PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

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ZÉ RENATO - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica de sua trajetória como instrumentista, compositor e intérpretes em diverso dos projetos nos quais participou.

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QUEM FOI INALDO VILARIN?

Autor de canções como “Eu e o meu coração” (gravada por nomes como João Gilberto e Maysa), Inaldo Vilarin é mais um na triste estatística de um país sem memória

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

domingo, 30 de abril de 2017

CORAÇÃO SELVAGEM E PARTIDO

Por Bruno Negromonte



Hoje eu apresento um olhar lacrimoso. Um olhar que já trago e tenho, mas que pela notícia recebida potencializa-se. Belchior e suas teorias musicais faz parte de minhas memórias afetivas desde que me interessei por musica. Como nordestino que sou, foi ele que me fez tomar consciência, por exemplo, que aquilo que pesa no norte, pela lei da gravidade cai no sul, grande cidade; com ele aprendi que o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual entre outras verdades travestidas de canções. Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte por ter vivido em seu tempo, grande Belchior. Um tempo onde seu canto torto e sua voz cortante feito faca deixou marcas indeléveis em mim; no entanto, hoje não quero falar das coisas que aprendi em seus discos. Quero ir um pouco além, pois com você também aprendi que mesmo não estando feliz, não podemos emudecer, e por isso preciso registrar que o seu legado ficará aqui para que possamos cantar muito mais. É como você bem disse: “(...) o meu lugar é onde você quer que ele seja”. Hoje, em definitivo, o seu lugar passa a ser no coração de todos aqueles que acompanharam a tua obra. A dor que deixas é que apesar de sua ausência, alimentávamos a esperança de uma triunfal volta sua e que hoje extingue-se em definitivo. Vai em paz Belchior, e leva consigo suas palavras, sons e caminhos para que sejas de fato livre. A pimentinha há de te recepcionar com o mesmo carinho que eternizou “Como nossos pais”. Resta-nos agora abrigá-lo na parede de nossa memória e levar sua lembrança como um doloroso quadro, talvez aquele que doa mais sempre que entre meus discos me depare com um seu. Uma dor que talvez amenize ao ouvir aquilo que deixaste para uma infinidade de corações selvagens. Aqui pediremos ao bom Deus que nos ajude para seguirmos sempre que a vida nos violentar com notícias como a de hoje.

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Resultado de imagem para fundo de quintal

Algum tempo atrás eu tive a oportunidade de aqui mesmo nesta coluna abordar um pouco o início da biografia deste representativo grupo de samba ainda em atividade em nosso país. Na ocasião trouxe ao conhecimento dos amigos leitores a origem do grupo e em que situação a sambista Beth Carvalho aproximou-se desse grupo que à época era bastante inovador. No entanto esqueci neste primeiro momento de o nome Fundo de Quintal foi dado por um amigo dos integrantes e antigo produtor musical chamado Valdomiro. Retomando de onde paramos, após o primeiro álbum e o relativo sucesso, o grupo perdeu alguns dos seus principais integrantes à época. Deixam o Fundo de Quintal para seguir carreiras solo Almir Guineto, Jorge Aragão (que seguiram suas carreiras solo) e Neocy, que mais tarde viria a falecer. Entretanto, o conjunto ganhou dois novos integrantes: Arlindo Cruz e Walter Sete Cordas. Ainda nos anos de 1980 gravou discos como "Nos Pagodes da Vida" (LP que teve como destaque o sucesso "Enredo do Meu Samba", de autoria de Dona Ivone Lara e Jorge Aragão); "Seja Sambista Também", que teve como grande sucesso, além da faixa-título, "Castelo de Cera" (de Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho); "Divina Luz", quinto LP do grupo; "O Mapa da Mina" com os estrondosos sucessos de "Seleção de Pagodes" e " Só pra Contrariar " (Sombrinha , Arlindo Cruz e Almir Guineto); o álbum "Do Fundo do Nosso Quintal" e o LP "Ciranda do Povo", de 1989. Além disso, é válido o registro da entrada de Cleber Augusto no lugar de Walter Sete Cordas neste período. A década seguinte chegou para consagrar em definitivo a carreira do grupo e o colocar em definitivo no panteão do samba brasileiro a partir do primeiro registro ao vivo lançado pelo grupo e que tem por nome  "Ao Vivo".

Nos anos de 1990, já contando com  o paulistano Mario Sergio, o grupo lança álbuns como "É Aí Que Quebra A Rocha", "A Batucada dos Nossos Tantãs", "Carta Musicada", "Palco Iluminado" (um disco de retrospectiva da carreira e composto por vários sucessos do grupo), "Ondas Do Partido", "Livre Pra Sonhar", "Fundo de Quintal e Convidados" e, em 1999, "Chega Pra Sambar". O século seguinte chegou com o álbum ao vivo "Simplicidade", lançado no ano de 2000 pela gravadora BMG. No mesmo ano, a gravadora RGE relançou em CD todos os álbuns editados em LP do grupo. No ano seguinte é lançado o 21º da carreira do grupo: "Papo de Samba". O primeiro DVD sai em 2004, e conta com a participação de importantes nomes do samba contemporâneo e de outrora tais como Zeca Pagodinho, Demônios da Garoa, Leci Brandão, Luiz Carlos da Vila, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Dudu Nobre, e alguns ex-integrantes como Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Almir Guineto e, Sombrinha. Os anos 2000 ainda traz como registro fonográfico do Fundo de Quintal os álbuns "Samba Quente" (2005), "Pela Hora" (2006), "O Quintal do Samba" (2007), "Samba de Todos os Tempos" (2008), "Vou Festejar" (2009),  "Nossa Verdade" (2011), "No Compasso do Samba" (2012), "Só Felicidade" (2014) e o mais recente até o momento "40 Anos - No Circo Voador" (2016). Vale registrar que na madrugada do dia 29 de maio de 2016, aos 58 anos de idade, em um hospital em Nilópolis, um dos 13 municípios da Baixada Fluminense e um dos menores municípios do Brasil, com apenas 19 km de extensão, faleceu o vocalista do grupo, Mario Sérgio Ferreira Brochado. Com cerca de quatro décadas de atividade, o Grupo Fundo de Quintal é um recordista em premiação do gênero samba. No maior prêmio da música brasileira foi vencedor por 10 vezes, sendo 7 consecutivas como o melhor Grupo de Samba. Sem contar que já vendeu milhões de discos e continua fazendo vários shows, sendo sucesso absoluto.

ÚLTIMO DISCO DE BELCHIOR FOI GRAVADO EM BELO HORIZONTE, COM GILVAN DE OLIVEIRA

Violonista mineiro fala do disco 'Um concerto a palo seco', de 1999, lembra da parceria de cinco anos na estrada e se dispõe a retomar turnê

Por Eduardo Tristão Girão




Ao iniciar seu processo de desaparecimento, quase dez anos atrás, Belchior deixou algumas pistas, foi visto raras vezes e praticamente não deu entrevista. O cantor e compositor cearense, que completará 70 anos em outubro, foi fotografado pela última vez em Porto Alegre, em 2012, já com a carreira totalmente interrompida. No quesito discografia, o panorama é ainda mais desolador: os últimos lançamentos são invariavelmente coletâneas. E a última vez que o artista entrou num estúdio foi justamente em Belo Horizonte. O ano era 1999.

O álbum em questão é 'Um concerto a palo seco', que gravou com o violonista mineiro Gilvan de Oliveira no estúdio Bemol. Inclui 12 faixas de Belchior, como Alucinação, Tudo outra vez, Medo de avião, Divina comédia humana e De primeira grandeza, todas arranjadas por Oliveira. Só voz e violões. Na época, ambos trabalhavam com o produtor cultural Jackson Martins, que os apresentou e assinou a produção executiva do disco, relançado em 2006 apenas com o nome Acústico e com duas faixas extras. “A ideia foi minha. Eu trabalhava com Belchior havia 14 anos e fizemos esse formato com vários instrumentistas. Com o Gilvan deu muito certo”, diz Martins.

