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Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Recuedos de Ypacarai

Composição: Demetrio Ortiz - Zuleima de Mirkini

Intérprete - Luiz Bonfá

Disco - Continental 17.308-A. Junho-julho de 1956.



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

PERNAMBUCANO PAULO DINIZ CELEBRA 80 ANOS COM MÚSICA INÉDITA E DOCUMENTÁRIO BIOGRÁFICO

Por Juliana Aguiar



“Ei, homem do mar, me mostra o caminho / Tenho a solução, trago a manhã nos cabelos / E nos pés a paisagem de perdido lugar / Eu sou do oco do mundo / Não perdi nem achei e sempre rimarei”. Os versos pouco conhecidos são da canção Oco do mundo, composta em 1976

pelo pernambucano Paulo Diniz, em parceria com Juhareiz Correya, enquanto ambos viajavam a pé do Recife a Juazeiro do Norte, no Ceará. A história da caminhada de mais de um mês que se tornou música é uma das narrativas revisitadas no documentário Paulo Diniz, o oco do mundo, dirigido por Max Levay. A finalização está prevista para a próxima semana, dentro das comemorações de 80 anos de Paulo, celebrados nesta sexta (24). 

Eternizado pelas músicas Pingos de amor, Quero voltar pra Bahia e E agora, José?, o artista, um dos mestres da MPB, guia a narrativa do documentário com sua própria voz, a partir das histórias por trás das canções. A produção conta ainda com depoimentos de cantores, amigos próximos e parentes sobre a trajetória artística, desde a infância em Pesqueira, no Agreste pernambucano, até hoje. Também será lançada uma música inédita composta e interpretada por Paulo, com produção musical de Jam da Silva.

Com a câmera em mãos, o cineasta Max Levay entrou na casa de Paulo Diniz, em julho de 2019, onde o artista é acompanhado por dois cuidadores e sua esposa, Iluminata Rangel, a Luminha. O artista se movimenta com limitação e realiza sessões de hemodiálise semanais, em decorrência de uma esquistossomose, doença contraída ainda nos anos 1980, que retornou em 2005, paralisando seus membros inferiores. “Percebi que alguns artistas brasileiros, que têm estilos bem próprios, consolidaram-se há alguns anos e acabam sumindo na mídia por motivos diversos, são relembrados apenas postumamente, como Belchior, por exemplo. E eu temia que isso pudesse acontecer com Paulo Diniz. Então fui atrás de músicos que tocaram com o cantor, falei da minha ideia de documentar a sua história e pedi que me levassem até ele”, explica Max.

No documentário, há também um apanhado de vídeos de pessoas ao redor do país tocando canções de Paulo Diniz. O conteúdo ressalta a atualidade do artista e foi encontrado em uma pesquisa de tags no Instagram. A maioria dos encontros e filmagens aconteceu nas quartas-feiras, dias mais livres para Paulo, sempre após o meio-dia, horário em que o cantor costuma acordar. Perguntado sobre as canções, o artista falou livremente, de forma acessível, ao cineasta, e interrompia quando se sentia indisposto. 

Das histórias do Solar da Fossa - casarão colonial situado em Botafogo, no Rio de Janeiro, que abrigou, entre 1964 e 1971, diversas personalidades da música popular, teatro, cinema, televisão, imprensa e política brasileira - até a produção de canções durante a ditadura militar, todas as memórias foram revisitadas pelo artista. “Ao conversar com Paulo, decidi que iria me guiar através de sua discografia. Então, música a música, Paulo foi me contando a sua trajetória através das histórias de suas canções”, conta o diretor.

Quero voltar pra Bahia, por exemplo, foi escrita a partir dos textos publicados por Caetano Veloso no jornal O Pasquim enquanto esteva exilado. “De repente ficou frio / Eu não vim aqui para ser feliz / Cadê o meu sol dourado? / Cadê as coisas do meu país?”, canta. Apesar de driblar a censura em suas composições, Diniz não batia de frente com o regime. “Até hoje, ele se diz neutro sobre política. Como ele dizia, é ‘sem eira nem beira’. Sabia que não era legal, mas não batia de frente”, explica o diretor. Para encerrar a produção, Max Levay incentivou o cantor a sair de casa e gravar uma canção inédita, A música da minha vida, no estúdio Carranca, acompanhado por um coral feminino cantado por Erica Natuza e Lua Costa. E lá foi Paulo Diniz fazer o que mais sabe e gosta.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

BAÚ DO MUSICARIA




A exatamente cinco anos, esta era uma das matérias que estava sendo publicada em mês como este em nosso espaço:



Link para relembrar a matéria:

RUSSO DIZ QUE É MAIS FÁCIL COMPOR BOSSA NOVA DO QUE MÚSICA DE SEU PAÍS

Oleg Tumanov lançou o álbum 'On the way from Brazil', que tem a participação de Paulinho Moska, Joyce Moreno e Jane Duboc, entre outros

Por Mariana Peixoto 


(foto: Lighthouse Strategies/Divulgação)

A primeira música brasileira que o pianista e compositor russo Oleg Tumanov ouviu na vida nem cantada em português era. Mas a melodia de Não deixe o samba morrer (Edson Conceição e Aloísio Silva) logo o impressionou. Um tempo mais tarde, ao descobrir a gravação de Alcione, ele ficou tão arrebatado que logo resolveu pesquisar mais sobre a produção musical do Brasil.

As 13 faixas que compõem On the way from Brazil – A bossa nova de Oleg Tumanov (Warner) são o resultado concreto desta paixão. Recém-lançado no país, o disco reúne uma série de bambas interpretando composições do músico russo. As músicas são uma parceria dele com o carioca Mauro Aguiar, que escreveu as letras para 11 faixas – há duas instrumentais.

O time de intérpretes reúne Paulinho Moska, Joyce Moreno, Leila Pinheiro, Celso Fonseca, Jane Duboc e Luciana Alves. O álbum foi gravado no estúdio Companhia dos Técnicos, em Copacabana. Da parte gringa, houve a participação do pianista russo Alexey Podymkin e dos franceses Baptiste Herbin e Idriss Boudrioua (ambos saxofonistas) e Emile Saubole (baterista). Da parte brasileira, além do arranjador e diretor musical Rafael Rocha, o álbum coletivo contou com o violão de Bernardo Ramos, o piano de Eduardo Farias, o baixo de Jefferson Lescowich e a percussão de Dada Costa.

