PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

INTUITY BORA BORA JANGA

Siga a sua intuição e conheça aquela que vem se tornando a marca líder de calçados no segmento surfwear nas regiões tropicais do Brasil. Fones: (81) 99886 1544 / (81) 98690 1099.

GUTO GOFFI E UM BANDO PRA LÁ DE MUSICAL

Baterista do Barão Vermelho apresenta álbum que traz inédita de Plínio Araújo, baterista e um dos fundadores da Orquestra Tabajara.

SENHORITA XODÓ

Alimentos saudáveis, de qualidade e feitos com amor! Culinária Brasileira, Gourmet, Pizza, Vegana e Vegetariana. Contato: (81) 99924-5410.

BELEZA, VOZ, VIOLÕES E TALENTO

Em seu primeiro disco, a cantora e instrumentista carioca Alice Passos apresenta uma verdadeira antologia ao violão brasileiro.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sábado, 31 de maio de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (O AMOR CANTADO EM RISOFLORA POR CHICO SCIENCE REVELA UM SEGREDO AINDA 20 ANOS DEPOIS)

Canção é a única de amor do disco Da lama ao caos. O mistério de Risoflora ficará para sempre guardado no mangue

Por Valentine Herold



Em meio a tantos versos políticos de revolta social, Da lama ao caos abarca, em sua 11° faixa, uma das mais lindas mensagens de amor: Risoflora. Mas a flor que nasceu no meio do mangue e foi retratada por Chico Science como símbolo de carinho e arrependimento fez brotar uma curiosidade: o mistério de quem seria a verdadeira Risoflora.

Ex-namorada de Chico, a designer Maria Duda Belém acompanhou o início da Nação Zumbi, o antológico show da primeira edição do Abril Pro Rock e viajou com a banda para o Rio de Janeiro na época da gravação do álbum. A história de amor entre Duda e Chico teve início no começo da década de 1990. O compositor e sua flor tinham uma diferença de idade de cerca de sete anos. Ele morava na Rua da Aurora e foi no apartamento à beira do Rio Capibaribe que os dois se conheceram. O elo entre o mangueboy e a sua manguegirl foi uma amiga em comum que levou Duda à festa de inauguração da nova moradia de Chico e alguns amigos.

Mas é necessária uma volta no tempo para entender que, assim como as raízes entrelaçadas do manguezal, o amor e a paixão são complexos – vão e voltam, se misturam. Em 1991, Chico conheceu Renata Pinheiro. Também alguns anos mais nova do que ele, a jovem atriz foi a um show em Candeias do pouco conhecido grupo que se chamava Chico Science & Lamento Negro. “Fiquei impressionada com a qualidade das músicas, das letras políticas e poéticas. Nos conhecemos melhor naquela noite”, relembra Renata. A conexão ficou estabelecida e a relação entre os dois continuou de andada, que nem o caranguejo quando sai da toca para encontrar sua “cara metade” pelo mangue. Chegou o ano de 1992 – o mesmo da publicação do manifesto Caranguejos com cérebros – e com ele, o Carnaval. Uma festa que, nas palavras de Renata, “misturava suor, música, amor e despedida.” Na sequência, o espetáculo no qual ela atuava viajou para Portugal, onde ficou alguns meses em cartaz. 

Tempos depois, Chico e Maria Duda engatavam um namoro. “A gente terminou e eu fui passar cerca de um mês de férias na Bahia. Quando voltei, Chico me entregou a letra de Risoflora e cantou para mim. Foi muito bonito”, narra Duda, recordando também o pouco jeito do rapaz com o violão. Depois disso, começaram a namorar. “Ele era um cara muito atencioso e carinhoso. Tinha um caderninho e compunha no ônibus. Admiro muito a capacidade que ele tinha de colocar a marca dele com poucos recursos, e a fé em seu próprio taco.” 

Enquanto isso, Renata trabalhava em um café em Amsterdam, onde morou por um ano, após a temporada em Portugal. Foram 12 meses de muitas transformações e amadurecimento. Quando voltou ao Recife, Chico Science já estava acompanhado da Nação Zumbi e Risoflora vinha sendo tocada nos shows. “Perguntei se ele havia escrito para mim. Ele logo respondeu, num tom reativo: ‘Essa música fiz para todas as minhas manguegirls’.”

“Foi uma linda história de amor. Tenho muitas cartas de Chico.Risoflora é uma música que me sensibiliza muito ainda”, conta Duda, que, depois da morte de Chico, prometeu colocar o nome do filho de Francisco; filho este que realmente veio a parir anos mais tarde. O pai é um artista argentino cujo desejo também era ter um filho Francisco. Coincidências da vida.

O romance de Duda com o cantor durou pouco mais de dois anos. Segundo José Teles, crítico de música e testemunha ocular da cena mangue, durante este período Chico mostrou a ele a canção e disse que a tinha escrito para sua namorada. No caso, a própria Duda. 



Veja letra na íntegra:

"Eu sou um carangueijo e estou de andada/ Eu quero gostar

E quando estou um pouco mais mais junto eu quero te amar/ E aí te deitar de lado como a flor que eu tinha na mão/ E a esqueci na calçada só por esquecer

Apenas porque você não sabe voltar pra mim

Oh isoflora ! Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar

Oh Risoflora ! Não vou dar mais bobeira entro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só

Eu sou um carangueijo e quer gostar /Enquanto estou um pouco mais junto eu quero te amar

E acho que você não sabe o que é isso não/ E se sabe pelo menos você pode fingir

E em vez de cair em tuas mãos preferia os teus braços/ E em meus braços te levarei como uma flor

Pra minha maloca na beira do rio, meu amor !

