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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*




No Rio, no mega festival Hollywood Rock, cheio de estrelas internacionais, os Titãs abrem para os Pretenders na Praça da Apoteose superlotada e arrebentam, levando o público ao delírio. A histórica performance é reconhecida como a melhor de todo o festival, incluindo os estrangeiros. O velho sonho roqueiro brasileiro finalmente se realizava. Alberico Campana, dono da Churrascaria Plataforma, que conheci como garçom no Beco das Garrafas, me convidou para ser seu sócio em uma casa noturna no Leblon. Chamei Dom Pepe para a sociedade e abrimos os trabalhos do African Bar. Os shows de Marisa davam muita alegria e orgulho mas, como previsto, quase nenhum dinheiro. O espaço de Alberico era ótimo, um chalé normando de dois andares na Rua Venâncio Flores, onde funcionavam um bar e um restaurante francês. Virou um chalé afro-normando: pintamos a fachada de caqui, enchemos a calçada de palmeiras e bananeiras e na entrada colocamos um toldo de onça. O piano-bar foi feito todo de bambu, com sofás e cadeiras de onça e zebra e plantas tropicais por toda parte. O segundo andar era só um bar e uma pista de dança cercada de plantas, com três percussionistas tocando ao vivo junto com os torpedos negros que Dom Pepe detonava nas caixas.

No piano-bar realizei um sonho de juventude, que começou! quando o ouvi pela primeira vez num distante show de bossa nova na Faculdade de Arquitetura: trouxe Johnny Alf de São Paulo, para tocar piano e cantar todas as noites no African Bar. Os pedidos de convites para a inauguração foram tantos que a festa de abertura se desdobrou em duas de 500 convidados cada, quase enlouquecendo a nossa promoter Liége Monteiro. E mesmo assim muita gente reclamou de só receber convite para a segunda noite. Em São Paulo, no final de março, Marisa fez duas temporadas de quatro dias na danceteria Aeroanta, templo do rock paulistano, e no prestigioso e erudito auditório do Museu de Arte Moderna. No Aeroanta fez um show mais “dançante”, só com as músicas mais animadas, o “Aeroshow”. No MASP, os 800 lugares e os corredores superlotaram todas as noites, o show “Cantando na avenida” foi aplaudido de pé. Como uma provocação, incluímos no show paulista uma música do megabrega Waldick Soriano, a hilariante “Amor de Vênus”, com Marisa cantando em clima de chanchada tropical. O público se divertiu, o mundo musical sentiu um frisson, os jornais engasgaram para definir a nova cantora, que ia de Phillip Glass a Waldick Soriano, de Tim Maia a Kurt Weill. Mas eram unânimes — com a exceção do bad boy Luis Antonio Giron — em reconhecer o seu talento e originalidade. Giron disse que Marisa era um blefe, uma enganação, uma “miragem”. 

Parecia um filme. Estávamos cada vez mais integrados pela música e felizes com o sucesso, juntos dia e noite ouvindo e falando da música e da vida. E como acontece freqüentemente nesses cenários, a sintonia fina começa a misturar as estações. Eu já não sabia mais onde terminava a paixão avassaladora pela artista que estava se formando diante de meus olhos e ouvidos e onde começava o afeto por aquela garota bonita, educada e amorosa, que me lembrava tanto de mim mesmo aos 20 anos. Não sabíamos direito o que era aquilo, só sabíamos que estava bom, que estava cada vez melhor. Voltamos correndo para o Rio, no dia seguinte do último show paulista, para as festas de estréia do African Bar. A promoção de Liége foi eficientíssima e o sucesso instantâneo. Funcionou a combinação dois em um. Um piano bar cool, com um maravilhoso cantor intimista, num ambiente aconchegante. Um segundo andar tremendo com as bombas rítmicas das novas bandas internacionais, dos africanos King Sunny Adé, Touré Kundá e Feia Kuti, e dos baianos Olodum, Ilê Ayê e Araketu, reforçados pela percussão ao vivo. As noites cariocas estavam conhecendo o samba reggae, o futuro axé, e gostando.

O filme continua com Marisa, em Belo Horizonte, no Cabaré Mineiro, com mais de 700 pessoas lotando a casa nas três noites e o show tratado pelos jornais como um grande evento. Comemorando o triunfo mineiro e discutindo o próximo show, conversamos sobre aquela noite no Jazzmania. E falei a ela do que tinha ouvido e sentido. Mas para minha surpresa, ela tinha ouvido e vivido o show de forma muito diferente. Em sua memória musical, ela estava nervosa no início e não chegou a cantar bem, mas também não cantou mal, e nunca semitonou nem atravessou ritmos. Ela tinha certeza. Eu também, não de como foi, mas de como ouvi. Ninguém queria convencer ninguém, nem ela nem eu queríamos nos enganar. Ela não tinha problemas com críticas, ouvia todas, sempre, gostava de ser criticada, tinha boa autocrítica, queria melhorar. Não seria nenhum problema ter mesmo começado mal para crescer e triunfar no final. Mas para ela não foi assim.

Para mim, talvez traído pela emoção (ou pela literatura), foi muito diferente, porque o que vi e ouvi sem dúvida melhorava a história, acrescentando surpresa, angústia e suspense. Melhorava o filme. De volta ao Rio, começamos a preparar um passo decisivo: uma pequena temporada de verão no Teatro Ipanema, por onde tinham passado, sem exceção, todos os grandes nomes da nova música brasileira. Era quase obrigatório, uma prova de fogo, um batismo artístico. O show foi um pouquinho diferente do de São Paulo, com o repertório ainda mais provocativo. E superlotou, muitos artistas, especialmente cantoras, foram assistir, e a maior delas, Gal Costa, achou Marisa linda e talentosa e adorou o show. Em seguida me convidou para dirigir seu show internacional e viajar com ela para Buenos Aires, Lisboa, Nova York, Tóquio e mais 12 cidades do Japão. A pedidos, Marisa voltou a São Paulo para uma temporada de duas semanas no Teatro de Cultura Artística, superlotando os 1.500 lugares todas as noites, tratada como uma nova diva pela imprensa. Em Nova York, em maio de 1988, fui o curador da parte musical de um ambicioso e bem-sucedido festival de artes brasileiras produzido por Carmen Elisa Madlener com o nome de “Brazil Project 88”: uma mostra de Arquitetura, Artes Plásticas (com grande destaque para Hélio Oiticica) e Cinema. De música, foram três shows no Town Hall Theater, com Caetano Veloso, João Bosco e João Gilberto.

Pela primeira vez em Nova York, Marisa assistiu João Gilberto ao vivo pela primeira vez, na primeira fila. Cazuza também, muito doente, vindo de uma temporada de tratamento em Boston. No show, João impecável, com seus clássicos de sempre, sempre novos, e uma interpretação de “You Do Something To Me” que faria a alegria de Cole Porter. No dia seguinte ao concerto de João, Caetano me contou que Chet Baker tinha morrido. Tinha caído (ou se jogado) da janela de seu hotel em Amsterdam. Comovido, saí pelos sebos do Village procurando o histórico Chet Baker Sings, de 1956, para substituir o meu já gasto e arranhado original, um dos discos mais bonitos e influentes da história do jazz e da música brasileira. Com o coração pulando e sem discutir preço, arrematei um novo em folha, uma reedição feita por um pequeno selo de Barcelona, provavelmente pirata. No Rio, o African Bar fervia, Boni e sua mulher Lu tinham uma mesa cativa ao lado do piano de Johnny Alf. Ao som de suas canções, começou um sensacional romance entre a balzaquiana Vera Fischer e o jovem Felipe Camargo, que interpretavam justamente Édipo e Jocasta na novela “Mandala” da TV Globo. Com bem-vinda freqüência, Vera, lindíssima, incendiava o bar e a pista. Noite a noite o African se tornava o point do momento na Zona Sul, cheio de artistas e de meninas e meninos bonitos e ótima música. Para desespero dos moradores da pacata rua do fim do Leblon, que viram sua tranqüilidade invadida por filas de carros e buzinas, interrompendo o trânsito até a Lagoa nos fins de semana. E com o sucesso crescente, praticamente todas as noites.

A Associação de Moradores começou a reclamar. Fizemos obras de reforço do isolamento acústico, o som não saía da casa mas, mesmo com uma brigada de manobreiros, era impossível evitar gritarias e buzinadas na porta. E pior: Alberico não tinha um alvará de funcionamento para casa noturna, ele tinha herdado a licença do antigo restaurante, que não permitia música ao vivo nem dança. E pior do que tudo: o zoneamento proibia expressamente casas noturnas naquela rua. Rua! Não havia nada a fazer, eles tinham toda a razão, sorry. Depois de quatro meses escaldantes, o African Bar fechava para sempre, deixando uma marca de alegria e novidade na noite carioca. Com Marisa, começamos a planejar o próximo passo, um vôo mais alto, inédito na praça: um show para ser transformado em um especial de TV — antes mesmo do lançamento de seu primeiro disco, que seria exatamente a trilha sonora do especial, contrariando o tabu discográfico de estrear com um disco ao vivo. Aceitamos a proposta da EMI, que estava disposta a investir no especial de TV e garantia liberdade criativa e controle do marketing. E, como nós, não tinha pressa: era para lançar quando estivesse pronto. Parecia a ideal para fazer o que tinha que ser feito. Marisa seria a primeira artista brasileira a ter um show de uma hora exibido em rede nacional de TV e um home-video, sem ter um disco.

Dirigido por mim e por Walter Salles e produzido por Lula Buarque de Hollanda, o especial seria feito em cinema, com fotografia de José Roberto Eliezer e gravado ao vivo pela EMI, em três noites, no Teatro Villa-Lobos, em Copacabana. Depois de um mês entre o Japão e os Estados Unidos com Gal, voltei ao Brasil e começamos a ensaiar o show de Marisa. O projeto artístico crescia muito mais rápido e mais intenso do que se sonhara, mas a escalada de Marisa acabou provocando em mim uma reação inesperada e desastrosa quando “o ciúme lançou sua flecha preta”, como dizia a nova canção de Caetano que Gal cantava no show internacional. E pior, em dobro. Ciúme de uma bela garota de 21 anos e do que eu via como minha criatura artística devorada pelo público. Pigmalião de Ipanema torna-se um otelo branco e perversamente usa sua imaginação para ser seu próprio iago. Sua mente conturbada vê em cada espectador que a aplaude um potencial pretendente e concorrente. Mas afinal, era tudo que eu queria, que Marisa fosse admirada, respeitada, amada e desejada, todo o meu esforço tinha sido para isso. Tinha construído minha própria armadilha e entrado nela e agora não sabia como sair. Marisa nem imaginava essas fantasias paranóicas que me torturavam, mas não deixou de perceber que as coisas estavam mudando entre nós.

Cada vez mais seguro da direção do projeto artístico, eu me sentia cada vez mais inseguro no plano pessoal, porque era experiente o bastante para saber que não havia futuro para nós, juntos. O que me provocava secreto sofrimento, porque sabia que quanto mais tarde fosse, mais doloroso seria, pelo menos para mim. Mas ninguém precisava saber disso. Para Marisa, todos os caminhos estavam abertos e claros, às vésperas de fazer seu primeiro especial de televisão e seu primeiro disco ao vivo, de sua primeira turnê nacional, iniciando uma brilhante carreira profissional onde tudo era novidade e excitação. Eu queria dirigir outros shows, produzir discos, escrever um livro sobre Glauber Rocha, conviver com amigos de minha geração, mas estava totalmente dedicado a Marisa. E quanto mais ela crescesse, mais envolvido eu estaria. E sem que ela tivesse qualquer responsabilidade nisso, mais ciúmes eu teria de todo mundo, pior seria o convívio, o choque de gerações seria insuperável. Os shows do Villa-Lobos foram os melhores que Marisa já tinha feito, segura e vigorosa, amadurecida mas mantendo o frescor e espontaneidade da sua juventude. Com direção musical do maestro Eduardo Souto Neto, com Letícia Monte, Suzana Ribeiro e Joana Motta nos backing-vocals, o show teve até um quarteto de cordas, que acompanhou Marisa e o grupo de jazz paulista Nouvelle Cuisine numa versão clássica de “Bess, You Is My Woman Now”, da ópera Porgy and Bess, de Gershwin. E a participação especial de um sensacional garoto de 19 anos, Ed Motta, sobrinho de Tim Maia, cantando com ela “These Are The Songs”, recriando o dueto de Tim e Elis em 1970.

Waltinho filmou dois shows inteiros com três câmeras de cinema e depois do último espetáculo ainda entrou pela madrugada fazendo novos takes mais trabalhados no palco, com gruas e carrinhos. Os músicos odiaram, mas Marisa resistiu estoicamente e ainda estava filmando quando o sol já estava nascendo. Rigoroso e perfeccionista, Waltinho fazia todos os takes que precisava, enquanto eu jazia num canto, depois das emoções daquele que era para mim, sem que ninguém soubesse, o último show de Marisa. Nos estúdios da EMI, em Botafogo, iniciamos os longos e penosos trabalhos de regravação de instrumentos, mixagem e edição necessários para um vôo tão alto como o primeiro disco ao vivo de um artista. Como em qualquer disco “ao vivo”, regravamos muitos instrumentos, acrescentamos mais percussão, refizemos os backing-vocals com Marisa cantando junto com as meninas. Mas ao contrário de todos os discos “ao vivo”, não mexemos na voz de Marisa, que ficou exatamente a que foi gravada, como uma cantora lírica, ao vivo no palco. Ao mesmo tempo, Waltinho editava na Tycoon, em Jacarepaguá, o especial de televisão. O diretorartístico da TV Manchete, Jayme Monjardim, impressionado com a qualidade artística e técnica — nunca um artista brasileiro teve um especial feito em cinema —, programou-o como uma das estrelas do fim de ano da emissora. 

Uma artista que sequer tinha um disco, que nunca tinha tocado em rádio nem na televisão, cantando covers e versões. Nunca tivemos nenhuma briga nem desentendimento artístico, nem pessoal, até o desencontro final. Tudo terminou bem, dentro das circunstâncias, embora eu me sentisse arrasado pela dupla perda. Marisa começou a namorar o vocalista Nasi, do grupo de rock paulista Ira! (que não tinha nada de nazista, era brizolista roxo), e eu a atriz ítala Nandi, uma das estrelas do Teatro Oficina, minha amiga desde O rei da vela, em 1968. ítala foi um anjo, mas eu não conseguia pensar em outra coisa que não naquele canto de sereia que eu ajudara a amplificar. Me assustei com o tamanho da encrenca, absolutamente desproporcional ao que seria (mais) um rompimento em minha história de muitos. Mas ninguém precisava saber disso, a não ser os amigos muito íntimos, o analista lacaniano cada vez mais entendiado com a repetição obsessiva do “drama da impossibilidade”, e João Gilberto, em longos e diários telefonemas. Estimulado por João, depois de mais de 15 anos sem pegar no violão, voltei a tocar, passava horas em casa tocando, repetindo músicas como mantras. O exercício de repetir infinitas vezes pequenas células rítmicas e harmônicas, por mais simples que sejam, exige atenção total, qualquer vôo do pensamento conduz ao erro e ao reinício, como os mantras. A disciplina e a concentração levam ao vazio, à paz, à serenidade, a um vazio pleno, como o dos mestres zen. Ou baianos.

