PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

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FERNANDA CUNHA - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Um dos mais produtivos compositores da música brasileira ainda em atividade, Bráulio de Castro não pára de produzir nos mais variados gêneros da música popular brasileira, em especial a pernambucana.

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DOM, INSPIRAÇÃO E SUOR NA DOSE CERTA

Com uma extensa carreira musical e projetos executados no Brasil e no Exterior, Markus Britto busca não se delimitar naquilo que faz a partir dos distintos projetos .

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

terça-feira, 31 de maio de 2016

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*




Tenho escrito aqui que a canção tem algo de materno, naquilo que ela é de alento, sentido e presença. Porque feita de música, poesia e voz - signos femininos(?) -, a canção é feminina. As mulheres sempre cantaram. Daí as musas e as sereias figurarem como símbolos de fonte e transmissão da mensagem, da história.

A voz (a feminina) aqui representa um dizer (a ação de vocalizar), mais do que um dito (significado). Neste sentido, o ato de dizer já é comunicar que alguém é e estar. Dizer é concretizar a unicidade de quem diz, tornando este um ser diferente de todos os demais.

Obviamente, estou tratando mais da escuta, em detrimento do visual, como metáfora guia da verdade. E indo no caminho inverso ao que Heráclito sentenciou: "Os olhos são melhores testemunhas que os ouvidos". Isso porque, como Adriana Cavarero (ler Vozes plurais) anota: "antes ainda de comunicar o que quer que seja, (...), a voz humana comunica ela mesma, ou seja, a sua unicidade".

Na prática, nada parece ser tão estanque e/ou bipolar (macho/fêmea) assim. Os versos da canção "Macha fêmea", de Arnaldo Antunes, Paulo Tatit e Marcelo Fromer, jogam ludicamente com isso invertendo radicalmente os conceitos: "cérebra caralha baga saca pescoça prepúcia ossa / nádego boceto têto côxo vagino cabeço boco // corpa moço dentra foro moça / orgama coita palavro sexa goza". Ou seja, esses versos liberam - "liberal gerou" - as palavras dos sentidos estáticos historicamente colados a elas .

E assim chego à canção "Músico", de Herbert Vianna, Bi Ribeiro e Tom Zé. Nela há uma reivindicação latente engendrada pelo "músico" (masculino) que quer o compartilhamento das glórias recebidas pela "música" (feminina) por disseminar verdades, "desatar presilhas". 

O sujeito da canção faz isso recorrendo à mítica da "expulsão do paraíso", "Ligue-se o Éden / Som e maçã / Serpentes eternas / Sobem por nossas pernas", quando ele inseminou ela e juntos ganharam o mundo, perdendo o paraíso. Eis a questão que se configura aqui, longe da nostalgia: é o músico (seja um masculino, um feminino, um assim) quem injeta a semente (energia sonora) na música? Os argumentos do sujeito da canção levam a crer que sim. Mas ele também, por sua vez, não age encantado por ela?

Posto que a pergunta é mais importante que a resposta, este círculo infinito encontra melhor tensão na transcriação que Lucas Santtana deu à canção lançada originalmente no disco Severino, dos Paralamas do sucesso. Ao dividir os vocais com a cantora Céu, no disco O Deus que devasta mas também cura (2012), Lucas Santtana promove a refração e a transvaloração daquilo que define com nitidez músico/música, masculino/feminina. 

Aliando-se ao gesto do sujeito de "Macha/fêmea", a versão de Lucas Santtana, com voz "masculina" e "feminina" discutindo questões íntimas àquilo que cada parte deveria ser, faz um profundo corte epistemológico no tema dos gêneros. E aí se condensa e se prolifera o núcleo duro que o título do disco guarda: O Deus que devasta é o mesmo que cura. 

São muitas as possibilidades de leituras para a recriação de Lucas Santanna. A começar pelo arranjo melódico, pela sonoridade eletrônica-orgânica complexa criada para proporcionar a "fala", por sua vez também complicada, porque um quase poema concreto, do sujeito. E todos os elementos se fundamentam na voz, nas vozes. 

No mais "Cadeia de gens / Somos um trem, Ô-Ô / Um trem que tem que tem que tem / A ignição de ser pó- / lem porque além disso do- / mina, insemina e se co-o-o-ze em / Semem, semem / Semem, semem". A voz que prolifera é a mesma que domina. Lucas e Céu, instrumentos e letras.

Não foi ao acaso que escolhi essa canção, não composta por Lucas Santana, para tratar de um disco seu. Até porque não nos parece gratuita a releitura que o cancionista, músico, dj faz para inseri-la entre novas composições. "Há um artista por trás de tudo", como Frederico Coelho escreveu ao comentar o disco de Lucas. 

Partindo para um plano "de fora" da canção, podíamos mesmo dizer que "Músico" é uma canção-enigma de todo cancionista, principalmente os mais inventivos, como é o caso de Lucas Santtana: o músico é o cavalo da música? Mas por onde ele entra nela?


***

Músico
(Herbert Vianna / Bi Ribeiro / Tom Zé)

Ligue-se o Éden
Som e maçã
Serpentes eternas
Sobem por nossas pernas

Desatam presilhas
De estrelas e sóis
A milhões de milhas
Dentro de nós

Cadeia de gens
Somos um trem, Ô-Ô
Um trem que tem que tem que tem
A ignição de ser pó-
lem porque além disso do-
mina, insemina e se co-o-o-ze em
Semem, semem
Semem, semem


* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

30 ANOS SEM NELSON CAVAQUINHO




ALDACIR LOURO, 90 ANOS



Aldacir Louro (Aldacir Evangelista de Mendonça), compositor, cantor e instrumentista nasceu no Rio de Janeiro-RJ em 22/4/1926 e faleceu em15/6/1996. Nascido no bairro de Botafogo, viveu em diversos outros subúrbios cariocas, frequentando desde criança as escolas de samba Unidos da Tijuca, Depois te Explico e Braço a Braço, onde tocava tamborim.

Bom intérprete de sambas, começou como apresentador de músicas, contratado por compositores para mostrar produções destes a cantores. Como essa atividade rendesse pouco, decidiu tentar a sorte como autor, lançando em 1946 o sambaOnde vamos morar (com Antônio Valentim dos Santos), gravado por Zilá Fonseca. Na época, a música rendeu (cerca de 20 cruzeiros) bem mais do que conseguia como apresentador.

Embora não tivesse estudado música, iniciou assim uma carreira de compositor, cujo maior sucesso foi o samba Recordar (com Aluísio Marins e Adolfo Macedo), que, premiado em concurso carnavalesco de 1955, se tornou peça antológica e obrigatória em muitos Carnavais. Outros êxitos foram o samba Cabeça prateada(com Edgar Cavalcanti e Anício Bichara) e a marcha Trrim-Trrim (com Santos Garcia), ambos lançados no Carnaval de 1956.

Como cantor, atuou em rádio e televisão, apresentando-se na década de 1950 em vários programas das rádios Nacional e Mayrink Veiga, exibindo-se com ritmistas e passistas. Na TV Globo carioca apresentou-se com sua escola de samba. De 1960 a 1973 participou de programas da TV Tupi, do Rio de Janeiro: Bibi ao Vivo ePrograma Flávio Cavalcanti, entre outros.


