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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

MORTO HÁ 25 ANOS, CAZUZA É CELEBRADO EM LIVROS E DISCO DE INÉDITAS

Cantor e compositor carioca morreu em 7 de julho de 1990, vítima de complicações decorrentes da aids






Cazuza dizia que tinha tudo para dar errado. Tinha a língua presa, era filho de um homem poderoso da indústria fonográfica brasileira. Mas, por brilho etalento próprios, o cantor e compositor se tornou um dos grandes nomes da música brasileira, primeiro como líder da banda Barão Vermelho e, depois, na curta carreira solo.

Era poeta do primeiro time. E doce, rebelde, carinhoso, debochado. Viveu intensamente seus 32 anos. Morreu na manhã de 7 de julho de 1990, vítima de complicações decorrentes da aids. Nesta terça-feira, completam-se 25 anos de sua partida. Em outubro, serão 25 anos da fundação da Sociedade Viva Cazuza, que sua mãe, Lucinha Araújo, criou três meses após a morte do filho, para abrigar crianças soropositivas. Neste ano, são comemorados ainda os 30 anos deExagerado, o primeiro disco solo de Cazuza e a canção-título, o primeiro sucesso da carreira pós Barão.

Lucinha diz que não é necessário projetos especiais para que Cazuza seja recordado.

– Ele é lembrado até hoje, se eu não existisse nem o pai dele, ele seria famoso de qualquer maneira. Ele tem material para isso – afirma.

Mas não queria "deixar apagada" a data dos 25 anos sem Cazuza. Por isso, um disco com letras inéditas do compositor vai ser lançado pela Sony, com previsão para este ano. Tudo ainda está muito no começo, Lucinha avisa.

– Cazuza deixou 65 letras inéditas, que estão comigo desde que ele morreu. Quem está me ajudando nisso é a Paula Lavigne, porque eu, sozinha, achei que não ia ser capaz. Ela está produzindo esse CD de músicas inéditas junto com a Sony. Caetano vai musicar um poema, o Gil, outro, Seu Jorge, o Rogério Flausino, a Baby Consuelo, todo mundo quis fazer, todo mundo ficou muito animado. – adianta.

Os artistas convidados ainda estão na fase de escolha das canções. Até agora, só a cantora Bebel Gilberto, amiga de adolescência de Cazuza, musicou uma letra,Brazilian Prayer. 

– É uma letra que ele tinha em inglês. Mandei para ela nos EUA, ela musicou, já cantou para mim pelo telefone. Ficou muito bonito.

Cazuza para ver, ouvir – e ler

Este ano, Cazuza será celebrado em versões para ver, ouvir e ler. Além do disco com canções inéditas, serão relançadas edições atualizadas dos livros Só As Mães São Felizes (1997) e Preciso Dizer Que Te Amo (2001), ambos projetos de Lucinha Araujo lançados pela Editora Globo e que devem ganhar novas edições até agosto. O primeiro virou best-seller e serviu de base para outros dois projetos bem-sucedidos: o filme Cazuza – O Tempo Não Para (2004), dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho, e protagonizado magistralmente por Daniel de Oliveira, e Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical, que estreou em 2013 e atualmente está rodando o Brasil, com a revelação Emilio Dantas dando vida ao poeta transgressor.

– O que pude acompanhar do processo (do musical) eu acompanhei, aquele menino é maravilhoso. Achei que, depois de Daniel de Oliveira, ninguém faria Cazuza tão bem, mas ele fez tão bem quanto – elogia Lucinha.

Só As Mães São Felizes, o livro, é de Lucinha em depoimento à jornalista Regina Echeverria, autora de biografias como A História da Princesa Isabel eGonzaguinha & Gonzagão – Uma História Brasileira. É o retrato fiel e tocante de Cazuza sob a ótica sincera de uma mãe.

Já o livro Preciso Dizer Que Te Amo, nova parceria de Lucinha e Regina, agrupa fotos, poesias e letras de músicas, incluindo material inédito, com comentários dos parceiros.

– Estamos atualizando, porque estava defasado. Eu coloco as letras e, no final, escrevo que a música foi gravada em tal ano por tal pessoa. Codinome Beija-Flortem mais de 30 regravações– detalha Lucinha. 

Na versão ampliada da obra, ela vai incluir Sorte e Azar, que está na trilha do musical. Lucinha conta como foi descoberta:

– Essa música eu não conhecia. Quando o Barão gravou o primeiro disco, a canção seria desse álbum, mas o Zeca (o produtor Ezequiel Neves) disse que azar não era uma palavra boa para ter em música, então ela ficou perdida, estava na Som Livre, aí o Barão ressuscitou a música e eu nem conhecia, é um achado.

É nesse livro que estão as letras que serão gravadas no novo disco. Completa a trilogia o livro O Tempo Não Para, de 2011, que relata a história da Sociedade Viva Cazuza. Agora, Lucinha está envolvida num quarto livro: a biografia do marido, João Araújo, que, segundo ela, não será como em Só As Mães São Felizes, porque "de marido, não dá para falar na primeira pessoa", brinca.

De homem importante da indústria fonográfica, fundador da gravadora Som Livre – onde ficou por 38 anos –, responsável por revelar nomes como Novos Baianos, Djavan, Caetano e Gal Costa, João se tornou o pai de Cazuza quando o filho alcançou o sucesso. Regina Echeverria, que engata nova dobradinha com Lucinha neste projeto, diz que ainda está na fase das entrevistas. Já conversou com nomes como Djavan, Gil, Frejat, Guto Graça Mello, Gloria Perez.

– Ele começou em gravadora em 1955. A ideia é contar a história dele, acompanhando também a evolução da MPB por meio dos discos e da indústria – afirma Regina.

Segundo ela, o livro deve ficar pronto até abril. Toda a venda relacionada à obra do compositor é revertida à Sociedade Viva Cazuza.

Fonte: Zero Hora

terça-feira, 29 de setembro de 2015

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*


Sou seu sabiá



“Sou seu sabiá”, de Caetano Veloso, do discoNoites do Norte (2001), cujos versos nucleares dizem: “Se o mundo for desabar sobre a sua cama / E o medo se aconchegar sob o seu lençol (...) Escute a voz de quem ama ela chega aí (...) Eu sou / Sou seu sabiá / Não importa onde for / Vou te catar / Te vou cantar / Te vou, te vou, te dou, te dar (...) Que tenho a dar? / Só tenho a voz / Cantar, cantar, cantar, cantar”, é um excelente exemplo de metacanção.

