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Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

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Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

PAUTA MUSICAL: DEPOIS DO "ADEUS" NADA MELHOR QUE A "VOLTA"

Por Laura Macedo



No dia 1º de novembro, próximo passado, publicamos o post - “Adeus: Fonte de inspiração dos compositores”. Vários integrantes do GGN/Luis Nassif Online marcaram presença com excelentes comentários e sugestões, entre elas, a criação de um novo post com a temática da “Volta”. Afinal os apaixonados merecem uma segunda chance, não é mesmo? Preparem os lencinhos...

Selecionei algumas canções da temática envolvendo as décadas de 1930 a 1960. Espero que os amigos comentaristas contribuam ampliando as nossas sugestões, independentemente, da linha do tempo.

Volta” (Mário Lopes de Castro) # Jesy Barbosa. Disco Victor (33.269-B) / Matriz (50227). Gravação (4/41930) / Lançamento (maio/1930).



Volta para o meu amor” (Joubert de Carvalho/Tostes Malta) # Francisco Alves. Disco Victor (33797-A) / Matriz (79644). Gravação (7/6/1934) / Lançamento (julho/1934).



Voltaste ao teu lar” (Heitor dos Prazeres) # Silvio Caldas. Disco Victor (33918-B) / Matriz (65817-1). Gravação (21/7/1933) / Lançamento (abril/1935).

Volta meu amor” (Ary Barroso) # Silvio Caldas. Disco Odeon (11.298-B) / Matriz (5147). Gravação (13/9/1935) / Lançamento (janeiro/1936).



Até a volta” (Benedito Lacerda/Herivelto Martins) # Francisco Alves. Disco Columbia (55.259-A) / Matriz (361). Gravação (6/1/1941) / Lançamento ( fevereiro/1941).



Volta” (Custódio Mesquita) # Orlando Silva. Disco Victor (34.920-A) / Matriz (S-052455). Gravação (15/1/1942) / Lançamento (maio/1942).



Volte pro morro” (Benedito Lacerda/Darci de Oliveira) # Ademilde Fonseca. Disco Columbia (55.368-B) / Matriz (543). Gravação (10/8/1942) / Lançamento (setembro/1942).



Volta pra casa Emília” (Antônio Almeida/J. Batista) # Vassourinha. Disco Columbia (55.346-B) / Matriz (514). Gravação (12/5/1942) / Lançamento (junho/1942).




Sou eu quem volta” (Olga Maria/Ribeiro Filho) # João Petra de Barros. Disco Victor (80-0111-B) / Matriz (S-0522787). Gravação (5/6/1943) / Lançamento (setembro/1943).




Voltei, mas era tarde” (Geraldo Pereira/Príncipe Pretinho) # Cyro Monteiro. Disco (80.0228-B) / Matriz (S-078053). Gravação (13/9/1944) / Lançamento (novembro/1944).

Voltaste” (Sílvio Caldas) # Sílvio Caldas. Disco Continental (16.435-B) / Matriz (2618). Gravação (entre julho e setembro/1951).



Canção da volta” (Antonio Maria/Ismael Neto) # Dolores Duran. Disco Copacabana (5.256-B) / Matriz (M-821). Lançamento (maio/1954).



Volta ao passado” (Fernando César) # Cauby Peixoto. Disco Columbia (CB-10297-B) / Matriz (CBO 737). Lançamento (outubro/1956).



Volta” (Lupicínio Rodrigues) # Dircinha Batista. Disco Victor (80-1800-A) / Matriz (13H2PB0081). Gravação (28/3/1957) / Lançamento (junho/1957).

Voltei” (Irani de Oliveira/Getúlio Macedo) # Ângela Maria. Disco Copacabana (5867-A) / Matriz (M-2117). Lançamento (março/1958).



Volta” (Djalma Ferreira/Luiz Bandeira) # Miltinho. Disco Victor (80-2320-A) / Matriz (M2CAB-1240). Gravação (10/3/1961) / Lançamento (abril/1961). [Segundo o pesquisador Samuel Machado Filho, Miltinho lançou essa música em 1960, no seu primeiro LP “Um novo astro”, na extinta Sideral].



Volta aos meus braços” (Jacira Costa) # Agnaldo Rayol. Disco Copacabana (6316-A) / Matriz (M-3125), 1961.



Volta por cima” (Paulo Vanzolini) # Noite Ilustrada. Disco Philips (P61187-1H). Lançamento (fevereiro/1963).



A volta” (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) # Os Vips. LP/1966.




Eu sei que vou te amar” (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) # Maysa. LP “Maysa é Maysa... é Maysa”. (RGE/1959).





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Agradecimentos especiais ao pesquisador Miguel Nirez Azevedo pela liberação do fonograma da composição: “Sou eu quem volta”.
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Fontes:
- Áudio SoundCloud: Laura Macedo.
- Fotomontagem: Laura Macedo.
- Projeto Disco de Cera / Arquivo Nirez.
- Site YouTube - Canais: “SenhorDaVoz”, “Gilberto Inácio Gonçalves”, “Canal de amigovelho1000”, “luciano hortencio”, “1000amigovelho”, “Pedro Salomao”, “Igor Tavile”, “N2010R”, “dalana2011”, “mariuspbful”, “Música de vinil”.
- Site #Radinha: Vários áudios.

NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*




Com a vitória no festival com “Arrastão”, o lançamento de seu primeiro disco e o sucesso de “Arena conta Zumbi”, Edu Lobo se tornou uma das estrelas da nova geração: foi contratado pela Record, ganhava salário, se apresentava de smoking em “O fino” e em outros programas musicais. A Record tinha contratos de exclusividade com praticamente todas as grandes estrelas da música brasileira, de todos os estilos e gerações. Quem não estava na Record não estava em lugar nenhum. Nos contratos, os artistas também assumiam o compromisso de se apresentar todo mês no “Show do dia 7”, que era o número do canal da Record em São Paulo. Todo o elenco, de todas as facções e gerações, era obrigado a participar, os camarins pegavam fogo. Mas, ao contrário de Elis, Nara Leão, a musa da oposição, se dava bem com o pessoal da “música jovem”.

No Rio, foi anunciado que Nara sairia do show “Opinião” e seria substituída por uma jovem cantora de 18 anos, que a própria Nara tinha conhecido e escolhido na Bahia. Naquela noite, na última semana de 1964, subi as escadas rolantes que não rolavam até o Teatro de Arena e me juntei à multidão para a reestréia de “Opinião”, o maior sucesso teatral do ano. Com os cabelos crespos puxados para trás e com as mesmas calças caqui e camisa masculina vermelha de Nara, com seu nariz adunco e suas mãos de dedos longos e expressivos, vi Maria Bethânia pela primeira vez. Como poucos, achei-a de estranha e misteriosa beleza, entre muitos que se espantaram com a dureza de seus traços. Sua voz grave e potente maravilhou a todos pela força e delicadeza, cantando as canções de João do Vale e de Zé Keti com vigor e emoção, e apresentando pela primeira vez uma bela música, a primeira que o Rio ouviu, de seu irmão Caetano Veloso.