Os velhos amigos Nara Leão e Roberto Menescal me procuraram para que fizesse letras em português para grandes músicas românticas americanas, para o novo disco de Nara que Menescal estava produzindo. Eram músicas que nós todos amávamos desde sempre, como “Night and Day”, “Summertime”, “My Foolish Heart”, “Love Letters”, clássicos de Cole Porter, Gershwin, Johnny Mercer. Todos os dias, às nove da manhã, passei a me encontrar com eles no apartamento de Nara, que continuava na Avenida Atlântica, mas agora era no Leme. Há vários anos Nara vinha lutando contra sérios problemas de saúde, entre médicos e médiuns, e me pareceu frágil mas bem-disposta, alegre como sempre. Cantando cada vez melhor com seu fio de voz, tocando um violão eficientíssimo, transformando em bossa nova gilbertiana os clássicos americanos, tudo com o maior bom gosto e discrição. Deliciado, eu ouvia Nara e me lembrava das primeiras vezes que a vi, quando ela cantava muito mal mas se tornou um de meus primeiros ídolos, quando entrei com o coração aos pulos no “apartamento de Nara” pela primeira vez, quando ela gravou minhas primeiras músicas, quando nos divertíamos gozando os roqueiros de Carlos Imperial. Nara estava animada com o disco e harmonizada com a vida. Até chamou Ronaldo Bôscoli, seu ex-namorado e depois arquiinimigo por décadas, para fazer algumas letras. E ele fez.

Com Roberto Menescal, meu ex-professor de violão, voltei a aprender, tocando as suas harmonias dissonantes e bossa-novistas para as canções do novo disco. Aprendia, voltava para casa e tocava o dia inteiro, voltava no tempo, fazia as letras. E às vezes sofria com as histórias de amor que escrevia e com a sensação de que seria o último disco de Nara. Fui a São Paulo fazer um programa de televisão e aproveitei para almoçar com Rita Lee. Ela estava em casa com os filhos, separada de Roberto e muito triste, num estado parecido com o meu. Trocamos confidências como velhos amigos e começamos a fazer uma música juntos: “Foge de mim, mas deixa teu endereço, em cada fim, há sempre um começo e um novo sim...” De volta ao Rio, liguei para Tim Maia, sobre quem eu e Rita tínhamos falado muito e dado boas gargalhadas, comentando a entrevista dele para Veja, em que disse sua frase imortal: “Não fumo, não bebo e não cheiro, mas às vezes minto um pouquinho.” Disse para ele dar um alô para ela, que estava muito sozinha e gostava muito dele.

Ele ligou e, mal ela atendeu, soltou o vozeirão em ritmo vertiginoso: “Olha aqui, ô Rita Lee, eu já agüentei cinco anos de ‘Administração Arnaldo Baptista’, dez anos de ‘Administração Roberto de Carvalho’ e estou te ligando pra dizer que...” Fez uma pausa e berrou no telefone:
“I LOVE YOU!!!!!!!” O programa de televisão de Marisa atraiu muita atenção, por ser uma artista nova aparecendo nacionalmente antes mesmo de ter um disco, pelas reações de entusiasmo da imprensa, pela novidade e pela qualidade. Teve audiência razoável e críticas maravilhosas no Brasil inteiro. Assisti sozinho em casa, alguns dias antes do Natal, amei e odiei. Para nossa sorte, Marina Lima mostrou “Bem que se quis” para sua amiga Lúcia Veríssimo, que estava gravando a nova novela da TV Globo, “O salvador da pátria”, e se apaixonou pela canção. E implorou ao diretor Paulo Ubiratan que a música fosse o tema de seu personagem.

Com a novela no ar e a canção pontuando todas as muitas cenas de amor, em poucos dias tínhamos um sucesso nacional, um big hit de uma nova artista. E como todo hit, a música me perseguia por toda parte, andando no calçadão, nos bares, nos carros, onde houvesse um rádio. Era uma tortura e uma felicidade ao mesmo tempo, era impossível fugir da música ou recusar o sucesso. “Agora vem pra perto, vem vem depressa, vem sem fim dentro de mim, que eu quero sentir o teu corpo pesando sobre o meu, vem meu amor, vem pra mim, me abraça devagar, me beija e me faz esquecer.” O Brasil inteiro ouviu Marisa cantando aquela letra que escrevi para uma canção napolitana a pedido de uma cantora portuguesa, que jamais imaginei que pudesse ser um sucesso popular. “Bem que se quis” abriu o caminho e o Lp de Marisa recebeu pedidos gigantescos das lojas para lançamento em janeiro, contrariando todas as certezas da indústria do disco, que considera o mês como o pior do mercado, garantia de fracasso.

Às vésperas do Natal, vendo as retrospectivas do ano nos jornais e revistas, e em todas Marisa como a grande revelação e o African Bar como a melhor casa noturna, a melancolia natural do período de “festas” somou-se à sensação de perda e abandono. Numa hora em que tinha tudo para estar feliz e realizado. Pagava por meus desejos, sofria por minhas memórias, me perguntava sobre a precariedade das impressões e dos julgamentos. Voltava à primeira noite de Marisa no Jazzmania e me perguntava se teria mesmo sido tão linda a música que ouvi na “Noite do amor, do sorriso e da flor” no anfiteatro da Faculdade de Arquitetura, se teriam mesmo sido tão dramáticos os shows de Rita Lee no Rock in Rio, de
Roberto Carlos em Cachoeiro, de João Gilberto em Roma, de Elis em Montreux. Se eram mesmo tão divertidas as músicas de Carlos Imperial e Wilson Simonal, se era tão forte a paixão dos 20 anos que me fez ouvir muito melhor o Tamba Trio e o Bossa Rio de Sérgio Mendes, gostar mais das letras de Ronaldo Bôscoli, da voz de Nara. Se meu amor fazia as pessoas mais musicais aos meus ouvidos, se meu amor pela música as fazia mais queridas ao meu coração... quando o telefone tocou.

Era João Gilberto, me convidando a visitá-lo em seu apartamento no alto do prédio do Rio Design Center, no Leblon. À noite, cheguei na hora marcada mas, antes que eu tocasse a campainha, ele abriu a porta. Estava de banho tomado, de terno e gravata e com a caixa do violão na mão, como se fosse para um show. “Não vamos ficar aqui”, disse misteriosamente sem explicar por que, “vamos para a sua casa.” Pegamos o elevador e descemos para a garagem, onde João colocou o violão no porta-malas e assumiu o volante de um Monza verde metálico, que jamais imaginei que ele tivesse. Quando chegamos à praia, me lembrei de uma das grandes “lendas e mistérios de João Gilberto”, contada por Galvão dos Novos Baianos, e senti um frio na barriga. Diz a lenda que João saiu de carro com Galvão de madrugada pela Praia de Ipanema e que foi cruzando todos os sinais vermelhos, sem diminuir a marcha, sem olhar, conversando alegremente, com absoluta tranqüilidade. Mas, pouco adiante, num sinal aberto para ele, freou inesperadamente — justo a tempo de escapar de um carro que cruzou o sinal vermelho em alta velocidade.

Por maior fé que tivesse em João, eu não estava disposto a experimentar tanta magia. Mas João dirigia devagar, admirando o mar noturno, ouvindo fitas de conjuntos vocais dos anos 40 e parando em todos os sinais vermelhos, do Leblon ao Arpoador, onde estacionamos e descemos para tomar água-de-coco, comer milho cozido e conversar. Quando chegamos ao meu apartamento, diante do mar de Ipanema, João sentou-se de frente para mim, me deu o violão e pediu que eu tocasse para ele. Eu toquei medroso e ele sorriu amoroso, pegou o violão com delicadeza, ficou um tempo em silêncio e cantou a noite inteira. No início de 1989, a pedido da Rainforest Foundation inglesa, produzi uma gravação coletiva, do tipo “We Are The World”, para uma campanha internacional em defesa dos índios e da Floresta Amazônica. Chamei Djavan, Sandra de Sá, Renato Russo, Gilberto Gil, Ivan Lins, Marisa Monte, Leila Pinheiro e outros que se identificavam com a causa e passamos um dia inteiro gravando nos estúdios da RCA. A música era meio chat, cada um cantando uma frase, mas o clima estava ótimo no estúdio e a performance do pessoal foi muito boa. Uma equipe inglesa
filmava tudo para o clip que seria exibido no mundo inteiro junto com artistas ingleses e americanos. Num intervalo da longuíssima gravação, Djavan me mostrou uma música que tinha acabado de fazer: um chorinho moderno, jazzístico e cheio de dissonâncias. Adorei. E mais ainda quando ele me pediu que fizesse a letra.

No dia seguinte ele me mandou uma fita com a melodia e comecei a trabalhar na letra. Mas não tive trabalho algum, as frases me vinham prontas à cabeça, algumas em inglês. Parecia que a letra já estava dentro da melodia, só era preciso revelá-la. Em pouco tempo estava pronta e passei por telefone a Djavan, que gostou muito, principalmente da mistura de versos em inglês e em português, que eu não sabia direito se funcionava. Mostramos a Marisa e ela decidiu incluí-la no seu show, que iniciaria sua turnê nacional em Salvador. Por puro acaso poético, eu estava em Salvador um dia antes, para ser homenageado com o Troféu Caymmi como “legenda viva da música brasileira” (sic). Coisas da Bahia. Muito mais emocionante foi, na noite seguinte, no teatro, ouvir Marisa cantando aquelas palavras que escrevi para o choro de Djavan: “Você bem sabe que eu não sei te dizer, tudo que sinto por você, mas você bem sabe que we always lie but we can never say good-bye...” E terminava com uma sugestão. A ela e principalmente a mim  mesmo: “Vai ou não vai, que eu vou ou não vou, seja como for, com você, sem você, a gente tem é que crescer.”

De volta ao Rio, Tim Maia ao telefone: “Alô alô Nelsomotta, eu vou fazer um show no teatro do Hotel Nacional para comemorar 30 anos de carreira... (pausa), ou melhor, 30 anos de carreiras (gargalhada), e quero que você seja o diretor.” “Tim Maia, além de muito mais pesado do que o ar, você é absolutamente indirigível”, tentei argumentar. Era essa a sua graça e sua força. Ele sempre soube que músicas cantar, que músicos chamar, que arranjos fazer. Recebi o convite mais como uma demonstração de afeto, esperando ser útil de alguma
maneira. Ele disse que então eu seria uma espécie de “conselheiro”. E mandou botar meu nome no cartaz do show como diretor. Imaginem, aconselhar Tim Maia... Mas acabei sendo útil. “Escolhemos” as músicas, ele encomendou os arranjos a seus maestros e chamou os músicos: a Banda Vitória-Régia e uma orquestra de cordas. Mais de 30 músicos no palco. Os ensaios, no estúdio dele no Recreio dos Bandeirantes, correram animadíssimos e sem incidentes maiores que não esporros monumentais que Tim dava nos músicos com regularidade. Mas dois dias antes do show ele me telefonou apavorado: um oficial de Justiça estava batendo na sua porta com um mandado judicial. Disse que não iria abrir de jeito nenhum e implorou que eu fizesse alguma coisa.

Achei que o melhor era procurar um velho amigo de meu pai, o Dr. Hélio Saboya, secretário estadual de Segurança. Contei-lhe o problema, irresponsavelmente prometi que Tim se apresentaria depois do show, mas que ele por favor segurasse a onda por dois dias. Ele pediu
um tempo para saber o que estava acontecendo. Duas horas depois me ligou, às gargalhadas: no mandado que o oficial de Justiça queria entregar a Tim ele não era o réu, mas o autor da ação penal — uma das muitas que ajuizou contra empresários, músicos, gravadoras, revistas e jornais. E depois esqueceu. Com o African Bar abatido em pleno vôo, deixando legiões de órfãos e viúvos noturnos, no seu vácuo abrimos o Mamma África no Morro da Urca, para uma temporada de verão. Era a mesma fórmula vitoriosa, só que muito maior e mais popular, com a decoração misturando elementos africanos com a exuberância da floresta tropical do morro. O público gostou: estava cansado de rock, desprezava a lambada e adorou a negritude musical. Além de duas pistas de dança ao ar livre, transformamos o restaurante envidraçado em um piano-bar, com vista para a Baía de Guanabara, onde apresentamos shows intimistas com Johnny Alf, Angela Ro-Rô e I Adriana Calcanhoto. A pista fervia com os afro-hits de Dom Pepe e, no palco, 15 percussionistas comandados por Repolho tocavam junto com os sucessos de Manu Dibango e do Olodum. E o público pulava feito pipoca. A coisa estava preta, no bom sentido.

Um dos maiores sucessos do ano é Djavan, com a música e o Lp Oceano, no qual também estavam o nosso choro “Você bem sabe” e “Vida real”, uma versão que fiz para o lindíssimo bolero mexicano “Dejame ir”, um clássico da noite que ele cantava desde seus tempos de piano-bar, quando nos conhecemos. Em seguida produzi o disco de Sandra de Sá e dirigi seu show em temporada nacional. Gostei de Sandra desde a primeira vez que a vi na televisão, cantando “Olhos coloridos” em um festival. Há muito tempo eu a considerava, além de querida amiga, uma grande cantora e discutia com ela uma realidade chocante: na entrada dos anos 90 ela era praticamente a única cantora negra do Brasil, além das “sambistas” como Alcione ou Dona Ivone Lara, num país majoritariamente negro e mestiço. Era como se a elas fosse permitido cantar apenas samba. Não se ouviam no Brasil cantoras negras fazendo sucesso e cantando funks, rocks, blues ou baladas. Havia muitos homens, sim, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, Jorge Ben, Tim Maia, Emílio Santiago, Luiz Melodia, tantos. Mas as grandes cantoras, Gal, Elis, Bethânia, Rita Lee, Simone, Beth Carvalho, Clara Nunes, Marina, Elba Ramalho, Leila Pinheiro, eram todas brancas. Nos Estados Unidos, ao contrário, as grandes eram quase todas negras. ‘A própria Sandra, depois de seu início funk, só conseguia fazer sucesso com baladas sentimentais da dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas. Sandra queria mudar, para muito melhor. Aceitei prontamente seu convite para fazer o disco, chamamos Guto Graça Mello para a direção musical e abrimos os trabalhos. Os pontos altos foram uma regravação a capela, só com a voz de Sandra e os tambores do Olodum, de “Charles anjo 45” e a participação de Marina e Djavan em “Slogan”, do grande mestre do Black Rio, Cassiano.
Mas o marketing da gravadora se decepcionou com a sofisticação do repertório e considerou inútil qualquer esforço promocional, as rádios não tocaram e o disco não aconteceu. Sandra voltou às baladas românticas. O país seguia ladeira abaixo. O governo Sarney se desmancha, desmoralizado pela moratória, com a inflação passando de 50% ao mês. As instituições democráticas recém-restauradas estão abaladas, o Congresso promulga uma Constituição aumentando os gastos e diminuindo as receitas do Estado, o Brasil está quebrado. É o momento mais favorável para o surgimento de demagogos, populistas, messiânicos e oportunistas para navegar nas ondas da insatisfação popular. Assustado com a ascensão vertiginosa de Fernando Collor e preocupado com o crescimento da candidatura de Lula, entrei na campanha com entusiasmo. Participei da propaganda eleitoral apoiando a candidatura de Mário Covas, participei de alguns eventos e discuti muita política. Afinal, aos 45 anos de idade eu ia votar pela primeira vez para presidente. No dia da eleição, coloquei a cédula na urna com a mão trêmula de emoção.

Com a derrota de Covas, enfrentei o segundo turno entre o que via como um populismo de direita e um de esquerda, os dois desastrosos para o Brasil. Collor era odioso, com seu olhar maníaco, a arrogância autoritária das velhas oligarquias, o apoio da elites mais retrógradas.
Lula seria a subida ao poder da velha esquerda atrasada e populista, um passo atrás no movimento liberal do mundo, no início do processo de globalização. Frustrado, votei em branco. Em 1989, duas mortes, de certa forma esperadas, me entristeceram profundamente e o país perdeu dois de seus maiores artistas, Nara Leão e Raul Seixas, ela com 46 anos e ele com 44. Dois amigos queridos, com quem dividi tantos momentos de alegria e de música, Nara e Raul foram opostos em tudo e se tornaram igualmente representativos da maior qualidade da música brasileira: a diversidade. A ascensão de Collor marca o início do boom da música sertaneja no Brasil, uma das fases mais tristes de nossa exuberante história musical.