Oh Risoflora ! Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar

Oh Risoflora ! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só"

terça-feira, 27 de maio de 2014

SOB A ÉGIDE DA VIOLA, GONZAGA LEAL ATEMPORALIZA-SE EM SINTONIA COM A SAUDADE

Após um hiato de três anos, Gonzaga Leal volta ao mercado fonográfico com "De mim", álbum que conta com adesão de nomes como Marília Medalha, Cida Moreira e Jaime Alem

Por Bruno Negromonte




Em 1993 chegava às lojas de todo o Brasil mais um álbum do cantor e compositor carioca Chico Buarque cujo uma das faixas, intitulada "tempo e artista", descrevia a relação entre a arte e o constante movimento dos ponteiros. Em dado momento da terceira faixa do disco que é considerado, pela crítica especializada, como o melhor disco do artista ao longo da década de 1990, Chico entoa versos como "(...) Imagino o artista num anfiteatro... Onde o tempo é a grande estrela (...) " ou "(...) Já vestindo a pele do artista... O tempo arrebata-lhe a garganta (...)" entre outras frases que hoje, mais de duas décadas após o lançamento, substanciam de maneira bastante vivaz este novo projeto do produtor, cantor (e agora compositor) Gonzaga Leal. Nascido no sertão pernambucano, mais precisamente em Serra Talhada, o artista que foi aluno do Conservatório Pernambucano de Música (onde estudou técnica e teoria musical) vem desenvolvendo um trabalho bastante coerente desde a sua estreia no mercado fonográfico em 2000 com o título "O olhar brasileiro". Desde então vem desenvolvendo os mais diversos trabalhos ao lado de alguns dos principais nomes da cena musical pernambucana e nacional. Com mais de 30 anos de carreira, Leal traz uma vasta bagagem antes mesmo do seu debute em disco, somando relevantes parcerias nos palcos de todo o país assim como também fora deles. Após dar início a sua seleta discografia as parcerias aumentaram qualificamente, enumerando registros ao lado de nomes como Naná Vasconcelos, Francis e Olivia Hime, Alaíde Costa, Ná Ozetti entre outros; e neste oitavo álbum intitulado "De mim" o contexto, além de contemplativo e confessional, não destoando dos anteriores, trazendo para esta celebração a viola como protagonista e a saudade como enredo maior. 





Tendo o tempo como tema recorrente, as quinze canções presentes apresenta um intérprete imbuído de muita pessoalidade. Prova disto é "Da saudade" (Públius), canção considerada o cerne deste projeto é que chegou as mãos de Gonzaga quando ele encontrava-se na Europa sentindo falta do seu torrão, amigos entre outras coisas. Já e"Água serenada" (Déa Trancoso"Arco do tempo" (Paulo César Pinheiropor exemplo, a condescendência do artista ao seu tempo biológico se dá através de frases como "Eu não canto do jeito que eu já cantei... Bebi água serenada, até a voz eu mudei" ou "Em qualquer ponto do tempo... Eu passo e finco meu marco...". O tempo ainda chega em duo com Cida Moreira através da canção "A janela da casa do tempo" (Públius e Xico Bizerra). Do carioca Mário Travassos gravou "Palavra doce(gravada originalmente em forma de samba-canção pelo cantor Mário Reis em 1960 e agora ganha adornos de música caribenha). Vale observar nesta faixa o quanto se assemelham os timbres entre os dois intérpretes. Da cena musical paulista o pernambucano pincelou nomes como Virgínia Rosa ("Vou na vida" parceria com Swamy Jr.); Luiz Tatit e Fabio Tagliaferri (que assinam "Show"); o disco ainda conta com outros nomes conhecidos pelo grande público como Adriana Calcanhoto Altay Veloso que assinam, respectivamente, as faixas "Você disse não lembrar" e "Canção de adeus". A faixa "Vôo cego" (Lula Yuri Queiroga) conta com Marília Medalha, que volta aos estúdios de gravações depois de anos afastada. A cantora e compositora ainda participa da canção de domínio público "Deusa da Lua", que foi adaptada pelo próprio Leal. Outra faixa assinada por Gonzaga (ao lado de J. Velloso e Guito Argoloé "Sonho imaginoso", canção que busca retratar toda a afabilidade que o artista busca através das mais diversas minúcias. Outras faixas presentes são "Calmaria" (J. Velloso), "Colarzinho de pedra azul" (Junio Barreto), Sina de passarinho" (Bruno LinsManoel Filó e Tonzinho), "Ainda bem que eu trouxe a viola" (Juliano Holanda) e "Que falem de mim" (Bidú Reislançada pela saudosa Ademilde Fonseca, nos idos anos de 1959.
"De mim" conta com as participações especiais de nomes como Jaime Alem J. Velloso (além dos talentosos conterrâneos Juliano Holanda e Públius) tem o design gráfico assinado por Tânia Avanzi e a direção fotográfica de Helder Ferrer e do próprio Leal. É válido também o registro de que o disco foi gravado, mixado e masterizado nos estúdios Musak e Carranca (ambos em Recife) sob produção musical, direção musical e regência de Cláudio MouraConcepção, o repertório e a direção artística ficou a cargo do próprio artista com arranjos dos músicos Adilson BandeiraMauricio CezarNilson Lopes Marcos FMDentre os responsáveis pela tessitura do disco a ficha técnica conta, entre outros, com nomes como Daniel Coimbra (cavaquinho), Caca Barreto (contrabaixo acústico), Julio Cesar (acordeon), Ricardo Freitas (bateria), Adilson Bandeira (sax soprano, clarinete e clarone), Hugo Lins (viola dinâmica), Rafael Marques (bandolim), Fabiano Menezes (violoncelo), Mauricio Cezar (piano), Alex Sobreira (violão 7 cordas), Breno Lira (guitarra semiacústica) e nas percussões Lucas dos PrazeresGeorge Rocha e Tomás Melo, elencando de modo substancioso este disco nada prosaico e que nasceu quando um Gonzaga reflexivo e saudoso encontrava-se longe de sua terra deixando-se dominar pelo irrevogável desejo de voltar as suas origens.

Mesmo que tempo, como diria o poeta, com seu lápis impreciso ponha-lhe rugas ao redor da boca como contrapesos de um sorrisoGonzaga Leal sabe serenamente aliar-se a ele, deixando-lhe que o mesmo componha seu destino sem nunca deixar de adequar-se condescendente a esse inexorável contexto. Resoluto, Leal traz a prova documental que ele tem o seu próprio tempo e este parece estar longe das formais convenções. Em seu agora o artista pernambucano abarca, de modo sereno e astucioso, o futuro e o passado. Sua arte não delimita-se e nem faz concessões e procura trazer impregnada em sua gênese a mais profunda verdade acompanhado por um rigor estético que vem do seu âmago e que agora apresenta-se de modo mais intenso como pode-se observar em "De mim", um projeto que suplantou desejos maiores e fez com que a impulsividade do agora aliasse-se de modo reflexivo as mais diversas reminiscências. Astuto, Gonzaga sabe como contemplar a saudade adequando-se serenamente ao tresloucado tic-tac do relógio, permitindo-se pertinente e propícia condição para a atemporalidade. Senhor do seu tempo Gonzaga Leal  consegue imergir em cada segundo e dele tirar o seu melhor através da sapiência e disciplina, adjetivos que só ele, o tempo, é capaz de nos trazer. Nos percalços do passar das horas talvez haja avarias, no entanto o artista mostra que ao nos permitir, de modo complacente, encarar a frenética ampulheta do tempo tudo se atenua.