Observando o plano temático do disco Noites do Norte – inspirado pela leitura de Caetano sobre o livro de memórias Minha formação, de Joaquim Nabuco – podemos tomar o sabiá-sujeito cancional como aquele elemento sonoro que surge para reconfortar, consolar, mimar o desterritorializado: o escravo de alguma saudade - seja a nostalgia pela pátria roubada, seja o medo diante do estado de sentir-se só no mundo.

O sabiá, através do canto que nunca se cansa do “uníssono com a vida”, tenta restituir a alegria do ouvinte distante de sua pátria, distante de si. Como sabemos, o banzo – o sentimento de não pertencimento – foi responsável por dizimar uma grande quantidade de escravos. É nessa dobra que o sabiá quer entrar e desdobrar outros sentidos para a vida do ouvinte.

Com um arranjo melódico que marca o tic tac de um relógio afetivo, do tempo que corre à revelia do ouvinte desencantado e insone, o sujeito de "Sou seu sabiá" sustenta - na voz, no canto - o ouvinte na vida. Ao final, a performance vocal de Caetano, com seus indefectíveis falsetes, digo, do sabiá, desenha o "uníssono com a vida": entra em um diálogo orgânico com a melodia. Verbo, música e vocoperformance se equilibram em uma única intensão metacancional. Um lance lindo de se ouvir e que reforça o desejo do sujeito da canção.

Aqui, mais uma vez podemos relacionar a obra cancional de Caetano Veloso à tradição literária, pois percebemos nesta canção uma referência direta ao poema “Canção do exílio”, do poeta romântico Gonçalves Dias, em que os primeiros versos tantas vezes parodiados e/ou citados dizem: “Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá”.

Ora, há no poema de Gonçalves Dias a voz de um sujeito que tenta amenizar a própria saudade através da lembrança e da exaltação das belezas da pátria amada e distante, enquanto que em "Sou seu sabiá" é o próprio sabiá - citado como um dos elementos da beleza da terra do sujeito de Gonçalves Dias - quem toma a palavra e canta o sujeito ausente da terra: restituindo-lhe à vida.

Esta inversão de voz discurssiva condensa a singularidade da canção de Caetano Veloso. O ouvinte não precisa voltar para lugar algum, pois o sabiá irá catá-lo seja onde for. Estabele-se entre quem fala (o sabiá) e quem ouve (o insone, o desterritorializado) um pacto ficcional em que um mantem-se vivo na atenção que produz no outro, reciprocamente. A voz que canta é a voz que ama. E vice-versa.

Ou seja, a razão de ser do sabiá está na existência de quem lhe ouve, ao mesmo tempo que o ouvinte precisa do cantar do sabiá para suportar a existência, a solidão irrefreável que acomete a todos nós. Passional, lenta, calma "Sou seu sabiá", para além da aliteração do título (em "s"), que figurativiza o canto, quer se aproximar do estado melancólico do ouvinte para daí removê-lo, como sugerem os tambores quase inaldíveis no final da canção.

Dito de outro modo: o texto da canção de Caetano Veloso destaca-se, dentre as outras paródias já feitas sobre o poema de Gonçalves Dias, por inverter o agente enunciador da mensagem. E, além disso, porque a superfície do texto parodiado só é percebida pela reminiscência: na delicadeza. Tudo está no plano do afeto, da memória: reserva da identidade.

Ao catar e cantar o outro - não importa onde for, pois, neosereia, ele pode ser levado na palma da mão e acessado em qualquer lugar - o sabiá (sereia) entrega o outro a si mesmo. Afinal, o que resta à sereia, ao sabiá, ao cantor a não ser cantar? Eis a contrapartida do pacto: se enquanto canta o sabiá sustenta o ouvinte na vida; ter quem cantar, por sua vez, insere o sabiá no mundo.


***

Sou seu sabiá
(Caetano Veloso)

Se o mundo for desabar sobre a sua cama
E o medo se aconchegar sob o seu lençol
E se você sem dormir
Tremer ao nascer do sol
Escute a voz de quem ama
Ela chega aí

Você pode estar tristíssimo no seu quarto
Que eu sempre terei meu jeito de consolar
É só ter alma de ouvir
E coração de escutar
Eu nunca me canso do uníssono com a vida

Eu sou
Sou seu sabiá
Não importa onde for
Vou te catar
Te vou cantar
Te vou, te vou, te vou, te dar

Eu sou
Sou seu sabiá
O que eu tenho eu te dou
Que tenho a dar?
Só tenho a voz
Cantar, cantar, cantar, cantar


* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

O BLUES DO MALI VEM PARA OLINDA

Boubacar Tratoré mescla o blues com ritmos de origem africana para recriar o estilo num formato único

Por André Soares




O blues do Mali tocado pelas mãos de Boubacar Traoré é o segundo nome confirmado para a etapa pernambucana do MIMO, que acontecerá no sítio histórico de Olinda, entre os dias 20 e 22 de novembro.

Em seu último álbum, o Mbalimaou (2015), gravado em Bamako (capital do Mali), Boubacar, aos 72 anos, expôs ao mundo a sonoridade das progressões harmônicas de seu violão. De características e influências folk, com timbres únicos e inigualáveis, o violonista soma ao blues toda carga melancólica e nostálgica das influências da cultura árabe e das tradições africanas de um dos países do continente sem saída para o mar.

Seu disco, produzido pelo pelo premiado Christian Mousset (Womex 2009) e pelo mestre da kora (alaúde africano), Ballaké Sissoko, para a apresentação em Olinda, contará com a participação de um trio, composto por, além de Boubacar, percussão e gaita.


HISTÓRIA - Com uma sonoridade amadurecida desde a década de 1960, quando adentrou no mundo da música, pouco antes da independência do país (na época ainda colônia francesa), as músicas de Boubacar eram bastante populares nas rádios do Mali, entre elas sucessos como "Kayeba", "Mali twist" e "Kar Kar Madison", embalavam as festas.
Sem uma carreira estruturada e com seis filhos para criar, Traoré se viu obrigado a interromper a vida artística, abandonando a música para trabalhar como alfaiate, vendedor, entre outras ocupações. Caiu no esquecimento e muitos o julgaram morto.

Até que, em 1987, fez uma surpreendente aparição na TV, que lhe rendeu convites para alguns shows. Pareceu que tudo seria como antes e ele retomaria seu posto como astro da cena musical do Mali. Porém, em seguida, perdeu a mulher, Pierrete. Desolado, decidiu deixar tudo para trás e tentar a sorte na França. Juntou-se a outros imigrantes num gueto e foi trabalhar na construção civil, mandando dinheiro regularmente para a família. Nas horas de folga, pegava o violão para se distrair um pouco. 

