sábado, 30 de abril de 2016

A MÚSICA DE 1966 – UM MENINO DE MUITO TALENTO

Por José Teles



“Um menino que tem muito talento”, Chico Buarque elogiado por Vinicius de Moraes, numa longa matéria que o Jornal do Brasil dedicou ao poeta em 28 de abril de 1965. No final daquele ano, Chico Buarque (ainda com o “de Holanda” no nome artístico) ratificaria o elogio ao musicar o auto Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, um poeta que, diz-se, não gostava de música. A estreia aconteceria em dezembro de 1965, mas só engrenaria no início de 1966. Em janeiro, Clarice Lispector assistiu entusiasmada ao espetáculo, e um colunista do JB preconizava um grande futuro para o compositor de 22 anos.

Chico Buarque, na mesma época, criaria, ou adaptaria, a música de outras peças. Uma sobre Galileu Galilei, outra com canções de Brecht, O Inimigo, de Gorki (direção de Zé Celso Martinez) e a infantilO Patinho Preto (existirá registro gravado destas músicas?) . Numa época em que Wesley Safadão é o ídolo da juventude brasileira, parece surreal, mas os estudantes de universidades e colégios católicos de São Paulo não foram às aulas para receber no aeroporto de Congonhas o vitorioso elenco do TUCA (Teatro da Universidade Católica), que voltava da França, depois de ganhar um prêmio com Morte e Vida Severina.

Parecia chegada de seleção campeã do mundo. O elenco foi recebido por uma multidão com faixas ,Hino Nacional, polícia para evitar tumulto. Chico Buarque de Holanda foi carregado nos braços pelos estudantes (que fizeram o mesmo com o diretor Sidnei Siqueira). A premiação de Morte e Vida Severina no festival em Nice, na França, jogou os holofotes sobre o segundo compositor mais elogiado da segunda geração da bossa nova.

Atrás de Edu Lobo, vencedor do primeiro festival importante da música popular no Brasil, o da TV Excelsior, em 1965, com Arrastão, em parceria com Vinicius de Moraes. O JB deu metade de página a Chico Buarque, descobrindo que ele já era o mais gravado da turma. Não se prestara ainda atenção, mas ele já legara à MPB (sigla que começaria a ser empregada naquele ano), alguns clássicos: Olê Olá, Pedro Pedreiro, Meu Refrão, A Rita, Juca, Madalena Foi Pro Mar.

Em 1966, a censura adormecida da ditadura militar despertou. Proibiu a execução pública de Tamandaré, música do repertório do show Meu Refrão, que Chico Buarque de Holanda ia estrear com Odete Lara e o MPB-4, na boate Arpége, no Rio. A proibição atribuída à ofensa contra o Almirante Tamandaré (cujo rosto era estampado na cédula de 1 cruzeiro) e, por conseguinte, à Marinha Brasileira, da qual era o Patrono. Odete Lara tinha acabando de lançar a música em compacto, pela Elenco. Os discos, seis unidades, foram apreendidos. Chico Buarque foi à redação do JB se queixar da censura. Nem sabia o que teria que suportar na década seguinte.

Então veio A Banda. Em outubro de 1966, anunciavam-se as finalistas do II Festival da Música Popular Brasileira, agora na TV Record. Na final, deu empate entre A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Depois se soube que Chico, por considerar queDisparada era melhor que A Banda, exigiu o empate. Há 50 anos, o país inteiro começou a cantar A Banda. Não foi apenas mais um sucesso, foi um fenômeno, destes que acontecem de meio em meio século. Uma marchinha simples, de letra singela, foi gravada e regravada no Brasil (e logo no exterior), e tornou Chico Buarque, por algum tempo, a “única unanimidade nacional”, no dizer do futuro desafeto Millor Fernandes.

No Recife, Hélder Câmara ocupou um programa inteiro de TV discorrendo sobre A Banda, cujos compactos, mal chegaram nas lojas e logo se esgotaram, como aconteceu no Brasil inteiro. Maestros apelavam a Chico Buarque para salvar ele ajudasse a salvar as bandinhas de interior; agentes da polícia usaram um compacto de A Banda para atrair, e dar um flagra, em uma bicheira em BH que queria comprar o disco; padres e freiras em São Paulo aprenderam a cantar a marcha para ficar a par do gosto da juventude; e sociólogos dissecavam a composição.

A música de Chico Buarque de Holanda contaminou todos os segmentos da sociedade brasileira. A troca de guarda no Palácio do Planalto, por exemplo. passou a acontecer ao som de A Banda, o mesmo acontecendo no Ministério da Guerra, durante a troca de guarda dos Dragões da Independência. Aos 22 anos, Chico Buarque foi convidado para dar um depoimento sobre sua vida ao recém-inaugurado Museu da Imagem e do Som, do Rio.

Em novembro, Chico Buarque de Holanda, o primeiro LP do artista mais festejado do país chegava às lojas, com selo da RGE. Numa tarde de autógrafos no Largo da Carioca, Centro do Rio, ele assinou 150 álbuns. Não assinou mais porque a loja ficou sem discos. Só o compacto da música lançado com Nara Leão deve ter passado a barreira do 1 milhão de cópias. As fábricas trabalhavam apenas paraA Banda que todo mundo queria gravar. O que levou a RGE a abrir mão da exclusividade sobre a música, liberando-o para quem quisesse gravá-la.

“Minas Mobiliza 4 batedores, 35 guardas e 7 bandas para Ver Chico Buarque Passar”, título da matéria do JB sobre a primeira visita de Chico à Belo Horizonte, onde cantou para um público de 50 mil pessoas. A Melhor Música do Ano de 1966, no entanto, não foi A Banda, mas Olê Olá, de Chico Buarque (claro), que também levou um precoce prêmio pelo Conjunto da Obra.

Para encerrar 2016, Chico Buarque de Holanda, lançado em novembro, foi considerado o melhor LP do ano: “A maior virtude do disco é o repértorio. Um senhor repertório. Através dele, Chico Buarque conseguiu não apenas ser o maior compositor do ano, mas produzir uma obra, – de apenas três anos – que dificilmente será superada por outro autor da sua idade”, trecho da crítica de Juvenal Portella, no JB, ao LP Chico Buarque de Holanda, ao qual deu nota dez.

Confiram Chico Buarque, no Festival da TV REcord, apresentando A Banda:

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