por outros pela gravadora Milestone. Entre seus discos, destacam-se “Light a Feather” e “Return do Forever”.

Em 1973, foi presa nos Estados Unidos sob a acusação de posse de drogas e, depois de recorrer da sentença, acabou detida em 1974, passando 18 meses na prisão e 12 anos em liberdade condicional, sem poder deixar o país.

Esquinas, de Djavan – 1986


O caso de Flora Purim suscitou protestos na classe artística, que a elegeu, por meio de um grupo de críticos, a melhor cantora de jazz dos EUA – de 1974 a 1977, em parte como instrumento de pressão para sua libertação, mas principalmente por seu talento.

Nos anos 70, Flora Purim gravou ainda com Carlos Santana, Hermeto Pachoal, Chick Corea e muitos outros, encantados com sua extensão vocal e capacidade de improvisação.


Nada será como antes 

Nos anos 1980, gravou poucos discos solo (a maioria com Aírto Moreira) e, em 1994, lançou “Speed of Light”.

Em 2002, Flora Purim recebeu, juntamente com Aírto, a “Ordem do Rio Branco”, das mãos de Fernando Henrique Cardoso.

Hoje, uma senhora de 76 anos, Flora divide seu tempo entre Curitiba-PR, onde mora, e apresentações pelo mundo.

sábado, 28 de julho de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


POLÊMICA MUSICAL – NOEL X WILSON BATISTA
Polêmica: Noel Rosa x Wilson Batista


Algumas polêmicas musicais tiveram importância artística e lúdica na trajetória do cancioneiro brasileiro. 

A que resultou da momentosa separação de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, contribuiu com sambas arrebatadores, trágicos e doridos…..” Errei sim, manchei o teu nome….” eram frases resgadas no peito, cantadas para emoldurar o fim de um amor eterno.

As letras do marido em dor eram todas do grande Herivelton Martins. As respostas e réplicas já criadas ou encomendadas para alimentar a polêmica, feitas por craques como Ataulfo Alves, Nelson Cavaquinho e Paulo Soledade.

Na edição de hoje, trago a fantástica polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista. Ao ouvir essa gravação, narrada por Henrique Cazes e interpretação deste e de Cristina Buarque, verão o quanto uma briga – polêmica – pode contribuir artisticamente para o infinito acervo da criativa musica brasileira…

Polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, com Henrique Cazes e Cristina Buarque
Lenço no pescoço-Rapaz Folgado-Mocinho da Vila/Feitico da Vila- Conversa Fiada -Palpite Infeliz/ Frankenstein da Vila – Terra de Cego/ Deixa de ser convencida (única parceria dos dois)

A polêmica Noel Rosa (1910-1937) x Wilson Batista (1913- 1968) durou menos de três anos, mas rendeu músicas interessantes e virou parte do folclore musical brasileiro.

Quando o entrevero começou, na década de 1930, o músico da Vila já era um respeitado compositor, frequentador da Lapa, amigo de famosos e com nome feito no meio radiofônico.

Já o garoto Wilson ainda era um aprendiz, candidato a malandro e disposto a qualquer coisa para se tornar conhecido. Justamente por isso, muitos até hoje não entendem por que Noel começou a briga.

Semana que vem, tem mais…

sábado, 21 de julho de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


MEUS MELHORES BREGAS – FOLHETIM
Folhetim: brega original de Chico Buarque


“Folhetim” focaliza a figura da prostituta que oferece seus encantos– “se acaso me quiseres/ sou dessas mulheres/ que só dizem sim” – tema idêntico ao da composição “Love for Sale”, de Cole Porter, proibida e depois liberada nos anos 1930.

Essa composição, de Chico Buarque, me encanta desde que foi lançada na “Ópera do Malandro”, baseada na “Ópera dos Três Vinténs”, de Kurt Weil e Bertold Brecht, e na “Ópera dos Mendigos”, de John Gay.

É o caso típico de uma música brega, acomodada passivamente numa obra linda de um compositor de griffe: Chico Buarque. Na versão-standard, participação de Wagner Tiso e arranjo de Perinho Albuquerque e Jorginho Ferreira da Silva, em intervenção ao sax-alto (show).

Folhetim, com Gal Costa, Acustico – MTV – 1992
é mais uma música sobre mulher, considerada uma das mais importantes correntes témáticas de Chico – músicas em alusão ao feminino, ou do feminino mesmo.


Não Mesmo antes de terminá-la para o personagem da Ópera do Malandro, CB já pensava em entregá-la a Gal Costa para gravar.

É música trabalhada por encomenda, gente, para compor essa versao maravilhosa da opera original.

Pode ou não fazer parte daquela lista interminável das músicas femininas de Chico, como “Geni e o Zeppelin’ e “O Meu Amor”, que também compõem a Ópera.