“... mas a flor amada, é mais que a madrugada, e foi por ela que o galo cocorocou...” Maria Bethânia se tornou uma estrela da noite para o dia no Rio de Janeiro, no início de 1965. Tudo nela era diferente de todas as outras, muito diferente: voz, figura, gestos, sexualidade, sotaque baiano. Atitude. Voltei muitas vezes ao teatro para vê-la e ouvi-la e uma noite, levado por Dory Caymmi, troquei algumas palavras com ela no camarim, quando também fui apresentado a seu irmão, magro, tímido e delicado, que eu já admirava por “Boa palavra”, finalista do festival, e agora pelo cocorocar do galo. Caetano sorria com grande doçura e irradiava sensibilidade e inteligência.

Rapidamente Bethânia conquistou uma legião de fãs de todos os sexos. Como Jerry Adriani, um dos mais disputados galãs da “música jovem”, que passou a ir buscá-la todas as segundas-feiras na saída das “Noitadas de samba” que Thereza Aragão produzia no Teatro de Arena e Bethânia freqüentava. No Aero Willis vermelho de Jerry, eles passeavam pela cidade, comiam e bebiam, riam e conversavam, se abraçavam e se beijavam, quase namoravam. Nara estava cansada de carregar bandeiras e vocalizar protestos, estava cansada de dar opinião. O namoro com Ruy Guerra tinha terminado: Nara também não agüentava mais a falta de atenções e de romance, a dureza e o “espírito revolucionário”, e virou o jogo: começou a namorar o diplomata Zóza Medicis e uma noite, na porta da boate Zum Zum, em Copacabana, me contou feliz que estava encantada com alguém que a levava a bons restaurantes, abria a porta do carro, puxava a cadeira para ela, que a tratava como uma lady. “Pela primeira vez na vida”, disse rindo. Pouco depois Nara provocou espanto e comoção nas hostes oposicionistas da música brasileira.

Acusada pelos homens de alta (ou baixa) traição e invejada pelas mulheres, a musa começou um namoro com o “arquiinimigo” Jerry Adriani. Esse Jerry Adriani, hein? Jovens tardes de domingo Em São Paulo, a Record transmitia, de graça, jogos de futebol do campeonato paulista nas tardes de domingo. Considerava-os eventos públicos, não pagava nada e vivia às turras com a Federação Paulista e os clubes. Até que um mandado de segurança impediu a Record - que era da família do megacartola Paulo Machado de Carvalho, o “marechal da vitória” da Copa de 58 — de transmitir os jogos e o lucrativo horário nas tardes de domingo ficou vazio. Por pouquíssimo tempo. A emissora já vinha fazendo sucesso com “O fino”, com as novas estrelas da MPB, como Elis Regina, Jair Rodrigues e Wilson Simonal, e os musicais estavam na moda. Nada mais natural para a Record do que dobrar a parada, lançando um programa de “música jovem” e popular para competir com “O fino”. Uma idéia audaciosa da nova agência de publicidade de João Carlos Magaldi, Carlito Maia e Carlos Prosperi, que acompanhavam atenta e entusiasmadamente a revolução dos Beatles e do rock na Inglaterra e nos Estados Unidos, a vertiginosa transformação no comportamento dos jovens e sua crescente influência na sociedade e no mercado consumidor. E achavam que Roberto Carlos tinha carisma e potência para se tornar um superstar e que a hora era boa para dar aos jovens brasileiros a sua própria música, sua moda, sua dança e seus Beatles. O seu programa de televisão.

Para comandar a novidade, eles queriam um trio, Roberto, Erasmo e Celly Campello. O problema era que a primeira estrela da “música jovem” brasileira, depois de breves anos de fulgurante sucesso, no auge da popularidade, com 23 anos abandonou a vida artística para se casar e ir morar em Campinas. De nada adiantaram as propostas milionárias de Marcos Lázaro: Celly e seu marido eram irredutíveis. A escolha da companheira de Roberto e Erasmo seria entre Wanderléa ou Rosemary, uma lourinha muito bonitinha, uma bonequinha suburbana que cantava baladas italianas em português. Rose era mais bonita, mas Wanderléa, além de ótimas pernas e de dançar com muita graça, cantava músicas mais alegres, mais adequadas para animar um programa de auditório e foi a escolhida. Roberto, Erasmo e Wanderléa participaram de uma reunião com o pessoal da agência, a direção da Record e Marcos Lázaro, que negociava todas as contratações da emissora. Na primeira proposta da Record, a Roberto foi oferecido um salário de US $ 4 mil e a Erasmo e Wanderléa US$ 3 mil cada, mas ele exigiu que os salários fossem iguais, concordando em diminuir o seu. Como um gentleman, e um homem de negócios, Paulinho Machado de Carvalho aumentou os de Erasmo e Wanderlea para o mesmo de Roberto e os contratos foram assinados no ato, em clima de grande euforia e imensas esperanças. O programa iria ao ar às cinco da tarde de domingo, ao vivo, e se chamaria “Jovem guarda”, que era o título da coluna que o jovem Ricardo Amaral mantinha na Última Hora com grande sucesso, muito atrevimento e eventuais brigas e broncas com a brotolândia paulistana por seus comentários e indiscrições. Era a primeira coluna “jovem” da imprensa brasileira, uma invenção de Samuel Wainer, onde o futuro empresário Ricardo Amaral começava sua carreira como jornalista irreverente e lançava as novas gírias, personagens, lugares e modas.

A agência e a Record bancaram sozinhas os programas, até conseguirem convencer os primeiros anunciantes do fabuloso mercado que se abria com aquele canal direto com a juventude consumidora. Em pouco tempo, havia uma fila de patrocinadores e o programa se tornava muito mais rentável do que “O fino”. Os planos de Magaldi, Maia & Prosperi eram ambiciosos: transformar o pessoal da “música jovem” em ídolos nacionais, fabricar calças, camisas, chaveiros, bonecos, bonés, brinquedos e tudo o mais que pudesse ser comercializado com a marca “jovem guarda”, como Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli pensaram um dia em fazer com a bossa nova. Como nem Carlos Imperial tinha ousado sonhar. Roberto e Erasmo se mudaram para São Paulo e foram morar no Hotel Lord, no Largo do Arouche, e Wanderlea no Normandie, na Avenida São João, com a mãe e os irmãos, todo mundo por conta da Record.

Domingo ao meio-dia todos estavam na televisão para a reunião de produção e o ensaio. Com os cabelos crespos alisados em tentativas heróicas de imitar as franjinhas dos Beatles e vestidos com imitações de seus terninhos justos e gravatinhas finas, com os pés apertados em suas botinhas, Roberto e Erasmo esperaram nervosos a hora de entrar em cena. Quando a cortina abriu, uma explosão. Brancas, negras e orientais, ricas e pobres, feias e bonitas, as meninas que gritavam o tempo todo representavam a diversidade étnica e social de São Paulo, com garotas da sociedade paulistana lado a lado com as filhas de suas empregadas e dos operários das fábricas de seus pais, todas gritando por Erasmo, Roberto e Wanderléa e cantando junto com eles seus sucessos. E os de Wanderley Cardoso e Jerry Adriani, de Renato e seus Blue Caps, dos Vips, de Leno e Lilian e dos Golden Boys. 

