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Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

ROBERTO CARLOS TEM DISCO PROSCRITO LANÇADO POR SELO ESTRANGEIRO

Louco Por Você saiu na Europa com outra capa. O Rei veta o relançamento do LP, hoje o disco mais caro do Brasil.

Por José Teles

Malena, raridade do Rei - FOTO: Foto: reprodução


Ano que vem o disco mais cobiçado do Brasil chega aos 60 anos. Louco Por Você, estreia de Roberto Carlos em LP, com selo Columbia, a atual Sony Music. Tocou muito pouco, vendeu menos ainda (não se sabe quantidade exata, mas não deve ter passado de mil exemplares). Com suas manias, ou idiossincrasias, RC colocou o álbum no índex de itens relacionados a ele que não quer de volta ao mercado.
Em 2012, Louco Por Você chegou a circular em streaming na plataforma de música da Apple, mas logo os advogados do cantor deram em cima, e o disco voltou ao limbo. Uma vez participei de uma coletiva de Roberto Carlos, no Copacabana Palace, que era onde ele geralmente concedia entrevistas, quando lançava discos. Perguntei sobre Louco Por Você que , acho, completava 40 anos. Ele desconversou, e deixou um talvez no ar, sobre um possível lançamento.
Bem, eu no lugar dele, talvez também, não aprovasse o relançamento do LP. O repertório é totalmente desigual, mistura bossa nova, com Roberto ainda imitando João Gilberto, com bolero, calipso, rock, e como se achassem pouco, a capa é a mesma de um disco do organista americano, Ken Griffin, lançado em 1946.
Uma das canções, Forever (Marcucci/de Angelis), ganhou uma versão de Carlos Imperial ruim na época, hilárias anos depois, É que Imperial cismou de não traduzir “Forever”. Pelo final dos anos 70, “forever” virou sinônimo de, digamos, “porta dos fundos”. Aí veio Muçum com o dizendo “Forevis” a três por quatro. A música tem versos com o “Forever é para sempre”, ou “Meu amor será seu forever”.
Ele não deixa lançar, pois lá fora lançaram Louco Por Você, com uma capa pavorosa, com o selo Brazilian As Anything, provavelmente de alguma república da ex-União Soviética. O pessoal que vende LPs torce para que Louco por Você nunca seja relançado. É lenda, a história de que é o segundo disco mais caro do Brasil, depois de um álbum original de Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Enquanto Paêbirú era cotado a três para quatro mil, um exemplar em bom estado de Louco Por Você vende-se por dez mil facilmente.


RARIDADES

No Brasil o bolachão de 78 rotações foi comercializado até 1964, quando em quase todos os países a regra já era o compacto, simples ou duplo. O departamento de projetos especiais da gravadora, se é que isto ainda existe, poderia começar a pensar num box do cantor para celebrar o 60 anos do LP de estreia de Roberto Carlos, na Columbia (que virou CBS e depois foi adquirida pela Sony Music). Se não receber sinal verde para relançar o álbum proscrito, poderia reunir músicas de 78 rotações que não chegaram a fazer sucesso, e estão esquecidas. Uma delas, de 1962, tem um título sugestivo: Triste e Abandonado, de Hélio Justo e Erly Muniz, um 78 que teve no outro lado Susie, do próprio Roberto Carlos (ainda sem o parceiro Erasmo). Uma música que ele parecia gostar, porque a cita em outras canções mais à frente. Malena também é outra musa original, também no limbo. A música de Rossini Pinto e Fernando Costa foi lançada em também 1962, como lado B de Fim de Amor (Runaround Sue), versão de Gilberto Rochel para o hit americano de Ernie Maresca e Dion DiMucci. Afora isto, tem os compactos simples e duplos, que RC lançou até 1999, canções lançadas na coletânea As 14 Mais. Um precioso filão para os fãs, que permanece ocioso nos arquivos da gravadora.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

WALTER FRANCO FOI UM BENDITO DA MÚSICA BRASILEIRA

Em 1972, ele mexeu com as estruturas dos festivais

Por José Teles


Walter Franco, música e invenção
Foto: reprodução revista O Cruzeiro


A novela Hospital (1971), sucesso da extinta TV Tupi, dirigida por Walter Avancini, tinha um enredo simples e bizarro. Dois médicos morriam num acidente de automóvel. Um ficou carbonizado, o outro irreconhecível. Em época sem exames de DNA, a trama gira em torno da identificação dos cadáveres. Qual o do doutor Maurício (Stênio Garcia)? Qual o do doutor Fernando? (Jaques Lagoa). E quem seria o cantor da música tema?

O primeiro mistério soube-se com o final da novela. O segundo continuou misterioso até 1972, quando foi centro de um episódio polêmico, ao defender uma composição sua, intitulada Cabeça, no Festival Internacional da Canção. Chamava-se Walter Franco, paulistano, nascido em 6 de janeiro de 1945, e falecido no dia 24 de outubro de 2019, em consequência de um AVC.

Quem convidou o desconhecido Walter Franco para compor a trilha da novela foi Fernando Faro, que o conhecia de participações em festivais. Franco tirou o terceiro lugar com Sol de Vidro, num festival universitário, na mesma TV Tupi. Antes da novela, fizera a trilha de duas peças. O sucesso mediano de Tema de Hospital, o levou a ser convidado a gravar o primeiro disco, pela Phillips, um compacto simples. Tema de Hospital seria regravada com o título de No Fundo do Poço, LP de estreia, Ou Não, lançado pela Continental, em 1973.

Tema de Hospital era uma canção convencional, uma toada moderna, modismo de inícios dos anos 70. No Fundo do Poço é experimental, como o LP Ou Não. Conhecido como “o disco da mosca”, pela capa branca, com uma pequena mosca escura no centro.

“O LP de estréia de Walter Franco me soava (e ainda soa) mais radical e muitíssimo mais bem-acabado do que o Araçá azul”, afirma Caetano Veloso, no livro de memórias, Verdade Tropical (que traz três citações sobre Walter Franco). Ou Não foi o rompimento mais drástico, e influente, com a MPB dos anos 60. O palco do VI Festival Internacional da Canção estava propício à invenção. A maioria dos medalhões refugiara-se no exterior. Foi um festival de novos (Raul Seixas entre estes).

Walter Franco concorreu com Cabeça que, tecnicamente, não era uma música, muito menos uma canção. Mesmo assim tinha a preferência do júri para ser a vencedora à fase nacional do FIC:
“Eu particularmente me aproximo do trabalho dos artistas que procuram não só o uso da linguagem estritamente musical, mas do trabalho também poético. Onde a palavra deixa muitas vezes de ser palavra e vai fazer parte de toda célula musical. Com uma só palavra podemos obter vários sentidos”, explicou Walter Franco, em entrevista a revista O Cruzeiro.


A palavra “cabeça”, na música homônima, não é cantada, mas repetida, em ritmos diferentes, em entonações diferentes, sobrepostas. Uma sequência de perguntas e afirmações: “Que é que tem nessa cabeça irmão/Que é que tem nessa cabeça saiba irmão/que é que tem nessa cabeça saiba ou não/Que é que tem nessa cabeça saiba que ela não pode irmão (...)”.

Quatro anos antes, É Proibido Proibir, de Caetano Veloso, provocou uma explosão de ira da plateia, no II FIC, porém foi mais uma provocação física, pelo visual das roupas, ou o americano John Dandurand, que irrompeu no meio da performance aos berros. Cabeça, de Walter Franco, estava mais próxima de A Sagração da Primavera de Stravinski que, na Paris de 1913, levou o público à vaia, a violência, intimidada pela ousadia estética. Walter Franco não ganhou apenas vaias, mas a ira da censura pela subversão.

A produção do festival destituiu o corpo de jurados para não ter a incômoda composição do novo autor paulista como vencedora. Um júri formado por estrangeiros concedeu o prêmio a Fio Maravilha, de Jorge Ben (ainda sem o Jor), defendida por Maria Alcina.



MALDITO

“Tudo é uma questão de manter/a mente quieta/a espinha ereta/e o coração tranquilo”. Os versos repetiam-se feito um mantra em Coração Tranquilo, faixa do álbum Respire Fundo, um pop zen, o mais perto que Walter Franco esteve do sucesso. Embora já tivesse provado que poderia criar música radiofônica sem fazer concessões, quando Wanderléa gravou sua composição Feito Gente, em 1975. Respire Fundo e Vela Aberta (1980) afastam de Walter Franco a equivocada pecha de “maldito”.

Ele nunca fez concessões ao sucesso, mas tampouco o rejeitou. Canalha, canção deste segundo álbum, é uma das composições mais regravadas de Walter Franco. Mais uma de festival, o da Tupi, em 1979. Chamou atenção pela interpretação visceral, amaciada no disco. Ele foi um livre atirador dentro da MPB, mas nunca de problemas com gravadora, público ou empresário: “A música é arte de conversar com Deus, uma forma de discernir a ilusão, mostrando o caminho através do sentido palavras”, definição dele.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

ANDRÉ MIDANI MODERNIZOU A INDÚSTRIA DO DISCO NO BRASIL

Um executivo que era amigos dos artistas

Por José Teles


Andre Midani, fez história



André Calixte Haidar Midani. Nome Completo. André Midani no Brasil. Nascido na Síria, e batizado na catedral de Notre Dame, em Paris. Primeiro emprego: vendedor de discos. Segundo emprego: funcionário da gravadora Decca francesa. Terceiro emprego: funcionário da Odeon do Brasil. Curiosamente, o nome de batismo não tem “André”. Ele dizia não saber de onde veio o nome. Sua mãe nunca esclareceu. Mas o André ficou e o acompanhou pelo resto da vida.