“Idriss (radicado no Brasil) e Rafael foram fundamentais para reunir a equipe brasileira para o projeto. Na minha opinião, conseguimos criar uma gravação da mais alta qualidade, a partir da performance dos músicos”, comenta Tumanov. O projeto começou a distância – somente quando chegou ao país para a gravação ele conheceu pessoalmente Mauro Aguiar.

On the way from Brazil não é o primeiro álbum que Tumanov dedica ao cancioneiro de um país estrangeiro. Já gravou o disco Last love tango (2009), dedicado ao ritmo argentino, e Rio-Havana (2004), em que promoveu uma conexão entre Brasil (o disco teve a participação de Emilio Santiago, Leny Andrade, Wanda Sá e João Donato) e Cuba (o pianista Chucho Valdez e o cantor Armando Cantero fizeram parte do projeto).


CANTORAS

“Como ouço música brasileira há muitos anos, compor uma bossa é, de certa forma, mais fácil do que uma música russa. Não preciso nem me forçar, hoje é como compor em minha própria língua. Quando componho uma bossa ou samba, tento imaginar como grandes cantoras como Alcione, Maria Bethânia ou Elis Regina interpretariam minha música. Isso ajuda a me guiar”, comenta Tumanov.

De acordo com ele, a presença de Rafael Rocha foi essencial também para conseguir fazer uma ponte entre a bossa mais tradicional e suas vertentes mais contemporâneas.

“Mauro, por outro lado, desenvolveu as letras como se estivesse escrevendo um livro. Em algumas das músicas, a letra fala de questões caras aos brasileiros de hoje”, diz Tumanov. Um bom exemplo é Elenova, interpretada por Luciana Alves, que busca inspiração na Rússia para acompanhar a jornada de uma garota de Ipanema, agora voltada para a militância política. “Ela é brusca/Diz que o país moscou/Mas insiste/Maloca o molotov no meu Gol/E malgrado o tempo que se arriscou/Eu gosto dela/E até na Sibéria por ela eu vou/Presta atenção/Vai durar esta noite/Pega a canção/O martelo e a foice/Pega o que der e vem/E ninguém/Larga a mão/De ninguém.”

Para Tumanov, a despeito das diferenças abissais, Rússia e Brasil têm alguns pontos essenciais em comum. “Acho que russos e brasileiros são muito sinceros em suas emoções, mais do que europeus ou norte-americanos. Além disso, as duas nações têm raízes culturais muito profundas e também estão enfrentando grandes desafios na política e na economia.”

Depois de uma rápida passagem pelo Rio, onde fez o show de lançamento, ao lado de Jane Duboc, Leila Pinheiro e Luciana Alves, Tumanov, já de volta à Rússia, está à espera dos brasileiros. Em fevereiro, recebeu alguns músicos para shows de On the way from Brazil por lá.

terça-feira, 28 de abril de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*


Cara valente

A mimosa pudica é uma das chamadas "plantas sensitivas". São aquelas plantas que respondem ao toque estrangeiro fechando as folhas, como defesa natural. Este movimento é chamado de Sismonastia.
Assim como a mimosa pudica, o cara valente da canção gravada por Maria Rita (no disco Maria Rita, 2003) parece avesso ao extímulo externo, com a desculpa de se proteger e ser feliz sozinho.
O sujeito da canção, porém, observa que tudo não passa de uma máscara de alguém que, por algum motivo, não quer tocar na vida: não quer afetar, nem ser afetado. Agindo, assim, apenas como doador de sentido ao canto do sujeito de "Cara valente", de Marcelo Camelo.
O fato é que ele "desaprendeu a dirigir" a própria vida. Ou seja, ele sabia e algo interrompeu o fluxo dos acontecimentos. O cara valente (aliás, uma sutiu e terna evocação do João Valentão caymminiano) hoje, deixa sua vida ser cantada, sem ônus, pelos outros.
No jogo de bem-me-quer e mal-me-quer, o cara acreditou ser possível obter a verdade absoluta, a certeza do caminho. Negou o amor, na busca fracassada da essência: endureceu, corpo e "alma"; virou valente contra si mesmo.
Como na vida não há certezas (profundidades e superfícies se equivalem) a ser (per)seguidas, ele sofre por ter perdido o amor, além de ter investido em estradas que não deram em nada.
Ficamos (nós: ouvintes) sabendo, ou, pelo menos, confabulando, sobre isso através do canto do sujeito, ou seja, de um outro, mas que tenta validar seu canto dizendo que o que é cantado vem da fala do cara valente: "ele não é feliz, sempre diz que é do tipo cara valente". Ou seja, temos uma tradução da tradução dos sentimentos do cara.
O sujeito da canção, mudando o direcionamento de sua mensagem, em um procedimento que faz a canção ter, no mínimo, dois destinos (o ouvinte e o próprio cara valente), pede ao cara que renove a fé na dúvida: no imprevizível que dá vida à vida. E entenda que o mundo pode até ser feito de mágoas, mas a "alegria é a prova dos nove", como disse Oswald de Andrade.
Esta leitura se amplia quando ouvimos a interpretação de Maria Rita. A cantora usa a sátira prosódica - entoação provocante do riso maroto - para mover o outro do atual estado psíquico.


***

Cara valente (Marcelo Camelo)

Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir
Foi escolher o mal me quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
E ele não pode se entregar
E agora vai ter de pagar
Com o coração, olha lá
Ele não é feliz
Sempre diz
Que é do tipo cara valente
Mas veja só
A gente sabe
Esse humor é coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás
Da cara de vilão
Então não faz assim rapaz
Não bota esse cartaz
A gente não cai não
Ele não é nada
Olha essa cara amarrada
É só um jeito de viver na pior
Ele não é nada
Olha essa cara amarrada
É só um jeito de viver nesse mundo de mágoas





* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

CLEMENTINA DE JESUS - RAINHA QUELÉ



Este documentário pretende homenagear a cantora Clementina de Jesus, uma mulher negra e pobre que já cantou com Paulinho da Viola, João Bosco e Pixinguinha, mas despertou pouco interesse por parte das gravadoras musicais. Usando depoimentos e material de arquivo coletados ao longo de mais de dez anos, o filme acredita que "é um direito do cidadão brasileiro de conhecer a figura e a voz única de Clementina de Jesus.