A “República de Alagoas” sobe ao poder, com o exibicionismo e a voracidade de seus homens e mulheres, ocupando cargos-chave da administração. Duplas sertanejas, dezenas delas, invadem os rádios e os vídeos, cantando com vozes agudas e em terças sofridas as mesmas desventuras sentimentais que eu odiava na minha adolescência em Copacabana, antes da bossa nova. Nem o confisco dos depósitos e poupanças foi suficiente: após poucos meses de estabilidade artificial, a inflação volta a explodir e a recessão se aprofunda. Em Turim, assisto à Seleção Brasileira ser eliminada pela Argentina nas oitavas-de-final na Copa do Mundo. Em Roma, depois da derrota, recebo a notícia da morte de Cazuza, com 32 anos, que marca o fim do Rock Brasil como movimento musical. André Midani é promovido a vice-presidente da Warner Latina, em Nova York, e se casa com a viúva de Nesuhi Ertegun, Selma. No Brasil, o novo presidente da companhia é Beto Boaventura, vindo da EMI, onde trabalhamos juntos no lançamento de Marisa Monte. Convidado por Beto e André, assumi a direção artística da Warner no Brasil, com salário de diretor de multinacional, carro, cartão de crédito e a promessa de liberdade para formar um novo cast.

Mal assumi, mais um choque econômico abalou o mercado de discos em geral e a Warner em especial. Demissões em massa, officeboys, secretárias, assistentes, choradeira nos corredores, vendas cada vez menores e salários achatados. Pior ainda: Beto, em desespero, decidiu ter duas divisões artísticas, uma pop, a minha, e outra sertaneja, do compositor pernambucano Paulo Debétio. A verba de produção e marketing, já muito reduzida, foi dividida e, na ânsia de sucessos rápidos e baratos, investida na área sertaneja. A mim restou o suficiente para gravar os discos já programados de artistas contratados como os Titãs, Gilberto Gil, Barão Vermelho e outros poucos. Nada para investir em novos artistas. Depois de um lobby incansável, consegui que Beto fosse comigo à Bahia para contratarmos um dos artistas mais talentosos da nova geração, Carlinhos Brown. Após longas negociações, Carlinhos, que estava cheio de dívidas, assinou. Recebeu um adiantamento de US$ 8 mil e pouco depois a Warner, sem dinheiro para produzir o disco, teve que rescindir o contrato. Os discos de Gil, dos Titãs e do Barão Vermelho têm boas críticas mas vendas decepcionantes. As bandas de rock vivem um dos piores anos de suas carreiras. A Warner, o pior de sua história. E eu um dos piores de minha vida. Com um ótimo salário e numa posição para a qual imaginava que tinha me preparado a vida inteira, eu estava cada dia mais frustrado. Tim Maia me convida para visitá-lo no seu apartamento na Barra da Tijuca e manda chegar cedo. Às nove da manhã já o encontro alegre e bem-disposto, de bermudas e Rider, acabando de tomar um café da manhã reforçado, com ovos, frutas e bolo. Diz que acordou às sete e esse já é seu segundo. Acende um imenso baseado, pede café e ovos para mim e me toca uma fita. É de seu show no Olympia de São Paulo, com boa qualidade de gravação e grande performance de Tim. Quer saber se a Warner quer comprar.

Claro que quer, respondo sem hesitar, sem saber ainda de onde vou tirar dinheiro. Tim quer um “levado” de US$ 30 mil pela fita e mais royalties de 16% sobre as vendas. Implorei a Beto que me desse o dinheiro, argumentei que era um disco popular, que podia vender bem. E afinal já estava quase pronto. Tínhamos apenas que regravar alguns instrumentos, Tim queria refazer algumas vozes no estúdio e mixar. Beto topou e Tim assinou. Durante três semanas, todos os dias de manhã nos encontramos no estúdio Impressão Digital, na Barra, para trabalhar no disco. Mais que um trabalho, foi um divertimento conviver com Tim, seus múltiplos lanches e baseados e vice-versa. Era um prazer aprender com ele, um mestre dos estúdios, como se encontra o timbre de cada instrumento, como se utiliza melhor a tecnologia. Era uma alegria ouvi-lo cantar seus grandes sucessos e contar suas melhores piadas. Tim estava sempre de bom humor, não houve qualquer problema e o disco ficou muito bonito. Mesmo lançado no pior momento da crise econômica, começou a vender lentamente, ganhou força e estourou. Foi um dos raríssimos lançamentos da Warner a fazer
sucesso no ano. Mas provocou a minha primeira e única briga com Tim  Maia. Feliz com o sucesso do disco, um dia abro o jornal e leio uma entrevista de Tim, reclamando que foi explorado e passado para trás pela Warner. Fiquei furioso, me senti atingido, afinal eu é que tinha negociado o contrato com ele. E aceitado, sem regatear ou discutir, exatamente tudo o que ele tinha pedido. Me senti traído e escrevi-lhe uma carta furibunda. Falando sobre 20 anos de amizade e lealdade, lembrando os termos do nosso acordo, dizendo que ele era um idiota por não perceber que eu sempre estive do lado dele e fiz exatamente o que ele me pediu. “Você se queixa da solidão mas trata seus amigos assim”, eu reclamava, reiterando que gostava muito dele e que adorava a sua música. Mas que ele era um maluco irresponsável. Dois dias depois, não acreditei quando vi a minha carta, que não mostrei a ninguém, que era pessoal e confidencial, publicada no jornal. Como foi parar ali? Dada pelo próprio Tim Maia, informava a matéria. Uma carta que o esculhambava e assegurava que todas as suas exigências foram cumpridas e que ele não tinha nenhuma razão. Alguns dias depois, uma inconfundível voz de trovão ao telefone: “Alô? Nelsomotta? Adivinha quem está falando?” “Ed Motta”, provoquei.

“Olha aqui, ô Nelsomotta, esse meu sobrinho Eduardo canta direitinho mas é burro porque não gravou nenhuma música romântica. Ele precisa namorar muito, ser bem corneado e gravar música romântica. Aí ele vai entender por que o Júlio Iglesias vende tanto disco.” E voltou ao motivo inicial do telefonema: “Ô Nelsomotta, nós dois estamos parecendo duas velhas ridículas batendo boca no supermercado, acho que nós estamos mesmo é na andropausa, que é a menopausa masculina. Parece coisa ‘ de doidão. Sugiro que esta briga seja dada por encerrada.”

Proposta aceita entre gargalhadas. Contei animado a homenagem que minhas filhas fizeram a ele: “As meninas trouxeram um gatinho para casa e puseram nele o nome de Tim...” “Já sei”, ele interrompeu, “porque é gordo, preto e cafajeste!” Não, o gato era cinzento, magro e amoroso. A música sertaneja dominou as ruas e a classe média, foi a trilha sonora das festas do poder em Brasília e em São Paulo. As peruas da “República de Alagoas” dançavam e sonhavam com Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo. Uma foto emblemática do governo Collor mostra o presidente e a primeira-dama Rosane, alegres e sorridentes, cercados por 60 duplas sertanejas na Casa da Dinda. Para um garoto de classe média de Copacabana dos anos 50 não poderia haver suplício maior do que ouvir 60 duplas caipiras cantando em terças ao mesmo tempo. Para um jovem libertário de 68 não haveria horror maior do que imaginar o Brasil sob o estilo, a ideologia e a rapinagem do governo Collor. Os sertanejos não têm culpa de nada, além do mau gosto. Fazem a música que o Brasil quer, a que eles gostam, o som dos “anos Collor”.

A música ingênua e melancólica do próspero interior de São Paulo, de Minas e de Goiás se urbaniza e se eletrifica, enche estádios, voa de jatinhos e vende milhões de discos. As estrelas da MPB dificilmente conseguem que seus discos toquem no rádio, seus shows perdem público, muitos direcionam sua carreira para o exterior. As gravadoras só pensam em sertanejos, eles são as grandes estrelas dos programas populares de televisão. A vida na Warner estava insuportável. Durante toda a minha vida musical busquei a diversidade e a tolerância, explorei à exaustão as possibilidades de harmonizar  contrastes, sempre me orgulhei de não ter preconceitos e de ser capaz de gostar de música de qualquer gênero e de qualquer lugar, de qualquer época. Mas a onda sertaneja era demais, não havia ali nada que eu gostasse. Nem no Brasil em que estávamos vivendo. Mas nem tudo estava ruim: no primeiro semestre fui e voltei seis vezes a Sevilha, uma de minhas cidades mais queridas, como produtor dos shows no pavilhão brasileiro da Expo-92, a convite do comissário, Olavo Monteiro de Carvalho. Tudo começou muito bem com o concerto de Milton Nascimento, um dos artistas brasileiros de maior prestígio na Espanha. Seguiram-se a cada mês Maria Bethânia, Simone, Lulu Santos, Djavan, Marisa Monte e Tom Jobim, com o teatro lotado e ótimas críticas, e a programação foi suspensa: o dinheiro tinha acabado.

Quando acabou o dinheiro em Sevilha, voltei ao Brasil e negociei com Beto minha saída da Warner. E não indiquei ninguém para meu lugar: ele não tinha dinheiro sequer para pagar um substituto, mesmo com um salário muito menor. E afinal, diretor artístico para quê? Aliviado, abri o coração em um artigo furibundo de meia página, publicado ao mesmo tempo em O Globo e na Folha de S. Paulo, denunciando a pobreza rítmica, melódica, harmônica e poética da onda sertaneja e saudando a chegada do samba-reggae da baiana Daniela Mercury, como uma Iansã vingadora, uma guerreira de espada na mão e pernas de fora, abrindo uma clareira de luz e alegria no meio das trevas colloridas. Não era só a música, o Brasil estava insuportável, muitos amigos estavam debandando. Comecei a planejar a retirada, a imaginar uma pequena gravadora na Europa ou nos Estados Unidos, para produzir, promover e distribuir internacionalmente a música brasileira de que eu gostava — e que naquele momento parecia mais admirada e querida no exterior do que no Brasil. Acompanhei apaixonadamente o desenvolvimento do processo de impeachment de Collor e as descobertas diárias da rede de corrupção no seu governo. Quando, nos estertores finais, ele pediu ao povo que o apoiasse vestindo verde e amarelo no domingo, 16 de agosto, comprei a  passagem. De manhã, todo de preto, saí para o calçadão de Ipanema e me integrei a um mar rumoroso de gente vestida de negro da cabeça aos pés, carregando bandeiras negras e cartazes e gritando pela saída de Collor. Até os cachorros estavam de preto naquele dia luminoso. À noite embarquei para Nova York. Para começar tudo de novo.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe , com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*



Ana Maria tinha um jovem assistente, que adorava punk e rock pesado, skates e quadrinhos, e vivia falando maravilhas de novas bandas de Brasília, onde tinha muitos amigos. Mas não mostrava nada. Uma tarde, finalmente, Tom Leão apresentou, excitadíssimo, um cassete com quatro músicas de uma dessas bandas planaltinas. Quando José Emílio ouviu a voz poderosa de Renato Russo e a pegada da Legião Urbana em “Será” e “Geração Coca-Cola”, ficou louco. Além de um grande letrista, culto, irônico e agressivo, ninguém no rock brasileiro cantava tão bem, com tanta potência e afinação, com tanta fúria e personalidade como Renato. Telefonou imediatamente para o diretor artístico da EMI, Jorge Davidson, que estava em negociações com a banda, dando uma força na contratação e se oferecendo para produzir o primeiro disco. A Fluminense FM tocava a demo direto, os ouvintes não paravam de pedir.

“Somos os filhos da revolução somos burgueses sem religião nós somos o futuro da nação geração Coca-Cola...” Cantava Renato e as jovens plateias deliravam, se identificavam com aquela sensação de vazio e de impossibilidade, tinham alguém para dizer o que eles pensavam e sentiam. Muita gente imaginava que a nova geração musical, do Ultraje a Rigor e dos Titãs, de Lobão e da Legião, por ter vivido praticamente a vida inteira numa ditadura fechada para o mundo, sem acesso à cultura internacional e à História brasileira, sofrendo lavagem cerebral dos militares, seria desinformada e individualista, tão ignorante e alienada quanto a autocrítica furiosa de Renato em “Geração Coca-Cola”. Ao contrário, Lobão, a Legião, o Ultraje e os Titãs — além de dezenas de outras bandas que brotavam como cogumelos não mais no eixo Rio-São Paulo mas na Bahia, em Minas, no Rio Grande do Sul e em Pernambuco — mostravam visão crítica, informação, independência e vontade de mudança. Nada mais punk do que os últimos estertores da era Figueiredo. Além de talentosos, eles eram, quem diria, intensamente políticos. A geração Coca-Cola não estava perdida. O amanhã estava chegando. Não teríamos eleições diretas, mas o Colégio Eleitoral poderia eleger um presidente civil, conservador e confiável para os militares, com o apoio das oligarquias e dos partidos que debandavam da ditadura moribunda. Com a economia devastada, o Brasil estava quebrado. Depois de 20 anos teríamos um presidente civil e, finalmente, o nosso Woodstock. Ou quase. Produzido por Roberto Medina, foi anunciado para janeiro de 85 o megafestival Rock in Rio, numa imensa área em Jacarepa-guá, com um palco monumental, som e luz ingleses e espaço para meio milhão de espectadores. Viriam estrelas como o Queen, Rod Stewart, o já decadente Yes, as new-wavers Go-Go’s, a alemã Nina Hagen, misturando ópera e rock pesado, os mais lights James Taylor e George Benson, além de uma inesperada delegação de heavy metal, com o AC/DC, Scorpions, Iron Maiden, Whitesnake e o veterano Ozzy Osbourne, comedor de morcegos e patriarca do metal.

Eles se apresentariam junto com as maiores estrelas do pop brasileiro, como Rita Lee, a Blitz, Lulu Santos, Erasmo Carlos, Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Alceu Valença, Elba Ramalho, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Eduardo Dusek, os novos Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Barão Vermelho, e até Ivan Lins, absolutamente estranho no ninho roqueiro, escalado para dividir a noite jazzística com George Benson. Em Roma, fui chamado pela TV Globo, que transmitiria ao vivo o festival, para ser o apresentador e comentarista dos shows. Cheguei ao Brasil às vésperas do Natal e encontrei o país eufórico. Com a candidatura invencível da chapa Tancredo Neves-José Sarney, apoiada pelas mesmas forças políticas que estavam (sempre estiveram e continuariam) no poder. Na transmissão da noite de abertura, nervoso e ao vivo, tentei fazer graça na apresentação de Erasmo Carlos: “... e como dizia Jair de Taumaturgo, vamos tirar o tapete da sala porque hoje é dia de rock! Eraaaasmo Carlos!” Erasmo entrou em cena e o diretor Aloysio Legey me disse que Boni queria falar comigo no fone. Apesar do volume que vinha do palco, meu ouvido quase estourou quando ele gritou: “Jair de Taumaturgo é a puta que o pariu!!!”

Entendi a mensagem e passei a fazer apresentações mais sóbrias, procurando aprofundar os comentários musicais. Realmente Jair e sua cabeça branca eram de um tempo em que a maioria do público do Rock in Rio nem tinha nascido. Com 40 anos me senti velhíssimo, como um patético neojair animando a garotada enquanto o amanhã não chegava. Graças a Deus eu não apresentava o festival do palco, mas de uma pequena cabine no alto de uma torre, acima das cabines de som e luz, no meio da plateia, a pouco mais de 20 metros do palco. De lá assisti ao festival de um dos melhores lugares possíveis: ficávamos só eu, um câmera e um assistente. De lá vi Erasmo Carlos ser vaiado por uma platéia de mais de 100 mil metaleiros furiosos, guerreiros de uma nova tribo urbana que ninguém esperava nem conhecia, que ninguém sabia que existia e onde se escondia. Mas eles estavam ali para gritar e cantar junto com o Iron Maiden e o Whitesnake, e para vaiar e jogar latas de cerveja e copos de areia em tudo que não fosse metal. E pesado. E em inglês.

