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domingo, 17 de novembro de 2019

SR. BRASIL

NELSON GONÇALVES TORNOU-SE CENTENÁRIO – PARTE 02

Ele cantou a alma passional do brasileiro

Por José Teles


Nelson, cem anos


ENCONTRO

Adelino Moreira, nascido em Portugal (na cidade de Gondomar), mas desde os cinco anos no Brasil, conheceria Nelson quando já estava com 32 anos, passara por uma carreira de cantor sem maior relevância e guardava dezenas de composições inéditas na gaveta. Para se sustentar trabalhava na joalheria do pai. Nelson Gonçalves já era famoso quando, em 1952, gravou o samba-canção Última Seresta, a primeira música assinada por Adelino Moreira com um parceiro, Sebastião Santana, jornalista que intermediou o encontro entre Nelson e Adelino (possivelmente, ganhou a parceria por conta disso).

Em pouco tempo, Adelino deixaria de trabalhar com o pai. Quando passou a ser fornecedor de canções para Nelson Gonçalves, poucos astros da música brasileira venderam tantos discos. Na soma geral, ao longo da carreira, 81 milhões de cópias, até os anos 90. Nelson só perdia para Roberto Carlos, que já passou dos 120 milhões. Numa época em que autor dividia composição com intérprete famoso, Adelino não abria a parceria. Nelson assina pouquíssimas músicas com ele. Nos grandes sucessos da dupla, Adelino faturou o suficiente para comprar uma vistosa mansão com piscina em Campo Grande, carrões, e fazer investimentos. No final dos anos 50 e início dos 60, Adelino Moreira foi o compositor que mais faturou com direitos autorais no país. Não apenas com Nelson Gonçalves. Compôs para Ângela Maria, Núbia Lafayette e o clone de Nelson, o capixaba Carlos Nobre.


DESENCONTROS

O compositor aplicava o que ganhava e o cantor gastava. Já no início da carreira exagerava na bebida. Elvira, a primeira mulher, o largou pelos maus tratos que recebia do marido notívago e namorador. Com a cantora Lourdinha Bittencourt teve um relacionamento longo e problemático. Ela aguentou o quanto foi possível. Não estava mais com o cantor no seu pior momento: o 8 de maio de 1966. Na edição de 11 de maio daquele ano, O Globo estampava na primeira página uma foto do cantor, visivelmente abatido, e o título: “Nelson Gonçalves Preso Por Tráfico de Cocaína”. Nelson disse comprara a droga para uso próprio. Revelou que era viciado desde 1949. Mas não traficava. Nessa época, sua carreira naufragava. Tinha mais amizades entre traficantes do que no mundo artístico. A polícia não chegou para prender um ídolo popular e, sim, um fora da lei. Foi um escarcéu.

A casa cercada pela polícia, a porta arrombada, o delegado bateu na cara de Nelson e o algemou, na frente da mulher, Maria Luiza (empregada doméstica com quem se casou em 1962), e dos filhos. Foi autuado por tráfico. Uma balança de precisão encontrada em sua casa era uma das provas, reforçada por 200 gramas de cocaína que um dos seus fornecedores acabara de trazer.

No dia 20 de maio uma multidão acorreu ao presídio onde o cantor estava preso. Ele seria libertado naquele dia. Saiu pela porta dos fundos, driblando os fãs. Dois dias mais tarde internou-se numa clínica de recuperação para dependentes químicos, no bairro da Liberdade. Mas não se libertou logo das drogas (além de coca, consumia comprimidos, na época chamados de “bolinha”). Somente no início da década seguinte, Nelson Gonçalves livrou-se dos vícios. Porém teria que começar do zero. Imóveis, carros, lojas de eletrodomésticos, contas bancárias, tudo ele torrou com farras e drogas.


NO RECIFE

A capital pernambucana ocupou um lugar de destaque na carreira de Nelson Gonçalves. Entre 1944 a 1947, ele lançou 11 frevos de autores do Recife: Capiba, Sebastião Lopes, Irmãos Valença, Nelson Ferreira e Zumba. Gravações exclusivas para o Carnaval de Pernambuco, encomenda de lojistas locais, que foram tocadas na Rádio Clube, a única do Recife na época. Em 1945, ele emplacaria nas paradas com Maria Bethânia, samba-canção de Capiba.