“Belchior tinha acabado de gravar o disco Auto-retrato, com arranjos do Ruriá Duprat, e queria apresentar as canções como foram feitas, apenas ao violão. A canção nua, sem orquestra ou banda, preservando para o ouvinte a obra quase no estado puro. Os grandes momentos dos grandes artistas foram assim. João Gilberto fez isso, Baden Powell, Toquinho. Caetano e Gil voltaram a fazer isso também. Procurei ser sofisticado, mas sem interferir. Tem solos e até alguma influência espanhola, como em Galos, noites e quintais”, conta o violonista.

Inicialmente, era para ter sido um álbum apenas de Belchior, acrescenta ele, mas as performances de ambos não deixaram dúvida de que se tratava de um trabalho a ter a capa assinada pelos dois. “A voz dele ficou muito forte, presente. Tudo bem captado, um momento muito feliz. Na semana da gravação, a voz dele não deu nenhum problema. Ele não fazia nenhuma preparação, cantava a palo seco. Brincava que tinha voz de jegue, voz de homem, e não me lembro dele pedir nada de especial antes de gravar”, afirma.


REPERTÓRIO

A escolha do repertório foi do próprio Belchior, e as gravações levaram menos de uma semana. Ficaram de fora três músicas: Ismália (poema do mineiro Alphonsus de Guimaraens musicado pelo cearense), Doce mistério da vida (versão de Alberto Ribeiro para a música de Victor Herbert) e Aparências (Márcio Greyck); as duas últimas são o bônus do relançamento de 2006. Nos intervalos, o clima era de camaradagem, revela Oliveira: “Eu, ele e o Dirceu Cheib, um dos donos do estúdio, fumávamos cachimbo e na hora das confabulações ficávamos cada um com sua ‘pipa’”.

A propósito, o violonista amplia o elogio: “Belchior era muito legal, gostava de bons vinhos, de sair à noite. Era quase vegetariano, só comia peixes e frutos do mar. Ele sempre foi muito sociável. Em toda cidade, tinha gente que o conhecia e ele dedicava tempo para conversar. Era impressionante a paciência dele em receber as pessoas após os shows, sem frescura. Recebia todos e não reclamava de assédio nesse sentido. Sempre foi muito tranquilo trabalhar com ele. Um parceiro de viagem, boa prosa, intelectual”.

Oliveira e o cantor viajaram juntos pelo Brasil para tocar durante cinco anos. Nessa época, Belchior andava às voltas com a tradução da Divina comédia, clássico de Dante Alighieri. “Viajava com uma mala de livros que pesava mais do que o nosso equipamento. Lia o tempo todo, todos os assuntos”, lembra. Talvez pelo grande conhecimento de literatura, teoriza, suas canções ainda sejam relevantes: “Músicas como A palo seco não têm idade. Os problemas são atuais e as abordagens, diferentes. Ao falar de política, por exemplo, não é panfletário”.

Belchior não fazia exigências em relação aos locais das apresentações ao lado do violonista. “Era o lugar que o produtor conseguisse, com boas condições de trabalho”, afirma. O mais importante para o artista, diz o mineiro, era magnetizar a plateia. Nas músicas em que o cantor não tocava violão, costumava ficar mais solto como intérprete, livre para pôr em prática seu mise-en-scène, que incluía se levantar da cadeira e dar chutes com seu sapato bicolor.



 “Ele dizia que, já que íamos fazer um show só com dois violões, tínhamos de botar sangue, ter punch como se fôssemos uma banda. E acontecia. Na última música, o público estava enlouquecido e a gente também. Isso é a força da música acústica, que é a que menos envelhece. A eletrônica passa rápido. O som do piano é o mesmo há séculos e João Gilberto é outra prova disso”, observa. Isso não significava demonstrar virtuosismo no violão, uma vez que Belchior costumava dizer que tocava apenas o suficiente para escrever as próprias canções.

O mineiro conversou com o parceiro pela última vez há cerca de sete anos, pelo telefone (“Estava bem, não reclamou de nada”). Ele acredita que, talvez, o retiro do cearense se deva ao fato de ter concluído que sua contribuição à música brasileira tenha terminado. Ou não: “Talvez tenha cansado de viagem, quisesse ficar mais tempo com a mulher ou um tempo sabático. A gente cobra do artista que ele seja do jeito que a gente quer, que toque sempre, quer saber por onde andou, o que comeu, com quem dormiu. Isso beira a fofoca e incomoda”.

O problema, garante o violonista, não foi falta de inspiração: “Na época, ele me disse ter muita música inédita, mas que não queria fazer nenhum lançamento do tipo”. E aproveita para mandar um recado: “Se ele aparecer aqui, a música ainda está debaixo dos meus dedos. Tenho memória boa e dá para fazer igual a gente fazia”.

Impossível prever se esse reencontro acontecerá, mas o sentimento, para o mineiro, é de que valeu a pena: “Já era fã dele desde os anos 1970. Na virada no milênio, me tornei parceiro de andanças e gravação. Isso é muito legal, é estar perto da história”.

CANTOR BELCHIOR MORRE AOS 70 ANOS


Natural do Ceará, Belchior fez fama nos anos 1970 com álbuns como Alucinação



O cantor e compositor Belchior morreu, aos 70 anos, neste domingo (30) em Santa Cruz do Rio Grande do Sul. 

A informação foi divulgada pelo jornal cearense O Povo. 

De acordo com a publicação, o corpo do artista deve seguir para o Ceará ainda hoje e o sepultamento deve ocorrer na cidade de Sobral.

O governador do Ceará, Camilo Santana, decretou luto oficial de três dias no estado. 

"Recebi com profundo pesar a notícia da morte do cantor e compositor cearense Belchior. Nascido em Sobral, foi um ícone da Música Popular Brasileira e um dos primeiros cantores nordestinos de MPB a se destacar no país, com mais de 20 discos gravados. O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil. Que Deus conforte a família, amigos e fãs de Belchior. O Governo do Estado decretou luto oficial de três dias", informou o governador no Facebook. 

Natural do Ceará, Belchior fez fama nos anos 1970 com álbuns como Alucinação (1976). Só neste disco, estão clássicos como Velha roupa colorida, Como nossos pais, A palo seco e Alucinação. 

O músico é da mesma geração de outros artistas nordestinos como Raimundo Fagner, também cearense. 

Nos últimos anos, no entanto, Belchior ficou recluso, se ausentando dos palcos há mais de sete anos. 

Pelas redes sociais, vários fãs lamentaram a morte do cantor. "Fazendo a minha barba e deixando só o bigode em homenagem ao Belchior", disse Raimundo Neto pelo Twitter. "Belchior é talvez o maior letrista da música popular brasileira. Eis o tamanho do choque de hoje", lamentou Fred Caldeira. Willyma também prestou homenagem ao cantor: "Hoje perdemos um grande poeta brasileiro. Belchior hoje parte, mas suas melodias e poesias ficaram pra sempre...".


Fonte: Estado de Minas

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

PROGRAME-SE


sábado, 29 de abril de 2017

PETISCOS DA MUSICARIA


Por Joaquim Macedo Junior



“DI MELO, O IMORRÍVEL”, O FILME, O GRANDE TALENTO


Quem ainda não conhece o som de Di Melo, o Imorrível, deveria conhecer. Melhor representante do Soul brasileiro, o cantor e compositor não se restringe ao suingue. Trafega, com naturalidade, pelo tango, a balada, a black music, o samba e os gêneros que são apenas suporte formal para suas canções criativas, balançadas, ritmos cativantes, de quem conviveu e ouviu muito Tim Maia, Jorge BenJor e Wilson Simonal, misturando parceria até com o sisudo e extraordinário Geraldo Vandré.