O sucesso foi estrondoso e imediato, as lotações do teatro se vendiam com uma semana de antecedência. Na saída, as estrelas e os músicos tinham ampla escolha entre a múltipla oferta de admiração e carinho das fãs. Ou depois, na boate da moda, o Moustache, onde as menininhas da sociedade dançavam e flertavam ao som dos Beatles e de baladas italianas, onde os personagens da “Jovem guarda” de Ricardo Amaral encontravam os da “Jovem guarda” da TV Record. Dançavam, flertavam, conversavam e pouco mais do que isto: aqueles cabeludos cheios de colares e anéis e roupas esquisitas eram diferentes dos jovens bem vestidos e penteados que as acompanhavam, mas não entrariam em suas casas nem nos clubes que elas frequentavam, não sentariam em suas mesas.

As noites terminavam no Cave, reduto de músicos e da boêmia “profissional” e ponto de encontro do fim de noite paulistano, onde se dançava não ao som dos Beatles, mas de James Brown, onde as garotas de programa iam se divertir com os amigos e namorados depois do trabalho e o pessoal da “Jovem guarda” era muito bem recebido.  Mas o Hotel Lord não deixava os hóspedes subirem acompanhados. A clássica manobra via restaurante do segundo andar não funcionava, rigidamente policiada pelo hotel. Quem os salvava era a Baiana, simpática dona de um casarão de alta rotatividade na Rua Riachuelo, que alugava seus seis quartos para casais sem-cama, num tempo em que não existiam motéis. Na sala de visitas do térreo, ela instalou um bar onde sua clientela bebia e conversava enquanto esperava que vagasse um dos quartos do segundo andar. Cada quarto era decorado com cortinas, tapetes e móveis antigos e pesados, sedas e rendas finas, e as camas cheias de almofadas tinham dosséis, que faziam Roberto, Erasmo, Simonal, Jorge Ben e Tim Maia se sentirem no século XVIII. 

Com o sucesso do programa, dos discos e dos shows, o dinheiro começou a entrar, mas Erasmo não confiava em bancos nem em cheques: guardava tudo que ganhava em erva viva numa gaveta de seu quarto de hotel. Dois meses depois da estréia de “Jovem guarda”, comprou seu primeiro carro, um Volkswagen verde metálico, e pagou à vista. E em dinheiro. Roberto e Erasmo foram visitar um apartamento que estava para alugar na Avenida Paulista: morar no hotel estava ficando chato, era frio, impessoal e cheio de restrições, e a Baiana era uma alternativa salvadora, mas estava saindo muito cara. O apartamento era uma beleza, com uma grande sala envidraçada dando para o trânsito que enchia a Avenida Paulista, com o skyline de São Paulo ao fundo, os quartos eram ótimos, mas o aluguel assustou. Como o contrato do “Jovem guarda” era de seis meses e ninguém sabia o dia de amanhã, assinar um compromisso de um ano por aquela quantia seria uma responsabilidade que eles não poderiam assumir.

Logo depois Roberto mudou-se para um pequeno apartamento, com o amigo-secretário Luiz Carlos Ismail, e transformou um dos quartos em estúdio, de onde gravava um programa diário de uma hora para a rádio Jovem Pan, divulgando a “Jovem guarda”. Erasmo trocou o fusca por um Karman-Ghia, mas continuou morando no Lord. Três meses depois, alugou sua primeira casa, no Brooklyn, e chamou Jorge Ben para dividir o aluguel.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe , com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

CARLOS RENNÓ, 60 ANOS



Carlos Rennó é letrista de música. Seus primeiros parceiros mais importantes foram Tetê Espíndola e Arrigo Barnabé, na fase da vanguarda paulistana, no início dos anos 80. Na voz de Tetê, a sua “Escrito Nas Estrelas”, composta com Arnaldo Black, venceu o Festival dos Festivais, da Rede Globo, em 1985.

Desde o fim da década de 90, seu parceiro mais regular tem sido Lenine, com quem criou “Todas Elas Juntas Num Só Ser”, prêmio Tim de “Canção do Ano” em 2005. CR também tem músicas com Pedro Luís, Lokua Kanza, Chico César, Paulinho Moska, Zé Miguel Wisnik, João Bosco, Gilberto Gil e Rita Lee, entre dezenas de outros.

Parte do seu trabalho é voltada para a recriação de clássicos da canção norteamericana, como “Let´s Do It, Let´s Fall in Love”, de Cole Porter, vertida como “Façamos, Vamos Amar” e gravada por Chico Buarque e Elza Soares. CR já produziu dois CDs com versões suas nas vozes de grandes intérpretes brasileiros: “Cole Porter e George Gershwin – Canções, Versões” (produção musical de Rodolfo Stroeter) e “Nego” (Jaques Morelenbaum).



Uma outra porção de suas letras, de caráter engajado, é dedicada à temática sócio-ambiental, como atestam “Quede Água” e “Reis do Agronegócio”, compostas e lançadas respectivamente com Lenine e Chico César. Entre suas composições podem ser citadas também “Mar e Sol” e “Sexo e Luz” (com Lokua), gravadas por Gal Costa; “Fogo e Gasolina” (com Pedro Luiz), por Roberta Sá; e “Encantada” (versão de “Bewitched”, de Rodgers e Hart), por Maria Rita.

Tetê, Gal, Roberta, Lenine e Arrigo foram os artistas que mais gravaram canções com letras suas, figurando ainda, entre seus intérpretes, Chico César, João Bosco, Ney Matogrosso, Paulinho Moska, Maria Bethânia, Elba Ramalho, Zélia Duncan, Ná Ozzetti e Wilson Simoninha.

CR é organizador do livro “Gilberto Gil – Todas as Letras” (1996; 2003) e autor de “Cole Porter – Canções, Versões” (1991) e “O Voo das Palavras Cantadas” (2014), reunião dos seus textos sobre poesia de música popular publicados sobretudo na imprensa (ele também é jornalista, tendo trabalhado na “Folha de S.Paulo”, nos anos 80).

CR costuma dar palestras, cursos e oficinas de canção. Ele nasceu em São José dos Campos, SP, em 1956.


Fonte: Site oficial 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

HISTÓRIA E ESTÓRIAS DA MPB


Recentemente trouxe aqui mesmo para esta coluna o saudoso e insubstituível Orlando Silva procurando abordar um pouco sobre sua biografia no período que antecede o seu estrondoso sucesso. Como dito, Orlando que até então não tinha pretensões de se profissionalizar e cantava na garagem da empresa de ônibus a qual trabalhava, procurou seguir o conselho de um dos seus admiradores e foi fazer um teste na rádio Cajuti. Neste teste teve a oportunidade de conhecer o compositor e instrumentista Bororó que oportunizou-o a estar com Francisco Alves. Chico Viola por sua vez identificou naquele jovem um promissor cantor e resolveu o apadrinhar daquele momento em diante o que acabou oportunizando-o a participar dos mais distintos programas radiofônicos tornando-se uma estrela do mesmo quilate e patamar que o seu “padrinho”.