André Midani, morreu quinta-feira (13), no Rio, em consequência de um câncer, aos 86 anos, foi a base sobre a qual se estruturou a indústria do disco no país. Veio ao Brasil em novembro de 1955, a fim de evitar uma convocação para servir ao Exército francês na Argélia. Na guerra entre os dois países, ganharia o Brasil. Midani chegou ao Rio com pouco dinheiro, e muita vontade de ficar na cidade. Ao ser admitido na Odeon constatou que, para a incipiente indústria do disco brasileira, a experiência adquirida na Decca lhe seria muito útil.

A primeira mexida importante de André Midani foi nas capas dos álbuns. Contratou um grupo de jovens desenhistas e designers, entre eles estava Ziraldo, para trabalhar no departamento de arte da Odeon. Esta turma criou, entre outras, as clássicas capas de Caymmi e o Mar (1957) e de Chega de Saudade (João Gilberto (1959). Midani foi fundamental para a modernização do mercado da música no Brasil, que, a partir de 1959, não seria o mesmo depois da bossa nova e do rock and roll. Ambos vistos com desdém pela maioria dos consumidores, pela crítica e pelos artistas e autores da época.

Midani fez ver que cabia todo mundo no mercado. Nelson Gonçalves, João Gilberto e Celi Campello. “Outra mudança fundamental aconteceu na relação entre arranjadores e cantores: até então, com raríssimas exceções, o arranjador/produtor escolhia a música que considerava conveniente para o cantor, determinava o tom do arranjo, escrevia sem muito consultar o intérprete, que, no estúdio, tinha meia hora para colocar a voz”, comentou ele nas suas memórias Música, Ídolos e Poder, de 2008. Livro proibido pela justiça (ele o liberaria na Internet). Nele, Midani fala abertamente do tráfico de influência no mercado fonográfico, mais conhecido como jabaculê ou jabá.


ORLANDO DIAS

José Adauto Michiles, de nome artístico Orlando Dias, um pernambucano que se tornou um dos maiores vendedores de disco do país no início dos anos 60, levou André Midani a entender os meandros do sucesso. O grosso da música de Orlando Dias era de boleros de letras simples, passionais, e interpretados no palco de forma histriônica. O cantor puxava os cabelos, arrancava os botões da camisa, ajoelhava-se: “O tormento expressado pelo Orlando Dias, através da sua música e do seu cantar, era porta-voz do inconsciente coletivo do povo nordestino emigrado do Sertão para as cidades. Essas eram as razões do seu sucesso. Foi a partir desse momento, através de um longo aprendizado, que me exercitei pouco a pouco a ouvir muito mais a alma do artista do que propriamente escutar a beleza de sua canção e de sua voz”

André Midani foi protagonista e instrumento para as mudanças ocorridas na MPB entre os anos 60 e 80, um pouco menos nos 90. Ao sair da Odeon tornou a Phillips (depois incorporada pela Universal Music) a grande gravadora brasileira. Ousado, ele não temia arriscar, como fez, incentivando o grupo tropicalista, quase todo de contratados da Phillips (a exceção era Tom Zé). Em 1973, reuniria os artistas da gravadora para uma extravagância musical chamada Phono 73, que definiu os caminhos da MPB nos anos 70.

Midani foi o primeiro executivo do alto escalão a entender o potencial do chamado Black Rio. Mais uma ousadia sua, agora na Warner Music. Teve problemas com os militares, que tribuiam ao Black Rio o objetivo de disseminar a guerra racial no Brasil.



BROCK

Nas mídias sociais, os músicos que fizeram o rock nacional dos anos 80, o Brock, expressaram sentimentos pela morte de André Midani: “Foi um dos únicos executivos de gravadora com quem se podia conversar sobre música, arte, literatura etc. Quase todos os outros sabem de vendas, marketing, jabá e, provavelmente, nem ligam para música”, escreveu Leoni. Ultraje a Rigor, Barão Vermelho, Kid Abelha e Os Titãs foram alguns dos grupos contratados por Midani, que também dirigiu a Warner latina.

Sua trajetória foi sintetizada por ele mesmo: “Do disco fiz a minha vida e, simbolicamente, nasci com o vinil e morri com o download”.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

NOVO LIVRO DE JOSÉ TELES CONTA A HISTÓRIA DO DISCO 'DA LAMA AO CAOS'

Parte de uma coleção do Sesc São Paulo, 'Da Lama ao Caos: que Som É Esse que Vem de Pernambuco?' sai em edição digital



Por Diogo Guedes


O jornalista e crítico musical José Teles


“Chico Science & Nação Zumbi foi a banda certa num momento propício”, explica o jornalista e crítico musical José Teles no seu novo livro, Da Lama ao Caos: que Som É Esse que Vem de Pernambuco?, obra digital lançada nesta segunda (29/4) pela Edições Sesc São Paulo. O assunto não é estranho ao autor, que já escreveu uma biografia de Chico Science (1966-1997) e narrou a trajetória da música popular em Pernambuco no já clássico Do Frevo ao Manguebeat. Agora, nesse novo livro, mostra com fluidez a construção, o contexto e os detalhes de um disco que se tornaria o marco de um dos principais movimentos musicais brasileiros recentes.

O volume Da Lama ao Caos, na verdade, é o primeiro de uma coleção criada pelo jornalista Lauro Lisboa Garcia para o Sesc, que vai abordar discos incontornáveis do cancioneiro nacional. A ideia é publicar obras que tragam olhares além do relato ou da crítica, e é justamente isso que Teles, repórter deste JC, consegue: o livro se equilibra entre a trajetória pessoal de Chico e de outros integrantes do grupo e o contexto musical, artístico, geracional e econômico do período, com uma prosa que une um conhecimento profundo da área com a simplicidade da escrita.

“Uma das principais coisas desse novo livro é o distanciamento. Eu vivi esse período e escrevi muito sobre ele, mas agora pude observar com mais critério, notar o que era causo e o que era fato, entender mais Chico Science e o mangue”, conta Teles.

Da Lama ao Caos retoma um assunto que o escritor paraibano radicado no Recife conhece, acompanha e pesquisa há vários anos: o surgimento do manguebeat e o contexto musical da música pernambucana e brasileira no início dos ano 1990. Se já tinha um material amplo, fruto de outros livros e matérias especiais que fez, nesse novo trabalho teve uma facilidade: os arquivos digitais de jornais daqui e de fora, que permitiram rever entrevistas e declarações dos músicos.

Assim, o leitor de Da Lama ao Caos pode perceber, por exemplo, a importância da influência da cultura popular no imaginário musical de Chico, sua relação com os integrantes da Nação Zumbi, através tanto da Loustal como da Lamento Negro, a mesmice da cena independente pernambucana no começo dos anos 1990 e até mesmo o papel da maior abertura para circulação de discos de música alternativa no Brasil.

Além disso, Teles desfaz alguns mitos, como a ideia de que o mangue nasce já conectado com o pensamento de Josué de Castro. “Antes de compor Da Lama ao Caos, Chico não conhecia Josué de Castro. Ele mesmo dizia isso em entrevistas”, conta. Quem primeiro falou do romance Homens e Caranguejos para ele foi o próprio Teles, durante uma visita do músico a sua casa, acompanhado de Fred Zero Quatro. “A observação sobre a influência de Josué de Castro em Chico Science não o desmerece, pelo contrário. Apenas mostra o quanto era antenado e absorvia com impressionante poder de síntese as informações que lhe chegavam”, ressalta Teles.

O termo mangue, por sinal, segundo Jorge du Peixe, da Nação Zumbi, veio de forma direta: “O nome da parada é mangue”, disse Chico para ele quando os dois estavam em um ônibus saindo de Rio Doce para o Centro do Recife. “As versões variam, mas sempre concordam num ponto: foi Chico Science que surgiu com essa história de batizar de mangue a cooperativa, ou seja lá o que fosse, que eles estavam formando”, escreve Teles.

Outro ponto fundamental para essa visão distanciada e renovada do disco de Chico com a Nação Zumbi foi o acesso, durante a gravação do documentário Caranguejo Elétrico, das gravações originais do disco, com as faixas de captação separadas. “Isso ajudou a entender mais. As tracks separadas ajudam a notar melhor as músicas. Chico, por exemplo, criava muitos sons com a boca. Além disso, tem a dificuldade de transferir o som das alfaias, com um grave mais limitado, para captação”, cita Teles.


NOVAS ENTREVISTAS

Apesar de ter feito várias entrevistas ao longo dos anos como jornalista, ele conta que voltar a conversar com figuras como Gorete França, irmã de Chico, e Paulo André trouxe algumas novas informações. Através de Gorete, por exemplo, percebeu que os versos “Fui no mangue catar lixo/ Pegar caranguejo/ Conversar com urubu” são parte de uma cena da sua infância, quando a família morava na 5ª Etapa de Rio Doce.

