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domingo, 15 de dezembro de 2019

GILDA DE ABREU, 40 ANOS DE SAUDADES

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Biografia

Gilda de Abreu (Paris, França, 1904 - Rio de Janeiro, RJ, 1979). Diretora, roteirista, cantora, atriz e escritora. Filha de médico diplomata e de cantora lírica, Gilda nasce na Europa onde seus pais estavam radicados. Chega ao Rio de Janeiro com quatro anos de idade. Começando seus estudos com a própria mãe, forma-se em seguida no Instituto Nacional de Música. Segue carreira como cantora, apresentando-se em festas e eventos beneficentes, além de participar com frequência de óperas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1933, estreia no Teatro Recreio a opereta A Canção Brasileira, grande sucesso popular. É neste espetáculo que ela divide o palco pela primeira vez com o tenor Vicente Celestino (1894-1968), com quem se casa cinco meses após a estreia. A partir deste trabalho ganha fama, e meses depois é convidada por Adhemar Gonzaga (1901-1978), proprietário da Cinédia, para protagonizar o filme Bonequinha de Seda (1936), dirigido por Oduvaldo Vianna (1892-1972).

Eleita rainha das atrizes no carnaval de 1937, ela volta então a se dedicar ao teatro musicado, dirigindo e escrevendo peças que tem seu marido como astro. Uma dessas peças, O Ébrio, baseada na famosa canção de Celestino, alcança tamanha acolhida do público que a Cinédia decide realizar uma versão para o cinema, tendo Gilda como diretora. O filme, de 1946, torna-se rapidamente uma sensação nas bilheterias. Seguem-se mais dois filmes, Um Pinguinho de Gente (1949) e Coração Materno (1951), porém sem o mesmo sucesso. Gilda se afasta então do cinema após escrever o roteiro para o filme Chico Viola não Morreu (1955). Decidida a abraçar de vez o ofício de escritora, obtém certa repercussão como autora de radionovelas. Um de seus mais famosos romances, Mestiça (1944), é adaptado para as telas em 1973. Em 1977, realiza uma última experiência no cinema, o documentário de curta-metragem Canção de Amor, homenagem póstuma a Vicente.
Análise

Gilda de Abreu e Carmem Santos (1904-1952), são as pioneiras entre as mulheres na direção de cinema no Brasil. Ela própria adorava contar, em tom de anedota, que durante as filmagens de seus filmes tinha que usar calças compridas, para não avexar os técnicos que se sentiam constrangidos em receber ordens de alguém com saias. Além do pioneirismo, seu nome se destaca por ter dirigido um filme-acontecimento, O Ébrio, produção que durante muitos anos permanece como a maior bilheteria de nossas telas e, em termos relativos, o maior fenômeno popular do cinema brasileiro.

Para entender o sucesso de O Ébrio, lembremos as palavras de Nelson Rodrigues (1912-1980): "ninguém faz nada em arte se lhe falta a dimensão de Vicente Celestino".1 Para o dramaturgo carioca, Celestino era uma espécie de arquétipo encarnado do artista popular. Pois o filme de Gilda permite justamente que essa figura chapliniana do cantor alcance seu ápice dramático como o bom médico que se torna o "ébrio" do título, o vagabundo errante de apelo tragicômico. A identificação do público é imediata, ainda mais porque o roteiro escrito por Gilda articula de modo feliz o melodrama, gênero industrial por excelência do cinema latino-americano, com parte de nossa tradição da comédia de costumes, tudo isso ambientado com cenários de forte apelo afetivo: a casa de subúrbio, o espaço paroquial, o auditório da rádio, o boteco do Manoel. Antes de tudo, O Ébrio é um sucesso de comunicação direta com as massas.

Tentando aproveitar os bons ventos, Gilda de Abreu e a Cinédia fecham acordo para um novo filme, Um Pinguinho de Gente (1949), interpretado pela atriz mirim Isabeli de Barros, sensação em O Ébrio. A produção é atribulada, as filmagens começam em 22 de Abril de 1947 e só terminam em 16 de fevereiro de 1948 (isso sem as tomadas extras). Após todo o processo de finalização, a película só estreou em 4 de Outubro de 1949. Descontados os problemas pessoais entre Gilda e Adhemar Gonzaga, estes números evidenciam o caráter problemático da industrialização do cinema no Brasil - a Cinédia, então a maior companhia realizadora do país, sustentava-se sobre um modo de produção frágil. Um Pinguinho de Gente demora tanto para ser lançado que, ao estrear, não vale o investimento. Gilda tenta ainda mais uma vez repetir o sucesso de O Ébrio, agora fora da Cinédia. Coração Materno (1951) seguia a mesma receita: baseava-se numa canção famosa de Celestino e tinha ele próprio como astro. Aqui o fracasso se consuma: se o cinema sentimental de Gilda é um dos componentes do sucesso de O Ébrio, certamente pela dinâmica do enredo, em Coração Materno ele já não é mais bem aceito pela plateia que, no começo da nova década, já se acostuma ao padrão Vera Cruz e ao estilo mais solto das chanchadas da Atlântida.
Nota

