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terça-feira, 22 de setembro de 2020

CHICO BUARQUE E GILBERTO GIL LANÇAM NOVA VERSÃO DO CLÁSSICO 'COPO VAZIO'

Foi lançado também um clipe da canção, com imagens inéditas do dueto de Chico e Gil, filmadas pela Conspiração Filmes no estúdio de Gil, no Rio



A música Copo Vazio, composta por Gilberto Gil e gravada por Chico Buarque originalmente em seu disco Sinal Fechado, de 1974, ganha nova versão que chega nesta sexta-feira, 24, às plataformas digitais. Foi lançado também um clipe da canção, com imagens inéditas do dueto de Chico e Gil, filmadas pela Conspiração Filmes no estúdio de Gil, no Rio.

A regravação foi realizada em 2014, a pedido de Andrucha Waddington, que, na época, rodava Rio, Eu Te Amo e estava em busca de uma trilha sonora para a personagem vivida por Fernanda Montenegro, Dona Fulana.

O álbum Sinal Fechado foi gravado por Chico Buarque só com composições de outros autores, como o já citado Gil, Caetano Veloso, Toquinho e Vinicius de Moraes, Noel Rosa, Walter Franco e Paulinho da Viola (cuja composição deu título ao disco). Na época, sob ditadura, a obra do cantor e compositor sofria forte censura. Chico estava "privado de sua liberdade artística plena!", afirmou Gil.

Na ocasião, Chico pediu música para Gil. "Um copo de vinho. Um copo vazio na mesa. Vazio como, se está cheio de ar? E veio a inspiração da canção que versa sobre a privação da liberdade em tempos de ditadura", escreveu Gil em suas redes sociais.

A letra da música:
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar
É sempre bom lembrar
Guardar de cor
Que o ar vazio de um rosto sombrio
Está cheio de dor
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor
Que a dor ocupa a metade da verdade
A verdadeira natureza interior
Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar


Veja o clipe:


Fonte: Estadão Conteúdo

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

AFOGAMENTO (GILBERTO GIL E ROBERTA SÁ)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

GRAVAÇÃO INÉDITA REVELA SHOW QUE LANÇOU GIL, CAETANO, BETHÂNIA E GAL EM 1964 - PARTE 02

Gravação inédita revela show que lançou Gil, Caetano, Bethânia e Gal em 1964

Por Lucas Fróes



Noite de estreia

Às 21 horas do sábado, 22 de agosto de 1964, no Teatro Vila Velha, com produção e iluminação de Roberto Sant'Ana (21), subiram ao palco Caetano Veloso (22), Gal Costa (18), Gilberto Gil (22), Maria Bethânia (18), Fernando Lona (27), Perna Fróes (20), Djalma Corrêa (21) e Alcyvando Luz (26). Caetano, Gil e Roberto assinaram a direção. Tom Zé (27) só participaria no mês seguinte. "Estávamos nervosíssimos", confessa Roberto.

"Foi a primeira vez que eu pisei num palco na minha vida, assim com público na minha frente, e eu cantei Se é tarde me perdoa e outras músicas mais. Foi maravilhoso, inacreditável", contou Gal Costa, três décadas depois, no programa Ensaio. Presente ao espetáculo, o jurista e músico Carlos Coqueijo (1924-1988) foi um entusiasta do grupo. Uma crítica sua publicada no Jornal da Bahia foi o mais completo relato sobre o "Nós, por exemplo…" a sair na imprensa. "Haverá voz de menina moça mais afinada, mais maviosa, mais meiga, mais instrumental do que a de Maria da Graça? Essa, pra mim, foi a novidade-revelação do grupo", escreveu.

Gilberto Gil interpretou O menino das laranjas, famosa na voz de Geraldo Vandré, além das suas Maria e Samba ainda sem nome, indo às lágrimas. "É verdade que Gilberto Gil comprovou suas excepcionais qualidades de músico, compositor e futuroso diretor musical. E ele, que tantas e tantas vezes já se exibiu em público, principalmente na Televisão, emocionou-se às lágrimas — que foram gerais e compunham o rio da felicidade do exemplo de vocês — porque sabia que aquele fora o seu grande momento musical", desmanchou-se Coqueijo. Gil não se recorda, mas não duvida do choro: "Eu não me lembro, gozado. É possível, primeiro porque Carlos Coqueijo não ia inventar isso da cabeça dele, segundo porque eu sou chorão mesmo", admite.

Caetano Veloso cantou É de manhã e Não posso mais dizer adeus. Trouxe também Vai pra frente, parceria com Bethânia, cantada por Gal Costa. "Lendo o título, me lembrei confusamente de Não posso mais dizer adeus, mas até agora nada me veio de Vai pra frente. Em menos de uma tarde, recordei grande parte da primeira. É uma valsa lenta com melodia sentimental, mas tem parentesco com a canção moderna pré-bossa nova e também com a bossa nova já dominante. Ou é — se eu ou alguém lembrar sua letra, sua melodia e sua harmonia. Acho que era bonita. Quanto a Vai pra frente, não me lembro sequer desse título", escreve Caetano, por email.

Programa do show "Nós, por exemplo..." nº 2


O grande momento do show foi em Sol Negro. "É certo que Caetano se consagrou, naquela noite memorável, um dos melhores compositores brasileiros populares contemporâneos — assim, na galeria de Jobim e Vinicius, sem exagero. Suas composições são fabulosas. Aquela do duo feminino, então, não se fala", decretou Coqueijo. Com Bethânia numa ponta do palco, de vestido branco, e Gal na outra, de vestido preto, Caetano tocava violão no centro. Primeiro, Bethânia começava a cantar, para depois dar a vez a Gal, e no fim as duas cantavam ao mesmo tempo. "Bethânia e Gal cantando Sol Negro, a canção que escrevi para as duas cantarem juntas, em contraponto, foram ovacionadas como se fossem divas consagradas", disse Caetano à Revista Muito, em 2014.

Outros números incluíram a instrumental Tema de Candomblé, de Perna Fróes, a futurista Bossa 2000 D.C., de Djalma Corrêa, misturando solo de bateria com música eletrônica, as canções de protesto com temáticas nordestinas de Fernando Lona (1937-1977) e o virtuosismo de Alcyvando Luz (1937-1998), que tocava violão com afinação particularíssima. Roberto Sant'Ana quebrou vários galhos, fazendo um pouco de tudo, desde cenário e figurino até a iluminação. "Sempre tinha aprovação de Caetano e de Gil", observa.

O show terminou ao som de Samba da bênção, com a turma dando a bênção a grandes compositores da música brasileira e a amigos como o "irmão ausente e querido" Tom Zé, Maria Moniz, Orlando Senna e Carlos Coqueijo. Após o show, Coqueijo foi ao palco e pediu a bênção a Caetano.

Um público de 461 pessoas comprou ingresso e assistiu ao show ao lado de 52 convidados. A renda de Cr$ 138.400 — cerca de R$ 4 mil atuais — foi toda doada para a Companhia Teatro dos Novos. Presente ao Vila Velha naquela noite, o cineasta José Walter Lima, então um estudante de Belas Artes de 18 anos, lembra da sua reação: "Adorei, achei uma coisa diferente, fiquei fascinado".Direito de imagemORLANDO SENNAImage captionEnsaio do "Nós, por exemplo...": Gil, Bethânia, Djalma, Caetano, Perna e Gal sendo dirigidos por Roberto Sant'Ana (de costas)
Tom Zé e novos shows

O sucesso do "Nós, por exemplo…" proporcionou novas apresentações nos dias 7 e 8 de setembro, agora com Tom Zé no lugar de Fernando Lona. "E era lindo a gente cantar naquele Teatro Vila Velha, nós todos jovens, e a gente descobrindo que a gente podia falar com as pessoas, que as pessoas reagiam com alegria ao que a gente dizia. Era uma verdadeira descoberta, assim, gostosa", encantou-se Tom Zé, no programa Ensaio, em 1991.

Se a maioria da turma do "Nós, por exemplo…" ainda iria encontrar sua melhor assinatura musical, Tom Zé já tinha estilo próprio, desenvolvido desde os tempos de Irará, enquanto Bethânia arrebatava de primeira quem a ouvisse. Em texto de 2009, o poeta Ildásio Tavares (1940-2010) ressaltou a originalidade dos dois: "No grupo de jovens que estreou no Vila, todo mundo começou imitando João Gilberto; menos Tom Zé e Maria Bethânia, que se afirmou desde cedo por uma voz pessoal, inconfundível e carregada de emoção".