Nome: Clementina de Jesus - Rainha Quelé
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil
Ano de produção: 2011
Gênero: Documentário
Duração: 56 min
Classificação: Livre
Direção: Werinton Kermes

segunda-feira, 27 de abril de 2020

PAUTA MUSICAL: AS ARTES DE JORGE FERNANDES

Por Laura Macedo



Jorge Fernandes (1907-1989) em seu começo de carreira, caracterizando-se pela dicção apurada e cuidadosa, especializou-se na interpretação de composições de inspiração folclórica. Em 1925, apresentou-se ao público pela primeira vez, acompanhando-se ao violão no salão do Hotel Silva, na cidade mineira de Cambuquira, interpretando composições de Eduardo Souto.

Enquanto Ataulfo Alves e Heitor dos Prazeres são considerados grandes nomes do samba e tem suas obras sempre apreciadas e estudadas, Jorge Fernandes ainda é um ilustre desconhecido. Poucos sabem que foi ele quem gravou pela primeira vez a canção “Meu Limão, Meu Limoeiro” retirada do folclore para as emissoras de rádios com grande sucesso na década de 1930.

Jorge Fernandes recebeu educação privilegiada com inclinação para as artes, era moço de família tradicional, se formou em arquitetura, mas possuía talento incomum para a escultura, arte a que se dedicou enquanto se tornava cantor de rádio. No início concorria com o sucesso de Carlos Galhardo e Silvio Caldas, mas diferente destes foi encontrar seu “estilo” primeiro na música folclórica e depois na música “de terreiro”, da qual gravou vários discos até a década de 1970.

Selecionamos algumas gravações de Jorge Fernandes. Confiram abaixo:

“O dia que te conheci” (Aloysio da Silva Araújo) # Jorge Fernandes/Domanar. Disco Columbia (22.120-A) / Matriz (381230). Lançamento (maio/1932).

“A ventura de um beijo” (Guilherme Pereira/De Chocolat) # Jorge Fernandes. Disco Victor (33.564-B) / Matriz (65489). Gravação (13/05/1932) / Lançamento (junho/1932).

“Pierrô” (Joubert de Carvalho/Pascoal Carlos Magno) # Jorge Fernandes. Disco Columbia (22.080-B) / Matriz (381154). Lançamento (março/1932).

“Dor” (Joubert de Carvalho) # Jorge Fernandes. Disco Columbia (22.122-B). Lançamento (junho/1932).

“Marilena” (Joubert de Carvalho) # Jorge Fernandes. Disco Victor (33.661-B) / Matriz (65714). Gravação (20/04/1933) / Lançamento (junho/1933).

“Minha terra” (Waldemar Henrique) # Jorge Fernandes. Disco Odeon (11.231-A) / Matriz (5036). Gravação (08/05/1935) / Lançamento (junho/1935).

“Amor, brinquedo de criança” (Joubert de Carvalho/Olegário Mariano) # Jorge Fernandes. Disco Odeon (11.231-B) / Matriz (5037). Gravação (08/05/1935).

“Gibi Bacurau” (Carolina Cardoso de Menezes) # Jorge Fernandes. Disco Odeon (11.366-A) / Matriz (5300). Gravação (26/03/1936) / Lançamento (julho/1936).

“Maria Bonita” (José Carlos Burle) # Jorge Fernandes. Disco Odeon (11.512-A) / Matriz (5634). Gravação (30/07/1937) / Lançamento (setembro/1937).

“Querer bem não é pecado” (Osvaldo de Souza) # Jorge Fernandes. Disco Odeon (12.338-A) / Matriz (7307). Gravação (04/06/1943).

“Meu limão meu limoeiro” (Osvaldo de Souza) # Jorge Fernandes. Disco Odeon (12.338-A) Matriz (7307). Gravação (04/07/1943) / Lançamento (agosto/1943).

“O mar” (Dorival Caymmi) # Jorge Fernandes. Disco Columbia (13.156-B) / Matriz (8987). Gravação (08/05/1951) / Lançamento (agosto/1951).



“Melodias de Terreiro, Pontos e Rituais” é uma coleção de músicas gravadas por diversos artistas, lançada em Disco de 10 polegadas, pela gravadora Sinter, no ano de 1955.


O time neste pequeno disco da gravadora Sinter é “de peso”, sambistas da primeira linha como Ataulfo Alves e Heitor dos Prazeres com suas respectivas “Pastoras” puxam a fila. E contam com o apoio de uma orquestra completa arranjada e conduzida pelo mestre Léo Peracchi, que trouxe a esposa, Lenita Bruno, para pontuar com sua voz treinada nos salões de música erudita em duas faixas.


Para completar o time Jorge Fernandes, cantor de sucesso na época, infelizmente esquecido, comparece em quatro das oito faixas do LP.

Lenita Bruno e Léo Peracchi


Abaixo as quatro faixas gravadas pelo cantor/compositor Jorge Fernandes:

“Aruanda” (Jorge Fernandes/Léo Peracchi) # Jorge Fernandes. Disco Sinter (436-B) / Matriz (S-964). Lançamento (dezembro/1955).

“Oxun-Maré” (Jorge Fernandes/Léo Peracchi) # Jorge Fernandes. Disco Sinter (436-B) /Matriz (S-964). Lançamento (dezembro/1955).


Jorge Fernandes


“Congo” (J.B. de Carvalho/Ângelo Dantas) # Jorge Fernandes/Léo Peracchi/Lenita Bruno. Disco Sinter (436-B) /Matriz (S-964). Lançamento (dezembro/1955).

“Ogum Yara” (Jorge Fernandes/Léo Peracchi) # Jorge Fernandes. Disco Sinter (436-B) /Matriz (S-964). Lançamento (dezembro/1955).

Na contra capa de “Melodias de Terreiro” há descrições detalhadas sobre as faixas e informações pouco comuns nos discos da época, como a data exata da gravação [Julho de 1955] e o nome dos técnicos que a fizeram – Armando Dulcetti e Roberto de Castro.

“Nesses cantos de origem litúrgica e sentimental, estão entrelaçados a poesia do europeu, em sua religiosidade católica, a súplica e o lamento dos negros africanos, sob jugo do cativeiro, e toda nobreza dos ameríndios, com sua índole guerreira e selvagem.” “… nesta fonte tão rica de motivos, que foram recolhidos, selecionados, ambientados, os pontos rituais, curimbas e danças que compõem este long-playing. Houve nesta escolha, o cuidado de agrupá-los e cruzá-los dentro da mesma força a que cada qual está ligado, evitando assim, o chamado “choque de forças”.” – diz o texto anônimo.

Oxum, Xangô, Ogum, Cosme e Damião, Crispim e Crispiniano, Pai Joaquim de Angola, Ogum-Yara, Yemanjá, Caboclinho da Mata… São os Orixás e personagens que desfilam nas letras das canções.


