PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

MÚSICO CÉSAR LACERDA FAZ CLIPE COLABORATIVO COM FÃS DE 21 PAÍSES

Duzentas pessoas enviaram para o cantor e compositor mineiro cenas de seu dia a dia durante a quarentena. Elas farão parte do vídeo da canção 'Isso também vai passar'

Por Frederico Gandra

(foto: Thiago Britto/divulgação)


Durante a quarentena, o músico mineiro César Lacerda, de 32 anos, propõe-se a produzir “conteúdo de pensamento” com o objetivo de aprimorar a condição humana no mundo pós-pandemia. “Tenho buscado alternativas criativas para melhorar o meu dia a dia, mas também uso meus canais de divulgação para que as pessoas sejam afetadas positivamente neste momento conturbado”, diz.

César produziu o clipe colaborativo de sua canção Isso também vai passar e gravou uma série de entrevistas sobre esse tema. Lançada há três anos, a música, que abre o quarto disco dele, Tudo, tudo, tudo, tudo, faz todo sentido neste 2020.

A ideia do projeto surgiu de comentários dos fãs sobre a semelhança da canção com o atual momento. “Recebi vídeos de mais de 200 pessoas de 21 países. Elas filmaram a sua quarentena, a vida em casa e dublaram a canção”, explica. O lançamento está marcado para quinta-feira (23), no YouTube.

Esta semana, César exibiu o primeiro episódio da série de entrevistas Isso também vai passar – Algumas ideias para o futuro. “Entrevistei a Neide Rigo, nutricionista slow food, a Cláudia Lisboa, que é astróloga, e a Tatyana Ribeiro de Souza, professora da pós-graduação em direito da Universidade Federal de Ouro Preto. E ainda vou fazer mais”, promete. Gravados em home office, os vídeos, com cerca de 30 minutos, são disponibilizados na página do artista no YouTube, onde conta com 2 mil inscritos, e no Instagram (@ocesarlacerda), onde ele é seguido por 4 mil pessoas.

Devido a esses projetos, César Lacerda tem evitado as lives.“Esta semana, fui convidado para quatro festivais diferentes, com programações lindíssimas e artistas que admiro. Mas acabei não aceitando para concentrar o público das minhas redes sociais nos vídeos que pretendo lançar”, afirma.

Ele fez parte do evento on-line europeu #AtYourHome, que destinou 60% dos recursos arrecadados a uma empresa que produz respiradores de baixo custo para o tratamento da COVID-19 e 40% para os músicos.


ESPELHO 

Ao analisar o fenômeno das lives, Lacerda considera positivo o feedback do público. “Num show convencional, você recebe algum grito ou o público canta junto. On-line, há a possibilidade de a pessoa dizer que gosta de uma música ou daquela letra.” Porém, observa: “É um pouco distópico você ficar ali, cantando pro espelho. Não é uma dificuldade, apenas uma observação sociológica e psicológica sobre o formato. No fim das contas, quando nos filmamos, você fica ali se olhando. Acho um pouco curioso”.

Na opinião de César, a live tende a se desgastar e não sobreviverá à quarentena. “Tem muita gente fazendo. Vai chegar o momento em que o próprio público perderá o interesse”, prevê.

Nascido em Diamantina e morador de BH até os 20 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro, o músico vive atualmente em São Paulo. A quarentena longe da família não é um trauma. “Já me acostumei a essas fases longas de distanciamento”, comenta.

Se alguns projetos foram adiados, dá para tocar outros. César assina a direção artística do disco da cantora Ana Rafaela, que participou do The Voice Brasil e deve ser lançado neste semestre. Porém, está preocupado com o futuro dos artistas. “O cenário cultural do país, que já vinha num processo de desconfiguração, entrou em completa hibernação”, lamenta, comentando que alguns colegas já não têm dinheiro para viver na semana que vem.

“Artistas grandes têm anunciado a retomada das turnês para setembro ou outubro. Acho isso perigoso. Tenho a sensação de que, possivelmente, o mercado não volte a existir este ano”, pondera. Entretanto, diz que a proximidade com o público durante a quarentena deve ser estrategicamente aproveitada.

“Num momento em que o artista é visto como problema da sociedade, precisamos recuperar a ideia de que o inimigo não é ele. É óbvio que a gente precisa de grana pra comer amanhã, mas é só isso?”, questiona. “Devemos recuperar o sentido político do artista para o mundo. Assim como precisamos brigar pela grana da comida de amanhã, precisamos brigar pelo sustento ideológico da sociedade”, conclui.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: É o fim

Composição: Marino Pinto - Aloísio Barros

Intérprete - Geny Martins

Ano - Maio de 1960

Disco - 
Sinter 650-B 


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

A HISTÓRIA MUSICAL DO RÁDIO NO BRASIL

Completando as 50 músicas mais tocadas nos rádios do Brasil no ano de 1950, há exatos 70 anos, destacamos as últimas 25:

26 - Cadeira Vazia - Francisco Alves
27 - Adeus Pilar - Augusto Calheiros
28 - Tudo Acabado - Dalva de Oliveira
29 - Sertão de Jequié - Dalva de Oliveira
30 - Lírios do Campo - Jorge Goulart
31 - Mentira de Amor - Dalva de Oliveira
32 - Meu Bairro Canta - 4 Ases e um Coringa
33 - Caminho Certo - Trio de Ouro
34 - No Fim da Estrada - Jorge Goulart
35 - Pisa no Chão Devagar - Augusto Calheiros
36 - Segundo Andar - Dalva de Oliveira
37 - Baião de Dois - Emilinha Borba
38 - Chofer de Praça - Luiz Gonzaga
39 - Tá Fartando Coisa em Mim - Ivon Curi
40 - Teu Exemplo - Trio de Ouro
41 - Chama-se João - Dircinha Batista
42 - Tico-Tico no Fubá - Mário Gennari Filho
43 - Vinte e Cinco de Abril - Jorge Goulart
44 - Anjo da Noite - Francisco Carlos
45 - Me Deixa em Paz - Francisco Carlos
46 - Gavião Calçudo - Mário Gennari Filho
47 - Daqui Não Saio - Vocalistas Tropicais
48 - Eu e Meu Coração - Francisco Carlos
49 - Transmissão Maluca - Zé Fidelis
50 - Canção de Amor - Elizeth Cardoso