Maiores Informações:
Leal Produções Artísticas Ltda.
Rua Raul Lafayette, 191 - sala 403
Boa Viagem - Recife - PE
CEP: 51021-220

Fone/fax: (81) 3463.4635 e 8712.5110

Site Oficial - http://www.gonzagaleal.com.br/

Youtube (Canal) - http://www.youtube.com/user/gonzagaleal1

E-mail - http://www.blogger.com/leal-producoess@hotmail.com

Myspace - http://www.myspace.com/gonzagaleal2

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O álbum pode ser encontrado nos seguintes endereços:


Leal Produções Artísticas - Fone/fax: (81) 3463-4635








Salvador: Pérola Negra - Fones: 71 3243-1432/3336-6997

Belo Horizonte: Disco Play - Rua Tupis, 70, Centro - Fones: 31 3222-0046/3271-4897

Fortaleza: Loja Desafinado - Av. Dom Luiz, 655,Lojas 2 e 3 - Fones: 85 3224-3853/3224-7774

segunda-feira, 26 de maio de 2014

MÚSICA, ÍDOLOS E PODER (DO VINIL AO DOWNLOAD) - PARTE 48



CAPÍTULO 48 

Voltei para Nova York, onde mais viagens pelo mundo me esperavam. Porém, eu regressava sempre com muita alegria ao chegar ao meu tranquilo apartamento e ao meu confortável escritório, do qual eu podia ver durante os meses de novembro e dezembro a gigantesca árvore de Natal toda iluminada, que tanto simboliza o início das festas de fim de ano em NovaYork. 

Eu supervisava 14 companhias, tinha uma pequena e jovem equipe de cinco pessoas, três delas músicos; uma excelente, talentosa e querida gerente de marketing cubana, Maribel Schumacher; um administrador inglês, Roger Tagg; e, claro, eu tinha acesso a toda a infra-estrutura da Warner Music, quando necessário. Contrariando os prognósticos, acabei me sentindo muito à vontade na silenciosa vida corporativa. 

O ritmo de trabalho era intenso, mas calmo. E essa calmaria era necessária porque era a mim que chegavam as más notícias. E eu precisava ter serenidade para encará-las e resolvê-las, uma atrás da outra: apenas evitar os fracassos não era o suficiente, porém já era meio caminho andado para o sucesso. 

As reuniões anuais do board eram sempre em novembro, numa ampla sala de reuniões, no 30° andar do prédio, que acomodava confortavelmente umas quarenta pessoas. Eu e meus colegas tínhamos — cada um — um dia inteiro para comentar a situação política e financeira das regiões sob nossa responsabilidade, apresentar os resultados de vendas e o lucro do ano findo, e responder a uma infinidade de indagações relacionadas às previsões de desenvolvimento e às solicitações de investimentos que pretendíamos fazer no ano seguinte. 

Ted Turner, casado na época com Jane Fonda, tem quase dois metros de altura. É insolente, irreverente, desajeitado, e havendo vendido seu conglomerado de comunicação, do qual fazia parte a CNN, à Time Warner, tornou-se um importante acionista da corporação e membro do board. Ao constatar que meus resultados financeiros cresciam espetacularmente, assim como minhas demandas para investimentos, numa dessas reuniões anuais me interpelou com seu jeito texano de cowboy: 

— André, não adianta você nos explicar mais detalhadamente... Não entendemos nada dos seus territórios. Portanto, você pode fazer o que quiser. Porém lembre-se de que, de cada dólar que você investe, dez centavos são meus. Por favor, cuide bem desses meus centavos! 

Naquele final de dia, com todos os meus resultados e projeções aprovados, e tendo recebido elogios do board, desci até o andar onde ficava o meu escritório — àquela hora, deserto —, entrei na minha sala, coloquei uma música clássica, apaguei as luzes, olhei pela janela em direção à arvore de Natal, toda iluminada, e me lembrei, com emoção, daquele “Midanizinho” de quarenta anos atrás, sentado num saco de açúcar em uma confeitaria de Paris, desesperado por não encontrar uma porta para escapar da triste situação na qual vivia... 

A comunidade latina crescia assustadoramente e já representava 12% de toda a população dos Estados Unidos. A grande maioria era de mexicanos, seguida de porto-riquenhos, cubanos, colombianos, venezuelanos etc. O crescimento era tão rápido que os prognósticos oficiais previam que essa população ultrapassaria, em breve, a afro-americana. Essa invasão celebrada no México como uma reconquista paulatina, pacífica e sem derramamento de sangue dos territórios roubados pelos americanos em 1848, em nome do petróleo, era vista com perplexidade pelo governo dos Estados Unidos, que, sem ter ainda integrado harmoniosamente o contingente afro-americano, deparava-se com a inclusão de mais uma comunidade que, não satisfeita de invadir a Califórnia, o Texas e a Flórida, infiltrava-se rapidamente em Nova York, até então domínio dos porto-riquenhos, e em Boston, refúgio dos portugueses. 

As duas estações de rádio de maior audiência em Los Angeles eram mexicanas. Duas redes de televisão, uma cubana e a outra mexicana, já transmitiam de Miami para o resto do país. Jornais e revistas em espanhol cobriam o sul. E as agências de publicidade desenvolviam campanhas dirigidas exclusivamente para o mercado latino. 

Tendo a etiqueta de especialista do mundo latino dentro da Time Warner grudada na testa, acabei também encarregado de representar todos os meus territórios diante da HBO, da Warner Bros. Filmes e da Warner Records, a fim de investigar e promover co-produções para o mercado norte americano. 

Minha primeira visita foi à Warner Bros. Filmes, em Los Angeles. Foi marcado um almoço no Beverly Hills Hotel, que tradicionalmente foi, e ainda é, o centro do mundo das ilusões cinematográficas, onde só se aceitam riquezas e brilhos, onde as paredes estão cobertas por fotografias em preto-e-branco autografadas pelas grandes estrelas do passado, como Buster Keaton, Charlie Chaplin, Grace Kelly, Marilyn Monroe, James Dean, Marlon Brando e outros... Enfim, o lugar onde a história do cinema foi escrita. 