No fim de novembro, também no Vila Velha, a turma emplacou o "Nova Bossa Velha & Velha Bossa Nova". Nos dias 12 e 13 de dezembro, dessa vez no Teatro Castro Alves, em reconstrução após o incêndio que impediu sua inauguração oficial, apresentaram os dois espetáculos. "O que aconteceu foi uma propaganda espontânea, as pessoas falando sobre o assunto, os estudantes falando sobre os shows em seus colégios e faculdades. Ainda não existia o termo, mas podemos utilizá-lo em retrospectiva: viralizou", sintetiza o cineasta Orlando Senna, produtor desses shows.

Programa do show "Nova Bossa Velha & Velha Bossa Nova", em novembro de 1964
Gravações inéditas


As fotos que sobraram da turma no palco do Teatro Vila Velha são escassas, mas Djalma Corrêa tem as gravações dos três dias de shows do "Nós, por exemplo…", remasterizadas em Los Angeles por iniciativa própria e jamais tornadas públicas. Ele pretende gravar um documentário com a presença dos participantes que, a exceção dele, nunca ouviram o registro do que protagonizaram naquelas noites inesquecíveis em 1964. Trata-se de um dos maiores tesouros não revelados da história da música brasileira. "Eu tô cuidando disso com muito carinho", enternece Djalma.

Mas se estava no palco tocando bateria e percussão, como Djalma conseguiu gravar o espetáculo? "É uma história interessante", sorri. Como teria que usar uma parafernália para apresentar sua música Bossa 2000 D.C., ele teve a ideia de colocar um gravador ao lado da bateria para gravar sua performance. "Já que o gravador estava no palco, por que não gravar o show todo?", questionou-se. Roberto Sant'Ana não gostou da ideia, causando uma discussão que transformou-se em briga. "Fomos para o jardim, e foi um puxa daqui, puxa dali. Caetano segura um, Gil segura outro", conta Djalma. Como num paradoxo temporal, os dois brigavam pela relíquia de um momento marcante que sequer havia acontecido.

Passado o entrevero, eles são amigos até hoje. Seja pela razão ou pela força, Djalma ganhou a disputa e levou ao palco seu gravador caseiro de dois canais de ¼ de pista da marca Philips.
O baterista Djalma Corrêa na orquestra do maestro Carlos Lacerda

Do "Nós, por exemplo…" em diante, passando pelos outros shows no Vila Velha, no TCA incendiado, Bethânia no Opinião, Arena Canta Bahia, os Festivais, a Tropicália, o exílio, Gal a todo vapor, os Doces Bárbaros, Tom Zé redescoberto por David Byrne, Caetano e Gil juntos no Tropicália 2 e no Dois Amigos, Um Século de Música, o big bang sonoro que há 55 anos explodiu numa Salvador vanguardista, em plena velha Bahia, continua a se expandir até hoje.

"Foi um tiro certo, um tiro na mosca", dispara Roberto Sant'Ana.

domingo, 23 de junho de 2019

GRAVAÇÃO INÉDITA REVELA SHOW QUE LANÇOU GIL, CAETANO, BETHÂNIA E GAL EM 1964 - PARTE 01

Gravação inédita revela show que lançou Gil, Caetano, Bethânia e Gal em 1964

Por Lucas Fróes


Em um dos ensaios, da esq. para a dir.: Djalma Corrêa, Gal Costa, Fernando Lona, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Perna Fróes

Quando subiram juntos num palco pela primeira vez, para apresentarem o show "Nós, por exemplo…", no Teatro Vila Velha, em 1964, o formando em Administração e fiscal da Alfândega Gilberto Gil, o segundanista de Filosofia Caetano Veloso, a secundarista Maria Bethânia, a balconista Gal Costa e o bolsista da Escola de Música Tom Zé estavam atando para sempre o destino de suas carreiras musicais.

Antes de virarem tropicalistas e doces bárbaros, os jovens baianos pisaram primeiro no palco do Vila Velha, para em seguida ganharem o mundo a partir do que fizeram no teatro que Gilberto Gil chamou de "pia batismal dos artistas baianos".

Os detalhes desse espetáculo são pouco conhecidos, mas estão surpreendentemente preservados por uma gravação em áudio ainda inédita, guardada há mais de meio século por Djalma Corrêa, percussionista da trupe, que prepara um documentário com o material.

A oportunidade de fazerem o show surgiu quando o diretor João Augusto (1928-1979) disse ao produtor Roberto Sant'Ana, seu aluno na Companhia Teatro dos Novos, que a peça Eles não usam Black Tie, um dos espetáculos programados para a inauguração do Teatro Vila Velha, não ficaria pronta a tempo. Ele sugeriu que, para substituir a peça, Roberto montasse um show com sua turma de música.

Roberto contou a novidade na varanda de azulejos marrons da casa da atriz Maria Moniz, onde costumavam se reunir com Gil, Caetano, Bethânia, Gal, Tom Zé, Djalma, Perna Fróes, Orlando Senna, Emanoel Araújo, Fernando Lona e Alcyvando Luz.

Foi de Caetano a ideia de chamar o grupo e o show de "Nós, por exemplo…", mas os primos Roberto e Tom Zé acharam o nome uma tremenda ousadia, com Roberto argumentando que ainda não eram exemplos de nada, apenas simples estudantes fazendo música. A ideia de Caetano prevaleceu: "O 'por exemplo' aí queria dizer não que nós éramos um modelo a ser seguido, um exemplo, mas que tínhamos a certeza de que havia muitos outros, toda uma geração a que nós, 'por exemplo', pertencíamos, e que devia sua existência ao aparecimento da Bossa Nova", explicou Caetano em seu livro Verdade Tropical.

Para formar o repertório, Roberto Sant'Ana pediu uma cota de músicas autorais aos compositores do grupo, mesclando com os clássicos da Bossa Nova e do cancioneiro popular sugeridas por cada um dos participantes. A turma ensaiava e também dava uma ajudinha para que o Teatro Vila Velha, no Passeio Público, próximo ao Palácio da Aclamação e ao Hotel da Bahia, ficasse pronto.

Perna teve que se virar para arranjar um piano de armário que a Companhia Teatro dos Novos tivesse condições de comprar, enquanto as cadeiras do teatro foram adquiridas de um cinema em Santo Amaro, que estava fechando as portas, graças à indicação de Rodrigo Velloso, irmão de Caetano e Bethânia. Ativo jornalista cultural, Orlando Senna cuidou da divulgação publicando pequenas entrevistas, reportagens e fotos com a turma, preparando o clima para o grande dia.

"Tenho muita saudade, era muito melhor viver naquela época", emociona-se Roberto Sant'Ana. "Éramos jovens, todos, impetuosos, sonhadores, felizes e cheios de energia, então é uma época que me traz recordações maravilhosas", diverte-se Gilberto Gil.

Alguns ensaios da turma aconteciam na casa do pianista Perna Fróes. Em texto de 2017, o flautista Tuzé de Abreu recordou de quando conheceu Bethânia na festa de aniversário de Perna, dois dias antes da irmã de Caetano completar 18 anos. "Perna comandava a sua própria festa ao piano, na casa grande da sua família, no Largo dos Aflitos. (...) De repente, vi sentar próximo ao piano uma garota um pouco mais velha que eu, muito magra, com um vestido preto, cabelos muito pretos e presos em cima da cabeça, morena, com um nariz interessante e uma expressão de pessoa muito determinada. Tinha aparência de indiana. Começou a cantar, acompanhada por Perna, uma canção que considerei a mais bonita que jamais ouvira. Dizia: 'Na minha voz, trago a noite e o mar....'. Falava de um Sol Negro e de Iemanjá. Fiquei muitíssimo impressionado. Tão impressionado que consegui vencer a timidez e falar com aquela pessoa que parecia ao mesmo tempo muito interessante e muito distante de mim. Perguntei de quem era aquela canção. Ela respondeu com alguma rispidez que era do irmão dela, e que eu não o conhecia".

Na contracapa de seu LP de 1968, Caetano deixou um post scriptum dizendo a Gil que "hoje não tem sopa na varanda de Maria". O ponto de encontro era lá, mas a sopa nem sempre. "O lugar básico era na casa de Maria Moniz, de lá íamos tomar uma sopa na casa de tia Canô", esclarece Djalma, com o carinho de quem chama a mãe dos amigos de tia.