quarta-feira, 8 de julho de 2020

BONFIGLIO DE OLIVEIRA, 80 ANOS DE SAUDADES

Resultado de imagem para Bonfiglio de OliveiraBonfiglio de Oliveira (Guaratinguetá, São Paulo, 1891 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1940). Trompetista, contrabaixista, compositor, regente. Seu primeiro instrumento é o bumbo, que aprende a tocar ainda criança. Tem aulas de trompete com o maestro local e, por volta de 1906, começa a tocar na banda da qual seu pai é contrabaixista. Também integra a banda do colégio em que estuda. Recebe as primeiras lições de composição e regência e logo assume a direção do conjunto colegial. Em homenagem ao diretor da escola, escreve sua primeira composição, o dobrado Padre Frederico Gióia.


Conclui os estudos na cidade de Piquete, São Paulo, onde monta uma banda com a qual excursiona por cidades vizinhas. Por volta de 1912, convidado pelo maestro Lafaiete Silva (c. 1878-c.1940) para integrar a orquestra do Cinema Ouvidor, muda-se para o Rio de Janeiro. Frequenta as rodas de choro da cidade e passa a morar na Pensão Viana, o conhecido casarão do pai de Pixinguinha, com quem Bonfiglio estabelece profunda amizade.

Em 1913, integra o conjunto Choro Carioca, do qual também fazem parte Pixinguinha (1897-1973) e Candinho do Trombone (1879-1960). Com o grupo, grava a valsa “Rosecler” e a polca “Guará”, ambas de sua autoria. Toca contrabaixo e trompete em orquestras de cinema e teatro, e integra a Orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos. Frequenta o Conservatório Musical do Rio de Janeiro, do qual se torna professor de trompete. Também atua em diversos grupos e ranchos carnavalescos, como Grupo do Caxangá, União da Aliança, Ameno Resedá e Recreio das Flores.

Em 1922, integra com Pixinguinha a jazz-band Oito Batutas, com a qual excursiona pela Argentina. Toma parte da Companhia Negra de Revistas e da Ba-Ta-Clan Preta, trupes formadas por artistas negros. Em 1933, viaja para Portugal com a jazz-band da Companhia Tro-Lo-Ló. No ano seguinte, sua marchinha “Carolina”, parceria com Hervé Cordovil (1914-1979), é sucesso no carnaval. Igualmente exitosos são o samba “Mariana”, com letra de Lamartine Babo (1904-1963), e a marcha “Onde Você Mora”, composta com Valfrido Silva (1904-1972). Compõe canções baseadas em motivos populares para a trilha do filme O Jovem Tataravô (1936), de Luís de Barros (1893-1981).

Apresenta-se na Itália, França e Espanha com a orquestra do Cassino Atlântico e é apontado por críticos europeus como um dos maiores trompetistas do mundo. Ainda nos anos 1930, atua como instrumentista e diretor de orquestra nas emissoras Educadora, Mayrink Veiga e Phillips, além de tomar parte no Grupo da Guarda Velha e na Orquestra Diabos do Céu, regidos por Pixinguinha.

Deixa mais de 50 composições, algumas gravadas por conhecidos cantores e instrumentistas. Em 1972, sua marcha “Mais uma Estrela”, composta com Herivelto Martins (1912-1992), é regravada por Nara Leão (1942-1989) para o filme Quando o Carnaval Chegar (1972), de Cacá Diegues (1940). Em 1979, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro lança o disco Bonfiglio de Oliveira Interpretado por Copinha e Seu Conjunto. Em 2002, o selo Revivendo reúne as gravações de seus principais sucessos, alguns interpretados pelo próprio compositor, no disco Bonfiglio de Oliveira – Compositor e Trompetista de Ouro.
Análise

Ao lado do flautista Pixinguinha e do saxofonista Luís Americano (1900-1960), com quem forma o “trio mágico” da música brasileira, Bonfiglio de Oliveira é considerado um dos maiores instrumentistas de sopro do Brasil das primeiras décadas do século XX. Tamanho reconhecimento rende-lhe, em 1930, uma homenagem do presidente Washington Luís (1896-1957), que lhe oferece um trompete de prata contendo a seguinte inscrição na chapa de ouro: “Ao maior pistonista do Brasil”.

Como compositor, tem importante participação no processo de desenvolvimento idiomático do choro, ajudando a fixar certas inflexões melódicas, rítmicas e harmônicas características do gênero. Sua evolução nesse campo pode ser notada por meio da comparação entre duas composições de épocas distintas: a polca “Guará”, gravada pelo Choro Carioca, em 1913, e o choro “Saudades de Guará”, gravado pela Orquestra Victor Brasileira em 1937. Ambas aludem, em seus títulos, ao carinhoso apelido pelo qual é conhecida a cidade Guaratinguetá. A primeira assemelha-se às antigas polcas europeias, com uma melodia de motivos simples, curtos e repetidos, escritos sobre uma base harmônica elementar. Já a segunda apresenta um desenho melódico sinuoso, floreado com escalas e arpejos, e uma harmonia mais complexa, que passeia por diferentes graus da tonalidade e sofre modulações, revelando as transformações do gênero. O ponto alto de sua produção de choros dá-se com Flamengo, composto em 1931, em homenagem ao bairro carioca em que mora. Trata-se da composição mais conhecida nesse gênero, sendo gravada por importantes chorões, como Jacob do Bandolim (1918-1969) – cuja gravação de 1948 venda atinge 100 mil cópias, fato raro na época –, Altamiro Carrilho (1924-2012), Copinha (1910-1984), Sivuca (1930-2006) e Yamandú Costa (1980).