Obra

Cabeça prateada (c/Edgar Cavalcanti e Anício Bichara), samba, 1955, Garota sapeca (c/Fernando Martins), marcha, 1951; Onde vamos morar (c/Antônio Valentim dos Santos), samba, 1946; Recordar (Aluísio Marins e Adolfo Macedo), samba, 1954; Refúgio (c/Linda Rodrigues), bolero, 1959; Trrim-Trrim (c/Santos Garcia), marcha, 1955.


Fonte: Cifra Antiga

segunda-feira, 30 de maio de 2016

PAUTA MUSICAL: CONVERSA RELÂMPAGO COM ARACY DE ALMEIDA, POR LAURA MACEDO

Por Laura Macedo



Um repórter da Revista Carioca encontrou, casualmente, a cantora Aracy de Almeida super apressada, na Rua do Ouvidor (1936). Não resistiu e foi puxando assunto, mas ela foi logo dando o tom da conversa.

- Quer saber alguma coisa? Mas diga sem demora, porque estou com muita pressa...

- Queremos saber quais os artistas de nossos palcos que mais a impressionam?

Aracy, fazendo passar a bolsa de uma mão pra outra, respondeu.

- Não sou frequentadora assídua de teatro, mas gosto muitíssimo do Odilon Azevedo, nos poucos papéis que o tenho visto desempenhar. Acho-o um artista correto, distinto, com qualquer coisa de gente americana. É daí, talvez, minha grande admiração por ele. Aprecio também, a DulcinaEncantadora! Ela é de uma naturalidade que fascina!

Dulcina de Moraes e Odilon Azevedo

Aracy consultando o relógio diz:

- Estou atrasadíssima. Disponho apenas de cindo minutos. No cinema tenho idolatria por Buck Jones, com aquela correria louca através de mil perigos. Sylvia Sidney é, também, pra mim, um encantamento pela correção com que desempenha todos os papeis que lhe são confiados. E creio que por hoje chega, não?



- E no rádio, quem mais aprecia?


- Carmen Miranda, a meu ver “primus inter pares” [primeiro entre iguais] na nossa música eFrancisco Alves, a alma da canção brasileira.

E em poucos momentos, Aracy desaparecia no meio da multidão.

Nessa pequena conversa do repórter da Revista Carioca com a nossa “Araca” / “O Samba em Pessoa” fica patente sua personalidade forte e irreverente, uma das marcas registradas durante toda a sua trajetória de vida pessoal e artística.

Algumas das clássicas interpretações de Aracy de Almeida

Três apitos” (Noel Rosa) # Aracy de Almeida e Radamés Gnattali e sua Orquestra de Cordas. Disco Continental (16392) / Março 1951.




Quando tu passas por mim” (Antonio Maria/Vinicius de Moraes) # Aracy de Almeida. Disco Continental (16820-A), 1953.




Não me diga adeus” (Paquito/Luiz Soberano/João Correa da Silva) # Aracy de Almeida. Dsico Odeon (12826-B). Gravação (24/10/1947) / Lançamento (janeiro de 1948).




“Camisa amarela” (Ary Barroso) # Aracy Almeida. Disco Victor (34445-A) / Matriz (333047). Gravação (31/3/1939) / Lançamento (junho/1939).




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Fontes:
-Fotos acervo pessoal e da internet.
- Revista Carioca / Edição nº23/ p.48 / 1936.
-Site YouTube / Canais: "TheM209" / "luciano hortencio" / "SenhorDaVoz".

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NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*



Os musicais haviam saído de moda na televisão, começava a era das novelas. E as tardes de domingo tinham novos donos: Silvio Santos e suas “companheiras de trabalho”, com seus calouros e variedades, no auditório da TV Globo. No final de 67, depois de quase quatro anos de exílio em Paris, Samuel Wainer, o fundador da Última Hora, voltou ao Brasil para reassumir o jornal e fazer a oposição possível dentro do quadro político, que acreditava favorável. Veio da Europa animado e cheio de idéias novas, para uma completa reformulação do jornal. Uma delas era lançar uma coluna sobre o “poder jovem”, escrita por um jovem, em linguagem jovem e irreverente, que não existia na imprensa brasileira. Seria diferente da coluna social “Jovem guarda” que ele tinha lançado anos atrás com Ricardo Amaral em São Paulo; seria cultural e política, rebelde, o alto-falante das novas gerações, a voz da juventude. Por indicação de Cacá Diégues, casado com sua ex-cunhada Nara Leão, Samuel me convidou para uma conversa na sua cobertura na Praia de Ipanema e no fim do papo me ofereceu uma coluna diária de meia página na nova UH. Não consegui dormir. 

Com 23 anos era um sonho ter uma coluna diária assinada num grande jornal de oposição e um privilégio trabalhar com uma legenda jornalística como Samuel, especialmente num momento de grande efervescência e vitalidade da juventude, da política e da cultura no Brasil. Além de tudo, adorei Samuel, seu carisma, seu charme, seu entusiasmo: tinha encontrado um novo guru. Pedi demissão a Alberto Dines e Carlos Lemos no JB e escolhi o nome para a coluna: “Rodaviva”, homenageando Chico. Seria o porta-voz do Cinema Novo de Glauber Rocha, do novo teatro de José Celso Martinez Correia e do Grupo Oficina, do som universal de Gil e Caetano, da arte pop de Antonio Dias e Hélio Oiticica, de tudo que fosse novo e jovem no mundo, informando sobre o que faziam, diziam, vestiam e ouviam os jovens de Londres e Paris, de Nova York e da Califórnia.

Só semanas depois do início da coluna, Samuel soube que eu fazia parte do júri de Flávio Cavalcanti em “Um instante maestro” e “A grande chance”. Samuel detestava Flávio, que era acusado de ter incentivado o empastelamento da Última Hora na revolução de 1964, mas não se incomodou, esculhambou Flávio com nonchalance, disse que eu era uma voz jovem no meio do passado e foi pragmático: a popularidade dos programas de TV ajudava a promoção da coluna. O convívio com Samuel era tão rico e fascinante, ele era de tal modo sedutor e entusiasmado que, muitas vezes, Tarso de Castro, Luiz Carlos Maciel e eu fechávamos nossas colunas no jornal, no Centro da cidade, e íamos para o apartamento dele ou para alguma boate ou restaurante jantar e continuar a conversa e de lá, no meio da madrugada, voltávamos com Samuel à Praça da Bandeira, para ver o jornal sendo impresso, para ler ainda cheirando a tinta. Quando Françoise Sagan esteve visitando o Rio, Samuel fez uma festa para ela na sua cobertura e depois levou-a, junto com vários convidados, para ver rodar o jornal.

“Roda-viva”, tanto quanto a música de Chico, era uma referência à sua peça que José Celso Martinez Correia encenou no Teatro Princesa Isabel e que provocou grandes polêmicas. Chico escrevera Roda-viva em menos de um mês e 50 páginas, contando em texto e músicas a trajetória de um ídolo popular — Ben Silver, nascido Benedito Silva — que é devorado pela máquina do sucesso. Zé Celso usou o texto como pretexto para uma versão pessoal e extremamente agressiva de espetáculo em que o personagem de Chico se misturava com o autor e explodia a sua imagem de unanimidade nacional, de cantor das moças nas janelas, de bom moço e poeta benquisto. Dessa vez nenhuma senhora de respeito, nenhum general-presidente gostaria de ver a overdose de sexo, palavrões e violência que Zé Celso encenou no palco, com um imenso São Jorge e uma garrafa de Coca-Cola gigante como cenário, com jovens atores se esfregando lubricamente e sacudindo espectadores na plateia, arrancando-os de suas cadeiras, exigindo “participação” e respingando-os com sangue do fígado cru “arrancado” do herói em cena e comido por seus fãs. Em São Paulo, o elenco da peça foi espancado pelo Comando de Caça aos Comunistas.