A partir da década seguinte, apresentou-se com mais frequência na cidade, que, além dos programas de auditório nas emissoras de rádio, tinha boates chiques, feito a do Restaurante Leite, onde ele cantou, em dezembro de 1950, com a mulher Lourdinha Bittencourt. Quando retomava a carreira, no começo dos anos 70, o cantor ganhou um alentador impulso dado pelo empresário Pinga, com quem fez a primeira turnê, indo do Espírito Santo à Bahia. Num período de oito anos, segundo o biógrafo de Nelson Gonçalves, o historiador Marco Aurélio Bezerra, Pinga promoveu 78 apresentações do cantor, país afora.

Assim como Cauby Peixoto, Ângela Maria e o próprio Agnaldo Timóteo, somente no final da carreira Nelson Gonçalves foi reconhecido pelo público dito classe A. Nos anos 90, a Raio Lazer levou-o ao Teatro Guararapes, pela primeira vez. Nelson era cantor de clubes sociais, de churrascarias ou de show abertos ao público. No Guararapes foram dois dias de casa lotada.

Por coincidência, o disco que fechou a longa discografia de estúdio do cantor teve um produtor pernambucano, Robertinho do Recife, que conta que só teve problemas com Nelson Gonçalves, que não queria cantar Bem Que Se Quis (versão de Nelson Motta, para E Po’ Che Fa, de Pino Daniele). Machão assumido, Nelson se invocou com os versos: “Agora vem pra perto vem/vem depressa vem sem fim/ dentro de mim/que eu quero sentir o teu corpo pesando/sobre o meu”. “Mas como, Roberto, dentro de mim? Teu corpo pesando sobre o meu? Eu cantar isso?”. Acabou sendo convencido a gravar a música, uma das faixas de Ainda É Cedo, lançado em 1997 pela BMG (que assumiu a RCA).

Nelson Gonçalves morreu às 20h45m, de 18 de abril de 1998, de um fulminante infarto do miocárdio, a dois meses de completar 79 anos.



DISCOS

Um centenário com menos celebrações e homenagens do que Nelson Gonçalves merecia. A mais importante de todas foi o anúncio, pela Sony Music, da liberação nas plataformas de streaming (desde sexta, dia do centenário) de parte da discografia do cantor. Trinta e cinco álbuns voltam ao catálogo, por enquanto no formato digital. O cantor ganha dos Correios um selo oficial alusivo à data.

Desde 4 de janeiro de 2019, está nos palcos o musical Nelson Gonçalves – O Amor e o Tempo, dirigido e coreografado por Tania Nardini. A cantora pernambucana Cristina Amaral, com aval de Margareth Gonçalves, filha de Nelson, montou o espetáculo Uma Saudade Chamada Nelson Gonçalves. Cristina é dirigida por Carlos Pacheco, com roteiro de Saulo Aleixo e direção musical e arranjos de Jefferson Cupertino e Thiago Albuquerque. No dia 18 de abril, dia da morte do cantor, o show teve imagens captadas para um DVD.