Embora entre para a posteridade como compositor de choro, Bonfiglio de Oliveira é mais conhecido pelas marchinhas carnavalescas. Antes da popularização das baterias de escolas de samba, surgidas no final dos anos 1920, o carnaval carioca de rua é dominado por blocos e ranchos que desfilam ao som de bandas e pequenos conjuntos musicais compostos por instrumentos de sopro e percussão. Tendo iniciado sua trajetória artística como músico de banda, Bonfiglio de Oliveira encontra nas sociedades carnavalescas um importante espaço de atuação. Participa como instrumentista e diretor de harmonia em muitas delas, nos anos 1910 e 1920. Considerado o responsável pelo êxito do rancho carnavalesco Ameno Resedá, para o qual compõe marchas antológicas como “O Sol”, “Luz da Inspiração”, “Canção Pastoril” e “Consolação”, ele é bastante requisitado como compositor de marchas por diversas sociedades carnavalescas. Para animar os foliões, escreve melodias simples, cantáveis e de ritmo vivo, que recebem letras pomposas recheadas de termos difíceis (como “rosicler”, “lirial”,” “melopeia” e “nenúfares”), como era característico na época. Assina algumas composições com carnavalescos destacados como Oscar de Almeida (1895-1942), com quem escreve a marcha “A Queda da Rosa”, em 1919. Ao longo dos anos 1930, quando as marchas migram dos blocos de rua para o disco, Bonfiglio encontra novos parceiros, como André Filho (1906-1974), Valfrido Silva, Hervé Cordovil (1914-1979) e Lamartine Babo.

Também se destaca no repertório romântico. Em 1918, compõe a valsa “Glória”, considerada uma de suas obras-primas. Em 1931, a canção é imortalizada com letra da poetisa Branca M. Coelho, nas vozes de Gastão Formenti (1894-1974), Orlando Silva (1915-1978) e Vicente Celestino (1894-1968), cujas interpretações destacam o caráter dolente da melodia. Igualmente românticas são a modinha “Teus Olhos Castanhos”, com poema de Lamartine Babo, gravada em 1934 por Augusto Calheiros (1891-1956); a sertaneja “Frô do Ipê”, com letra de Nelson de Abreu, gravada em 1932 por Sílvio Vieira (1899-1970); e a canção “Cartas do Amor”, cantada com sucesso por Aracy Cortes (1904-1985) na revista Morangos com Creme (1932). No teatro musicado, obtém sucesso com o samba “Mulher”, cantado pela mesma atriz na revista Salada de Frutas.

Além de importante divulgador da música brasileira, tendo participado de gravações históricas como “O Teu Cabelo Não Nega” e “De Papo pro Ar”, nas quais os metais têm destaque, Bonfiglio de Oliveira também se torna conhecido como instrumentista de jazz. Desde o início dos anos 1920, com a proliferação das jazz-bands no Brasil, o trompetista é requisitado entre os grupos especializados no gênero estadunidense. Além de liderar conjuntos atuantes em teatros e casas noturnas – como a Jazz Bonfiglio de Oliveira, que trabalha no Perola Club; a Riso Jazz, do Club Riso do Rio de Janeiro; ou a jazz-band de azeviche, da Companhia de Revistas Ba-Ta-Clan Preta –, ele também dirige orquestras de jazz nas rádios Mayrink Veiga, Educadora e Phillips. O título jazz-band, contudo, refere-se antes à formação do que ao repertório desses conjuntos, que incluem em suas apresentações tanto gêneros jazzísticos como marchas e sambas.

Bonfiglio de Oliveira transita entre o jazz e a música erudita, compondo de valsas românticas a marchinhas carnavalescas. Ilustra, como poucos, a versatilidade musical brasileira das primeiras décadas do século XX, da qual Pixinguinha é outro representante. Apesar disso, não tem a memória preservada, sendo pouco conhecido do grande público e dos pesquisadores da música brasileira. Carece, até hoje, de estudos de sua obra e trajetória artística.


Fonte: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/

BAÚ DO MUSICARIA



A exatamente cinco anos, esta era uma das matérias que estava sendo publicada em mês como este em nosso espaço:


Link para relembrar a matéria:

terça-feira, 7 de julho de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*


Mulheres de Atenas

Composta em 1976 para a trilha da peça Mulheres de Atenas, de Augusto Boal (adaptação do texto Lisístrata, de Aristófanes), esta canção tematiza o papel da mulher na sociedade. Porém, reduzi-la a essa leitura é arbitrário e limitador, pois é a estrutura da canção que a torna bela.
Composta de cinco estrofes (de nove versos cada) "Mulheres de Atenas", de Chico Buarque e Augusto Boal, do disco Meus caros amigos (1976), especialmente no refrão, remete-nos à estrutura usadas nas cantigas medievais: o paralelismo, com ligeiras alterações.
As estrofes tem esquema fixo: o primeiro verso rima com o segundo, o quinto o oitavo e o nono; o terceiro rima com o quarto; o sexto com o sétimo. A métrica também merece destaque: os dois primeiros versos de cada estrofe tem 14 sílabas poéticas; o terceiro, o quarto, o sexto e o sétimo tem oito; o quinto e o oitavo têm quatro e o nono tem duas. Tudo feito para indiciar a mirada perfeita sugerida pelo sujeito que fala na canção.
A forma elaborada se estende ao conteúdo, senão vejamos a sutileza com que o ciclo de vida da mulher é apresentado: vivem, sofrem, despem-se, geram, temem, secam. Eis a cronologia da função da mulher ateniense recuperada e cantada pelo sujeito. Sereia, este sujeito canta as mulheres de lá a fim de dar exemplos às mulheres de cá, àquelas para quem ele dirige seu canto.
Composta em período político complicado do Brasil, "Mulheres de Atenas" (ao fazer uso das figuras míticas de Penélope, aquela que anos a fio esperou por seu Ulisses, e Helena, cuja beleza e rapto disparou a Guerra de Tróia) sugere, ironicamente (basta prestar atenção aos epítetos e adjetivos dados aos maridos a cada nova estrofe), à mulher de agora a compreender a retomada urgente da posição feminina na sociedade.