Sua obra-prima data de 1975, reeditado agora pela Odeon, “série 100 ANOS”. Depois de anos, desaparecido, mas vivo, Di Melo voltou a partir do ótimo documentário que mostra sua “toca”, com dona Jô e a linda filha Gabi. O filme mostra o homem comum, a intimidade do homem que já rodou muitas estradas – tem vários discos gravados no Japão e é um dos preferidos dos DJs europeus – e expõe os diversos momentos da carreira do resistente e novo-veterano grande artista.
Desta vez, deixo o filme para que conheçam melhor a figura. Depois sigo, nos próximos artigos, com a trajetória deste – dimelisticamente falando – grande moço da música internacional.

Confesso que, quando estou de lundu, ouço “A vida em seus métodos, diz calma” que, como diria o autor, é um bálsamo relaxante para todas as horas. Ei-la:



Semana que vem, tem mais.

CORAÇÃO TROPICAL

Por Luana Ribeiro


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Cinquenta anos depois, alguns dos principais tropicalistas ainda permanecem na ativa e dialogam com artistas contemporâneos, nas mais diversas áreas artísticas, mostrando que o movimento cultural iniciado em 1967 continua vivo, criativo, atento e forte

Yes, temos bananas. Já maduras. Estão sobre a mesa. Na sala, a TV ligada – não se sabe se no Raul Gil ou no Big Brother. No quarto, figuras conhecidas: a moça ruiva de noiva, dois garotos dentuços; o rapaz negro, barbudo, com riso largo; outro que anda sempre com ele, queixo pontudo, olhar agudo. Essa casa, construída em 1967, está sendo sempre revisitada. Sonho em preto e branco, as imagens da Tropicália evocam nostalgia. O movimento transgressor mexeu com as estruturas do que vinha sendo produzido até então nas artes no Brasil – tendo na música sua faceta mais popular.

Cinquenta anos depois, novas gerações convivem com essa herança cultural e, ao mesmo tempo, se deparam com boa parte de seus personagens vivos e ativos. “É um fenômeno que extrapolou as fronteiras pelo que significava e também pela permanência dos trabalhos de Caetano, Tom Zé, do meu próprio trabalho; Os Mutantes, especialmente Rita Lee. Foram desenvolvimentos artísticos que mantiveram o significado, a chama do Tropicalismo até hoje”, avalia Gilberto Gil, o rapaz barbudo de outrora.

A declaração foi concedida no camarim de um show que comemorava outro cinquentenário, o do Teatro Castro Alves. Gil dividiu o palco com Baby do Brasil e os Filhos de Gandhy, mas também com Saulo Fernandes e jovens músicos da Neojiba. Cantou Domingo no Parque diante de um público vibrante, como quando defendeu a canção no Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1967, alcançando o segundo lugar. No palco, Os Mutantes e o maestro Rogério Duprat, responsável pelos arranjos.

“O maior legado que o Tropicalismo deixou foi o gosto pela diversidade. E sendo o legado do Tropicalismo um legado de liberdade, o que fica é muito mais o que as novas gerações trazem como contribuição, a partir da referência que têm, muito mais do que um repertório”, afirma, citando a própria Domingo no Parque, além de Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, Panis et Circensis, de Gil e Caetano, eternizada pelos Mutantes, e São, São Paulo, de Tom Zé. “Não é propriamente o repertório que faz a herança. O que faz a herança é o conceito de trânsito livre por vários setores, várias maneiras de fazer música e de compreender música para o Brasil, para o mundo”.

O espetáculo do qual Gil participou há 15 dias teve muito dessa fluidez. O ator Jackson Costa declamou Navio Negreiro, de Castro Alves. Outras intervenções incluíram Villa-Lobos, com as Bachianas Brasileiras nº 7; trecho de O Guarani, de Carlos Gomes, e o balé do Gandhy. Tudo que estava encadeado e costurado foi quebrado pela descontração de Baby, que como num happening, abraçou Carlos Prazeres – enlaçados, cantaram Eu e a Brisa, de Johnny Alf. Brasileirinho, de Waldir Azevedo, abafou!

A direção artística foi assinada por Gil Vicente Tavares. “Isso não é nada de ‘oh, que pessoa criativa, como ele conseguiu pensar uma coisa assim’. Isso está muito óbvio para quem assistiu às obras de Glauber Rocha. Ele começa Deus e o Diabo na Terra do Sol com Bachianas”. A menção a Glauber (que com seu Terra em Transe, de 1967, impactou Caetano) justifica-se ainda por sua conhecida obsessão por Castro Alves.

Gil Vicente cita também O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada por Zé Celso Martinez em 1967, com Caetano e Duprat na trilha. A alegoria do quadro socioeconômico e moral brasileiro era temperada com a cenografia colorida de Hélio Eichbauer – em entrevista a Folha de S.Paulo, em 2006, o cenógrafo diz que este trabalho foi sua “revolução tropical”.

“Ver uma peça de Zé Celso é uma coisa orgiástica, dionisíaca. Ele trabalha com excesso, com aglomeração de coisas, entulhamento de linguagens, bem diferente de mim”. E exemplifica com o novo espetáculo, Os Pássaros de Copacabana. “Por incrível que pareça, as obras de arte que mais me alimentam são as que menos têm a ver comigo. Sou às vezes excessivamente apolíneo no que faço”.

Os Pássaros de Copacabana tem como ponto central questões de gênero: Marcelo Praddo vive uma travesti em 1964, que é desafiada por seu amante, um militar, a fazer um musical com canções de Ary Barroso. Para abordar o tema, Gil Vicente buscou fugir do discurso da “travesti empoderada” e ampliar as possibilidades de mexer com a plateia. “Todas as pessoas que são a favor da luta contra a transfobia iriam adorar, mas ficaria restrito a um determinado grupo”, reflete, o que o leva de volta às influências do Tropicalismo. “No fundo, você percebe que fica muito mais presente a Tropicália até hoje como influência, porque eles procuraram o caminho artístico, da ruptura, da provocação. Mesmo as músicas que têm fundo político trabalham através da metáfora, da citação, da paródia, do jogo, da brincadeira. Divino Maravilhoso é uma canção política’”.


A Perenidade do barato

Fica um pouco mais fácil tecer comentários sobre o movimento passado meio século? Em um cenário conturbado e ao mesmo tempo fervilhante – talvez, em parte, por causa disso – a Tropicália foi a expressão de diversos fatores que acabaram reunindo pessoas de várias origens. “Pessoalmente, não tinha nenhuma perspectiva dessa durabilidade, dessa permanência”, pondera José Carlos Capinan, um dos mais prolíficos compositores tropicalistas. Atualmente diretor do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), Capinan é autor de canções como Miserere Nobis (com Gilberto Gil), presente no clássico disco Tropicália ou Panis et Circensis; Soy Loco por ti América e Ponteio (com Edu Lobo).

Na tentativa de explicar a relevância do movimento, o poeta destaca a consistência da produção artística, em contraste com a fragmentação da cultura, associada à facilidade de difusão com a internet. “Talvez venha a partir de certa diluição da matriz cultural brasileira, das artes do mundo inteiro, em relação a modificação de padrões, e também ao que a internet e as redes ajudam a divulgar. Há uma perda de conteúdos, repetição de fórmulas, e isso favorece um núcleo como o Tropicalismo, que tem um apelo muito forte de poesia, muito densa, muito original”.