Terry Semmel — o então presidente da Warner Bros. Filmes —, seu assistente e sua limusine chegaram à porta do hotel ao mesmo tempo que eu. Sentamos à mesa, pedimos a comida e, quando acabei de expor longamente o potencial que representavam os trezentos milhões de pessoas de língua espanhola, os duzentos milhões de língua portuguesa, a existência de cineastas, de atores, de escritores e de músicos ímpares, Terry me respondeu: 

— Olha, André, a nossa missão é produzir filmes para distribuir no mundo inteiro. A indústria cinematográfica americana já detém algo como 75% do mercado mundial. Não vejo vantagem alguma em arriscar mais capital de investimento para ir roendo os 25% restantes... No entanto, vou consultar meus gerentes locais e volto a falar com você. 

Terry nunca me deu um retorno porque ele também sofreu os efeitos devastadores da política do chairman Jerry Levin e teve que sair da companhia, que ele e seus antecessores tinham elevado ao primeiro lugar do mercado mundial. 

No dia seguinte, fui visitar a companhia de produção de programas para televisão. Os escritórios, numa magnífica mansão cercada por um imenso jardim no bairro de Burbank, transpiravam conforto e riqueza. Havia pinturas por todos os cantos. Tapetes imensos cobriam a sala e a mesa de trabalho do presidente — de cujo nome não me recordo —, tecnocrata recém-nomeado para dirigir aquela unidade que mais parecia a mesa de comando de um jato moderno. Retomei o discurso do dia anterior, ao fim do qual ele chamou um afro-americano, suposto especialista em assuntos ligados a produções para os públicos black e latino. Esse senhor, visivelmente inibido, falou: 

— Senhor Midani, não vejo como poderíamos investir em produções de TV dirigidas ao público de língua espanhola se vocês não têm escritores, tampouco diretores e atores importantes... É só você ver a mediocridade que a Telemundo e a Univision vêm apresentando no mercado… 

Dali em diante, percebi que não adiantava insistir. Só me restava, por desencargo de consciência, coletar e mandar livros, vídeos e filmes argentinos, brasileiros e espanhóis para corrigir aquela falta de conhecimento, e retomar a conversa em outro momento... 

Já havíamos negociado com sucesso, cobrindo todos os territórios latinos, o contrato da Jennifer Lopez cantando em espanhol. Era preciso agora que o novo presidente da Warner Records norte-americana, Doug Morris, a contratasse cantando em inglês, para cobrir o mercado anglo que a Jennifer tanto ambicionava. Ela estava fazendo muito sucesso como atriz e cantora num filme mexicano que contava a morte de Selena, uma cantora tex-mex, estrela da maior dimensão na comunidade latina nos Estados Unidos, que havia morrido meses antes num trágico acidente de carro perto de Dallas. O filme era recorde de público, restrito, entretanto, aos mercados mexicano e latino nos Estados Unidos. Minha conversa com Doug começou mal porque quase ninguém na Warner Records — ele inclusive — ouvira falar da Jennifer ou do filme. 

Ele insistia no fato de que, nos últimos cinquenta anos, não se conheciam produções musicais ou cantores de origem latina que tivessem chegado ao sucesso no mercado anglo. Recordei-lhe, então, que Sinatra, Vic Damone, Andy Russell, Tony Bennett e muitos outros eram filhos de italianos e que provavelmente, em breve, poderia se repetir o mesmo fenômeno com os artistas filhos de imigrantes mexicanos, porto-riquenhos e cubanos cantando em inglês (como de fato aconteceu alguns anos mais tarde com a própria Jennifer Lopez , Ricky Martin e Christina Aguilera). Doug me olhava, incrédulo. Para não haver dúvidas quanto ao vigor e ao tamanho do mercado latino, eu propus irmos a Pasadena, onde o grupo mexicano Maná se apresentaria no estádio local, com a participação do conterrâneo Santana. 

Chegamos uma hora antes do espetáculo e o estádio já estava repleto, com quarenta mil mexicanos jovens e enlouquecidos. Ao regressar para Los Angeles, Doug, espantado de ver tantos latinos num mesmo recinto, concordou em repensar o “caso Jennifer ”. Porém, mais uma vez, o tempo trabalhava contra... Doug foi despedido por Bob Morgado e perdemos a Jennifer Lopez para a Sony. 

Além das minhas atividades de executivo, a Time Warner me deu a responsabilidade de representá-la perante as principais ONGs latinas nos Estados Unidos. Numa reunião em NovaYork, o ator Will Smith me apresentou a um celebrado professor cubano de história, que lecionava numa universidade em Harvard e que me contou esta história incrível: o hino nacional norte-americano não era para ser o “Star-Spangled Banner”, e que somente foi oficializado como tal em 1931 pelo Congresso. O hino original deveria ter sido “America the Beautiful”, que conhecemos pelas interpretações emocionadas de Elvis Presley e Ray Charles. O professor me contou que o Congresso norte-americano, até o final do século XIX, era dominado pelos irlandeses, que se encontravam regularmente, ao final das sessões, num bar vizinho, discutindo os debates do dia, enquanto bebiam — como bons irlandeses — quantidades respeitáveis de cerveja. 

Naquele dia, o assunto era o hino nacional que tinha sido apresentado para um voto de aprovação futuro. Os irlandeses, num rasgo nacionalista, e com muita cerveja na cabeça, decidiram que não queriam nada com o “America the Beautiful”. Tinham uma melodia muito melhor, que era a que eles cantavam, justamente “The Star-Spangled Banner”. Bastava fazer uma nova letra e pronto: aí estava o hino! 

Esse país, o mais poderoso do mundo, que não tem nome decente — pois “Estados Unidos da América” não é propriamente um nome de país, como México, Canadá, Brasil etc. —, também ficou sem um hino oficial durante mais de um século, pois a briga entre os partidários de um ou do outro prosseguia sem trégua, até mesmo durante os anos do governo de John Kennedy, bem depois de 1931. 

A Time Warner decidiu, então, financiar a gravação da partitura sinfônica original de “America the Beautiful” e oferecê-la ao governo americano como contribuição à interminável celeuma que cercava “America the Beautiful” e como homenagem da comunidade latina à memória do país. 