No entanto há quem diga que a primeira vez que empunhou um microfone tenha sido cantando “Mimi”, de autoria do mesmo Uriel Lourival que compôs a valsa “Céu Moreno” também interpretada por Orlando e registrada em disco e lançada somente em dezembro de 1935, ano em que sua carreira decola aos píncaros do sucesso e o cantor ganha do locutor Oduvaldo Cozzi o apelido de “o cantor das multidões”, por conta do magnetismo que exercia na quantidade cada vez maior de fãs que o acompanhava nos auditórios de rádios, em seus discos, assim como também em suas apresentações. Orlando tornou-se um fenômeno nacional em uma época em que tudo corroborava para o contrário (emissoras de alcance limitado, poucas vitrolas, estradas precárias ou inexistentes e a ausência de aviões). Nesta fase áurea chegou a gravar cerca de 72 discos de 78 r.p.m., compreendendo um total de 144 músicas.

Nesta melhor fase de sua carreira, a partir da RCA Vitor o artista gravou uma série de canções que viriam a se tornar clássicos da música popular brasileira com o passar dos anos. Orlando foi responsável pelo primeiro registro em disco de músicas como “Juramento Falso”, “Lábios que Beijei”, “Carinhoso”, “Rosa”, “Alegria”, “Nada Além”, “Errei… Erramos”, “A Jardineira”, “Número Um”, “A Primeira Vez”, “Curare”, “Preconceito”, “Aos Pés da Cruz” entre outras. Muitas dessas e outras canções trazem consigo histórias interessantes como é o caso da valsa “Neusa”, de autoria do pai de Sílvio Caldas, Antônio Caldas, em parceria com Celso Figueiredo. Antônio chegou a mostrá-la ao filho, mas Sílvio viu uma chance de o pai ter uma música de sucesso na voz de Orlando e abdicou de “Neusa”. Outra canção que merece destaque entre as curiosidades existentes em torno do intérprete é “Rosa”, composição dos saudosos Pixinguinha e de Otávio de Souza. Esta canção (labo B de um 78RPM que continha no lado A a valsa “Carinhoso”) era a favorita da mãe do intérprete, Dona Balbina. Após sua morte, em 1968, Orlando Silva jamais voltar a cantar pois alegava que as lágrimas não o deixariam.

Além dessas histórias há inúmeras outras de uma “época de ouro” que não volta mais. Quem um dia imaginaria que aquele rapaz “moreno demais” para os padrões artísticos da época, vestido com o uniforme de trocador de uma empresa de ônibus, calçado de alpercatas e coxo a bater nas portas de algumas emissoras em busca de uma oportunidade seria considerado em dado momento “o rei das multidões”? E foi assim, em uma carreira curta, mas rodeadas de excelentes sambas, sambas-canção, foxes e valsas escritas por alguns dos maiores compositores da época, que Orlando Silva tornou-se um ícone de nossa música popular brasileira e ainda hoje é reverenciado não apenas por saudosistas, mas por todos aqueles que amam a excelente música produzida no Brasil.

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Severino Araújo

sábado, 27 de fevereiro de 2016

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Jaquim Macedo Junior 



MÚSICAS DE PARTIDAS, CHEGADAS, ACALANTOS, TRILHAS DE VIDA – II

cnc


Aconchegante

Não há como voltar pro meu Recife sem lembrar e cantarolar “De Volta pro Aconchego”. É música trilha-sonora para quem não se agüenta mais de saudade. Última e única solução o aconchego, o abraço demorado e devido. É pra chorar, é para sorrir, é para amar.

Minha cunhada Isabel, mãe de Natalia e Daniel, que já está cantando essa música com o próprio Dominguinhos, lá no céu, não se cansava de me “surpreender” com sua voz bonita cantarolando a música que já esperava.


De Volta pro meu Aconchego, de Dominguinhos e Nando Cordel, interpretação de Elba Ramalho:



Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero
Um abraço para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
Que bom poder estar contigo de novo
Roçando teu corpo e beijando você
Pra mim tu és a estrela mais linda
Teus olhos me prendem, fascinam
A paz que eu gosto de ter.
É duro ficar sem você vez em quando,
Parece que falta um pedaço de mim.
Me alegro na hora de regressar,
Parece que vou mergulhar na felicidade sem fim

A MÚSICA BRASILEIRA QUE ESTÁ NO JAPÃO

Por Antônio Carlos Miguel






Essa pauta é inspirada num post da cantora e compositora Joyce Moreno no Facebook no qual comemora uma notícia que recebera do brasilianista Kepel Kimura: a Universal japonesa vai lançar em junho um grande pacote de música brasileira em CD, ao preço de U$10 a unidade. “Como me diz Kepel, sai mais barato do que comprar em MP3 e o som é muito melhor. Já dei uma olhada e é excelente. É por isso que eu amo o Japão", completa Joyce, que também compartilhou o link da loja Meurido com os 100 títulos, boa parte deles fora de catálogo no Brasil.

Há anos, Joyce e tantos outros artistas brasileiros (nos mais diferentes gêneros, do choro ao… heavy metal) têm visto como o mercado japonês resiste ao fim do disco. As lojas continuam de pé – até a Tower Records, que foi varrida do mapa em seus país natal, os EUA – e cheias de consumidores. Enquanto isso, às vésperas da Copa do Mundo, turistas que além de futebol gostam de música brasileira terão que penar muito para achar algo além dos óbvios e quase sempre descartáveis sucessos do momento. Aproveitando o mote, quatro pesquisadores/produtores responsáveis pelas principais séries de relançamentos de música brasileira, Carlos Alberto Sion, Charles Gavin, Marcelo Fróes e Rodrigo Faour, e também um executivo que passou pelas gravadoras multinacionais, Marcelo Castello Branco, comentam a notícia de Joyce e Kepel (que, além de conhecer tudo sobre música brasileira, toca zabumba num grupo de forró japa) e respondem a questões que receberam por email.

No Brasil, as multinacionais que sobraram (Sony, Universal e Warner) e também a Som Livre não têm uma política constante de reedição. Independentemente do valor cultural, ainda é viável comercialmente o investimento em acervo?

CARLOS SION: “As leis de publishing tão limitadas no Brasil impedem que certos discos clássicos da MPB estejam no mercado brasileiro. Porém, no Japão (ou na Europa), uma vez que o título tenha saído no formato antigo, seja 78 rotações, LP ou K7, eles lançam com autorização das editoras ou das sociedades autorais com sede no Japão. Já nos anos 1980, quando estive por lá em turnê com Antonio Carlos Jobim, nos surpreendemos com vários discos fora do mercado brasileiro editados pelas gravadoras instaladas no Japão”.

CHARLES GAVIN: “Todos os projetos que fiz foram rentáveis – oxigenaram os catálogos e recolocaram no mercado não somente discos, mas também composições que haviam caído no total esquecimento, o que proporcionou uma série de regravações feitas por gente de peso da MPB. Um exemplo: a série 'ODEON 100 anos', que produzi para a EMI, com 100 títulos. Vendeu muito bem – estava em 130 mil cópias vendidas quando recebi o último demonstrativo”.