Zé Celso era um dos meus ídolos desde que o conheci no Teatro João Caetano, durante a temporada carioca de O rei da vela. Eu não gostava de teatro, achava chato, limitado, antigo: estava interessado em cinema, em artes de massa, industriais, modernas. Mas era tal a expectativa em torno da revolucionária montagem de O rei da vela e das polêmicas que provocou em São Paulo que era impossível faltar à estreia carioca. Naquela noite descobri um novo mundo, uma maneira exuberante de interpretar e criticar o Brasil, me fascinei com a grossura e cafajestice dos atores, a sexualidade debochada, a cenografia kitsch, a música que misturava ópera e marchinhas de carnaval. Tudo formava um conjunto de elementos de mau gosto que criavam intensa e arrebatadora beleza, em tudo oposta à arte apolínea de Tom Jobim e João Gilberto. Fiquei louco.
 
O festival dionisíaco de Zé Celso era uma nova maneira de fazer oposição, pela arte libertária, era um aprofundamento crítico, uma ambição de transformar não o Estado mas o indivíduo. Passei a ir quase todas as noites: em algumas assistia ao espetáculo inteiro, em outras só ao primeiro ato (meu favorito), ficava conversando com Zé Celso nos camarins, às vezes assistia ao segundo e ao terceiro, fui ao João Caetano mais de vinte vezes, fiquei amigo de Renato Borghi, Ítala Nandi, Fernando Peixoto e do elenco inteiro. Para quem não gostava de teatro, era uma revolução pessoal: depois de O rei da vela para mim era impossível ouvir a música brasileira da mesma maneira.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe , com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Disco emblemático na carreira do artista uruguaio, "Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara" completa quatro décadas

Por Luiz Américo Lisboa Junior


Taiguara - Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976)


Uma das virtudes dos grandes artistas é sua constante capacidade de reinventar-se sem perder o talento e a linearidade conquistada como marca principal e identificatória de sua obra. Geralmente essa percepção é vista por alguns através de uma critica rasteira e sem profundidade afirmando que o artista anda em busca de sua própria identidade, ou que ainda não se definiu completamente. Ora, esses comentários devem se referir exclusivamente a uma parcela de nossos compositores e interpretes que tem como única meta a vendagem de discos e para isso entregam-se sem escrúpulos ao mercado ficando a mercê do modismo do momento, demonstrando aí sim, um profundo descompromisso com sua atividade artística e ridicularizando-se em entrevistas ou declarações afirmando a todo instante que definiu desta vez o caminho que quer seguir, declarações, portanto, patéticas de artistas não menos patéticos, salve, salve a mediocridade!

Contudo há outros que conseguem um nível de superação tão grande que se expõem e colocam seu talento a prova demonstrando que seu universo criador é ilimitado e não se permite ser rotulado, pelo contrario, a sua afirmação esta na sua real capacidade de transgredir, recriar, mantendo a individualidade autoral constatada e conquistada na sua maturidade artístico/intelectual, desse modo ao atingir esses níveis de conscientização ele se sublima, eterniza-se, torna-se referencia e sua obra ganha dimensões até por ele jamais esperadas, esse é verdadeiro espírito daqueles que não se acomodam, inquietam-se a cada instante, deixando fluir toda sua sensibilidade e talento na busca do inalcançável em busca de uma perfeição utópica, onde não falta a ideologia, o sentimento nativo, a imagem e a fixação da pátria, múltipla em seus variados aspectos culturais e sociais e acima de tudo a sua inserção como elemento integrador do universo, seja ele de modo global ou em sua territorialidade continental, fixando-se como representante de seu chão, cúmplice dele em todos sentidos e por isso mesmo por ele apaixonado. 

Desse modo a imagem projetada é a de uma obra de arte real, integralizadora, universalista e por isso mesmo respeitada por todos que dela se aproximam, pois podem sentir ali todas as nuances e características da alma do artista. Assim é na pintura, na literatura é na musica popular raros são os compositores brasileiros que se superam no próprio talento redescobrindo e redesenhando sua terra através de sons que ao nos darem prazer auditivo nos levam a constatação do sublime, da permanente sensação de prazer melódico/poético numa celebração à arte musical.

Assim temos como demonstração inequívoca e materializada dessas reflexões o compositor Taiguara, que encantou o país com belas canções de amor e o deslumbrou depois com um trabalho experimental maduro representado no LP Imyra, tayra, ipy, Taiguara, lançado em 1976 onde se verifica a sua constante renovação artística e inquietude criativa, mantendo a essência da beleza de suas composições, o talento literário e acima de tudo a ideologia libertária que sempre buscou para si e para sua gente. O disco representa a nossa ancestralidade nativa entremeada pela sonoridade de um povo e de uma nação singular, captada em sua permanecia histórica. Com uma criatividade sem paralelo em sua obra e arranjos melódicos sofisticados e inovadores torna-se atemporal pois sintetiza a busca do artista em sua permanente relação com as nossas matrizes ancestrais representada através das nações indígenas sua fonte de inspiração maior. 

Entremeando faixas vocais e outras instrumentais Taiguara procura demonstrar não apenas o seu sentimento nativista como também a sua latinidade inserindo toques musicais latino americanos. Concebido em seu auto exílio na época da ditadura militar, Taiguara tinha em mente a realização de um trabalho que intencionava criticar o militarismo ditatorial do continente americano, especialmente no Brasil, para isso lançava mão de todo seu talento criando meios de driblar a censura que tanto o perseguia utlizando pseudônimos na autoria de algumas faixas e o nome de sua esposa Geisa Chalar da Silva nas três canções mais polemicas, Publico, Terra das palmeiras e Situação. O projeto foi apresentado a Emi/Odeon que o aprovou sem restrições dando carta branca a Taiguara para a seleção de quantos músicos fossem necessários para a gravação, resultando numa união poucas vezes vista de grandes feras da musica brasileira, como Wagner Tiso, na regência; Hermeto Paschoal, flauta e flauta baixo; Nivaldo Ornelas, sax soprano, tenor e flauta; Toninho Horta, violão, Jacques Morelembaun, violoncelo; Novelli, baixo acústico; Lucia Morelembaum, harpa; Ubirajara Silva (pai de Taiguara), bandoneon; Mauro Senise, flauta; Neco, bandolim; Paulinho Braga e Zé Eduardo, bateria e percussão, além de uma orquestra, perfazendo mais de 80 músicos na totalidade.

Paralelo a gravação do disco havia a realização de um show com turnê estendida a vários estados, sendo a estréia marcada para 1 de maio de 1976 nas ruínas do convento de São Miguel das Missões no Rio Grande do Sul, contudo o caráter ideológico do projeto foi abortado pela censura que proibiu o espetáculo um dia antes de sua estréia, decepcionando a todos os envolvidos e principalmente ao seu idealizador que se auto exilou mais uma vez. Mesmo sem a apresentação do espetáculo o disco foi mantido no mercado e passou a história como um dos nossos mais magníficos trabalhos musicais contemporâneos, uma obra prima, fruto do talento de um artista que o Brasil teima em esquecer ou não dar o valor merecido a sua altura, mas que nós não permitiremos jamais, pois onde tiver sentimento e brasilidade a musica de Taiguara estará sempre presente, pois ela já não nos pertence mais, é universal.