***

Mulheres de Atenas
(Chico Buarque / Augusto Boal)

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

JOÃO BOSCO CONFERE UMA SEGUNDA VIDA ÀS PRÓPRIAS MÚSICAS

Cantor e compositor revisita seu repertório e dá nova roupagem a 14 canções no recém-lançado álbum 'Abricó-de-macaco', que traz ainda duas inéditas, incluindo a música-título


Divulgação


Para João Bosco, a descoberta de novos caminhos para canções já conhecidas está situada no mesmo território do ineditismo. O violão singular o guia nesta jornada que começa em casa, com a lembrança de músicas próprias e alheias, que podem ir de um antigo samba-enredo a standards do jazz.

"A música tem um dinamismo, o autor não pode deixá-la imóvel. Vez por outra, é preciso tirá-la daquele conforto", afirma Bosco. Esta convicção é o mote de Abricó-de-macaco, álbum que ele lançou na semana passada nas plataformas digitais. Um DVD com o registro das sessões de estúdio, que ocorreram em outubro de 2019, sairá posteriormente, com exibição prevista para o mês que vem, no Canal Brasil.

Com 16 faixas, Abricó-de-macaco não repete nenhuma música de 40 anos depois (2012), outro trabalho de caráter retrospectivo de Bosco. Para o novo projeto, ele concebeu um mosaico de sons com origens diversas, mas passando por referências brasileiras. Não é coincidência que a faixa-título, uma das duas inéditas do repertório, faça alusão a uma árvore amazônica com frutos e flores que chamam a atenção.

Abricó-de-macaco tem estrutura semelhante a um clássico de Bosco, Linha de passe. Francisco Bosco, filho do cantor e compositor, fez a letra do novo samba e pegou emprestado da música de 1979 o verso "babaluaê, rabo de arraia e confusão", estabelecendo uma conexão lírica entre ambas.

"É como se fosse uma linha de carretel, que, quanto mais você puxa, mais linha vem. As duas músicas falam das coisas que existem entre o firmamento e o chão", aponta Bosco.

Francisco ainda colocou letra em Horda, a outra inédita. Com quase oito minutos e uma atmosfera de tensão, é definida por Bosco como "uma suíte das confusões e do tumulto, algo que a gente vive no Brasil em momentos específicos" e inclui uma citação de O galho da roseira, de Hermeto Pascoal.

Os instrumentistas que acompanham o artista ficaram à vontade para preencher espaços. Essa faceta é percebida já na primeira faixa, Mano que zuera, com uma longa introdução sustentada por Ricardo Silveira (guitarra), Guto Wirtti (baixo) e Kiko Freitas (bateria).

A presença do trio é fundamental na nova versão de Cabeça de nego, gravada no disco homônimo de 1986 com violão e vocais dobrados do próprio Bosco. O sax soprano da israelense Anat Cohen dá um colorido especial à releitura.



TRANSFORMAÇÃO 

Das músicas gravadas anteriormente, Profissionalismo é isso aí teve a transformação mais radical. O samba sobre a malandragem que Bosco e o letrista Aldir Blanc fizeram para a Banda Black Rio se tornou um blues. O cantor e compositor lembra que os estilos compartilham a origem africana. "O blues e o samba têm afinidades na alegria e também na dor. Quis retomar essa música na forma de blues e o resultado ficou interessante", diz Bosco.

Cantores da cena contemporânea do Rio de Janeiro, Alfredo Del-Penho, João Cavalcanti, Moyseis Marques e Pedro Miranda estão presentes em duas faixas. Bosco participou de um show deles em homenagem a Jackson do Pandeiro, no ano passado, e, no encontro para definir o repertório da apresentação, se lembrou de que já havia gravado Forró em Limoeiro.

O novo registro tem citações de Galope, de Gonzaguinha, e Morena do Grotão, de João do Vale. "Essa música virou uma espécie de suíte nordestina e cada um faz sua participação como se Forró em Limoeiro fosse o berço daquilo", afirma Bosco. Ele também recebe os quatro intérpretes em Pagodespell, parceria de Bosco com Caetano Veloso e Chico Buarque que partiu de poemas escritos por Oswald de Andrade.

Algumas músicas de outros autores que entraram em Abricó-de-macaco se relacionam com momentos significativos da vida de Bosco. Ele se recorda de uma cena do filme A noviça rebelde (1965) em que a personagem de Julie Andrews canta My favorite things para distrair os filhos do capitão Von Trapp durante um temporal. Desde criança, o cantor e compositor teme as tempestades.


TEMPESTADE 

Ao ouvir a versão do saxofonista John Coltrane, ele percebeu que a canção poderia se encaixar em outro contexto. "Coltrane tirou a canção daquela tempestade, daquele medo e a levou para onde o jazz mora", ressalta Bosco, que registrou o tema da dupla Rodgers e Hammerstein apenas com violão e vocalises.

Exemplar da parceria de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Água de beber ganha releitura no formato voz e violão. Em conversas com o poeta, seu primeiro parceiro, Bosco descobriu que a tal “água de beber” era uma aguardente norueguesa chamada Aquavit.

Durante passagem recente por Ilhéus para um show com Toquinho, outro parceiro de Vinicius, ele descobriu que o dono da pousada tinha morado na Noruega e perguntou se o homem conhecia a tal bebida. O proprietário não só sabia do que se tratava como ofereceu aos hóspedes meia garrafa. "É uma bebida fortíssima, alucina. A partir daí eu me senti apto a gravar a música, porque agora eu sabia qual era o sabor", explica.