Contratamos a Orquestra Sinfônica de Washington e seu coral, que foram dirigidos por uma regente cubana, com a participação de vários solistas latinos, e finalmente convidamos representantes do Congresso e do Senado, e o presidente Bill Clinton para uma cerimônia oficial, durante a qual a orquestra tocou a canção que deveria ter sido seu hino nacional. E todos foram presenteados com uma edição limitada da gravação. A cerimônia precedeu o jantar anual dos embaixadores, no qual o corpo diplomático costuma homenagear autoridades políticas norte-americanas. Naquele ano, a organização tinha ficado a cargo da embaixatriz mexicana, que organizara um silent auction em prol de uma ONG de seu país. Eu acabei comprando uma raridade: uma luva de boxe vermelha autografada por Cassius Clay — aliás, Muhammad Ali —, que passei a guardar com orgulho na sala de meu apartamento, junto a um extraordinário retrato original em preto-e-branco do rosto do Muhammad Ali, suando em bicas, os olhos intensamente fixos, esperando o início de um próximo round, fotografado pelo célebre Gordon Parks. 

Anos depois, eu me aproximo da luva e... O que foi que aconteceu? — perguntei à empregada. — A assinatura que estava aí na luva desapareceu!!! 

Não aconteceu nada não, senhor André... Eu limpei a luva...Acontece que estava bem suja... 

Até hoje tenho a luva que, suponho, deve ter nocauteado alguém numa dessas antológicas lutas do maior boxeador de todos os tempos. A luva de um dos mais importantes contestadores do establishment norte-americano. Mas o autógrafo desapareceu e, com ele, um dos mais carinhosos símbolos que eu tinha. 

De todos os presidentes em exercício na Time Warner, de repente eu já era, de muito, o mais velho. E, portanto, havia chegado a hora de eu me retirar das minhas funções. Transferi Iñigo Zavala, o diretor artístico da companhia espanhola, para o posto de diretor-geral da mexicana. E, posteriormente, eu o levei para Nova York para perfazer seu treinamento como meu sucessor.

domingo, 25 de maio de 2014

DIVULGADA PROGRAMAÇÃO OFICIAL DO SÃO JOÃO DE CARUARU. FESTA TERÁ 30 DIAS

Por André Luiz Melo




Com a proximidade do mês de junho os olhares do Brasil se voltam para o Nordeste brasileiro, afinal é período junino e a região contempla as melhores festas do gênero no país. Já consagrada com o título de Maior São João do Mundo e batizada de Capital do Forró, Caruaru, no Agreste de Pernambuco, lançou na noite desta terça-feira (20) a programação oficial dos festejos juninos deste ano. Ao todo, serão 30 dias – de 31 de maio a 29 de junho – de muita cultura, shows e arrasta-pé na maior cidade do interior pernambucano. 


Segundo a presidente da Fundação de Cultura de Caruaru Lúcia Félix, que abriu a solenidade de lançamento da programação, o evento terá seis polos de animação: Pátio de Eventos, Forró do Candeeiro, Repente, Mestre Vitalino, Alternativo e Alto do Moura. Serão mais de 367 shows e 120 apresentações culturais, além de 25 batalhões de bacamarteiros com mil participantes da cidade, zona rural e toda a região. A expectativa é de que mais de 1,5 milhão de visitantes passem pela festa.

Entre os nomes que vão passar pelo Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, está o cantor Alceu Valença, a banda Aviões do Forró, Cavaleiros do Forró, Novinho da Paraíba, Forró das Coleguinhas, Arreio de Ouro, Saia Rodada, Calango Aceso, Forró do Muído, Maciel Melo, Luan Santana, Magníficos, Elba Ramalho, Margareth Menezes, Garota Safada, Petrúcio Amorim, Geraldinho Lins, Zé Ramalho, Gatinha Manhosa, Jorge de Altinho, Jorge e Matheus, entre outros.


Na segurança, Lúcia garantiu que o Maior São João do Mundo vai contar com o reforço de dois mil homens entre policiais civis, militares e bombeiros. Já a estrutura montada no pátio de eventos contemplará um palco com 20 metros de largura e telões com tecnologia mapping 3D. Na economia do município, a presidente assegurou um incremento de 10% em relação ao montante que foi movimentado durante o período junino do ano passado, que foi de R$ 224 milhões, além da geração de seis mil empregos.

Compondo o grupo de homenageados da festa deste ano, está o compositor Carlos Fernando, os músicos João do Pife e Regis Pietro, além do empresário João Gomes da Silva, mais conhecido como João do Forrozão.

Durante a solenidade de lançamento, realizada na sede do Serviço Social da Indústria (Sesi) do município, o prefeito de Caruaru José Queiroz (PDT) garantiu que o melhor festejo junino do Nordeste está na Capital do Agreste. "Este ano a gente vai misturar forró, que é autenticamente popular, com o futebol da Copa do Mundo". E completou: "a nossa equipe deu uma passada na programação das festas de São João do Nordeste e eu não tenho dúvida em afirmar que a melhor grade do São João está aqui, em Caruaru". 

Marcaram presença no evento desta noite, além do prefeito do município, o vice Jorge Gomes (PSB), a primeira-dama Carminha Queiroz, a deputada estadual Laura Gomes (PSB), vereadores, secretários municipais, representantes das polícias Civil, Militar e do Corpo de Bombeiros. 


NÚMEROS – No ano passado, o São João da Capital do Agreste ocorreu de 1 a 29 de junho. O investimento da festa foi de cerca de R$ 8 milhões. Segundo a Fundação de Cultura, quase 1,8 milhão de pessoas participaram dos festejos juninos contra 1,5 milhão em 2012. No palco principal da festa, se apresentaram mais de 300 atrações locais e nacionais.


» Confira a programação dos shows:

Sábado, 31/05
Azulão
Alceu Valença
Dorgival Dantas
Brucelose

Domingo, 01/06
Camarão
Amazan
Brasas do Forró

Sexta-feira, 06/06
Didi Caruaru
Sirano e Sirino
Forró de Griff
Cavaleiros do Forró

Sábado, 07/06
Forró das Coleguinhas
Novinho da Paraíba
Carú Forró
Bonde do Brasil

Domingo, 08/06
Elifas Júnior
Pinga Fogo
Arreio de Ouro

Quinta-feira, 12/06
Fabiana, a Pimentinha
Targino Gondim
Ferro na Boneca
Limão com Mel