A irmã também mostrou a Teles os cadernos do artista. “Chico Science foi bruxo de sons. Escrevia compulsivamente. Nos muitos cadernos que deixou com poemas e letras de música (os cadernos estão com Goretti França, sua irmã mais velha), ele descrevia que som pretendia para cada música”, aponta no livro. O relato multifacetado de Teles se conclui com a história da inclusão de Maracatu Atômico no disco Afrociberdelia. Chico não queria uma música que não fosse autoral, mas terminou aceitando a sugestão – que teve ares de ordem. “Fizemos uma versão só, as outras só escutamos com o disco pronto. Ninguém avisou a gente desses remixes, achei falta de respeito, nem considero como parte do trabalho”, diria o líder depois.

sábado, 23 de março de 2019

CAPIBA: 60 ANOS DO GRAFICAMENTE DESASTRADO, MAS ANTOLÓGICO LP SEDUÇÃO DO NORTE

Por José Teles




Os 20 anos da morte de Lourenço da Fonseca Barbosa, Capiba não passaram em branco apenas pelas autoridades culturais competentes do estado de Pernambuco. Passaram quase em branco pela imprensa. Insistindo em lembrar Capiba, encarco na tela da memória, e trago lá do fundo do baú, um disco que está inteirando 60 anos em 2018: Sedução do Norte, que foi relançado duas vezes com capas e título diferentes (a gravadora é a RGE), Sedução do Norte, Sedução do Norte – músicas de Capiba, e Sedução do Norte – Guerra Peixe e Orquestra RGE.

Um disco que comprova o descaso que se tinha (e ainda se tem), pela arte que não criada no Sudeste. As três capas só comungam entre si a visão estereotipada que sem tem do Brasil fora do Rio ou São Paulo. A primeira estampa uma moça de joelhos, com um violão cobrindo-lhe o maiô (ou biquíni), para aparentar que estivesse sem roupas. Está cercada por plantas tropicais. O título mais confunde, apenas Sedução do Norte (Norte e Nordeste são tudo a mesma coisa para o “sulista”).

Capiba contou em sua autobiografia (O livro das ocorrências, Fundarpe, 1988. Por que a CEPE não o relança?) que assim que soube, por Guerra Peixe, do disco, não gostou do título, e sugeriu, entre outros, Recife, cidade lendária. Não adiantou. Chegou a ir a São Paulo conversar com José Scatena, o chefão da RGE, para mudar também a capa.

Só mudaram numa segunda edição, colocando uma foto de uma praia deserta e idílica, que poderia estar em qualquer litoral do Nordeste (até do país). E ainda esqueceram completamente o grupo Os Titulares do Ritmo, um dos mais populares do país na época, que interpreta as canções. Mas pelo menos a segunda edição tem na contracapa um longo texto do maestro Guerra Peixe.



Pior foi a terceira edição, saída em 1978. Certamente ninguém na RGE tinha ideia de quem fosse Capiba, e nem sequer deram-se ao trabalho de escutara o conteúdo do disco. A capa traz chapéu de couro de cangaceiro, cartucheira, cinturão de balas, punhal, e peixeira. Pior. Esqueceram-se dos nomes do autor das músicas e novamente de Os Titulares do ritmo. Talvez a capa seja uma homenagem a Lampião e seus cangaceiros, no aniversário dos 50 anos da batalha de Angicos, onde o banco foi dizimado.


DISCO

Apesar dos percalços é o disco que melhor apresenta a diversidade de Capiba na música popular. Traz quatro dos seus poucos conhecidos maracatus-canção (Vira a moenda, É de tororó – com Ascenço Ferreira – Eh Luanda, e Nação Nagô), a trilogia Recife, cidade lendária, Olinda, cidade eterna, e Igarassu, cidade do passado. E mais, Por que você não me quer? A uma dama transitória (com Ariano Suassuna), Valsa verde, e o único frevo de rua de Capiba gravado, Um Pernambuco no Rio (composto para o clube Vassourinhas, quando este fez a célebre, e desastrada, viagem ao Rio, em 1951).

Um descaso Sedução do Norte continuar há 40 anos fora de catálogo, até porque quem está à frente do projeto é um dos grandes autores eruditos do país, que também incursionava pelo popular com toda destreza, e faz aqui uma curiosa homenagem a um ex-aluno seu. Capiba estudou com César Guerra-Peixe, no início dos anos 50, quando o maestro morou no Recife, trabalhando para a Rádio Jornal do Commercio. Foi demitido por ser comunista, mas aí é outra história.

Confiram Um Pernambuco no Rio, único frevo de rua de Capiba gravado.



segunda-feira, 29 de outubro de 2018

NARA LEÃO UMA CANTORA DE OPINIÃO E MUITA CORAGEM

Na mira do regime, ela teve que sair do país em 1969


Por José Teles


Daniel Saraiva e Nara Leão


O mineiro Daniel Lopes Saraiva nasceu no mesmo ano em que Nara Leão morreu, mas desde criança ela foi uma das cantoras que mais escutava em casa. Sua Mãe é fã de MPB e um dos seus tios é dono de um grande coleção de LPs. Quando foi fazer a dissertação de mestrado do curso de História, na Universidade Federal de São João Del-Rey, ele escolheu Nara Leão como tema. Porém não queria fazer apenas mais uma biografia da cantora capixaba (que até seria bem-vinda, existem somente dois livros de fôlego sobre ela).

Saraiva optou pelo viés da artista engajada, transgressora, presente nos principais momentos da música popular brasileira, desde a bossa nova (que praticamente nasceu em sua casa, o que Nara desmentia). Intitulada A Música Brasileira em Pessoa - Trajetória, Engajamento e Movimentos Musicais na Obra da Intérprete Nara Leão, de 2015, vira livro, rebatizado de Nara Leão – Trajetória, Engajamento e Movimentos Musicais (Letra e Voz).

O autor concedeu entrevista ao JC sobre o livro, que será lançado amanhã no Rio. JC – Dissertações geralmente acabam em livros, com alterações para torná-las mais próxima da literatura convencional. O que você alterou na sua?

DANIEL LOPES SARAIVA – A estrutura é a mesma. Mudei o formato, acrescentei alguns tópicos e tirei a parte excessivamente acadêmica. Há também fotos cedidas pelo ex-companheiro de Nara Leão, Marco Antonio Bompet, algumas fotos do acervo do Museu da Imagem e do Som-RJ. Fui também no Arquivo Nacional de Brasília onde pesquisei nos documentos sobre a cantora.

JC – Por que Nara Leão, entre tantas as cantoras brasileiras?

DANIEL – Ouvi muito Nara Leão em casa, minha mãe tem uma cultura muito musical, meu tio meu gosta muito de MPB, então quando fui escolher um objeto de pesquisa do mestrado, eu queria trabalhar com música, disse que estava pensando em escrever sobre Nara, a orientadora achou que era um ótimo personagem. Também achei que seria uma boa ideia. Durante a pesquisa o que me chamou atenção foi isto: ela é conhecida como a musa da bossa nova, a cantora da bossa nova, mas a carreira dela é muito mais do que isto. Se você for analisar todos os discos, que o que faço no terceiro capítulo, você vai ter um mapeamento da música brasileira, nos anos 60, 70 e 80.

JC – Nara surpreende sempre nos seus discos dos anos 60.

DANIEL – Ela quebrava paradigmas. Na bossa nova, grava um disco com sambistas, ou cantores do nordeste. Estava na música engajada, mas participa da Tropicália. Ninguém da musica engajada participou da Tropicália. Só ela participa do disco tropicalista. Em 78, grava um disco só com música de Roberto e Erasmo. A primeira vez que um artista grava um disco só com musicas deles. Gal e Bethânia gravaram antes dela, mas não álbuns inteiros.

JC – Como está traçada a narrativa?

DANIEL – Minha ideia foi primeiro fazer uma trajetória biográfica, na segunda parte, pegar o engajamento, nas entrevistas nos discos, e o terceiro mostrar que Nara, além de cantora, era pesquisadora da música brasileira. A partir do repertório dela, quais os cantores que gravou, o que gravava, o por quê de gravar aquele artista, naquele momento. A ideia também foi de colocar depoimentos de pessoas próximas a Nara, conversei com muita gente, com Cacá Diegues, rapidamente, num evento, mas ele me contou como foi no exílio. Falei com Roberto Menescal, com a filha dela, Isabel, com Marco Antonio Bombet, o último companheiro de Nara, com artistas, pra entender um pouco qual a imagem que estas pessoas tinham da Nara, o que não está muito presente nos outros livros.

JC – Nara Leão fez as declarações mais fortes, entre os artistas da MPB, contra os militares, ao Diário de Notícias. Disse, literalmente, que “o Exército na vale nada”. Sofreu represálias?

DANIEL – Houve reação, alguns setores defendiam a prisão de Nara. Artistas e intelectuais assinaram um manifesto para o marechal Castelo Branco a fim de que ela não fosse presa. Drummond fez um poema. A repercussão foi internacional.

JC – O livro chega às livrarias num momento de efervescência política, de polarização. O lançamento tem a ver com o clima do país?

DANIEL – Tem, mas não foi nada programado, o convite surgiu da editora, um pouco mais de um ano atrás. Depois de acertado, eu voltei a fazer outras entrevistas, peguei também outros depoimentos, para transformar a dissertação em livro. Apesar que de ele é muito oportuno neste momento, porque Nara foi uma artista que lutava pela liberdade de cantar o que quisesse, do jeito que quisesse, uma mulher dona de si, num momento em que existia muito machismo. Uma mulher à frente do seu tempo. Mas não foi nada premeditado, foi uma coincidência do destino só ter ficado pronto agora. O que é muito triste é ver que pessoas como Nara terem lutado muito para o país ter liberdade de expressão, e muita gente não valoriza isto hoje. Não tem nem ideia do que aconteceu, que muita gente foi perseguida, morta, teve que se exilar. Nara foi para Paris porque era uma das pessoas mais visadas pelos militares. Acho que falta se entender um pouco a nossa história para ser mais crítico.