No carnaval de 1985, Bosco estava na Sapucaí, quando viu o desfile da Estácio de Sá, que foi para a avenida com Chora, chorões, uma homenagem ao choro. Ele se surpreendeu com o samba melodioso, que em nenhum momento cita a agremiação. "É um samba que pega várias regiões sonoras brasileiras. Quando eu estava na feitura do disco, achei que ficaria muito bem nele."

Embora tenha lançado um disco, Bosco se mantém resguardado por conta do novo coronavírus e se aprofunda ainda mais na redescoberta de canções. Recentemente, ele tocou em casa um clássico da parceria com Aldir Blanc, Caça à raposa, e refletiu sobre o verso "recomeçar como canções e epidemias". "Como diz a canção, é preciso recomeçar. E, neste momento, tudo que eu tenho é o violão."


NOVO NO INSTAGRAM

O perfil oficial de João Bosco no Instagram foi criado em fevereiro deste ano (@joaoboscoreal). Ele conta que a ideia de entrar na rede social veio da filha, Julia, que cuida da agenda do cantor e compositor. “Sempre fui analógico, mas o mundo digital presta um grande serviço à gente. O jovem tem o mundo digital na mão. Se você não estiver ali, não dá para encontrar com eles”, afirma Bosco. Além de vídeos em que aparece tocando violão, há fotos históricas, como a que registra o encontro de Bosco, Chico Buarque, Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga com o ex-ministro da Cultura francês Jack Lang.



Fonte: Estadão Conteúdo

segunda-feira, 6 de julho de 2020

PAUTA MUSICAL: LEMBRANDO OS SUCESSOS DE OSNI SILVA, POR LAURA MACEDO

Por Laura Macedo



OSNI Rufino da SILVA Gomes
*21/10/1919 – Rio Branco (AC) – 98 Anos!
+20/07/1995 – Praia Grande (SP)


Paulistano nascido em 1919, Osni Rufino da Silva Gomes foi um compositor, locutor, grande e popular cantor da Era do Rádio. Começou na Rádio Educadora, atual Gazeta, em 1939, tornando-se um grande sucesso durante as décadas de 40, 50 e inicio dos anos 60. Uma curiosidade: chegou a ser reprovado junto com Nelson Gonçalves num teste para cantor realizado por outra emissora.

Emplacou vários sucessos, conseguindo altas vendagens de discos, além de grande aceitação no rádio, que o fez ficar conhecido como ‘A Mais Bela Voz do Rádio’, apelido que o acompanhou até o dia de sua morte, em 1995. (Saiba mais AQUI).


Vamos homenageá-lo com suas inesquecíveis interpretações!!


“João Valentão” (Dorival Caymmi) # Osni Silva. Gravação (1953).

“Risque” (Ary Barroso) # Osni Silva. Gravação (1954).

“Eu sei que vou te amar” (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) # Osni Silva. 1959.

“Beija-me muito [Besame mucho]” (Consuelo Velazques) [versão: David Nasser] # Osni Silva. Álbum ‘Capricho’, 1963.

“Só pra você” (Mário Zan/Messias Garcia) # Osni Silva. Álbum ‘Capricho’. Disco Continental (1963).


“Jamais te esquecerei” (Antonio Rago/Juracy Rago) # Osni Silva. Álbum ‘Capricho’, 1963.


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Fontes:
– Dicionário Cravo Albin da MPB / Verbete: Osni Silva (AQUI).
– Foto Internet.
– Site #Radinha / Áudios
– Site YouTube / Canais: “josé carlos Mendona”, “luciano hortencio”, “N2010R”, “Tacsantunes”.

UM DECLARAÇÃO DE AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA

Comemorando duas décadas de carreira, Renato Barushi apresenta uma prévia do seu novo projeto fonográfico a ser lançado em 2021

Por Bruno Negromonte




Estamos a viver tempos estranhos. Um período onde a maior manifestação de amor é não demonstrá-lo como de fato muitas vezes gostaríamos de fazer; uma fase onde se fechar para o mundo real e para as pessoas pode ser visto como prova inconteste de respeito e carinho pelo outro em uma conjuntura onde não se é recomendado a prática do abraço, do beijo ou qualquer espécie de contato físico. Estamos passando por uma época onde, apesar desse cenário adverso ao afeto, a expectativa para um recomeço social está carregada de uma perspectiva que preza indubitavelmente pela leveza e empatia pelo outro em uma nova sociedade que ansiamos por encontrar quando tudo passar. Não podemos negar que tais cenas jamais seríamos possíveis imaginar a não ser através de filmes, livros ou roteiros de ficção. No entanto, a resiliência da arte e o alcance da sensibilidade daqueles que a produzem (que jamais tiveram rédeas, limites ou restrições) ainda são capazes de suplantar toda esta adversidade existente com habilidade, astúcia e uma perspicácia inerente e singular. Só quem tem tal emotividade é capaz de enxergar esse amor, digamos, improvável. Um demonstração de sentimento que desabrocha quando nada mais se espera tal qual o elogio lírico e irresistível que o escritor colombiano Gabriel García Marquez faz a um amor improvável no clássico "O Amor nos Tempos do Cólera", um romance escrito há 35 anos atrás e que conta a história do amor de Florentino por Fermina, que ultrapassa meio século quase sem nenhum contato. O amor nos tempos do corona vírus também pode ser surpreendente como é possível perceber dentre vários exemplos, na mais recente produção deste artista cataguasense já apresentado anteriormente aqui e que agora retorna ao Musicaria Brasil.


