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terça-feira, 22 de setembro de 2020

CHICO BUARQUE E GILBERTO GIL LANÇAM NOVA VERSÃO DO CLÁSSICO 'COPO VAZIO'

Foi lançado também um clipe da canção, com imagens inéditas do dueto de Chico e Gil, filmadas pela Conspiração Filmes no estúdio de Gil, no Rio



A música Copo Vazio, composta por Gilberto Gil e gravada por Chico Buarque originalmente em seu disco Sinal Fechado, de 1974, ganha nova versão que chega nesta sexta-feira, 24, às plataformas digitais. Foi lançado também um clipe da canção, com imagens inéditas do dueto de Chico e Gil, filmadas pela Conspiração Filmes no estúdio de Gil, no Rio.

A regravação foi realizada em 2014, a pedido de Andrucha Waddington, que, na época, rodava Rio, Eu Te Amo e estava em busca de uma trilha sonora para a personagem vivida por Fernanda Montenegro, Dona Fulana.

O álbum Sinal Fechado foi gravado por Chico Buarque só com composições de outros autores, como o já citado Gil, Caetano Veloso, Toquinho e Vinicius de Moraes, Noel Rosa, Walter Franco e Paulinho da Viola (cuja composição deu título ao disco). Na época, sob ditadura, a obra do cantor e compositor sofria forte censura. Chico estava "privado de sua liberdade artística plena!", afirmou Gil.

Na ocasião, Chico pediu música para Gil. "Um copo de vinho. Um copo vazio na mesa. Vazio como, se está cheio de ar? E veio a inspiração da canção que versa sobre a privação da liberdade em tempos de ditadura", escreveu Gil em suas redes sociais.

A letra da música:
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar
É sempre bom lembrar
Guardar de cor
Que o ar vazio de um rosto sombrio
Está cheio de dor
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor
Que a dor ocupa a metade da verdade
A verdadeira natureza interior
Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar


Veja o clipe:


Fonte: Estadão Conteúdo

domingo, 12 de julho de 2020

CHICO BUARQUE - CARAVANAS AO VIVO

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

DIA VOA - DOCUMENTÁRIO CHICO BUARQUE

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ACLAMADO POR SUA ARTE, CHICO BUARQUE DESPERTA REAÇÕES DE AMOR E ÓDIO POR SUA POSIÇÃO POLÍTICA - PARTE 02

Chico mudou? Nem tanto. Mas o Brasil, sim. Vencedor do Prêmio Camões suscita sentimentos opostos como nunca antes em sua carreira

Por Alexandre Luchesse


Reprodução / Reprodução
Detalhe da capa do disco "Chico Buarque de Hollanda", de 1966

Novos horizontes, menos alcance
Além de Rodrigo Constantino, outra polêmica personalidade seguida pela extrema direita ajudou a levantar questionamentos a Chico Buarque. Diferentemente das palavras de Constantino, as críticas do músico Lobão não se restringem apenas à posição política do artista.

– O Lobão já tinha uma crítica com relação ao Chico antes da polarização política. Ele já o contestava na década de 1990. Lembro do Itamar Assumpção falar sobre isso, questionar o quanto a existência dos cancionistas dos anos 1960 e 1970 em certa medida bloqueava o surgimento de novos destaques. De fato, não sei o que no Lobão é apenas ataque político ou uma questão estética, se é apenas aquela coisa de um direitista raivoso ou se é inconformidade por conta do rock não passar mesmo pelo Chico Buarque – diz Guto Leite.

Em livros, entrevista e declarações em redes sociais, Lobão realmente já lamentou muitas vezes o fato de Chico não ter se sensibilizado pela simplicidade e o apelo visceral do rock. “Se Chico Buarque tivesse ouvido Chuck Berry, não seria a merda que é”, provocou pelo Twitter em março de 2017, logo após a morte do roqueiro norte-americano. Em uma entrevista recente para um canal do YouTube, criticou o “barroquismo pernóstico, chato, burocrático e inútil” da MPB:

"Não há transcendência alguma nas músicas do Chico Buarque. São todas muito burocráticas, parecidas com sua própria mímica corporal, que é nenhuma. Ele tem zero expressão quando vai cantar".