MARCELO FRÓES: “Para o selo Discobertas, que não tem dezenas de funcionários, compensa fazer um projeto de baixa tiragem. Para as majors, infelizmente não. É prejuízo botar funcionário para trabalhar em projeto que não vá vender muito. Eles naturalmente acabam ocupando suas horas de trabalho com produtos mais rentáveis. Essa coisa de gravadora japonesa relançar música brasileira em larga escala não é de hoje, pra eles é interessante fazer mil unidades de 100 títulos. Por aqui, continuam focando em um produto que venda 100 mil unidades. A matemática é a mesma, mas infelizmente a diferença é que eles lá ainda possuem lojas de discos que absorvem esses 100 diferentes títulos. Aqui, os grandes magazines e os condomínios dos grandes shoppings inviabilizaram a vida do pequeno lojista nessa última década, mas a volta do vinil fez abrir novas lojas de disco para colecionadores e essas lojas já estão vendendo CD – mas o processo seletivo é grande: só vendem CD que interessam a colecionadores, pesquisadores etc., não é qualquer CD que encontra espaço. É preciso ter qualidade e inteligência numa reedição”.

MARCELO CASTELLO BRANCO: “O Japão é um planeta à parte, onde os extremos se desencontram, a modernidade e a tradição, a vanguarda e o conservadorismo. Pouca coisa é rentável. Voltar a falar do físico agora é nostalgia improdutiva.”

RODRIGO FAOUR: “Não sei quanto meus produtos venderam porque sempre ganhei por projeto e não por royalties, mas sei, por exemplo, que a caixa da Dolores Duran vendeu 1.500 unidades só nos primeiros três meses.”

No caso específico da Universal brasileira, num primeiro momento, a companhia parece optar por coletâneas, sem explorar o recentemente incorporado acervo da EMI. Como vocês encaram isso?

SION: “Ainda está em andamento todo o processo de análise dos acervos, uma vez que, juntas, as duas empresas somam um catálogo enorme. É necessário levantar os aspectos legais como direitos contratuais e autorais, de artistas, músicos, designers, fotógrafos; ter uma política mais efetiva em relação ao orçamento de marketing estratégico, assim como de diversificação de pontos de venda, o que torna o processo ainda mais lento. Há uma década, realizei para a EMI a caixa ‘Caymmi Amor e Amar’, com todo o acervo do artista na empresa, enquanto, na Universal, fizemos caixas de Chico Buarque, Elis Regina, Baden Powell, entre outros, todas com boa venda. Mas, nos últimos tempos, as questões legais têm emperrado muitos projetos. Se uma música tem três autores e um deles não tem herdeiro ou editora, a música tem que ser retirada do disco. É um absurdo! Poderíamos ter a opção de depósito em juízo ou direitos reservados no caso de surgirem herdeiros. Todo o acervo do mestre Pixinguinha na Sinter (selo da Universal) está parado por esse motivo, o que acho um crime cultural.”

GAVIN: “Eu espero que essa política se modifique – lá estão profissionais experientes, que sabem muito bem o que está em suas mãos. É bom relembrar que o catálogo da Universal Music reúne fonogramas das gravadoras Sinter, Companhia Brasileira de Discos (mais tarde Polygram, com os selos Philips, Polydor e Fontana), Elenco, Forma, Ariola (no Brasil) e agora EMI/Odeon e Copacabana. É o maior acervo da música brasileira do século 20 – requer uma gestão coerente com sua relevância cultural.”

FRÓES: “Como colecionador, sempre vi com preocupação as fusões. Desde quando a Warner comprou a Continental, passando pela compra da RGE pela Som Livre e a fusão de Sony e BMG. Agora é um novo capítulo, essas fusões limitam cada vez mais a exploração de catálogo.”

CASTELLO BRANCO: “Não sei qual é a estratégia e me parece prematuro comentar. É um mercado nervoso, de muitas prioridades simultâneas. Cobrar uma estratégia para o catálogo no formato físico me parece um retrocesso.”

Se o Japão é exceção como o último país do disco físico, a oferta digital de música brasileira também ainda é muito pequena. Seja no hegemônico iTunes ou em serviços por streaming, que começam a tomar conta do negócio (Spotify, Rdio, Deezer, etc.), o que predomina é o produto da vez. Quem procurar por catálogo (e estamos falando de mais de um século de música brasileira gravada) vai achar no YouTube (com qualidade nem sempre boa) ou junto a aficionados que trocam arquivos (algo que a indústria tacha de ilegal). Então, já que o mercado físico dá seus últimos suspiros, resiste em nichos (incluindo o do renascido vinil), por que as grandes gravadoras não negociam diretamente seus catálogos? Seja explorando os nichos de vinil, CD e DVD ou agindo digitalmente, vendendo download diretamente, criando "clubes da música" para download ou streaming.

SION: “Os formatos não importam enquanto não houver uma ‘nova ordem’ em relação aos publishings. Nunca vai faltar gente que goste de música, seja em seus computadores, tablets ou celulares, ou em CDs e LPs, e temos outros mercados a conquistar. Porém, é necessário ter algum conhecimento artístico e cultural além das planilhas de custos. Mas há uma banalização das áreas de marketing estratégico em algumas empresas, nas mãos de gerentes de vendas sem expertise.”

GAVIN: “É difícil saber os rumos que o mercado irá tomar. Acredito que o iTunes Brasil tem um papel decisivo nesse processo – a oferta de um discoteca não apenas básica, mas compatível com a importância da música brasileira. Sou otimista – acredito que, com vontade política, a gente consiga unir os interesses de gravadoras e sites de comercialização digital com os do público que quer conhecer e comprar discos e faixas de outros gêneros e de outras épocas da música brasileira. Espero que as gravadoras voltem a me receber na condição de colaborador porque, neste momento, nem meus emails elas respondem... Em relação à segunda parte da pergunta, neste momento, não há uma política que considere tais possibilidades numa escala maior nas grandes companhias. Mas é fato que pequenas ações têm sido realizadas. A Universal Music, por exemplo, tem licenciado alguns de seus títulos para a que a gravadora Deckdisk relance-os em vinil – um trabalho primoroso, medalha de ouro, certamente. O selo do pesquisador e produtor Marcelo Froes, Discobertas, também vem realizando um trabalho excepcional, revitalizando catálogos de vários selos e majors, relançando discos raros, absolutamente impossíveis de se conseguir antes (aplausos pra ele também). Mas isso é muito, muito pouco quando pensamos na grandiosidade e importância da produção artística da música brasileira desde quando começou a ser gravada. Quando consideramos este imenso, gigantesco patrimônio cultural do Brasil, caímos na real de que ainda há muito por fazer.

FRÓES: “O universo fonográfico brasileiro sob controle de gravadoras – grandes, médias ou pequenas – é muito maior do que qualquer oferta para streaming ou download dará conta. O volume é monstruoso. Desde a década de 1930, se produz anualmente milhares de produtos, que acumularam milhões de fonogramas. Acredito que só se digitalize o óbvio, aquilo que foi sucesso ou que, por algum motivo, saiu em CD. O resto, que eu chutaria 80% no pré-sal da música analógica, vai depender de projetos patrocinados ou coisa semelhante. As gravadoras jamais terão verba para bancar a coisa de uma forma total. Como eu disse, 80% do material produzido na era do analógico jamais chegou ao CD nas reedições dos anos 90 pra cá. A maior parte do que se fez entre os anos 30 e 80 está estocada em fitas guardadas em arquivos terceirizados.”