"Sempre me vêm à cabeça Gil, Bethânia e Gal, além, é claro, da anfitrioa, cuja conversa era sempre muito engraçada e inteligente. Não tenho certeza de ter visto Tom Zé ou Alcyvando lá, embora seja possível que eles e outros participantes dos shows do Vila Velha tenha frequentado a varanda de Maria", reconstitui Caetano à BBC News Brasil, por email. "(...) Maria tinha tiradas geniais. Ela é dona de um estilo único de pensar, agir e expressar-se. Acho que a sopa era sempre boa, mas as cantorias e as conversas eram ainda melhores. Eu morava perto. (...) Posso me imaginar cantando Não posso me esquecer do adeus lá. E ouvir Gil cantando Serenata de teleco-teco ou uma canção lenta, como Maria. Bethânia cantando Noel, Gal cantando Meditação e Vagamente", continua. "O namorado de Maria me propôs fazer um pocket-show na boate Anjo Azul, que nunca se realizou, mas para o qual escrevi Clever boy samba, que era meio crônica, meio sátira (mas diferente das de Tom Zé) e que serviu de sugestão para Alegria, alegria, que compus anos depois. O 'eu' que anda pela rua da cidade era mais satirizado do que o que anda em Alegria, alegria, mas pensei naquele quando retratei este", completa Caetano.

terça-feira, 14 de maio de 2019

ROBERTA SÁ LANÇA GIRO EM HOMENAGEM A GILBERTO GIL

Cantora dedica seu mais novo projeto musical ao músico baiano, que também participa do álbum. Artista destaca generosidade do parceiro


Por Ana Clara Brant 


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“Acho que a gente pode reagir de duas maneiras a tudo o que está acontecendo. E as duas têm a sua importância. Uma é o lugar da militância, de apontar as falhas, e a outra é pelo acolhimento, que foi a bandeira que decidi carregar”

“Ele (Gil) me olhou de uma maneira muito generosa. Criou músicas da observação dele sobre mim. Ultimamente, está todo mundo tão centrado no próprio umbigo, o mundo tão congelado, pesado, e ele nesse altruísmo”

“Depois desse projeto com ele e para ele (Gil), a minha vida ganhou outro significado e passei a ser mais generosa também”

“Sempre vi o Gil com um olhar de muita admiração. Era um mito. Hoje, acho engraçado tê-lo como amigo. É meio inacreditável

Roberta Sá, cantora 


Roberta Sá escolheu o afeto para nortear o seu mais novo projeto musical, Giro, que acaba de chegar às plataformas física e digital. Não é à toa que o álbum traz canções que falam de amor, de saudade, de paixão e até sobre A vida de um casal, que, inclusive, é uma das faixas. “Acho que a gente pode reagir de duas maneiras a tudo o que está acontecendo. E as duas têm a sua importância. Uma é o lugar da militância, de apontar as falhas, e a outra é pelo acolhimento, que foi a bandeira que decidi carregar. É o que quero cantar neste momento”, avisa.

Xote da modernidade, outra do repertório, também sugere essa delicadeza como forma de levar a vida. “Vem cá que eu vou te ensinar/Uma maneira de encarar a vida/ Tá tudo fora do lugar/Vamos achar nossa medida”. “E não é fácil encarar a vida de uma maneira mais leve. É um trabalho diário, mas estou me esforçando”, comenta a cantora. E principalmente após finalizar o disco, que presta homenagem a Gilberto Gil, Roberta diz que passou a ter um novo olhar sobre tudo o que vai de encontro a essa nova forma de encarar as coisas.

A cantora potiguar destaca que ficou impressionada com a generosidade de Gil, que não só assina todas as 11 faixas inéditas do novo trabalho dela – seja sozinho ou em parceria – como toca e fez parte do processo de produção de Giro. “Ele me olhou de uma maneira muito generosa. Criou músicas da observação dele sobre mim. Ultimamente, está todo mundo tão centrado no próprio umbigo, o mundo tão congelado, pesado, e ele nesse altruísmo. Acho isso de uma beleza, de uma riqueza. É uma lição de amor. Depois desse projeto com ele e para ele, a minha vida ganhou outro significado e passei a ser mais generosa também”, ressalta.

Gilberto Gil sempre foi uma das principais referências artísticas de Roberta Sá. Aliás, ela conseguiu a vaga para participar do reality musical Fama, em 2002, na Globo, interpretando uma composição do baiano, Amor até o fim. “Ele sempre esteve presente na minha vida, na minha formação. Mas sempre foi algo muito distante”, recorda. Em 2011, Roberta foi chamada para fazer um dueto com Gil em Minha princesa, tema de abertura da novela Cordel encantado, que está sendo reprisada no Vale a pena ver de novo, na Globo. “Nós gravamos as vozes separadas; cada um em um momento e em um estúdio. Foi tão maluco porque a gente se falou sobre o projeto e me lembro de ele estar na Austrália e eu em Manaus comentando como foi. Mas fomos cantar juntos pela primeira vez mesmo num festival aí em Belo Horizonte”, conta.

Os dois só passaram a ter um contato mais próximo em 2016, na casa do jornalista Jorge Bastos Moreno (1954-2017), que promovia encontros culturais. “Sempre vi o Gil com um olhar de muita admiração. Era um mito. Hoje, acho engraçado tê-lo como amigo. É meio inacreditável”, pontua. A cantora, que é de Natal (RN), mas mora há anos no Rio, também é só elogios para o filho de Gilberto Gil, Bem Gil, que é o produtor musical do álbum, além de ter participado como músico e arregimentando a banda que acompanhou Roberta na gravação. Bem também foi fundamental na primeira parceria da cantora e compositora com o autor de Drão.


TURNÊ “Ele tem um jeito de produzir que faz com que todos tenham a oportunidade de criar. Apesar de dar uma direção, Bem sabe conduzir de uma maneira única, em que a gente é muito livre e todos ficam em pé de igualdade. Fui maravilhosamente acolhida por ele, pelo Gil e por toda a família. Não poderia estar mais feliz, realizada e honrada com este trabalho”, celebra a artista.

domingo, 19 de agosto de 2018

GILBERTO GIL LANÇA ÁLBUM COM MENSAGEM PELO AMOR E CONTRA INTOLERÂNCIA

Ok ok ok traz canções dedicadas à família, aos amigos e uma faixa especial sobre perseguição e discursos de ódio



O disco estará disponível nas plataformas digitais a partir desta sexta-feira (17).


Existe uma plenitude no olhar de Gilberto Gil, de quem passou por uma tempestade e saiu ileso. Mas Gil não fez essa travessia sozinho. Ao seu lado, estavam família, velhos amigos, novos amigos. Em 2016, o músico fez tratamento para insuficiência renal. Veio, então, a apreensão. E criou-se uma rede de amor ao seu redor, que ele, como compositor, captou e transformou em música. 

Nesse período de tratamento e recuperação, compôs de quatro a cinco músicas. A elas uniram-se outras canções inéditas e, juntas, deram origem ao seu novo disco, Ok ok ok, já disponível em vinil, CD e no Apple Music. A partir de sexta-feira (17), estará em todas as plataformas digitais. É o disco mais afetivo de sua carreira.

"Sem dúvida", concorda o músico, aos 76 anos, em entrevista sobre o lançamento. "É (o trabalho) mais explicitamente afetivo, porque tive de trazer a afetividade para as denominações familiares: filhos, netos, bisneta." Explica-se. Nesse universo de acolhimento que Gil recriou em Ok ok ok, há uma coleção de músicas dedicadas a personagens específicos desse seu círculo de vivência – e convivência. Canções à sua mulher, Flora (Na real e Prece); às novas musas Maria Ribeiro e Andréia Sadi (Lia e Deia), ao amigo e violonista Yamandu Costa (Yamandu, com o homenageado tocando na faixa). 

Para seus médicos, Roberta Saretta e Roberto Kalil, fez, respectivamente, Quatro pedacinhos e Kalil (esta, como uma das faixas-bônus). Na primeira composição, Gil transformou em poesia a biópsia ao qual seu coração foi submetido; na segunda, fez um tributo ao Dr. Kalil numa roupagem quase naïf. Nas referências às novas gerações, a sensação é de celebração aos entes que vão dar continuidade à família e, por tabela, à linhagem Gil. Sua bisneta é tema de Sol de Maria. Para os netos, fez Sereno (a primeira parceria dele com o filho Bem Gil, produtor do disco) e Tartaruguê (esta em homenagem a Dom). “Para ele, praticamente só existiam as Tartarugas Ninjas, além do pai, da mãe (risos). Aí fiz a música para ele. Tartaruguê quer dizer o quê? Não quer dizer nada, é um balbuciar infantil sobre alguma coisa”, diverte-se Gil.

A canção Jacintho foi pensada para um amigo que entrou em sua vida mais recentemente, quando estava às vésperas de completar 100 anos. Isso fez o músico refletir sobre o envelhecer. Esse tema também é debatido por ele e Caetano Veloso no primeiro episódio de Amigos, sons e palavras, programa de entrevistas feitas por Gil, que estreia no dia 21, às 21h30, como parte das comemorações de 20 anos do Canal Brasil. Foi um assunto sobre o qual Gil pensou durante sua recuperação, conta ele. 