Folhetim, com Tania Alves, Lucinha Lins e Virginia Rosa
“Folhetim” é pura metalinguagem. O brega e mais popular possível nas palavras de um mestre das letras.

“Folhetim” não é uma mera avaliação semiótica de como se faz uma canção com esse tema, nesse gênero.

Ela pode e deve ser cantada a plenos pulmões, de forma desabrida e despudorada, como a personagem que se dispõe em corpo e alma para sempre dizer sim.

Ah, importante notar: a “Ópera dos Mendigos”, uma sátira à sociedade inglesa do século XVIII, é considerada uma obra revolucionária por ter levado canções populares ao teatro operístico.


Agora, com Vanusa:




Semana que vem tem mais..

sábado, 14 de julho de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


MEUS MELHORES BREGAS – NEGUE
Brega é estado de espírito


Ouço “Negue”, do português Adelino Moreira e do paulista Enzo de Almeida Passos, desde a gravação de Nelson Gonçalves.

Aliás, na casa de vovô, no Recife, só tinha uma vitrola para vários moradores e seus gostos musicais. Um chegava com Orlando Dias, outro com Genival Lacerda, outros com Lana Bittencourt.

Os integrantes do fã-clube de Nelson Gonçalves, o maior cantor do Brasil abasteciam nosso acervo. Eram “Flor Do Meu Bairro”, “Deusa do Asfalto”, “A Volta do Boêmio”, e a insuperável “Negue”, na época, digamos, ainda num limbo entre um grande bolero, samba-canção e um brega envergonhado. A confusão fazia parte do enquadramento careta dos ‘experts’ da música, então. Ou é bom e MPB. Ou é brega, de qualidade duvidosa.

Na verdade, era tudo questão de estado de espírito: quando cheguei um dia com “Pedro Pedreiro”, de Chico, perguntaram: quem fez essa coisa sem graça. Isso vinha acompanhando de um “então, não ouça mais nossos bregas, tá!”.

Meu problema era Nelson. Tive que voltar aos bregas tradicionais para restabelecer minha relação com Nelson:




O inverso também me aborrece muito! É quando um sujeito como Peninha, que não busca títulos, nem paetês – somente o reconhecimento de seu trabalho – só passam a ter músicas como ‘Sonhos’ e ‘Sozinho’ reconhecidas, depois que Caetano as grava. É muita hipocrisia..


Numa terceira via, cantores extraordinários, como Cauby Peixoto, são forçados a sair de seu repertório comum para gravar, por imposição de produtores e gravadoras, músicas como “Bastidores”, que seria linda na voz de qualquer um, numa tentativa de elevar o music-status do grande intérprete. Imaginem com Cauby. Tentaram a fraude com Nelson e Ângela Maria também. Não deu certo!

A gravação que elevou “Negue” ao patamar de clássico da MPB foi a de Maria Betânia, que, de resto, sempre cantou tudo o que quis e como quis.

Agora, para finalizar, gostaria que observassem como se destrói uma música, seja ela de que gênero for e com qual estado de espírito seja ouvida. Vejam que porcaria:

Sem mais, semana que vem tem mais…

sábado, 7 de julho de 2018

PETISCOS DA MUSICARIA


Por
Joaquim Macedo Junior







GEOGRAFIA MUSICAL, O SENTIMENTO – LAMENTO SERTANEJO

Lamento Sertanejo: a lembrança marcante da terra original



Quando estou de calundu, me apego a “Lamento Sertanejo”, essa obra-prima de Dominguinhos e Gilberto Gil, que é um tratado musical de alta sensibilidade, amor, dor, saudade dos que sua terra natal deixaram, mas não a afastaram do coração.

Mais ainda, o “viver contrariado” nem depende tanto hoje da pureza e da singela beleza sertaneja, mas muito mais o que criamos em nossas mentes globalizadas, cibernéticas e apressadas, poluídas.

Aliás, nem preciso estar de calundu para evocar “Lamento Sertanejo”. É tão grandiosa sua melodia e dizem tanto seus versos que eu me alimento mesmo quando só estou contemplando o céu.


Lamento Sertanejo – Gilberto Gil (1975)


Sou frequentador o quanto posso das terras de meu pai, meus avós, primos e primas, ali na querida São Bento do Una, com emanações de Capoeiras, Garanhuns e Pesqueira.

Ali me acostumei com a natureza, nas férias de menino. Agora adulto, vou sempre pedir a benção aos que representam a minha terra, muitos já passados dos 60, como eu.


Lamento Sertanejo, com Hamilton de Holanda, Mayra Andrade e Yamandu Costa
 



São Bento do Una

Zeca, Bianca e Dayne (toadas)

O nosso sertão semi-árido e verde

Pós-café da manhã na casa de Totonho

Agora uma versão que eu não conhecia:

Lamento Sertanejo , com Marinês e Ney Matogrosso

Semana que vem tem mais…

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