CASTELLO BRANCO: “Acredito que a tendência seja de mais streaming e rádio x download, cada vez mais conveniência. O catálogo brasileiro vai estar presente na medida de sua utilização, o metro quadrado virou espaço na nuvem congestionada. Esse serviço já existe e, a partir (e com a exceção) do iTunes, quase todas as outras plataformas digitais e serviços existentes têm as gravadoras como acionistas, além da sessão de conteúdo. Com três multinacionais dominando o mercado, nenhum serviço triunfa sem seus repertórios. Então, a proposta já é vigente e a tendência é essa (disponibilizar o máximo de conteúdo), mas com outros sócios de tecnologia e mercado financeiro. O custo pra rodar uma plataforma dessas é imenso! O Spotify acabou de fazer um acordo com a Sprint nos Estados Unidos para aumentar sua base de assinantes. Tudo parece simples, mas a realidade é bem mais complexa."

FAOUR: “Estou bastante cético em relação ao futuro das gravadoras. Não tenho trabalhado muito com elas porque o mercado está péssimo. Pouca coisa vende e infelizmente elas não têm tido estrutura (ou talento) para se reinventarem. Quase ninguém mais vai à loja de discos, mas à saída de um show caloroso muita gente compraria discos pela empolgação. Se houvesse um cadastro de fãs que realmente compram CDs, talvez se pudesse fazer um tipo de parceria com o consumidor, sei lá. Vivemos uma fase de transição de formatos na música bastante decepcionante. Existe pouca grana pra investir em música, seja em discos inéditos ou reedições, uma mídia viciada em standards do passado e porcarias atuais, e uma pirataria cada vez mais atuante para o bem e para o mal. A forma de ouvir música mudou, o valor do conceito ‘álbum’ mudou, os valores da sociedade mudaram também. Música hoje é um ‘detalhe’. Pra mim, o que eu aprendi que era música quando eu era pequeno não é a mesma coisa que as pessoas consideram ‘música’ hoje. É só ver a lista das 100 mais tocadas no ano passado. Antes, mal ou bem, havia espaço para o brega e o chique. Hoje só há espaço para o ultrabrega. A MPB e afins viraram underground na indústria cultural, apesar de ainda haver muita gente que goste de uma música popular, sim, popular, porém mais elaborada e menos superficial."

PS: A pauta também foi enviada nesta segunda-feira às citadas Som Livre, Sony, Universal e Warner, que ainda não se manifestaram. Elas poderão responder no sábado, já conhecendo as posições do quinteto que participou. Em relação aos discos que ilustram o texto, foram capturados no site japonês e estão entre os cem CDs brasileiros que sairão na Terra do Sol Nascente e da Música Perene.

COMPOSITORES UNIDOS

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

CANÇÕES DE XICO




HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 09


TANGO PRA ELA

Sempre me emocionou o namoro, o chamego, o amor entre o Sanfoneiro e seu Instrumento. Parece coisa de xodó o juntar a Sanfona ao peito, pertinho do coração, como que a abraçar a mulher amada. Certa vez conversando com Roberto Cruz, disse isso e desenvolvemos uma melodia para que pudesse retratar esse envolvimento tão terno e bonito. Saiu um xote, ritmo que achei não retrataria bem a situação. Preferia algo mais envolvente. Surgiu a idéia do Tango e é como se fosse uma declaração de amor do Sanfoneiro para sua Sanfona. A música está no nosso Forroboxote 5, ALMA SANFÔNICA. Na versão original, a interpretação de Gennaro, Sanfoneiro dos melhores.



TANGO PRA ELA
de Xico Bizerra

vou te levar em meus braços
em todos os passos que um dia eu fizer,
te carregar com carinho
por cada caminho que a vida me der,
vou desnudar meu poema,
te cantar o tema de minha paixão,
gozar de tua beleza,
tanger a tristeza do meu coração,

em teus acordes me deito,
feliz me deleito, cultivando sons,
és minha amiga primeira,
fiel companheira de todos os tons,
vou te manter bem juntinho,
fazer nosso ninho nas pautas do amor,
vamos ser o pão e o vinho,
a linha e o linho,
a pétala e a flor

PROGRAMA ENSAIO

É DA SUA NATUREZA (DECO FERREIRA)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*


"Gravação original do Conjunto Farroupilha, em 1953 (LP de dez polegadas "Gaúcho", selo Rádio). Este registro de Inezita Barroso, com suporte orquestral de Hervê Cordovil, foi lançado pela Copacabana por volta de setembro de 1961, no 78 rpm n.o 6283-A, matriz M-3021, aparecendo ainda no LP "Inezita Barroso interpreta danças gaúchas"." (Samuel Machado Filho)


Canção: Tatu

Composição: Barbosa Lessa e Paixão Côrtes

Intérprete - Inezita Barroso

Ano - 1961

Disco Copacabana - 6.283



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

ELBA RAMALHO NO DVD DO SHOW EM QUE REAFIRMA A GRANDEZA DE GONZAGÃO

Por José Teles




É empolgante a parceria de Elba Ramalho, SaGRAMA e do quarteto de cordas Encore, no DVD, e CD, Elba Ramalho em Cordas, Gonzaga e AFins (Natura Musical/Coqueiro Verde), gravado no Classic Hall, em setembro de 2014, uma celebração a Luiz Gonzaga. Porém ela vai além do mestre, trazendo para o universo do sertão nordestino, Zé Miguel Wisnik, mesclando seu Assum Branco comAssum Preto (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), O Ciúme, de Caetano Veloso, Gravitacional ,de Marcelo Jeneci, o Beradero de Chico César, com clássicos do inesgotável baú de Gonzagão.

São 25 faixas (16 no CD), algumas com mais de uma música, numa interação irretocável entre a cantora, o SaGRAMA, o Encore e convidados, e que ressalta a importância de Luiz Gonzaga. Lua é árvore cujas raízes espalharam-se pelo Norte, Centro Sul inteiro, chegando até a Antonio Brasileiro. De Tom, Elba trouxe, lá dos idos de 1983, o xote A Violeira (com Chico Buarque), que ela mesma lançou, com Djavan (na trilha de Para Viver um Grande Amor, MIguel Faria Jr.)

Elba Ramalho canta hoje tão bem, em certos aspectos melhor, do que em 1979, quando lançou Ave de Prata, álbum cujo aniversário de 35 anos também está embutido na homenagem deste trabalho. A voz alcança extensões que impressionam, quando, por exemplo, intepreta a Ave Maria Sertaneja(Julio Ricardo/O de Oliveira), parte de um pot-pourri com Ave Maria, texto de Newton Moreno, com trechos de Bach e Gnoud.

Um roteiro que supreende, saindo de um Tom e Chico para o retumbar poderoso das alfaias comandadas por Naná Vasconcelos, no que é talvez mais belo dos maracatus canção, Braia Dengosa(Zé Dantas). Mal o público se recupera, e entra o forró de Dominguinhos, com sonoridades de cordas que remontam ao que se convencionou chamar de armorial. A sanfona de Beto Hortiz solta nos baiões Sanfona Sentida (Anastácia/Dominguinhos), e Sete Meninas (Dominguinhos/Toinho Alves). Duas faixas que são o ponto alto de um espetáculo repleto deles.

Os outros convidados: Marcelo Jeneci, Aninha e Lulu Araújo. De músicos, o citado Beto Hortiz, Tostão Queiroga (bateria), Marcelo Caldi (sanfona), e Aristide Rosa (viola nordestina). A direção musical é de Margot Rodrigues, a direção do espetáculo de André Brasileiro. Com textos de Newton Moreno, o visual do show tem a mão de, entre outros, VJ Gabriel Furtado, o professor de cênicas Marcondes Lima e a Caravana TimeLapse, e a direção musical de Sergio Campelo e Cláudio Moura (ambos do Sa GRAMA).