"Mas com o consolo de ter tido essa preocupação mais jovem, de ter me dedicado, durante longa parte da minha vida, à questão da saúde, de ter respeitado essa questão da velhice. Ao mesmo tempo, a gente se habitua a lidar com a ideia permanente da finitude. Como dizia Canô (mãe de Caetano), quem não morre envelhece. E quem envelhece traz a carga disso, de ter vivido com essa questão da finitude cotidianamente, de ter pensado nisso para que isso não viesse a se tornar um drama.

ÓDIO 
Em contrapartida a todo amor que envolve seu disco, a primeira faixa, Ok ok ok, é o único momento em que Gil fala de como ele é alvo de ódio nas redes sociais – e de como é exigida dele opinião sobre tudo. É um desabafo? "Para nós e para muita gente. Todos esses visados, perseguidos por essa obsessão recente do discurso de ódio, da manifestação ofensiva contra as pessoas, contra certas escolhas de vida das pessoas, esse discurso da intolerância. Ali é a parte que me toca, especialmente no meu caso, por causa de um certo hábito histórico que se instalou da nossa vida, por força da função que a nossa geração teve nos anos 1960, 70, de se fortalecer junto à sociedade brasileira, para resistir à ditadura. Em Ok ok ok sou eu, mas são todos os nossos colegas, conhecidos e anônimos." 

Por falar em redes sociais, após muitos pedidos, Gil atualizou, duas décadas depois, a letra de Pela internet, que, no novo disco, ganhou a versão Pela internet 2. Ainda falando em redes, como é se posicionar politicamente nos dias de hoje, como fez no Festival Lula Livre? "Acho que é importante, porque o destino que foi determinado ao ex-presidente Lula é um destino complexo, entristecedor para uma parte muito grande da vida brasileira, que teve nele uma referência para as questões da emancipação na vida social do país e que vê na condenação e prisão dele um viés de perseguição política, que, para mim, também é visível", responde Gil. "Cantar Cálice (com Chico Buarque, no festival) foi simbólico; cantei-a raríssimas vezes. Aí Chico sugeriu, e eu disse: ‘Vamos cantar’. Acho (essa música) triste, pesada. Ali tinha uma coisa política."


Fonte: Estadão Conteúdo

sábado, 16 de junho de 2018

ROBERTA SÁ LANÇA DUETO COM GILBERTO GIL

'Afogamento' é o primeiro single do projeto inédito da cantora e já está disponível nas plataformas digitais

'Afogamento' faz parte da trilha sonora da novela 'Segundo Sol' (foto: Alice Venturi)


Afogamento é o primeiro single do novo álbum de Roberta Sá, em que canta junto com Gilberto Gil. A música faz parte do novo projeto da cantora, em que cantará 11 músicas inéditas compostas por Gil e parceiros. 

"Conviver com o Gil e gravar com ele, especialmente Afogamento, me deu um sentimento de aconchego familiar. Gil é uma pessoa muito generosa com quem está à sua volta e é, acima de tudo, um músico apaixonado por quem pensa e faz música", disse Roberta sobre a experiência musical com o cantor. 

Bem Gil assina a produção de Afogamento, que já está disponível nas plataformas digitais – antes da chegada do álbum completo, ainda sem título definido. Além disso, a canção é tema do protagonista da novela Segundo Sol, da Globo. 



Fonte: Estado de Minas 

domingo, 10 de junho de 2018

GILBERTO GIL FOI CONHECER OS BEATLES DE CARUARU

A cultura popular pernambucana completou o quebra-cabeças


Por José Teles


Gilberto Gil em Caruaru. Nas extremidades, os compositores Carlos Fernando e Onildo 
Almeida


“O tropicalismo foi um movimento muito passageiro, mas muito intenso, com discussões muito pertinentes à música, e à cultura brasileira. Deixou naturalmente rastros que estão aí até hoje. Era um movimento muito afinado com as ideias de transformação, de globalização, que estavam ainda muito embriônicas naquela época. O tropicalismo antecipava muito dessas coisas que viriam depois, internacionalismo versus nacionalismo, e outros temas que estão agora na pauta”. Gilberto faz esta síntese da Tropicália, em outubro de 2017, dias antes de uma apresentação do Trinca de Ases, grupo formado por ele, Gal Costa e Nando Reis.

Ele tem um carinho especial pela capital pernambucana. Quando voltou do exílio, em 1972, escolheu o Recife, e o Teatro do Parque, como local do seu primeiro show no país. Há meio século atrás Gilberto Gil, enquanto cantor, nome ainda muito restrito aos meios musicais cariocas, veio, pela primeira vez à capital pernambucana para uma temporada no Teatro Popular do Nordeste, o TPN, na Conde da Boa Vista. Com ele vieram o empresário Guilherme Araújo e Roberto Santana, da Phillips, gravadora pela qual o baiano estava lançando Louvação, o álbum de estreia. O espetáculo que trouxe ao Recife tinha roteiro dele e de Caetano Veloso, com músicas autorais, boa parte conhecida através de Elis Regina, de Chico Buarque (Amanhã Ninguém Sabe) e de Caetano (Um Dia).


EQUAÇÃO

Gilberto Gil veio ao Recife, no final de abril de 1967 quando se intensificavam os debates em torno do futuro da música popular brasileira. A geração que veio depois da bossa nova, num desvio de rota, politizou o discurso e, de repente, uma ala constatou que se distanciavam não apenas da bossa, mas das evoluções estéticas que se desenvolviam nos EUA e Europa, cujos músicos, por sua vez, aproximavam-se a África do Oriente. A MPB se tornara uma ilha. A música popular brasileira precisava de uma terceira via, uma equação que os debates não conseguiam solucionar.

Em Pernambuco, Gilberto Gil resolveu o x do problema: “Chorei quando eles tocaram Pipoca Moderna. Aquilo tinha uma aparência de rústico, de primário, mas era, na verdade, altamente sofisticado. Era muito moderno, como o título da canção, orgulhosamente, anunciava. E aquela composição radicalmente nordestina me fez entender de fato, e pela primeira vez, o primitivismo moderno e complexo que soava no ritmo seguro das guitarras do rock and roll. Ou seja: a cultura popular pernambucana me ensinou a amar os Beatles”. Esse é o relato de Gil de quando foi apresentado à música da Banda de Pífanos de Caruaru (a dos irmãos Biano), onde foi levado pelos novos amigos pernambucanos. Conheceu também maracatus, cavalos marinhos, a ciranda de Lia. Na cultura popular, ele encontrou as peças que faltavam para completar o quebracabeças da modernização da MPB.

Em entrevista à Rolling Stone, Guilherme Araújo contou que na volta do Recife, no avião, Gilberto Gil tentava convencê-lo de que “os Beatles, a Jovem Guarda, Dylan e a Banda de Pífanos podiam ser tudo a mesma coisa. Em São Paulo, Gilberto Gil passou a convocar reuniões para tratar da “retomada da linha evolutiva da música popular brasileira” (a célebre expressão cunhada por Caetano Veloso no seu célebre ensaio na Revista Civilização Brasileira, em 1966). Porém a proposta de juntar a Banda de Pífanos de Caruaru com os Beatles pareceu risível a Edu Lobo, Dori Caymmi ou Chico Buarque.

Até o final de 1967, os céticos da MPB se abalariam com os caminhos a que a música brasileira seria levada por uma ala comandada por Gil e Caetano, sentiriam no lombo os versos de Aroeira, de Geraldo Vandré, que seria líder da ala nacionalista radical da MPB: “Madeira de dar em doido vai bater até quebrar”.


NO TPN

Gilberto Gil abriu Viramundo com um texto: “Eu sou um compositor brasileiro, minha responsabilidade é realizá-lo bem, dentro da verdade do meu tempo. Eu disse que pretendo fazer música vinculada ao meu tempo. Pois bem. Meu tempo é um espaço definido, o Brasil. E até que soprem ventos mais mansos, o nosso tempo de Brasil se caracteriza pela carência, pela privação, coisas do não, como diz o poeta João Cabral de Melo Neto. Por isso é que o Nordeste e suas formas são uma constante em minha música. Acho que a consciência disso é o que leva tantos jovens compositores a procurarem as formas nordestinas. No meu caso, talvez isso seja mais nítido porque há um elemento básico entre mim e o Nordeste. Nasci, cresci, nesta região”.

Gil acabara de gravar um disco que já chegava às lojas datado, para as ideias que ele ruminava. Louvação, o LP, base do seu espetáculo no Recife, já não satisfazia mais o que pretendia para a música popular brasileira. O mesmo Gilberto Gil que participara da passeata contra a guitarra elétrica em junho de 1966, agora se rendia à impossibilidade de ignorar a Jovem Guarda, os Beatles, e a guitarra elétrica, ou seja, o rock and roll.