Uma antiga fita sua caiu nas mãos de uma produtora britânica, que o contratou para gravar o primeiro CD, “Mariama” (1990). O sucesso internacional não tardou a chegar e as turnês a se sucederem. Referência na Europa, seus concertos estão sempre lotados e reúnem um público cada vez mais jovem. Arrebanha numerosos fãs nos EUA (inclusive Martin Scorsese, que manifestou a intenção de fazer a sua cinebiografia) e continua reverenciado em sua terra natal.


MIMO - Este ano, o MIMO será realizado pela primeira vez no Rio de Janeiro (13 a 15 de novembro) em espaços culturais que são patrimônio da cidade como o Parque Lage, o Museu da República, a Sala Cecília Meireles, a Igreja da Candelária e o Outeiro da Glória. O festival também será realizado em Paraty (2 a 4 de outubro) e em Olinda (20 a 22 de novembro), cidade sede e "mãe" do festival.

O MIMO, em 2004, teve sua primeira edição em Olinda e já atraiu 880 mil espectadores em 300 concertos de grandes nomes do cenário cultural nacional e internacional, como Buena Vista Social Club, Madredeus, Ibrahim Maalouf, Toninho Horta, Chucho Valdés, Richard Bona, Egberto Gismonti e Richard Galliano.

Chega à 12ª edição como o maior festival de música instrumental do Brasil. Realizado em cidades que preservam bens e valores culturais do país, oferecerá concertos em espaços do patrimônio histórico como igrejas, teatros, museus e praças nas cidades de Paraty, Rio de Janeiro e Olinda. Este ano, o festival também irá contar com atividades em Ouro Preto e Tiradentes, no mês de outubro. 

Além das atividades realizadas, o MIMO deixa um legado por onde passa através da substancial Etapa Educativa. Com o objetivo de fortalecer a música instrumental produzida no país, esta fase do festival é composta por aulas, workshops, oficinas e máster classes ministradas pelos artistas convidados para o evento. As atividades também são gratuitas e até 2014 mais de 18 mil alunos já haviam sido beneficiados.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

GERALDO VANDRÉ, 80 ANOS


Sem a autorização do biografado, Nuzzi não pode comercializar o livro. Bancado pelo próprio bolso, foram produzidos apenas 100 exemplares, os quais ele faz distribuição por correio. 

Por Mariana Peixoto e Ana Clara Brant



Músico decretou sua morte artística em 1968, durante a ditadura 


Depois de se ausentar do país durante a ditadura, músico negociou a volta em 1973

No sábado 5 de junho o jornalista paulistano Vitor Nuzzi passou em frente ao prédio da Rua Martins Fontes, em sua cidade. Disse para si mesmo que precisava levar o livro. Dos 100 exemplares numerados que Nuzzi mandou imprimir de Geraldo Vandré – Uma canção interrompida, 80 já foram entregues. O de número 1 deve chegar em breve ao apartamento da região central de São Paulo, que pertence há décadas ao biografado.

Nuzzi não tem muita ilusão quanto à reação que Vandré terá ao livro. Ao mesmo tempo, sabe que tentou, de todas as formas, ouvi-lo (sempre sem sucesso) durante o longo processo que culminou na biografia de quase 400 páginas do cantor e compositor paraibano.

Vandré, que completa 80 anos em 12 de setembro, “desapareceu artisticamente” há 47. Durante a última década, Nuzzi dedicou-se ao livro. Uma canção interrompida não tem perspectiva, pelo menos a curto prazo, de vir a público. Os exemplares bancados pelo próprio autor, também responsável pela edição e revisão, não estão à venda. Se a história de Vandré rendeu um livro, a trajetória de Nuzzi para narrá-la também tem contornos interessantes. Na tentativa de publicá-lo, ele ouviu negativas de seis editoras.

Nuzzi tem 50 anos. Aos 20, fez seu primeiro contato com Vandré. Então estudante de jornalismo, foi até o apartamento do compositor. Meio sem saber o que dizer ou como se portar, apenas foi. Chegou a entregar a ele um jornalzinho da faculdade. Vandré não gostou. Deu-lhe boa-noite e colocou-o para fora de casa.

O interesse, a despeito do (mau) tratamento, permaneceu. Desde 1985, Nuzzi pesquisa sobre a vida de Vandré. Eram pastas e pastas de material pesquisado em bancos de dados de jornais e revistas. Quando dos 70 anos do compositor, em 2005, Nuzzi publicou um artigo no site Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com). A repercussão foi tamanha (o texto conta hoje com 77 mil acessos) que ele começou a pensar num projeto maior.

Tentou fazer contato por telefone e carta. Nada. “Paciência”, é o que Nuzzi diz a respeito das recusas de Vandré em falar com ele. Fez a sua parte. Entrevistou uma centena de pessoas e debruçou-se sobre toda a bibliografia disponível – inclusive meia dúzia de trabalhos acadêmicos.

Uma canção interrompida pouco traz da vida particular de Vandré. O que está em foco é a obra, que vai muito além das emblemáticas Pra não dizer que não falei das flores e Disparada, canções que se tornaram muito maiores do que o próprio autor.


PERSONA

Vandré como tal só existiu por pouco mais de uma década. Nascido em João Pessoa, em 1935, Geraldo Pedrosa de Araújo Dias criou a persona a partir do sobrenome do próprio pai, o otorrino José Vandregíselo. Nos anos 1950, foi ‘Carlos Dias’ quem batalhou seu lugar ao sol nos programas de auditório, cantando boleros. Teve ainda um breve momento como ‘Geraldo Dias’. “E ele, como quase todos de sua geração, também cantou bossa nova. Aos poucos e foi saindo do universo cor-de-rosa da bossa”, afirma Nuzzi, que dá destaque para outras nuances da carreira de Vandré.

O ídolo dos festivais foi também um pesquisador da música brasileira. “Embora sua carreira tenha sido muito curta (Vandré decretou a própria morte artística em 13 de dezembro de 1968, dia do AI-5), chama a atenção a seriedade de sua pesquisa. Ele estudou Guimarães Rosa para fazer a trilha do filme A hora e a vez de Augusto Matraga. Também pesquisou a moda de viola num período em que era vista com muito preconceito na região Centro-Sul.”

O auge da carreira de Vandré ocorreu entre 1964 e 1968. Com o AI-5, ele deixou o país, retornando apenas em 1973. Cantou no exterior, mas, de volta ao país, sumiu de cena. Esse é o período mais obscuro, já que muito se dizia que ele havia enlouquecido pós-tortura. Vandré negou, nos anos 1990, que tenha sido submetido a sofrimento físico durante a ditadura.