Confiram áudio de Elba Ramalho, Sa GRAMA, Encore, com Marcelo Jeneci, em Gravitacional:


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

VÔTE... ESCUTA SÓ: PRIMEIRA SEMENTE

Zeto

José Antônio do Nascimento Filho ficou conhecido como Zeto, abreviatura do nome de batismo. Ao longo de sua trajetória artística também atendia por, Zeto Caboclo, Zeto Cantador, Zeto do Pajeú, e finalmente Zeto de Bia, referencia a companheira e mãe dos seus filhos. Bia Marinho, com a sua ancestralidade, seu caráter de mulher sertaneja, foi uma presença forte, na vida do cantador, violonista exímio, e declamador de privilegiada memória.

Zeto influenciou boa parte, senão todos, os músicos que tiveram a oportunidade de vê-lo cantar e declamar. Algumas vezes, vendo um artista no palco, identifico alguma coisa e digo pra mim mesmo. Zeto está aí, seja na batida do violão, no ato de declamar entre uma e outra música, na forma descontraída de comunicação com o público, enfim, até em alguns cacoetes, como soltar a mão esquerda do violão e enxugar o suor na calça.

Pouco tempo antes de Zeto partir, gravei algumas cenas de duas apresentações suas no Arcada Bistrô em Boa Viagem. A qualidade técnica não é boa, foram feitas em câmera analógica, e estão sem nenhum trabalho de restauração, nunca consegui alguém que fizesse isso com o profissionalismo que o documento merece, mas enfim, para tudo existe um tempo.

Esta Primeira Semente tem um Link para o Jornal da Besta Fubana, publicaremos em episódios, se possível semanais. Vamos acompanhar.

Dedico este trabalho para Graça Nascimento, poeta e irmã de Zeto.

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior

 
Ednardo - Do boi só se perde o berro (1976)

Existe uma crise de criatividade na musica popular brasileira? O assunto parece que já está esgotado de tanto que já se falou e escreveu sobre ele, contudo, é sempre bom retorná-lo e analisá-lo sob novos ângulos. Um deles é a avalanche de coletâneas que surgem a cada momento no mercado, todas com um único objetivo, levar ao público as musicas mais representativas de cada artista a preços acessíveis. Essa é uma estratégia de venda que sempre deu certo, pois desde os tempos dos LPs que ela existe, mesmo porque atinge um público menos exigente que não se preocupa em comprar permanentemente as novidades de seus compositores e intérpretes preferidos, são apreciadores de uma boa musica, e se contentam portanto em ter o melhor de seus artistas prediletos. Acontece que nos últimos anos a quantidade de coletâneas vem crescendo de maneira descontrolada repetindo em sua grande maioria o mesmo repertorio, já que o objetivo é privilegiar as canções mais conhecidas, e convenhamos, não são tantos artistas assim que podem se dar ao luxo de ter uma quantidade muito grande de sucessos que lhe permitam ter mais de um ou dois discos com o melhor de sua produção.

Mas se a profusão de coletâneas é uma realidade, de outro lado, verificamos que a grande maioria delas refere-se a artistas que tiveram o auge de suas carreiras na década de setenta e nos primeiros anos da década de oitenta. O repertorio na grande maioria desses discos são dessas épocas, o que me leva a crer que a crise de criatividade da musica brasileira é um fenômeno que se arrasta a pelo menos uns 15 anos já que os anos noventa com algumas exceções foram marcados por uma mediocridade que ainda permanece. A solução para muitos artistas consagrados foi partir para gravadoras pequenas e realizar projetos de elevada qualidade a fim de manter a coerência artística e a fidelidade de seu publico que se acostumou com um trabalho de alto nível e por isso mesmo tornou-se muito exigente. Felizmente vemos que a formula deu certo e apesar de grandes estrelas da nossa musica não venderem como antes, pelo menos mantiveram o nível de seus trabalhos num patamar que lhes garanta uma permanente renovação inclusive de publico, mesmo que em escala menor.

Ao tratarmos, portanto, sobre essas questões das coletâneas, podemos tirar algumas conclusões, e a primeira delas é que as grandes gravadoras perceberam que há sim uma crise de criatividade e o único jeito de ter um produto popular e de qualidade é partir para relançar antigos sucessos o que denota não um apelo nostálgico mas uma constatação dessa crise criativa a que nos referimos.

A outra opção de mercado é o relançamento de discos cujo sucesso de vendas não foi expressivo em sua época mas que são importantes e fundamentais para a musica popular, desse modo, o seu retorno ao mercado tem entre outros objetivos atingir um publico menor, mas que é cativo e ávido em adquirir seus discos preferidos.

Entre os discos que tive o prazer de ver relançado esta um LP do compositor cearense Ednardo, lançado em 1976 com o nome de Berro. Ednardo é um dos mais importantes artistas da geração nordeste que surgiu nos anos setenta, seu primeiro grande sucesso foi Pavão misterioso, trilha sonora da novela Saramandaia, da Rede Globo. Um dos integrantes do famoso grupo Pessoal do Ceará foi o que mais se destacou quando o conjunto se desfez. Em 1975 participou do Festival Abertura com a música Vaila e no seguinte lançou-a neste seu disco. Berro é um LP dos mais significativos entre os todos que foram lançados nesta fase inicial dos nordestinos porque revela um musico e um poeta de qualidades excepcionais. Em seu repertório encontramos canções notáveis que marcaram toda uma geração e que representam marcos definidores da trajetória do artista como também da efervescente transformação porque passava a musica nordestina resgatando seu folclore, suas tradições, fundada numa releitura moderna, extremamente criativa e bela. 

O titulo inicial da musica que da nome ao disco era Do boi só se perde o berro, mas esbarrou na censura e Ednardo teve que simplificá-la, alias suas composições volta e meia sofriam alterações por causa dos censores de plantão que na sua paranóia enxergavam subversão em tudo. As musicas Artigo 26, uma das mais conhecidas do disco e Padaria espiritual são uma homenagem a um movimento literário que marcou época no Ceará no final do século dezenove. Merecem ainda destaque, Abertura; Passeio público, o maracatu Longarinas; Classificaram e a já citada Vaila.

Ednardo é uma referencia da musica cearense e um dos mais importantes compositores brasileiros da notável safra dos anos setenta, realizando trilhas para cinema, teatro e televisão, tendo o amor e a tradição a seu berço uma constante em seus trabalhos.

Este seu LP o segundo de sua carreira nos remete a um tempo em que a criatividade era norma na musica popular brasileira e não apenas um referencial mercadológico nas prateleiras das lojas, por isso que é imprescindível ouvi-lo e admirá-lo sempre.