Sexta-feira, 13/06
Gean Mota
Josildo Sá
Mastruz com Leite
Cristina Amaral

Sábado, 14/06
Gabriel Diniz
Nando Cordel
Flávio Leandro
Saia Rodada

Domingo, 15/06
Flor de Mandacaru
Calango Acesso
Forró do Muído

Sexta-feira, 20/06
Forró da Mídia
Santanna 
Maciel Melo
Forró Pegado

Sábado, 21/06
Luan Santana
Forró da Curtição
Magníficos
Israel Filho

Domingo, 22/06
Renilda Cardoso
Eliane
Elba Ramalho
Margareth Menezes

Segunda-feira, 23/06
Garota Safada
Petrúcio Amorim
Geraldinho Lins
Valdir Santos

Terça-feira, 24/06
Erisson Porto
Zé Ramalho
Vicente Nery

Sexta-feira, 27/06
Forró Quentão
Luan Estilizado
Capim com Mel
Gatinha Manhosa

Sábado, 28/06
Aviões do Forró
Jorge de Altinho
Jailson Rossete
Forró dos Plays

Domingo, 29/06
Benil
Jorge e Matheus
Solteirões do Forró


sábado, 24 de maio de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (DESIGUALDADE SOCIAL CANTADA POR CHICO SCIENCE HÁ 20 ANOS AINDA SE FAZ PRESENTE)

Canção é a única de amor do disco Da lama ao caos. O mistério de Risoflora ficará para sempre guardado no mangue


Por Valentine Herold



Na manhã da última segunda-feira, assim como na letra de A cidade, gravada há 20 anos por Chico Science & Nação Zumbi, o Recife acordou com a mesma fedentina do dia anterior. Carros, ônibus, motos, bicicletas e metrôs já circulavam energicamente na capital que, no fim da década de 1980, andava com a autoestima baixa com suas patas de caranguejo. O título de “quarta pior cidade do mundo” fez fervilhar ainda mais o sangue de alguns moços moradores de Peixinhos e Barra de Jangada. A indignação os levou a escrever o manifestoCaranguejos com cérebro em 1992. Agora, 22 anos depois, a situação social da capital pernambucana não é mais a mesma, mas as marcas da desigualdade social ainda se fazem bastante presentes.

Na paisagem, os prédios não param de crescer. Para cima, para os lados. O processo de verticalização na capital pernambucana está em números: nos últimos dez anos, foram 4.404 alvarás de construção autorizados pela Prefeitura do Recife, mostrando que os versos gravados por Chico Science & Nação Zumbi em 1994 continuam atuais. “A cidade não para, a cidade só cresce.”

Na mesma manhã da última segunda-feira, José Carlos da Silva, morador da comunidade Ilha de Deus, localizada no bairro da Imbiribeira (Zona Sul recifense), continuava vivendo e sobrevivendo do mangue, aquele tão cantada por Chico. Zé Carlos habita ainda uma das primeiras palafitas suspensas sobre o rio, localizada logo após a ponte de concreto construída, há cinco anos, na entrada da Ilha. Mora com a esposa, Néa, e seus dois filhos. O mocambo destoa das casas estreitas e siamesas construídas pelo Governo do Estado desde 2007 a alguns metros. A família espera pela sua desde 2010, dois anos a mais que o prometido. Também destoa dos altos prédios que se encontram por trás dos manguezais, no Pina. Pescador de 39 anos, José Carlos tira sua renda da venda de sururu, tainha, curimã e, principalmente, camarão.





A pesca do crustáceo virou a principal atividade dos que viviam antes de pegar somente caranguejos. “Graças a Deus, minha vida melhorou, pude comprar meu barco. Agora quase não pego mais caranguejo, só se for de braço, quando ele tá de andada (época em que o animal sai de sua toca para se reproduzir)”, conta. Há uns meses, Zé Carlos passou por uma cirurgia de hérnia de disco, mas não pode continuar de repouso o tempo que deveria. Apenas Néa não consegue sair só para pescar e sustentar o quarteto.

“Aqui, a gente não tem apoio de nada, de como aprender a cuidar dos camarões. Enquanto isso, não revendemos aos compradores. Sou revoltado. Dizem que é um lugar conhecido, mas cadê que não tem nem ninguém do Ibama?”, desabafa o pesador. O lixo acumulado nas margens dos rios também indigna Zé e esse cuidado com o meio ambiente faz com que, quando sai para pescar no Pina, sempre acabe voltando com garrafas plásticas, sacolas e outros dejetos físicos no barco, além dos peixes. É ele o verdadeiro mangueboy: da lama ao caos.

Deixando a casa da família Da Silva, dobrando à esquerda e, depois de mais alguns metros, à direita, chega-se à sede do núcleo comunitário Caranguejo Uçá. É lá que Edson Barros – mais conhecido como Fly, “First Love Yourself, cara!” – ministra ações culturais. Ele conheceu Chico Science no início dos anos 1990, no bairro da Mustardinha. “Ele chegava e falava: ‘Escuta aí’. Achei muito massa o que ouvi”, relembra. “O movimento foi importante, mas acho que a galera que ainda produz o fraudou, não se importa mais com o mangue. A Nação Zumbi agora está se importando mais com o sucesso”, resigna-se. Durante a entrevista, um menino de cerca de 14 anos passa pedindo emprestado um pandeiro. Uma herança positiva, segundo Fly, do manguebeat.





ZONA NORTE

Cantado nos versos de Chico Science & Nação Zumbi, o Centro Cultural Daruê Malungo, localizado em Chão de Estrelas, na Zona Norte,foi palco dos primeiros interesses do compositor para com os ritmos africanos. Lá, ele se juntou ao grupo Lamento Negro, semente que viria a se chamar Nação Zumbi. “O Lamento Negro continuou depois. Foi um grande movimento que trabalhava a questão das raízes culturais afro”, diz o mestre Meia Noite, sociofundador do Daruê Malungo e ex-integrante do Lamento. “O manguebeat foi uma grande alavanca para educar uma nova geração sobre maracatu, coco, ciranda, afoxé.”

Assim como no Caranguejo Uçá, lá as crianças e adolescentes das comunidades vizinhas têm acesso gratuito a aulas de dança, percussão, desenhos, costura e expressão corporal. “É uma grande satisfação enquanto negro, revolucionário e percussor da construção do centro. ver a evolução do Daruê.”

JAQUES MORELEMBAUM, 60 ANOS

Filho do maestro Henrique Morelenbaum e da professora de piano Sarah Morelenbaum, Jaques tem em seu gene a música desde sempre. Este ano o irmão da clarinetista da Orquestra Sinfônica Brasileira Lucia Morelenbaum e de Eduardo Morelenbaum, maestro, arranjador e instrumentista completa seis décadas de existência


Iniciou sua carreira artística como um dos integrantes do grupo musical A Barca do Sol. 

Entre 1984 e 1994, participou da Banda Nova de Tom Jobim, atuando em shows e gravações, como no CD "Antonio Brasileiro", vencedor do Grammy. 