“Foi preciso muita negociação para que ele voltasse. Como estava meio doente, sentindo falta do país, e é uma pessoa muito apegada à terra, ele entrou numa negociação”, relembra Nuzzi, que descreve com riqueza de detalhes a produção de uma “entrevista” armada de Vandré que foi ao ar em agosto de 1973 no Jornal Nacional, condição para que ele permanecesse no Brasil.

Não havia um repórter da emissora entrevistando-o, somente um cinegrafista profissional, que recebeu a função de gravar em cima da hora. Evilásio Carneiro, o responsável pela gravação, lembra-se de um homem “magro e abatido”, recém-chegado ao Brasil, que teve que dar declarações ainda no aeroporto de Brasília. Vandré recebia orientações do que dizer de homens que o cinegrafista reconheceu como militares, segundo descreve Nuzzi. Um dos dizeres mais emblemáticos foi o de que ele só faria “canções de amor e paz”.


MILITANTE

“Vandré nunca fez parte de nenhum grupo político, nunca foi militante no sentido tradicional da palavra. E naquele momento encontrou um país muito diferente do que deixou. Talvez esperassem um cantor carismático que foi erroneamente dito como um revolucionário, mas encontraram uma pessoa fragilizada. Aquele foi um momento definitivo do que ele passou a ser dali em diante”, comenta o biógrafo.

Mais tarde, Vandré chegou a ser anistiado como funcionário público. “O que ele não aceitou, pois como nunca havia sido criminoso, não poderia ser anistiado. É um raciocínio bem coerente com o inconformismo dele”, diz Nuzzi.

O silêncio das décadas seguintes fez com que o mito em torno de Vandré crescesse. Aparições eventuais – a mais recente, em 2014, foi durante show de Joan Baez, sua admiradora há muito, em São Paulo, em que ela cantou Caminhando – e sumiços relatados pelos amigos compõem a parte final da narrativa.

“Do Vandré de hoje não se tem muita notícia, a não ser da pessoa reclusa, desconfiada. Até mesmo os amigos me disseram que ficam semanas sem ter notícias dele”, afirma Nuzzi. Incansável, o biógrafo não desanima. Além de deixar o livro no apartamento em São Paulo, ainda espera o 12 de setembro para dar mais um telefonema de aniversário, ritual que pratica há pelo menos oito anos.


Trecho da biografia

“Toda a gravação (da trilha do filme A hora e a vez de Augusto Matraga, 1965, de Roberto Santos) foi feita em uma só noite, recorda o maestro Walter Lourenção, ex-diretor do Museu de Arte de São Paulo e ex-regente do Teatro Municipal de São Paulo, que dirigiu corais durante 27 anos. Um deles foi o do Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, onde certo dia recebeu a visita de Vandré. ‘Conversamos muito e fiquei fã dele. Ele conduziu a partitura, eu ensaiei os cantores’, lembra. Mas não foi uma tarefa fácil. Como em todos os trabalhos, Vandré era difícil de satisfazer. Lourenção dá uma ideia de um diálogo daquela madrugada de gravação. ‘A gente gravava, ele falava que não era nada daquilo.’ ‘Você modificou a música’, reclamava Vandré, e cantava. ‘Vandré, não é que mudou, você acabou de compor outra música’, respondia o maestro. ‘Então eu quero essa’, replicava o compositor. Lá pelas tantas, o diretor do filme praticamente implorou: ‘Vandré, já são 6 horas da manhã, quer parar de compor?’” 


Autor é sondado por editoras após decisão do STF

No último dia 10, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram por unanimidade derrubar a necessidade de autorização prévia de uma pessoa biografada para a publicação de obras sobre sua vida. A decisão libera biografias não autorizadas pela pessoa retratada (ou por seus familiares) publicadas em livros ou veiculadas em filmes, novelas e séries. O jornalista Vitor Nuzzi, autor de Geraldo Vandré – Uma canção interrompida, considerou a decisão da Corte memorável e um grande momento do nosso Judiciário.

“Foi um avanço e tanto. Acompanhei atentamente o voto ‘resumido’ da ministra Cármen Lúcia e arquivei o texto integral, que vale uma boa reflexão. É preciso lembrar que isso não significa uma liberação geral de biografias. Quem escreve precisa ser responsável com aquilo que apura e publica. Os biografados têm uma preocupação válida. Esses livros são registros históricos e devem ser vistos como tal.”

Após a decisão do STF, algumas editoras fizeram contato com Nuzzi. “Com relação à minha parte, esse fato não muda muito, mas sim em relação às editoras, que compreensivelmente agora se sentem mais seguras em relação a possíveis projetos. Geraldo Vandré é um personagem importante da nossa cultura e sua obra precisa ser mais conhecida. Acredito que outros (livros) virão. Assim espero. A memória brasileira agradece.”



Discografia Oficial

 Geraldo Vandré (1964)

Faixas:
01 – O Menino das Laranjas (Theo de Barros)
02 – Berimbau (Baden Powell - Vinicius de Moraes)
03 – Ninguém Pode Mais Sofrer (Geraldo Vandré - Luis Roberto)
04 – Canção Nordestina (Geraldo Vandré)
05 – Depois É Só Chorar (Geraldo Vandré)
06 – Samba Em Prelúdio (Baden Powell - Vinicius de Moraes) (Com Ana Lúcia)
07 – Fica Mal Com Deus (Geraldo Vandré)
08 – Quem É Homem Não Chora (Geraldo Vandré - Vera Brasil)
09 – Tristeza de Amar (Geraldo Vandré - Luis Roberto)
10 – Só Por Amor (Baden Powell - Vinicius de Moraes)
11 – Pequeno Concerto Que Ficou Canção (Geraldo Vandré)
12 – Você Que Não Vem (Geraldo Vandré)


Hora de lutar (1965)

Faixas:
01 – Hora de Lutar (Geraldo Vandré)
02 – A Maré Encheu (Geraldo Vandré) (Com Baden Powell)
03 – Despedida de Maria (Geraldo Vandré - Carlos Castilho)
04 – Dia de Festa (Moacir Santos - Geraldo Vandré)
05 – Ladainha (Geraldo Vandré)
06 – Asa Branca (Luis Gonzaga - Humberto Teixeira)
07 – Samba de Mudar (Baden Powell - Geraldo Vandré)
08 – Canta Maria (Geraldo Vandré - Erlon Chaves)
09 – Aruanda (Carlos Lyra - Geraldo Vandré)
10 – Vou Caminhando (Geraldo Vandré) (Com Baden Powell)
11 – Canto de Mar (Geraldo Vandré)
12 – Sonho de Um Carnaval (Chico Buarque)


Cinco anos de canção (1966)