O Disco acima foi lançado em 1955. 


“Rolete de cana” (Dilu Melo/Osvaldo Santiago) # Jorge Fernandes com direção musical de Léo Peracchi. Disco Sinter (455-A) / Matriz (S-924). Lançamento (março/1956).

“Essa negra fulô” (Valdemar Henrique/Poema Jorge de Lima) # Jorge Fernandes.



JORGE de Oliveira FERNANDES
*05/06/1907 – Rio de Janeiro (RJ)
+19/03/1989 – Rio de Janeiro (RJ)


O objetivo desta postagem reside no resgate da vida/obra do compositor/cantor Jorge Fernandes, infelizmente, esquecido por muitos. Que esse pequeno resgate fomente outras homenagens a quem tanto contribuiu à Cultura Brasileira!



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Fontes:

– Dicionário Cravo Albin da MPB / Verbete: Jorge Fernandes (AQUI).
– Fotomontagem: Laura Macedo.
– Canal YouTube: “luciano hortencio”, “Discos Raros de Umbanda e Candomblé”, “JOHN SMERIL”, “1000amigovelho”, “Pedro Salomao”, “Tralha Brasil”.
– Revista Carioca / Edição 00064 [capa] / 1937.
– Revista Fon Fon / Edição 0017 / 1938 / Edição 0027
– Site Bossa Brasileira (AQUI).

VIRGÍNIA LANE, 100 ANOS

Imagem relacionadaNascida Virginia Giacone em 1920, no Flamengo, Virgínia chegou a cursar o primeiro ano de Direito - mas a atração pelos palcos falaria mais alto. Atração que ela desenvolveu desde cedo, na Escola de Bailados do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde estudou com a lendária Maria Olenewa.


A estreia profissional seria aos 15 anos, no Cassino da Urca, para onde foi levada pelo maestro Vicente Paiva - e foi ele também quem a introduziria no plantel da Rádio Mayrink Veiga. Do Rio, ela seguiria para Buenos Aires, onde atuaria por três anos. Em 1946, lançou o primeiro disco, pelo selo Continental, no qual interpretava a marcha Maria Rosa e o samba Amei Demais. Dois anos depois, voltaria ao Rio e, depois de assinar um contrato com Walter Pinto, trabalhou durante cinco anos na revista Um Milhão de Mulheres e em outros espetáculos do Teatro Carlos Gomes e do Teatro Recreio.


Caso

Nos anos 50, viveu o auge de sua trajetória. A começar pela gravação de Sassaricando, marchinha que fazia parte da revista Eu Quero Sassaricá, um dos maiores sucessos da trupe de Walter Pinto. Compositora, gravou peças de sua autoria, como Lanterninhas Multicores e Que Palhaço, de 1958, registradas ao lado de Santo Antônio Vai me Abençoar, de Nelson Castro.

Foi nessa época que ela receberia das mãos de Getúlio Vargas o título de A Vedete do Brasil - em entrevistas décadas depois, ela diria que manteve um caso de dez anos com o ex-presidente da República. “Foi dentro de um teatro. Ele viu uma peça minha e foi ao camarim me cumprimentar. Me convidou para sair e eu agradeci, mas recusei. Não me sentia capacitada para sair com o presidente da República. Mas ele insistiu e fui cear com os amigos dele em uma churrascaria. Daí começou”, contou em depoimento concedido ao Guia do Estudante em 2007. “Eu entrava e saía do Palácio do Catete pela porta da frente! Passava lá à tarde, tomava um chá. Viajávamos muito também, inclusive para a Europa. Eu ia na frente com o Gregório (Fortunato, chefe da guarda), que me acompanhava em passeios, compras e até na assinatura de contratos. Visitamos Portugal, Itália, Espanha.”

Virgínia seguiu se apresentando no teatro até o início dos anos 2000. Sua última aparição foi na novela Belíssima, em 2006, na qual participou de homenagem feita a diversas divas do rádio.


domingo, 26 de abril de 2020

BONDE ALEGRIA - HOMENAGEM A ADEMILDE FONSECA - PARTE 01

LINDOMAR CASTILHO, 80 ANOS

sábado, 25 de abril de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

Resultado de imagem para ALMANAQUE DO SAMBA


• CAPÍTULO4 •
O SAMBA DAS ESCOLAS


Sem dúvida alguma o carnaval é o momento de esplendor do samba. Sua organização mobiliza milhões de pessoas pelo Brasil, e ele acabou por tornar-se o maior símbolo cultural brasileiro no exterior. Nem sempre, porém, o carnaval carioca teve como trilha sonora o samba.
Espaço aberto para a diversidade musical, o carnaval era festejado com trechos de ópera, chulas de palhaço de circo, polca, mazurca e valsa. Só depois do lançamento de “Pelo telefone” o samba iria, aos poucos, fazendo seu império.
Essas músicas carnavalescas saíam das revistas apresentadas na praça Tiradentes ou da Festa da Penha, realizada nos quatro domingos de outubro com um arraial ao sopé do morro em que se ergue a igreja. Mas a primeira música composta especificamente para o carnaval, em 1885, “Flor do sereno”, remonta aos cordões – grupamentos de brancos, negros e mestiços que, fantasiados, ao som de instrumentos de percussão, dançavam pelas ruas de forma desorganizada.
Uma das formas mais gostosas de se pular a folia de Momo é ao som das marchinhas de carnaval. Em seu período de reinado, de 1920 até 1960, a marchinha era avassaladoramente a música mais cantada. Feitas com o compasso binário da marcha militar, andamento acelerado, melodias simples e comunicativas, com letras cheias de picardia, as marchinhas guardam estreita relação com um espírito tipicamente carioca. São filhas diretas do jeito extrovertido e jocoso com que os compositores populares do final do século XIX compunham suas polcas.
Vista como a primeira composição do gênero, “Ó abre alas”, de Chiquinha Gonzaga, escrita em 1899 para o cordão Rosa de Ouro, inaugurou uma dinastia de autores do estilo, que contou ainda com Sinhô, Eduardo Souto, Lamartine Babo – o Lalá –, João de Barro, Alberto Ribeiro, Haroldo Lobo, Noel Rosa, Joubert de Carvalho, Nássara e outros.
João Roberto Kelly foi, na década de 1960, um dos últimos compositores ligados ao gênero, que começou a perder terreno para o samba nos bailes e nas ruas (o contexto político pouco amistoso da ditadura militar, avessa a brincadeiras, sorrisos e pilhérias, ajudou a pôr fim no reinado de quatro décadas das divertidas marchinhas).
A partir de 1968, o samba carnavalesco, em sua forma de samba-enredo, passa a se destacar como o principal gênero executado nos dias da festa de Momo. Ele é a “ilustração poético-melódica do tema que a escola de samba desenvolve durante o desfile”.1 No início da década de 1970, conquistou a indústria do disco e passou a ser consumido no Brasil inteiro. Já no final da década de 1990 o samba-enredo perdeu espaço no mercado fonográfico e, conseqüentemente, também na boca do folião. Hoje se canta de tudo durante o carnaval, como era antes dos anos 1930: samba, axé-music, funk, forró, frevo, pagode paulista, sertanejo-music, música pop, hip-hop e outros ritmos.