Capinan também aponta a pertinência dos temas, que ainda falam à sociedade brasileira, como um dado que atualiza o movimento. “O que se questionava na época, e de certa forma ganhou uma visibilidade muito maior hoje, são temas que ainda estão em jogo: sexualidade, ciência, religião e a própria arte. É um movimento que levanta bandeiras libertárias. Ao contrário do que pensavam os utópicos, o mundo não ficou melhor, a não ser na tecnologia”.

Pouco antes de a Tropicália estourar, Capinan atuava no Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, onde teve seu primeiro encontro com Tom Zé. Juntos, realizaram a peça Bumba Meu Boi, em 1962. No CPC, conheceu Caetano e Gil, este já em 1963. Esses tempos pré-tropicalistas foram fundamentais para que se formasse o chamado grupo baiano.

“Isso é resultado das atividades de uma universidade, a Ufba, em sintonia com a vanguarda cultural do mundo. E se localizou aqui na Bahia graças ao reitor Edgard Santos”. Durante sua gestão, foram criadas as escolas de Teatro (1956), que tinha à frente Eros Martim Gonçalves; Dança (1956), dirigida em seus primeiros dois anos pela polonesa Yanka Rudzka (que já aliava o expressionismo alemão às referências do candomblé); Música (1954), coordenada pelo maestro alemão Hans Joachim Koellreutter, que, por sua vez, convocou os suíços Ernst Widmer e Walter Smetak.


Colagem musical

Cria de fontes diversas, que incluem o Konservatorium Franz Schubert, em Viena, na Áustria, o maestro Letieres Leite percebe no braço musical da Tropicália o modo como se conciliaram as múltiplas influências que estiveram na base da produção daqueles artistas, que se situavam entre o erudito, as referências da MPB e aspectos do rock e da cultura de massa. “A Tropicália, para mim, é um movimento que tem a ver com um formato de estruturação musical muito ligado à colagem. Mas os elementos foram ressignificados”.

Por colagem, ressalta, não se deve interpretar a mera justaposição ou soma, e sim uma “abordagem mais profunda”. Letieres argumenta que disso resulta a ausência de um gênero musical definido. “Você reconhece uma bossa nova, é um movimento que mexeu com a estrutura musical, o samba conversando com as harmonizações do jazz. A batida do samba está lá clara, a questão harmônica, a melodia acaba sendo sempre uma consequência – a melodia sempre é filha do ritmo”.

Para ilustrar, aponta a variedade de ritmos que cada música tropicalista representa. “Alegria, Alegria é um frevo, o outro vai ser um baião, o outro, um rock híbrido, e assim por diante. Então não é essa a questão, você não vai julgar a Tropicália por esse viés”, detalha, ressaltando a contribuição do maestro Rogério Duprat à costura dos arranjos. “Ele bebeu na fonte do contemporâneo alemão, do [compositor Karlheinz] Stockhausen. O Duprat foi colega do Frank Zappa, que já fazia isso na música, essas colagens reestruturadas”. Ele aponta ainda que a antropofagia característica da Tropicália já havia aparecido antes na vida cultural brasileira com o Modernismo (1922-1945). “Não acho, posso estar completamente enganado, que é a primeira vez que a música brasileira sofreu uma necessidade antropofágica de reconstrução. Vou corrigir, digo a arte brasileira. Acho que esse pensamento também aconteceu na Semana de 22”.

Mais do que “a briga da guitarra com o violão”, Letieres considera a liberdade como a maior herança da Tropicália. “Essa liberdade está repercutindo até hoje, passou a repercutir para sempre”. Como exemplo, cita a cena musical paulistana. “Eles olham muito para o Nordeste, principalmente a influência afro-baiana, que está sendo muito utilizada. Os pernambucanos há muito tempo têm utilizado como matéria-prima. E, junto com isso, a eletrônica chega”.

Em seu trabalho, há 10 anos à frente da Rumpilezz, Letieres também trabalha com a junção de elementos díspares: o universo musical de matriz africana e o jazz. “Gosto de conversar com a música eletrônica; tenho um projeto inclusive, o ‘Rumpilezz Noise’, que é pegar toda a nossa música e derreter com instrumentos elétricos, através de processamentos”. Para ele, a maior novidade da orquestra é chamar a atenção para o que ele nomeia Universo Percussivo Baiano (UPB), que consiste na sistematização das claves e desenhos rítmicos da música matricial africana. “Tenho a intenção mesmo de propor aos colegas da cena da música instrumental, que é ligada ao jazz, que a matéria-prima da música afro-baiana pode ser interessantíssima para compor, improvisar”.


Play som, play som

Citada pelo maestro como um dos nomes na Bahia que vem bebendo dessa fonte, ao lado da I.F.Á. Afrobeat e da Opanijé, o BaianaSystem se tornou um fenômeno fazendo justamente essa interpolação: pagodão, dancehall, ijexá, cumbia, dub e eletrônica. “Todos nós, que viemos depois dessa geração, somos influenciados diretamente por eles. Acho que até no que se tem depois de movimento forte, talvez o Mangue Beat como um marco, percebe-se essa influência. Gil colabora com eles no primeiro disco, em que gravaram Maracatu Atômico, diz Roberto Barreto, idealizador do grupo. Pessoalmente, o músico destaca o trabalho de Gil, não somente no movimento, mas em toda a sua carreira. “Você vê que ele é um cara que passeia por muitos gêneros e, de alguma forma, apropria-se daquilo. Tem o reggae como influência, como já teve o samba, o forró...”.

O próprio Roberto trouxe um elemento que é destaque na geleia geral da banda, que é a guitarra baiana. “Tenho muita influência disso, do que eles fazem com a guitarra, de como a guitarra entra na música brasileira”. O guitarrista afirma, porém, que não foi puramente racional a fusão de múltiplos gêneros e referências presentes no som do grupo. “Não foi necessariamente pensado. Quando o Baiana começa, foi nessa experimentação de colocar a guitarra baiana pensando no ambiente de soundsystem, que já era uma coisa bem experimental na sua essência – na Jamaica se tem aquelas bases, as pessoas cantando em cima, de forma mais livre”. A cultura do soundsystem, por sua vez, já era trabalhada pelo vocalista, Russo Passapusso, com o coletivo MiniStereo Público.

Para Roberto, a antropofagia tropicalista é quase inescapável para as novas gerações. “A gente já vem processado por isso, a gente já é educado dessa forma, com essas possibilidades, isso já não fica tão claro, essa quebra, porque já vem pós-quebra. Quando você consegue ler e entender sobre isso, você percebe que tinha uma coisa mais clássica; uma forma mais vocal, de rádio, de cantar; tinha a bossa nova; tinha uma série de coisas que era mais padrão, e a Tropicália vem nessa quebra”. Essa noção de existir uma lógica própria de pensamento tocou o inventivo Tom Zé, que segue até hoje em clima de ruptura. “Isso é muito bonito”, disse, ao saber da conclusão de Roberto sobre a cabeça da sua geração.

Para o cantor, é sobre isso que estamos falando: aprendizado. Tom Zé fala de um filme do francês Alain Resnais, que lhe ensinou que a maior fase de absorção de conhecimentos ocorre entre 0 e 2 anos. Nesse berçário tropical, ele explica, os tropicalistas foram descobrindo diversos saberes: cabem aí a cultura provençal dos séculos 11 e 12, que chega por meio dos cantadores nordestinos; os conhecimentos da Escola de Sagres (que organiza as técnicas de navegação em Portugal, no século 15), personificada na Chegança; as canções celta e árabe, que fundamentam o cancioneiro urbano dos menestréis. “Repare que nós, tropicalistas, na nossa infância, tivemos uma educação... E aí ligando ao filme de Alain Resnais – nós não falamos a língua da tribo, a língua do povo ao nosso redor. Que línguas falamos para poder aprender tanto?”. Ele ressalta também o papel da escola pública da época nessa formação. “Os cursos de ginásio dos colégios eram muito bons, nos colégios da Bahia. Era uma educação pública sofisticadíssima”.