1 Entrevista a Neila Tavares, Revista Ele & Ela, Fevereiro de 1975. Citado em: NUNES, Luiz Arthur. O Melodrama no Teatro de Nelson Rodrigues. Portal Brasileiro de Cinema, 2005.

sábado, 14 de dezembro de 2019

VERDADE TROPICAL (CAETANO VELOSO)*

Verdade Tropical - Caetano Veloso


ÍNDICE ONOMÁSTICO

Abujamra, Antônio, 331
Alakêtu, Olga do, 336
Albuquerque, Moacir, 457, 461-2, 486
Albuquerque, Perinho, 457, 486, 495
Alencar, César de, 503
Alencar, José de, 187, 257-8
Alfjohnny, 36-7, 265,462
Allen, Woody, 495
Allende, Salvador, 313
Almeida, Aracy de, 269
Almodóvar, Pedro, 429
Althusser, Louis, 446
Álvares Cabral, Pedro, 13, 17
Alvarez Lima, Marisa, 217, 233, 416-7
Alves, Ataulfo, 62, 174
Alves, Francisco, 265-9, 389-90
Alves, Lúcio, 36-7, 265-6, 485
Amaral, Ricardo, 304, 307, 397-8
Amaral, Tarsila do, 241
Ambitious Lovers, 506-7
Ana (mulher de Torquato Neto), 137, 193
Andrade, Leny, 36, 124
Andrade, Mário de, 155, 241, 259
Andrade, Oswald de, 155, 210, 213, 241-2, 244-9, 251, 256-61, 272, 296, 384,
450, 454
Andreas-Salomé, Lou, 474
Andrews, Julie, 476
Ângela Maria, 38
Antenor (padre), 334
Antoine (cantor francês), 305
Antônio Cândido, 247, 257
Antônio Cícero, 340, 442, 446-9, 476, 498, 501
Antônio Maria, 38, 79, 137
Antonioni, Michelangelo, 64
Antunes, Arnaldo, 240, 292, 489
Arap, Fauzi, 456
Araújo, Emanuel, 56
Araújo, Guilherme, 118-9, 126-33, 139, 145, 157, 168, 173, 180, 188, 193, 200,
209, 213-4, 216, 231, 280, 282, 297-9, 304, 319, 330, 343-4, 420, 422, 432, 449,
458, 506
Arendt, Hannah, 286
Arnaut, Daniel, 223
Arnou, Françoise, 31
Arraes, Guel, 449
Arraes, José Almino, 449-51
Arraes, Miguel. 64, 131, 420, 449, 451,453
Arraes Gervaiseau, Violeta, 420, 446, 449, 453, 457, 461
Assis Valente, 36, 343
Azevedo, João Augusto, 68, 90, 242
Babo, Lamartine, 83, 243
Baby Consuelo, 416
Bach, 70, 228
Baker, Chet, 47, 65, 68-9
Balzac, Honoré de, 33
Banda de Pífanos de Caruaru, 73, 131
Bandeira, Antônio, 91
Bandeira, Manuel, 213, 339
Bardot, Brigitte, 32, 171, 187, 284
Barembein, Manuel, 180, 182, 188, 207
Barreto, Layrton, 396
Barreto, Luís Carlos, 17, 188, 501
Barros, Fernando, 90, 482
Barros, Théo de, 281
Barroso, Ary, 36, 38, 83, 269
Bartók, Bela, 236
Bastos, Othon, 68
Bastos, Ronaldo, 446
Batista, Wilson, 36
BeatBoy s, 168, 170-1, 173, 189, 299
Beatles, The, 45, 131, 132 -3, 141, 168-71,174,180, 209, 238, 247, 256, 263, 270-2,
290, 299, 381, 402, 438, 440, 478
Beauvoir, Simone de, 260, 333, 474
Beethoven, 60
Belina (ex-mulher de Gilberto Gil), 179
Bello de Carvalho, Hermínio, 164
Belmondo, Jean-Paul, 32
Ben, Jorge (Benjor, Jorge) Benjor, Jorge, 45, 47, 196-9, 233, 263, 270, 273, 289-
90, 305. 331, 342, 417, 487-8, 508
Bennett, Tony, 46
Bense, Max, 236
Bergier, Jacques, 93
Bergman, Ingmar, 102
Bergman, Ingrid, 33
Berio, Luciano, 238-9
Berkeley, Busby, 333
Bernardete (Baby Consuelo) Berry, Chuck, 41, 47
Beta (Maria Bethânia)
Beto (Gil, Gilberto)
Bichos, Os (ex-Beat Boy s), 299
Big Brother and the Holding Company, 270
Bill Haley e seus Cometas, 41, 47
Bira, Pedro, 416