Marchas de carnaval

Muitos compositores fizeram marchinhas de carnaval que se tornaram eternas: Haroldo Lobo, Braguinha, Nássara, Alberto Ribeiro. Mas talvez tenha sido Lamartine Babo o principal compositor do gênero. O autor de “Linda morena”, sensível ao seu tempo, criticou o uso de estrangeirismos no nosso idioma com a letra de “Canção para inglês ver”. Atualmente usamos palavras de origem inglesa como se elas sempre tivessem feito parte de nossa realidade: bebida é drink; ser leve é ser light... Foi brincando com a salada de palavras estrangeiras no país que Lalá compôs uma marchinha mencionando também a influência da cultura francesa: “Forget not me/ of!.../I love you!
Abacaxi... whisky/ off chuchu.../ malacacheta; independente day/ no street-flesh me estrepei.../ elixir de andaime/ mon Paris je t’aime/ sorvete de creme.../ My girl good night.../ Oi!/ Double fight/ isto parece uma canção do Oeste/ coisas horríveis lá no far west...”


Vamos explorar um pouco a história do carnaval no Rio de Janeiro para depois então vestirmos nossa fantasia de “brincante” nas escolas de samba mais tradicionais da cidade.


O carnaval antes de 1930

“Carnaval (ao público, em voz de falsete):
Os senhores me conhecem?
Sou eu mesmo... o Carnaval!...
(voz natural) mas se licença me dessem,
falava em voz natural.
Em poucos versos contar-lhes
a minha história aqui vou;
o meu passado lembrar-lhes,
que tão depressa mudou.
Eu fui isto que estão vendo:
como dominó reinei...
mas fui descendo... descendo...
e em princês me transformei (transforma-se).”
O Bilontra, revista de ARTHUR AZEVEDO, fim da década de 1880

O carnaval é uma festa conhecida desde a Antiguidade. Seu espírito sempre foi o de inversão de papéis, espaço comunitário de brincadeiras que diluíam a hierarquização da sociedade.
No Rio de Janeiro, o período compreendido entre os dias de Sábado Gordo e Quarta-feira de Cinzas era marcado pelo entrudo e por desfiles de blocos ou grandes sociedades, corsos (grupos de foliões com fantasias iguais ou de mesmo tema, que saíam em carros conversíveis pelas ruas mais importantes da cidade e eram aguardados com entusiasmo pela população), clubes, ranchos e, a partir do final da década de 1920, escolas de sambas.
É importante salientar que não há uma evolução natural nessas formas de brincar o carnaval. O tempo de cada uma foi determinado por sua capilaridade social. Os ranchos, surgidos ao final do século XIX, sobreviveram até a década de 1970, quando foram deixando de ser um fenômeno de massa. O entrudo, uma das manifestações citadas acima, foi durante muito tempo sinônimo de carnaval. Era um conjunto de brincadeiras e folguedos realizados 40 dias antes da Páscoa. Uma dessas brincadeiras era jogar limões-de-cheiro ou laranjinhas com todos os tipos de líquidos possíveis nas pessoas que passavam pela rua. Ovos e farinhas no rosto também faziam parte do cardápio. Brincavam todos, jovens e adultos, escravos e senhores, povo e elite.


Zé-pereira

Liderados pelo português Zé Nogueira, que o povo passou a chamar de Zé Pereira, vários portugueses saíam pelas ruas tocando zabumbas e tambores.
Nascia assim, por volta de 1850, o mito do zé-pereira, figura carnavalesca prestigiada pelos clubes, blocos e cordões. Precursores de alguns instrumentos que permaneceriam no carnaval, os zé-pereiras entoavam o estribilho: “Viva o zé-pereira/ que a ninguém faz mal/ E viva a bebedeira/ nos dias de carnaval/ Viva o zé-pereira!/ Viva, viva, viva!” A historiadora do carnaval carioca Eneida Moraes relata as características do zé-pereira: “Carão amorenado e simpático, olhos brejeiros, bigode curto e grisalho, cabelo todo branco e à escovinha, barba escanhoada, altura regular, ombros e cadeiras largas, peito cabeludo, musculatura de atleta, sempre em mangas de camisa, vendendo saúde...”


No fim do século XIX, a sociedade “culta” – políticos, jornalistas e literatos –, com seus pensamentos civilizadores, passou a construir uma nova imagem do carnaval carioca. Condenavam o entrudo e valorizavam os préstitos, bailes e batalhas de confete, entre outras práticas, como o verdadeiro carnaval. Com o entrudo foram surgindo também as grandes sociedades. Com forte influência européia e constituídas pela autoproclamada “boa sociedade” da época, foram uma das primeiras formas de organização do carnaval carioca.
Quem liderou pioneiramente esse novo estilo foi o escritor José de Alencar, em 1854, ano em que criou uma sociedade denominada Sumidades Carnavalescas. O desfile das grandes sociedades, chamado pomposamente de préstito, era o esplendor das atividades anuais dos clubes: Fenianos, Democráticos, Tenentes do Diabo, Pierrôs da Caverna, entre tantos outros. Essas organizações carnavalescas eram frequentadas por prósperos comerciantes, banqueiros, fazendeiros e profissionais liberais. Com ar de “clube do Bolinha”, já que só os homens participavam do comando, elas desenvolviam funções políticas, filantrópicas e culturais, e digladiavam entre si para saber quem organizava o melhor baile da cidade. Na questão política, por exemplo, alguns clubes participaram ativamente das campanhas abolicionista e republicana. É o caso de José do Patrocínio, a grande referência na luta abolicionista, que era um destacado folião dos Tenentes do Diabo.