Com 20 anos de estrada (recentemente completados), Renato Barushi nasceu em Minas Gerais (mais precisamente em Cataguases, cidade da zona da mata mineira localizada a cerca de 320 km da capital Belo Horizonte). De família grande e apreciadora da boa música, Renato desde a infância já buscava desenvolver sua aptidão artística, e como gostava de cantar, aos 10 anos, já "brincava" de escrever músicas. Como estímulo, aos 11 anos ganhou o seu primeiro violão, onde a partir daí resolve iniciar de fato a sua formação musical indo estudar no conservatório musical existente em sua cidade (vem desse período as suas primeiras referências musicais e que o acompanham até os dias atuais como se é perceptível na audição do seu álbum de estreia). Aos 17 anos, o pretenso artista percebe que Cataguases já tinha ficado pequena para os seus anseios e resolve aventurar-se em Belo Horizonte. Chegando à capital o seu aperfeiçoamento vem com as diversas experiências vividas, dentre as quais, a sua passagem pela banda ''Machinari'', que corroborou bastante para o desenvolvimento do seu trabalho autoral. Com o fim da banda, Barushi decidiu que já era hora de partir sozinho rumo ao seu sonho e para isso contava, além do seu talento, um determinismo invejável que o levou, pouco tempo depois, à gravação do seu primeiro álbum "Renato e o mercado", projeto impregnado de uma diversidade rítmica que não o permite cair no lugar-comum e que acabou por chamar a atenção do júri do 24º Prêmio da Música Brasileira, que pré-selecionou o álbum para concorrer ao prêmio daquele ano. Um raro e excelente feito para um álbum de um coadjuvante no universo fonográfico e que só se viu inserido nesse contexto porque lançou-se de maneira independente.

Como dito, o caminho já vem sendo traçado a algum tempo, pois são duas décadas de carreira onde soma-se aí, além do álbum "Renato e o mercado", um disco que lançado em 2017 traz por título "Remendos" (projeto fonográfico que também foi indicado a diversos prêmios, dentre eles o "profissionais da música"). Agora, em comemoração a todo o caminho já percorrido, o artista dá mais um passo em sua trajetória ao apresentar para o seu público uma ode ao seu filho mais velho. Gravada no Estúdio Flex (BH), este single que divulga este novo projeto trata-se de uma surpresa para o filho Marcelo que completou 19 anos na data do lançamento, 15 de junho de 2020 (curiosamente a mesma idade que Renato tinha quando pisou nos palcos profissionalmente pela primeira vez, em fevereiro de 2000, na cidade natal de seu filho, Abaeté-MG). Com título homônimo ao seu próximo projeto fonográfico (um EP a ser lançado até o primeiro semestre de 2021 e que ainda contará com mais 4 faixas) a faixa autoral "Eu amo um cara" conta com a participação dos músicos Ricardo Gomes (Baixo), Daniel Diniz (teclado), Igor Coelho (bateria) e Fabinho Gonçalves (guitarra) sob a produção musical de Paulo Maitá. Vale ainda o registro de que este pontapé inicial do vindouro projeto além de já se encontrar à disposição dos ouvintes nos principais aplicativos de música também ganhou um clipe  (disponível no Youtube) que teve filmagem e direção do próprio Barushi, com edição e finalização de Douglas Oliveira. Já as fotos, feitas através de um ensaio remoto por chamada de vídeo, ficaram a cargo de Marcelo Macaue.

Vinte anos de dedicação à arte não são 20 dias... E este embasamento existente tanto no palco quanto na vida foi extremamente benéfico quando permitiu ao artista mineiro essa, digamos, lapidação de toda a sensibilidade presente e expressada na canção. Tal apuramento se sobressai por mais que haja riffs e outras características que destoam daquilo que estamos habituados a ouvir nas canções que geralmente retratam o amor e seus nuances. O single permite-nos a espera de um projeto coerentemente arrojado tal qual os álbuns anteriores a julgar por esta faixa de divulgação que faz da canção mais que uma balada romântica ao trazer simbolismos a partir do próprio título. "Eu amo um cara" sugere as mais distintas formas de amor existentes levando a um amplo e irrestrito caminho interpretativo (o que no fundo acaba por traduzir o verdadeiro sentido do amor, que é unicamente poder existir em cada um de nós sem amarras ou rótulos). "Eu amo um cara" é isso, fio condutor para a expressão do amor, este mesmo sentimento que, de modo dialógico, é capaz de abranger essa forte afeição que faz parte da natureza humana. Arraigada de simbolismo a faixa permite tudo isso a partir de uma declaração de amor aparentemente tão comum, mas que muitos não tem habilidade, talento ou outras características que não permitem tal expressão. Se Rock'n'roll é atitude, em tempos em que o amor se faz urgente e necessário, Renato Barushi é roqueiro da cabeça aos pés ao declarar-se de modo tão singular a este privilegiado filho.


domingo, 5 de julho de 2020

BONDE ALEGRIA - LUIZ VIEIRA - PARTE 01

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Marco na carreira do cantor e compositor uruguaio, "Viagem" completa 50 anos

Por Luiz Américo Lisboa Junior


Taiguara - Viagem (1970)

Certamente muitas vezes nós já cometemos algumas injustiças na vida, mesmo que sejam involuntárias ou não cheguem a prejudicar alguém, elas fazem parte de nossa mania de julgar as pessoas ou algo, seja uma obra arte, uma música, ou alguns compositores e intérpretes que na maioria dos casos passam a história como incompreendidos. Na música popular brasileira temos o caso típico de Taiguara um compositor/intérprete cuja trajetória ainda não foi totalmente revista devido a sua necessidade de ser entendido em plenitude, contudo essa incompreensão que norteou a sua obra reside para alguns em função da sua atitude de um certo modo panfletária nos últimos anos de vida e que poderia levar a esse conceito, mas, sobretudo o que ficou evidente foi a injustiça que se fez ao não se reconhecer nele, e isso aqui não é uma generalização, um dos mais coerentes compositores brasileiros contemporâneos. Desde o tempo dos Festivais onde era presença obrigatória defendendo inúmeras canções, sejam suas ou não, que Taiguara já demonstrava a força de seu vigor como intérprete e compositor talentoso.