Bishop, Elizabeth, 15-6, 249, 252
Blanco, Billy, 174
Bo Bardi, Lina, 59
Boal, Augusto, 75-6, 81-2, 84-5, 87-9,156, 217, 224, 241-2, 2456, 450, 495
Bob Nelson, 30
Bolão (A Outra Banda da Terra), 495
Bolkan, Florinda, 458-9
Boni, Regina, 299
Bonnie (mulher de David By rne), 507
Bonvicino, Regis, 483
Borba, Emilinha, 209, 503
Borges, Jorge Luis, 266, 424, 437, 450
Bosco joão, 292,439
Bôscoli, Ronaldo, 36, 159-60
Boulez, Pierre, 212, 238-9
Bowie, David, 479, 495
Braga, Rubem, 137
Braguinha (João de Barro), 464
Brahms, 60, 237
Brandão. Arnaldo, 495
Brandão, Yulo, 217
Brando, Marlon, 150, 190
Brecht, Bertolt, 59-60, 82, 101, 244, 462
Bressane, Júlio, 226, 428-31, 470, 496
Brett, Guy, 426
Brizola, Leonel, 63, 313
Brown, Carlinhos, 50, 240
Brown, James, 168, 263, 270, 331
Bmbeck, David, 69
Buarque, Chico, 79, 83, 132-3, 138-41, 158-9, 161, 173 -6, 1789, 186, 223, 230-5,
244, 254, 271, 274, 282, 296, 319, 329, 351, 384, 464, 487, 509
Bubu, 41, 68
Bunuel, Luis, 101, 104, 297, 342
Byrne, David, 5, 507-8
Cabral de Melo Neto, João, 7, 135, 14 í. 212, 218, 260, 272, 339, 484, 491
Cabrera Infante, Guillermo, 423-4
Caetano, Marcelo, 420
Cage, John, 60, 192, 221, 237-9
Caldas, Sílvio, 38, 227-8, 265-6, 269, 295
Calheiros, Augusto, 269-70
Callado, Antônio, 374
Calligaris, Contardo, 248-51
Camões, Luís de, 165, 500
Campeio, Cely, 45
Campeio, Tony, 45
Campos, Álvaro de, 339
Campos, Augusto de, 135, 176, 208-30, 233, 236-9, 246, 260-1, 272, 281, 303,
395, 483, 487-90
Campos, Haroldo de, 135, 211-3, 217-21, 225, 228, 238, 246-7, 423
Campos, Roberto, 313
Camus, Albert, 59, 365
Camus, Mareei, 252-3
Canosa, Fabiano, 506
Cantuária, Vinícius, 495
Caó (deputado do pdt), 312
Capiba, 54
Capinan, José Carlos. 131-2, 1346, 140, 142-3, 145, 147, 182, 211, 218, 220, 275,
295-6, 457, 464
Cara de Cavalo, 306, 396
Cardinale, Claudia, 32, 171
Cardoso, Elisete, 80, 158
Cardoso, Ivan, 143
Cariocas, Os, 36
Carlinhos (irmão de Pepeu Gomes), 414
Carmen (mulher de Haroldo de Campos), 220
Carol, Martine, 31
Carré, Silvina, 5
Carroll, Lewis, 225, 272
Cartola, 39
Carvalho, Ana Amélia de (Anamelinha), 482-3
Cassiano Ricardo, 216, 241
Castelo Branco, Humberto de Alencar, 128,177, 313-4, 316
Castro Alves, Antônio de, 220, 257, 339, 465
Castro, Auto de, 236, 311
Castro, Breno de, 236
Castro, Fidel, 316, 424
Castro, Ruy, 287
Castro, Sônia. 6l, 91, 276
Cavalcanti, Alberto, 99
Cavalcanti, Flávio, 206
Cavalcanti, Péricles, 321, 423-4, 444
Caymmi, Dori, 125, 132, 156, 1812, 230, 305, 439, 508
Caymmi, Dorival, 36, 38, 62, 83, 85-6, 123, 125, 174, 179, 1812, 214, 222-4, 305,
335, 462
Caymmi, Nana, 162, 179
Celestino, Vicente, 293-5
Cesário Alvim, Tereza, 137
Chacon, Alex, 94-5, 102, 208, 219
Chacrinha (Abelardo Barbosa), 114, 130, 141, 166-7, 193, 244, 453
Charisse, Cyd, 30
Charles, Ray, 54, 68-70, 89, 486
Chaves, Jucá, 331
Chico Anysio, 454
Cid (filho de Augusto de Campos), 220
Cipó (maestro), 156
Clara (irmã de Caetano Veloso), 55, 340, 396
Clark, Lygia, 51, 70, 91, 426
Claudel, Paut, 58