Músicas: 
01 - Pianice (Taiguara)
02 - Delírio transatlântico e chegada no Rio (Taiguara)
03 - Público (Taiguara)
04 - Terra das palmeiras (Taiguara)
05 - Como em Guernica (Taiguara)
06 - A volta do pássaro ameríndio (Taiguara)
07 - Luanda, violeta africana (Taiguara)
08 - Aquarela de um país na lua (Taiguara)
09 - Situação (Taiguara)
10 - Sete cenas de Imyra (Taiguara)
11 - Três Pontas (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos)
12 - Samba das cinco (Taiguara)
13) Primeira bateria (Taiguara)
14) Outra cena (Taiguara)


Ficha Técnica
Arranjos e orquestrações: Taiguara/Hermeto Pascoal
Regência e produção: Wagner Tiso
Diretor artístico: Miltom Miranda
Diretor de produção: Renato Correa
Técnicos de gravação: Toninho/Dacy/Roberto/Serginho
Técnico de remixagem: Nivaldo Duarte
Corte: Osmar Furtado
Montagem: Ladimar
Layout da capa: Thomas Michael Lewinsohn
Desenhos: Taiguara

Músicos:
Taiguara: Voz/piano/sintetizador/mellotron/flauta
Nivaldo Ornellas: Sax soprano/tenor/flauta
Toninho Horta: Violão
Jacquinho Morelembaun: Cello
Novelli: Baixo acústico
Paulinho Braga: Bateria/percussão em Três Pontas
Zé Eduardo: Bateria/percussão em A volta do pássaro ameríndio
Ubirajara Silva: Bandoneon em Primeira bateria
Lucia Morelembaun: Harpa
Hermeto Pascoal: Flauta/flauta baixo
Mauro Senise: Flauta
Neco: Cavaquinho
Vozes: Lucinha/Malu/Eva/Marizinha/Novelli/Nivaldo Ornellas/Wagner Tiso

domingo, 29 de maio de 2016

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Em quase quatro décadas de carreira, cantor foi grandes de sua época

Reinold Correia de Oliveira, que ficou conhecido nacionalmente por Nuno Roland, é considerado por muitos como um dos grandes cantores da época de ouro da música popular brasileira. Não é pouco se levarmos em consideração que em tal período estavam também em atividade nomes como Carlos Galhardo, Orlando Siva, Sílvio Caldas e Francisco Alves. Nascido em  Joinville, município localizado a cerca de 180 quilômetros da capital de Santa Catarina, Reinold iniciou a sua carreira artística em Porto Alegre, capital do estado vizinho. Costumava dizer que o pontapé inicial de sua carreira se deu quando apresentou-se, ao lado da Jazz Band do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, em uma emissora radiofônica da capital gaúcha e teve a oportunidade de se destacar como cantor. Em uma época em que assinar contrato com uma rádio representava um significativo passo na carreira de um artista, ainda com o nome de Reinold de Oliveira, Nuno assinou o seu primeiro com apenas 19 anos. Ainda no início da década de 1930, passou a se apresentar como cantor profissional em um cassino situado na cidade de Passo Fundo, município localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul. É válido registrar que ao longo deste período em que esteve residindo no Rio Grande do Sul, Nuno (ou melhor, Reinold de Oliveira, pois o nome artístico com o qual ficou conhecido em todo o território nacional só viria após a sua saída do Rio Grande) teve a oportunidade de conhecer o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues, de quem acabou tornando-se amigo. 

Por volta de 1934 o cantor e compositor Reinold de Oliveira resolve ir ao Sudeste, mais precisamente para São Paulo, objetivando a sedimentação de sua carreira junto aos grandes nomes da música popular existente na época. De início, apresentou-se na Rádio Record (sempre atuando na base de cachês). Nesse período tem a oportunidade de conhecer a turma do Regional do Garoto, que o levou para a Rádio Educadora Paulista, onde teve a oportunidade de ter o seu primeiro contrato assinado. Sua passagem pela capital paulista foi de aproximadamente dois anos e, foi na então "terra da garoa" (como a cidade é carinhosamente chamada por muitos), que Reinold adotou o nome artístico de Nuno Roland (por sugestão  do diretor artístico da Rádio Educadora Paulista). Foi ainda em São Paulo que teve a oportunidade de fazer o seu primeiro registro fonográfico, pela então gravadora Odeon. No 78 RPM estavam presentes a valsa "Pensemos num lindo futuro" e a canção "Cantigas de quem te vê". Na capital paulista o intérprete alcançou relativo sucesso, e pensando em alcançar um status ainda maior, resolve mudar-se para o Rio de Janeiro. Já como Nuno, em 1936, muda-se para a então Capital Federal, e lá assina contrato com a Rádio Nacional, estreando na inauguração da emissora em 12 de setembro daquele ano. Suas primeiras gravações no Rio de Janeiro aconteceram na Columbia em dois discos. Neles estavam presentes o samba-choro "Coitadinho do pachá", "Morena do samba", a valsa "Enquanto o luar está contente" e "Não posso te dizer adeus". Ainda na década de 1930 gravou canções como os sambas "Amor por correspondência", de Benedito Lacerda e Jorge Faraj, "Seja o que Deus quiser", de Mário Morais e Vadico, a marcha "Mulher fatal", de Antenógenes Silva e Osvaldo Santiago, a marcha "Guarda essa arma!", de Ataulfo Alves e Roberto Martins e a valsa "Iracema", de Bendito Lacerda e Aldo Cabral. Sem contar que tornou-se crooner da Orquestra do Copacabana Palace Hotel, onde atuou por 11 anos. 

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Jerry Adriani e George Harrison

sábado, 28 de maio de 2016

PETISCOS DA MUSICARIA

“ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO ELE MORREU?”


Naná, a lenda, desencarna; o gênio criador fica com mil sons


A partida de Naná, por mais que tem sido anunciada – a doença grave já se instalara e havia poucas esperanças de recuperação -, não é menos dolorida.

Mesmo quando há essa anunciação, a morte de alguém tão importante, de um mago, de um gênio, de um dos maiores de seu tempo aparece como premeditada surpresa.

Algo que poderíamos imaginar, mas nos negamos a enxergar, por instinto, defesa e a iminência do vácuo.

Na quarta-feira, 09 de março de 2016, Pernambuco e o mundo perderam um homem que inventou, reinventou a percussão, executando-a com o corpo, em batuques carnais, com a voz, em solfejos melódicos e, claro, em berimbau, atabaques, bongôs, alfaias e bacias de água, panelas, pratos e baterias convencionais.

Rodou o mundo e, como disse Lirinha, “foi o maior de todos e cosmopolita”. Eu sempre estive ouvindo Naná, em dias claros e noites escuras. Sua percussão me acompanha desde cedo. Quando cheguei a São Paulo, o primeiro show que vi foi com ele e Geraldo Azevedo, no início dos anos 80, ali no campus de Matemática da PUC-SP. A última vez que o acompanhei foi em 2012, no ensaio dos maracatus, na rua da Moeda, Recife, preparando a abertura do Carnaval.