LIVRO

No prontuário de Nara Leão, compilado pelo SNI, as ações da cantora no engajamento contra o regime instalado em 1º de abril de 1964, começam em 1963 como “Membro fundador do Comando dos Trabalhadores Intelectuais (C.T.I) – organização de frente comunista”, com a ação mais grave sendo uma entrevista concedida por ela, ao Diário de Notícias (Rio de Janeiro), em 21 de maio de 1966 – “Manifestou sua opinião pela extinção do Exército”. As Forças Armadas estavam com dois anos de poder, ainda “arrumando a casa”, sob liderança da ala moderada. A entrevista seria impensável dois anos mais tarde.

Entre outras declarações, Nara Leão defendeu um civil no poder, explicando: “Os militares podem, talvez, entender de canhão e metralhadora, mas de política não entendem nada”. Além da entrevista, mais um agravante, Nara Leão era cunhada de um dos principais inimigos do regime, o jornalista Samuel Weiner, então asilado na França.

A mulher que se atreve a criticar tão fortemente o regime comandado por um marechal não bate com o que a maioria das pessoas sabem da cantora de voz pequena, aparentemente tímida, musa da bossa nova. Esta imagem menos conhecida de Nara Leão (1942/1989) é enfatizada no livro Nara Leão: Trajetória, Engajamento e Movimentos Musicais (Letra e Voz, R$ 34). A aparentemente frágil capixaba (de Vitória) em 1966 tornou-se ídolo nacional com A Banda, de Chico Buarque, do qual se tornou a intérprete mais constante. O historiador Daniel Saraiva divide o livro em três fases: “Nara pede passagem: A trajetória musical da intérprete”, “Opinião de Nara, de musa da bossa nova a artista subversiva”, “Meus amigos são um barato: A busca pela música popular .” O autor enfatiza a importância que teve na personalidade de Nara Leão, e da irmã mais velha Danusa Leão, o pai delas Jairo Leão, advogado bem sucedido.

A forma de doutor Jairo (como era tratado pelos amigos das filhas) educar era extremamente avançada: pouco se importava com diploma, ensino formal. Preferia contratar professores pra dar aulas às filhas em casa. Nara Leão deixou a escola com 16 anos. A irmã Danusa Leão, dez anos mais velha, com a mesma idade já era a modelo mais bem paga do país.

Musa da bossa aos 17 anos, quatro anos mais tarde, Nara Leão militava na esquerda, No Centro Popular de Cultura, o CPC da Une, um do vários CPCs que surgiram pelo Brasil inspirado no Movimento de Cultura popular, o MCP, criado, em 1960, na gestão de Miguel Arraes na prefeitura do Recife. Carlos Lyra, Vinicius de Moraes e Sérgio Ricardo, seus amigos bossa-novista passaram a fazer música participação (ou de protesto), e Nara Leão foi a intérprete destas canções com mensagem, e abertamente o regime instaurado no país em 1964. “Chega de Bossa Nova”, bradava. “Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo, e não uma coisa feita de um grupinho para outro grupinho”, declaração à revista Fatos & Fotos quando rompeu publicamente com a bossa nova.

O LP Opinião (1964) de Nara inspirou o diretor de teatro Oduvaldo Viana Filho a escrever o engajadissimo e clássico musical Opinião, com ela, João do Vale e Zé Keti. Em 1968, quando a linha dura promulgou o AI-5, Nara Leão militava nas hostes da subversiva Tropicália (única estrela da MPB a fazê-lo) Em 1969 avisaram-lhe que os militares a tinham sob mira. Ela e o marido, o cineasta Cacá Diegues, saíram do alvo mudando-se para Paris. Voltariam dois anos mais tarde. Nara ainda engajada, e apaixonada pela música, como foi até o final da vida. Morreu com 49 anos, escrevendo uma trajetória das mais importantes e íntegras da cultura brasileira.


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A KOIZA É BANDA QUE VAI DOS VINHOS FINOS AO ZÉ DA SILVA

Grupo foi formado em 2016 pelo veterano Clériston Andrade

Por José Teles


A Koiza, Pedro,. Clériston, Renato e Carlinhos


A Koiza a partir das 20h, estará no Bar do Neno, homenageando os cartunistas que participarão do júri o III Salão Internacional de Humor Gráfico (SIHG): “A gente vai oferecer a música Chapéu de Touro, por ser uma canção de humor sobre uma noiva sapeca”, diz Clériston Andrade, também cartunista, e um dos integrantes da banda.

O grupo surgiu há dois anos e é formado ainda por Carlinhos Carvalho (guitarra), Pedro Henrique (baixo), e Renato Andrade (bateria). Já lançou um EP digital, e está finalizando o primeiro álbum, chama-se a Koiza, pela dificuldade dos próprios músicos para definirem o estilo que tocam: “A gente não é exatamente uma banda de rock, nem de jazz, nem blues, psicodélica, ou regional, então optamos por A Koiza”, explica Renato.

Para os que entraram na casa do “enta” (dos 40 anos em diante), Clériston Andrade é um nome conhecido. Ele tem uma longa carreira como cartunista em Pernambuco, e outra não menos longeva na música. Para ele, a Koiza é um projeto em que não se deve destacar fulano ou beltrano, porque as tarefas são feitas em conjunto pelo quarteto. Clériston já fez história na música local. Fundou a banda Delta do Capibaribe, quando surgia no Recife o movimento mangue.

Embora não tenha sido parte do manguebeat, estava no palco da primeira edição do Abril Pro Rock, em 1993, ao lado de Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. A Delta do Capibaribe também animou as noites agitadas da Soparia, de Rogê de Renor, o bar mais descolado da era mangue. Os outros músicos de a Koiza tem menos tempo de estrada. Pedro Henrique já transitou pelo rock pesado, e pelo regional, com a banda Cara de Doido de Caruaru. Entrou na banda quando ainda morava no interior. Clériston postou um “procura-se músico, no Facebook, e Pedro candidatou-se ao emprego: “Gostei muito da atitude dele. O cara vinha ao Recife para ensaiar com a gente, e logo depois voltava pra Caruaru”, elogia Clériston.

Renato Andrade é o baterista, ex-aluno de Ebel Perrelli, com participação em bandas covers e festivais de percussão (o sobrenome é de parentesco mesmo. Ele é filho de Clériston). Por fim, Carlinhos Carvalho, toca nas duas. É também integrantes dos membros da banda instrumental Mabombe. “Embora exista diferença de idade entre nós, na hora de fazer música todo mundo converge para os mesmos gostos. Quando a gente vai puxar uma música nova, ela vai chegando naturalmente, porque escutamos mais ou menos as mesmas coisas, temos esta afinidade”, explica Clériston.




MÚSICAS

A Koiza entra em cena com uma temática bem particular. Tinto Faz é uma homenagem a Baco (e sua bebida predileta), não por acaso, vinho é a bebida predileta de Clériston: “Malbec/ merlot/ cabernet/ carmenére/ poemas líquidos/ grenache/ syrah/ nebbiolo/pinot noir/ corpos complexos”. Tinto Faz é uma das faixas do primeiro álbum de A Koiza, gravado no Fábrica, com participação do guitarrista Fred Andrade, com repertório pinçado de três dezenas de canções autorais, de épocas variadas.

Noite Moleca, por exemplo, remonta a 1992, foi premiada num festival na Unicap e gravada pela primeira vez em 1995. Outra que veio dos anos 90 foi Zé da Silva. A música da banda tem um viés para o humor, com ironia, não o engraçadinho. Feito em Pensando Alto, cujo refrão brinca em cima de um hit da dupla Bruno e Marrone: “Doutor eu não estou doente/seu delegado eu não sou delinquente”.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

IVINHO COM 50 DÓLARES E UMA VIOLA QUEBRADA EM MONTREUX

Por José Teles



Ivinho

O guitarrista Ivinho era um músico conhecido apenas de um pequeno círculo de admiradores, artistas e colegas de profissão, em 1978, quando embarcou para a Suíça, como uma das atrações da primeira noite brasileira no então seleto Festival Internacional de Jazz de Montreux. Levava 50 dólares na carteira, e uma case com uma viola de doze cordas, com o bojo furado. Além dele, viajaram o grupo A Cor do Som, e Gilberto Gil, com uma banda à qual foi incorporado o conterrâneo Pepeu.

Naquele tempo não era comum participações de brasileiros em eventos internacionais de tal porte, com exceção de um punhado de nomes que conseguiu chegar à gravadoras gringas, casos de Milton Nascimento, Egberto Gismonti, percussionistas que viviam nos EUA, Naná Vasconcelos ou Airto Moreira e, claro, a turma da bossa nova. Como o recifense Ivson Wanderley chegou a tal patamar, inalcançável para a maiorias dos músicos brasileiros?

Claude Nobs (1936/2013), o criador e principal curador do festival de jazz de Montreux, encontrava-se no Rio para acertar a participação dos músicos brasileiros no festival. Acompanhado por André Midani, que assumira o cargo de presidente da recém-chegada ao Brasil Warner Music, e o produtor Marco Mazzola, assistiu a um show em que o guitarrista tocava. Entusiasmou-se com a performance do pernambucano, e sugeriu que ele fosse incorporado à comitiva do Brasil em Montreux, com os dois contratados da Warner, A Cor do Som (então a banda mais bem sucedida do pop nacional), e Gilberto Gil, aposta internacional da filial brasileira da multinacional.

Com ingressos rapidamente esgotados, Claude Nobs decidiu realizar uma sessão extra da noite brasileira em Montreux, oficialmente intitulada Viva Brasil, com as participações do percussionista mineiro Djalma Correa, e do tecladista suíço Patrick Moraz (que substituíra Rick Wakeman no Yes). Às 17h, e Ivinho foi incumbido de abrir a primeira edição do Viva Brasil.