Seus discos eram muito bem produzidos com belas melodias, geralmente acompanhadas por ele ao piano, e suas letras de um primor poético que o destacava em sua geração e com um detalhe que deve ser lembrado, pois, não é um fato corriqueiro na música popular brasileira, praticamente toda sua obra é de autor único, ou seja, sem parcerias. Desde o primeiro disco lançado em 1965 com destaque para a música Samba de copo na mão que os elogios ao seu trabalho era uma unanimidade no meio artístico favorecendo dessa forma a sua ascensão e firmando seu estilo. Suas canções românticas faziam parte de um repertório obrigatório dos anos sessenta e inebriavam de ternura e encantamento todos a que elas se debruçavam para tirar de suas lindas melodias e preciosidades literárias um motivo a mais para se orgulhar de nossa canção, que àquela época era riquíssima em compositores e intérpretes e onde Taiguara se impunha como um de seus elementos mais destacados.

Em 1970 já plenamente consagrado ele lança o LP Viagem, sem dúvida um marco em sua carreira e um dos discos fundamentais para conhecer melhor sua trajetória e também um dos trabalhos mais significativos da música brasileira. Com orquestração dos maestros Lindolfo Gaya e Leonardo Bruno, além da participação especial do Som Imaginário, diga-se, Wagner Tiso, Robertinho, Tavito, Luis Alves, Laudir, Zé Rodrix e Nivaldo Ornellas, o disco inicia-se com Universo no teu corpo, defendida por Taiguara no IV FIC e uma de suas músicas de maior sucesso, prossegue com Maria do Futuro uma balada encantadora, caminhando para Prelúdio N 2 também conhecida como Paz do meu amor, da autoria de Luiz Vieira, já um clássico de nossa canção em uma magistral interpretação de Taiguara, tornando-a inclusive obrigatória em todas as suas apresentações, a seguir ele nos brinda com A transa, música pouco conhecida de seu repertório, porém não menos relevante e culmina com a canção título A viagem, um de seus maiores sucessos e sem dúvida, um momento mágico de inspiração em sua carreira.

Mas muitas outras surpresas nos esperam neste notável trabalho, e desde logo devemos prestar bem atenção aos versos de Geração 70, música que retrata de maneira magnífica o pensamento e os anseios de uma juventude que clamava por esperança e liberdade, absolutamente necessária para se conhecer aqueles anos complicados. Em O velho e o novo, uma apaixonante e comovente homenagem ao seu pai, que participa tocando bandoneon e a todos aqueles que já estão no outono da vida. Numa época em que os talentos se multiplicavam, Taiguara, não se furta em ajudar a consolidar algumas carreiras que se iniciam e empresta seu prestígio interpretando Em algum lugar do mundo, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza e Dia 5, de Ruy Maurity e Jose Jorge, além de interpretar de forma magnífica Gente humilde, canção de Garoto com letra de Vinicius de Moraes e Chico Buarque, por fim o grand finale em Tema de Eva, musica instrumental que reafirma todo o seu talento criativo.

Para se compreender a carreira de um artista é necessário debruçar-se sobre sua obra, perceber sua ideologia, localizá-lo em seu tempo histórico, e então julgá-lo com isenção, ouvindo, portanto este trabalho de Taiguara podemos verificar como ele estava integrado à sua época e redescobrir um compositor e um intérprete que precisa ter seu valor apreciado pelas novas gerações, afinal de contas, quem é que não se lembra de suas lindas baladas, páginas belíssimas de nossa canção idealizadas num tempo em que apesar de difíceis, ele conseguiu que se tornasse romântico sem alienação e nem proselitismo barato, apenas compondo e cantando, pois esse era o seu ofício e ele o conduziu magistralmente de forma coesa em todos os seus trabalhos enquanto esteve entre nós, vamos então lembrar-nos desse talento e fazer uma viagem ao seu mundo mágico de sons e poesia.



Músicas:
01- Universo no teu corpo
(Taiguara)
02- Maria do futuro
(Taiguara)
03- Prelúdio N 2 (Paz do meu amor)
(Luiz Vieira)
04- A transa
(Taiguara)
05- Viagem
(Taiguara)
06- Geração 70
(Taiguara)
07- O velho e o novo
(Taiguara)
08- Em algum lugar do mundo
(Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)
09- Dia 5
(Ruy Maurity/Jose Jorge)
10- Gente humilde
(Garoto/Vinícius de Moraes/Chico Buarque de Holanda)
11- Tema de Eva
(Taiguara)

sábado, 4 de julho de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

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Escolas de samba de São Paulo

“Triste madrugada foi aquela
que eu perdi meu violão
não fiz serenata para ela
e nem cantei uma linda canção
Uma canção para quem se ama
que sai do coração dizendo assim:
abre a janela
abre a janela, amor
Dê um sorriso
e jogue uma flor para mim...”
JORGE COSTA, “Triste madrugada”