Batuque nas Águas – do álbum “Sinfonia e Batuques” (2010)


Fecho minha homenagem, com o depoimento de Antonio Nobrega, sobre o parceiro e ídolo: “Vai-se Naná Vasconcelos e com ele se apaga ainda mais um país que se esvai, que se contorce, que sangra…. e que não consegue se repor”..

TIO SÃ (RENATO BARUSHI E ANGÉLICA DINIZ)

ZOOMBIDO

sexta-feira, 27 de maio de 2016

CANÇÕES DE XICO



HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 23



CHORINHO DO SANHAÇU

Arlindo dos 8 Baixos é um dos maiores instrumentistas do Brasil, em sua especialidade, inobstante esteja cego e debilitado pela diabetes e pela necessidade de se submeter a hemodiálise três vezes por semana. Além do ofício de tocar, é considerado o melhor afinador de sanfonas da região e é exímio compositor. De sua lavra este Chorinho que tive a audácia de, sob sua permissão, colocar letra e entregar a Dalva Torres para fazer o arranjo e cantar. Ele está no MULHERES CANTADEIRAS DE UMA NAÇÃO CHAMADA NORDESTE, nosso Forroboxote 3.


CHORINHO DO SANHAÇU
Arlindo dos 8 Baixos e Xico Bizerra

escapuliu e tropeçou em minha vida,
quase escondida acomodou-se no meu peito,
não teve jeito, carinho prá todo lado,
apaixonado, lhe jurei com todo ardor amor sem fim
meu sanhaçu, canto bonito, tão sereno,
contra-veneno que curou a solidão,
se apossou d’um coração sem ter licença,
transformou-se na querença que eu sempre quis prá mim

ainda bem que a porta abri
consentindo o invadir do teu amor, do teu encanto
agora a porta está fechada
tá com chave, tramelada, tem só lugar pro teu canto

eu que sonhava toda noite receber aquele açoite de alegria pr’eu cantar
agora sei o quanto vale um grande amor
agora sei a importância de uma flor
eu que pensava todo dia que u’a grande alegria tava por acontecer,
sou bem feliz
e tão feliz que fico rindo do meu lado te sentindo em cada desanoitecer

FERNANDO FARO DEIXOU IMENSO LEGADO DE DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA DA MPB

Por Jotabê Medeiros





Um voz inaudível ao fundo fazendo uma pergunta, um sorriso do entrevistado, uma pausa, uma música à capela para explicar, o som do eco no estúdio compondo a cena, a respiração nervosa ou aliviada do respondedor, close no rosto à moda do faroeste espaguete. O programa "Ensaio", de Fernando Faro, mostrou à TV que a gentileza, a paciência, a delicadeza, o conhecimento sem vaidade e a própria arte são também pertinentes à atividade jornalística, e assim ajudou a desvendar todo um universo afetivo da música popular brasileira.

O criador dessa fórmula de artesanato dentro da indústria, Fernando Faro, o Baixo,morreu na madrugada desta segunda (25) em São Paulo, aos 88 anos. Era um homem da mais tranquila integridade: funcionário da TV Cultura, uma vez escreveu um artigo chamando o recém-chegado novo presidente da emissora, João Sayad, de "cabeça de planilha", e nem assim foi demitido. Abandonou o curso de direito no terceiro ano da São Francisco (faculdade de direito da USP) para seguir o jornalismo. Na sua infância na TV, encenou Salinger e Beckett no programa "Móbile", que desafiou paradigmas e preconceitos para abrir caminho para uma linguagem nova.

Da esq. para a dir., o jornalista e produtor Fernando Faro (sentado), os músicos João do Vale, Fagner e Chico Buarque, em imagem do início dos anos 1980

Sua importância para a documentação histórica da MPB é imensa, uma documentação que reúne cerca de 800 entrevistas e passa de Herivelto Martins a DJ Dolores, de Paulinho da Viola a Edvaldo Santana, Filipe Catto e Céu. Seu programa de TV surgiu na TV Tupi em 1969, já como "Ensaio", depois migrou para a TV Cultura.

Baixo, sergipano de alma e gestos budistas, andava tão lentamente quanto falava. Seus olhos de um azul caramelado criavam instantânea cumplicidade com o interlocutor, e sabia tudo de música, o que tornava tudo mais fácil nos contatos com os artistas: eles não vinham para divulgar nada com Faro, eles vinham para entregar tudo.

Mas Fernando Faro era doce, só que não era Polyana. Colocava também os entrevistados na parede. Frente aos temíveis Racionais MC's, perguntou: "Vocês conhecem Wilson Batista?". Dois deles responderam: "É samba-rock? A gente conhece Jorge Ben, Bebeto, Luis Vagner". Ele forçava assim a convivência entre semelhantes de mundos diferentes, trazendo Cartola e Lecy Brandão para amantes do rock oitentista, e vice-versa. Preconizou uma unidade pelo afeto.

Fernando Faro produziu discos de Baden Powell e o entrevistou três vezes no seu programa. Produziu shows do Projeto Pixinguinha da Funarte. Chamava Cristina Buarque de Hollanda de "Cristininha". Chico Buarque levou Taiguara para ser entrevistado por ele de fusca. Penou quando pegou um monossilábico Milton Nascimento para entrevistar --Milton só respondia "é" ou "não", mas depois se soltou. Tim Maia chegou adiantado para a sua entrevista, quebrando um protocolo famoso. Dirigiu Aracy de Almeida, Vinicius e Toquinho, Eduardo Gudin.

Teve seus fracassos, como na gestão do Museu da Imagem e do Som, que não foi memorável. Passou por quase todas as emissoras de TV existentes, e angariou respeito em todas. Foi publicitário a contragosto, foi repórter de polícia e de Geral. "Teve uma vida produtiva e honrada, mudou o jeito de apresentar a música na TV, abriu espaço para novos talentos, construiu uma rede de amigos impressionante. Houve quem ignorasse seu papel e relevância, mas, a estes, só cabe algum espaço na lata de lixo da história", disse hoje o jornalista e cineasta Paulo Markun.

O inventário da relevância do acervo das intervenções de Faro na MPB ainda está por ser feito. Há uma história contada por seus protagonistas, sem máscaras ou truques, e isso é um legado inestimável. Ele declarou, em entrevista à "Folha de S.Paulo", em 2001, que sua ideia partia do diagnóstico de um campo de futebol numa transmissão pela TV (ele também amava o futebol). "Pegue uma imagem geral de um campo de futebol. Parece que são um bando de marionetes. Os caras não têm rosto, não têm nada. Então, pensei tudo que eu fizer será, no máximo, com plano americano. De resto, só closes. Havia também uma filosofia de chegar muito próximo à pessoa a ponto de ela não ser mais ela, ser uma voz, um depoimento. Além do mais, quando você assiste a um show, vê os olhos as mãos, a boca do artista. Segui isso ao extremo. A pessoa desaparece, fica só a história".

MORRE O CANTOR, INSTRUMENTISTA E COMPOSITOR MARANHENSE PAPETE

Músico, que tinha 68 anos, lutava contra um câncer de próstata.

Ele estava internado em hospital de SP; quadro piorou nos últimos dias.


Papete morreu aos 68 anos, vítima de câncer de próstata (Foto: De Jesus/O Estado/Arquivo)


Morreu no início da madrugada desta quinta-feira (26) aos 68 anos o engenheiro ambiental, cantor e compositor José de Ribamar Viana, o ‘Papete’. Papete lutava contra um câncer de próstata, diagnosticado este ano. O músico estava internado no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e o quadro havia piorado nos últimos dias.