Faixas:
01 – Porta Estandarte (Geraldo Vandré - Fernando Lona)
02 – Depois É Só Chorar (Geraldo Vandré)
03 – Tristeza de Amar (Geraldo Vandré - Luis Roberto)
04 – Réquiem Para Matraga (Geraldo Vandré)
05 – Canção do Breve Amor (Geraldo Vandré - Alaíde Costa)
06 – Fica Mal Com Deus (Geraldo Vandré)
07 – Rosa Flor (Baden Powell - Geraldo Vandré)
08 – Pequeno Concerto Que Virou Canção (Geraldo Vandré)
09 – Se a Tristeza Chegar (Baden Powell - Geraldo Vandré)
10 – Canção Nordestina (Geraldo Vandré)
11 – Ninguém Pode Mais Sofrer (Geraldo Vandré - Luis Roberto)
12 – Quem Quiser Encontrar o Amor (Geraldo Vandré - Carlos Lyra)


Canto Geral (1967)
Geraldo Vandré - Canto Geral

Faixas:
01 – Terra Plana (Geraldo Vandré)
02 – Companheira (Geraldo Vandré)
03 – Maria Rita (Geraldo Vandré)
04 – De Serra de Terra e de Mar (Geraldo Vandré - Theo de Barros - Hermeto Pascoal)
05 – Cantiga Brava (Geraldo Vandré)
06 – Ventania (De Como Um Homem Perdeu Seu Cavalo e Continuou Andando) (Geraldo Vandré - Hilton Accioli)
07 – O Plantador (Geraldo Vandré - Hilton Accioli)
08 – João e Maria (Geraldo Vandré - Hilton Accioli)
09 – Arueira (Geraldo Vandré)
10 – Guerrilheira (Geraldo Vandré - Hilton Accioli)


 Terras de benvirá (1973)

Faixas:
01 – Na Terra Como no Céu (Geraldo Vandré)
02 – Das Terras de Benvirá (Geraldo Vandré)
03 – Vem Vem (Geraldo Vandré)
04 – Canção Primeira (Geraldo Vandré)
05 – De América (Geraldo Vandré)
06 – Sarabanda (A Festa do Lobisomem) (Geraldo Vandré)
07 – Maria Memória da Minha Canção (Geraldo Vandré)
08 – Bandeira Branca (Geraldo Vandré)

domingo, 27 de setembro de 2015

CEM ANOS SEM FESTA: TEATRO DO PARQUE VAI DA GLÓRIA AO SILÊNCIO NO CENTENÁRIO

Teatro fundamental da arte em Pernambuco e no Brasil continua de portas fechadas. Artistas organizam protesto em forma de velório na segunda



Por Isabelle Barros



Um teatro silenciado em pleno centenário. É a imagem que o Teatro do Parque, inaugurado em 24 de agosto de 1915, lega ao Recife em uma data que deveria ser comemorada com portas abertas. Desde que a Banda Sinfônica da cidade encerrou a temporada de 2010, não há mais apresentações culturais no local por conta de problemas estruturais - o grupo se apresenta no Teatro de Santa Isabel.

No ano seguinte, aulas, oficinas e exposições ainda ocorriam no espaço, mas a falta de segurança suspendeu as ações. Hoje, o entorno do teatro, na Rua do Hospício, sofre com a falta do movimento gerado pelas atividades culturais. O início da reforma só foi anunciado em 2014. As obras começaram, a passos lentos, em janeiro de 2015, com previsão de término para novembro de 2016.

A interrupção do funcionamento se torna mais grave diante da falta de pautas para as artes cênicas e opções de lazer a preços populares. Mas o fechamento das portas para a reforma não é exclusividade do Parque. O Santa Isabel passou sete anos fechado, de 1995 a 2002. O Arraial (hoje, Ariano Suassuna) enfrentou reforma em 2007 e só voltou à ativa em 2011.

Desde a inauguração, o Parque se consolidou como um dos equipamentos culturais mais importantes do Recife tanto pela imponência quanto pela posição central na geografia da cidade. Fazia parte de um plano ousado do comendador Bento Luís de Aguiar de criar no Centro um Parque de Diversões à moda portuguesa. Um dos únicos teatros-jardim remanescentes do país era o segundo empreendimento, após o Hotel do Parque, ao lado. O comendador português morreu no dia 1º de setembro, sem poder concretizar os sonhos.


A casa de espetáculos em estilo art nouveau se tornou ponto de encontro. As peças eram encenadas apenas até pouco após as 20h, "a fim de terminar a tempo de alcançarem bondes e trens para todas as linhas", conforme noticiou o Diario.

Começava ali a coleção de momentos históricos do teatro, da dança, do cinema, das artes visuais e da música que o local abrigou. Após 30 anos de funcionamento exclusivo como cinema, arrendado ao Grupo Severiano Ribeiro, o prédio foi desapropriado pelo prefeito Pelópidas Silveira, em 1959, e passou a desempenhar um papel importante na popularização da arte no Recife. Filmes, peças de teatro, apresentações de dança e exposições eram oferecidas de graça ou a preços populares, o que fidelizou o público.

O espaço possui um vasto acervo de 80 filmes em película, 498 VHS e 500 DVDs na Cinemateca Alberto Cavalcanti, atualmente em processo de restauro no Museu da Cidade do Recife.

"O diagnóstico mostrou que há peças em bom estado de conservação e outras não muito bom, com mofo. Serão limpas e as latas, substituídas", conta Betânia Correia, diretora do museu. "A gente tem uma cinemateca com obras importantes do cinema pernambucano", diz Lúcia Matos, responsável pelo restauro e catalogação. Aitaré da praia (1925), de Gentil Roiz, e O canto do mar (1953), de Alberto Cavalcanti, por exemplo. Não se sabe onde está a coleção de fotografias do teatro.

Entre 1999 e 2000, o local sofreu a última grande reforma estrutural, insuficiente para sanar os problemas de drenagem. Até a revitalização anunciada pela prefeitura no fim de 2014 esteve no centro de uma polêmica: as obras teriam sido paradas, o que o Executivo nega. O Viver esteve no teatro e verificou que funcionários da Concrepoxi Engenharia, responsável pela reforma, estavam nas dependências, mas o movimento dentro do espaço era pequeno.

Segundo o presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Diego Rocha, o cronograma está mantido e a obra é 'prioridade da prefeitura". "A obra não parou, embora o número de funcionários envolvidos tenha diminuído. Há serviços que são feitos fora do teatro. Os vitrais da entrada e o mobiliário dos camarotes, por exemplo, se incluem nisso. Está sendo feito um trabalho com especialistas em restauro e, quando o levantamento for feito, a obra vai voltar a acelerar", garante.