O baiano declarou que entre as influências que sofreu, depois de Luiz Gonzaga, João Gilberto, o iê-iê-iê era a mais recente: “E realmente impossível alguém viver no mundo em que vivemos, sem sofrer a influência da cultura de massa. O iê-iê-iê é, indiscutivelmente, é uma força atuante sobre todo mundo. Não fiquei imune”.


BAIÃO COM IÊ-IÊ-IÊ

Pouco antes de encerrar a temporada no TPN, Gilberto Gil concedeu uma entrevista à repórter Penha Guimarães, do Jornal do Commercio. Na verdade, mais um depoimento, em que Gil delineia os caminhos musicais que pretendia seguir. Abaixo a transcrição da matéria, intitulada Depoimento Musical de um Viramundo:
“Eu canto com vontade porque pra mim a melhor medida ainda é o homem. Não é a morte é a vida”. Esta é a mensagem que Gilberto Gil veio trazer aos recifenses através do seu espetáculo Viramundo. Para Gil, a música é o seu gesto mais profundo, situando-se como um compositor da vanguarda, ele busca através do seu meio de expressão, um quebrar das coisas desnecessárias. Procurar virar o mundo, pois assim não o satisfaz.

“Não quero cantar o amor antes que o amor acabe, mas para que ele nunca acabe”. Quanto às possíveis influências do iê-iê-iê na música brasileira, Gil acha que ainda não está havendo, mas ela ocorrerá em virtude de uma deflagração, ou seja, de uma exigência. Segue-se uma longa explanção do baiano:

“O iê-iê-iê significa o processo de estagnação do processo cultural de uma civilização. Causando um caos que é processado pelos Beatles, e nós por uma estagnação de desenvolvimento, o caos do terceiro mundo. Se esta influência ainda não se deu foi em virtude de termos formas tão intensas quanto o iê-iê-iê, que é o nosso baião. Mas não esqueçamos que o som das guitarras estão pelas ruas, os cabeludos histéricos andam pelas ruas, e o condicionamento, seja psicológico, seja social, é uma expectativa nova que coloca os autores num impasse. Diante deste condicionamento social do público, os autores serão obrigados, forçosamente, pela expectativa, a orientarem sua atividade artística levando em conta o significado do iê-iê-iê. Tendo que deixar de lado a bandeira da purificação, porque a boa influência, ela é válida. Daí já orientar-me dentro desta nova
linha, sem colocar de lado as raízes fundamentais da nossa cultura, mas considerando o fator iê-iê-iê.

Em consequência disso é que estamos aparentemente parados, pois os compositores, sem saber o que fazer em face do problema, ficam muito no revisionismo, o que não levará a nada, por não puder retroagir, pois mesmo na época da chamada purificação da música, apareceram sambas jazzísticos e muitos deles de boa qualidade e com bons interpretes.
Isso já podemos constatar através do sucesso obtido por Disparada, quando o iê-iê-iê estava em pleno êxito nas casas de discos. Assim também foi o caso de Louvação, que competiu com Que Tudo Vá Pro Inferno, de Roberto Carlos. Mas este fenômeno é recíproco. Se eles são os donos da jogada, nós também temos as nossas cartas, e isto já faz aparecer com uma das ultimas gravações da geração jovem guarda, A Praça, que tem influência marcante de A Banda de Chico Buarque em sua letra”.

Nesta entrevista, Gilberto Gil antecipava claramente os preceitos básicos do seria rotulado de tropicalismo, que eclodiria dali a quatro meses nas eliminatórias do III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record.


KYRILLOS RELEMBRA

Em Viramundo, Gilberto Gil foi acompanhado pelo Congo Trio, formado por Sergio Kyrillos (piano) Zezinho Franco (contrabaixo), e Luciano Pimentel (bateria). Meio século depois, Kyrillos confessa que não se lembra quem deu esta denominação ao trio, mas o resto do episódio continua bem vivo na sua cabeça:

“Gil precisava de um pianista, que tivesse um bom ouvido, para assimilar 22 músicas inéditas que faziam parte do repertório do show. Fui contactado, confesso que não me lembro por quem, e apresentado como o cara de boa orelha que poderia resolver a questão. Chamei o baterista Luciano Pimentel (depois do Quinteto Violado) e o contrabaixista Zezinho Franco para a empreitada. Alguns ensaios depois, uns quatro ou cinco apenas, estávamos prontos para a estreia. Apesar das músicas inéditas, o show teve uma repercussão muito boa de público e crítica. Foram 15 dias de encantamento naquele pequeno teatro da Conde da Boa Vista. Um Dia foi uma música que marcou muito no show... “Como um dia numa festa, realçavas a manhã...” de Caetano Veloso”, recorda o pianista.

A banda viajou de ônibus para uma única apresentação no Teatro Santa Rosa de João Pessoa. !Percebi como curiosidade, que Gil dormia a viagem inteira e depois vi que não era o balanço do ônibus que o fazia dormir... ele não podia ver uma cadeira que sentava e dormia sentado. Baiano com certeza. Ao final do show chovia torrencialmente em João Pessoa e preferimos todos ficar num hotel a enfrentar a estrada com aquele temporal”, relembra Kyrillos.

“Na volta embarcamos no Aero Willis Itamaraty de meu pai rumo a TV Jornal para fazer o programa Sociedade com Alex. Atrasados, Gil me pediu tanto que acelerasse que quase bati em outro carro que vinha em sentido contrário ao fazer uma conversão”.
Ao final da temporada, o músico foi convidado a passar uns dias com Gil no Rio. “Fui ao show dele no restaurante Casa Grande e Senzala na Gávea em companhia do Guilherme Araújo empresário e da doce Gal Costa, ainda desconhecida, e de cabelo curto. Os grilhões da terra me arrastaram de volta apesar dos apelos para que ficasse trabalhando com eles.”

segunda-feira, 16 de abril de 2018

IVETE SANGALO E GILBERTO GIL FAZEM SHOW INÉDITO EM SÃO PAULO

Dueto acontece para promover a inauguração do Allianz Parque Hall, no dia 1º de junho


Ivete Sangalo e Gilberto Gil farão um show único e inédito na inauguração do Allianz Parque Hall.


O estádio Allianz Parque reuniu dois ícones da música popular brasileira, Ivete Sangalo e Gilberto Gil, para subir ao palco juntos no dia 1º de junho, em São Paulo, e realizarem um show inédito para o lançamento oficial do Allianz Parque Hall, uma nova configuração para apresentações da arena multiuso.

O espetáculo único reunirá os dois artistas trazendo em seu repertório clássicos da música popular brasileira. Os ingressos para o show - que custam de R$ 60 a R$ 340 - estarão à venda a partir das 12h da próxima quinta-feira (12) no site Eventim e na bilheteria do local.


O ESPAÇO

Inovador e dinâmico espaço para apresentações na capital paulista, o Allianz Parq Hall comportará até 11.185 espectadores. O palco dos eventos será montado fora do gramado do estádio de forma rápida, sem comprometer a agenda dos jogos de futebol.


Fonte: JC Online

sábado, 30 de dezembro de 2017

CAIXA GIL ANOS 70 É VIAGEM NA MÁQUINA DO TEMPO

Por Tárik de Souza



A caixa de três CDs duplos “Gilberto Gil ao vivo (Anos 70)”, de ótima qualidade técnica - rara para a época no registro de shows -, produzida pelo pesquisador Marcelo Fróes, do selo Discobertas, especialista na obra do baiano, supervisão de, Bem Gil, filho do artista, vai muito além da arqueologia. Opera como uma poderosa máquina do tempo. É possível tomar o pulso daquela década – a do desbunde e da contracultura no auge, batendo de frente com a ditadura militar – a partir das intensas e longas viagens musicais das apresentações. Após sua prisão junto com Caetano Veloso, no final dos 60, e o exílio compulsório em Londres, onde chegou a gravar um disco para o mercado local, ele reaparecia na excursão “Gilberto Gil em concerto”, cujos espetáculos, dias 11 e 12 de março de 1972, no teatro João Caetano, no Rio, originaram o primeiro dos CDs. No repertório, composições que entrariam no álbum emblemático “Expresso 2222”, como a faixa título, e mais “Back in Bahia”, “O sonho acabou”, “Oriente” e as alheias “Sai do sereno” (Onildo Almeida), “O canto da ema” (Alventino Cavalcanti/ João do Vale/ Ayres Vianna) e “Chiclete com banana” (Gordurinha/ Almira Castilho). A bordo de uma banda poderosa, com o gênio da guitarra Lanny Gordin, Perna Fróes (teclados), Bruce Henry (baixo) e Tutty Moreno (bateria), ele embrenha-se por improvisos que chegam a ultrapassar 18 minutos, na releitura heavy rock do samba “Aquele abraço”. Há especiarias como “Brand new dream”, que entraria num segundo disco londrino nunca realizado, uma releitura da anárquica “Cultura e civilização”, já gravada por Gal Costa, a tresloucada “Madalena (entra em beco sai em beco)”, que ele gravaria mais adiante e o arguto mantra “O bom jogador (não engana a geral”) repetido à exaustão. 