O translado do corpo de Papete para São Luís ocorre ainda nesta quinta-feira, com previsão de chegada à capital maranhense na madrugada desta sexta-feira (27). O velório tem início às 6h, na Casa do Maranhão, região central da cidade; e o corpo de Papete será cremado no fim da tarde.

Pelas redes sociais, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) rendeu homenagens ao artista e destacou o trabalho de Papete. “Minhas homenagens ao querido cantor e compositor maranhense Papete, que nos legou uma grande e imortal obra”, escreveu. Ainda segundo o governador, haverá homenagens nesta sexta-feira e durante os arraiais nos festejos juninos do Maranhão.

Em nota, o governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e Turismo (Sectur), manifestou pesar e se solidarizou com familiares.


Leia, abaixo, a íntegra da nota do governo do Maranhão:
O Governo do Maranhão manifesta pesar e se solidariza com os familiares, amigos e fãs de José de Ribamar Viana, o Papete, falecido na madrugada de hoje (26), aos 68 anos.

Natural de Bacabal, Papete mudou-se para São Paulo ainda jovem, aos 18 anos. Na capital paulista foi consagrado como cantor, percussionista e compositor de reconhecimento nacional e internacional, sem nunca deixar de prestigiar a sua terra natal.

Papete deixa esposa e duas filhas, além de um legado imensurável para a cultura maranhense.

A Prefeitura de São Luís se solidarizou, por meio de nota, com a família do artista e decretou luto oficial de três dias.

Leia, abaixo, a íntegra da nota da Prefeitura de São Luís:
A Prefeitura de São Luís decretou luto oficial de três dias pelo falecimento do cantor, compositor e percussionista José de Ribamar Viana, o Papete, 68 anos, que morreu nesta quinta-feira (26), em São Paulo.

Papete era natural da cidade de Bacabal e marcou época levando a música maranhense para todo país, por meio do disco Bandeira de Aço, em 1978. O cantor foi um dos maiores representantes da música popular maranhense e uma das atrações mais populares da programação dos festejos juninos de São Luís.

O prefeito Edivaldo se solidariza com a família, amigos e admiradores, desejando que Deus conforte os corações, neste momento de dor, transformando-a em fé e esperança.


Outras manifestações

A ex-governadora do Maranhão, Roseana Sarney, lamentou a perda do instrumentalista e reconheceu seu destacado trabalho pela cultura do Maranhão.

“O Brasil perde um grande artista. Músico, percussionista de fama internacional, compositor e intérprete, nos deu grandes canções e tornou inesquecível a festa junina, especialmente aqui no Maranhão. Meu amigo pessoal, hoje é um dia de muita tristeza para mim e para todos que com ele conviveram. Que Deus conforte a família, os amigos, e que Papete siga em paz.”, disse.

Artistas também lamentaram a morte de Papete e renderam homenagens ao artista. Veja, abaixo, algumas delas:

“É com muito pesar que comunico o falecimento do nosso querido amigo, músico (percussão) e compositor, Papete aos 68 anos”
Paulinho Pedra Azul, cantor e compositor mineiro

“Que Deus o tenha e conforte seus familiares, Papete”
César Nascimento, cantor e compositor

“Meu querido amigo, muito obrigado por todos os ensinamentos e pela sua amizade. O São João nunca mais será o mesmo. Grande beijo e descanse em paz”
Carlão, baterista

“Mais um ícone da música popular brasileira, maranhense de Bacabal, nos deixa e torna esta quinta-feira um tanto tristonha. Neste dia, especial, em que se comemora e celebra-se o mistério da eucaristia, rogo ao nosso Senhor Bom Deus que receba ‘Papete’ e o conduza à vida eterna. Por aqui ficaremos saudosos e o reverenciando através da sua grande obra musical”
Welligton Reis, compositor

“Obrigado Papete por tudo que você fez por mim e pela cultura brasileira! Vai fazer muita falta pra cultura do Maranhão. Hoje é um dia muito triste”
Luís Júnior, violonista

“Hoje meu por do sol mais bonito será pra Papete Viana. Esse amigo tão querido que a música me deu. Cantamos juntos, tocamos juntos. Isso não tem preço. Meu amigo, descanse em paz. Um pouco do Maranhão se vai no som dos seus tambores”
Milla Camões, cantora

“Vá em paz meu amigo”
Alê Muniz, cantor e compositor

“Vai em paz, meu amigo. Você merece todas as devidas homenagens. Grande artista e Grande pessoa”
Alberto Trabulsi, cantor e compositor

“Sem palavras aqui... Mas preciso arrumar uma forma de falar... São 30 anos de trabalho, shows, turnês, discos, horas intermináveis de studio, estrada... Não tenho como falar da minha vida musical sem falar de Papete Viana... Antes de tudo obrigado pelas lições de musicalidade, sonoridade, sofisticação e muita simplicidade... Pelas lições de vida”
Edinho Bastos, guitarrista

Trajetória

Papete nasceu em Bacabal – a 240 km de distância da capital –, e é uma das principais referências do São João do Maranhão, com canções e composições que marcaram gerações, como ‘Bela Mocidade’, ‘Boi da Lua’ e ‘Coxinho’. Seu trabalho mais destacado é ‘Bandeira de Aço’.

Papete foi reconhecido um dos melhores percussionistas do mundo, nos anos de 1982, 1984 e 1987, quando participou do ‘Festival de Jazz de Montreux’, na Suíça


Fonte: G1 MA.

ZÉ DI, 80 ANOS



Nome Completo: José Dias


Paulista de Mogi Mirim (SP), Zé Di é um compositor e intérprete que, além do samba enredo, também passeia por outras searas musicais: ele apareceu no cenário musical em 1963 com a música “Mil desejos”, classificada em segundo lugar no Festival de Música Infantil, da TV Excelsior. Compôs com Luiz Vieira “Caminhos do amor” e “Escola da vida”, esta última, gravada em 1965, por Hebe Camargo. Ainda nos anos 1960, o ecletismo era característica de sua obra e Zé Di entrou de cabeça nos festivais, muito em voga naquela década. Foi vencedor dos festivais 1º Festival da Música Sertaneja (66), da TV Paulista; e do Festival da Agroceres (88); 2º lugar do Festival da Música Infantil (67), entre outros prêmios.

No mundo do samba, começou a ter destaque em 1971, quando a escola de samba Vai-Vai desfilou com o samba-enredo “Independência ou morte”, de sua autoria. No ano seguinte, a escola voltou a desfilar com outro samba seu, “Passeando pelo Brasil”. Mas o paulista resolveu aventurar-se em terras cariocas e acabou chegando à ala de compositores da Acadêmicos do Salgueiro. Concorreu e venceu a disputa que escolheu o samba para o enredo "Rei de França na Ilha da Assombração", com a qual o Salgueiro foi campeão no carnaval de 1974. Zé Di e Laíla puxaram o samba na Avenida Presidente Vargas. Neste mesmo ano, lançou o LP "Zédi... samba", pela gravadora Tapecar, no qual estavam as faixas “Independência ou morte”, “Salgueiro chorão” e, claro, o “Rei de França...”.

No ano de 1976 gravou pela Tapecar seu segundo LP, "Meu recado". Na bolacha, interpretou compositores como Norival Reis, Vicente Mattos, Luiz Grande, entre outros. Em 1978 apresentou com Nelson Cavaquinho o show "Brasileiríssimo". No ano seguinte, em parceria com o amigo Luiz Vieira, fez show no Copacabana Palace.