sábado, 16 de novembro de 2019

VERDADE TROPICAL (CAETANO VELOSO)*

Verdade Tropical - Caetano Veloso


Pelo meio dos anos 70, havia um bar gay em Santo Amaro, no largo do mercado. Não um antro clandestino, mas um modesto arremedo do que se supunha haver nas grandes cidades do mundo. Era visto pela população com humor mas sem escândalo. Durou relativamente pouco. Foi um momento em que se harmonizou nossa versão (para Paulo Prado tristemente) mestiça e permissiva de tradições mediterrâneas com as notícias sobre direitos de minorias vindas da América "branca" e anglófona. Um amigo meu americano me disse que, nos Estados Unidos, um pai de família liberal lutará pelo direito de o homossexual viver com plenitude, mas será sempre incapaz de imaginar com alguma identificação um ato homossexual; enquanto, no Brasil, até um agressor verbal de veados é capaz de admitir a realidade dessas cenas em sua imaginação. Não se pode medir a liberdade dos homossexuais no Brasil pelo número de participantes em passeatas gay. Andrew Sullivan anota, em outra passagem, que, tendo trazido a consciência da "homossexualidade" a todo ato entre macho e macho, o movimento gay fez mais pela queda da incidência das relações entre homem e homem nos Estados Unidos do que qualquer outra instituição.
Quando voltei de Londres, em 72, a sutil imitação de Carmen Miranda que eu inseria na apresentação de "O que é que a baiana tem?" valia por um duplo comentário: sobre o sentido da arte popular brasileira no exílio e sobre a originalidade da possível contribuição brasileira à causa da liberação sexual. Não abandonarei nunca o tema, embora já não tenha a inocência daqueles anos. Outro dia, vendo uma moça reproduzindo em si mesma, com perfeita espontaneidade, os modos mais arraigadamente sentidos como masculinos, entendi o ceticismo hostil que algumas bichas amigas minhas devotam a qualquer sugestão de um mundo pansexual polimorfo: o sentido da vida, para elas, como para o sapatão a que me referi, depende de uma nitidez muito grande nos sinais indicativos dos gêneros. Eles se opõem ao mundo que Christopher Larsh descreveu como "narcisista": o mundo, para ele auto-anulador, da indiferenciação. Não tenho argumentos contra as bichas e os sapatões conservadores nem contra Larsh. Andrew Sullivan reafirma a centralidade do modelo heterossexual, propondo que consideremos a homossexualidade como uma variante que ressalta, ao invés de negar, sua beleza: como os ruivos, os albinos e os gênios, os homossexuais seriam uma exceção que não apenas confirma mas honra a regra heterossexual. Achei bonito mas muito perto da analogia com, por exemplo, o canhoto. Edmund White prefere identificar a figura do homossexual com a figura do rebelde.
Todos temos a consciência de que os direitos civis de um indivíduo não podem ser ignorados pelo fato de ele ser um homossexual. Mas sei também que muitas vezes o ódio, o medo e a repulsa que a homossexualidade inspira dizem mais sobre sua grandeza do que uma sua aceitação em termos meramente liberais. Essa tensão esteve sempre presente no clima em que abordo o tema em meu trabalho. No momento da minha volta ao Brasil, minha vida de casado entrava num período glorioso - e o tema do homoerotismo atingia seu ápice de clareza no mundo da música pop, antes de decair para desdobrar-se nos movimentos a um tempo salutares e redutores da década que começava. Tenho lembranças muito doces desse período. E o nascimento de Moreno foi o maior (às vezes considero o único) acontecimento da minha vida adulta. Através de Nando Barros (meu ex-colega do colegial em cuja casa de Itapuã Dedé e eu começáramos, em 64, a namorar para valer), entramos em contato com um grupo de garotos muito interessantes da Bahia pós-tropicalista. Antônio Risério, Paulo César de Souza, os irmãos Mônica e Pedro Costa e Ana Amélia (Anamelinha) de Carvalho eram as figuras principais desse grupo de adolescentes. Risério era um intelecto ativíssimo conquistado para a poesia concreta pelo tropicalismo. Paulo César, uma grande inteligência sensível, admirava os tropicalistas tanto quanto Risério, mas defendia com golpes de ironia sua liberdade das novas ortodoxias eleitas por este último.