Cláudia (irmã de Dedé), 455
Claudina (mãe de Gilberto Gil), 290
Cocteau, Jean, 239
Coelho, Lena, 61, 276
Collor de Melo, Fernando, 415
Colombo, Cristóvão, 13
Comte, Auguste, 414
Coppola, Francis Ford, 259
Coquejo, Carlos, 68
Corisco, 186
Correia, Djalma, 47, 145, 276
Cortes, Araci, 87
Costa, Armando, 75
Costa, Carmen, 38
Costa e Silva, Artur da, 128, 316, 452
Costa e Silva, Yolanda, 317
Costa, Gal, 47, 68, 74, 78, 85, 12531, 133, 145 -6, 148, 156, 272, 275, 279-80, 284,
291, 295, 311, 329-31, 342, 456, 459, 470, 508
Costa, Mônica, 482-3
Costa, Pedro, 482
Costa, Tony, 483
Coutinho, Carlos Nelson, 245
Cozzela, Damiano, 185
Crosby, Bing, 265-7
cummings, e. e., 213, 218-9, 272, 437
Cunha, Euclides da, 101
Curtis, Tony, 150 Dada, 186
Dale, Lennie, 124, 162-4, 204, 304
Danduran, John, 301
Dante Alighieri, 229
Dario, Franklin, 121, 170, 174
Darling, Brian, 446-7
Dasinho, 31, 41, 68
Dávila, Roberto, 34
Davis, Bette, 30
Davis, Miles, 47, 68
De Sica, Vittorio, 60
Dean, James, 47
Debussy, Claude, 224
Dedé (ex-mulher de Caetano Veloso), 89-90, 94-5, 102, 1134, 119, 126-7, 129,
140, 146, 193-6, 200-1, 205, 217, 220, 232, 299, 303, 311-3, 317, 321,
323-5, 327-8, 347-50, 353, 35960, 376-8, 382, 391-4, 396, 398, 405, 414 -6, 418,
444, 446, 449, 452-5,458-9,461,465-6,468, 477, 480, 482, 488, 496
Degas, Edgar, 59, 90
Deleuze, Gilles, 69, 240, 409
Delfim Netto, Antônio, 469
Delon, Alain, 32
Descartes, René, 448
Di Maggio, 154
Dias, Antônio, 273, 275, 306
Dias Baptista, Arnaldo, 171-2, 291
Dias Baptista, Sérgio, 171-2, 291
Dias, Rosa Maria, 321, 424
Dibell, Julian, 40-1,46
Diegues, Caca, 220, 259, 428-9
Dirceu (baterista), 185-6
Djavan, 92, 439, 508
Dodô e Osmar, 463-4
Domingas (então noiva de Jorge Ben), 198
Donato, João, 36
Donovan, 458-9
Doors, The, 171, 263
Dors, Diana, 284
Dostoiévski, Fiodor, 225
Douglas, Ann, 294, 497
Drummond de Andrade, Carlos, 113, 136-7, 339
Duarte, Anselmo, 100
Duarte, Rogério, 106-14, 117-8, 120, 126-7, 129-31, 137,145-7, 150, 153-5, 157,
186, 189,198, 202, 208-9, 215, 217, 219, 241, 256, 260, 273-5, 331, 352, 418, 426,
456, 460, 471-2, 483
Duchamp, Mareei, 229
Duprat, Rogério, 171, 180, 183, 185, 220, 272-3, 279-80, 282, 290-1, 294-5, 299,
417, 487-8, 490
Duran, Dolores, 67, 103
Dy lan, Bob, 34,70, 214, 271-2,440
Farth, Wind & Fire, 495
Edite (irmã de Nicinha), 335-6
Edson Luís, 317
Eichbauer, Hélio, 243
Eisenstein, Sergei, 70, 101
Eliade, Mircea, 93
Elis Regina, 74, 85, 122-4, 158-63, 174, 179, 183-4, 187, 256, 329, 508
Emerson, Lake and Palmer, 291
Erasmo Carlos, 45-8, 129, 197, 209-10, 459
Experience, 299
Faissal, Floriano, 503
Faissal, Roberto, 295
Faria, Paulo, 276
Faria, Rena, 276
Famey, Dick, 36-7, 265-6
Faro, Fernando, 331
Felix, Maria, 31
Fellini, Federico, 31-2, 64, 104
Fenelon (padre), 334
Fenollosa, 438
Fernandes, Millôr, 204, 469
Ferreira Gullar, José Ribamar, 75, 181, 215, 373-4
Figueiredo, Abelardo, 168
Filhos de Gandhi, 289
Fitzgerald, Ella, 47, 68, 124
Fitzgerald, Francis Scott, 437
Fonseca, Rubem, 7
Fortuna, Perfeito, 372, 376, 382