Para Erasmo, patriarca do rock brasileiro, que a vida inteira (como todos nós) sonhou com o nosso Woodstock (onde ele seria um Chuck Berry e um Little Richard ao mesmo tempo), a esperada noite foi só desapontamento e decepção. Vaiado agressivamente, Erasmo mal conseguiu apresentar seus rocks e muito menos suas baladas. E descobriu assustado que legiões de jovens dos subúrbios e das periferias das grandes cidades estavam desenvolvendo uma outra cultura urbana, de skates e tatuagens, de quadrinhos e agressividade, movida a bandas de heavy metal internacional. Eram os metaleiros — novo terror das mães brasileiras. A imprensa fez um escândalo com a nova ameaça. Os artistas reclamaram. Uma nova radicalidade, agressiva e intolerante como as platéias dos velhos festivais, foi a novidade do dia. O Rock in Rio abriu pegando fogo. Nas noites seguintes, do alto de minha cabine a visão era maravilhosa: um mar humano de 200 mil pessoas, sentadas em paz ouvindo música, tomando cerveja e torrando unzinho, cantando em coro junto com Freddy Mercury e o Queen todas as letras de seus grandes sucessos, em inglês. Com Rod Stewart a mesma coisa, só que ainda melhor: um show de altíssimo nível sob chuva torrencial, que Rod, como escocês legítimo, tirou de letra, chutando bolas de futebol para a platéia e pensando se toda aquela galera estava mesmo cantando em inglês ou se ele tinha tomado um a mais. Ou cheirado uma a menos.

Para os Paralamas do Sucesso, o Rock in Rio foi o trampolim da vitória e lançou “Óculos” para o sucesso nacional, cantada em coro pela colossal plateia, ao vivo em rede nacional. Herbert Vianna saiu do festival como um novo herói da garotada e no final ainda ganhou a mocinha, Paula Toller, do Kid Abelha. “Por que você não olha pra mim? me diz o que é que eu tenho de mal, por que você não olha pra mim? por trás dessas lentes tem um cara legal.” Ovacionado pela multidão, Herbert dedica o show a Lobão, Ultraje a Rigor, Titãs e Magazine (ausentes do Rock in Rio) e a todos os grupos que tornaram possível o rock brasileiro. E começa a cantar “Inútil” como um inesperado bis. O público explode de alegria, 200 mil vozes em fúria cantam os versos históricos. Totalmente rock and roll. Os Paralamas rapidamente vendem mais de 100 mil discos e fazem 120 shows em um ano de estrada. A banda é uma das grandes do Rock Brasil, mas, além de “Óculos”, os seus novos grandes sucessos no disco e no show são as românticas “Me liga”, “Mensagem de amor” e “Meu erro”. Além dos Paralamas, a Blitz, Lulu Santos e Barão Vermelho fizeram bons espetáculos, profissionais, cheios de hits. A Erasmo foi dada uma segunda chance, quando se apresentou na mesma noite que James Taylor — uma das mais tranqüilas e aplaudidas do festival.

Todo o rock brasileiro (ausente e presente) teve no Rock in Rio um divisor de águas, que marcou a sua entrada oficial no mercado musical de massa. O grande ausente foi Raul Seixas, cada vez mais recluso, mais magro e mais drogado, com a barba maior, que se recusou a participar de tal caretice. Mas a rainha estava lá, Rita Lee era uma das grandes atrações do Rock in Rio e esperava-se uma apresentação não menos que consagradora, tal a popularidade que desfrutava, tantos os hits que emplacava, um atrás do outro, com Roberto de Carvalho, desde “Lança perfume”: “Saúde”, “Banho de espuma”, “Chega mais”, “Nem luxo nem lixo”, “Luz dei fuego”, “Flagra”, “Baila comigo”, “Alô alô marciano” e muitas outras. Mas havia um problema e Rita esperava uma solução. Assim como Raul, ela estava vivendo uma vida totalmente rock and roll, na estrada com a banda, entre aeroportos e quartos de hotel, tocando para multidões e submergindo num mar de drogas, com a saúde bastante debilitada. Mas pouco antes do festival, Rita conheceu o paranormal Thomas Green Morton, que começava a fazer sucesso nos círculos esotéricos entortando metais com os olhos e transformando água em perfume. Rita estava fraca e apavorada, queria cancelar o show, não tinha força para nada. Mas Thomas prometeu que a energizaria antes da apresentação e tudo correria bem.

Durante uma hora Thomas energizou Rita no camarim. Ela entrou no palco linda e carismática como sempre e cantou confiante os primeiros versos de “Nem luxo, nem lixo”: “Como vai você? assim como eu uma pessoa comum um filho de Deus nessa canoa furada remando contra a maré...” Mas o que saiu da sua garganta foi um sopro, um fio de voz trêmulo, mas que ainda assim lhe custou grande esforço. Estava perdida: a energização não pegou, a mágica não funcionou, a banda tocava alto e forte, com grande ritmo, mas a voz não lhe saía da garganta. Foi quando, como se percebesse seu sofrimento, o povo começou a cantar com ela, por ela. E cantou do início ao fim todas as músicas, com força e alegria, enquanto Rita sofria para sussurrar um mínimo e se comovia com a imensa prova de amor que o público carioca lhe dava. Foi uma das artistas mais aplaudidas do festival e saiu do palco desfalecendo, totalmente desenergizada. Mas se sentindo mais amada do que nunca. A noite de 15 de janeiro era muito especial. Tancredo Neves tinha sido eleito de manhã pelo Colégio Eleitoral o nosso primeiro presidente civil depois de 20 anos de governos militares. O último show da noite seria do Yes e encerrei a transmissão anunciando a banda e me despedindo feliz: “Boa noite presidente Tancredo Neves, boa noite Nova República, boa noite Brasil!” Mais uma noite. Expediente encerrado, em vez de ficar na cabine assistindo a um show chato, convido Barata, o assistente, para descer comigo. Ele tem metade de um baseado, o trabalho está terminado, podemos relaxar no meio da galera, comemorando a liberdade e a democracia. A poucos metros da cabine de som acendemos a bagana e, mal começamos a fumar, uma mão segurou firme no meu pulso e outra exibiu uma carteira: Polícia Federal.” stava muito escuro, mas o suficiente para ver a carteira e seu portador: um garotão de camisa esporte, como qualquer um daqueles em volta. O seu companheiro era um senhor de meiaidade, de paletó, que só faltava ter a palavra “cana” escrita na testa. Confiscaram a bagana, pegaram a mim e ao Barata pelo braço e nos levaram: “Vocês estão presos. Vamos para a Entorpecentes”, disse o garotão, nos encaminhando para a saída da Cidade do Rock.

Quando passávamos próximo das salas de produção da TV Globo, estava mais claro e tive a esperança de que alguém me visse, que avisassem que eu estava sendo preso. Mas ninguém viu. Talvez os policiais me reconhecessem como o apresentador do festival na televisão e livrassem a minha cara. Eles reconheceram. Mas foi pior. Aí eu vi um brilho nos olhos claros do garotão, seu sorriso de deboche, sua felicidade em pescar um peixe gordo. “Estás fodido. Quando isto estourar nos jornais tu vai ser demitido por justa causa. Vai precisar de um bom advogado. Se quiser eu tenho um.” Começava a intimidação, anunciava-se a extorsão, como as centenas que aconteceram durante o festival, onde a polícia fez a festa. Mas, em vez de acertar logo minhas contas, um pouco por civismo, um pouco por orgulho e um pouco por estupidez, resolvi resistir: “Se quiser me levar preso, pode levar. Eu não vou pagar um tostão.” O cara ficou furioso. Me jogou no banco de trás do Opala preto e branco e entrou na frente com o velho. Barata foi colocado em outro carro e a última visão que tive dele foi sua expressão desesperada mostrando as mãos algemadas no vidro de trás do carro que partia. Durante todo o longo trajeto entre Jacarepaguá e meu apartamento no Posto Seis, onde eles me acompanhariam para que eu telefonasse a meu advogado, as ameaças e intimidações do garotão foram crescendo: era o “bad cop”. O velho fazia o papel do “good cop”, me aconselhando a ter juízo, a não criar problemas, a aceitar a oferta do advogado deles e resolver tudo.

“Quem é o seu advogado?”, o garotão perguntou. Eu disse. Ele ficou feliz: “Esse é muito conhecido. Deve ser dos mais caros.” No meio da madrugada saí do carro e entrei com os dois canas no meu prédio, sob o olhar assustado do porteiro. Eles tinham esperança que eu tivesse dinheiro vivo ou dólares em casa, mas eu não tinha. E felizmente não resolveram fazer nenhuma revista, que teria piorado muito as coisas. Telefonei para meu advogado, que não estava. Deixei recado na secretária eletrônica. Eles ficaram furiosos e eu me senti um pouco menos ameaçado. Afinal, pelo menos meu advogado sabia que eu estava sendo levado para a Entorpecentes, na Praça Mauá. Eu não tinha medo do escândalo, não me sentia um criminoso, não estava fazendo mal a ninguém, não me envergonhava de nada, estava disposto a enfrentar as consequências. E absolutamente certo de que meu advogado (se recebesse o meu recado) impediria que eu fosse preso. A quantidade era mínima, eu era primário, os juízes estavam liberando todos os indiciados em condições parecidas — porque sabiam que a polícia achacava. Também achava que nenhum jornal noticiaria minha prisão por uma besteira daquelas e que a TV Globo não me demitiria por justa causa simplesmente porque eu não era seu funcionário ou contratado, estava apenas fazendo um free lance. Mas temia a violência do garotão, que estava com ódio de mim, por estar lhe dando tanto trabalho, por ele não poder me espancar como a qualquer um de seus presos sem arriscar um escândalo, porque eu não me submetia a seu banditismo.

“Vou te jogar na cadeia com um monte de assassino e estuprador pra tu ver o que é bom. Até teu advogado chegar já te mataram”, ameaçava dirigindo pela Avenida Atlântica rumo ao Centro da cidade. Quando entramos na Delegacia de Entorpecentes, na Praça Mauá, apesar do sórdido ambiente policial, dos móveis de ferro e fórmica e da luz fria, me senti mais seguro. Estava tudo aceso, havia gente entrando e saindo das salas. Telefonei de novo para meu advogado, que atendeu no primeiro toque, respirei aliviado, expliquei tudo rapidamente e ele me tranquilizou: “Estou indo para aí.” Estou salvo, pensei. Mas o garotão continuou me ameaçando, queria resolver tudo rápido, botou o revólver na mesa com força, na minha frente. Mandou que eu levantasse e fosse com eles até a sala do escrivão para lavrar o flagrante. Confirmei ao escrivão que estava fumando e que a bagana era minha. Mas disse que queria registrar que tinha sido ameaçado, coagido e achacado pelos policiais e que estava sendo preso porque não quis pagar. Pensei que o cara fosse me bater. Foi quando chegou meu advogado, com longa militância em delegacias e tribunais, e imediatamente tomou providências: foi conversar com meus captores. Voltou poucos minutos depois. “Não vou pagar”, eu disse antes que ele dissesse alguma coisa. Com calma e até um certo tédio, ele explicou: “Você não vai ser preso, não vai ser jogado na cadeia, ninguém vai te bater, mas você vai ser processado. Nenhum juiz vai te condenar, mas vai ser uma aporrinhação danada, você vai ter que prestar depoimentos, vai a Juízo, vai gastar uma grana de custas e advogados, e isto pode complicar a sua vida se você quer voltar para Roma...” Suspirei e, quase chorando de raiva, perguntei: “Quanto eles querem?” Ele respondeu: “Dois mil dólares.” Exatamente o que eu estava ganhando da TV Globo para apresentar todas as noites do Rock in Rio.

Abaixei a cabeça, ele disse ao escrivão para rasgar o flagrante e foi acertar o pagamento do resgate. Quando meu advogado me deixou em casa, o dia estava começando a clarear em Copacabana. Agradeci efusivamente e comprei os jornais, com as primeiras páginas ocupadas pela eleição de Tancredo e celebrando a volta à democracia. Na varanda de meu apartamento, diante do mar azul de Copacabana brilhando ao sol, sentei-me na espreguiçadeira para ler os jornais históricos, que registravam o fim do autoritarismo e da repressão e a alvorada fulgurante da Nova República. Acendi um baseado, agradeci a Deus e pensei, quase rindo sozinho: “O amanhã é hoje...” No dia seguinte ao final do Rock in Rio, o governador Leonel Brizola mandou botar abaixo a Cidade do Rock. O maior e melhor palco ao ar livre que o Brasil já viu, dezenas de banheiros, camarins, cabines, lojas, enfermarias, centrais elétricas e telefônicas. Toda a infra-estrutura necessária para produzir grandes espetáculos com artistas brasileiros e internacionais para grandes multidões transformada em terreno baldio, perdido nos confins de Jacarepaguá. Com o sucesso do festival, que teve poucos incidentes sem gravidade e maciço apoio popular, seus produtores pediram a renovação da licença que tinha sido dada provisoriamente à Cidade do Rock para continuar produzindo shows. Brizola negou terminantemente, depois de ter feito o possível para dificultar a realização do festival, produzido por Roberto Medina, irmão do deputado Rubem Medina — inimigo político e ferrenho adversário de Brizola no Estado. Poucas vezes o Rio de Janeiro teve uma exposição internacional tão boa, nunca teve a chance de um espaço de espetáculos como aquele, mas na briga eleitoral provinciana a juventude carioca acabou sofrendo rude golpe em suas ilusões libertárias. E logo pela mão do sonhado governo socialista-moreno de Brizola e do professor Darcy Ribeiro, maciçamente votado pelo eleitorado jovem (e pelo mundo musical em peso) e levado ao poder triunfalmente em 1982.

Brizola detestava rock. Instrumento de dominação americana, canto da sereia do imperialismo para seduzir os jovens, desviá-los da construção do socialismo moreno. Cuidadosamente, assessores mais jovens tentaram ponderar com o governador que, apesar dos eventuais benefícios eleitorais para os Medina, seria muito bom para o Rio ter um espaço tão bom, que tinha sido amplamente aprovado pela população, seria um gesto popular e democrático. Destruir seria antipático, poderia parecer autoritário, antiquado, argumentou um assessor mais corajoso. E, aproveitando o bom humor do velho caudilho, arriscou, meio brincando: “O senhor precisa ser mais moderno, governador.” “E você quer o
quê? Que eu queime um fuminho?”, devolveu Brizola com seu sotaque gaúcho, para gargalhadas gerais. E ordenou a demolição da Cidade do Rock. Rock e fuminho eram queridos de Neuzinha, a filha do governador, que conheci no calor da campanha de Brizola, de bonezinho vermelho do PDT, toda gostosinha em seu biquíni vermelho, distribuindo panfletos e sorrisos e fazendo sucesso na Praia de Ipanema. Principalmente entre os pirados, friques e doidões, que achavam o máximo ter como “primeira-filha” do Estado alguém tão parecida com eles, tão alegre e anárquica como Neuzinha. Com cabelos curtos e cacheados, além de muito bonitinha, Neuzinha era viva e inteligente, provocativa e irreverente, tocava piano, fazia letras engraçadas e queria ser cantora de rock. Depois da eleição de Brizola ela se tornou uma rockstar em Ipanema, mesmo sem disco e sem show. Entrou para a turma.