O segundo CD, intitulado a partir de uma inédita, a macrobiótica “Umeboshi” (“é fruto da flor/ como a flor de lótus/ é uma bomba poderosa/estimulante do apetite”), foi registrado no alternativo teatro Opinião, no Rio, em abril de 1973. Já traz o hit “Eu só quero um xodó” (Dominguinhos/ Anastácia), outra face do compacto “Meio de campo” (“prezado amigo Afonsinho/ (...) a perfeição é uma meta/ defendida pelo goleiro”), de menor sucesso e maior ressonância. Da banda anterior, resta apenas o baterista Tutty, agora ao lado de Rubão Sabino (baixo), Aluizio Milanês (teclados) e Chiquinho Azevedo (percussão). O cardápio serve da irônica “Essa é pra tocar no rádio”, a “Doente morena” (parceria com Duda Machado), “Iansã” (com Caetano Veloso, desapropriada por Bethânia), “Ladeira da preguiça”, “Cidade do Salvador”, “Duplo sentido” e a obra prima de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, “Imbalança”. Há uma homenagem do solista a Edy Star (“Edith Cooper”), cuja assinatura surpreende ao lado de Gil, na clássica “Procissão”. 



Só, com o violão e longas histórias que conta antes de cada música, o terceiro CD, “Ao vivo na USP”, de maio de 1973, foi realizado em sala de aula por três horas, numa ocupação da faculdade, que lutava por justiça após o assassinato pela ditadura do estudante Alexandre Vannucchi Leme. Além do repertório, que já vinha cantando em outros shows, ele discorre sobre a saga do afoxé com esse nome - então em processo de extinção - “Filhos de Gandhi”. Desvela “Preciso aprender a só ser” (réplica a “Preciso aprender a ser só”, dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle), revive “Domingo no parque” e “Objeto sim, objeto não”. Define “Back in Bahia” como “’Aquele abraço’ ao contrário”; redefine “Chiclete com banana” (“colonialismo às avessas”) e hesita em cantar “Cálice”, feita com Chico Buarque, alegando “desconhecer a parte da letra do parceiro”. Mas alguém da platéia a fornece, e a “proibidona” pela ditadura é entoada duas vezes. Ele abre uma série de sambas, “Senhor delegado” (Antoninho Lopes/Jaú), “Eu quero um samba” (Haroldo Barbosa/ Janet de Almeida) com “Minha nega na janela”, entusiasticamente aplaudida pelos politizados estudantes. Hoje seriam crucificados como politicamente incorretos, pelo humorismo racista da letra, que impede o próprio autor, Germano Mathias (com Doca), de voltar a ela em seus shows atuais. Os tempos mudam – para o bem e o mal. E urge documentá-los.

sábado, 26 de agosto de 2017

NANDO REIS, GAL COSTA E GILBERTO GIL FORMAM O ‘TRINCA DE ASES’ E ESTREIAM TURNÊ EM SP

Os três cantores fizeram show no Citibank Hall, nos dias 4 e 5, com repertório de músicas inéditas e sucessos

Por Adriana Del Ré



Nando Reis é o menino impetuoso e viril. Gilberto Gil, o rapaz maduro calejado pela idade. Gal Costa, a moça. Gil compôs a canção Trinca de Ases pensando nessas ‘imagens-fantasia’. E é assim que o músico descreve os três na letra, incluindo, claro, ele próprio. O gracejo se estende para outras definições: os “três mosqueteiros, três patetas, três poetas da canção”. A música foi feita especialmente para o projeto do trio, o show Trinca de Ases, que Gil, Gal e Nando estreiam em São Paulo, no Citibank Hall, nos últimos dias 4 e 5, e seguem em turnê, pelo menos até o fim deste ano, com apresentações já confirmadas no Rio, nos dias 11 e 12 de agosto; Fortaleza, em 16 de setembro; Recife, em 11 de outubro; e Porto Alegre, em 19 de outubro.“Pensei que sou o mais velho de todos, e ele é o mais novo (risos), e ela é a moça, com a voz ágil”, diverte-se Gil, em entrevista ao Estado. 

Trinca de Ases, a canção, nasceu para abrir o show, como uma espécie de prólogo. “Quando nos reunimos para pensar em repertório, Nando me disse que queria uma abertura que fosse um pouco um ‘statement’ sobre nós, um pouco aos moldes do que havia sido a canção Os Mais Doces Bárbaros, para o projeto Doces Bárbaros. Ele até mencionou isso, e fiquei com aquilo na cabeça quando fui pensar na música. Pensava nisso: nós três, uma pequena ‘descrição-fantasia’ do que somos nós três, e aí surgiu a Trinca de Ases”, conta Gil.

Além dessa canção, o set list reúne outras três composições inéditas. Tocarte é a primeira parceria de Nando Reis e Gil. “É uma letra do Gil que musiquei e depois terminamos juntos”, diz Nando, ao Estado. Ele compôs também Mãe de Todas as Vozes, escrita para Gal e que vai ser cantada por ela nos shows. A outra é Dupla de Ás. “Eu a escrevi também derivada da ideia do Trinca. O projeto foi muito estimulante, me deu vontade de produzir. Mostrei para eles, o Gil gostou e a gente incluiu. Acho que uma das coisas importantes nesse encontro é que ele não é apenas uma celebração, não é revisitação. Embora o grosso do repertório seja composto por músicas que já foram feitas, há novidades do nosso encontro. São quatro inéditas, o que não é pouco”, continua Nando.

Gil fala também da importância das músicas criadas para o projeto. “É interessante, porque eu sou compositor, ele (Nando) é compositor. Somos bandleaders, a Gal também é”, observa. “E o fato de juntar os três também despertava uma certa curiosidade nesse sentido, que não fosse apenas um elenco dos nossos repertórios, mas que tivesse alguma coisa que surgisse desse encontro.”

Mas, sim, o repertório de carreira dos três estará lá, em diálogo entre si.

Eles, não entanto, não entregam muitos detalhes. Gal garante a presença de Baby, um de seus grandes sucessos; Gil revela que terá Refavela. E, de Nando, serão de músicas conhecidas, como O Segundo Sol, a mais obscuras, como O Seu Lado de Cá. “Escolher o repertório de show é uma dosagem”, acredita Nando. “É um equilíbrio entre controle e descontrole, a coisa se dá na hora, com aquela plateia, com todas as variáveis de como cada um está naquele dia.” 

O início do projeto. Em suas trajetórias, Nando Reis, Gilberto Gil e Gal Costa se tornaram protagonistas. Ou bandleaders, como diz Gil. No show Trinca de Ases, eles serão três expoentes da música brasileira dividindo o mesmo palco, os mesmos holofotes. Gal e Gil já são velhos amigos, companheiros na música, irmãos. Isso desde a juventude em Salvador, quando se conheceram pela primeira vez, por intermédio de Caetano Veloso. “Ele já estava namorando com a Dedé, a Gal era vizinha dela, e Caetano ficou logo sabendo também que ela cantava, ficou impressionado com a voz dela e nos conhecemos”, recorda-se Gil. Tempos depois desse episódio, Gil, Caetano, Gal e Bethânia formariam os Doces Bárbaros. “A gente se entrelaça e se compreende de uma forma tranquila, natural”, comenta Gal, sobre Gil, em conversa com o Estado.

No projeto, Nando se junta aos dois amigos de longa data como o ‘caçula’. E como é para ele ser o menino impetuoso e viril dessa turma, ao lado da moça e do rapaz maduro calejado pela idade? “Primeiro, muito lisonjeado de ser citado numa música escrita por Gil. Não apenas no projeto, como eternizado nos versos dessa música da qual eu sou um personagem. Evidentemente, tudo isso é poético, claro que pelo fato de eu ser de uma geração diferente, mas estou bem longe de ser um menino com 54 anos. No entanto, ali tem toda essa questão que, no fim das contas, é mesmo um gracejo. O fato que música é um negócio atemporal, e vou te dizer: o Gilberto Gil é uma potência de energia”, diz Nando. 

Gal garante que Nando está se adaptando à dinâmica dela e Gil. “Ele tem muita admiração por Gil, ele diz que adora meu disco Índia. É muito entusiasmado. Como diz o Gil, é um menino impetuoso. Então, ele está curtindo muito”, diz a cantora. 