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

SILVIO CÉSAR E SUAS HISTÓRIAS (80 ANOS)

Em comemoração aos 80 anos do cantor e compositor o Musicaria Brasil relembra algumas de suas histórias



COPOS TROCADOS


Hebe Camargo, sem dúvida, uma personalidade fora de qualquer padrão.

Mesmo tendo se tornado um ícone da televisão, uma “ Superstar “, nunca se deixou levar pelo orgulho ou pelo egoismo. 

Manteve-se fiel a si mesma e aos seus amigos. 

Consuelo Leandro, Nair Belo, Lolita Rodrigues e Ornella Venturi eram algumas das amigas mais constantes. 

Estavam sempre juntas.

Ornella era uma das primeiras amigas que fiz quando fui morar em São Paulo.

Um dia combinamos um almoço e ela me disse que iria me levar a um lugar muito especial.

Quando chegamos ao restaurante, fomos para uma sala reservada, onde estavam a Hebe e suas amigas de sempre.

A Ornella, então, me explicou que aquele almoço acontecia uma vez por mês, somente entre elas e hoje, excepcionalmente, eu seria o convidado de honra. 

Como eu já conhecia a Consuelo, a Nair e a Lolita, me senti bem à vontade.

Elas brincaram comigo, ameaçaram tirar minha roupa, me chamaram de “bendito fruto entre as mulheres“ e outras brincadeiras.

Tudo dentro de um clima de descontração, amizade e respeito.

O almoço foi uma maravilha não só pelo ambiente, mas também pela comida incrivel e, principalmente, pela bebida, que foi uma descoberta pra mim.

Explico:

Como o almoço era organizado a cada vez por uma delas e nesse dia coube a uma senhora japonesa, que eu não conhecia, a bebida principal era o saquê, que eu nunca havia experimentado e a Hebe me ensinou a beber, “rebatendo“ com cerveja. 

Adorei e exagerei.

Fiquei “torto“ como um gambá.
A Hebe, firme como uma rocha.


Essa história me fez lembrar um programa seu em que fui pra lançar um disco e como o patrocinador era um fabricante de vinhos, a Hebe, numa forma de divulgar o produto, costumava brindar com os convidados.

Nesse tempo eu quase não bebia vinho. Preferia cerveja e, conforme a ocasião, uma boa cachacinha.

Então sugeri a ela que eu colocasse no meu copo um pouco da minha cachaça, que era da mesma cor do vinho branco servido nessa noite e, assim, ninguém notaria a diferença. 

Ela concordou.

No hora do brinde, a Hebe pegou, por engano, o meu copo, brindou e bebeu com vontade.

Ficou olhando pra mim com a boca cheia, as bochechas vermelhas, os olhos brilhando, arregalados, com aquela expressão: “E agora? “

Eu, completamente sem ação, fiquei imaginando o que ela iria fazer.

O programa era ao vivo, não dava pra editar. 

Ela, então, mostrou toda a sua categoria. 

Sem perder a pose, engoliu a cachaça e continuou a fazer o programa com a maior naturalidade, como se nada tivesse acontecido. 

Eu quase não acreditei.

Hoje, relembrando esses dois momentos, rendo todas as minhas homenagens a essa mulher incrível, rara, amiga e companheira.

Insuperável.

Insubstituível.



O ALMOÇO

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

CANÇÕES DE XICO


SOL DO MEU DIA

beijo a boca de uma brisa
sinto o vento alcoviteiro
busco a bússola precisa
pra enflorar meu canteiro

farejo o pescoço do céu
limpo a sujeira da curva 
faço do choro, escarcéu
pra limpar a água turva

e da chama infinita
que de forte faz-se eterna
que de tanta é tão bonita

acendo o farol da alegria
que clareia, pulsa e agita
o sol pleno do meu dia

ROBERTO LUNA, 90 ANOS




Roberto Luna nasceu na cidade de Serraria,Paraíba, no dia 1º de dezembro de 1929. estudou na cidade de Campina Grande,onde fez os cursos primário e secundário.

Em 1945, mudou-se com afamília para o Rio de Janeiro. E trabalhou como caixa, de uma empresaimobiliária.Depois trabalhou em teatro, após ter estudado com o diretor Ziembinsky. Foi apresentado a Chianca de Garcia e queria trabalhar como cantor,mas conseguiu só uma vaga de divulgador da Companhia Teatral.Mas em fins de1940, já apresentava-se como crooner em boates cariocas. O locutor AfrânioRodrigues foi quem o batizou com o nome de Roberto Luna, e assim ele ficoupara sempre.Em 1951 já começou a se apresentar na Rádio Guanabara. Passou depois para a Rádio Globo.

Em 1952, lançou seu primeiro disco, cantando obolero”Por Quanto Tempo?”e o samba-canção;”Linda”. Em 53,gravou os sambas;”Minha Casa Ë Meu Chapéu”. E no mesmo anogravou”Hás de Lembrar”. Foi nesse ano contratado para a Rádio Clubee ganhou um programa:” Audições Roberto Luna”. Em 54, gravou obolero:”Contigo”; e o samba-canção “Você”. Em 55, gravou”Roga por Nós”, “Folhas Soltas”e “FalsasPalavras”. Em 56, gravou:”O Pior dos Homens”; “Pois Ë.”;..”:É Tão Tarde”. Em 57,gravou;”Vergonha”;”Taberna”;”Se Todos Fossem Iguais aVocê”. Em 58 gravou”Serenata do Adeus”;”Castigo”;”Por Causa de Você” Em 59 , gravou;”Hino aoAmor”e “Arrependimento”: “Longe de Ti”. Em 60,gravou:”Rotina”e “Onde Está o Amor”.