O orçamento inicial da reforma estrutural foi fixado em R$ 8,2 milhões e ainda haverá uma nova licitação para a compra de equipamentos quando as obras terminarem. O custo total deve ser de cerca de R$ 10 milhões. E o centenário celebrado ao longo do último mês não houve artistas, plateia, aplausos. Só o silêncio.


PROTESTO
O fechamento do Teatro do Parque levou a manifestações na frente do equipamento cultural nos anos de 2013 e 2014, e não será diferente no centenário, nesta segunda-feira. Um grupo de artistas vai fazer um protesto contra o fechamento do equipamento cultural nos moldes de um velório, às 11h, em frente ao teatro. Os organizadores da iniciativa, o grupo de teatro João Teimoso e o grupo Guerrilha Cultural vão levar flores, velas e cartazes. Apresentações teatrais e musicais estão previstas para marcar a passagem dos 100 anos da casa de espetáculos.

sábado, 26 de setembro de 2015

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Zé Ramalho 2, também conhecido como A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, é o segundo álbum solo do cantor e compositor Zé Ramalho e foi lançado em 1980

Por Dj Ivan



Há elementos de psicodelia, da mitologia grega e de histórias em quadrinhos em suas músicas. O interessante de se ouvir esse disco, é ver como as músicas evoluem com o tempo. Nele estão as primeiras versões de “Admirável gado novo” e “Frevo mulher”, bem diferentes das versões que escutamos hoje em dia.

Destaque para a faixa título, “A peleja do diabo com o dono do céu”, assim como todas as demais, uma composição do próprio Zé Ramalho.


ze-ramalho-frente

Faixas (Todas as músicas escritas por Zé Ramalho):01 - A Peleja do diabo com o Dono do Céu
02 - 
Admirável Gado Novo
03 - Falas do Povo
04 - Beira-Mar
05 - Garoto de Aluguel (Taxi Boy)
06 - Pelo Vinho e Pelo Pão
07 - Mote das Amplidões
08 - Jardim das Acácias
09 - Agônico
10 - Frevo Mulher

Faixas bônus da reedição de 2003:
11 - Admirável Gado Novo (instrumental)
12 - Mr. Tambourine Man
13 - Hino Amizade
14 - O Desafio do Século

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Os Doces Bárbaros

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

MART'NÁLIA, 50 ANOS

Filha ilustre de Martinho da Vila, Mart'nália em 2015 completa meio século de vida e de samba.

Por Bruno Negromonte



Desde que se entende por gente Mart'nália vive o universo da música, e em especial, o do samba. Apesar de Martinho José Ferreira, seu pai, só ter lançado o primeiro disco quatro anos após o nascimento da primogênita, a música já habitava a casa do bamba havia muitos anos. E foi nesse contexto, onde todo mundo bebia e sambava que a pequena Mart'nália chegou em 1965. E é imbuída desta alegria e sonoridade que este ano a artista completa meio século de vida sempre envolta a esse contexto musical que contagia não apenas pela sonoridade, mas pela alegria que rege este ritmo tão brasileiro. Talvez seja esta a razão do sorriso perene no rosto da artista, pessoa que dificilmente ver-se  sem os dentes às amostras seja no palco ou fora dele. Cantora, compositora e percussionista, Mart'nália acumula em sua carreira a participação em diversos projetos especiais e acumula em sua discografia dez projetos fonográficos, sendo o primeiro lançado em 1987 e tendo como título o seu próprio nome. Neste álbum de estreia a artista carioca registrou canções da lavra de amigos como Nei Lopes, Paulinho da Viola, Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro, Mauro Duarte, Julio Costa, Arthur Maia entre outros. O disco sem muita repercussão não fez, naquele momento, o nome da cantora "acontecer" como ocorreria alguns anos mais tarde.

Tendo como marca registrada um irremediável sorriso no rosto, Mart'nália não se deixou abalar e continuou a exercer a função de back vocal na banda do pai, pois talvez já trouxesse consigo a inquebrantável certeza que o seu momento ainda estaria por acontecer como poderíamos atestar anos mais tarde. Uma década depois resolve investir na carreira solo novamente e lança o álbum "Minha cara", projeto que também chegou como comemoração dos quinze anos de profissionalismo da artista e vinte e sete de idade. Dando vazão ao seu lado compositora, o disco apresenta parcerias de Mart'nália com nomes como Viviane Mosé, Arthur Maia e Mombaça. Além disso, a artista também mostra sua faceta interpretativa ao fazer releituras de nomes como Cassiano ("Coleção"), Carlos Dafé ("Pra que vou recordar o que chorei"), Candeia ("A flor e o samba") e outros compositores da mais alta estirpe do mundo do samba.  É um álbum que faz jus ao título e que mostra uma artista já amadurecida se comparada ao seu debute fonográfico uma década antes. Enquanto Martinho da Vila completava três décadas de carreira apresentando o espetáculo 3.0 turbinado, a filha do cantor e compositor começava a se firmar como um dos mais expressivos nomes do samba, gênero este que pode ser considerado como marca maior da identidade cultural brasileira.


Daí em diante, principalmente a partir dos anos 2000, a carreira solo de Mart'nália deslanchou e a fez firmar-se como um dos principais expoentes da samba contemporâneo a partir de trabalhos como "Pé do meu samba" (2001), "Menino do Rio" (2005), "Mart'nália ao vivo" (2004), "Mart'nália em Berlim ao vivo" (2006), "Madrugada" (2008), "Mart'nália em África ao vivo" (2011), "Mart'nália em samba!" (2015) e "Não tente compreender" (2013) (álbum que conta com a produção do cantor e compositor alagoano Djavan). Nestes álbuns a cantora traz antológicas interpretações dos mais distintos nomes da música popular brasileira tais quais Djavan, Moska, Chico Buarque, Arlindo Cruz, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Dona Ivone Lara, Roberto Ribeiro, Sérgio Sampaio, Ana Carolina, Adoniran Barbosa, Monarco, Marcelo Camelo, além é claro, de canções da lavra do pai, Martinho da Vila. Nestes trabalho além de firmar-se como intérprete, Mart'nália também mostra composições de sua lavra que caíram no gosto de seus fãs e que, em muitas apresentações, mostram-se indispensáveis. A exemplo pode-se citar "Benditas" (parceria com Zélia Duncan), "Entretanto" e "Chega" (ambas em parceria com Mombaça). Desse modo, a cantora e compositora mostra-se por inteiro, firmando-se no samba, mas passeando pelos mais distintos gêneros dentro da música indo de Bob Marley a Lula Queiroga com a mesma desenvoltura. Resta-nos, como fãs e/ou admiradores do seu sorriso franco e espontaneidade, desejar-lhe mais meio século de música. Parabéns Mart'nália!