Paulo era também mais tocado pelo charme das idéias contraculturais de Luís Carlos Maciel - e pelas idéias já então um tanto anti-contraculturais de Paulo Francis - do que Risério. Mônica e Anamelinha faziam um par deslumbrante pelo contraste de cores: as duas muito bonitas, a primeira era loura e de pele clara, a outra, de pele marrom e cabelos muito pretos. Incluo Anamelinha entre as mulheres mais lindas que já conheci em toda a minha vida. A amizade com esses novos baianos mostrou-se tão firme quanto a que tínhamos cultivado com Waly, Duda, Alvinho, Roberto Pinho ou Rogério: em linhas gerais, dura até hoje. Tenho
mais proximidade com Risério e Paulo do que com os outros, mas revejo Mônica toda vez que vou a São Paulo, onde ela mora, e via Anamelinha com frequência até que ela morreu de um derrame, ainda jovem e bonita, deixando duas filhas (tinha se casado com Tony Costa, um guitarrista carioca que tocou comigo nos anos 80). Augusto de Campos veio à Bahia concluir as pesquisas para o livro que escrevia sobre Pedro Kilkerry, o poeta simbolista baiano cuja força e originalidade nunca tinha sido reconhecida pelas histórias da literatura brasileira. Risério ficou muito feliz de poder conhecê-lo pessoalmente. Ainda hoje os dois são amigos e Risério é um grande conhecedor da obra poética e ensaística de Augusto e dos seus companheiros concretistas, além de ter se tornado ele mesmo um poeta visivelmente influenciado por eles e um ensaísta vigoroso que herdou - além da disposição para o estudo constante e responsável - o tom agressivo dos momentos polêmicos do início do movimento. Paulo César, além de realizar estudos acadêmicos em historiografia, tornou-se um excelente tradutor de Nietzsche (fez traduções geniais de Além do Bem e do Mal, Ecce homo e A genealogia da moral), Freud e outros grandes autores de língua alemã. Mônica - que casou-se com Risério e, depois, com o poeta paulista Regis Bonvicino - também escreve poesia e tem já alguns livros publicados. Vinte e quatro anos atrás, esses futuros intelectuais eram adolescentes visivelmente talentosos comflue a Bahia me surpreendia em meu retorno - e que enfeitavam nossa casa com sua beleza e sua vivacidade.
Leon Hirzman terminara de rodar a adaptação para o cinema do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, e me pediu que fizesse a trilha sonora. Na nossa primeira conversa, mencionei o fato de Graciliano (como João Cabral) não gostar de música, e relembrei entusiasmado o quanto era maravilhosa a solução encontrada por Nelson Pereira dos Santos em Vidas secas: apenas o ranger da roda de madeira do carro de boi servia de música para o filme. E Leon logo concordou, acrescentando que fora justamente com isso em mente que me procurara, pois via semelhanças entre o carro de boi de Nelson e meus grunhidos na gravação de "Asa-Branca" em meu primeiro disco de Londres. Foi uma iluminação. Ele queria de fato que eu compusesse algo para o filme usando apenas minha voz da maneira mais próxima possível do que eu fizera em "Asa-Branca", e imediatamente imaginei formas sonoras organizadas a partir dessa matéria-prima. Ele queria mais: que eu improvisasse à medida que ia vendo as imagens projetadas na tela. E assim fizemos. Fiquei maravilhado com o resultado - e mais ainda com o método. Tínhamos apenas quatro canais para superpor as vozes, e os recursos para mixar eram mínimos, mas experimentar compor a partir de "gemedeiras'', e gemedeiras improvisadas!, era uma aventura grandiosa. Achei o filme de Leon muito bonito - como são todos os filmes que fez - e acima de tudo encontrei na colaboração com ele um novo começo para meu próprio trabalho. Não é nada desprezível o fato de, mais uma vez, a indicação de caminhos me ter vindo do cinema - e do Cinema Novo brasileiro, essa experiência tão congenial ao próprio Brasil, por ser sempre uma aventura ao mesmo tempo frustra e grandiosa.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