As escolas de samba de hoje muito se inspiram nas sociedades, em seus carros alegóricos com personagens históricos, na organização em alas, na queima de fogos de artifícios para marcar o início dos desfiles, nas letras críticas, na riqueza das fantasias e na beleza das mulheres.
Já os ranchos eram uma espécie de cordão mais organizado, e, além de contarem com maior presença feminina, reuniam um instrumental mais sofisticado, com violões, cavaquinhos, flautas e clarinetes. Seu aparecimento remonta ao último quartel do século XIX e está ligado diretamente à figura do baiano Hilário Jovino Ferreira. Jovino soube misturar elementos do rancho de reis, como as pastoras bem ornadas, com as figuras de mestre-sala e porta-estandarte. Influenciou fortemente o aparecimento de ranchos como Reis de Ouro, Ameno Resedá e Reino das Magnólias. De origem popular, os ranchos sofreram influência da cultura nordestina, incorporando características das procissões religiosas de origem negra e de manifestações folclóricas típicas do Dia de Reis.
Os blocos são, atualmente, a forma mais democrática de se pular o carnaval.
Por isso eles têm ressurgido nos quatros cantos do Rio de Janeiro, incendiando a cidade com sua criatividade, jocosidade e alegria. Sua tradição remonta ao final do século XIX. Blocos como Coração de Ouro, Bumba Meu Boi, Zé-Pereira, Flor do Andaraí Grande, entre centenas de outros, eram presença certa nas ruas. A irreverência, o humor e o espírito comunitário alcançaram na segunda metade do século xx seu ápice com os desfiles de Cacique de Ramos, Bafo da Onça, Boêmios de Irajá e Chave de Ouro.
Na Zona Sul do Rio, os blocos Barbas, Suvaco de Cristo e Simpatia É Quase Amor passaram a representar, pelos bairros de Botafogo, Jardim Botânico e Ipanema, o clima alegre e esperançoso em que vivia a sociedade nos anos 1980, década marcada pela campanha das Diretas Já, pelo fim da ditadura militar com a eleição indireta de Tancredo Neves, pelo surgimento de inúmeros partidos políticos e pela maior organização da sociedade civil, fato refletido inclusive na própria criação dos blocos. (Depois de mais de 20 anos de ditadura militar o povo brasileiro voltava a respirar sem as baionetas apontadas para o seu nariz.)
O cantor e compositor Lenine, folião de primeira dos blocos da Zona Sul, conta-nos sobre a participação de um pernambucano no carnaval carioca: “A Zona Sul retomou o carnaval de rua despojado, de uma arte efêmera que dura as semanas que antecedem o carnaval e os próprios dias da festa. Esses blocos fazem a crônica do ano do Rio e do Brasil. Isso tudo é muito parecido com o que eu vivia nos blocos de Recife, por isso entrei de cara. A temática e a crítica eram parecidas, o que mudava era apenas o ritmo. Os blocos de alguma forma amenizavam a saudade que eu tinha das festas da minha terra.”

Cordão do Bola Preta

Em atividade desde 1918, o Bola Preta arrasta milhares de foliões fantasiados no sábado de carnaval, no Rio de Janeiro, cantando o seu hino “Segura a chupeta”, de Vicente Paiva e Nelson Barbosa: “Quem não chora não mama/ segura, meu bem, a chupeta/ lugar quente é na cama/ ou então no Bola Preta.” A paixão de seus fundadores por uma linda moça que vestia uma fantasia branca com bola preta fez com que o cordão adotasse essas cores como as oficiais da agremiação.







* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

ÂNGELA LEAL REVELA TER ENFARTADO APÓS SEU TEATRO PERDER PATROCÍNIO DA PETROBRAS

Ângela Leal revela ter enfartado após seu teatro perder patrocínio da Petrobras

Por Pedro Prado


A atriz Ângela Leal revelou ter sofrido ataque cardíaco ao perder o patrocínio da Petrobras para manter aberto o teatro da família, o Rival, famoso palco da Cinelândia que pertenceu a seu pai, Américo Leal, e que ela administrava desde 1990.

A política de desmonte cultural do governo Bolsonaro eliminou o patrocínio das estatais para a Cultura. Eventos de grande porte, como o Festival do Rio e o Anima Mundi, conseguiram alternativas de última hora na iniciativa privada. Mas o Rival, apoiado pela Petrobras desde 2001, encontrou maior dificuldade. A casa que marcou época no Rio de Janeiro, e que emprega 35 funcionários, precisou enfrentar a possibilidade do fim.

Ela passou mal no último show da casa, do cantor Ivan Lins, e dias depois sofreu um enfarto. A veterana estrela de novelas da Globo e de filmes como “Zuzu Angel”, “Querô”, “A Febre do Rato” e “Bonitinha, mas Ordinária” entrou o Ano Novo na UTI.

“Acabei passando o dia 31 na UTI, acho que foi acúmulo”, disse Ângela em entrevista ao jornal O Globo. “Eu já tinha tido um câncer, estava muito fragilizada e, quando veio o fim do patrocínio, vi que não ia dar mais”.

Mas não foi o fim.

“Começaram os telefonemas em solidariedade e um deles foi de uma pessoa que se dizia da Refinaria de Manguinhos, perguntando se a gente estava precisando de patrocínio. O mundo dá respostas. Se o pensamento desse governo que foi eleito legitimamente por um pedaço da sociedade é outro, o que resta agora é encarar e exigir que a cultura seja respeitada”, contou Ângela.

Assim o Rival fechou um novo patrocínio com a Refit, a Refinaria de Manguinhos, que garantirá por mais dois anos a programação do teatro que Ângela sempre definiu como sendo “de resistência cultural”.

Inaugurado em 1934, o Rival, que antes tinha sido convento, foi um dos principais palcos do Teatro de Revista e do chamado Teatro do Rebolado. Além de grandes nomes do humor brasileiro, como Grande Otelo, Oscarito e Dercy Gonçalves, a casa de espetáculos também foi pioneira ao abrir seu palco para shows de travestis, que acabaram popularizando a famosa Rogéria, entre outras. Grande referência da cultura carioca, a casa ainda lançou cantores como Mart’nália, Zeca Pagodinho e Zélia Duncan.

Vale lembrar que há dois anos, a atriz Leandra Leal, filha de Ângela, estreou como diretora à frente de um documentário sobre a ligação histórica do Teatro Rival com travestis e drag queens. O filme “Divinas Divas” venceu o prêmio do público de Melhor Documentário do Festival do Rio e da Mostra Global do festival americano SXSW (South by Southwest), em Austin, no Texas.