Esse encontro inusitado dos três no palco se deu primeiro em 2016, em um show em comemoração ao centenário de Ulysses Guimarães, idealizado pelo jornalista Jorge Bastos Moreno. Ele chamou Gil, e Nando e Gal também foram convidados. Eles experimentaram, então, a catarse no palco. “A gente fez dois ensaios, não é muito porque o show era outra estrutura, muito menor e desmembrado. O Gil apresentava quatro músicas sozinho, depois eu quatro canções sozinho, depois eu e Gil seis músicas e, então, chamávamos a Gal e cantávamos mais quatro. Mas, a partir do momento que fomos tocando, houve uma soltura, uma identificação musical, uma química”, lembra Nando. “Talvez eu e Gil tenhamos uma relação com o palco com algum grau de semelhança. Fiquei empolgado e vi que o Gil também.”

Para Gil, a sensação foi a mesma. “Do ponto de vista musical, para mim, foi meu encontro com a qualidade musical do Nando, com o tipo de violão que ele toca. Fiquei muito impressionado com o modo dele de tocar violão. Isso me animou a fazer uma colaboração um pouco mais profunda com ele”, diz o músico. 

Veio, então, a decisão de prolongar aquele encontro. E os três foram organizar suas agendas – e seus projetos – para levar adiante a turnê do Trinca de Ases. Afinal, Nando está na estrada com seu show jardim-pomar; Gil acabou de gravar um disco, que ainda não tem data de lançamento; Gal está com a turnê Estratosférica, gravou recentemente seu DVD e planeja um novo disco para o ano que vem. 

A princípio, a turnê deve se estender até o fim deste ano, e a estrutura do show é diferente do projeto que eles participaram em 2016. As apresentações não serão mais em blocos: agora, os três estarão sempre no palco. A última semana foi intensa para o trio, com ensaios e participação no Fantástico, que vai ao ar neste domingo, 30. 

Nando está em êxtase por dividir o projeto com Gil e Gal, que, segundo ele, junto com Caetano, são grandes referências na sua formação musical. E identifica discos históricos, como Expresso 2222, de Gil, Índia, de Gal, e o álbum de Londres de Caetano, o Caetano Veloso, como alguns pilares dessa influência. “Venho de uma família muito ligada à musica, tenho irmãos mais velhos, sempre compramos muitos discos e íamos muito a shows. E eu, desde muito cedo, não só ouvi discos como fui a esses shows e a maioria deles de Gil, Caetano e Gal”, conta Nando. “Vi, por exemplo, Gal Fatal muito pequeno, com 9 anos.” 

Gil e Gal contam que conhecem Nando desde seus tempos de Titãs. Gil e Nando se encontraram uma ou duas vezes no palco em projetos. Com Gal, em 2016, foi a primeira vez. “Conheço as coisas dele, que a Cássia (Eller) cantava, mas eu não tinha uma intimidade muito grande com a obra do Nando. Estou tendo agora e está me surpreendendo, porque tem umas coisas bem bonitas”, diz Gal. Assim como Nando, ela e Gil estão animados com o show em parceria. “Acho que essa mistura musical do violão do Gil com o violão do Nando, com minha voz dá um bom caldo. E, misturar essas coisas, você imagina que não pode dar certo, mas música pode tudo.”

sexta-feira, 28 de julho de 2017

CRÔNICA: GILBERTO GIL E A FOTO PERDIDA


Por José Teles 


No backstage, em Marciac


Gilberto Gil completou hoje 75 anos. Há 45 eu o vi pela primeira vez, no Teatro do Parque. Não tinha dinheiro pro ingresso. Por sorte faltou energia no Recife nesta noite. O teatro às escuras, pedi ao porteiro pra entrar e ele, talvez achando que o show não iria continuar, deixou. Gil se acompanhava ao violão, no escuro. O clima era meio tenso. Foi o primeiro show dele no Brasil desde que, três anos antes, fora banido do país com Caetano Veloso. Tinha um monte de artistas na plateia, Gal veio de carro de Salvador com uma turma, acho que Macalé e Capinam faziam parte.

Voltei a ver Gilberto Gil novamente em 1976, com Os Doces Bárbaros, no Geraldão. Antes um show no SESC em Santo Amaro, com Dominguinhos na sanfona, a turnê de Refazenda. Uma noite memorável, em que ele esgotou o repertório, e começou cantar rock and roll dos anos 50, Little Richard, Elvis Presley. A quarta vez, com certeza, foi com Jimmy Cliff, no Geraldão, em maio de 1980. Um showzaço, e teve ainda ele e Rita Lee, igualmente no Geraldão, com o Refestança.

Desde então não tenho ideia de quantas vezes o vi no palco, e fora dele, depois que passei a escrever sistematicamente sobre música. Foram dezenas de ocasiões. Já assisti a show de Gil aqui no Recife, Salvador, no Rio, em São Paulo, no exterior. Dos grandes nomes da MPB dos anos 60, acho que foi o que vi mais vezes, e o que mais admiro, não apenas pelo talento, mas igualmente pela maneira como vai se renovando sem forçar barra.

Quando cobria o PercPan, o festival de percussão que acontece até hoje em Salvador, embora em dimensões bem menores, passamos a nos cumprimentar. O festival começou em 1994, mas foi em 1996 que Gil começou a dividir a direção musical com Naná Vasconcelos, que também foi o curador até 2000, quando deixou de participar do PercPan. Gil continuou, com Marcos Suzano, por mais duas edições.

Com Naná ele improvisava deliciosas vinhetas entre uma atração e outra. Tenho várias gravadas em cassetes, a qualidade sonora sofrível. São muitas. Lembro de uma em que ele e Naná improvisam em cima de Samba de Lado, de Chico Science. Acho que a única gravada foi a que fez para As Ceguinhas de Campina Grande, uma das melhores, bela e curta canção composta para a apresentação, em 2000, das irmãs campinenses, que lembro cantando na feira de Campina Grande.

Acho que show de carreira vi todos desde então. A primeira vez no exterior foi em 2000, numa edição do PercPan em Paris, no parque La Vilette. Teve um show também marcante, dele com Caetano Veloso, o Tropicália 2, no Anhembi, em São Paulo. Foram quase três horas de música. Quando escrevia o livro do Frevo ao Manguebeat, em 2000, aproveitei um lançamento de um disco, O Sol de Oslo, para entrevista-lo sobre sua passagem por Pernambuco no começo de 1967, quando fez uma temporada no TPN, que o levou a maquinar o que seria batizado de tropicalismo. A entrevista foi num casarão de uma fazenda de café em, São Paulo.

Mas normalmente nos encontramos em coletivas, entrevistas individuais, depois de shows. Porém a única vez em que conversamos descontraidamente foi no backstage do festival de jazz, em Marciac, na França em 2010. Eu acompanhava a turnê européia da Spokfrevo Orquestra. Eram duas atrações por noite. No último dia a SFO abriria e Gil, que na época fazia a turnê do Fé na Festa, fecharia o festival.

O concerto da Spokfrevo seria, acho, às 19h, chegamos por volta das cinco. Marciac é uma cidade com pouco mais de mil habitantes, uma vila medieval, que nos dá impressão de que entramos no túnel do tempo. O palco do festival é montado fora dos muros que a circundam. Não se tem o que fazer em Marciac, a não ser entornar umas e outras nos bares, Ficamos, pois, fazendo hora no backstage.

Estávamos conversando abrobrinhas, Gil, maestro Spok e eu. Teve um momento, que algum dos músicos da SFO resolveu tirar uma foto com Gil. Ele posou, depois me olhou assim meio sério. Num rompante, me disse: “Dispa-se de suas vestes de jornalista e vamos tirar uma foto juntos”. A foto foi tirada. Era final de viagem, todo mundo ansioso pra voltar pro Brasil. O músico não se lembrou de me enviar a foto, e esqueci quem nos fotografou. Nunca vi, portanto, a foto em que me despi de minhas vestes de jornalista, ao lado de um artista que nunca se vestiu de estrela da MPB. Outro motivo para admirá-lo.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

GILBERTO GIL CANTA NOVA MÚSICA NO PROGRAMA DE BELA GIL

Junto com Bem Gil, seu filho, o tropicalista baiano entoou ‘Sereno’, homenagem ao seu mais recente neto, no Vida Mais Bela




A tirar pelas suas composições, Gilberto Gil é um pai, um avô e um bisavô coruja. Mais um neto foi contemplado pela criatividade do cantor baiano: Sereno, que nasceu no dia 15 de março, filho de Bem Gil e de Ana Cláudia Lomelino.

Para celebrar a chegada do seu décimo neto, Gil se juntou com Bem Gil e compôs ‘Sereno’. Ao participar do mais recente programa de Bela Gil, o Vida Mais Bela, os dois se juntaram para cantar a composição. A letra começa dizendo: “Vovô gostou do nome Sereno”. E continua: “Sereno quer dizer que que você será/ Será suave amigo tranquilo, será”.