Toda essa pesquisa para explicar o movimento desaguou no álbum lançado por Tom Zé em 2012: Tropicália Lixo Lógico, no qual se cerca de jovens: Mallu Magalhães, Emicida, Pélico, Rodrigo Amarante e Washington Carlos (que conheceu em Caruaru). O disco entremeia as teses com músicas mais agitadas, para aliviar a moleira. Em Tropicalea Jacta Est, com o acompanhamento de Mallu, ele louva o avanço trazido pelos tropicalistas, mais diretamente Caetano e Gil: “Domingo no parque sem documento/ Com Juliana-vegando contra o vento/ Saímos da nossa Idade Média nessa nau/ Diretamente para a era do pré-sal”. Na marcha-enredo da Creche Tropical, faz menção ao conhecimento não aristotélico. “E assim funciona a creche, cada círculo, cada aula, iam se sucedendo, com aqueles jograis que casualmente circulavam entre nós”.

Os “bebês” que cultivou durante a gravação o impressionaram. “São uma elite, é assustador. Emicida é o cara, aquilo é um negócio de louco. Aquela menina [Mallu]... Todos têm semelhança com Caetano e Gil, que a gente só vive junto deles aprendendo. Eles são de uma velocidade de raciocínio e de imediata reação que parece um mecanismo de brinquedo”. De aluno, passou a professor, para, novamente, voltar a aprender aos 80 anos, fiel ao espírito tropicalista.

ODETE AMARAL, 100 ANOS


Filha caçula do lavrador Alfredo Amaral e de Albertina Ferreira do Amaral, Odete nasceu em Niterói, mas com um ano sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde o pai se tornou chofer de caminhão. Aos seis anos de idade entrou para o Colégio Uruguai, onde fez todo o curso primário. Em 1929, empregou-se na América Fabril como bordadeira. Por sua bonita voz, era sempre convidada a cantar no teatro da escola, além de festas de aniversário. Sua irmã, que muito a admirava, levou-a à Rádio Guanabara em 1935, na época dirigida por Alberto Manes, para que fizesse um teste. Fez a prova acompanhada pelo pianista Felisberto Martins, cantando "Minha embaixada chegou", de Assis Valente. Com o sucesso do teste, a cantora foi logo escalada para participar do programa "Suburbano", onde também se apresentavam Sílvio Caldas, Marília Batista, Noel Rosa, Almirante, Aurora e Carmen Miranda, entre outros. Levada por Almirante, passou a cantar também na Rádio Clube. No mesmo ano, participou da inauguração do Cassino Atlântico e pouco depois, apresentava-se na Rádio Ipanema. Atuou ainda em várias emissoras, dentre as quais a Sociedade, a Philips e a Cruzeiro do Sul. Por essa época atuou no teatro cantando "Ganhou mas não leva", de Milton Amaral, em uma revista levada no João Caetano. Em 1936 gravou seu primeiro disco, na Odeon, interpretando os sambas "Palhaço", de Milton Amaral e Roberto Cunha e "Dengoso", de Milton Amaral. Em seguida, foi levada por Ary Barroso para a RCA Victor, onde estreou com a batucada "Foi de madrugada" e a marcha "Colibri", ambas de Ary Barroso. Paralelamente, cantava em coro, atuando em muitos discos de colegas como Francisco Alves, Mário Reis e Almirante. No mesmo ano, assinou o primeiro contrato de sua carreira, na Rádio Mayrink Veiga. Por essa época , recebeu de César Ladeira o slogan de "A Voz Tropical". Em 1937, participou da inauguração da Rádio Nacional, onde permaneceu por dois anos. No mesmo ano gravou o samba "Sorrindo", de Ciro Monteiro e L. Pimentel, a rumba "Terra de amores", de Gadé e Valfrido Silva, o samba-canção "Só você", de Haníbal Cruz, além da marchinha "Não pago o bonde", (J. Cascata- Leonel Azevedo), sucesso no carnaval. Em 1938, casou-se com o cantor Ciro Monteiro, com quem teve um filho. Ainda em 1938 gravou de Ataulfo Alves e Alcebíades Barcelos, os sambas "Ironia" e "Não mando em mim" e de João da Baiana, o samba "É melhor confessar do que mentir". Em 1939 se mudou para São Paulo SP, contratada pela Rádio Cultura, onde atuou durante uma ano e meio, percorrendo vários estados do Brasil nos intervalos dos programas, acompanhada de Ciro Monteiro. Participou do filme da Cinédia "O samba da vida", de Luís de Barros.



Ainda em 1939 gravou com Ciro Monteiro os sambas "Sinhá, sinhô" e "Bem querer", ambos de Aloísio Silva Araújo. Em 1940 gravou a marcha "O gato e o rato", de Wilson Batista, Arnô Canegal e Augusto Garcez, a batucada "Eu já mandei", de J. Cascata e Leonel Azevedo e o samba "Quando dei adeus", de Ataulfo Alves e Wilson Batista. Em 1941 retornou para a Rádio Mayrink Veiga, no Rio, e lá ficou por seis anos. No mesmo ano gravou a marcha "Serenata", de Felisberto Martins e Sá Róris, o samba "Pode chorar se quiser", de Roberto Cunha e o frevo canção "Não sei o que fazer", de Capiba. No mesmo período passou a gravar na Odeon, onde estreou com a valsa "Minha primavera", de Gadé e Almanir Grego e a fantasia "Minha voz", de Eratóstenes Frazão. Em seguida, gravou "Não quero dizer adeus", samba-choro de Laurindo de Almeida. Em 1942 gravou os sambas "Quem não chora não mama", de Laurindo de Almeida e Ubirajara Nesdem, "Caminhar sem destino", de Felisberto Martins e Henrique Mesquita e "Por causa de alguém", de Ismael Silva. Em 1943 registrou o fox canção "Primavera em flor", com música de Georges Moran sobre versos do poeta J. G. de Araújo Jorge, e os sambas "Favela morena", de Estanislau Silva e João Peres e "Resignação", de Geraldo Pereira e Arnô Provenzano. Em 1944 gravou de Geraldo Pereira e Ari Monteiro, o samba "Carta fatal", com o Quarteto de Bronze, a valsa "Toureador", de Georges Moran e Osvaldo Santiago, e o choro "Murmurando", de Fon-Fon e Mário Rossi, seu maior sucesso que tornou-se um verdadeira clássico da MPB. Em seguida lançou de Haroldo Lobo e Eratóstenes Frazão a marcha "Quem tem mágoa bebe água". Passou um período em que realizou poucas gravações, fazendo alguns registros no pequeno selo Star, entre eles, a marcha "A moleza do faquir", de Dênis Brean e Osvaldo Guilherme e o samba "Por que mentir?", de Luiz Antônio e Ari Monteiro. Atuou na Rádio Mundial de 1947 a 1951, ano em que, contratada pela Rádio Tupi, se apresentou no programa matutino O Rio se Diverte e, à noite, no Rádio Seqüência G-3. Em 1949 chegou ao fim seu casamento com Ciro Monteiro. Em 1951 retornou para a Odeon com os choros "Bichinho que rói", de Dênis Brean e "Mais uma vez", de Cachimbinho e Delore. No mesmo ano, assinou contrato com a Rádio Tupi.