O jornalista carioca Tárik de Souza cobriu o festival, e escreveu minuciosamente, para o Jornal do Brasil, o show de Ivinho: “De saída, subiu ao palco o enigmático Ivinho, Magro e miúdo, de calça Lee surrada, camiseta e tênis, além de um chapéu de feltro interiorano, que dividia em duas cascatas, sua longa cabeleira. Ivson Wanderley Pessoa, recifense de apenas 25 anos, não se mostrava nem um pouco assustado, mesmo alguns minutos antes, ainda no ensaio, quando fui entrevista-lo. Um estreia solo, mesmo num festival internacional, era para ele apenas uma questão de curriculum, e seus planos para o show resumiam-se a “me deixar desligar durante 25 minutos, deixar fluir algumas sequencias harmônicas, harmonizando minha vida para dias melhores”.

Ele não sabia que sua carreira chegaria ao auge naquela tarde do verão suíço. Seu concerto, um único e longo improviso, a partir de um tema ad lib, que batizou de Noturno número zero, mistura de escalas oriental com nordestina, recebeu palmas e pedidos de bis. Ivinho não concedeu o bis, porém se apresentou novamente na segunda sessão do Viva Brasil (que recebeu um público bem menor do que o esperado). Mais uma vez transcrevemos um trecho da matéria de Tárik de Souza:

“Ivinho entrou sem muitos aplausos, tocou números mais curtos e foi assessorado pela percussão de Djalma (Correa), que duelou com sua viola utilizando um banjilógrafo, mistura de banjo e máquina de escrever”. Novamente Ivinho saiu do palco debaixo de aplausos e pedidos de bis. Um feito, já que a plateia, “cabeça”, não perdoou o som pop de A Cor do Som, pedia “jazz e não rock”. As vaias tomaram conta do salão, a ponto de ser necessário, segundo o relato de Tárik, o próprio Claude Nobs vir ao palco para acalmar o público, que aceitou com ressalvas o pop brasileiro da Cor do Som. O show final, de Gilberto Gil, foi apoteótico e o público só voltou a vaiar quando o baiano avisou que estava encerrando o concerto, que acabou madrugada adentro.

A Warner lançaria, poucos meses depois, com ampla divulgação, enfatizando ser uma participação no festival de jazz de Montreux ainda, discos das apresentações dos brasileiros. Tanto o de Gilberto Gil (originalmente um álbum duplo), quanto o da Cor do Som tiveram reedições em CD. Mas o álbum de Ivinho (Warner/Nonesuch) continua, inexplicavelmente, fora de catálogo. O que não é de se estranhar. Chega a ser um enigma o fato de ele ter sido lançado. O LP de Ivinho não tinha o menor potencial comercial. Muito menos para uma gravadora cujo recém-chegada ao Brasil e em busca do sucesso. A música foi criada ad lib, ou seja, na hora, no improviso. Só receberam títulos quando precisaram ser registradas para o disco: Os temas do álbum: Teimosia, Clarão vermelho,Meditação, Frevo único e Partida dos lobos.

Confiram áudio de Iviho em Partida dos lobos:

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

ROBERTO MULLER: "HOJE EU ACEITO TUDO O QUE DEUS MANDA PRA MIM"

Cantor de muito sucessos, hoje ele vive de dois salários mínimos

Por José Teles

Roberto Muller, entre espumas


O apartamento é modesto, no térreo de um edifício caixão, no Ipsep, bairro da Zona Sul do Recife. Logo à entrada, uma estante recheada de troféus, discos de ouro, medalhas. As paredes da sala, do corredor e de dois quartos estão cobertas por fotos emolduradas. Não cabe tudo ali dentro. Na área externa, um puxado, com vaga para um carro, protegida por grades, abriga mais lembranças: partituras, recortes de jornais e revistas, toda vida artística do dono.

Ali, naquele pequeno museu, mora o piauiense José Ribamar da Silva, 80 anos, nome artístico: Roberto Muller, um dos cantores mais populares do País entre os anos 60 e 70. As fotos espalhadas pelas paredes do apartamento mostram o piauiense ao lado de uma Gretchen em plena forma, nos ano 70, com Chacrinha, em cujo programa recebeu discos de ouro, com Agnaldo Timóteo, e Jerry Adriani, de quem foi amigo. Naturalmente, não faltam fotos em solenidades com prefeitos, com o presidente José Sarney, a governadora Roseana Sarney, a lista é extensa.

Roberto Muller, que ganhou o epíteto de Pingo de Ouro, por medir 1,53 de altura, namorou estrelas do rádio, entre elas Clara Nunes, Elza Laranjeira, e outras que a memória não ajuda a lembrar. A maioria dos que o vêm passar numa cadeiras de rodas, conduzida por Dagmar Pereira, sua mulher, não o reconhece ou não sabe de quem se trata. No entanto, todos, com raras exceções, identificarão, nos primeiros versos, um de seus maiores sucessos, Entre espumas (Luis Marquetti):

“Uma noite, sentou-se em minha mesa/e entre tragos lhe dei todo o meu amor”, um bolero, com letra trágica de tango, que o Brasil escuta há 49 anos. Um hit que estourou entre o ocaso da Jovem Guarda e a eclosão da Tropicália, em 1968: “Não foi o meu maior sucesso, mas foi a que mais me deu dinheiro”, diz Muller. Embora o tropicalismo tenha incursionado pelo bolerão, foi exatamente depois do aguçado senso crítico de Caetano Veloso & cia. que cantores como Roberto Muller ganharam o rótulo de brega. Seu período de fausto, de total apoio de gravadora acabaria em 1971, quando deixou a CBS.


A FÃ


Roberto Muller ficou com o movimento das pernas prejudicados depois de um AVC. Dez dias atrás teve um princípio de infarto. Os convites para shows são escassos, muita gente imagina que tenha falecido. Em 2010, uma publicação piauiense, sobre personalidades nascidas no Estado, o deu como morto em 1973. Roberto Muller processou o Estado do Piauí. Isto aconteceu há sete anos, ele não tem ideia do andamento do processo.

As milhares de fãs que o assediavam no auge da carreira, no cotidiano, estão resumidas a uma única delas. A citada Dagmar Pereira, paraibana de Queimadas, que está na vida de Roberto Muller há 23 anos. Por 45 anos, ela foi divulgadora de discos, estima que trabalhou com 300 artistas no tempo em que as gravadoras funcionavam a todo gás. Mas fã para valer foi e ainda é de apenas um artista: Roberto Muller, desde quando ele frequentava as paradas de sucesso: “Só consegui conhecer ele pessoalmente em João Pessoa, em 28 de março de 1995, no programa de Jota Ferreira, não é o daqui, este é de lá da Paraíba, na TV Meio Norte”, conta Dagmar.

Nessa época o cantor estava casado, ela se tornou sua secretária. Há seis anos, quando ele enviuvou, tornouse sua mulher. Dagmar cuida do ídolo e marido 24 horas por dia. Não apenas da pessoa, mas da memória dele. Sabe dos detalhes dos objetos que guarda em casa, tem na ponta da língua a trajetória e tudo que ele que gravou, mais de 70 discos. Direito autoral? “Zero, vírgula zero. Da Polydisc recebi seis meses atrás R$ 170. Da editora Socimpro faz seis meses que não recebe nada. Ele recebe a pensão do governo, um salário do INSS e mais outro salário pago pela UBC. Vivemos de doações de amigos. Roberto criou dez filhos e oito netos. Os filhos que querem ajudar não podem, e os que podem não ajudam”, revela Dagmar.



INÍCIO

José Ribamar da Silva nasceu, em 1937, em Piracuruca, no Piauí, mas aos três anos já morava em São Luís, no Maranhão. Sua ascensão aconteceu conforme a cartilha da época. Adolescente, participava de programas de calouros nas emissoras da capital maranhense. Em 1953, já era um nome estabelecido, pelas participações na Rádio Timbira, depois na Rádio Difusora. Muita gente o incentivava a ir para o Rio, onde estavam as grandes oportunidades e onde chegou em 1959.

O sucesso não lhe veio de imediato, mas gravou o primeiro disco mais rápido do que esperava. Um encontro com José Bartolomeu, um conterrâneo, que dirigia um pequeno selo fonográfico, o Magistral, levou Roberto Muller a estrear um 78 rotações. O disco não fez sucesso, o que quase causou sua volta a São Luís.

“Caitituar” era uma expressão muito usada no mercado do disco. Significava a ida do artista ou divulgador aos programas de rádio, a fim de convencer os apresentadores a tocar determinada música: “Se não era conhecido do público, pelo menos ia fazendo amigos em emissoras de rádio e TV, o que foi bom, porque alguns amigos me deram chance de ganhar cachês”, contou Muller, em 1964, em sua primeira grande entrevista à Revista do Rádio, a mais importante publicação especializada da época.