Sem demonstrar interesse pelo rock ou qualquer gênero musical que se popularizou a partir dos anos 1980, Chico Buarque se afastou das rádios e da televisão, além de ter passado longas temporadas longe de palcos e estúdios, dedicando-se à literatura – o que acabou levando sua obra a outro patamar.

Talvez o último destaque de consumo massivo que promoveu o compositor como influência central foi a banda Los Hermanos. Por conta disso, o artista tem uma renovação de público lenta, inserindo-se cada vez mais em um perfil de consumo seleto. Em um país com poucos leitores, seus premiados romances Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), Leite Derramado (2009) e O Irmão Alemão (2014) também não chegam a configurar uma vasta porta de entrada para potenciais aficionados.


Um fenômeno intelectualizado

Chico Buarque pode não ser mais o fenômeno popular que conquistou o Brasil nos anos 1960 e 1970. Porém, vem ganhando cada vez mais espaço em pelo menos dois meios de prestígio: a academia e a opinião pública – de dentro e fora do Brasil. O recente reconhecimento do Prêmio Camões, considerado o mais importante da literatura em língua portuguesa, é uma prova disso. Trata-se de uma láurea concedida por um júri com intelectuais de Portugal, Brasil, Angola e Moçambique, que se reúne a cada ano para eleger um autor que tenha contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da comunidade lusitana ao redor do mundo. Chico foi escolhido por unanimidade neste ano.

– A ideia de premiar Chico nasceu dos colegas portugueses – conta o jornalista, escritor e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Antonio Hohlfeldt, um dos jurados brasileiros desta edição do prêmio, juntamente com o poeta Antonio Cicero.

Hohlfeldt assegura que a escolha se baseou estritamente em critérios literários. Não houve debate sobre a postura política ou ideológica do autor.

– Chico tem, em primeiro lugar, uma contribuição de poeta, sobretudo por meio dos poemas da música popular que ele escreveu e escreve até hoje. Um segundo ponto é sua contribuição de dramaturgia. E a terceira contribuição é da prosa, por meio dos romances – analisa Hohlfeldt.

O professor observa que a canção popular pode ser um meio de difusão da poesia em países com baixo letramento, como Angola e Moçambique, ou com baixo consumo de livros, como Brasil e Portugal.

– A canção chega aonde um livro de poesia não alcança. A despeito das questões musicais, você pode pegar alguns poemas do Chico, como Construção, por exemplo, e percebe que são verdadeiras obras-primas.

Crítico de teatro, Hohlfeldt também defende o que considera ser a qualidade exemplar da dramaturgia do premiado:

– Chamei atenção sobretudo para um trabalho de Chico com Naum Alves de Sousa chamado Suburbano Coração. Embora não seja uma de suas peças mais populares, é marcada uma brasilidade singular.

Guto Leite observa que Chico tem características que o aproximam mais do ambiente acadêmico do que outros cancionistas:

– A dicção dele encara o presente muitas vezes, mas também tem um vetor interessante apontando para o passado, para a tradição. Além disso, é um cara que frequenta o mundo letrado, é filho de Sergio Buarque de Holanda, que era amigo de Mario de Andrade. A forma bem acabada de suas obras também é vista com simpatia. Tudo isso faz com que não seja encarado como uma estranho para a academia. Bastava reconhecer a canção como gênero literário para que ele fosse mais estudado.


Comunicação limitada com as massas

Aos 75 anos, Francisco Buarque de Hollanda dedica-se à música e à literatura em seu apartamento no Rio de Janeiro, onde mora, ou em Paris, onde costuma passar temporadas de no máximo um mês. Há vários anos não concede entrevistas. Entre as justificativas para as negativas à imprensa estão a preocupação em não se repetir e não promover sua carreira literária por meio da sua persona pública.

A única declaração do artista com respeito ao Prêmio Camões se restringiu a uma frase:

– Fiquei muito feliz e honrado de seguir os passos de Raduan Nassar.

Em um vídeo de 2011, gravado nos bastidores da gravação do disco Chico, o artista faz um raro comentário sobre sua experiência com o ódio na internet. Bem-humorado, ele conta como foi a primeira vez em que leu comentários sobre ele em um portal de notícias.