NELSON GONÇALVES TORNOU-SE CENTENÁRIO – PARTE 01

Ele cantou a alma passional do brasileiro

Por José Teles


Nelson, cem anos


Nelson Gonçalves, que teria feito 100 anos neste dia 21 de junho de 2019, por pouco não nasceu no Uruguai. Seu Manoel Gonçalves e dona Libânia de Jesus, portugueses, ganhavam a vida como cantores ambulantes, com um repertório de canções populares portuguesas. Naquela noite de 21 de junho chegaram a Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai. A intenção era ganhar algum dinheiro cantando na feira na fronteiriça Rivera, no país vizinho. Mas Dona Libânia sentiu as dores do parto e interromperam a viagem.

Naquele dia nasceu Antônio Gonçalves Sobral, um dos mais bem sucedidos nomes da música popular brasileira, recordista em vendas de disco, com uma trajetória atribulada, de bons e maus momentos. Muitas passagens na biografia de Nelson Gonçalves são controversas, incluindo o dia em que nasceu. No registro está como 25 de junho. Mas Nelson sempre disse que nascera no dia 21 (às vezes no dia 19). Provavelmente foi registrado dias depois do nascimento. No documento não consta o “Sobral”. Apenas Antonio Gonçalves.

Nada a estranhar. Seu Manuel chegou ao Brasil em 1902, e Dona Libânia em 1911. A obrigatoriedade de imigrantes se registraram na Delegacia Especial de Estrangeiros só foi instituída em 1938, durante o Estado Novo. Ainda assim, o casal só regularizou sua situação em 1942. Não sem ter certeza se o pai do cantor se chamava Manuel ou Manoel.

Um bom exemplo do difuso limite entre realidade e ficção na biografia de Nelson Gonçalves está num episódio acontecido na Lapa, bairro boêmio que costumava frequentar. O cantor se encontrava no balcão de um botequim diante de um traçado (mistura de vermute, ou conhaque, com cachaça) quando um sujeito deulhe um esbarrão e derramou a bebida. Nelson virou-se e acertou um jab no queixo do desastrado, pondo-o a nocaute.

Os fregueses apressaram-se em lhe revelar em quem ele batera: Miguelzinho Camisa Preta, malandro temido na Lapa. Porém, nunca existiu um Miguelzinho Camisa Preta. Miguelzinho foi, sim, um capoeirista. Houve um Camisa Preta que com a navalha na mão era um perigo. Mas morreu em 1912.

Aos cinco anos Antônio já cantava nas feiras com o pai e a mãe. Cantou até os nove, quando seu Manoel, decidiu deixar a música, e se estabelecer com emprego fixo em São Paulo. O filho foi jornaleiro, engraxate, trabalhou numa tamancaria carregando toros de madeira (com QUE se faziam os tamancos). Aos 14 anos, o pai conseguiu-lhe emprego na fábrica de metais Wolf. Antonio, no entanto, queria ser cantor. Embora tenha tentado por pouco tempo ser boxeador.

Em 1939, já casado, chegou a ser contratado pela rádio PRA-5, da capital paulista. Foi dispensado, e contratado pela Rádio Cruzeiro do Sul. O irmão mais velho, Quincas tornou-se profissional do rádio antes de Antonio, mas nunca escapou da sombra do irmão, quando este entrou no mundo da música como Nelson Gonçalves. Dispensado pela Cruzeiro do Sul por exigir aumento no salário, Nelson foi para o Rio, onde penaria durante três anos.

Fez amizades na boemia, mas demorou a agradar aos que comandavam o rádio carioca. Passou por pensões baratas no Catete e na Lapa, dormiu em bancos de praça, mas acabou sendo contratado pela Mayrink Veiga, grande emissora de então, onde estreou em 28 de agosto de 1941. Estreou em disco no mesmo ano, com um 78 rotações que trazia no lado A Se Eu Pudesse Um Dia (Osvaldo França/Orlando Monello) e, no B, Sinto-me Bem (Ataulfo Alves). O sucesso viria com Renúncia (Roberto Martins/Mário Rossi), lado B do bolachão com o samba Isso Aqui Tem Dono (Benedito Lacerda/Darci de Oliveira). Muita gente achou que se tratava de Orlando Silva. Soava realmente parecido para quem não sabia das sutilezas das interpretações do “Cantor das Multidões. Que fazia malabarismos harmônicos, brincava com o andamento das canções, feito João Gilberto anos mais tarde. Curiosamente o baiano João, em tempos quando se deixava ser entrevistado, revelou que sua maior influência foi Nelson Gonçalves:

“Eu era um menino ainda, lá em Juazeiro – pequena cidade do interior baiano onde nasci – tinha a cabeça povoada de sonhos, o coração repleto de esperanças, quando ouvi falar em Nelson Gonçalves. Desde o primeiro momento em que seu nome ficou gravado no meu cérebro procurei ouvi-lo... Ouvi-o e, a partir daquele instante, incorporei-me à legião do criador de Boemia. Confesso que, na minha inocência de garoto pobre, desejei ardentemente ser um Nelson Gonçalves quando crescesse” (à Revista do Rádio, em 1960). Talvez por isso, Nelson Gonçalves poupasse João Gilberto quando falava mal da bossa nova.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