No mesmo ano gravou desua autoria:”Suplício da Saudade”; e de LupicínioRodrigues”:Exemplo” Em 61, gravou:”Ninho Antigo”;”Fingimento”;”Adiós, Pampa Mia”;”Falemos comTernura”; “Tangos famosos”; “O Dia em que meQueiras”.Em 1964, gravou o LP:”Os Grandes sucessos de Roberto Luna”.Em 65:”O Luna que eu Gosto”; “Tudo ËMagnífico”;”Senhor Saudade”.

Nos anos 70, Roberto Luna passou aapresentar-se só em boates, chegando a ser proprietário de uma delas.Em 72,lançou pela Chantecler o LP “Roberto Luna”

Em 1990, teve todo o repertóriorelançado pela RGE em CDs.


Fonte: Pró-TV

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*






Canção: Boas festas

Composição: Assis Valente

Intérprete - Hebe Camargo e Os Quatro Amigos

Ano - 1953

Álbum - Odeon 13.548-A - matriz 9871



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

DVD MARCADO POR 'ENCONTROS' HOMENAGEIA O MESTRE DA BOSSA NOVA ROBERTO MENESCAL

O cantor e compositor celebra 80 anos de vida e 50 de carreira: CD e DVD reúnem parcerias 'que continuam sendo muito boas'


Por Augusto Guimarães Pio 


Roberto Menescal está completando 80 anos de vida e 50 de carreira (foto: Juliana Torres/Divulgação)


Considerado como um dos fundadores do movimento bossa nova, o cantor, compositor e violonista Roberto Menescal está completando 80 anos de vida e 50 de carreira. E para comemorar as datas tão importantes, o selo MP, B e a Som Livre estão lançando CD e DVD, com 17 canções do músico capixaba, radicado no Rio de Janeiro, feitas em parceria com compositores como Ronaldo Bôscoli, Marcos Valle, Aldir Blanc, Lula Freire, Chico Buarque, Joyce Moreno e Rosália de Souza.

O disco Roberto Menescal 80 anos é um registro ao vivo do mestre da bossa nova e traz a participação de vários convidados, entre eles Wanda Sá, Danilo Caymmi, Ney Matogrosso, Fernanda Takai, Leila Pinheiro, Lenine, Leny Andrade e Marcos Valle. “O repertório do show foi baseado na arte de cada convidado, podemos assim dizer. Eles foram escolhendo o que cantar e acabou que deu tudo certo. É bom lembrar que, ao longo de tantos anos, os encontros foram e continuam sendo muito bons”, garante Menescal.

Respeitado por várias gerações e reconhecido por sua importância e contribuição para a música brasileira, Menescal foi premiado com o troféu Excelência Musical, oferecido pela Academia do Grammy Latino. Para se ter uma ideia, o artista já atuou ao lado de nomes como Ronaldo Bôscoli, Tom Jobim, Marcos Valle, Dori Caymmi e Emílio Santiago, entre tantas outras estrelas da MPB, com as quais chegou a compor grandes sucessos e produzir diversos projetos.

Menescal acredita que já tenha feito mais de 400 músicas, além de gravar 31 LPs e CDs e 11 DVDs. “Acho que faria hoje o que eu fiz, talvez consertando uma coisa aqui, outra ali, acredito. Mas confesso que, sem sombra de dúvidas, faria tudo novamente”, afirma o músico. “Na realidade, fui aproveitando as oportunidades que foram aparecendo e tudo acabou dando certo. Hoje, tem muita coisa surgindo por aí, por isso, no momento, esteja olhando mais para a frente”, enfatiza.

O músico conta que a ideia de gravar o disco e o DVD não foi dele e sim do Paulo Mendonça (ex-diretor-geral do Canal Brasil) e do produtor musical João Mário Linhares. “Eles se reuniram e tiveram a ideia de gravar um CD em minha homenagem, com as participações de cantores amigos meus. Achei aquilo muito legal e sugeri 40 nomes. Mas disse que a escolha era por conta deles e que não interferiria no trabalho em si”, lembra Menescal.


SEM INTERFERÊNCIA

Ele também conta que não quis interferir na escolha das músicas. “Deixei por conta dos 17 selecionados. Acabou que eles mesmos se entenderam e escolheram as canções que entrariam no CD/DVD”, explica Menescal, que revela que a gravação durou apenas dois dias. “Fiz os arranjos, marcamos o estúdio Pinheiro, no Rio de Janeiro, e fizemos a gravação e a filmagem. Embora tenha sido rápido, ficou tudo muito bom. Agora, já estamos colocando as músicas nas plataformas digitais”, avisa o músico.

Além de Roberto Menescal (guitarra e voz), participaram das gravações os músicos Marcos Nimrichter (piano e acordeom), Jefferson Lescowich (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria).