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sexta-feira, 24 de abril de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra






OS GATOS E OS RATOS


Os gatos estão todos metidos a besta. Hoje são amigos dos ratos. Até desconfiam de sua periculosidade e vivem a pedir testes de DNA para confirmar a existência real deles. Ratoeiras já não há e os togados da fauna felina, com a desqualificação das baratas delatoras e se aproveitando das vergonhosas ‘brechas legais’, libertam todos os ratos que roubam, que fazem o que não deve. Reveem e reinterpretam, a toda hora, a constituição animal, de forma a permitir aos ratos que eles continuem roendo e roubando, sobre todas as mesas, de ricos e de pobres. A balança está desprogramada e pende muito mais a favor dos ratos. Roedores já condenados, às vezes por até três tribunais, estão à solta, por ‘presunção de inocência’, pelo trânsito engarrafado e, por isso mesmo, por processos ainda não julgados definitivamente. Haja instâncias. Ao sair as condenações, se é que sairão restarão roedores com seus processos prescritos e eles próprios mortos, por decurso de vida. Assim como os gatos julgadores. Menos mal. Quem sabe no futuro os gatos voltem a ser gatos e cuidem dos ratos, como sempre foi na Constituição da Natureza. E que cumpram as verdadeiras funções atribuídas aos membros do Superior Tribunal Felino – STF. Com todas as vênias que o assunto possa suscitar.

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DILU MELO, 20 ANOS DE SAUDADES...


Maria de Lourdes Argollo Oliver, nasceu no Maranhão e aos 10 anos, compôs sua primeira obra, uma valsinha. Com 13 anos tirou diploma no Conservatório de Música de Porto Alegre, recebendo medalha de ouro pela impressionante técnica demonstrada em tão pouca idade. Na mesma época, realizou concerto no Teatro Colon, na Argentina, juntamente com o também precoce pianista Angelito Martinez. Recebeu um prêmio do governo argentino para viajar por toda a Argentina, divulgando seu talento e o de Angelito Martinez. Tocou também no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, árias das óperas "Bohéme" e "Vida de Jesus".

Em 1930, aos 17 anos terminou os estudos de canto lírico. Apaixonada pela música dos tropeiros do sul, abandonou à música clássica e passou a dedicar-se a música regional gaúcha e de países vizinhos. Naquele período, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi ouvida cantando e tocando violão numa festa pelo maestro Martinez, que impressionado com seu talento, a levou para tocar na Rádio Cruzeiro do Sul. Ouvida em São Paulo, foi convidada para apresentar-se na Rádio Kosmos, recebendo em seguida, convite para gravar um disco. Seu primeiro disco foi gravado em 1938, e continha "Engenho d'água" ("Cena brasileira"), de sua autoria e Santos Meira e "Coco babaçu", de sua autoria. O Departamento de Imprensa e Progaganda (DIP), do Estado Novo contratou-a para percorrer o Brasil divulgando a música brasileira. Viajou também pela Argentina divulgando a música do Brasil. Morou dois anos no país vizinho.




Começou a estudar música e violino aos cinco anos de idade. Aos nove anos, iniciou seu aprendizado de violão com sua mãe D. Nenê e de piano com Elizéne D'Ambrósio. Lecionou dicção, empostação, danças folclóricas e história da música. Escreveu peças infantis.

Em 1944, gravou seu segundo disco, acompanhada de Antenógenes Silva ao acordeom, com o calango "Cesário" e o xote "Planta milho". Ainda naquele ano, gravou novo disco onde apareceram o coco "Sapo cururu", de sua autoria e o xote "Fiz a cama na varanda", em parceria com Ovídeo Chaves. "Fiz a cama na varanda" acabaria se tornando um clássico da Música Popular Brasileira, tendo sido regravada diversas vezes, entre outros, por Inezita Barroso, Dóris Monteiro, Nara Leão, Cantores de Ébano e a orquestra de Radamés Gnattali, além de ter recebido uma versão na França. 

Foi contratada pela Rádio Nacional e atuou no Cassino Atlântico. Ao longo dos anos 1940, realizou outras gravações tais como "Menino dos olhos tristes", xote, em parceria com Ovídeo Chaves, a valsa "Lá na serra", de Capiba e a valsa "Tempinho bom", de sua autoria. Em 1947, os Trigêmeos Vocalistas gravaram "Meu cavalo trotador", de sua autoria. Em 1949, a cantora Marlene gravou o jongo "Conceição da praia".

Em 1958, gravou de Altamiro Carrilho e Armando Nunes, o xote "Nos velhos tempos". Por influência de Antenógenes Silva, começou a tocar acordeom recebendo da imprensa a denominação de "Rainha do Acordeom". Autora de 104 músicas, entre as quais o "Hino do Maranhão". Entre seus intérpretes estão Ademilde Fonseca, Amália Rodrigues, Carmen Costa, Nara Leão, Fagner, Clara Nunes e Dóris Monteiro. Desde 1966 era filiada à SBAT, Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Dentre os LPs que lançou destacam-se "Quadros brasileiros", lançado pela Odeon e "Diluindo-se em melodias", pela gravadora SOM.


Discografia
([S/D]) Festa de luz/Fiz a cama na varanda • Discobrás • 78
([S/D]) Um amor em cada porto/Adeus à sanfona • SOM • 78
([S/D]) Diluindo-se em melodias • SOM • LP
(S/D) Quadros brasileiros • Odeon • 33/10 pol.
(1996) Marlene, meu bem • Revivendo • CD
(1994) Músicas brasileiras vol 3 • Revivendo • CD
(1962) Harpa guarani/Canção de ninar meu bem • Continental • 78
(1958) Nos velhos tempos/Sou eu • Copacabana • 78
(1956) Changa, changô/Navio gaiola (cena do Amazonas) • Odeon • 78
(1955) Quadros brasileiros • Odeon • LP
(1955) Sereno/Fiz a cama na varanda • Continental • 78
(1954) Sans souci/Os 10 mandamentos do sanfoneiro • Continental • 78
(1952) Maravia/Tudo é verdade • Continental • 78
(1952) Rendinha de algodão/Meia canha • Continental • 78
(1952) Carta a Papai Noel/Tempinho bom • Star • 78
(1950) Recordando os pagos/As coisas erradas do mundo • Continental • 78
(1949) Lá na serra/Qual o valor da sanfona • Continental • 78
(1945) Cesário/Planta milho • Odeon • 78
(1945) Menino dos olhos tristes/Coisas do Rio Grande • Continental • 78
(1944) Fiz a cama na varanda/Sapo cururu • Continental • 78
(1938) Engenho d'água/Coco babaçu • Columbia • 78







Fonte: Dicionário Cravo Albin da Musica Popular Brasileira

quinta-feira, 23 de abril de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Revivendo

Composição: J. Cascata - Leonel Azevedo

Intérprete - Gastão Formenti

Disco - Odeon 11.635-B. Setembro de 1938



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

CLAUDIONOR CRUZ, 110 ANOS

quarta-feira, 22 de abril de 2020

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)

Resultado de imagem para passa disco


- Alô... Vocês tem o disco REMOVEDOR DE VERNIZ ?