Músicas: 
01 - Berro (Ednardo)
02 - Artigo 26 (Ednardo)
03 - Franciscana (Ednardo - Roberto Aurélio)
04 - Passeio público (Ednardo)
05 - Longarinas (Ednardo)
06 - Abertura (Ednardo)
07 - Vaila (Ednardo - Brandão)
08 - Classificaram (Ednardo - Brandão)
09 - Padaria espiritual (Ednardo)
10 - Sonidos (Ednardo)
11 - Estaca zero (Ednardo - Climério)


Ficha Técnica:
Produtor fonográfico: R.C.A. Victor
Direção artística: Osmar Zan
Coordenação artística: Marcelo Duran
Produção: Antonio de Vicenzo
Arranjos: Ednardo/Mario Henrique Hareton Salvanine/Cirino/Mario Henrique
Técnicos de som: Edgardo Rapetti/Stelio Carlini/Walter Lima
Técnico de mixagem: Edgardo Rapetti
Corte: Jose Oswaldo Martins
Foto: Mario Luiz Thompson

ACABOU O CHORARE: NOVOS BAIANOS VOLTAM AOS PALCOS APÓS HIATO DE 16 ANOS

Artistas se reuniram pela última vez em 1999




Novos Baianos no filme 'Filhos de João - Admirável Mundo Novo Baiano', do diretor Henrique Dantas


Após 16 anos, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Jorginho Gomes e Dadi Carvalho subirão ao palco, juntos, tinindo trincando para mais um show histórico dos Novos Baianos. O autor da façanha é o caso deles, Pedro Baby, filho de Pepeu e Baby, que se lança em carreira solo e vai dar esse presente aos fãs. A data da apresentação ainda não foi divulgada.

Na última edição do Rock in Rio, Pedro conseguiu reunir os pais em uma apresentação e despertou neles o desejo de participar do processo de iniciação musical do filho, que lança o Pedro Baby Vol. 1, seu primeiro álbum autoral. "Meus pais se sentiram na obrigação de participar e retribuir o que fiz por eles. Os ganhos musicais da reunião no Rock in Rio foram enormes, mas o maior ganho foi o familiar", disse o músico em entrevista à Epoca.

Novos Baianos foi uma banda que, como o próprio nome sugere, nasceu na Bahia e conquistou seu auge na década de 1970. Cruzando bossa nova, frevo, baião, afoxé e rock'n roll eles revolucionaram o cenário musical do país diretamente influenciados pelo movimento de contracultura e da tropicália. Seu segundo disco, Acabou Chorare, foi eleito pela revista Rolling Stone como o melhor disco da história da música brasileira, em 2007.


Fonte: Diário de Pernambuco

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*




A canção existe na experiência de todo humano. Isso revela sua força e poder de disseminação, tanto pelo modo simples (natural) e fundamental (determinação cultural) de se apresentar no mundo, quanto pela capacidade sofisticada (porque individual em sua produção de sentido) de dizer da unicidade de quem canta (o cantor) e de quem é cantado (o ouvinte).

"Há sempre uma canção para contar / aquela velha história de um desejo / que todas as canções tem pra contar", diz o sujeito de "Fotografia", de Antonio Carlos Jobim. Escaninhos do desejo, a canção - do canto de mitos ao canto mediatizado e comercial - equilibra texto, música e performance em tempo e espaço simultâneos. Sempre no presente (atualizado) à simpatia do corpo irradiado do ouvinte. "As canções / só são canções / quando não são / promessas", diz o sujeito de "Nossa canção", de Zé Miguel Wisnik e Muro Aguiar.

"De onde vem a canção / Quando se materializa / No instante que se encanta", versos da canção "De onde vem a canção", de Lenine, diz com precisão o espanto diante do instante mágico da canção: quando aquelas palavras parecem ter sido feitas para serem cantadas daquele modo.

Todo o trabalho de acomodação, adequação e equilíbrio entre as dimensões da canção (texto, música e voz) feito pelo cancionista visa alcançar a eficácia da canção: o encanto, o mergulho no mar sonoro das sereias, a dança da história do desejo. E é no conjunto operatório que tudo isso se realiza. Mas é na voz que se transmuta em prisma.

Basicamente, se a palavra escrita diz coisas de um modo que a música não pode fazer, a música, por sua vez, tende a exprimir as emoções daquilo que é dito. Mas nada é tão genérico assim. É na performance vocal que as dimensões se afetam mutuamente.

Isso foi historicamente rejeitado pela análise acadêmica de canção que sempre privilegiou o texto. O que é facilmente compreensível já que ainda persiste a ideia de que aquilo que não pode ser isolado (e a palavra escrita pode, e as notas musicais em partitura também) não serve à análise e à transmissão. "No texto está a verdade, a realidade", dizem alguns.

Só na performance vocal é que o logos efetivamente sai pela boca (depois de atravessar o corpo do cantor) e entra pelo ouvido (para atravessar o corpo do ouvinte). Aqui reside a fisicalidade, a concretude da canção. É este logos vocalizado, promovedor de outros e novos sensos e pulsões, o que assusta a certa crítica.

As ações e emoções que teremos diante de cada gesto de cantar e de cada escuta dependem do instante-já cancional. É assim que uma mesma canção pode ganhar sonoridades e práticas diversas quando performatizadas por cantores distintos. É assim também que uma mesma canção, cantada por um mesmo cantor, ganha novos sentidos quando confrontada com momentos temporais diversos.

Não podemos, deste modo, negar o treinamento e os estilos vocais diversos. Muito menos a relação que cada cantor tem com equipamentos e tecnologias. Tudo age sobre a performance e, consequentemente, sobre a recepção e a produção de sentido.

Quando o sujeito da canção "Eu não existo sem você", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, diz que "a canção só tem razão se se cantar" está sintetizando as questões que tratamos aqui. Cantadas por Elizeth Cardoso (Canção do amor demais, 1958) tais palavras tem um sentido. Gravada por Rosa Passos (Rosa, 2006), a canção percorre outros caminhos.

Enquanto Elizeth investe na figurativização e concretude de um sujeito que não se concebe longe do outro, através de alongamentos vocálicos, textura passional e envolvimento somático, a performance vocal de Rosa Passos, mais cool, cheia de economias de vogais e de elegância parece contrastar com aquilo que é dito.

Dito de outro modo, há em "Eu não existo sem você" uma angústia intrínseca irrefreável: "todo grande amor só é bem grande se for triste", diz o sujeito. O título da canção aponta para isso. Aqui, o sujeito é exagerado em sua entrega e na afirmação da dependência afetiva. "Eu nunca mais vou respirar / se você não me notar", parece dizer. Ou "Porque é que tem que ser assim? / Se o meu desejo não tem fim".

O desejo. Eis a diferença entre a performance de Elizeth e a de Rosa. Com mil rosas roubadas, a primeira sente e diz: "Eu não existo longe de você / E a solidão é o meu pior castigo". A segunda investe na recriação técnica e estrutural do modo de cantar a canção: mais contido, sem bandeiras.

Elizeth canta em uníssono com a tristeza do sujeito que ela performatiza. Rosa canta lúcida de cada palavra, cada gesto. Não há uma versão melhor, muito menos pior, do que a outra. Há diferenças, intenções, motivos, caminhos que promovem a ponte entre o cantor e o ouvinte. E nada nesse mundo levará um do outro. Um existe no outro. Afinal, "viver sem ter amor não é viver" e toda forma de amar (e cantar o amor) vale a pena.


***
Eu não existo sem você
(Antônio Carlos Jobim / Vinícius de Moraes)

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você



* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

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