CANÇÕES DE XICO


NÃO, NUNCA MAIS


Às margens não tão plácidas do Capibaribe da cidade se ouve apenas um grito de revolta pelo sol que já não brilha raios de alegria e felicidade. Nosso sonho, antes intenso, é uma fresta fina de efemera esperança quase no fim. Continuas belo e impávido mas teu povo sofre e está triste. Teus risonhos, lindos campos resistem, mas têm muito menos flores que espinhos e nossos bosques sucumbiram à presença de tantos ladrões. Mas a gente não foge à luta e grita, esbraveja, esperneia e, principalmente, canta, bem alto, pois te adoramos como mãe gentil, como Pátria amada chamada Brasil. Que nosso canto faça brilhar os astros não permitindo o bis nesse Teatro de loucura. De novo, não! Nunca mais.

QUEM É O AUTOR DA MÚSICA "CIDADE MARAVILHOSA"?

Por João Carino


A expressão “cidade maravilhosa” não era inédita quando virou título da marcha de Carnaval (e, depois, hino oficial da cidade). Ela foi criada pelo escritor maranhense Coelho Neto no artigo Os sertanejos para o jornal A Notícia, em 1908. Coelho Neto também publicaria um livro de contos chamado A cidade maravilhosa, primeira tiragem em 1928. Apesar de toda a polêmica, “Cidade maravilhosa” foi lançada em 1934 e não fez muito sucesso, passando quase despercebida — só conheceria sua consagração no Carnaval de 1935. Ressalte-se que a primeira parte da música é um plágio de Mimi é una civetta, do terceiro ato da ópera La Bohème, de Puccini. Aliás, a autoria desta marcha é atribuída oficiosamente a Noel Rosa. E a fonte dessa informação é ninguém menos que o irmão do compositor, o psiquiatra Hélio Rosa, que a teria revelado ao primo Jacy Pacheco, primeiro biógrafo de Noel em livro. Não apenas o disse, como pôs por escrito numa folha datilografada. Infelizmente, sem assinatura. Mas o documento foi encontrado quando Jacy vendeu a Carlos Didier o acervo de Noel Rosa, material fundamental com que depois escreveria, com João Máximo, Noel Rosa – uma biografia. 

Conta-se o seguinte: Jacy Pacheco e Hélio Rosa moravam juntos em Niterói quando o primeiro teve a ideia de colocar a vida de Noel em letra de imprensa. Hélio foi a principal fonte do livro. Por isso, a história parece plausível. Aliás, a marcha tem uma segunda parte ao estilo do Poeta da Vila. Sabe-se, além do mais, que Noel e André Filho eram amigos, tendo sido parceiros no samba “Filosofia”, gravado por Mário Reis em 1933, outra música com letra e melodia típicas de Noel. Um fato frequente, como registrou Jacy Pacheco, cheio de ironia, em seu Noel Rosa e sua época: “Aqui nos lembramos de composições que ele deu e que vendeu. Que foram divulgadas com outros nomes... dentro da cidade maravilhosa, cheia de encantos mil...”

André Filho morou na casa da mãe do músico Oscar Bolão entre o final dos anos 50 até início dos 60. Bolão conta, em depoimento aos autores, que André sofria de problemas psiquiátricos, tendo sido internado no hospital da Ordem do Carmo. Foi ali que, quando soube, tempos depois, por meio de um repórter do Diário da Noite, que“Cidade maravilhosa” tinha sido reconhecida como marcha oficial da cidade do Rio de Janeiro — por meio da Lei n.o 5, de 5 de maio de 1960 —, enfiou a cabeça dentro do vaso sanitário e, dando descarga, gritava: "tô rico, tô rico” .