Ele esperava o resultado de testes feitos na Chantecler e Odeon, quando os compositores Elias Soares e Sebastião Rodrigues o levaram a Astor Silva, maestro da CBS. Um teste rápido e o cantor passaria a circular pelos subúrbios cariocas, e cidades vizinhas como crooner da orquestra de Astor Silva. Uma adolescente mineira chamada Wanderléa também era crooner da orquestra:

“A gente cantou juntos, ou revezava, eu cantava quando ela não podia ir”, lembra Roberto Muller. Logo ele seria contratado pela CBS, e conviveria não apenas com a futura rainha da Jovem Guarda, mas também com o Rei Roberto Carlos, e parte da nobreza do iê-iê-iê – Jerry Adriani e Renato Barros, dos Blue Caps, foram dois deles. Roberto Muller contesta a versão de que a jovem guarda teria escanteado o bolerão do mercado, como fez com o forró:

“Isto não aconteceu, continuei fazendo sucesso, muitas vezes cantei com o pessoal da Jovem Guarda, nas caravanas musicais de Chacrinha, com quem sempre me dei muito bem. Se tive problemas na época foi com a censura, que cismou com Mulher de Cabaré e Colecionador de Chifres”, lembra ele.



DINHEIRO

Na citada entrevista à Revista do Rádio, Muller revela que os dois 78 rotações iniciais para a CBS garantiram o sucesso da primeira turnê pelo Norte e Nordeste: “Retornei ao Rio em situação muito diferente, tinha inclusive dinheiro em banco para garantir qualquer adversidade”. E dinheiro no banco, durante muitos anos, não faltou ao cantor, conhecido “mão fechada”, que investia parte do que ganhava em estabelecimentos comerciais no Maranhão.

Foi dono de várias casas (para alugar), de bares, restaurantes, mercearia, teve até uma fábrica de sabão e, por último um posto de gasolina. Católico fervoroso, quando emplacou nas paradas do País inteiro com Nunca mais Brigarei Contigo (Elias Lourenço/Sebastião Rodrigues), em 1964, Roberto Muller foi à cidade natal pagar uma promessa: varreu a igreja de N. S. do Carmo, onde foi batizado, depois de que foi celebrada uma missa de ação de graças.

Mais de cinco décadas depois, na cadeira de rodas, no apartamento no Ipsep, ele é de um estoicismo pungente: “A vida é assim, a família era grande e a gente tinha que dar cobertura, nunca deixei de ajudar a família. Hoje eu aceito tudo que Deus manda pra mim”.

O radialista Geraldo Freire, no seu programa Supermanhã, na Radio Jornal, e os fãs do cantor na associação Rota do Forró, iniciaram uma campanha para ajudar o cantor, que está recebendo doações, com depósitos numa conta aberta em nome de José Ribamar da Silva, no Banco do Brasil, agência 3258-1, conta-corrente 21719-0, CPF 230.494.997-53.

Está se preparando também um show beneficente em prol de Roberto Muller, que com participações de grandes nomes da música popular, ainda sem data confirmada.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

MARIA JOÃO CANTA A POESIA DE ALDIR BLANC

Por José Teles



A cantora portuguesa Maria João em um disco inteiro de canções com letras de Aldir Blanc, num repertório que inclui O Bêbado e o Equilibrista, Dois pra Lá, Dois pra Cá. Parece muito óbvio, e fácil. Nem óbvio, nem fácil. A lisboeta Maria João Monteiro Grancha não é de obviedades, nem de facilidades. Filha de pai português e mãe moçambicana, demorou a enveredar pela música, dedicando-se ao aikidô, de que foi faixa-preta, e professora dessa luta marcial, que até hoje pratica.

Começou a cantar, por acaso, em 1976. Estava com 20 anos. Mas só gravou o primeiro disco, de jazz, uma década depois. É uma cantora de jazz (formou dupla memorável com o pianista Mario Laginha), mas pode ir ao erudito ou à MPB, pela qual já incursionou, mas não imergindo na obra de um único compositor como faz neste álbum.

Maria João e Convidados – A Poesia de Aldir Blanc (SESC) reúne parcerias com João Bosco (quatro), Guinga (quatro), e três inéditas com o português Carlos Paredes (duas), e uma com André Mehmari, o único instrumentista brasileiro que participa do álbum, inteiramente gravado em Lisboa. Recomenda-se começar a audição do álbum pela segunda faixa, O Coco do Coco (com Guinga). O baião, de harmonia acidentada, e versos hilariamente fesceninos, é interpretado com o acompanhamento inusitado de tuba e bateria (tocadas, respectivamente, por Sérgio Carolino e Silvan Strauss).

Com este arranjo e a impostação histriônica, Maria João, pegou o espírito de uma canção que tem versos como estes: “No tempo em que casei de véu com meu marido/era virgem no ouvido e ele nunca reclamou/pra ser sincera, eu acho que isso inté facilitou”. Assim como não escorrega nas cascas de bananas idiomáticas que Aldir Blanc joga ao chão em composições como Linha de Passe ou Boca de Sapo (ambas com João Bosco).

Brincando, ou a sério, Aldir Blanc é sempre um excepcional letrista. É lírico em Sede e Morte, um fado com o mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes: “Cinza e passado/no tempo em que foi perdido/tu ao meu lado/nas sombras do não vivido”. Maria João novamente vale-se do mínimo para canta-lo, apenas com o violão de Luis Ferreirinha e a guitarra portuguesa de Paredes. Repete o conceito em Catavento e Girassol (com Guinga), só ela e a harpa de Eleonor Picas.

A dupla com Mario Laginha encara o que, aparentemente, é uma tarefa ingrata, cantar O Bêbado e o Equilibrista, com junção de Paredes que nos Rodeiam (de Laginha). Ir além de Elis Regina é a tarefa que preocupa quem interpretar este clássico de Aldir e João Bosco. A portuguesa vai bem além com um approach diferente recria a música com outro contexto, a interpreta como uma chanson de Kurt Weil, com o inventivo pianista português.

Em sua carreira, Maria João renova-se e surpreende o tempo inteiro, faz isso aqui com o manjado pastiche de bolerão Dois pra Lá, Dois pra Cá (com João Bosco), que ganha iconoclasta programação eletrônica (de André Nascimento), mais o piano de João Farinha. Tão boas quanto composições de Aldir Blanc com João Bosco são as parcerias com Guinga. Boa parte delas pouco conhecida, até porque os dois começaram a compor juntos,quando o rádio fechava-se para o requinte.

Assim é que pode passar por inédita canções como Canção do Lobisomem (lançada por Guinga, em 1993), e que ganha clima de experimentação, com a guitarra com efeitos de Mario Delgado: “Nem a cobra coral, nem mesmo a naja/dão bote da prata que viaja/numa bala entre a arma e o meu peito/acho graça em desgraça/dito e feito: sou meu matador”, os versos finais da música, depois de que Maria João parte pro improviso vocal.

Haja fôlego para o choro inédito, ou tanguinho brasileiro Movimento Perpétuo, grande melodia de Carlos Paredes com versos antológicos de Aldir, e o piano de André Mehmari: “Ai as crianças brasileira/dizimadas nas manhãs/iguais a tantas congolesas/sírias, lusas, afegães/quando queiram o bem do esporte/a foice as atirou na morte”.

Maria João canta a mais longa das letras de Aldir Blanc num pique de Apanhei-te Cavaquinho, de Ernesto Nazareth. Um disco que deixa uma sensação de perplexidade a cada audição. Poucas vezes Aldir Blanc, ou a MPB já foram interpretados com tanta intensidade criativa.

Confiram Maria João, ao vivo, com Guinga, em Catavento e Girassol:


sábado, 16 de setembro de 2017

LAMENTO NEGRO COMPLETA 30 ANOS À ESPERA DE RECONHECIMENTO

Grupo lançara disco, livro, e doc para celebrar a data redonda

Por José Teles


Maia (à direita), num ensaio do Lamento Negro


Se o Lamento Negro não tivesse existido, Nação Zumbi talvez existisse, provavelmente com o mesmo nome, mas dificilmente com a mesma sonoridade. Chico Science, Dengue, Lúcio Maia e Jorge du Peixe (Pupillo chegaria com o grupo já formado e reconhecido), que moravam em Olinda e Casa Caiada, distante de Peixinhos, onde surgiu o grupo, certamente teriam feito música, provavelmente com o mesmo destaque que obtiveram, mas não é possível conjecturar que caminhos sonoros seguiriam.

A rota dos quatro foi modificada radicalmente, quando Gilmar “Bola Oito” Correia, convidou Francisco França, seu colega de trabalho, na Emprel, empresa processadora de dados municipal, para o ensaio de um bloco de samba-reggae do qual participava. O grupo era o citado Lamento Negro, que completa 30 anos em 2017 e se prepara para celebrar a efeméride com disco, documentário e livro. O lançamento está previsto para janeiro do próximo ano, na Festa dos Turbantes, a sua prévia no Clube Atlântico, em Olinda.

Tudo começou em 1987, com uma turma de Peixinhos que gostava de dançar break e curtir música negra americana. Um garoto da turma, chamado Nequinho, conheceu o Alafin Oyó, grupo olindense de afoxé, e ficou entusiasmado: “Ele disse para a gente, no Centro Social de Peixinhos, que tinha visto uma negrada dançando diferente do estilo nosso. A gente não tinha conhecimento de afoxé. Chegamos lá com cabelo black, de basqueteira, vestido de esquente, e dançamos break com os atabaques deles. Resolvemos fazer aquilo em Peixinhos, mas misturando com as coisas que a gente ouvia”, conta Osmair José, o Maia, um dos fundadores do LN.

Em 1987, o BRock ainda era a música que predominava nas paradas de sucesso, a música local era desprestigiada. Aqui ali havia bolsões de inquietude, sobretudo nos nichos de heavy metal e punk rock. Na Bahia fermentava-se a axé, e grupos afro de Salvador começavam a ser conhecidos além das fronteiras do estado. Os pernambucanos interessavam-se pelo recém-criado Olodum e desdenhavam os centenários maracatus, que só apareciam na imprensa no período carnavalesco e viviam há anos em crise.