Em 1952 re gravou o clássico samba canção "Ai Ioiô", de Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto. No ano seguinte gravou "Carneirinho de São João", marcha de Luiz Vieira. Em 1954 gravou os sambas "Nasceu pra sofrer", de Arnô Provenzano, Isaias Ferreira e Oldemar Magalhães e "Vem amor", de Enésio Silva, Isaias Ferreira e Jorge de Castro. Ainda nesse ano lançou o samba-canção "Quando eu falo com você" (Mário Rossi e Gadé), o choro "Girassol" (Mário Rossi), o ritmo afro "Pai Benedito e Iemanjá" (Henrique Gonçalves), o samba-canção "Divina visão" (Vargas Júnior) e "Cruz para dois" (Chocolate e Jorge de Castro), além da regravação do samba-canção "Carteiro" (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins). Em 1957 assinou contrato com a gravadora Todamérica, na qual estreou com os sambas "Dedo de Deus", de Raul Marques e Ari Monteiro e "Tô chegando agora", de Monsueto Menezes e José Batista. No mesmo ano lançou seu primeiro LP, com arranjos do maestro Guio de Moraes, "Tudo me lembra você". Em 1959 lançou o samba "Enquanto houver Mangueira", de Roberto Roberti e Arlindo Marques Jr. Em 1962, assinou contrato com a Copacabana. Um de seus trabalhos mais interessantes foi o LP "Do outro lado da vida - Os que perderam a liberdade contam assim sua história", gravado com Cyro Monteiro Jr., no qual interpretou composições de presidiários do então estado da Guanabara e de São Paulo, entre as quais, "Luar de Vila Sônia", valsa de Paulo Miranda, "Nos braços de alguém", samba canção de Quintiliano de Melo e "Silêncio! É madrugada", samba canção de Wilson Silva. Lançou também, com Silvio Viana e seu conjunto, o LP "Sua majestade Odete Amaral - A rainha dos disc jockeys". Em 1968 lançou com sucesso dois sambas clássicos da MPB, "Alvorada no morro" (Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho) e "Sei lá, Mangueira" (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho), além de "Tempos idos" (Cartola e Carlos Cachaça), que ela gravou ao lado de Cartola, todas gravadas no mesmo disco, o histórico "Fala Mangueira", ao lado de Cartola, Clementina de Jesus, Nélson Cavaquinho e Carlos Cachaça. Em 1975, participou da série "MPB 100 ao vivo" irradiada pelo projeto Minerva, Rádio MEC, em cadeia nacional de emissoras. Ao lado de Paulo Marques, cantava os grandes sucessos dos anos 1930. A série de 30 programas deu origem a oito LPs criados por seu produtor Ricardo Cravo Albin. Dois anos mais tarde, participou do show "Café Nice", ao lado de Paulo Marques e Altamiro Carrilho, com direção e narração de Ricardo Cravo Albin. Uma das cantoras populares brasileiras de voz mais pessoal e afinada, nunca chegou a atingir o estrelato de cantoras como Carmen Miranda, Aracy de Almeida ou as irmãs Linda e Dircinha Batista, mas é ainda hoje considerada uma melhores intérpretes brasileiras da década de 30 e de todos os tempos.


Fonte: Cantoras do Brasil

sexta-feira, 28 de abril de 2017

CANÇÕES DE XICO


SONHO MATUTO


– Ah, essa menina da pele cor de canela: se eu fosse 10 anos mais novo que tu ou tu 10 anos mais veia que eu, eu te tomava dos teus sete namorado, fazia tu se amuntá na garupa de meu cavalinho Reitrop e te carregava mode tu ser rainha no meu reino encantando da Guaratiba, na serra vizinha dos anjo, encostadinha no céu. Lá onde a lua fica bem pertim do chão, onde a gente agarra as nuve, basta levantar as mão. E aí, de tardezinha, a noite já se anunciando e o sol se espriguiçando atrás dos morro, eu ia te dá tanta estrela de presente que um home inteligente não ia sabê contá. Nenhuma delas ia briá mais que meus ói quando encontra os teu. Depois, mode te alegrá, cantava uma moda bem bonita só pra te fazê feliz. Mas 10 anos é muito ano pra gente se impariá e eu sei que é impussive, que o tempo nem volta nem se adianta, tem sua velocidade própria. Por isso, mas só por isso, de hoje pra frente eu vou namorá mais tu em todo sonho que eu sonhá.

BANDA BLITZ VOLTA AO ROCK IN RIO PARA REVIVER OS ANOS 80

Grupo comandado por Evandro Mesquita vai se apresentar em 16 de setembro ao lado de Alice Caymmi e Davi Moraes



Evandro Mesquita (centro) com a nova formação da Blitz 


A banda Blitz, que tocou na primeira edição do Rock in Rio, em 1985, vai se apresentar no dia 16 de setembro no Palco Sunset. Em um encontro com Alice Caymmi e Davi Moraes, a banda lança o novo trabalho Aventuras II, de inéditas do grupo.

O convite para que a cantora esteja na apresentação foi feito por Evandro Mesquita, líder da Blitz, que em conversa com o diretor artístico do palco Zé Ricardo, relatou ter convidado a artista. "Alice gravou com a gente o novo álbum e ficou imensamente feliz. Na mesma hora ela me disse: faça de mim o que você quiser’", lembra Evandro.

Para Zé Ricardo, a entrada de Alice Caymmi neste encontro está conectada ao novo repertório da Blitz e da cantora, que traz uma nova roupagem e invade o mundo das batidas do funk. "Será um momento sensacional onde os hits cariocas não deixarão ninguém parado e a guitarra de Davi Moraes trará um 'molho' ainda não visto pelo público", afirma.

Já está programada a entrada de um carro no palco e toda a performance teatral que a Blitz ensinou muita gente a seguir. O público vai relembrar e cantar os maiores sucessos como Betty Frígida, Weekend, Egotrip, Mais uma de amor (Geme Geme), A dois passos do paraíso, Biquíni de bolinha amarelinha, entre outros.


Fonte: Agência Estado

ANTONIO MARCOS, 25 ANOS DE SAUDADES




O Último Romântico


Antônio Marcos levou multidões à loucura com sua bela voz e porte de galã. Cantor e compositor de clássicos populares dos anos 70, fez Roberto Carlos vender milhares de discos com a música “Como Vai Você”. Ex-marido da cantora Vanusa e da atriz Débora Duarte, deixou muitas mulheres apaixonadas. Mas foi tragado pelo alcoolismo.

São Paulo, verão de 1975, o casal Vanusa e Antônio Marcos toma o café da manhã ao lado das pequenas filhas, Amanda e Aretha. De repente, a mais velha diz que não quer mais ir para a escola: “As crianças, durante o recreio, gritam que meu pai é bêbado”. A cantora gela e pede à babá que leve as meninas para o jardim. Há tempos que ela adiava aquele momento. “Está vendo, Toninho, o que você está causando à suas filhas?” O cantor nada responde. Vanusa continua: “Chegou a hora de você escolher: ou a nossa vida ou o seu scotch.” Antônio Marcos ergue a garrafa de uísque, dá um gole e diz, sem encará-la: “Nunca vou parar de beber”. Sem nada mais dizer, ele levanta-se e vai embora. Vanusa debruça sobre a mesa e desaba a chorar. A xícara vira e o café escorre pela toalha. Terminou assim o casamento que durante seis anos fora o mais badalado da música popular dos anos 70.