– Não lembro em que notícia sobre mim eu entrei e vi “comentários”. Nunca tinha entrado nisso. Aí comecei a ler. “O que esse velho está fazendo aí?”. “O que o álcool não faz com as pessoas?” – lembra Chico, às gargalhadas. – O que é uma injustiça, já que eu nem bebo mais.

E conclui:

– Você vai fazer o que, né? As pessoas têm uma raiva... Mas você não vai ficar com raiva de quem tem raiva. Então deixa pra lá.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

ACLAMADO POR SUA ARTE, CHICO BUARQUE DESPERTA REAÇÕES DE AMOR E ÓDIO POR SUA POSIÇÃO POLÍTICA - PARTE 01

Chico mudou? Nem tanto. Mas o Brasil, sim. Vencedor do Prêmio Camões suscita sentimentos opostos como nunca antes em sua carreira

Por Alexandre Luchesse


Reprodução / Reprodução
Detalhe da capa do disco "Chico Buarque de Hollanda", de 1966

Há artistas que consolidam a carreira com bruscas mudanças de direção. Prêmio Nobel em 2017, Bob Dylan é um deles: depois de ser alçado a arauto da música de protesto norte-americana, deixou o violão de lado e abraçou a guitarra elétrica; mais tarde converteu-se ao cristianismo e o celebrou em discos e shows, para anos depois abandoná-lo em um álbum intitulado Infidels (1983). Já o mestre da canção brasileira Chico Buarque não é conhecido por guinadas radicais em seu trabalho. Ao contrário, amadureceu sua poesia e musicalidade a cada novo disco sem jamais negar o anterior ou tratá-lo como página virada.

Apesar da regularidade como artista, Chico foi capaz de gerar reações diversas nos ouvintes e na opinião pública ao longo do tempo. Praticamente uma unanimidade nacional no fim dos anos 1970, brilhando no rádio e na televisão, ele hoje divide opiniões: ao mesmo tempo em que é incensado por fãs e pelo mundo letrado, provoca reações de ódio e repulsa nas redes sociais – e também na rua.

O mesmo autor que, aos 75 anos, ganhou recentemente o Prêmio Camões, láurea que consagra seu trabalho em toda a comunidade de língua portuguesa no planeta, recebe xingamentos por conta de seu posicionamento político em caixas de comentário da web e até ao atravessar a rua em seu bairro, o Leblon, no Rio.

– Chico já causou diferentes reações em fases diferentes da carreira, mas nunca de maneira tão extremada como hoje – assegura a jornalista Regina Zappa.

Autora de livro biográfico sobre o músico, dramaturgo e escritor carioca, Regina concorda que Chico não empreendeu nenhuma mudança radical no seu trabalho que justifique as alterações de reação do público. O que mudou, na verdade, foi o Brasil.

– As críticas de hoje ao Chico não são voltadas ao seu trabalho, e sim aos seus posicionamentos políticos. Mas é importante observar que ele não mudou. Ele sempre se posicionou politicamente. Sempre manteve a coerência colocando-se à esquerda. No entanto, parte da sociedade desenvolveu um ódio tão grande ao PT e ao Lula que o estende a qualquer um que apoie o ex-presidente, ou até mesmo seja neutro – diz Regina.

O autor de A Banda e Cara a Cara, perseguido pela censura durante a ditadura militar, de fato foi um dos apoiadores mais constantes de Lula ao longo de sua carreira. Mesmo em momentos de menor adesão da classe artística, a exemplo das eleições de 2006, logo após o escândalo do Mensalão, Chico manteve publicamente seu voto a favor do petista. Em 2008, gravou um vídeo de apoio a Maria do Rosário, que disputava a prefeitura de Porto Alegre, perdendo para José Fogaça.

Com Boulos e Lula, Chico reafirmou posicionamento político em 2016Ricardo Stuckert / Instituto Lula


Esse apoio a duas personalidades muito criticadas pela fatia de militantes da direita mais radical, contudo, ainda não gerava ataques tão incisivos como os de hoje em dia. A crescente polarização política, que ganhou espaço no país a partir de 2013, tornou o artista um alvo.