Discografia Oficial



Mart'nália (1987)


Faixas:
01 - Nunca mais
02 - O preço do amor
03 - Para um amor no Recife
04 - Mais consideração
05 - Amor roubado
06 - Luxuosos transatlânticos
07 - Cordas e correntes
08 - Nova era
09 - Na mão de Deus
10 - Nós os foliões
11 - Fogo e mágoa
12 - A última estrela

Minha cara (1997)


Faixas:
01 - Não me balança mais
02 - Contradição
03 - Pra que vou recordar o que chorei
04 - Grande amor
05 - Conto de areia
06 - Minha cara
07 - Coleção
08 - A flor e o samba / Parei na sua
09 - Tentação
10 - Entretanto
11 - Calma
12 - O samba é a minha escola




Pé do meu samba (2001)

Faixas:
01 - Filosofia
02 - Novos tempos
03 - Samba é tudo
04 - Mulata no sapateado
05 - Tempo feliz
06 - De amor e paz
07 - Viajando
08 - Poema do adeus
09 - Pé do meu samba
10 - Meiga presença
11 - Beco
12 - Molambo
13 - Chega
14 - Per Omnia Saecula Saeculorum Amen

Mart'nália ao vivo (2004)

Faixas:
01 - Beco
02 - Pé do meu samba
03 - Novos tempos
04 - Entretanto
05 - Benditas
06 - Calma
07 - Molambo
08 - Celeuma
09 - Contradição
10 - Tudo menos amor / Sob a luz do candeeiro
11 - Para um amor no Recife / Preciso me encontrar
12 - Nó na madeira / Alguém me avisou
13 - Sonho meu / Todo menino é um rei / Vazio
14 - Chega





Menino do Rio (2005)

Faixas:
01 - Pra Mart'nália 
02 - Nas águas de Amaralina
03 - Só Deus é quem sabe
04 - Menino do Rio / Estácio, Holly Estácio
05 - Cabide
06 - Boto meu povo na rua
07 - Sem perdão a vida é triste solidão
08 - Soneto do teu corpo
09 - Pretinhosidade
10 - Essa mania (Rest la maloya)
11 - Pára comigo
12 - Casa 1 da vila
13 - Casa da minha comadre
14 - São Sebastião
15 - Origem da felicidade 


Mart'nália em Berlim ao vivo (2006)

Faixas:
01 - Pra Mart'nália
02 - Nas águas de Amaralina
03 - Menino do Rio / Estácio, Holly Estácio
04 - Essa mania (Rest la maloya)
05 - Cabide
06 - Boto meu povo na rua
07 - Benditas
08 - Celeuma / Fato consumado
09 - Entretanto
10 - Pretinhosidade
11 - Pé do meu samba
12 - Renascer das cinzas / Renascer das cinzas
13 - Casa 1 da vila / Tiro ao Alvaro / Formosa
14 - Alguém me avisou / Sonho meu
15 - Todo menino é um rei / Vazio
16 - Chega
17 - Sem compromisso / Deixa a menina
18 - Estácio, Holly Estácio 



Madrugada (2008)

Faixas:
01 - Alívio
02 - Tava por aí
03 - Deu ruim
04 - Ela é minha cara
05 - Não encontro quem me queira
06 - Sai dessa
07 - Batendo a porta
08 - Fé
09 - Angola
10 - Alegre menina
11 - Sem dizer adeus
12 - Tom maior
13 - Don't worry, be happy! 


Mart'nália em África ao vivo (2011)


Faixas:
01 - Cabide
02 - Alívio
03 - Pára comigo
04 - Ex amor / Disritmia
05 - Angola
06 - Essa mania (Rest la maloya)
07 - Muxima / Mudiakime
08 - Tava por aí
09 - Deu ruim
10 - Conto de areia
11 - Batendo a porta
12 - Mulheres
13 - Fé
14 - Don't worry, be happy!
15 - Brasil pandeiro
16 - Kizomba a festa da raça
17 - Ela é minha cara 


Não tente compreender (2013)

Faixas:
01 - Namora comigo
02 - Surpresa
03 - Daquele jeito
04 - Depois cura
05 - Que pena, que pena...
06 - Não tente compreender
07 - Itinerário
08 - Reversos da vida
09 - Serei eu?
10 - Eu te ofereço
11 - Os sinais
12 - Demorou
13 - Zero muito
14 - Vai saber 


Mart'nália em samba! (2015)

Faixas:
01 - Peço a Deus
02 - Mas quem disse que eu te esqueço // Acreditar // Sorriso negro
03 - Coração em desalinho
04 - Casa 1 da vila
05 - Volta por cima // Saudosa maloca
06 - Maracangalha
07 - Chiclete com banana
08 - Quero ver quarta-feira
09 - Quem te viu quem te vê
10 - Pra quê chorar
11 - Feitiço da Vila
12 - Saigon
13 - Um dia desses
14 - Carol ou Clarisse
15 - Avião
16 - Samba a dois
17 - Beija, me beija
18 - Casa de bamba // Segure tudo
19 - Nhem nhem nhem // Madalena do Jucú
20 - Chega
21 - Sinto lhe dizer
22 - Tem juízo, mas não usa

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

GRAMOFONE DO HORTÊNCIO

 Por Luciano Hortêncio*




"Frevo-canção do carnaval de 1935, em gravação feita na Victor em janeiro desse ano (talvez no dia 30), matriz 79833, editada em disco de tiragem particular, não comercializado, distribuído gratuitamente. Deveria ter sido registrado por Carmen Miranda, que, durante uma estadia no Recife, enfrentou uma autêntica romaria de compositores que se dirigiram ao Hotel Central, onde ficou hospedada. Carmen apaixonou-se por algumas composições de Capiba, e comprometeu-se em gravar este "Tenho uma coisa para lhe dizer". Pixinguinha preparou o arranjo e marcou o dia e o horário para a gravação na Victor. Porém, à última hora, o empresário de Carmen Miranda a contratou para uma turnê ao Sul do Brasil e à Argentina, e, por isso, Capiba não desfrutou da felicidade de ter uma música sua gravada pela Pequena Notável." (Samuel Machado Filho)




Canção: Tenho uma coisa para lhe dizer

Composição: Capiba

Intérprete - Jazz Band Acadêmica de Pernambuco

Ano - 1935


78RPM - Matriz 79833, editada em disco de tiragem particular, não comercializado, distribuído gratuitamente.



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 5000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

VOCÊ SABE QUEM FOI HELENA DOS SANTOS?