A Ascensão

Antônio Marcos Pensamento da Silva nasceu no dia 8 de novembro de 1945, em São Miguel Paulista, distrito da zona leste de São Paulo. É o segundo dos oito filhos do alfaiate e vendedor de livros Vicente e de dona Eunice — hoje com 91 anos –, costureira, poetisa e compositora. Como era fraquinho, o aluno do grupo escolar Vila Sinhá costumava contar que chegou a tomar injeção de sangue de cavalo na infância, seguindo as instruções de uma benzedeira. Começou a trabalhar cedo, para ajudar a família de baixa renda. Torcedor aficionado pelo time do São Paulo, foi office-boy do banco Ítalo-Brasileiro e balconista de uma loja de sapatos. E, desde pequeno, cantava nas formaturas da escola. Sabia de cor as canções de Bob Nelson, cantor country pioneiro no Brasil. Mas, aos 12 anos, já dava os primeiros goles nos botecos de São Miguel. Matava aulas para ir ao cinema, compor poesias e tocar violão na casa dos amigos. Por isso, só conseguiu concluir o segundo grau com muito esforço.

Desde sempre chamava a atenção por seu belo porte e carisma: fazia pontas em programas da TV Tupi. Sua voz garantiu-lhe uma vaga no coral Golden Gate, dirigido por Georges Henry e uma participação no programa de rádio de Albertino Nobre, onde foi nomeado “A Voz de Ouro de São Miguel”. Em 1962, esteve na Ginkana- Kibon, apresentada por Vivente Leporace e Clarice Amaral, na TV Record. Lá, cantou “Only You”, sucesso de Elvis Presley, de quem ele colecionava os discos. Dois anos depois, é destaque ao cantar, tocar violão e imitar cantores no programa de Estevam Sangirardi, na rádio Bandeirantes.




O rapagão também era talentoso nos tablados e logo foi fisgado pelo Teatro de Arena. Tornou-se ator principal das peças Pé Coxinho e Samba Contra 00 Dolar. Em 1965, junta-se a mais três rapazes e montam o quarteto Os Iguais. Estouram com a música “A Partida”, mas Antônio Marcos nasceu para brilhar sozinho e, dois anos depois, lança seu primeiro compacto com duas músicas: “A Estória de Quem Amou Uma Flor” e “Perdi Você”. O disco não fez muito sucesso, mas aquela voz sobressaiu. O cantor logo conseguiu gravar seu segundo compacto e estourar nas paradas com a música “Tenho Um Amor Melhor Que o Seu”, de autoria de Roberto Carlos. A música toca em todas as rádios e Antônio Marcos torna-se coqueluche nacional: o homem ideal das mocinhas românticas da época, com 1,82 m, cabelos lisos, robusto e dono de uma voz de ouro.

Os tempos de vacas magras vão ficando para trás. Na estante de casa, já acumula prêmios – como o Roquete Pinto e o Chico Viola, de 1969 — e compra seu primeiro carro, um Corcel Luxo. E embala um romance com uma das estrelas da Jovem Guarda, o Queijinho de Minas Martinha: “Antônio Marcos foi o grande amor da minha vida. Ficamos dois anos juntos como num conto de fadas. Na minha casa, tinha uma parede, como se fosse uma cortina, com seus poemas. Só que ele queria ‘juntar’ e eu queria casar”, lembra a cantora e compositora, que teve sua música “Sou Eu” gravada no primeiro disco do cantor.

Em 1969, com 21 anos, Antônio Marcos dá uma guinada durante o IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, quando ganha o prêmio de melhor intérprete. Ele nem liga para as vaias, canta lindo, com os cabelos longos e uma camisa de renda preta aberta até o umbigo, exibindo o tórax cabeludo. Ao ver Vanusa — que levou o terceiro lugar do festival cantando “Comunicação” –, se encanta e dá a ela uma flor: ao vivo e em preto e branco, como era a televisão na época.

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Os dois já haviam se encontrado meses antes rapidamente no escritório da gravadora RCA Victor: “Nos vimos e o ar parou. Ele me deu um disco e, em casa, quando ouvi aquela tremenda voz, eu me apaixonei na hora’’, lembra a cantora, que naquele dia, terminou o namoro com o cantor Fábio. E, após o festival da Record, alguns cantores foram comemorar na casa de Antônio Marcos, no Brooklin, bairro da capital paulista. Providencialmente, Edith, na época assessora de Roberto Carlos, deu um jeito de Vanusa pegar uma carona no Sinca Chambord lilás do cantor. Na casa dele, pura festa: todos cantando e bebendo em volta da piscina. Até que Vanusa descola um maiô emprestado, dá um mergulho e braçadas a la Esther Willians que deixa todos os convidados surpresos: “Saí tremendo de frio e fui para o um quarto, na edícula. Tirei o maiô, fiquei nua e entrei embaixo da coberta. De repente, sinto alguém entrando. Sabia que era ele. Fizemos amor na cama da empregada”, confessa.

Na tarde seguinte, já tomavam sorvete juntos. E, daquela casa, Vanusa não saiu mais. Os dois passaram a morar juntos, mas não eram casados, como exigia os padrões rígidos da época. Isso porque os artistas naquele tempo não podiam se casar para alimentar os sonhos dos fãs. Então, Vanusa ficou grávida e passou a ser xingada nas ruas pelas tietes de Antônio Marcos. Em uma apresentação do cantor em Quem Tem Medo da Verdade, o casal foi tão massacrado que Vanusa — assistindo ao programa sozinha em casa – passou mal e acabou perdendo o bebê aos cinco meses de gravidez. Com o sofrimento da cantora, as fãs se sensibilizaram e a imprensa passou a chamá-los de “Casal 20”.

No mesmo ano, Antônio Marcos emplacou nas rádios a música “Menina de Tranças” e, na televisão, como galã do folhetim Toninho On the Rocks, feito para ele estrelar no horário nobre da TV Tupi e que também tinha Raul Cortez e Marilu Martinelli no elenco. A mocinha da trama? Débora Duarte. Em uma tarde, um silêncio constrangedor tomou conta dos estúdios da Tupi, no Sumaré, onde gravavam a novela. Vanusa passou por lá para fazer uma surpresa para Antônio Marcos e flagrou-o, na cama do cenário, dando um beijo em Débora. Ele justificou que era o ensaio de uma cena, mas a desculpa não colou. A cantora, novamente grávida, disse-lhe que estava tudo acabado e sumiu pelos corredores da emissora. Foi para a casa da mãe. Inconformado, Antônio Marcos ligava para ela de hora em hora, mandou flores, presenteou-a com um anel de brilhante. Até que a cantora o aceitou de volta.


O Auge

Sucesso na TV, Antônio Marcos estreia no cinema com o longa-metragem Pais Quadrados, Filhos Avançados, dirigido por J. B. Tanko. “Ele chegou atrasado à pré-estreia, no antigo Cine Regina [no centro de São Paulo]. Depois do filme, nem falou nem subiu no palco. Estava indisposto”, conta hoje Mauricio Kus, um grande divulgador de filmes nacionais dos anos 70. A indisposição era em decorrência de umas doses a mais. “Ele bebia muito e não comia. Seu café da manhã era uísque”, confirma Vanusa. O cantor chegou a bater o carro várias vezes por dirigir alcoolizado. Certa vez, teve perda total de uma Ferrari: no problem, como estava no auge da carreira, em 15 dias já tinha outra garagem.

Apesar do pileque constante, ele era muito vaidoso. Tinha um closet cheio, com diversos tipos de botas e ternos de muitos tons e com brilho. Em uma loja, se gostasse do modelo de uma camisa, levava de todas as cores. E lançou moda: foi um dos primeiros homens a usar macacão no Brasil. Afinal, Antônio Marcos, ao lado de Wanderley Cardoso e Paulo Sérgio, era ídolo do programa Os Galãs Cantam e Dançam, de Silvio Santos. Também fazia sucesso nas fotonovelas: em uma delas, aparece dando um beijaço em Vera Fischer, na época estrela da pornochanchada A Super Fêmea. No cinema, em Som, Amor e Curtição, contracenou com as belas Betty Faria e Rosemary. E, no mesmo ano, em 1972, Antônio Marcos oficializou o casamento com Vanusa, depois que Amanda, a primeira filha do casal, nasceu. O casal ainda teve mais uma filha, Aretha, e, com a ajuda de Silvio Santos, que sempre gostou muito do cantor, compraram uma casa na rua Joaquim Nabuco, em São Paulo.