Bebia, fumava e cheirava, ia ao Circo Voador e ao Noites Cariocas, no Baixo Leblon protagonizava cenas de tapas e beijos com Cazuza. Coisas do Rio de Janeiro. Mas quando a Cidade do Rock foi arrasada, o rock “Jorge Maravilha”, de Julinho da Adelaide, parecia ter sido feito para ser cantado — não para o general Geisel — mas para Brizola: “Você não gosta de mim mas sua filha gosta.” Com ou sem sua cidade, o rock brasileiro saiu do festival como grande vitorioso, tornou-se um fenômeno de mídia, invadiu as paradas de sucessos e programas populares de televisão, era a nova mina de ouro das gravadoras. Assim como a bossa nova tinha sido o som dos anos JK e a MPB dos anos 70, o rock era o som da Nova República. Apesar da oposição de Brizola, Neuzinha, assessorada por Paulo Coelho, lançou o
seu primeiro disco. E pior: pela Som Livre — das Organizações Globo, dos arquiinimigos do governador. O pau quebrou no palácio. O disco não vendeu, mas a debochada new wave “Mintchura”, em parceria com o gaúcho Joe Eutanásia, era um sucesso de rádio, todo mundo conhecia. E Neuzinha se divertia: no melhor espírito roqueiro, ela mesma se dizia uma “mintchura”. No Noites Cariocas, logo depois do Rock in Rio, pouca gente se animou a subir o morro para ver uma nova banda paulista lançando seu primeiro compacto. Mas todo mundo gostou: a música era muito boa e o som deles era ótimo, um vigoroso technopop com teclados e baixo pulsante, uma boa atitude roqueira. Mas o melhor de tudo era o crooner e baixista, um garoto lindo, moreno, de nariz fino e olhos escuros, um pop star instantâneo, tocando e cantando com uma voz rouca e sexy e enlouquecendo todos os sexos da pista, o ex-jornalista Paulo Ricardo  Medeiros e o RPM (Revoluções Por Minuto): “Na madrugada, na mesa do bar, louras geladas vêm me consolar qualquer mulher é sempre assim vocês são todas iguais nos enlouquecem então se esquecem? e já não querem mais.”

Assim que chegou às rádios, “Louras geladas” borbulhou e explodiu, foi um sucesso maciço e quase imediato, saiu das FMs para as AMs, ganhou o Brasil. Quando as meninas e meninos viram Paulo Ricardo e o RPM na televisão, o Rock Brasil ganhou o seu primeiro símbolo sexual: não há rock and roll sem eles. Pouco mais de um mês depois de sua primeira apresentação, o RPM voltou ao Noites Cariocas, que dessa vez superlotou, recebendo um dos maiores públicos de sua história, com filas imensas se estendendo pela Praia Vermelha desde cedo. Paulo Ricardo era um ídolo, um pop star, “Louras geladas” um sucesso nacional. O rock é rápido. A Legião Urbana não poderia ter escolhido um melhor (ou pior) momento para o lançamento de seu primeiro LP, esperadíssimo no mundo roqueiro carioca, onde eles se tornavam cada vez mais conhecidos por shows e pelas ondas da Fluminense FM. Como o disco saiu junto com o Rock in Rio, sumiu na poeira, e levou alguns meses para deslanchar. Mas depois do festival, com vento a favor, se beneficiou da abertura das rádios, da imprensa e do público para a nova onda. Ao contrário das outras novas bandas de rock, que gravaram
primeiro compactos e só depois, já conhecidas, lançaram seus Lps, Renato Russo exigiu da EMI gravar um álbum logo de cara. Ele não ambicionava estourar um hit, mas mostrar um estilo, uma visão crítica de sua geração. E isto só funcionaria com várias músicas e enfoques diferentes sobre sexo e política, trabalho e religião, amor e revolução.

O disco foi recebido com grande entusiasmo pela crítica carioca, mesmo a que (ou)via o Rock Brasil com grandes desconfianças: Renato aparecia como o grande letrista do movimento. Carismático e radical, misturando uma doce tristeza permanente com explosões de agressividade e humor corrosivo, Renato era a novidade, um grande talento poético que surpreendeu os que achavam que aquela geração não sabia escrever, nem pensar, nem fazer música. Alguns chegavam a identificar nele uma espécie de versão anos 80 de Chico Buarque. Outros encontravam grandes semelhanças entre o seu timbre vocal e o de um ídolo da jovem guarda, Jerry Adriani. Todos reconheciam nele um cantor de verdade, potente, afinado, com estilo, e não um simples “compositor que canta”. Ou um mero “cantor de rock”. “Geração Coca-Cola”, “Que país é este?”, “Será”, “Teorema”, “Soldados” e “Por enquanto”, uma atrás da outra, estouram nas rádios cariocas e em seguida em todo o Brasil. No Noites Cariocas, a Legião Urbana faz shows consagradores, recebendo o amor feroz das jovens multidões de fãs ardorosos. “Será só imaginação? será que nada vai acontecer? será que é tudo isso em vão? será que vamos conseguir vencer?” Depois do Rock in Rio, meus planos eram retornar o mais rápido a Roma, mas fui seduzido por uma proposta de Daniel Filho, diretor artístico da TV Globo, para que me juntasse com Euclydes Marinho e Antônio Calmon, amigos queridos, para escrevermos um seriado jovem para televisão, com música, romance e aventura. Esta era a parte boa, junto com um bom salário. A nem tanto era como Daniel se referia ao programa: “Projeto Surf — com Kadu Moliterno e André de Biasi”. Nós
apelidamos de “Missão quase impossível”.

Chamamos Patrícia Travassos, ex-Asdrúbal, por seu humor e sua experiência teatral, para entrar no time com sua visão feminina. E começamos a nos reunir e a escrever. Em manobra que o psicanalista Hélio Pellegrino classificava de “conspiração a favor”, enquanto Daniel esperava esporte e ação para seu “Projeto Surf”, sonhávamos alto: um seriado pop, sobre jovens, sexo, comportamento, drogas, aventuras, humor — e, vá lá, alguma coisa de esporte, especialidade de Calmon, não por militância mas por ter dirigido os filmes Menino do Rio e Garota dourada. E mais: não bastaria criar personagens e histórias originais e divertidas, queríamos inventar um novo jeito de contar — com som e imagem — aquelas novidades, de uma maneira mais rock, mais pop. A música seria um dos grandes protagonistas do seriado, contando e comentando a história. Como diretor musical, montei uma trilha com Marina, Lulu, Lobão e os grandes nomes da nova geração. Na abertura, uma novidade: um rap, o “Rap do Arrepiado”, cantado por Sandra de Sá. O diretor escolhido por Daniel era Marcos Paulo, que teve que sair para fazer outro projeto e, por unanimidade entusiástica, exigimos — e Daniel concordou imediatamente — que o diretor fosse nosso amigo Guel Arraes. Pernambucano criado em Paris, Guel estudou cinema na França, foi assistente de Godard e vinha de uma experiência vitoriosa em dupla com Jorge Fernando na direção de novelas em “Guerra dos sexos”. Mas o trabalho nas novelas era exaustivo e a pressão violenta e Guel queria fazer um seriado, com mais possibilidades criativas e mais tempo de realização, queria experimentar. Como nós. De cara transformamos a dupla de protagonistas em um harmonioso triângulo amoroso com a mocinha “Zelda”, que insistimos para que fosse interpretada por Andréa Beltrão, jovem atriz talentosa e totalmente fora dos padrões de beleza de mocinhas da TV. Os dois surfistas-aventureiros, com naturalidade e humor, sob o
mesmo teto, viviam um romance simultâneo com a jovem jornalista. Como um Jules e Jim praieiro. Pra lá de alternativo.

As histórias seriam narradas por um disc-jockey de rádio, inspirado em Big Boy, mas negro, como seu próprio nome dizia: ‘ Black Boy. Só que o personagem seria interpretado por uma garota, e a escolhida foi Nara, filha de 20 anos de Gilberto Gil. Contrariando todas as séries do gênero, logo no final do primeiro episódio um dos heróis morria, despencando com sua moto de um despenhadeiro. Todo mundo chorava. A história acabava. Mas logo em seguida o herói voltava a aparecer, para as confraternizações finais com o resto da turma, sem nenhuma explicação. Em off, a DJ “Black Boy” falava em ritmo de rap sobre verdade e mentira, sobre o falso e o verdadeiro, sobre a realidade e a imaginação. O primeiro episódio de “Armação ilimitada” marca o primeiro nu frontal da televisão brasileira em horário nobre. Mas era uma piada visual: Zelda, nua em pêlo, pede carona na beira da estrada. Mas seus seios e sexo estão cobertos, mínima mas ostensivamente, por duas faixas negras horizontais, inseridas na edição. Como em clássicas imagens censuradas. Era uma piada visual com a Censura, com o fim da Censura na Nova República. Mas na véspera do programa ir ao ar, enquanto virava noites na edição com João Paulo de Carvalho, usando e abusando de slow e fast motions, numa linguagem muito mais próxima de videoclips do que de novelas, Guel Arraes recebeu a notícia de que a Censura Federal, que tinha visto uma versão semipronta para dar a liberação, tinha mandado cortar a cena. Apesar das tarjas negras, ou por causa delas. “De jeito nenhum!”, ofendeu-se Guel com seu sotaque recifoparisiense. Subiu nas tamancas. No caso, sandálias sertanejas, ‘ que usa sempre, até com paletó e gravata. “Deixe comigo que eu resolvo tudo com Fernando Lyra, que é amigo de meu pai, conheço desde criança.” Guel é filho de Miguel Arraes, o velho patriarca socialista, de volta triunfalmente a Pernambuco.

Fernando Lyra era seu correligionário, amigo e discípulo e devia muito a Arraes por sua nomeação para ministro da Justiça do governo Sarney. Guel voltou para a edição, não tocou na cena e muito menos falou com Fernando * Lyra. O programa foi ao ar inteiro, sem qualquer corte. A TV Globo ficou esperando a multa, o processo, o telefonema, a ida a Brasília. Mas não aconteceu nada: ou a Censura não viu, ou esqueceu que mandou cortar, ou achou melhor deixar para lá, ficando o visto pelo não visto. Era a alvorada bagunçada da Nova República. Pouco depois, quando Je Vous Salue Marie, de Godard, foi proibido, Fernando Lyra pediu tolerância com Sarney dizendo que ele era “a vanguarda do atraso”. Voltei para Roma, com Euclydes e sua nova mulher Christine Nazareth. Nosso contrato com Daniel para o “Armação ilimitada” era para trabalhar na criação e escrever os quatro primeiros capítulos: uma armação limitada e cumprida. De volta ao Parioli, à comida do Domenico, ao futebol no Olímpico.

Voltamos felizes: apesar do sucesso com os jovens, o “Armação ilimitada” era visto com desconfiança por Boni, que bancou a proposta de Daniel de colocar no horário nobre um seriado como aquele, com aquela linguagem e aqueles conceitos, em rede nacional. O público adulto estava detestando. Mas além dos jovens, as crianças gostavam. O programa estava correndo sérios riscos de rebaixamento na programação quando chegou a notícia de Barcelona: o “Armação ilimitada” tinha ganhado o Prêmio Ondas, da Espanha, um dos mais importantes do mercado internacional de TV, como “melhor programa juvenil”. Boni reuniu toda a equipe na sua sala, falou com entusiasmo da série, de seu humor pop e sua linguagem visual muito diferente de tudo que se via na nossa TV. E reforçou as “chamadas”, as audiências cresceram, o público foi assimilando os novos truques, o “Armação” se tornou um dos grandes sucessos do ano. Filipelli começou a vender o seriado no mercado internacional, mas na Itália o “Armação ilimitada” não seria exibido pelas redes de Berlusconi ou pela RAI: a TV Globo teria sua própria emissora.

Tinha comprado a Telemontecarlo, que transmitia de Mônaco para a Itália inteira, e o programa seria exibido junto com séries e novelas brasileiras, filmes e esportes internacionais. O jornalismo e alguns novos programas seriam produzidos em Roma. A TV Globo, associada ao Príncipe Rainier, iria competir, no multimilionário mercado italiano, com as três redes da RAI e com as três de Silvio Berlusconi, que juntas tinham mais de 90% da audiência, além de dezenas de emissoras locais independentes e semipiratas. O mercado de televisão na Itália foi desregulado no grito, quando emissoras independentes e mandados judiciais começaram a crescer como cogumelos. A nova legislação estava sendo discutida no Parlamento há dez anos, à italiana, sem definições à vista. Roberto Irineu Marinho mudou-se para um palazzo na Piazza Navona, nomeou o ítalo-brasileiro e ex-diretor comercial da Globo Dionisio Poli para diretor-geral, chamou meu ex-colega Ricardo Pereira, correspondente da Globo em Londres, para dirigir o jornalismo italiano, convocou um time de advogados e contadores e entrou no ar.

A programação da TMC teria várias produções da TV Globo, dubladas em italiano, que faziam grande sucesso nas redes de Berlusconi, alguns musicais, jornalísticos e especiais brasileiros, considerados muito superiores aos similares italianos, filmes e séries internacionais compradas no mercado anglo-americano, e um investimento colossal para montar na Itália uma Divisão de Jornalismo capaz de gerar de Roma um telejornal nos padrões do “Jornal nacional” e competir pau a pau com a RAI e Berlusconi. Toda a programação seria gerada de Roma para Montecarlo e de lá para a Itália inteira. No verão, a fina flor da música brasileira estava de volta a Roma. Gal Costa, Jorge Ben e João Gilberto se apresentariam, em dias diferentes, num grande festival de música à beira do Rio Tevere. No dia do show de João, no fim da tarde, Gal me telefonou: “João Gilberto não vai fazer o show, sabia?”, disse a voz inconfundível. Eu sabia. João tinha me telefonado pouco antes, “da casa de um amigo”, para dizer que não ia cantar à noite. Tinha saído do hotel, escondido dos empresários italianos furiosos com o cancelamento do show, com a perda da lotação esgotada (seis mil ingressos vendidos), com as despesas da viagem de João e seu secretário Otávio Terceiro. A coisa estava feia: “Só recebemos as passagens dois dias antes... o avião parou três horas em Paris antes de ir para Roma... o ar-condicionado do avião... o vírus... a gripe... a garganta...”, explica com voz rouca entre silêncios. João sabe que conheço alguns jornalistas e um dos empresários italianos que estão atrás dele, Sandro, dono do bar Manuia, casado com uma mulata brasileira. “Diga a eles que eu vim aqui para cantar. E não para não cantar. Que eu vou fazer Antibes e Montreux e depois eu volto aqui e faço o show”, pediu com voz sofrida. ‘A coisa estava feia desde o início da tarde. Como João não atendia o telefone, os empresários foram para o hotel. Com um médico. Se João estivesse mesmo com gripe, como dizia Otávio, o dottore lhe aplicaria uma injeção de efeito fulminante e ele estaria pronto para fazer o show. Foi quando João decidiu sair do hotel discretamente. Indiquei-lhe um médico, que atendia a Embaixada do Brasil, para o examinar e dar um atestado, e um advogado, para que ele pudesse sair do país. Mas pela fúria dos empresários deveria ter mandado também um guarda-costas. Os jornalistas e os empresários me ligam sem parar querendo saber de João. Digo o que ele me disse, não sei de onde. Ameaçam chamar os carabinieri. Um dos empresários, que eu não conhecia, diz que se encontrar João lhe dá um tiro. Coisa preta na Cidade Eterna. Sandro tenta em vão que Gal Costa e Jorge Ben façam um show juntos no lugar de João. No dia seguinte, devolvidos os ingressos e contabilizados os prejuízos, os ânimos estão, relativamente, mais calmos. João voltou para o hotel. Passo a tarde intermediando negociações entre ele e os italianos. Sandro quer que ele marque a nova data. Ele marca. Mas o outro empresário está furibundo e exige que João também deixe um depósito em dinheiro e pague pela publicidade. João se ofende. Diz que vai fazer o show depois de Antibes e Montreux. E parte para o Sul da França.