FAIXAS E PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS
01 – Agarradinhos/Marcos Nimrichter
(Roberto Menescal/Rosalia de Souza)
02 – Telefone/Wanda Sá
(Ronaldo Menescal/Ronaldo Bôscoli)
03 – Ah! Se eu pudesse/Jorge Vercílio
(Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli)
04 – Você me ganhou/Quarteto do Rio
(Roberto Menescal/Quarteto do Rio)
05 – A morte de um Deus de sal/Luiz Pié
(Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli)
06 – Você/Paulinho Moska e Zélia Duncan
(Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli)
07 – Errinho à toa/Marcos Valle
(Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli)
08 – Vagamente/Zé Renato
(Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli)
09 – Nós e o mar/Ney Matogrosso
(Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli)
10 – Bye, bye, Brasil/Danilo Caymmi
(Roberto Menescal/Chico Buarque)
11 – Eu e a música/Cris Delano
(Roberto Menescal/Aldir Blanc)
12 – Adriana/Lenine
(Roberto Menescal/Lula Freire)
13 – Volta/Verônica Sabino
Roberto Menescal/Lula Freire)
14 – Nara/Joyce Moreno
(Roberto Menescal/Joyce Moreno)
15 – Amanhecendo/Leila Pinheiro
(Roberto Menescal/Lula Freire)
16 – O barquinho/Fernanda Takai
(Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli)
17 – Rio/Leny Andrade
(Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli)


Roberto Menescal – 80 anos
MP,B/Som Livre
17 faixas
Preço médio CD: R$ 22,90
Preço médio DVD: R$ 34,90

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

LULA QUEIROGA - PROGRAMA RODA VIVA PERNAMBUCO (PARTE 02)



SILVIO MAZZUCA, 100 ANOS


Na década de 1950 e até o começo dos anos 60, foi regente da orquestra mais solicitada para festas e bailes na capital paulista, fazendo também temporada no Rio de Janeiro especialmente para tocar em bailes de formatura.

Iniciou sua carreira em 1932, tocando em bailes de clubes do Bexiga com a orquestra de Nicolino Leocatta.

Em 1938, passou a atuar na orquestra da Rádio Tupi paulista, dirigida inicialmente pelo maestro Juca (Juca e seus rapazes) e, depois de sua saída, pelo saxofonista J. França.

Em 1942, substituiu França e passou a atuar também na Rádio Difusora (depois da fusão com a Tupi). Nessa época, além do piano, passou a tocar vibrafone.

Ficou na Tupi até 1945.

Em 1947, compôs sua primeira música, o fox "You only you", que se tornou prefixo de sua orquestra, gravado por ele nos anos 1950, pela Columbia.

Gravou o primeiro disco com sua orquestra em 1950, pela Odeon, com "Guararé", de Fabrege, e "Qui nem jiló", de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira.

Em 1951, gravou "Me gusta el mambo", de sua autoria, também pela Odeon.

Gravou ainda algumas músicas de Zequinha de Abreu, como "Tico-tico no fubá", ainda na década de 1950.

Lançou 10 LPs pela Columbia, chegando a receber o disco de ouro da gravadora e do jornal "O Globo".

Recebeu os prêmios Roquete Pinto e Tupiniquim de 1951 a 1958.

Na década de 1950, com sua orquestra, teve um programa só seu na Rádio Bandeirantes.

Em 1954, gravou com sua orquestra na Copacabana, de Perez Prado, o "Mambo del futbol", de Betinho e Nazareno de Brito, o fox "Neurastênico" e de sua autoria o choro "Peter Pan".

Em 1955, gravou ao órgão, de sua autoria, o xote "Aproveita a festa" e o choro "Choro alegre". Em 1957, gravou pela Columbia com sua orquestra a rumba "Little darlin'", de M. Williams, e o mambo "Mambo with me", de e Sampson.

Em 1960, lançou pela Columbia o LP "Baile de samba - Sylvio Mazzucca e Sua Orquestra" no qual foram interpretados os sambas "Exaltação à Bahia", de Vicente Paiva e Chianca de Garcia; "Olhos verdes", de Vicente Paiva; "O orvalho vem caindo", de Noel Rosa e Kid Pepe; "Implorar", de Germano Augusto, Kid Pepe e João Gaspar; "Ai que saudades da Amélia", de Ataulfo Alves e Mário Lago; "Mulata assanhada", de Ataulfo Alves; "Helena Helena", de Antônio Almeida e Constantino Silva "Secundino"; "Já não és mais aquela", de Antônio Almeida e Rubens Soares; "Feitiço da Vila", de Noel Rosa e Vadico; "Palpite infeliz", de Noel Rosa; "Promessa", de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy; "Feitiçaria", de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy; "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso; "Rio de Janeiro", de Ary Barroso; "Cabelos brancos", de Marino Pinto e Herivelto Martins; "Caminhemos", de Herivelto Martins; "Favela", de Roberto Martins e Waldemar Muniz da Silva; "Agora é cinza", de Alcebíades Barcelos "Bide" e Armando "Marçal"; "Samba carioca", e "Rio", de sua autoria; "Canta Brasil", de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho; "Onde o céu azul é mais azul", de João de Barro, Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho, e "Lá vem a baiana" e "Maracangalha", de Dorival Caymmi.

Na década de 1960, trabalhando na TV Excelsior, participou como diretor musical dos primeiros festivais promovidos pela emissora, realizados em São Paulo. Em meados dos anos 1990, com 75 anos, ainda realizava shows pelos país viajando a bordo de um ônibus especialmente adaptado.