Ele também era respeitado como compositor. Foi em um jantar na casa de Nice e Roberto Carlos, no Morumbi, que ele apresentou “Como Vai Você”, que rendeu ao ícone da Jovem Guarda mais de 700 mil discos vendidos.



Antônio Marcos ganhava malas de dinheiro com seus shows. Mas também gastava muito. Chegou a dar seu carro para um taxista bêbado que lamuriava em um bar. Aliás, não era raro o cantor fazer essas “doações”: costumava comprar comida em restaurantes nobres para dar a mendigos e dividia o que tinha na carteira se um amigo estivesse “duro”. Atitudes de um homem generoso, lamentavelmente consumido pelo alcoolismo. “Eu perguntava por que ele bebia tanto e ele respondia: ‘Não sou deste planeta, o mundo é muito cruel e desigual’”, ressalta Vanusa.

Saía sem avisar seu paradeiro e chegava a virar noites. Certa vez, chegou a sumir por quatro dias. A atriz Elsa de Castro sabe bem: “Eu era louca por ele. Jantávamos na churrascaria Eduardo´s, no centro. Ele bebia muito, mas era gentil e não parava de falar na Vanusa. Aí, eu o levava para casa”, conta. Devido aos sumiços, sua mulher chegou a ter de substituí-lo em dois shows. “Nunca fui tão vaiada, foi tão traumático quanto o vídeo do Hino Nacional no YouTube [refere-se a uma interpretação polêmica que a cantora fez em março de 2009 e virou hit na internet]”, compara Vanusa, que acabou se separando do cantor no começo de 1975.

Em abril do ano seguinte, uma manchete chega às bancas de todo Brasil: “Bomba/Confirmado, Romance de Débora Duarte e Antonio Marcos”. A atriz, segundo o cantor dizia para os amigos, apresentara a ele um novo mundo, que se refletiu em seu novo visual: cortou o cabelo, passou a usar franja e bigode. Meses depois, o casal mostrou sua residência, no Morumbi, na capa de um especial da revista Amiga: “Os ídolos da TV e suas casas fabulosas”. A mansão tinha piscina, campo de futebol society, veludo nos sofás e um bar de aço escovado. E, em julho de 1977, tiveram a primeira filha, Paloma Duarte.

Débora e Antônio Marcos apresentaram juntos o programa Rosa e Azul, na TV Bandeirantes, que tinha, em 1979, atrações musicais como Miss Lane, Djavan, Lady Zu e Sidney Magal. Na mesma emissora, estrelaram a novela Cara a Cara, de Vicente Sesso, que também tinha no elenco Fernanda Montenegro, David Cardoso e Luiz Gustavo. O casou até gravou um compacto com as músicas da novela. Mas, no início dos anos 80, se separou e Antônio Marcos “entrou em parafuso”, como o próprio declarou. Pensou em largar tudo para ser garçom em Amsterdã. “Se tenho de ir ao fundo do posso, eu vou. Sou mais ou menos insuportável”, reconheceu. Dois anos depois, eles tentaram uma reconciliação, que não durou muito.


A Decadência

Aos 39 anos, Antônio Marcos conheceu sua terceira mulher, no aeroporto de Natal. A modelo Rose, quase 20 anos mais nova que ele, teve um menino, Antônio Pablo, que levou este nome em homenagem ao poeta Pablo Neruda, um dos favoritos do cantor. Pai novamente, o cantor se viu em um mau momento. Sua carreira já não era a mesma, ele não era mais convidado para fazer novelas e não estourava hits nas rádios. Até que uma nova parceria, com o compositor e produtor Antônio Luiz, deu-lhe novo ânimo. Antônio Marcos se aproximou do autor de “Tic Tic Nervoso” — um hit dos anos 80 – nos bastidores do programa do Bolinha. “As pessoas davam drogas para ele, mas não davam mantimento. Cheguei a fazer ligações anônimas ameaçando mandar a polícia atrás delas’’, conta Antonio Luiz, que, em 1985, compôs com Antonio Marcos 12 músicas para a peça Zé Criança, onde Paloma Duarte, com apenas 8 anos, atuou com o pai no teatro Nelson Rodrigues, em Guarulhos. E, em 1987, Luiz foi parceiro em quatro canções de O Anjo de Cada Um, o último disco de músicas inéditas que o cantor lançou.

Internações em clínicas de desintoxicação passaram a fazer parte da rotina de Antônio Marcos depois que ele resolveu, enfim, travar uma luta contra o álcool e as drogas. “Nesse período, percebi como a bebida transforma a gente. Você bebe, cheira tóxico e pensa que seu poder de criação está mais aguçado. Tudo palhaçada”, reconheceu em entrevista a revista Contigo.


Mas o declínio era evidente. Ele não conseguiu largar a bebida e acabou tendo que se mudar para Mairiporã, segundo Luiz, com dificuldades financeiras até mesmo para comer. Para socorrer o ex-marido, Vanusa, que já sido casada com o diretor Augusto César Vanucci — na época poderoso na TV Bandeirantes –, pediu ao ex-marido para promover um show na emissora para arrecadar dinheiro para Antônio Marcos. Mas com uma condição: que o cantor se internasse para ficar sóbrio. Três meses depois, em junho de 1987, ele saiu da clínica para o teatro Záccaro, onde aconteceria o especial. Mas, no caminho, deu um jeito de tomar um porre e chegou bêbado aos bastidores. Vanusa trancou o cantor no camarim até a hora dele entrar em cena. Antônio Marcos implorava por um copo e ela deu-lhe um dedo de uísque. O show acabou sendo um sucesso, mas o cantor não apareceu ao jantar com os convidados, que incluiu Alcione, Chitaõzinho e Xororó, Fagner, Ronnie Von, Sandra de Sá e Antônio Luiz.



No início dos anos 90, o cantor deixou Rose para se unir a Ana Paula Braga, enteada de Roberto Carlos. Em 1991, depois de uma série de internações por problemas no fígado, ele ainda fez uma temporada de shows na extinta casa noturna paulistana Inverno e Verão. Até que, na manhã do dia 5 de abril de 1992, foi a uma padaria em Alphaville, pediu uma dose de uísque e, ao sair, bateu sua caminhonete em um poste, machucando o tórax violentamente contra o guidão. Ana Paula o internou no hospital Oswaldo Cruz, e, por volta das 21h, Antônio Marcos faleceu. O cantor foi enterrado no cemitério Parque dos Girassóis com a presença de dezenas de fãs, que acenavam com lenços brancos.

Após a morte do cantor, um exame de DNA comprovou a paternidade de mais um menino, Manoel Marcos, que passou a ser o primogênito da prole. Assim, após a trajetória de um típico romântico, ele deixou cinco filhos, quatro ex-mulheres, 14 discos e centenas de músicas. Em São Miguel Paulista foi fundada a Casa de Cultura Antônio Marcos São Miguel e, em 2006, sua filha lançou o CD e DVD Aretha Marcos Ao Vivo – Homenagem aos 60 anos de Antônio Marcos. “Meu pai me ensinou que o importante na vida é ser feliz e falar sempre a verdade, mesmo que isso doa”, encerra Amanda, sua filha mais velha. Antônio Marcos também costumava dizer: “Nunca vou morrer. Vou ficar encantado.” Encantadas ficaram as milhares de fãs desse romântico incorrigível.


Fonte: UOL

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