Mas o sócio de Sandro está cuspindo fogo. Diz que tem certeza absoluta de que João não vai voltar para fazer o show. E mais: que duvida até que ele faça o show em Antibes. E parte feroz para o Sul da França. — Em Antibes, assiste extasiado ao show perfeito de João, ovacionado pela platéia. Comovido, vai aos camarins se apresentar: nunca tinham se visto antes, se conheciam apenas por ameaças via terceiros. Abraça e beija João efusivamente. Tornam-se amigos de infância. Volta feliz para Roma certo que João fará o show na data marcada. Como de fato fez, com lotação esgotada e aplaudido de pé. Na primeira fila, o empresário truculento chorava e ria ao mesmo tempo. Quando chego a Montreux, o diretor do festival, Claude Nobs, está eufórico: João Gilberto já chegou. Antonio Carlos Jobim é esperado a qualquer momento: vai dividir com João a “Noite brasileira”. Miles Davis também já chegou e Ella Fitzgerald, Kid Creole and the Coconuts, Astor Piazzolla e King Sunny Adé chegam nos próximos dias junto com as estrelas que fazem as 20 noites do festival. João e Tom não se apresentam juntos há 23 anos, desde o histórico show do Au Bon
Gourmet junto com Vinícius e Os Cariocas. E Claude está excitado com a possibilidade de que eles façam duas ou três músicas juntos: o festival é gravado inteiro para disco (e lançado pela Warner) e um dueto de Tom e João é uma preciosidade. João não diz que sim nem não e Tom está na Espanha fazendo shows com sua Banda Nova e seu quinteto vocal feminino. No bar do Cassino, encontro os amigos Nesuhi Ertegun, big boss da Warner e grande fã de João, e Tommy LiPuma, que produziu “Amoroso”, um dos grandes discos de João. LiPuma também é o produtor de Miles Davis e diz que um de seus grandes sonhos é juntar os dois, e que Miles adora a idéia. Diz que a música de João e de Tom mudaram o jeito de Miles tocar no início dos anos 60, quando gravou, com arranjos de Gil Evans, o seu histórico Lp Quiet Nights. O show começa às nove mas já são sete e Tom Jobim ainda não chegou a Montreux. A esta hora ele e seus músicos estavam saindo de Madri num vôo atrasado e só chegariam a Genève às nove.

Mais uma hora de carro até Montreux. Na terra dos relógios, em plena quarta-feira, um show que começa com uma hora e meia de atraso c’est un escandal! Quando soube às sete horas que Tom estava saindo de Madri, Claude, em desespero, mandou buscar em Genève um brasileiro que tocava em bares, um certo Zé Barrense, para entreter a plateia que esperava... Tom Jobim e João Gilberto. Foi um completo desastre, aquele pobre nordestino cantando e tocando violão sozinho no meio do palco do Cassino de Montreux, mais de metade do público fugindo para os bares, entre pragas e piadas. São quase onze horas quando Tom Jobim entra no palco esbaforido e o público vaia e aplaude. Ânimos exaltados na noite alpina. Mas bastaram 20 minutos da magia jobiniana para encher de música e aplausos a sala, já desfalcada de um quarto do público. João, pronto desde as nove, assiste ao show da coxia. Tom sai de cena aplaudidíssimo e à meia-noite e meia, com metade da casa, João inicia sua histórica apresentação de duas horas e dez, que, lançada em seguida em álbum duplo, seria um dos seus grandes discos.  

Depois do show, a sala de imprensa fervilhava. Um nervoso crítico gay do Tribune de Genève afirmava irritado que Tom tinha atrasado porque não queria se apresentar “abrindo” para João, que tudo era uma briga de egos, de duas prima-donas tropicais. Desmenti energicamente e ironizei: “Você não entende nada de música: que cantor do mundo quer se apresentar depois de João Gilberto?” No dia seguinte João telefona, feliz com o show e com a paz suíça, e me lê um bilhete que recebeu de Antonio (como chamava Tom), pedindo desculpas pelo atraso e o cansaço e adiando o encontro. Desencontro histórico em Montreux. Convidado por Daniel Filho para integrar a equipe de criação de um novo musical para a TV Globo, voei para o Rio para uma breve temporada: o acerto era trabalhar no conceito, na estruturação, no formato, desenvolver os quatro primeiros programas e arrivederci Rio. O apelo era irresistível: um musical de luxo, com alta qualidade de som, montões de grana para convidados e para ter a dupla de apresentadores de meus sonhos: Chico Buarque e Caetano Veloso. Sugeri também que tivéssemos a cada programa, além de grandes nomes da MPB, jovens estrelas da nova geração e um convidado internacional — sempre um latino-americano. No primeiro programa teríamos Maria Bethânia e Rita Lee cantando sozinhas, com Chico e Caetano, e fazendo entre elas um inédito dueto. O grande mestre argentino Astor Piazzolla seria o convidado internacional.

Além do espírito nacionalista, a força máxima da MPB unida em volta de dois de seus grandes líderes, “Chico & Caetano” trabalharia pela integração latino-americana através da música. Os cubanos Pablo Milanés e Silvio Rodrigues, o panamenho Ruben Blades e o portoriquenho Willie Colon seriam os próximos. Em horário nobre, em rede nacional de televisão, toda semana. Rita Lee adorou ser convidada para o primeiro programa. E para bagunçar com o nacionalismo e a latinidade, em golpe de mestra, escolheu um velho sucesso de Carmen Miranda, um samba americano, em inglês, cantando com sotaque carregado: “IIIIII like you verrry much IIIIII think you’re grrrrand...” Montamos um regional para representar o Bando da Lua e Rita cantou com muita graça e humor, revirando os olhos azuis. Todo mundo adorou. Maria Bethânia especialmente, que em mais de 20 anos de vida artística nunca tinha falado com Rita Lee, que por sua vez jamais tinha trocado uma palavra com Chico Buarque em 20 anos de estrada musical.

Bethânia e Rita cantaram, por sugestão de Bethânia, “Baila comigo”, numa perfeita tradução da harmonia por contraste: a voz grave e vigorosa de Bethânia, sua interpretação teatral exuberante, com o fraseado cool e a performance pop de Rita. Mas o melhor, ou o pior, ainda estava para acontecer. O gran finale, com todo mundo cantando junto. Em momento não muito feliz, escolhi e insisti para que a música fosse uma nova de Caetano, que ele tinha feito para uma montagem teatral de Regina Duarte e que se chamava singelamente “Merda”. Não foi preciso insistir muito: todo mundo concordou. Era uma música para cima, para fora, animada, brincando com a velha tradição teatral de desejar “merda” aos atores em suas estreias, nada ofensivo ou agressivo, nada mais apropriado para a estréia do programa. E assim foi, no final, com todo mundo cantando e desejando “merda” para todo ; mundo no palco e o público aplaudindo. “Nem a loucura do amor, da maconha, do pó, do tabaco e do álcool * vale a loucura do ator quando abre-se em flor sob as luzes no palco...  Noite de estreia, tensão, medo, deslumbramento, feitiço, magia... Merda! Merda! Merda! Pra você desejo merda, merda, Merda pra você também...” No dia seguinte, uma nota numa coluna de jornal comentava a gravação do programa e adiantava que não havia possibilidade de o final ir ao ar. E que não era pela Censura Federal. Fiquei furioso, mas assim que a raiva passou vi claramente a situação — e como tinha sido irresponsável a minha escolha, que, cortada, deixaria o programa sem final. Deveríamos pelo menos ter gravado um final alternativo. Que
merda!Como pude imaginar que a TV Globo, com ou sem Censura, deixaria ir ao ar em rede nacional, em horário nobre, o primeiro time da música brasileira mandando todo mundo à merda? É claro que seria ofensivo para milhões de famílias, abusivo com milhões de crianças, uma total irresponsabilidade, gerada pela embriaguês democrática e dividida com todos os malucos que aceitaram a infeliz escolha. Mas ficou muito engraçado, divertidíssimo, como se ouviu no Lp da Som Livre com os melhores momentos do programa.

Em outro programa, o convidado especial era Tim Maia, que chegou para o ensaio à tarde doidão e animadíssimo, brincou com todo mundo, contou piadas, cantou divinamente, reclamou do som o tempo todo, com seu grito de guerra, terror dos técnicos de áudio: “Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo!!!” E à noite não apareceu para a gravação. O programa foi ao ar com a gravação do ensaio, com o melhor das músicas e das piadas, num ambiente tão alegre e relaxado que seria impossível reproduzir num programa de televisão. O público adorou, vendo todo mundo à vontade, sem figurinos e maquiagens, se divertindo com o humor e a música de um grande personagem. Justamente quando não foi, Tim Maia foi a grande estrela de “Chico & Caetano”.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe , com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*




Saudades do Brasil


Com o início das operações da ‘Telemontecarlo, os pasolinianos escritórios da Globo International foram fechados e Filipelli e a companhia transferidos para Londres. Na Itália, a TV Globo deixaria de ganhar vários milhões de dólares com a venda de novelas e passaria a gastar: seria compradora. E precisaria de gente para produzir seus programas. De volta a Roma, como já tinha algum know-how de Itália, falava a língua, tinha experiência em televisão e vinha de um sucesso como o “Armação ilimitada”, achei que seria ótimo produzir um programa para a Telemontecarlo. Como ninguém me chamou, montei o projeto de um programa semanal para jovens misturando comédia e videoclips, e fui oferecer a Dionísio Poli. Ele não se interessou muito mas, como a produção era baratíssima, sem muito entusiasmo, aceitou: US$ 5 mil por programa, para pagar estúdio, equipe e equipamento, elenco e edição, para fazer a série “Pop Shop” por seis meses.

Com meu assistente Massimiliano, o DJ brasilianista da Rádio Dimensione Suono, montamos num galpão do Trastevere o cenário: um balcão de venda de discos numa loja de departamentos. Os dois apresentadores seriam minha amiga napolitana Maria Giulia, que não era atriz mas cantora, fazendo uma vendedora de discos, e o próprio Massimiliano, que estaria sempre atrás de uma câmera de vídeo. Ele seria o “vendedor” da seção de vídeo da “loja” e pegaria uma câmera para “conversar” com Maria Giulia, discutir, fazer charme, mostrar as pernas dela, dar closes nos seus lábios. O assunto dos personagens é música: Maria Giulia adora as estrelas internacionais, principalmente brasileiras, e ele detesta, só gosta de grupos de rock e new wave italiano, é um típico “paninaro”, um mauricinho, um garotão da hora. Com a ajuda de um roteirista italiano escrevi os diálogos para eles e para outros personagens, que aparecem em um “videofone” no balcão de Massimiliano, falando de algum lugar da Itália. Entre eles uma velhota de 70 anos, desbocada e libertária, metaleira de couro negro, “Giovanna Dark”, pedindo vídeos de bandas de rock pesado; e um veterano de 1968, “Dino Sauro”, sempre chapado de haxixe no seu sofá, lembrando os velhos tempos revolucionários e pedindo que ela passe vídeos do Pink Floyd e do Santana.

Fizemos tudo com uma câmera na mão, alternando diálogos, piadas e comentários com os clips escolhidos por Maria Giulia, Massimiliano e os personagens no “videofone”. Ficou tudo meio pobre, meio precário, pra lá de alternativo, mas ficou muito divertido, cheio de boa música de diversos gêneros e países, de piadas e truques visuais e de situações de comédia. Mas estreou quase despercebido, com 2% de audiência, e foi ignorado por crítica e público — como toda a programação da Telemontecarlo! Era impossível quebrar o monopólio de credibilidade dos telejornais das três emissoras da RAI, um dirigido pela democracia cristã, outro pelos socialistas e um terceiro pelos comunistas. Desde o início da televisão os italianos se acostumaram a acreditar no, “Telegiornale” das oito da noite.

Jamais deixarão de vê-lo para assistir a um outro feito por brasileiros e gerado de Montecarlo, por melhor que seja. Baseado nos ritmos e padrões do “Jornal nacional” e mesmo muito bem produzido, o telejornal da Telemontecarlo não funcionou. Não dava mais do que 2% de audiência. A novela . que vinha em seguida pegava a audiência com 2% e ali ficava ou caía. Com a pouca audiência da novela, o especial e o filme também naufragavam. No Brasil, a audiência absoluta do “Jornal nacional” entregava o horário para a novela com 60% de Ibope. A receita de programação brasileira funcionava ao contrário na Itália, onde um programa puxava o outro, mas para baixo. Antes, nas emissoras de Berlusconi as novelas brasileiras davam grandes audiências, faziam muito sucesso, porque entravam em seguida a programas populares, com grande massa de espectadores. Na Telemontecarlo, ninguém via.
Quando vi os mapas de audiência da programação da TMC, entendi tudo e me lembrei de uma conversa com Boni no Rio, quando disse a ele que iria produzir e dirigir um programa para a Telemontecarlo.

“Se você quer se divertir, comer bem e ficar morando numa cidade deslumbrante, não há lugar melhor. Mas é claro que vai dar errado. Esta operação toda é uma loucura e eu sempre fui contra.” E explicou por quê. Era exatamente o que estava acontecendo. Fora as brigas judiciais e policiais. Fazia parte da rotina da Telemontecarlo a notícia que em alguma cidade as emissoras locais tinham conseguido um mandado judicial para lacrar os nossos transmissores. Os advogados da TMC entravam com mandados de segurança, invocavam a liberdade constitucional de expressão e em alguns dias liberavam os transmissores e iniciavam interminável briga judicial à italiana. Até que outros fossem interditados. Nas principais cidades, sob o império da lei, os carabinieri executavam a ordem judicial de tirar a emissora do ar. Em regiões mais brabas como a Sicília e a Calábria, os transmissores da Telemontecarlo foram literalmente pelos ares, com bombas.

Três meses depois eu não agüentava mais. Tudo era difícil, a produção era paupérrima, a edição precária, a equipe técnica lentíssima (parava três horas para o almoço), era uma batalha conseguir os vídeos nas gravadoras. Passada a novidade inicial, era cada vez mais penoso escrever e gravar o programa cada semana. E a audiência não saía dos 2%. Comecei a ficar com saudades do Brasil, da eficiência e potência da TV Globo, de falar a minha língua e me divertir com minha família e meus amigos. Além disso, tirando o napolitano Pino Daniele e alguns “cantautores” dos anos 70 como Lúcio Dalla e Edoardo Benatto, o pop italiano era ruim de doer. Mas felizmente Daniel Filho me chamou ao Rio, para outro projeto longamente sonhado: escrever junto com Euclydes Marinho um especial para Tom Jobim. Não seria um especial tipo “vida e obra”, mas misturando alguns clássicos com as canções de seu novo disco, belíssimo, gravado em Nova York. Os pontos altos eram uma versão sinfônica de sua obra-prima “Saudades do Brasil” (que apesar de a gravação ter resultado belíssima, por ser muito longa — sete minutos — acabou não entrando na edição final) e um dueto de “Chansong” (que tem letra anglo-francesa) que imaginei com o maestro de smoking, tocando e cantando baixinho nos salões vazios do Hotel Pierre. Sua companheira de dueto seria Márcia Haydée, uma diva do balé clássico. 

Mas as negociações complicaram e as gravações foram feitas em Nova York, no Pierre, mas com outra Márcia bailarina, a Albuquerque, que tinha participado de alguns musicais da Broadway. Entre as novidades, a sofisticação novaiorquina de “Two Kites”, com surpreendentes ecos de uma batida disco-music, de muito bom gosto; e entre os clássicos, uma grandiosa versão de “Se todos fossem iguais a você” em marcha-rancho que fechou gloriosamente o programa. Entre as surpresas, um dueto com ele ao piano cantando junto com Marina Lima o clássico “ Lígia”. Além da música, Tom nos brindou com uma visita guiada ao Museu de História Natural de Nova York, com amplas explicações sobre pássaros,
mamíferos e roedores, e especialmente sobre seus favoritos, os urubus — que deram título a um de seus grandes discos. Em conversa, descendo a Quinta Avenida, olhou pra cima e comentou, citando Fernando Sabino: “A melhor maneira de conhecer Nova York é de maca.”

No Festival de Cinema e Vídeo de Nova York, “Antônio Brasileiro”, “ dirigido por Roberto Talma, ganhou o prêmio de “Melhor musical”. De volta a Roma, uma noite, no piano-bar Manuia, assim que entrei, o craque Toninho Cerezo, do Roma, me chamou a atenção para uma mesa com quatro morenas brasileiras. Embora as três garotas fossem bonitas, era a mãe que mais atraía olhares. Era Silvia de Azevedo Marques, exMonte, uma bela dama da sociedade carioca, amiga de minha irmã, com as filhas Lívia, Letícia e Marisa, de 19 anos, para quem ela havia me pedido, há quase um ano, que desse alguma orientação musical e acadêmica. Marisa queria ser cantora, estava indo estudar em Roma e, a pedido de minha irmã, me visitou no Rio, muito educada e discreta. Conversamos sobre música, ela cantarolou um pouco, mas como eu não sabia nada de professores e academias de ópera, falamos sobre música brasileira e fiquei surpreendido como uma menina da sua idade, fã de Maria Callas e Billie Holiday, conhecia tanto sobre João Gilberto, Vicente Celestino, Lamartine Babo, Velha-guarda da Portela e outros excluídos de sua faixa etária musical. Não a vi mais. Marisa ficou alguns meses estudando canto em Roma mas só a reencontrei naquela noite no Manuia, quando ela me disse que tinha desistido da ópera. Para fazer carreira lírica teria que morar fora do Brasil, o meio operístico era muito careta e competitivo e ela estava voltando para o Rio e queria ser cantora de música popular. Mas antes ia passar uns dias em Veneza e fazer um show num bar, acompanhada por um amigo violonista italiano, casado com uma brasileira.