Em meados de 1979, a diretoria do Salgueiro anunciou, para o carnaval de 1980, um enredo sobre Lamartine Babo. No entanto, uma crise financeira e uma crise de gestão fizeram com que a escola modificasse o tema a poucos meses antes do desfile. A toque de caixa, a ala de compositores foi convocada para fazer o samba que iria ser a trilha sonora para o novo enredo “O bailar dos ventos, relampejou, mas não choveu”. Um mutirão formado por Zé Di, Zuzuca, Moacir Cimento e Haideé resultou na composição que ajudou o Sal a classificar-se em 3º lugar naquele ano difícil. Dois anos depois, Zé Di novamente concorria no Salgueiro, desta vez para o tema “No reino do faz-de-conta” e novamente seu samba foi o escolhido, em parceria com César Veneno. Como o puxador titular Rico Medeiros encontrava-se em viagem à Europa, foi Zé Di o detentor do microfone número 1 na ocasião do desfile. Em 1986, ainda pela gravadora Tapecar, lançou o disco "Muito obrigado".

A partir daí, Zé Di passa a lançar discos esporádicos, a fazer shows e prossegue concorrendo nas disputas da Academia. Em 1993, gravou “Rei de França na Ilha da Assombração” no CD referente ao Salgueiro na coleção Escolas de Samba do Rio de Janeiro, lançada pela Sony Music, com produção de Rildo Hora.


Início: Ala de compositores da Vai-Vai (SP), no final dos anos 60. No início dos anos 70, ingressou na ala de compositores do GRES Acadêmicos do Salgueiro.
1974 – Salgueiro (com Laíla e Noel Rosa de Oliveira)
1982 – Salgueiro


GRITO DE GUERRA: Zé Di é da época em que o grito de guerra não era comum entre os puxadores de samba. Mas na gravação do LP em 1982, seu grito de guerra foi: Deslumbra, Salgueiro!

CACOS DE EMPOLGAÇÃO: Não tinha muitos cacos. Preferia fazer a chamada com a primeira palavra do verso do samba. De vez em quando, nas gravações, apareciam também "alô bateria, segura", "simbora Salgueiro", “vai”, “geral!” (referindo-se para o coral entrar na repetição de um verso do samba).

SAMBAS DE SUA AUTORIA: “Independência ou morte” (Vai-Vai/1971), “Passeando pelo Brasil” (Vai-Vai/1972); “Rei de França na Ilha da Assombração” (Salgueiro/1974, com Luiz Malandro); “O bailar dos ventos, relampejou, mas não choveu” (Salgueiro/1980, com Zuzuca do Salgueiro, Moacir Cimento e Haideé); “No reino do faz-de-conta” (Salgueiro/1982, com César Veneno).


DISCOGRAFIA:
- Zé Di... samba (1974)
- Meu recado (1976)
- Muito obrigado (1986)
- Coleção Escolas de Samba do Rio de Janeiro – CD Acadêmicos do Salgueiro (1993)
- Zé Di (2002)
- Encontros (2010)



Fonte: Samba Rio Carnaval

quinta-feira, 26 de maio de 2016

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*



Canção: Talvez seja real

Composição: Geraldo Azevedo e Fausto Nilo

Intérprete - Ana Fonteles

Ano - 1990

Álbum: Ana Fonteles



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

PAU DE SEBO, HISTÓRICA SÉRIE DE FORRÓ, GANHA CAIXA COM CINCO CDS


Por José Teles 



A Sony Music lançou caixa com cinco CDs da série Pau de Sebo, saídos originalmente entre 1967 a 1971, com nomes da segunda geração do forró, a que surgiu lodo depois de Luiz Gonzaga. A alguns destes artista ele ajudou a deflagrar carreiras, como aconteceu com o casal Marinês e Abdias, que até se hospedaram na casa do Rei do Baião quando vieram de Campina (PB), para o Rio, na segunda metade dos anos 50.

O álbum que estreou a série, em 1967, é primoroso. Tem Abdias, Marinês, Trio Nordestino, Jacinto Silva, Osvaldo Oliveira, e o Coroné Ludugero. Destes, apenas o Trio Nordestino ainda continua em atividade, mas sem nenhum dos três integrantes originais, Lindú, Coroné e Cobrinha, já falecidos (entre 1982 e 2005). O Coroné Ludugero, hoje pouco lembrado, foi um dos maiores fenômenos de popularidade do Norte e Nordeste nos anos 60. Cantor e comediante (com textos escritos por Luiz Queiroga, o patriarca da Queirogada, também precocemente falecido), surgido no rádio em Caruaru, virou uma lenda.

Osvaldo Oliveira é outro igual e injustamente esquecido. Os que tanto cultuam a música do Pará, até mesmo os paraenses, parece que o ignoram. Oliveira (falecido em 2010) seguia a escola de fraseado suingado de Jackson do Pandeiro. No final da década, assim como o conterrâneo Ari Lobo, se voltou para os ritmos de sua terra (é o interprete do merengue A Deusa do Mercado São José, pelo visto tudo que as novas gerações conhecem dele).

O alagoano Jacinto Silva (1933/2001) foi resgatado no final da carreira por Zé da Flauta, que o produziu, e Silvério Pessoa que gravou um disco inteiro, Bate o Mancá (2000) com cocos, e rojões pinçados da sua obra.

O Trio Nordestino, modelado no formato criado por Luiz Gonzaga, foi o principal de todos os trios que ainda hoje animam arrasta-pés país afora. Marinês (1935/2007), a Rainha do Xaxado, competia com Luiz Gonzaga em popularidade e vendas, deixou dezenas de clássicos, e Abdias (1933/1991) foi o mais popular dos tocadores de oito baixos, além de ser um empreendedor, que aglutinava forrozeiros e compositores em torno dele na CBS.

O Pau de Sebo de 1968, repete o elenco, quase os mesmos compositores (Onildo Almeida, Antônio Barros, Juarez Santiago, Jacinto Silva). porém é ainda mais direcionado para o período junino, com quase todo o disco centrado nas marchinhas de roda, hoje quase esquecidas. No acompanhamento se vai além do básico, zabumba, triângulo, e sanfona. Marinês canta Aproveita Pessoá (Juvenal Lopes), com violão caprichando na baixaria, flauta (provavelmente do alagoano João do Pife, e tuba). É deste LP um dos maiores clássicos nordestinos, Naquele São João (Antonio Barros), com O Trio Nordestino (Eu Fiquei tão triste/eu fiquei tão triste/naquele São João”)

O mesmo time foi escalado nas edições de 1969 e 1970. Em 1971, houve algumas alterações. Luis Jacinto, o Coroné Ludugero, faleceu (com 41 anos), com quase toda sua trupe, em um acidente aéreo em 14 de março de 1970, no Pará. Imediatamente surgiram vários imitadores. O Coroné Ludru foi o que mais se aproximou do original, inclusive com textos e músicas de Luiz Queiroga. Ele integrou o Pau de Sebo de 1971, que traz ainda como novidades Jackson do Pandeiro, João do Pife, tocando solo, Elino Julião.

Curioso é que o projeto Pau de Sebo não resvalou para o duplo sentido que a partir de 1969 tomou conta do forró, e andou de braços dados com a grossura em meados dos anos 70. Pouca conhecem a obra de, por exemplo, Genival Lacerda ou Zenilton antes do duplo sentido. A série chegou até o começo da década de 80, já sem a mesma força.