“(O percussionista) Maureliano ouvia muito reggae, e sugeriu o nome, que veio dos Wailers, do grupo de Bob Marley, Os Lamentadores. A gente começou pegando o som dos tambores do Olodum, Muzenza, Araketu, fazendo samba-reggae, para desfilar no Carnaval de Olinda. Depois incrementamos com maracatu, coco de roda, rap, veio daí aquela misturada de ritmos”, continua Maia, então com 13 anos. Todos eram adolescentes, não tinham onde ensaiar nem instrumentos para tocar.

Ali perto havia a ONG Daruê Malungo, de Gilson José de Santana, Mestre Meia-Noite (também conhecido por Chau). Ele emprestou instrumentos e o espaço aos garotos, e ainda sugeriu que em vez dos tambores do Olodum, experimentassem as alfaias do maracatu. Os break boys de Peixinhos deixaram a black music em segundo plano, e se concentraram na cultura popular, que havia em fartura onde eles viviam, mas à qual, até então, não prestavam atenção. O Lamento Negro começou a sair no Carnaval de Olinda como um bloco de afoxé e samba-reggae, mas logo se tornou também uma banda, de onde saíram os batuqueiros do Chico Science & Nação Zumbi.


RECONHECIMENTO

Três décadas depois, o Lamento Negro ganha fôlego impulsionado pela data redonda, arregimenta novos integrantes, uma parceira, a baiana Conceição Fayola, encarregada de um caderno sobre a trajetória do grupo de viabilizar um documentário” “Sou do Ilê Ayê, nasci no Curuzu, onde fica a sede do bloco, e 99% dos moradores são negros. Peixinhos e Curuzu, Lamento e Ilê tem muito a ver, inclusive pela ligação com o samba reggae e o trabalho social que os dois grupos fazem. A grande diferença é que o Ilê tem uma sede grande, no Curuzu, com um dos melhores estúdios de Salvador”, diz Conceição.

Outra semelhança entre o Ilê e o Lamento Negro é que ambos começaram com influência americana. Os baianos inspirados pelo Black Panther Party (Partido da Pantera Negra, criado em 1966), e os pernambucanos pela black music, porém forjando uma identidade própria e brasileira. Mas as comparações param por aí. Além de continuar sem sede, o Lamento Negro não desfruta do mesmo prestígio do Ilê Ayê, que ganhou a sede no último governo de Antonio Carlos Magalhães na Bahia:

“Uma das coisas que a gente costuma falar: Pernambuco tem uma musicalidade antes e depois do Lamento Negro. Do grupo vieram Nação Zumbi, Coração Tribal, grupos de samba e os maracatus passaram a ter outra visibilidade. Antes ninguém sabia o que era uma alfaia. O que o Lamento Negro fez por Pernambuco não tem reconhecimento, isso sem nem falar do trabalho social, que tivemos que interromper porque a gente não tem sede para dar nossas oficinas. Tem o projeto Troque sua Arma por um Tambor, mas tivemos que limitar as oficinas”, queixa-se Maia. Conceição Fayola complementa:

“O Lamento Negro luta para continuar fazendo um trabalho social, estamos na casa Crer (Comitê Estadual de Promoção da Igualdade Étnicorracial) lá no Carmo, mas só vamos fazer oficinas de percussão, canto coral, e dança. Reduzimos porque para as crianças irem é distante, a gente preferia fazer em Peixinhos”.

Peixinhos ganhou visibilidade depois que integrantes do Lamento Negro foram incorporados à cozinha percussiva de Chico Science & Nação Zumbi, e por grupos como o Via Sat. O abandonado Matadouro do bairro foi reformado e rebatizado de Nascedouro, um centro cultural, onde o grupo gravou Toques das Nações, o disco dos 30 anos. “O Nascedouro de Peixinhos não tem mais o mesmo vigor de quando a gente chegou lá para trabalhar com cultura. O teatro está fechado, o prédio está ameaçado. Tem um conflito, porque fica em Olinda, mas quem administra é o Governo do Estado, o Centro Tecnológico de Cultura Digital. O que acho triste é que já veio ali tantas pessoas importantes culturalmente, Afrika Bambaata, Gilberto Gil, um monte de gente, e está daquele jeito”, comenta Maia.

O estúdio de gravação, felizmente, continua sendo utilizado. A música que o Lamento Negro gravou para o próximo álbum foi registrada lá, onde também está sendo feita a mixagem. Nena Queiroga, Almir Rouche, Isaar, Adelson (vocalista do Ilê Ayê), Zé Brown, Gilmar “Bola Oito” Correa, do Combo X, são alguns dos convidados do disco. “Otto iria participar, mas depois que lançou o disco novo ficou sem agenda”, diz Maia, lembrando que Otto também foi batuqueiro do Lamento Negro:

“Ele chegou no ensaio do Lamento levado por Chico Science, até 1992 tocava com a gente”. Maia diz que não convidou ninguém da Nação Zumbi para participar do disco porque o grupo se distanciou de Peixinhos. Acha que seria diferente se Chico Science ainda estivesse na banda: “A primeira gravação nossa foi uma demo que fizemos com Chico, ele cantando A Cidade. Gravamos duas músicas para botar no CD Rock de Elcy (da loja CD Rock). Mesmo depois de ficar famoso, quando voltava das viagens com a banda, vinha em Peixinhos, tomava uma com a gente. Igual àquela música dele, Passeio no Mundo Livre, que diz ‘Eu só quero andar, nas ruas de Peixinhos’. Chico está até hoje com o Lamento, acho que ele não deixou a gente nunca”

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

UNIVERSAL MUSIC REEDITANDO RARIDADES DA MPB EM FORMATO DIGITAL

Por José Teles


Um raro Dorival Caymmi, no pacote digital da Universal Music


A Universal Music está relançando, em pacotes semanais, seu valioso e imenso catálogo de MPB, e outros gêneros afins, sem deixar de fora o pagode dos anos 90, e duplas sertanejas que afastaram o gênero da rota caipira (de João Mineiro & Marciano reeditaram três álbuns). Relançam, porém, apenas nas plataformas digitais, confirmando o inevitável fim do CD.

Na última leva, arremessada no final da semana, mandou ver diversas preciosidades, cujas versões em vinil têm preços estratosféricos nos sebos. Uma destas, é Eu Vou P’ra Maracangalha, de Dorival Caymmi, álbum lançado pela Odeon, há 60 anos. Um dos melhores discos de sambas do baiano, senão o melhor, começando pela faixa que lhe dá título, e indo por Saudade da Bahia, Samba da Minha Terra, Vatapá, Acontece que Eu Sou Baiano, entre outras.

No setor de raridades, disponibilizam Elis Regina e Zimbo Trio – O Fino do Fino, disco de 1965, primeiro álbum de Elis na Phillips, também primeiro de música popular brasileira da cantora (o álbum anterior estava ainda na CBS, mais uma mistureba de boleros, calipsos, e versões de standards americanos). Elis e o Zimbo Trio foram registrados no palco do programam da TV Record, O Fino (depois O Fino da Bossa), com um repertório da nascente MPB, com ênfase para a música de Edu Lobo (com quatro faixas entre as 12 do álbum).


Monolito negro da MPB é o único LP do Quarteto Novo, de 1967. O disco, que já recebeu versão em CD, com faixas extras, é reposto no ano em que completa meio século de lançado. Uma banda que está por merecer uma reunião. O QN foi o supergrupo brasileiro dos anos 60, formado por quatro virtuosos, tanto no instrumento, quanto na composição: Airto Moreira, Théo de Barros, Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte. Disco fundamental na MPB.

Os relançamento contemplam até o movimento armorial, cujos discos estão todos fora de catálogo. Deles, foi reposto Sete Flechas (1980), do Quinteto Armorial. Uma das faixas, Martelo Agalopado, é parceria de Ariano Suassuna com Antonio Nóbrega. Um pacote que traz ainda o MPB-4 (Caminhos Livres, de 1983), Emílio Santiago (Retrato, 2001), ou uma coletânea de Clementina de Jesus (Rainha Quelé).

A Universal reedita até a axé descartável de Jheremias Não Bate Corner (Ouvindo o Jheremias), e o Grupo Cafuné (da esquecida Melô do Pirulito). Lançamentos mais que oportunos numa época em que rádio e TV, com as exceções de praxe, se pauta pelo imediatismo, tocando o mais novo produto de ocasião que produtores lhes impõem, esnobando um dos mais ricos patrimônios da cultura universal, a música popular brasileira.

Confiram Dorival Caymmi no áudio de Maracangalha:

sábado, 5 de agosto de 2017

ZABÉ DA LOCA (1924/2017)

Por José Teles



A pernambucana, de Buíque, Isabel Marques da Silva, a pifeira Zabé da Loca, falecida hoje, aos 93 anos (estava com Alzheimer), em Monteiro (PB), onde viveu a maior parte da vida, foi o santo de casa que demorou para fazer milagre, mas fez. Era bastante prestigiada na Paraíba. No ano passado, em Monteiro, foi inaugurado um memorial para a pifeira, extensivo à arte popular da região do Cariri paraibano, o Complexo Turístico Zabé da Loca.