“Aparece lá”, disse como quem fala do bar da esquina, e escreveu no guardanapo o telefone do casal em Veneza. No dia do show, em movimento que surpreendeu a mim mesmo, peguei um avião para Veneza. Claro, não era só para ver a garota cantar, eu mal a conhecia. Talvez para escapar das decepções televisivas, do pop italiano, não entendi muito bem por que estava indo, mas, afinal, quem precisa de um motivo para ir a Veneza na primavera? O bar à beira do canal era pequeno e charmoso. Suas portas se abriam para um calçadão, com mesas ao ar livre, vasos de flores e um pequeno palco ao fundo. Quando cheguei, nem metade das mesas estavam ocupadas. Era uma noite comum, o show semi-amador só foi anunciado no boca a boca de turma de amigos, Roberto Bortoluzzi amava música brasileira, era esforçado, mas era um violonista amador. Marisa nunca tinha feito um show profissional, mas quando começou a cantar, iluminada por meia dúzia de spots, estava muito diferente da garota que vi em minha casa e depois no Manuia. Com os cabelos negros cacheados descendo pelos ombros, sobrancelhas grossas, olhos escuros, um nariz grande e uma enorme boca vermelha, cantando Caetano, Gil, Milton, Chico, Tom Jobim, pura MPB de piano-bar, com uma certa dramaticidade operística, ótima afinação e belo fraseado musical. E uma voz linda. À medida que ia cantando, as mesas foram se enchendo, foi se enchendo o calçadão em frente ao bar, e o show terminou aplaudido pelo que, nas dimensões venezianas, pode ser considerado uma pequena multidão. Ela e Roberto, que esperavam uns trocados do dono do bar como participação na renda da noite, acabaram recebendo cada um 50 mil liras, US$ 70. Para Marisa, uma fortuna: seu primeiro cachê internacional. Fiquei mais uns dias flanando em Veneza e voltei para Roma. Marisa foi para Milão e de lá para o Brasil. Fiquei muito impressionado, não só com sua voz e performance, mas por sua atitude: a garota só
pensava naquilo, em cantar, em aprender música, em emocionar as pessoas. Tinha ótima cultura musical, conhecia jazz e ópera, bossa nova e MPB, choro e funk, tropicalismo e rock, tinha uma obsessão por qualidade e parecia muito séria e determinada em sua escolha. Não
ambicionava fazer sucesso: queria cantar bem, músicas bonitas. No Brasil, onde elegeu quase a totalidade dos governadores, o governo Sarney decretou a falência do Plano Cruzado logo depois das eleições. Com as reservas dizimadas, desmoralizado nos mercados internacionais, com a dívida externa fora de controle, a inflação reprimida explodindo e a economia desorganizada entrando em parafuso, o Brasil quebrou: a conta seria alta, recessão, inflação, desemprego, desilusão, desmoralização das instituições.

Fui passar o fim de ano no Rio de Janeiro e encontrei o país perplexo e revoltado, com a sensação de que, mais uma vez, tinha sido enganado. A lambada explodia nas rádios, perfeita trilha sonora para o momento. Passei o Natal no Rio e voltei para Roma com minhas três filhas, que passariam as férias comigo, enquanto eu continuaria as gravações do malfadado “Pop Shop”, num inverno gelado. Depois de um mês em Roma, com o naufrágio da Telemontecarlo, a pobreza da produção e a total falta de perspectivas, em uma rápida conferência familiar decidimos por unanimidade que a aventura romana estava encerrada. Era só gravar os poucos programas que faltavam para cumprir o contrato e voltar para casa.
Sem casa, sem trabalho e sem namorada, voltei feliz para o Rio de Janeiro, às vésperas do carnaval de 1987. “O Rio amanheceu cantando/toda a cidade amanheceu em flor/ os namorados vão pras ruas em bandos porque a primavera é a estação do amor.” A alegre marchinha de Braguinha da velha chanchada da Atlântida encheu meus ouvidos quando o carro saiu do Túnel Novo e o mar azul de Copacabana explodiu diante dos meus olhos. Bem, não era primavera, muito pelo contrário, o Rio estava fervendo, às vésperas do carnaval, na rebordosa da falência do Plano Cruzado. De volta à casa paterna, com 42 anos, pronto para começar tudo de novo. Para desapontamento de minha mãe, que estava adorando a minha temporada extemporânea sob o seu teto, logo aluguei um apartamento todo branco, de frente para o mar de Ipanema, e Esperança, minha filha de 12 anos, foi morar comigo. Abri os trabalhos.

Que trabalhos? Depois do exaustivo fracasso italiano, não queria ouvir falar em televisão por um bom tempo, não pensava em voltar ao jornalismo, estava completamente afastado da produção de discos, Lulu Santos fazia suas próprias letras. Eu estava tecnicamente desempregado. Logo que voltei ao Rio, Marisa Monte telefonou convidando e fui com Dom Pepe ouvi-la, num domingo, no Jazzmania, na Praia de Ipanema, num show semiprofissional produzido por sua irmã Lívia, com apoio da mãe e da irmã Letícia. A operação familiar funcionou, a beleza e simpatia das morenas da Urca ajudaram na promoção e a casa se encheu de amigos para ouvir Marisa cantar Chico Buarque, Tim Maia e
Caetano Veloso, mas também os inesperados i Kurt Weill (“Speak Low”), Marvin Gaye (“I’ve Heard it Through the Grapevine”) e Getulio Cortes, um grande compositor da jovem guarda (“Negro gato”, o ponto alto do show). Uma das primeiras pessoas que recebi no novo apartamento foi Marisa, interessada em conversar sobre música e em orientação para sua carreira.

O que eu tinha visto e ouvido me dava a viva impressão de estar diante de um real talento. E mais: de uma forte personalidade cênica, de uma jovem com ótima cultura musical e muito bom gosto na escolha do repertório e na maneira de frasear as canções, de uma musicalidade à flor da pele. Já vi e ouvi muitas pessoas de talento, muito talento, mas que não foram a lugar algum. Porque lhes faltavam a vocação e a determinação dos que vi triunfar. Ou o carisma. Ou a sorte. Ou tudo isto. Já ouvi muita gente cantando muito bem, mas seus repertórios, sua ignorância e mau gosto os levaram, no máximo, a acompanhar conversas de bar. Aquela garota de 19 anos parecia ter todas as qualidades para se tornar uma grande cantora. E uma obsessiva vontade de aprender, melhorar e crescer. Não ambicionava gravar um disco, nem tocar no rádio, nem ser popular. Queria ser uma cantora de palco, como as cantoras líricas, e as gravações, se acontecessem, seriam conseqüências naturais e secundárias. Porque ela acreditava que a grande música acontecia ao vivo, correndo todos os riscos, sem rede e fugaz como o teatro e a ópera. E por isso com mais emoção do que num registro trabalhado a frio, editado e transformado como o disco. E eu concordei.

Marisa não queria se envolver com gravadoras ou empresários, queria começar pelo começo, fazendo um show, depois outro e depois outro, até amadurecer seu repertório, suas interpretações e sua técnica. E depois seria depois: o importante era cantar, cada vez melhor, melhores músicas. Me ofereci para dirigi-la, com uma única condição: eu não me envolveria com a produção, empresariamento, dinheiro, pagamentos, contratos, nada que não fosse o roteiro e a direção do show. Para fazer o que tinha que ser feito. O namorado de sua irmã, Lula Buarque de Hollanda, que nunca tinha produzido um show na vida, produziria, eu e Marisa receberíamos uma porcentagem dos eventuais lucros dos shows, que sabíamos improváveis. Marisa morava com a mãe, não tinha pressa e não estava preocupada com dinheiro. O que era uma grande vantagem, porque a liberava de pressões econômicas e permitia que dedicasse todo o seu tempo à música, com o supremo luxo de não fazer nenhuma concessão comercial em seu trabalho. Mesmo assim, ela ia na música como quem vai num prato de comida. Diante do talento natural de Marisa, achei que valia a pena investir meu tempo e minha experiência naquela possibilidade. E melhor que tudo, era uma oportunidade rara para pôr em prática — com uma jovem com excelentes recursos — tudo que aprendi sobre o desenvolvimento de um artista. Fazer bom uso de minhas experiências
como jornalista e produtor, como compositor e empresário, como pedra e vidraça. Fazer o trabalho como se fosse uma tese universitária de design artístico, como um projeto completo de produção, não de um disco ou um show, mas de um novo artista. Sem influência de nenhuma gravadora ou televisão ou empresário, sem concessões de qualquer ordem, com a qualidade artística como prioridade absoluta. Fazer o que tinha que ser feito.

Primeiro a base de tudo: escolher as músicas, não só as mais bonitas, mas as mais adequadas à artista, a seu timbre, a seu jeito de cantar. Sim, porque muitas vezes um artista gosta de uma música — mas a música não gosta dele e o desastre é certo. Ouvimos centenas de músicas de diversos estilos e gerações, entre elas uma belíssima canção do napolitano Pino Daniele, com uma letra que, a pedido da cantora portuguesa Eugênia Melo e Castro, comecei a escrever dois anos antes. Demorei tanto que Eugênia desistiu e, quando finalmente a terminei, ofereci a Marina, mas ela também não se interessou. Marisa adorou: parecia que a música estava esperando por ela. “Bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz mas já não há caminhos pra voltar o que é que a vida fez da nossa vida? o que é que a gente não faz por amor?” Não era uma tradução de “E po ché fá”, mas uma letra totalmente
original sobre a melodia de Pino.

Mesmo porque, como metade da letra era em napolitano, eu não entendia absolutamente nada. Marisa e eu estávamos nos entendendo às mil maravilhas, parecia incrível como, apesar do generation gap, tínhamos uma grande identidade de gosto musical. Além de João Gilberto, Marisa adorava Custódio Mesquita, sofisticado compositor dos anos 30/40, um dos favoritos de João. Escolhemos dele os foxes “Nada além” e “Mulher” Não sei/ que intensa magia/ teu corpo irradia/ que me deixa louco assim/ mulher”), que naturalmente sempre só foi cantado por homens. De Custódio para Tim Maia, out o favorito, com os funks “A festa” e “Chocolate”, um jingle divertido que ele compôs nos anos 70 e depois transformou em música. Na seqüência, “Negro gato”, como um blues bem pesado, rascante e sensual, Billie-Holiday-no-Estácio.

Outras boas descobertas: a pouco conhecida “Samba e amor” (“Eu faço samba e amor até mais tarde/ e tenho muito sono de manhã...”), que Chico Buarque compôs em seu exílio italiano, em 1970, também a ser levada em heavy blues, sexy e preguiçosa. E o hit brega de Peninha, “Sonhos”, reabilitado por uma regravação recente de Caetano Veloso. Mas a versão de Marisa teria uma dramaticidade intensa e ansiosa, deliberadamente over, como um quase tango, o ambiente musical mais adequado para sua letra de perda e abandono. Como um Piazzolla suburbano.

Aos poucos formamos um repertório básico, cada vez mais desigual, buscando grandes contrastes para surpreendentes harmonias, dentro de um conceito que contrariava todas as tendências da indústria do disco. As gravadoras queriam bandas de rock ou então especialistas, com um padrão definido, e principalmente que compusessem  suas músicas. Além de não ser compositora, Marisa não era uma cantora de rock, nem uma sambista, nem uma romântica, porque era um pouco de tudo isto e mais, cantava blues e funk e soul e até bossa nova. Por que não um repertório que expressasse exatamente isto? Sem truques. Escolher com rigor grandes músicas de diversos estilos e de várias gerações. Um repertório que funcionasse como uma declaração de princípios musicais, que mostrasse a cantora como uma encarnação da frase de Torquato Neto: “Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira. Gilberto Gil prefere todas.”

Porque Marisa também gostava muito de muita coisa dos melhores autores da sua geração, como Renato Russo, Cazuza, Lobão e a rapaziada dos Titãs, que tinha acabado de lançar um novo disco. Em Jesus não tem dentes no país dos banguelas, encontramos um clássico instantâneo do rock brasileiro, de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, que avançava a discussão política em forma e conteúdo: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte, a gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor, a gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor, a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade, a gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade.” “Comida” foi imediatamente incluída no repertório, numa ambientação mais jazzística. Junto com uma nova canção de Lobão, de seu recém-lançado e estupendo Lp Vida bandida, com letra de BernardoVilhena, que também deu nome ao show de Marisa: “Tudo veludo”. “Tudo, tudo veludo, tudo, tudo, tudo azul na noite.” Uma música de estranha beleza, ultradissonante, com sequências harmônicas complexas, intervalos raros em música pop, dificílima de cantar. E mais ainda de cantar bem.

Para (des)equilibrar, em seguida escolhemos dois grandes sambas, que Marisa conhecia desde criança, quando seu pai, Carlos Monte, era da diretoria da Portela: o belo samba-enredo “A lenda das sereias” e o lento e pungente “Preciso me encontrar (Deixe-me ir)”, de Candeia. E fechamos o repertório com um blues de Rita Lee e Paulo Coelho, “Cartão-postal”, uma linda versão de Augusto de Campos para a “Elegia”, de John Donne, musicada por Péricles Cavalcanti em ritmo de beguine, um clássico de Os Mutantes, “Ando meio desligado”, e uma marchinha de Assis Valente lançada por Carmen Miranda, “Good Bye Boy”. Quanto mais o repertório se integrava com músicas aparentemente inconciliáveis, mais nos divertíamos. Isto contrariava todas as receitas do sucesso, resultava em cantores sem estilo e, no máximo, em crooners, diziam as lendas do mercado musical. Mas era justamente o que se buscava, a liberdade de cantar canções extremamente diferentes entre si, mas unidas pela qualidade musical e poética. A cantora seria a soma de todas essas escolas e gerações, dessas contradições, mostraria que era possível fazer disso um estilo, afirmaria uma visão da música brasileira aberta e libertária, integrando opostos e contrários em nome da surpresa e da beleza.

Segundo movimento: conseguimos um jovem pianista, um aluno de Luiz Eça que tocava bem e estava disposto a passar as tardes ensaiando, quase de graça. Roberto Alves adorava tocar piano. Como não tinha piano em casa, tocava todos os dias na seção de pianos da Mesbla, graças à boa vontade do gerente. No apartamento da mãe de Marisa, de frente para a Baía de Guanabara, Roberto passou as tardes repetindo dezenas, centenas de vezes cada música, enquanto Marisa encontrava uma forma de cantar e procurávamos um ritmo, uma levada, um fraseado para cada uma. Suave, cool, elegante, pesada, agressiva, econômica, dramática, irônica, até achar um jeito pessoal de dizer cantando aquelas coisas tão diferentes. Uma a uma, frase a frase, sempre mais uma vez. Fiel ao método gilbertiano, que pela repetição sempre diferente procura a forma perfeita, sempre em movimento sem sair do lugar, torturei Marisa e Roberto tardes a fio, entre cafezinhos, pães-de-queijo e um eventual baseado. Às vezes me sentia um professor de ginástica.  Outras, um designer pop.