Fonte: JC Online

quinta-feira, 9 de março de 2017

GILBERTO GIL É HOMENAGEADO COM MISSA EM SALVADOR


Celebração ocorreu na Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho


Gilberto Gil desfilou no Filhos de Gandhy e fez duas apresentações durante o Carnaval de Salvador


O cantor e compositor Gilberto Gil foi homenageado com uma missa de ação de graças na última sexta-feira (3/2). A celebração ocorreu na Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador. O artista, que chegou acompanhado pela esposa, Flora, foi recebido ao som de clarins e com aplausos pelas pessoas presentes.

Como parte da celebração pela saúde do artista, Gilberto Gil recebeu uma homenagem da Irmandade do Rosário dos Pretos, numa iniciativa do produtor cultural Geraldo Badá. O artista passou alguns períodos no hospital Sírio Libanês, em São Paulo, para tratar de uma insuficiência renal.

Durante o Carnaval de Salvador, o baiano se apresentou no trio puxado pela filha, Preta Gil; desfilou no bloco Filhos de Gandhy; e também cantou junto com Caetano Veloso em uma homenagem aos 50 anos da Tropicália. 



AGRADECIMENTO

Gilberto Gil publicou uma mensagem nas redes sociais para agradecer pela missa, junto com um vídeo no qual aparece cantando durante a celebração: "Hoje ganhei uma missa de ação de graças na bela Igreja Rosário dos Pretos no Pelourinho, onde minha filha Bela Gil foi batizada. Obrigado a todos os amigos que foram me dar um abraço e aos que lá estiveram em pensamento. Amém, axé, shalom, namastê, saravá".


Fonte: JC Online

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

GILBERTO GIL FAZ CANÇÃO PARA YAMANDÚ COSTA

'Sinto que minha responsabilidade só aumentou', disse Yamandú diante da homenagem



Yamandú Costa estava em um táxi, saindo do Aeroporto do Galeão em direção à sua casa, no bairro de Botafogo, no Rio, quando recebeu o vídeo em que Gilberto Gil aparece cantando para ele. Sim. Gil, do alto da poltrona da qual pode ver a música brasileira a dois palmos acima da mortandade, pegou o violão e compôs uma canção para o jovem violonista gaúcho Yamandú cheia de ginga e devoção. Isso mesmo. Gil faz em geral deferências às três colunas que seguram o teto de sua eterna casa de pau a pique que o acompanha desde a infância em Ituaçu, no interior da Bahia: Dorival Caymmi, João Gilberto e Luiz Gonzaga, com um Bob Marley de lambuja. Ele sabe a força que têm suas notas e suas palavras, não as desperdiça nem as coloca no tabuleiro das jogatinas para lançar moda. Gil está dois palmos acima disso.

Pois desta vez, entre um e outro horário dos medicamentos que toma para o tratamento de uma insuficiência renal, Gil apanhou o violão, lembrou da paixão furiosa que move as mãos de Yamandú Costa e gravou para lhe entregar, nas palavras do próprio violonista, "um abraço musical". Mas foi mais do que isso. Gil estendeu um tapete vermelho a Yamandú, como se vê poucas vezes na música brasileira. "Eu mesmo não me lembro de uma música que fale de um músico dessa forma", diz Yamandú, ainda sob o efeito anestésico do susto.

É assim que Gil canta sorrindo enquanto é gravado por um celular: "...Yamandú, com seu violão ligeiro, parece que é pressa mas é só suingue à beça / e bossa e pulsação no corpo inteiro / Só quem segue o Yamandú / é o frisson do pandeiro / Vê se pegue o Yamandú, lá vai / o Yamandú não deu / e o Yamandú chegou primeiro".

Há, como sempre, um jogo harmônico acompanhando a letra, que Gil nunca explica. Aqui, seus acordes caminham cromaticamente, casa por casa, criando uma tensão e simulando uma corrida. É a forma de dizer sobre o estilo Yamandú de tocar, algo que fez o crítico Tárik de Souza chamá-lo de "Jimi Hendrix do violão". "Eu vou hoje mesmo ver o Gil em uma festa na casa do (jornalista) Moreno para agradecê-lo pela música", diz Yamandú. "Sinto que minha responsabilidade só aumentou, imagine Gil falando isso de você."


Fonte: Agência Estado 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

NAÇÃO ZUMBI FARÁ SHOW EM HOMENAGEM A GILBERTO GIL COM PARTICIPAÇÃO DO BAIANO

Repertório contemplará clássicos do cantor e compositor baiano





A banda pernambucana Nação Zumbi fará um show em tributo a Gilberto Gil durante o festival Pepsi Twist Land, antes batizado Rider Weekends. O cantor e compositor baiano será o homenageado do evento, realizado nos dias 2, 3 e 4 e 9, 10 e 11 de fevereiro, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro. ''Será uma honra poder tocar e homenagear Gilberto Gil'', comemorou o grupo, no Twitter.


A apresentação foi escolhida para a noite de abertura do festival. O repertório será composto por clássicos de Gil, que fará participação junto com Jorge Mautner. A programação da estreia terá show do Dream Team do Passinho, com espetáculo inédito dedicado ao The Jackson 5, e do DJ Nepal - Nep's Got Soul.

Uma das gravações mais populares da Nação Zumbi, Maracatu atômico é de autoria de Mautner e havia sido gravada por Gil antes da versão pernambucana, registrada no álbum Afrociberdelia com três remixes que não agradaram a banda. Em 1994, Gil fez uma histórica participação na apresentação da Nação Zumbi no festival SummerStage, nos Estados Unidos.



Fonte: Diário de Pernambuco

sábado, 31 de dezembro de 2016

PETISCOS DA MUSICARIA

MÚSICAS INSTRUMENTAIS QUE RECEBERAM LETRA EM OUTRO TEMPO



Dia 13 de dezembro: choro de 1953, letra de 1986


No sábado, me deliciava, aqui em casa, com o DVD Spock e Orquestra Forrobodó, mais um trabalho de qualidade do Spok, agora navegando pelo repertório do forró.

O trabalho reuniu alguns dos melhores clássicos do gênero. Quando chegou a faixa 08, “Treze de Dezembro”, com o grupo do maestro Spok e a participação do grande sanfoneiro Gennaro, eu me deti.

Curioso é que, em seu depoimento para o DVD, Gennaro, diz, quase espantando que, quando ouviu pela primeira vez a melodia afirmou: “fiquei sabendo que a música era de Gonzaga, aí eu disse para todo mundo ouvir, quem disse que Luiz Gonzaga não é um exímio instrumentista?”.

Dentro do tema que venho trazendo nesta coluna sobre as músicas instrumentais, que não são compostas simultaneamente com a letra e aquelas que só recebem os versos anos e até décadas depois, lembrei-me que “Treze de Dezembro” é um caso especial e, ao contrário do que sugeria quando comparava algumas obras de Pixinguinha, esta ganhou em conteúdo, não feriu e melodia e trouxe a obra, nem tão conhecida, embora bela, para o grande público.

O choro “Treze de Dezembro” foi composto por Luiz Gonzaga, no início dos anos 1950. No primeiro disco, no registro oficial, a composição vem como uma parceria com Zé Dantas, equívoco atribuído ao fato de que os dois estavam numa fase intensa de composição conjunta de músicas e letras.

Vamos ouvir inicialmente a melodia com a sanfona pura de Gonzagão, só instrumental:

“Treze de dezembro”, Luiz Gonzaga (e Zé Dantas) – 1953




Pois bem, Luiz Gonzaga, o “rei do Baião”, nasceu no dia 13 de dezembro de 1912, em Exu, estado de Pernambuco.

A data foi tornada “Dia Nacional do Forró” e, em 1986 ganhou a letra de Gilberto Gil homenageando Gonzaga. A canção, portanto, foi completada cerca de 30 anos depois. E ficou assim:

“Treze de Dezembro”, de Luiz Gonzaga, letra de Gilberto Gil – 1994




Treze de dezembro

Bem que esta noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando
E ao longe ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava para acontecer na região
Quando o galo cantou
Que o dia raiou eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro e a treze de dezembro
Nasceu nosso rei
O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de D. Sebastião
Como fruto do matrimônio
Do cometa Januário
Com a estrela Santana
Ao nascer da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás
É desse treze de dezembro
Que eu me lembrarei e sei que não me esquecerei jamais


Ao contrário do que considerei em músicas como “Rosa” e principalmente “1 a 0”, que, a meu ver, dispensariam letra pela beleza da composição original na forma instrumental, considero que “Treze de Dezembro” ficou uma obra mais completa e adequada com a letra-elegia de Gilberto Gil…

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