- Temos não... É novo?

- Não, moço, é o REMOVEDOR DE VERNIZ.

- Desculpe mas não conheço; é rock?

- Rock? Eu liguei pra onde?

- Pra Passa Disco, uma loja de CDs

CUSTÓDIO MESQUITA, 110 ANOS

O nome civil de Custódio Mesquita é Custódio Mesquita Pinheiro. Filho de família de posses, era o segundo filho dentre três irmãos. Nasceu no Rio de Janeiro, no dia 25 de abril de 1910.Não quis seguir carreira universitária, pois desde cedo se apaixonou pela música. Foi exímio baterista. Estudou e tornou-se grande pianista. Tocava entre outros, o compositor Ernesto Nazareh. Muitas vezes tocava em “ranchos” carnavalescos.

Ingressou na Escola Nacional de Música e se diplomou regente. Foi ao Theatro Municipal do Rio, levando seu diploma de regente. Graças a isso foi bem aceito por seus colegas músicos e professores da orquestra.

Por muitos anos, foi mediador entre os músicos e a SBAT- Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.

Aos 24 anos, bonito, bem vestido, com camisas de cambraia, ternos de linho, amante da vida noturna, fazia bonito e era prestigiado na sociedade. Suas composições começaram a aparecer em 1930. Seu primeiro fox- canção foi: “Dormindo na Rua”, de 1932.Seu primeiro parceiro: Noel Rosa. Conheceu Floriano Faissal e assim começou sua carreira de sucessos. A música: “ Se a Lua Contasse”, gravada por Carmem Miranda, apareceu em todas as rádios, sendo cantada até pelo astro americano Ramon Navarro.

Foi levado para o teatro por Mário Lago. Musicou peças teatrais,tendo trabalhado com Natália Thimberg, Deise Lúcidi e outros. Suas músicas: “ Nada Além “ e “Enquanto Houver Saudade”, foram gravadas por Orlando Silva.

Seus grandes sucessos: “ Velho Realejo”; “ Mulher”. “ Quem É?”; “ Casa de Caboclo”;” Mãe Maria”; “ Algodão”; “ Linda Judia”; “ Preto Velho”; “ Cansei de Sofrer”; e outros; Essas músicas foram gravadas por Carlos Galhardo, Orlando Silva, Carmem Miranda.

Seu maior parceiro foi Evaldo Ruy. Da dupla são as músicas: “ Como os Rios Que Correm pro Mar”;” Feitiçaria”; “ Gira…Gira…Gira”; “ Nossa Comédia”; “ Rosa de Maio”; “ Valsa do Meu Subúrbio” e “ Saia do Caminho”.

“ Saia do Caminho” foi considerada seu maior sucesso e foi lançada um ano após sua morte, tendo sido regravada várias vezes e cantada por Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Nana Caymi e Miucha. Sua canção: “ Mulher” foi trilha sonora de dois filmes e tema de abertura do seriado: “ Mulher”, da Rede Globo.

Teve incursões em cinema, pois seu tipo era de galã; Fez o papel principal no filme: “ Moleque Tião”. Esteve também no filme: “ Carlota Joaquina”.

Custódio Mesquita Pinheiro escreveu 30 peças teatrais, entre as quais: “ Mamãe eu Quero” e “ Rumo ao Sucesso”.

Mas sua vida irregular, suas noitadas, seus excessos o levaram cedo. Teve uma doença hepática, que o levou em 13 de março de 1945, quando estava com apenas 34 anos de idade.

Após sua morte, recebeu inúmeras homenagens, entre as quais, foi enredo da Escola de Samba Império da Tijuca, com o tema: “ Se a Lua Contasse- Vida e Obra de Custódio Mesquita.


Fonte: Museu da TV

terça-feira, 21 de abril de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



Um índio

Há quem diga que Doces Bárbaros (1976) foi o último suspiro da Tropicália, enquanto movimento. O fato é que, a turma formada por Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Gilberto Gil implodiu a questão da identidade nacional ao incorporar as imagens míticas de cunho nacionalista do brasileiro.
A canção "Um índio", de Caetano Veloso, cantada com o vigor da intérprete de "Cárcara", com a retomada do regionalismo como matéria para se pensar o Brasil, por dentro, em contraste e união com uma melodia algo telúrica amplia os elementos da estética romântica e utópica proposta pelo doces bárbaros.
A sequência de assonâncias, proliferação de significantes, com o som da vogal "i" - Ali, Peri, Lee, Ghandi - fortalece o significado que o texto, sozinho, não deixa perceber: a força do que estar por vir: do índio que virá.
Este índio messiânico evoca a ideia da pureza original e física, mas condensa também em si as genealogias das religiões primordiais: indígenas, Taoísmo, Islamismo, Candomblé e Hinduísmo. Tamanha potência de vida é larva que cobrirá tudo e expurgará todos os males, exatamente porque não negará o humano demasiado humano, pelo contrário.
Importa lembrar, além desta arrebatadora interpretação da abelha rainha, a versão que um indefectível Ney Matogrosso deu à canção, para um clipe exibido na TV: Ney se monta, com luvas de longas unhas prateadas e uma exuberante máscara futurista, incorporando (recebendo: sendo o cavalo) o índio revolucionário (doce bárbaro) que diz SIM à vida; que guarda o óbvio segredo da felicidade.
Não é fácil lidar com o óbvio. Muito mais complexo é trabalha-lo poeticamente. O sujeito da canção mostra isso ao apresentar uma híbrida proliferação de signos que circulam a obviedade, mas não a entrega: deixa ao ouvinte a conclusão final. Ou melhor, espera que o índio pouse no coração do hemisfério sul, na América colonizada, para que a epifania aconteça.


***

Um índio
(Caetano Veloso)

Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto-sim resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de um modo explícito

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio





* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

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