Entre 1988 e 1993, acompanhou Egberto Gismonti em shows e gravações, destacando-se os álbuns "Infância" e "Música de sobrevivência", lançados pela ECM Records.

A partir de 1992, passou a atuar com Caetano Veloso, acumulando as funções de instrumentista, arranjador e diretor musical. 

Apresentou-se, acompanhado por um grupo de ritmistas da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, no Free Jazz Festival (RJ e SP), no projeto "Samba em concerto", do Centro Cultural Banco do Brasil (RJ), e no "Projeto sexta básica", da Sala Cecília Meireles (RJ). 

Participou, em 1995, do Heineken Concerts (RJ e SP), tendo como convidados especiais Caetano Veloso, Ryuichi Sakamoto e Paula Morelenbaum. Nesse ano, formou, com Paulo Jobim, Daniel Jobim e Paula Morelenbaum, o Quarteto Jobim Morelenbaum, com o qual excursionou duas vezes pela Europa, incluindo apresentação na Expo'98 realizada em Lisboa (Portugal), além de constantes apresentações nos Estados Unidos e no Brasil. 

Entre 1995 e 1996, gravou, em Nova York, os CDs "Smoochy" e "1996", de Ryuichi Sakamoto, atuando com o artista em uma turnê mundial para o lançamento de "1996". 

Em 1999, voltou a participar do Heineken Concerts, desta vez como convidado de Zeca Assumpção, ao lado de John Scofield. 

Gravou em discos de inúmeros artistas brasileiros, como Tom Jobim, Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento e Chico Buarque, entre outros, num total de mais de 400 gravações. 

Como arranjador, atuou em discos de Tom Jobim ("Passarim", "O tempo e o vento", "Tom Jobim: inédito" e " Antonio Brasileiro"), Caetano Veloso ("Circuladô", "Circuladô vivo", "Fina estampa", "Fina estampa, ao vivo", "Tieta do agreste", "Prenda minha" e "Homaggio a Fellini e Giulieta"), Gal Costa ("Mina d'água do meu canto"), Paula Morelenbaum, Ivan Lins, Barão Vermelho e Skank, entre outros, além do álbum "Piazzollando" (homenageando a obra de Astor Piazzolla), no qual atuou também como instrumentista, regente e produtor musical. O disco foi considerado pela crítica argentina como um dos 10 melhores de 1992. Escreveu, ainda, arranjos para discos de Marisa Monte e Carlinhos Brown e para o disco acústico dos Titãs, que atingiu um total de um milhão e meio de cópias vendidas. Atuou, também, como arranjador, em trabalhos de artistas internacionais como o grupo Madredeus, a cantora portuguesa Dulce Pontes, o grupo japonês Gontiti e a cabo-verdiana Cesária Évora. 





Em 1995, formou, com Paulo Jobim, Daniel Jobim e Paula Morelenbaum, o Quarteto Jobim Morelenbaum, com o qual se apresentou no Brasil, Estados Unidos e Europa, e lançou, em 1999, o CD "Quarteto Jobim Morelenbaum".

Como regente, dirigiu inúmeros concertos com a Orquestra Sinfônica de Salvador (BA), como o de 1997, dedicado à obra orquestral de Egberto Gismonti e tendo o compositor como solista. 

Em 1999, no Heineken Concerts realizado no Teatro Alfa (SP), regeu o concerto "A música para cinema de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum", que contou com a participação de uma orquestra de câmara e do pianista Antonio Pinto como solista. Dirigiu, também nesse ano, a Orquestra Sinfônica de Brasília e a Orquestra Sinfonia Cultura, da Rádio e Televisão Cultura de São Paulo, em dois concertos dentro do projeto "Concertos Sesc Sinfonia Cultura", nos quais apresentou sua produção musical para cinema. 


Como produtor musical, atuou em 32 álbuns, destacando-se "Passarim", de Tom Jobim (eleito pela revista "Jazzis" entre os melhores da década de 1980), "Mina d'água do meu canto", de Gal Costa, "Dias assim", de Beto Guedes, "Circuladô vivo", "Fina estampa" "Fina estampa, ao vivo", "Livro" e "Prenda minha" (com um milhão de cópias vendidas), de Caetano Veloso, além das trilhas sonoras para os filmes "O quatrilho", "Tieta do agreste", "Central do Brasil" e "Orfeu do carnaval". 

Como compositor, foi responsável pela trilha sonora para o longa "A república dos anjos", de Carlos del Pino, e para o curta "Água morro acima", de Maria Letícia (premiado como Melhor Filme pelo júri popular no Festival de Brasília de 1993). 



Compôs e produziu, com Caetano Veloso, as trilhas sonoras para os filmes "O quatrilho", de Fábio Barreto, indicado para o Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro em 1995, "Tieta do agreste" (1996) e "Orfeu do carnaval" (1999), ambos de Cacá Diégues. 

Compôs e produziu, com Antonio Pinto, a trilha sonora do filme "Central do Brasil", de Walter Moreira Salles, detentor de mais de 30 prêmios internacionais, e também indicado para o Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, em 1999. Por esse trabalho, recebeu o Prêmio Sharp, na categoria Melhor Trilha Sonora para o Cinema. 

Em 2002 lançou, com Paula Morelenbaum e Ryuichi Sakamoto o CD "Casa", gravado na casa de Antonio Carlos Jobim, autor de todas as músicas registradas no disco.

Em 2003, viajou com o Morelenbaum2/Sakamoto, com o qual se apresentou na Europa, onde participou dos festivais de jazz de Montreux, Viena, Coliseu de Lisboa e do Porto, Roma e Milão, entre outros, e nos Estados Unidos, lançando o CD "A day in New York".

Em 2012, participou como instrumentista, assinou os arranjos e regeu a Orquestra Petrobras Sinfônica (em atuação alternada com o maestro Carlos Prazeres) no espetáculo realizado por Gilberto Gil no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como parte das celebrações do 70º aniversário do cantor e compositor. O espetáculo foi registrado para lançamento em DVD. Nesse mesmo ano, apresentou-se com seu grupo Cello Samba Trio, formado ao lado do violonista Gabriel Improta e do baterista Marcelo Costa, no Sesc Pompeia, interpretando composições de Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Tom Jobim.

Fonte: Dicionário da MPB

sexta-feira, 23 de maio de 2014

15 ANOS SEM MILTON BANANA


Milton Banana (Antônio de Sousa), instrumentista, nasceu no Rio de Janeiro RJ em 23/4/1935. Começou a carreira musical em 1955, no conjunto de Waldir Calmon, tocando bateria na boate carioca Arpège.