No entanto, o Rio de Janeiro quase perdeu seu hino oficial no final de 1967, quando um deputado apresentou um projeto de lei à Assembleia Legislativa sugerindo um concurso para escolha de novo hino. Argumentou que a marcha era “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual das solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades dos três poderes constituídos, bem como de personalidades estrangeiras”. Os cariocas protestaram. No início de 1968, jornalistas dos principais periódicos da cidade escreveram a favor da marchinha. Artistas como a cantora Aracy de Almeida, o compositor Fernando Lobo e o ator Grande Otelo vieram a público manifestar sua indignação. Em agosto daquele ano, o presidente da Assembleia desistiu do concurso. A marcha é cantada até os dias de hoje por foliões de todas as cidades do Brasil. É como se o título de cidade maravilhosa não pertencesse somente ao Rio de Janeiro. Os “encantos mil”, anunciados na marchinha em homenagem à cidade dos cariocas, passaram a adjetivar todas as cidades brasileiras. Quando a orquestra ataca a sua introdução instrumental, avisa a todos que o baile está chegando ao fim.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Papai Noel

Composição: Carolina Cardoso de Menezes - George André

Intérprete - Cristina Maristany

Ano - 1954

Álbum - Odeon X-3.473-B



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

30 ANOS SEM RAUL SEIXAS: A ETERNA LIBERDADE DE UM MALUCO BELEZA


Por Tito Guedes


Aquilo parecia mentira, coisa inventada, chocante, na mesma medida em que era um acontecimento mais previsível que as promoções de Natal no fim do ano. Estamos falando da morte do roqueiro-mor do Brasil, Raul Seixas. Encontrado morto pela empregada em seu apartamento no centro de São Paulo há exatos 30 anos, no dia 21 de agosto de 1989, ele já era Raul Seixas, um mito da música nacional, consagrado pela loucura irreverente e pelas músicas geniais. Dois dias antes, havia chegado às lojas aquele que acabou se tornando seu último álbum: A panela do diabo, gravado em conjunto com Marcelo Nova, com quem já havia realizado uma turnê de 50 shows pelo país. 

O fato era chocante porque Raul já era um ídolo consagrado, e as pessoas costumam esquecer que ídolos consagrados também morrem. Mas era também óbvio, porque as frestas de humanidade que o ídolo deixava transparecer revelavam um homem cujo estilo de vida não poderia ser considerado “saudável”, sendo o vício das drogas o mais determinante nesse aspecto. 

No entanto, como é a sina de todos os artistas (em especial dos artistas geniais), quem entrou pra História foi o ídolo Raul Seixas, o Maluco Beleza, o homem que é até hoje chamado de “Pai do Rock” brasileiro. O que, ao lado daquela que é chamada de “mãe” da mesma criatura, Rita Lee, ajudou a conferir uma personalidade definitiva ao rock´n´roll tupiniquim, dando o passo que a Jovem Guarda não conseguiu dar.

Aliás, quem pensa na imagem do Raul Seixas que entrou para a posteridade, o guru anárquico obcecado por ocultismos e seguidor de Aleister Crowley, talvez não saiba (e nem imagine) que foi justamente na Jovem Guardaque ele teve seu berço musical e profissional. 

Apaixonado por Elvis Presley, Raul naturalmente se apaixonou pelo movimento que ajudou a traduzir (muitas vezes, literalmente), o rock americano dos anos 1950 para o Brasil. Foi assim que, em 1962, criou, ainda em Salvador, o grupo The Panthers, que depois virou Raulzito e os Panteras. A banda acabou ganhando renome na Bahia e chegou a excursionar com Jerry Adriani , sendo depois convidada por ele para gravar um LP no Rio de Janeiro, que se chamou também Raulzito e os Panteras (1967). 


Foi a ponte necessária para que, em 1970, Raulzito se tornasse o mais novo produtor da CBS (Columbia Broadcast System), habitat natural dos jovem guardistas. Lá, produziu discos do próprio Jerry Adriani e de outros roqueiros, como o “maldito” Sérgio Sampaio. Apesar de ter sido um exímio produtor, a carreira não se alongou muito porque, em 1971, ele decidiu gravar, sem autorização de ninguém da gravadora, o disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernistaapresenta sessão das 10, que reuniu também Sérgio Sampaio, Míriam Batucada e Edy Star. O projeto vanguardista e anárquico se propunha a captar os desdobramentos da cultura hippie no Brasil. O disco, claro, foi completamente ignorado por público e crítica, mas serviu para transformar Raulzito em Raul Seixas, o Profeta. Aquele que, em 1972, subiu ao palco do VII Festival Internacional da Canção para cantar uma música que misturava inglês com português, rock com baião: 

Let me sing, let me sing
Let me sing my rock´n´roll
Let me sing, let me swing
Let me sing my blues and go!