A primeira série de forró foi da Rozenblit, que começou em 1958, o Viva São João, com Mêves Gama, Toinho da Sanfona, e Jair Pimentel, entre outros. Nas edições seguintes entrariam Genival Lacerda, Carlos Diniz, Jacinto Silva, Onildo Almeida, e Luis Jacinto, o Coroné Ludugero. Mas aí é outro capítulo do forró que merece e precisa ser resgatado. Outras gravadoras também séries começaram séries assemelhadas antes da CBS.

Porém foi esta gravadora, que fez mais sucesso com este tipo de compilação, na qual tinha uma antecessora campeã de vendagem, a série As 14 Mais, iniciada em 1960, com rock baladas, boleros, bossas novas, e que foi dominada pela turma da Jovem Guarda entre 1965 e meados dos anos 70. O Pau de Sebo recebia o mesmo tratamento, e ainda ia mais longe, literalmente. Os artistas que participavam do projeto, viajavam pelo Brasil, sobretudo pelo Norte e Nordeste, em caravana.

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Primeiro disco de um dos maiores compositores da música popular brasileira completa meio século.




"Pouco tenho a dizer além do que vai nestes sambas. De "Tem mais samba" a "Você não ouviu" resumo 3 anos da minha música. E nestas linhas eu pretendia resumir a origem de tudo isso. Mas o samba chega à gente por caminhos longos e estranhos, sem maiores explicações. A música talvez já estivesse nos balões de junho, no canto da lavadeira, no futebol de rua...
É preciso confessar que a experiência com a música de "Morte e vida Severina", devo muito do que aí está. Aquele trabalho garantiu-me que melodia e letra devem e podem formar um só corpo. Assim foi que, procurei frear o orgulho das melodias, casando-as, por exemplo, ao fraseado e repetição de "Pedro pedreiro", saudosismo e expectativa de "Olê, olá", angústia e ironia de "Ela e sua janela", alegria e ingenuidade de "A banda" etc. Por outro lado a experiência em partes musicais (sem letra) para teatro e cinema, provou-me a importância do estudo e da pesquisa musical, nunca como ostentação e afastamento do "popular", mas sim como contribuição ao mesmo.
Quanto à gravação em si, muito se deve à dedicação e talento do Toquinho, violonista e amigo de primeira. Franco e Vergueiro foram palpiteiros oportunos, Mané Berimbau com seus braços urgentes foi um produtor eficiente, enquanto que Mug assistiu a tudo com santa seriedade. Enfim, cabe salientar a importância do limão galego para a voz rouca de cigarros, preocupações e gols do Fluminense (só parei de chupar limão para tirar fotografias. Sem mais, um abraço e até a próxima."
(Chico Buarque)



Faixas:
01 - A Banda
02 - Tem Mais Samba
03 - A Rita
04 - Ela e Sua Janela
05 - Madalena Foi Pro Mar
06 - Pedro Pedreiro
07 - Amanhã Ninguém Sabe
08 - Você Não Ouviu
09 - Juca
10 - Olê, Olá
11 - Meu Refrão
12 - Sonho de um Carnaval

quarta-feira, 25 de maio de 2016

VÔTE... ESCUTA SÓ: DÉCIMA SEMENTE

Por Paulo Carvalho



Zeto em São José do Egito

Com esta Décima Semente, encerramos ente ciclo sobre Zeto. Outras postagens surgiram oportunamente, de outras épocas, em outros locais. 
O texto de hoje é de um jornalista, um profissional na arte de escrever, um ótimo resumo da vida de Zeto. 
A memória de Zeto do Pajeú
Por Ítalo Rocha Leitão, no Jornal do Commercio
Há dez anos morria o poeta José Antônio do Nascimento Filho, o Zeto do Pajeú, que ganhou fama quando, depois do golpe de 64, Miguel Arraes voltou ao Brasil e venceu as eleições para governador de Pernambuco, em 1986. O protesto contra os militares que destituíram e exilaram Arraes ecoou na voz e na viola de Zeto: "Volta Arraes ao Palácio das Princesas, vai entrar pela porta que saiu". Esses versos foram repetidos inúmeras vezes do Sertão ao cais e se tornaram o símbolo do retorno de Arraes à cadeira de governador. 
Zeto nasceu em Canhotinho, no Agreste. Aos cinco anos se mudou com a família para Caruaru e na adolescência veio para o Recife. Em abril de 1986, durante uma viagem a São Paulo para participar de um congresso do Partido Comunista, conheceu a cantora Bia Marinho. Ela lhe abriu não só o coração, mas também o caminho do Pajeú e da fama. Em poucos dias de namoro, se apaixonaram. Foram morar juntos em São José do Egito, terra do pai dela, Louro do Pajeú, e surgiu a gravidez do primogênito, Antônio Marinho - que seguiu a trilha poética do pai. Para seguir uma tradição sertaneja, o casal combinou que Zeto teria que pedir ao pai dela a permissão para o casamento.
Sentados em círculo na sala da casa da família de Bia, Zeto abriu o discurso. Mas de nada adiantaram os ensaios. Cada vez se enrolava mais e não saia nada compreensível. Bia interveio: "Pai, ele quer pedir minha mão". Louro do Pajeú, poeta maior da região, com aquela sabedoria secular do sertanejo, olhou para o pretendente e disparou com um sotaque nordestino bem carregado: "É só o que falta ela te dar". A família caiu na gargalhada e começava ali uma longa história de amizade entre os dois poetas. A primeira doação do sogro ao genro, além do verso da volta de Arraes, foi o sobrenome. A partir de São José do Egito, passou a ser chamado de Zeto do Pajeú. 
Apaixonado por poesia e por música, logo se adaptou à nova moradia, que já era conhecida como a terra dos poetas. Religioso, costumava rezar e ir á missa todos os domingos. Pai zeloso, acordava com o dia ainda escuro para preparar as refeições da família e levar os três filhos à escola (Antônio, Miguel e o enteado Greg). Na música, apreciava os cantores regionais, mas não deixava também de curtir Caetano, Jorge Mautner, Gil, Vicente Celestino - Zeto interpretava com maestria o Ébrio. 
Na poesia, conhecia e gostava dos versos de poetas como Baudelaire, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos. Na esteira do poeta paraibano, também deixou uma única obra, o CD Curvas, gravado em apenas quatro horas, sem intervalo, num estúdio do Poço da Panela, no Recife. Na gravação, Zeto conversa, afina o violão, declama e canta. Há pouco tempo, Yamandu Costa fez uma revelação: "Na hora de cozinhar, gosto de ouvir o disco de Zeto". 
Às quatro horas da tarde do dia 14 de outubro de 2002, aos 46 anos, o poeta, que era como costumava chamar todo mundo, deu seu último suspiro e partiu para a eternidade. No seu enterro, em Canhotinho, tendo como testemunhas parentes, amigos, filhos, poetas e bêbados, o filho Antônio Marinho declamou versos de Augusto dos Anjos e a companheira Bia Marinho foi buscar nos versos de Vinicius de Moraes a senha para a despedida: "Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, a cada despedida eu vou te amar....". Terminava assim, de forma precoce, a história de um homem que dedicou toda a sua vida à música e à poesia.

*Ítalo Rocha Leitão é jornalista


Zeto e Bia 



Zeto - Cantar de Godofredo Guedes

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