Centenas de vezes depois, quando cada música começou a tomar forma, a ganhar uma linguagem própria, começamos a chamar outros músicos, jovens conhecidos de Marisa: o baterista Edu Szajinbrum, o baixista Ronaldo Diamante e um percussionista de suingue sutil e elegante, Marcos Suzano. E improvisamos um trio de backing-vocals em três músicas com Letícia, irmã de Marisa, minha filha Joana, de 17 anos, e o jovem ator Carlos Loffler. Estávamos prontos para começar. O RPM começava a acabar. Depois de vender mais discos mais rápido do que qualquer outro artista brasileiro e de se apresentar para milhões de espectadores em todo o país e na América Latina. Sob a barragem cerrada de legiões de fãs histéricas, o maior fenômeno do rock nacional naufragava num mar de álcool, cocaína e megalomania. Rock é clichê. Como em toda banda de sucesso, os egos entram em conflito, todos os excessos são permitidos, cada um quer um pedaço do sucesso, todos querem compor as músicas e ganhar direitos autorais. Quando a banda faz sucesso, o sonho coletivista do rock se transforma em seu pior pesadelo: a disputa pelo poder. Todos sempre acham que são iguais perante o rock, embora em todas as bandas, sempre, haja obrigatoriamente um vocalista carismático e um grande compositor, porque não há rock and roll sem eles. Os outros são, geralmente, apenas músicos competentes, mas sem eles também o rock não rola. Com o RPM não foi diferente.

Quando Paulo Ricardo e Luiz Schiavon mandaram uma carta para a CBS avisando que estavam acabando com o grupo, no auge do sucesso, a gravadora subiu nas tamancas e seus advogados rodaram a baiana. Havia contratos a cumprir, milhares de dólares que a companhia tinha investido, milhões que esperava faturar com a maior banda do Brasil. E chegou-se a um acordo: um último disco, com total liberdade criativa e orçamento ilimitado. Claro, se desse certo, a banda continuaria, de um jeito ou de outro, acreditavam os experientes executivos. Mas Quatro coiotes foi um fracasso retumbante. E a banda acabou, pouco mais de dois anos depois de começar, na mais breve e fulgurante aventura do Rock Brasil. O rock é rápido. Com os Titãs acontece exatamente o inverso. Seu sucesso e sua originalidade se devem e se alimentam exatamente dos talentos, egos e vontades de seus oito integrantes. Nesse conflito permanente, movido a fúria e criatividade, a banda vive e cresce na anarquia, num exercício radical de convivência e tolerância. Nos Titãs, uns são mais inteligentes, outros menos; uns tocam melhor e outros pior; uns cantam muito bem e outros nem tanto. Mas todos cantam e todos compõem, não há líder nem estrela, todos ganham igual. Uma exceção absoluta no mundo do rock. Mas mesmo assim, não por ser um dos principais vocalistas e nem pelo escândalo da sua prisão, mas pela qualidade de suas letras e o brilho e originalidade de suas opiniões, Arnaldo Antunes se destaca como um dos artistas mais talentosos e respeitados da nova geração. Nele se cruzam a cultura pop e a vanguarda paulistana, o conceito e a performance, a música e a letra. O rock, o tropicalismo e a MPB.

O novo disco dos Titãs é ainda melhor do que Cabeça dinossauro. Produzido por Liminha, Jesus não tem dentes no país dos banguelas é mais agressivo e mais musical, mais vigoroso e mais rigoroso, ainda mais provocativo e sofisticado, com bateria eletrônica e cheio de efeitos. Além de “Comida”, se destacam a libertária “Lugar nenhum” (“Não sou de São Paulo, não sou japonês/ Não sou de Brasília, não sou do Brasil/ Nenhuma pátria me pariu”) e a furiosa “Nome aos bois” (Nando Reis/Arnaldo Antunes/Marcelo Fromer/Toni Bellotto), com uma letra feita apenas dos nomes de inimigos da liberdade, da alegria, da paz e dos Titãs: “Garrastazu/ Stalin/ Erasmo Dias/ Franco/ Lindomar Castilho/ Nixon/ Delfim/ Ronaldo Bôscoli/ Baby Doc/ Papa Doc/ Mengele/Doca Street/ Rockfeller/ Afanásio/ Dulcídio Wanderley Bosquila/Pinochet/ Gil Gomes/ Reverendo Moon/ Jim Jones/ General
Custer/ Flávio Cavalcanti/ Adolf Hitler/ Borba Gato/ Newton Cruz/ Sérgio Dourado/ Idi Amin/ Plínio Correia de Oliveira/ Plínio Salgado/ Mussolini/ Truman/ Khomeini/ Reagan/ Chapman/Fleury...” Ronaldo entrou na letra porque no episódio da prisão de Arnaldo detonou a banda como drogada e corruptora da juventude em sua coluna na Última Hora.

Com 20 anos, Marisa estava pronta para começar. Seriam quatro noites no Jazzmania, de quinta a domingo. Marcamos a estréia para o dia da chegada da primavera no hemisfério sul. À medida que avançavam os ensaios, conversávamos muito não só sobre música, mas também sobre gravadoras, rádios, televisões, imprensa, tudo que se relacionava com uma carreira artística. Sobre tudo que está em volta da música, seu melhor e seu pior, sua nobreza e vulgaridade, o comércio e a arte. Ensinando o que aprendi, eu queria que ela soubesse como funcionam as engrenagens do mundo musical, a realidade de uma carreira. E advertia sempre: “Hoje música não é mais só música, é cada vez menos.” É imagem, é palavra e atitude, é dança e teatro, é tecnologia e produto de consumo, é tantas outras coisas. À medida que a informava eu me ouvia, fazendo a mim mesmo um relatório editado de minhas experiências em cada área e identificando Marisa com o idealismo de meus 20 anos. Nosso pacto era fazer o melhor possível, sem truques, era preciso conhecê-los para evitá-los. Queríamos produzir um trabalho que tivesse uma fluência natural, uma sinceridade radical, uma liberdade ilimitada. Sem nenhuma expectativa popular e com imensas ambições artísticas.

Embora eu lhe falasse sempre sobre João Gilberto como padrão de excelência e de integridade artística, Marisa não sabia mas eu queria produzir uma artista para João, que ele gostasse de ouvir, que lhe mostrasse como aprendi com ele. Ele estava morando no Leblon e nos falávamos quase todos os dias pelo telefone e fui lhe contando cada passo da aventura musical com Marisa. Decidi pôr em prática o estrito conceito publicitário gilbertiano: “Informar corretamente às pessoas interessadas.” Só isso e mais nada: sem adjetivos, sem chamar a atenção, sem oba-oba. Mas, no país das cantoras, quem estaria interessado em (mais uma) nova cantora? Não pedi nada a nenhum de meus colegas jornalistas, nem uma notinha, nem uma foto, nada em rádio ou televisão, só o serviço dos jornais informava data e local. O único esforço promocional foi a distribuição de folhetos no Baixo Leblon: queríamos saber como as pessoas reagiriam, sem nenhuma sugestão, sem truques, sem explicações, queríamos enfrentar a verdade. Duzentos convidados para a noite de estréia quase lotam o Jazzmania, seja lá o que Deus quiser.

Antes de irmos para o Jazzmania, num exagero de misticismo musical, telefonei para João Gilberto e pedi que ele falasse com Marisa, para uma inspiração, uma força, como se fosse uma bênção musical. Ele falou, ela ouviu sorrindo e agradeceu. Mas não me disse nada, nem
eu perguntei o que ele tinha falado. E fomos para o show. Há duas versões controversas sobre o que aconteceu na noite de estréia de Marisa Monte no Jazzmania: a minha e a dela, as duas honestas e de boa-fé, mas contraditórias. Para mim, o início do show foi ouvido e vivido como uma tragédia, com Marisa nervosíssima, semitonando notas e atravessando ritmos, como não acontecia nem nos piores ensaios, um pesadelo que durou alguns intermináveis minutos. Ou seria um problema do som, da amplificação de sua voz? Ou as duas coisas? Não posso afirmar que foi exatamente assim, mas com certeza foi assim que ouvi. Embora absolutamente sóbrio, ou por isso mesmo, estava mais nervoso do que ela e tentando aparentar calma e controle, não comentei nada, a única coisa que consegui lhe dizer no pequeno intervalo foi: “O pior já passou. Vamos lá.”
 
Marisa voltou para a segunda parte e cantou com a segurança que cantava nos ensaios e com grande emoção, num crescendo empolgante, e o público delirou. Com seu repertório surpreendente, com a juventude de sua bela figura de minivestido de seda branca e colar de pérolas, com sua performance. Na primeira fila, Dom Pepe e Euclydes foram os primeiros a aplaudir de pé no final e com eles todo o público. Como Marina, as empresárias Silvinha e Monique Gardenberg e o temido cronista Tutty Vasquez, que estavam entre os mais entusiasmados. Um pesadelo que se transformava em sonho de final feliz. Comemoramos discretamente o sucesso e não falamos sobre as primeiras músicas, só sobre a parte final. O pior já tinha passado, pensei, o melhor estava começando. Falamos do futuro, de ampliar ainda mais o repertório, de melhorar alguns arranjos. Só tempos depois conversaríamos sobre aquela noite. Na noite seguinte, sexta-feira, meia casa com alguns amigos e muita gente que tinha ouvido na praia, nos bares, no trabalho, comentários entusiasmados sobre a estréia da nova cantora. O boca a boca tinha começado. Marisa fez um show perfeito, segura,
emocionada, com uma postura dura e tensa mas um gestual expressivo, às vezes meio operístico, passeando com naturalidade e competência pelas paisagens musicais tão diferentes daquele repertório eclético. O público adorou.

Mas André Midani assistiu só à primeira parte e saiu sem falar nada. Na manhã de sábado, diante do mar de Ipanema, abri o Jornal do Brasil e, para minha surpresa, toda a capa do Caderno B era ocupada por uma foto de Marisa cantando no Jazzmania e uma matéria entusiasmadíssima de Alfredo Ribeiro, com o título: “Nasce uma estrela”. Parecia um filme. Não só o título, a coisa toda que estava começando a acontecer. À noite, o Jazzmania abarrotou, voltou gente da porta e Marisa fez um grande show, aplaudida de pé. De Kurt Weill a Getulio Cortes, de Tim Maia a Augusto de Campos, de Peninha a Chico Buarque, de Pino Daniele a Marvin Gaye, harmonizando contrastes e surpreendendo o público. Como queríamos demonstrar. Naquela primavera o Rio de Janeiro amargava uma das piores  “secas” de sua história. Não que faltasse água ou que o asfalto rachasse e houvesse caveiras de burros pelas esquinas. Há mais de um mês não havia maconha na cidade e quando havia era caríssima e de péssima qualidade. E a resposta dos “vapores” era sempre: “É a seca, é a seca.” Os surfistas estavam desesperados, o meio musical nervoso, o público dos shows e das danceterias inquieto. Quando o milagre aconteceu.

Latas, latas e mais latas prateadas, do tamanho de latas grandes de leite em pó, começaram a aparecer boiando no mar do Arpoador e em outras praias cariocas, como cardumes metálicos. Quando os primeiros pescadores e surfistas recolheram as latas hermeticamente fechadas e as abriram, não acreditaram no que viram, cheiraram e fumaram. Cada uma tinha quase dois quilos de maconha prensada com um gosto e uma potência desconhecidos no Brasil. A notícia se espalhou pela praia e pela noite, mas muito pouca gente acreditou: era bom demais para ser verdade. No dia seguinte, mais latas em mais praias, mais pescas miraculosas, arrastões de latas, delírio no Rio de Janeiro. As latas ganham as primeiras páginas dos jornais e o mistério começa a se esclarecer. Um navio, o Solana Star, vindo da Ásia carregado com mais de dez mil latas de “cannabis índica” prensada, de altíssimo teor de the, rumava para a Europa quando sofreu sérias avarias próximo de Angra dos Reis. Antes de abandonar o navio, a tripulação desovou no mar todo o “flagrante”. A bordo, ficou só o cozinheiro, que não sabia de nada mas mesmo assim foi preso. Mas era tarde demais: as latas continuaram a aparecer em cardumes não só nas praias cariocas, mas também no litoral de São Paulo e do Espírito Santo, em Santa Catarina e até no Rio Grande do Sul. Pescadas, compradas, divididas, multiplicadas, distribuídas, as latas derrubaram o preço do jererê no mercado porque eram muito melhores e mais baratas do que o similar nacional. Viraram um símbolode status nas rodas de surfistas e roqueiros e originaram a expressão “É
da lata!” (significando excelência), que se integrou ao vocabulário carioca.

O show de Marisa era “da lata”. Harmonia e contrast Com o governo Sarney completamente desmoralizado e a crise econômica descontrolada, a lambada enchia as pistas e os ares de vulgaridade e o rock brasileiro, rebelde sem causa, entrava em decadência. Parecia o pior, ou melhor, momento para lançar uma artista nova e sofisticada como Marisa. Mal terminaram os shows do Jazzmania, recomeçamos os ensaios, acrescentando e tirando músicas. O novo show seria dentro de dois meses, no mesmo Jazzmania, a pedidos insistentes da casa. Mesmo procurada por diversos jornais, Marisa não deu nenhuma entrevista nem tirou fotos. Para o novo show a “publicidade gilbertiana” continuaria a mesma, só uns folhetos distribuídos em bares jovens, com uma bela foto de Marisa quase de costas. Acabei não resistindo e incluí um pequeno texto: “Suaves negras melodias/ harmonias, palavras luminosas/ sons e sentimentos/ luz e blues/ tons de azuis na noite carioca/ rio sonoro, fonte, ponte, voz: “Tudo veludo”, Marisa Monte.”

Só isso. Nem um anúncio, nem um “tijolinho” nos jornais, nem uma nota, testando e confiando no boca a boca. Só a informação correta aos interessados, na seção de serviços dos jornais, junto com todos os shows em cartaz. Foram quatro noites superlotadas e críticas entusiasmadas, os jornais a chamavam de cantora eclética, Marisa deu suas primeiras entrevistas, descartando qualquer possibilidade de gravar discos e anunciando novo show dentro de um mês. Marisa era uma jovem de hábitos um pouco estranhos para sua idade: não usava jeans e nunca a vi de tênis, andava sempre de blazer, minissaia e sapatos masculinos, era vegetariana e não comia açúcar, lia Nelson Rodrigues e Fernando Pessoa. Não ia à praia, a boates, nem praticava esportes, detestava festas e badalações, gostava de ficar em casa lendo, conversando e ouvindo música e seu sonho era voltar no tempo e fazer um show no Cassino da Urca com Carmen Miranda e Grande Otelo. Era uma espécie de neo-hippie urbana, com gostos muito pessoais, ecléticos como seu repertório.

O novo show seria não mais num bar, mas em um teatro, o pequeno e alternativo Laura Alvim, em frente ao mar de Ipanema, entre o Jazzmania e o meu apartamento. Incluímos o bolero tropicalista de Caetano Veloso e Ferreira Gullar, “Onde andarás”, outra música dos Titãs, o misterioso funk “O quê”, de Arnaldo Antunes, o clássico pernambucano “Ciranda de Lia” e uma peça pop-minimalista do erudito Phillip Glass, um dos grandes nomes da “next wave” americana, “Freezing”. Apesar de não ter ar-condicionado e de fazer um calor infernal no início de janeiro, o pequeno teatro lotou seus 200 lugares para a estreia de “Cantando na praia”. Entre eles Lulu Santos e Scarlet Moon, que não aguentaram mais do que 20 minutos e saíram esbaforidos e banhados em suor, como eu teria feito, se pudesse. Mas a platéia calorosa aguentou estoicamente até o final com “Do Leme ao Pontal” e Marisa foi aplaudida de pé pelo público encharcado. O polêmico encenador Gerald Thomas, amigo de Phillip Glass, gostou do estilo pop-operístico da cantora e do repertório caótico. O cineasta Walter Salles Jr. admirou seu estilo cool e elegante. O jornalista Sérgio Augusto, encantado com o que tinha visto e ouvido, decretou na saída, com autoridade: “Habemus cantora.” E escreveu uma matéria de página inteira na Folha de S. Paulo com o título “Marisa Monte é a nova musa da música pop”, que começava: “Desde Gal Costa não surgia no cenário musical brasileiro um talento vocal tão privilegiado.”



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