Pouco depois, em 1973, lançou seu disco solo de estreia (considerado por muitos sua obra-prima), Krig-Ha, Bandolo!, que revelou clássicos definitivos de seu repertório (Mosca na sopa, Metamorfose ambulante, Al Capone, Ouro de tolo) e inaugurou a parceria com Paulo Coelho. Juntos, os dois se tornaram uma das mais icônicas (certamente a mais irreverente) duplas de compositores brasileiros. 


Ao longo da carreira relativamente curta, mas muito intensa, o compositor Raul Seixas deixou letras inquietantemente arrebatadoras. São letras irreverentes, muitas vezes irônicas ou debochadas - afinal, o humor sempre foi seu aliado. Mas em todas elas, repletas de metáforas poderosas e alegorias inteligentes, há sempre um subtexto, uma mensagem crítica que faz a gente querer escutar a música de novo, prestando atenção. Ou então, só faz a gente pensar: “o que é que ele quis dizer com isso?”.

Somado a essas letras, o músico Raul Seixas também passou longe de ser careta. Unindo seu interesse pela Jovem Guarda, o rock e seu lado baiano, brasileiro, Raul quase sempre optava por arranjos estranhos e iconoclastas. Sua grande atitude roqueira não veio por solos de guitarras sensacionais, mas por ter misturado sua música a outros gêneros, como o baião, o brega (Tu és o MDC da minha vida), o bolero (Sessão das 10) e até ritmos afro-religiosos (Mosca na sopa). Claro que na maioria das vezes essas “homenagens” tinham uma finalidade mais irônica do que verdadeiramente reverencial, mas isso só aumenta a sua faceta roqueiro-irreverente. 

O certo é que o grande mérito de Raul Seixas foi ter sido popular. Tomando a descrição de um roqueiro ligado a filosofias obscuras, letras metafóricas, com arranjos esquisitos e iconoclastas, o mais natural é que pensemos logo em um artista cult, de nicho, palatável apenas para ouvidos “privilegiados”. Raul, não. Ele conseguiu ser popular, tocar nas rádios, ter suas músicas cantadas por multidões até hoje. Talvez essa façanha (mais difícil do que parece), possa ser explicada por seu background de produtor (alguém que precisa necessariamente ter faro comercial), ou talvez só por sua genialidade mesmo. O fato é que ele soube, como ninguém, unir o cult ao pop, conseguindo ser popular sem limitações de público ou influências. 


Contudo, para além de todas as definições e categorizações que possam ser feitas em torno da obra de Raul Seixas, para além da imagem de “maluco beleza”, “excêntrico” ou “místico”, o mais apropriado talvez seja dizer que ele foi um libertário. Mais do que qualquer outra coisa, Raul Seixas cantou a liberdade. E a cantou em suas mais variadas formas: a liberdade individual (Metamorfose ambulante, Maluco beleza), a liberdade transcendental (Gita), a liberdade amorosa (A maçã, Medo da chuva) e a liberdade social, mandando às favas os preceitos burgueses em canções como Sociedade alternativa, Ouro de tolo e Novo aeon.

Hoje, passados 30 anos de sua morte, sua música permanece relevante e atual. E nós continuamos ouvindo embasbacados sua obra, tentando entender por que ele é tão fascinante e por que é tão difícil ser indiferente a ele. Mas se alguém está achando que vai encontrar uma resposta única, definitiva, científica, é melhor desistir logo e ficar com uma frase dita pelo próprio Raul que explica (sem explicar absolutamente nada) a força estranha de sua música:

“Na verdade, eu sou um ator. E sou tão bom ator, que finjo ser compositor e poeta e todo mundo acredita.”

Nada mais Raul Seixas. 

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