2015 completa-se uma década sem 


Por Alberto Robson Gonçalves



Quando encontrei aquela revista, me surpreendi, logo na capa, uma frase que dizia “letras dos dois últimos LPs”, logo, vi que se tratava de uma raridade, a foto de um cabeludo que, só tinha a certeza de que se tratava do rei Roberto Carlos porque, só não o reconhece quem ainda não nasceu, pois, sua imagem é uma das mais divulgada no mundo da música, e também, porque estava escrito o seu nome em letras garrafais. Em seu interior, fotos surpreendentes, do rei e do tremendão, aparentando seus vinte e poucos anos, bem jovens mesmo. Mas, tinha mais, Dorival Cayme com sua cabeleira já bastante grisalha e Jorge Amado, com poucos fios negros em seu famoso bigode branco, como se fizessem parceria, os dois se encontravam na mesma foto, também, tinha uma foto do jovem compositor de Cachoeira do Itapemirim, Edson Ribeiro com seu tímido sorriso e uma cabeleira que fez lembrar-me da era brecocô, cocota, Jovenguarda, coisas daquela época. Mas na verdade a foto que mais me surpreendeu, que também continha lá, foi a da jovem compositora Helena, que pela forma que foi publicada naquela revista “Roberto Carlos por Fred Jorge HOJE”, parecia que não havia tanta consideração a sua pessoa, que esgotou seu estoque de fotografias, que era desmazelada que não se preocupava com um possível legado, que os direitos autorais eram tão pouco que não dava para fazer um álbum, que era tão humilde que não se preocupava com o que mostrar, não sei, mas, sua foto além de parecer que foi reaproveitada de uma carteira profissional, ainda veio sorteada com um fio de cabelo impresso, compreendo, naquele tempo ainda não havia Photo shop, mas as dos outros foram verdadeiros closes.




Naquela época já descrevia o autor Fred Jorge, “pouca gente sabe quem é Helena dos Santos Oliveira”, hoje, quarenta anos depois muito menos. Segundo o que relata a reportagem, Helena nasceu em Minas Gerais, na cidade de Conselheiro Lafaiete, no dia 7 de Janeiro, foi uma mulher do povo, humilde, humana, que sofreu muito, mas soube transformar seu drama em canções românticas. Seus pais, Francisco dos Santos e Maria Amélia dos Santos, jamais poderiam imaginar que, Helena um dia viria a ser famosa. Muito cedo, perdeu a mãe, passando a viver com a madrasta até aos onze anos de idade, vindo para o Rio de Janeiro em companhia de uma irmã que era casada. Logo começou a trabalhar em uma fábrica de tecidos e depois em confecções de roupas para homens na rua Frei Caneca, trabalhava muito, para sobreviver com o pouco que ganhava, até sofrer um acidente e ficar dois anos desempregada, passando por grandes dificuldades financeiras. Depois de se recuperada do acidente voltou a trabalhar, dessa vez como doméstica. Aos dezessete anos conheceu um jovem de Cabo Frio, Lauro de Oliveira, com quem namorou, se casando mais tarde, tiveram quatro filhos, doze anos depois seu marido faleceu. Novamente só, com quatro filhos para criar e com a saúde fragilizada, não desistiu, começou a fazer pequenos trabalhos de costura, passando horas na máquina para entregar suas encomendas, muitas vezes, até de madrugada.

Um belo dia, sem saber como, Helena decidiu a fazer música, simplesmente lhe veio uma inspiração e ela se sentiu capaz de compor, imaginava que, talvez com isso desse para ela acabar de criar e educar os filhos sem as duras penas que a tempo vinha sofrendo.

Helena começou a compor bolero, sambas, marchas e valsas, mas era algo que ninguém queria ouvir. Embora, insistentemente, procurasse os cantores daquela época para cantar suas músicas, ninguém lhe dava atenção, mesmo assim não desistia. Ainda animada, continuava a compor, certa de que um dia seria ouvida por alguém.

Um dia ela assistiu a um programa chamado “HOJE É DIA DE ROCK”, sentiu-se influenciada por aquele ritmo, era como algo diferente, dinâmico e gracioso, tendo a inspirado a compor uma música, que aos amigos pareceu algo maluco. Ainda animada com a nova tendência, sem dar confiança às críticas, voltou a procurar os cantores famosos, mas eles não davam muita atenção para compositores jovens, pois, eram quase todos maduros.

Ainda insistente em seu sonho, helena procurou a Rádio Nacional, onde encontrou-se com uma cantora, a quem mostrou-lhe a música, a qual disse “a música é boa, embora não seja meu gênero, senão eu gravaria, mas vou lhe dar um conselho procure o Roberto Carlos, é um menino que está começando agora e vai indo muito bem, esse é o gênero que ele gosta, é bem capaz que ele se interesse!”. Ao ouvir esse conselho Helena não esperou mais, foi ao encontro do rei. Ficou surpresa ao ver que realmente se tratava de um menino como a cantora havia descrito, porque naquele tempo os cantores eram praticamente todos maduros (coroas), Roberto era apenas um jovem iniciante de carreira, mas que já era bastante aceito como cantor e ia muito bem.


Roberto, atenciosamente ouviu Helena que apresentou-lhe as composições, dizendo em seguida que havia gostado muito das músicas prometendo-lhe que iria gravá-las. Disse mais, “não estou fazendo nenhum favor a você, a música é boa e merece ser gravada!”



Chegou sua vez, aquela foi a primeira vez que uma música de Helena fora gravada por ninguém menos do que aquele que até hoje está no coração do povo como o maior astro da música popular brasileira, o rei Roberto Carlos. Daquele dia em diante, não nasceu para Helena, apenas o sucesso, mas uma grande amizade entre ela e Roberto. A partir daí, ela passou a ser prestigiada até mesmo pela família de Roberto, e os sucessos não pararam mais, algumas de suas composições são: “NA LUA NÃO HÁ”, “COMO É BOM SABER”, “MEU GRANDE BEM”, “SORRINDO PARA MIM”, “NEM MESMO VOCÊ”, “DO OUTRO LADO DA CIDADE”, “ESPERANDO VOCÊ”, “O ASTRONAUTA” e “AGORA EU SEI”.

Mais tarde, Helena veio a fazer parceria com Edson Ribeiro, idéia de Roberto Carlos, que parece, gostava muito dos dois, e percebendo que eles se combinavam e que havia uma grande concordância de idéias entre ambos, os influenciou a compor juntos,“O ASTRONAUTA” e “AGORA EU SEI”, grandes sucessos, são frutos dessa parceria.

Helena não parou por aí, continuou compondo, mas tinha também outros planos, o de escrever livros, já havia escrito três obras enquanto planejava outro, intitulado “O REI E EU”, é nesse que ela irá contar a sua história de encontro com o rei Roberto Carlos.

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