Descoberta em 1995, ele passou a viajar país afora, a gravar discos, frequentar festivais importantes, dar entrevistas a TV. Ganhou, em 2009, aos 85 anos, o Prêmio da Música Brasileira, na categoria Revelação. A última vez que a encontrei foi no Marco Zero, na Feira de Música Brasil. Conversamos um pouco, no backstage, ela pitava um cigarrinho de palha. No meio da conversa, serviram-lhe uma cachacinha, que ninguém é de ferro. Me fitou com uns olhos bem pequenos e azuis, e perguntou se eu queria uma lapada. Agradeci, disse-lhe que não podia, estava trabalhando. E ela: “eu também tô”.

Das entrevistas que fiz com Zabé da Loca, só encontrei uma, que reproduzo abaixo ( publicada no Jornal do Commercio, em 2008). Ela estava lançando, o segundo disco, Bom Todo, pela Crioula Records.

Entrevista

“A senhora já havia ido ao Rio de Janeiro antes?” A pergunta é feita, por telefone, à pifeira dona Zabé da Loca. Ela afirma que não. A pergunta seguinte é sobre o que ela achou da cidade: “Boa toda!”.

Aos 84 anos, Zabé da Loca está lançando o segundo disco, em 73 de carreira (começou a tocar aos sete anos), cujo título vem de sua expressão preferida: Bom todo (Crioula Records, distribuído pela Rob Digital). São 16 temas, a maioria composta por ela, o restante de autores como Severino Biano (da Banda de Pífanos de Caruaru, desde a década de 70 em São Paulo), um clássico de Zé Marcolino e Luiz Gonzaga, Sala de reboco, e até o Hino Nacional Brasileiro (Joaquim Osório Duque Estrada e Francisco Manuel da Silva).

O disco foi feito parte no sítio em que ela mora, em Santa Catarina, distrito de Monteiro (PB). Parte foi gravada no Recife, no estúdio Fábrica. Para o Rio, ela foi registrar cenas para um documentário, dirigido por Sérgio Abragia, para a Lume Arte e Marketing Cultural. A produtora Lu Araújo diz que o documentário está em fase de finalização. “Não sabemos ainda quando será concluído, porque dependemos de captação. Comecei este trabalho com Zabé da Loca com recursos próprios, depois fizemos uma captação junto à Petrobras, mas a grana acabou. Estamos procurando patrocínio para finalizar, mas acho que o documentário deva ter uns 45 minutos de duração”, esclarece a produtora.

Dona Zabé da Loca é um destes fenômenos isolados, que surgem de tempos em tempos. Ela foi descoberta em 1994, pela Coordenação de Ação Cultural da Secretaria de Reordenamento Agrário, que vem mapeando as manifestações culturais do semiárido nordestino, com assessoria da Fundação Quinteto Violado. O disco de estreia foi lançado em 1995. Recebeu críticas entusiasmadas, teve faixas saídas na coletânea japonesa Nordeste Atômico.

Porém, o que mais despertou curiosidade na pifeira não foi sua inegável habilidade no instrumento, mas por morar com os filhos, durante 25 anos, na Serra do Tungão numa caverna. Nasceu nos arredores de Buíque ( no agreste de PE), e veio com 16 anos para a Paraíba. O apelido lhe foi dado pela sua peculiar habitação, caverna é chamada de “loca” no Sertão.

“Onde cair o disco vai cair uma flor, porque esta linguagem é universal”, preconiza Carlos Malta, virtuoso tocador de pífano, que foi levado a aprender o instrumento depois de ouvir a gravação de Pipoca moderna com a Banda de Pífanos de Caruaru, em 1972, no disco Expresso 2222. Anos mais tarde, ele formaria o festejado grupo Pife Muderno.

Carlos Malta é o diretor musical de Bom todo e se revela um fã de dona Zabé da Loca. “Ela é incrível, do alto dos meus 48 anos, eu admiro uma tocadora que aos 80 anos continua na maior vivacidade. Claro que a idade pesa, mas imagino o que não deveria tocar quando estava na flor da idade”, comenta Malta. Lembrando a vivacidade de dona Zabé da Loca, ele diz que chegou a ensaiar umas paqueras com ele: “Nos tornamos parceiros, e até compus um xote para Zabé”, conta. Perguntada sobre o que achou do músico carioca, dona Zabé da Loca não se finge de tímida: “Ele é bonito todo!”.

O disco tem as participações especiais do próprio Carlos Malta, de Escurinho (nascido em Serra Talhada, mas radicado em João Pessoa), e Maciel Salú: “No começo Zabé da Loca estranhou a rabeca, disse que não dava certo pífano com rabeca, mas terminou concordando”, conta o diretor musical. A pifeira confirma: “Estranhei, mas achei que a rabeca ficou boa toda!”. Os demais músicos de Bom todo são os filhos e o neto de dona Zabé da Loca, River Douglas (zabumba), Pito (prato) e Júnior (caixa). Durante as gravações faleceu o pifeiro e compositor Beiçola, seu filho adotivo.

Confirma áudio de Zabé da Loca, com depoimento e o tema Fulô do Mamoeiro:


sexta-feira, 28 de julho de 2017

CRÔNICA: GILBERTO GIL E A FOTO PERDIDA


Por José Teles 


No backstage, em Marciac


Gilberto Gil completou hoje 75 anos. Há 45 eu o vi pela primeira vez, no Teatro do Parque. Não tinha dinheiro pro ingresso. Por sorte faltou energia no Recife nesta noite. O teatro às escuras, pedi ao porteiro pra entrar e ele, talvez achando que o show não iria continuar, deixou. Gil se acompanhava ao violão, no escuro. O clima era meio tenso. Foi o primeiro show dele no Brasil desde que, três anos antes, fora banido do país com Caetano Veloso. Tinha um monte de artistas na plateia, Gal veio de carro de Salvador com uma turma, acho que Macalé e Capinam faziam parte.

Voltei a ver Gilberto Gil novamente em 1976, com Os Doces Bárbaros, no Geraldão. Antes um show no SESC em Santo Amaro, com Dominguinhos na sanfona, a turnê de Refazenda. Uma noite memorável, em que ele esgotou o repertório, e começou cantar rock and roll dos anos 50, Little Richard, Elvis Presley. A quarta vez, com certeza, foi com Jimmy Cliff, no Geraldão, em maio de 1980. Um showzaço, e teve ainda ele e Rita Lee, igualmente no Geraldão, com o Refestança.

Desde então não tenho ideia de quantas vezes o vi no palco, e fora dele, depois que passei a escrever sistematicamente sobre música. Foram dezenas de ocasiões. Já assisti a show de Gil aqui no Recife, Salvador, no Rio, em São Paulo, no exterior. Dos grandes nomes da MPB dos anos 60, acho que foi o que vi mais vezes, e o que mais admiro, não apenas pelo talento, mas igualmente pela maneira como vai se renovando sem forçar barra.

Quando cobria o PercPan, o festival de percussão que acontece até hoje em Salvador, embora em dimensões bem menores, passamos a nos cumprimentar. O festival começou em 1994, mas foi em 1996 que Gil começou a dividir a direção musical com Naná Vasconcelos, que também foi o curador até 2000, quando deixou de participar do PercPan. Gil continuou, com Marcos Suzano, por mais duas edições.

Com Naná ele improvisava deliciosas vinhetas entre uma atração e outra. Tenho várias gravadas em cassetes, a qualidade sonora sofrível. São muitas. Lembro de uma em que ele e Naná improvisam em cima de Samba de Lado, de Chico Science. Acho que a única gravada foi a que fez para As Ceguinhas de Campina Grande, uma das melhores, bela e curta canção composta para a apresentação, em 2000, das irmãs campinenses, que lembro cantando na feira de Campina Grande.

Acho que show de carreira vi todos desde então. A primeira vez no exterior foi em 2000, numa edição do PercPan em Paris, no parque La Vilette. Teve um show também marcante, dele com Caetano Veloso, o Tropicália 2, no Anhembi, em São Paulo. Foram quase três horas de música. Quando escrevia o livro do Frevo ao Manguebeat, em 2000, aproveitei um lançamento de um disco, O Sol de Oslo, para entrevista-lo sobre sua passagem por Pernambuco no começo de 1967, quando fez uma temporada no TPN, que o levou a maquinar o que seria batizado de tropicalismo. A entrevista foi num casarão de uma fazenda de café em, São Paulo.

Mas normalmente nos encontramos em coletivas, entrevistas individuais, depois de shows. Porém a única vez em que conversamos descontraidamente foi no backstage do festival de jazz, em Marciac, na França em 2010. Eu acompanhava a turnê européia da Spokfrevo Orquestra. Eram duas atrações por noite. No último dia a SFO abriria e Gil, que na época fazia a turnê do Fé na Festa, fecharia o festival.

O concerto da Spokfrevo seria, acho, às 19h, chegamos por volta das cinco. Marciac é uma cidade com pouco mais de mil habitantes, uma vila medieval, que nos dá impressão de que entramos no túnel do tempo. O palco do festival é montado fora dos muros que a circundam. Não se tem o que fazer em Marciac, a não ser entornar umas e outras nos bares, Ficamos, pois, fazendo hora no backstage.

Estávamos conversando abrobrinhas, Gil, maestro Spok e eu. Teve um momento, que algum dos músicos da SFO resolveu tirar uma foto com Gil. Ele posou, depois me olhou assim meio sério. Num rompante, me disse: “Dispa-se de suas vestes de jornalista e vamos tirar uma foto juntos”. A foto foi tirada. Era final de viagem, todo mundo ansioso pra voltar pro Brasil. O músico não se lembrou de me enviar a foto, e esqueci quem nos fotografou. Nunca vi, portanto, a foto em que me despi de minhas vestes de jornalista, ao lado de um artista que nunca se vestiu de estrela da MPB. Outro motivo para admirá-lo.

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