Fonte: Dicionário da MPB

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*




Na massa

"Na massa", de Arnaldo Antunes e Davi Moraes, poderia ser mais uma "canção de lista", pois enumera uma série de estilos, atitudes e comportamentos. Porém, o acabamento final dado pelos compositores lhe oferece uma beleza singular.
Importa dizer que as chamadas list song, termo usado para pensar algumas canções de Cole Porter, fazem sucesso por aqui. Seja porque "circula" o objeto da canção com metáforas e metonímias que tentam defini-lo, seja porque estabelece, com isso, a investigação de certa identidade ao objeto: e, como sabemos, ter identidade clara é sonho (impossível) do indivíduo colonizado.
Ou seja, há um sutil desejo de, ao enumerar as delícias da coisa, chamar a atenção para ela: seja para um lugar, seja para uma personagem. Assim, desde "No tabuleiro da baiana" (1936), de Ary Barroso e Luiz Barbosa até "Não é proibido" (2008), de Marisa Monte, Dadi e Seu Jorge, exemplos não faltam. E, no centro disso, claro, não podemos esquecer das list songs cartões postais da Bahia de Dorival Caymmi.
"Na massa", gravada por Arnaldo Antunes, em 2001, no disco Paradeiro, e por Davi Moraes, em 2002, no disco Papo macaco, estabelece uma rápida empatia com o ouvinte, pela letra lúdica: fusão de elementos díspares, mas complementares, diante da proposta do sujeito da canção. Além da convidativa levada pop e rock da melodia.
O clima parece ser criado a partir de um sujeito posicionado no meio de uma multidão (na praça, no carnaval?) e que com o "olho livre", oswaldiano, capta a diversidade nos foliões ao redor, além das múltiplas possibilidades de "se mostrar" e curtir a festa.
A mensagem, depois da profusão de acessórios e vestimentas - compondo uma figura algo sensual que mostra a pele pelo "rasgo da calça", sob o sol de domingo - é a de que não importa a máscara: o importante é "se jogar" e sumir na massa, se misturar.
Aqui, dois aspectos se fundem, tanto a "massa" no que, segundo Lucia Santaella (no livro Linguagens líquidas na era da mobilidade), diz respeito "à homogeneização da informação, veiculada pelos meios de massa, em uma faixa repertorial que é nivelada para um receptor médio abstrato", e, no carnaval, de rua, seria o trio elétrico a exercer tal função; quanto "massa" no sentido do rompimento na individuação, típico da festa dionisíaca.
O sujeito da canção desenha uma personagem de subjetividade escorregadia, em um corpo mutável, que absorve e esgarça a volaticidade das modas: blusa de abajur, manto de garrafa pet, tatuagem de chiclete (não fixa e de fácil remoção) e saia de safari.
Em 2009, Adriana Partimpim, heterônimo de Adriana Calcanhotto, ressurge com o disco Partimpim 2 e usa "Na massa" como símbolo do período em que montar e desmontar subjetividades é exercício prazeiroso e fundamental: a infância - era do carnaval, em que todo mundo pode tudo.
A versão da Partimpim para "Na massa" dá ênfase a outros instrumentos (de brinquedo), que intencificam o objetivo de criar uma atmosfera lúdica. E acerta em cheio!
De fato, "Na massa" é uma canção tão bacana e enigmática (a personagem permanece o tempo todo escondida, perdida atrás de alguma das máscaras cantadas) e tão bem construída (com suas sobreposições de imagens e volteios rítmicos) que não dá para não curtir todas as suas versões.


***

Na massa 
(Arnaldo Antunes / Davi Moraes)

vai de mon amour
blusa de abajur
óculos escuro apaziguando o sol
no domingo a caminho da praça

óculos ray-ban
raio de tupã
no pulso pulseira,
no corpo collant
mostra a pele pelo rasgo da calça

pode ser de farda ou fralda
arrastando o véu da cauda
jóia de bijuteria
lantejoula e purpurina
manto de garrafa pet
tatuagem de chiclete
de coroa ou de cocar
pode se misturar

na massa
some na massa

sai de chafariz
bico de verniz
saia de safári sorriso de miss
camiseta de che guevara

plástico metal
árvore de natal
de biquíni xale bata ou avental
e uma pinta pintada na cara

pode vir de esporte ou gala
de uniforme com medalha
braço cheio de pacote
nada debaixo do short
derramando seu decote
gargantilha no cangote
segue a moda de ninguém
usa o que lhe convém

vai de my cherri
vai de mon amour
vai de bem-me-quer
vai do que vier

na massa
some na massa

anda de abadá
dança o bragadá
turbante importado
lá de Bagdá
fantasia de anjo sem asa

sola de pneu
todo mundo é eu
roupa de princesa
em pele de plebeu
no passeio de volta pra casa

passa de cabelo moicano
ou com lenço de cigano
méxico chapéu cabana
capacete de bacana
de sarongue ou de batina
tanga de miçanga fina
moda tem a sua só
passo de carimbó

na massa
some na massa




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

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