O samba de São Paulo não difere tanto do carioca quanto alguns pesquisadores tentam argumentar. No entanto, o andamento e o tempo da música também não são idênticos. O paulista tem um lado do que o teatrólogo Plínio Marcos, parceiro de Geraldo Filme, denominou de “samba de trabalho, durão, puxado para o batuque”, contrastando com o lirismo e a cadência do samba carioca. Em São Paulo, as manifestações do samba estiveram ligadas às zonas fabris, como por exemplo a Vai-Vai, na Bela Vista, e a Camisa Verde e Branco, na Barra Funda. De certa forma, a rigidez do trabalho proletário na indústria paulista contrastava com a maior maleabilidade da boemia carioca. Tal fato influenciaria não só o samba, mas todo o ambiente sociocultural das duas cidades.
Contudo, a aglutinação dos foliões para brincar o carnaval ocorria desde o início do século XX, nos cordões carnavalescos, embriões das escolas de samba de São Paulo. Estes eram formados basicamente pelo núcleo familiar. Guiados pela espontaneidade de seus foliões, desfilavam com estandartes carregados por mulheres e apresentavam reis, rainhas e outros personagens da corte. Na frente, um baliza, que fazia malabarismo com bastão de madeira, abrindo caminho para o cordão enquanto bailava.
Mas foi do bloco Baianas Paulistas que nasceu a primeira escola de São Paulo. Com instrumental de coro e grupos de choro, um grupo de amigos resolveu fundar uma escola de samba; nasceu a Lavapés, que foi seguida pela Rosas Negras e a Brasil Moreno. Surgiram também a Unidos da Vila Maria e a Unidos do Peruche, em atividade até hoje.
O precursor dos cordões no carnaval paulistano foi o Grupo Carnavalesco da Barra Funda, liderado por Dionísio Barbosa, profundo conhecedor do carnaval carioca. Com o tempo, devido à sua indumentária de calças brancas e camisas verdes, o cordão ficaria conhecido como Camisa Verde, logo depois adotando o nome definitivo de Camisa Verde e Branco, já como escola de samba.
Seu primeiro desfile como escola aconteceu em 1972. O título veio em 1974, quando desfilou com o samba-enredo Essa Nega Fulô. Começou assim uma série que só terminaria no carnaval de 1977, consagrando a escola da Barra Funda como tetracampeã e deixando o segundo lugar para sua maior rival, a Vai-Vai, do Bexiga – um cantinho de sotaque italiano, com cantinas e cortiços no distrito de Bela Vista.


Camisa Verde e Branco e o integralismo

O Cordão Camisa Verde teve que mudar as cores de sua agremiação por imposição do Estado Novo. Os integralistas utilizavam o verde para representar o nazifascismo no Brasil. Velha raposa, como sempre, Getúlio aproximara-se por um tempo de Plínio Salgado, líder dos integralistas, para colocar em prática seus interesses políticos. Quando percebeu que o integralismo já não o favorecia, mandou perseguir e prender seus seguidores.
Os camisas-verdes, que gostavam de esticar o braço e gritar “Anauê!” como uma saudação, copiavam o estilo dos nazifascistas. Havia uniformes verdes para as crianças e, quando se queria impor valores ideológicos, utilizava-se a violência contra os opositores. Composto de funcionários públicos, da classe média estabilizada e de militares da Marinha e do Exército, o grupo integralista defendia partido único, sem eleições democráticas; seus membros eram racistas, reacionários, e tinham como lema “Deus, pátria e família” – numa clara ligação com a Igreja católica.
Um dos destaques da Vai-Vai é Walter Gomes de Oliveira, conhecido como Pato N’Água – aquele mesmo que foi homenageado, após sua morte, por Geraldo Filme, no samba “Silêncio no Bexiga”. Passista habilidoso, respeitado jogador de tiririca (ou capoeira) e diretor de bateria, Pato N’Água comandava os ritmistas com um apito, marcando e introduzindo breques todos seus.
A Escola de Samba Nenê da Vila Matilde completa a tríade das mais vitoriosas e tradicionais escolas de Sampa. Assim que foi criado o desfile oficial na cidade, a escola foi campeã de 1968 até 1970. Hoje, desfilando em bloco intermediário, ela é uma das mais tradicionais do carnaval.
A “escola do Nenê” surgiu da união de duas vilas, a Esperança e a Matilde, nos encontros dos bambas paulistas no Largo do Peixe, sempre liderados pelo mineiro Alberto Alves da Silva, o seu “Nenê” da Vila Matilde. O metalúrgico foi presidente da escola desde a sua fundação, em 1949. Em 2002, Nenê foi condecorado com a ordem do mérito cultural pelo Ministério da Cultura. Segundo o pesquisador Wilson Moraes, “a partir do carnaval de 1968, as escolas de samba paulistanas passaram a ser estruturadas de acordo com o modelo carioca. Os balizas foram relegados em favor da comissão de frente; o estandarte definitivamente substituído pela bandeira acompanhada por mestre-sala, e tornou-se obrigatória a presença de “baianas”. O enredo assumiu importância capital, passando a definir toda a montagem do desfile... Ficou definitivamente abolida a participação de qualquer instrumento de sopro na parte musical...”

Nos últimos anos, os desfiles em São Paulo passaram a ser, a exemplo dos do Rio de Janeiro, transmitidos ao vivo para todo o Brasil, na sexta e no sábado de carnaval. É o coroamento de um percurso que começou no Anhangabaú, em 1950, e chegou, a partir de 1991, ao Pólo Cultural Grande Otelo, uma grande passarela de mais de 500 metros construída na avenida Olavo Fontoura, popularmente conhecida por Sambódromo do Anhembi. Como o Sambódromo do Rio de Janeiro, o projeto ficou a cargo do renomado arquiteto Oscar Niemeyer.


Ideval Anselmo e Talismã, mestres da Camisa Verde e Branco

Ideval Anselmo é um dos principais compositores da Camisa Verde e Branco.
No ano de 1977, Ideval fez o samba-enredo considerado por muitos o melhor de São Paulo, “Narainã, a alvorada dos pássaros”: “Era de manhã/ Mariana ali chegou/ no reino encantado/ Oh, sinfonia a patativa/ Que canto....” O metalúrgico Ideval não cansava de dizer que ao ouvir o samba-enredo “Pega no ganzê”, com o refrão “Ô-lê-lê, ô-lá-lá/ pega no ganzê/ pega no ganzá...”, descobriu que o problema dos sambas paulistanos era a falta de refrão – que ele então introduziu com maestria.
Seu parceiro de escola, Talismã, teve músicas gravadas por renomados cantores, como Noite Ilustrada, Tom Zé, Beth Carvalho e outros. Mumu, como também era conhecido, emplacou um samba no LP que continha 12 músicas selecionadas no Festival de Samba de Quadra, tido como um marco no samba paulista. A faixa tornou-se um hino oficial da Verde e Branco e do carnaval de São Paulo: “Sou Verde e Branco/ até a morte!/ Do Verde e Branco, não me separarei/ Deu-me tantas alegrias/ belos carnavais que eu passei (eu passei)...”






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