Nesse mesmo ano passou para o conjunto de Djalma Ferreira, os Milionários do Ritmo, que se apresentava na boate Drink, e em 1956 tocou na boate do Hotel Plaza, como baterista do conjunto de Luís Eça.

Participou pela primeira vez da gravação de um disco em 1959, acompanhando João Gilberto em Chega de saudade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), lançado em 78 rpm pela Odeon.

Em 1962, ao lado de João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Morais e Os Cariocas, apresentou-se na boate Au Bon Gourmet, no show Encontro, produzido por Aloysio de Oliveira. Nesse mesmo ano, viajou com João Gilberto para a Argentina, fazendo uma temporada na boate 676, e em novembro participou do Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall, em New York, EUA.

Tomou parte na gravação do disco de Stan Getz, João Gilberto e Astrud em 1963, nos EUA, e ainda nesse ano excursionou com João Gilberto, João Donato (piano) e Tião Neto (contrabaixo) pela Itália e França.

Criou o conjunto Milton Banana Trio que teve várias formações e gravou, entre 1965 e 1975, oito LPs pela Odeon, o primeiro deles contando com a participação de Cido, ao piano, e Mário, no contrabaixo. Acompanhou João Gilberto quando ele se apresentou no Brasil em 1965 e, desde então, gravou com vários cantores e instrumentistas, atuando também em inúmeros shows.

20 ANOS SEM ALCIR PIRES VERMELHO

Compositor e instrumentista nasceu na Rua Gusman, em Muriaé (MG) em 08/01/1906, vindo a falecer na cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 24/05/1994.


Filho de Acácio Vermelho, comerciante e Laura Pires Vermelho, pianista amadora, casado com Maria José Pereira Vermelho (D. Zezé), foi o primogênito de uma família de quatro irmãos: Alcyr, Selva, Laura e Acácio Vermelho Junior (Maninho), Alcyr aprendeu piano primeiramente com a mãe, e depois com o professor Amadeu Pacífico, que lhe conseguiu emprego de pianista no cinema de Muriaé. Começou a tocar em festas, no estilo jazzístico, que era moda na época. Aprovado em um concurso para bancário do Banco Hipotecário e Agrícola do Estado de Minas Gerais (Minasbank), foi transferido para Carangola (MG), onde organizou uma orquestra. Depois de três anos em Carangola, trabalhou, ainda como bancário, em Rio Casca (MG), Cataguases (MG) e Ubá (MG), onde conheceu Ary Barroso e sua tia Ritinha, com quem teve aulas de Música. Alcyr e Ary atuavam nos meios artísticos de Ubá, Alcyr como pianista dos clubes carnavalescos das Opalas e nos dos Plutões, freqüentado pela classe média local, e Ary era a atração do Clube dos Ubaenses, da classe mais abastada.

Alcyr mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ) em 1929, sendo aprovado em concurso para trabalhar no Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais (Bandústria). Aproxima-se do meio artístico carioca, em 1933, conhecendo Lamartine Babo, a quem muito admirava, fazendo com ele para o carnaval de 1934 sua primeira música, a marchinha DÁ CÁ O PÉ, LOURA, gravada pelo próprio Lamartine na RCA Victor. Outra marcha carnavalesca desta parceria foi A MELHOR DAS TRÊS, gravada por Francisco Alves em 1934 para o carnaval de 1935. Estreou em rádio como primeiro pianista da Rádio Clube do Brasil. Tocou também em casas noturnas e em diversos clubes cariocas.

Com Walfrido Silva compôs seu primeiro grande sucesso, o samba O TIC-TAC DO MEU CORAÇÃO, gravado por Carmen Miranda em 1935. Três anos depois, Carmen gravou sua marcha PARIS (parceria com Alberto Ribeiro), dedicada aos jogadores da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 1938. No carnaval de 1939, sua marcha A CASTA SUZANA (parceria com Ary Barroso) teve grande êxito com a gravação de Déo. Para o carnaval de1940, mais um grande sucesso: a marcha DAMA DAS CAMÉLIAS (parceria com João de Barro), gravada por Francisco Alves na Colúmbia, e vencedora do concurso instituído pela então Prefeitura do Distrito Federal.




Fora do repertório carnavalesco, Alcyr comporia, ainda em 1940, com João de Barro e Alberto Ribeiro, o samba-exaltação ONDE O CÉU AZUL É MAIS AZUL que, embora de excelente qualidade, seria superado por outra composição do mesmo gênero da dupla Alcyr Pires Vermelho - David Nasser, gravada em 1941 por Francisco Alves, na Odeon: CANTA BRASIL. O grande sucesso desta música traria alguns aborrecimentos para Alcyr, sendo o principal deles com Ary Barroso, que o acusou de plágio de Aquarela do Brasil. Com seu temperamento irritado, Ary afastou-se definitivamente de Alcyr a partir deste incidente. O maior sucesso da dupla Alcyr - Lamartine Babo viria a ser uma valsa: ALMA DOS VIOLINOS, gravada por Moraes Netto em 1942, na Odeon.

Alcyr Pires Vermelho foi um compositor de inúmeros sucessos, entre os quais destacamos: SANDÁLIA DE PRATA (parceria com Pedro Caetano), gravado por Francisco Alves em 1941; ESMAGANDO ROSAS (parceria com David Nasser), também gravado por Francisco Alves em 1941; A DAMA DE VERMELHO (parceria com Pedro Caetano), lançado por Francisco Alves em 1943; BARQUEIRO DO SÃO FRANCISCO (parceria com Alberto Ribeiro), gravado por Dick Farney em 1946; LAURA (parceria com João de Barro), gravado por Jorge Goulart em 1957, entre outros.

Aprovado em concurso para funcionário do antigo Instituto de Aposentadoria e Previdência dos Bancários (IAPB), permaneceu neste emprego durante 33 anos, tendo nele se aposentado. Dedicou-se à pintura, tendo feito exposição de seus quadros no saguão do Hotel Nacional do Rio em 1977. Em 1985, foi lançado um LP promocional da Petrobrás, “Alcyr Pires Vermelho - 50 Anos de Música”, onde se destacam seus maiores sucessos interpretados por vários artistas, além de inúmeros depoimentos sobre sua vida.
Veja mais:http://www.albumderetrato.com.br/alcyrvermelho/

Fonte: Agenda do samba e choro

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