Um dos ataques mais conhecidos ocorreu em dezembro de 2015, quando saía de um restaurante e foi abordado por transeuntes que questionaram seu apoio ao PT. Entre eles, estavam o então rapper Tulio Deck, hoje artista visual, e o estudante Álvaro Garneiro Filho, herdeiro de um megaempresário. A confusão foi gravada em vídeo e se espalhou via internet. No canal Glamurama, do YouTube, mais de 600 mil pessoas viram os rapazes gritando frases como "petista, vá morar em Paris" e "o PT é bandido" para o septuagenário compositor.

Pouco mais de um ano antes do bate-boca, o colunista Rodrigo Constantino havia incluído o nome de Chico Buarque em seu livro Esquerda Caviar, no qual critica o fato de o compositor manter um apartamento na França e ao mesmo tempo "adorar o socialismo". "A marca registrada dessa esquerda caviar, que adora o socialismo do conforto de Paris, que prega uma radical mudança no estilo de vida dos outros para mitigar o aquecimento global, é a antiga máxima 'faça o que eu digo, mas não o que faço'", escreveu Constantino, fornecendo combustível à rejeição.

Depois que o caso ganhou as redes, Álvaro Garneiro, então com 19 anos, pediu desculpas pelos impropérios.

– Acho que o sr. Chico é uma pessoa mais velha e merece respeito – declarou à Folha de S.Paulo.

O herdeiro também afirmou que entrou na discussão depois de o tumulto ter se formado, e que precisou perguntar a um garçom quem era o "senhor envolvido na discussão".


Mudanças na própria esquerda

Abalos na carreira de Chico Buarque já haviam ocorrido antes. Um dos primeiros se deu com a peça Roda Viva, escrita por ele e encenada por José Celso Martinez Corrêa em 1968. Naquela época, Chico era conhecido como o simpático cantor do sucesso A Banda, canção vencedora do Festival de Música Popular Brasileira de 1966. Muita gente que foi ao teatro para ver o trabalho do menino de voz suave e olhos claros saiu escandalizada com a performance criada por Zé Celso, que combinava erotismo com imagens sacras e até um fígado cru sendo dilacerado em cena, espirrando sangue sobre os vestidos das madames que costumavam se sentar às primeiras filas.

Em São Paulo e em Porto Alegre, o espetáculo foi vítima de repressão organizada por grupos paramilitares. Houve destruição de cenário, espancamentos e sequestro de atores.

Nos anos 1970, canções de protesto como Apesar de Você e Cálice também causaram problemas ao cantor e compositor. A censura fazia com que ele precisasse reescrever letras e criar malabarismos poéticos para expressar opiniões que não podiam ser ditas diretamente.

Para Regina Zappa, os dois momentos de perseguição são muito diferentes do que é vivido atualmente por Chico:

– No caso do Roda Viva, foram ações por parte de milícias, de comandos, não da população. É claro que ele foi perseguido, mas era uma perseguição oficial, por parte da autoridade policial, da ditadura. Sobre as canções de protesto, era esperado dos artistas que se comportassem contra a censura e a favor da liberdade. O que ocorre agora é bem diferente: a ação não parte da polícia, dos comandos ou da censura; é uma fatia da sociedade que começou a destilar um ódio insensato.

Músico e professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Ri Grande do Sul (UFRGS), Guto Leite lembra que Chico não é questionado só por quem opta por uma postura política mais conservadora:

– A direita, de certa forma, faz uma divisão entre o Chico artista, e talvez até reconheça sua grandiosidade nesse campo, e o ativista. “Como artista ele é ótimo, o problema é quando se mete em política” é uma frase que já ouvi. Mas acho que ele tem apanhado da esquerda também, principalmente da esquerda mais ligada a pautas identitárias.

Letras do autor já levantaram discussões sobre machismo e lugar de fala, lembra Leite:

– Ele recebeu acusações de machismo. E também tem músicas como Gente Humilde e Sinhá, em que o “eu lírico” é negro ou negra ou comenta a escravidão. Há sempre uma espécie de ressalva na recepção desse tipo de canções dele: “Ah, mas ele é um sambista branco. Não é o Paulinho da Viola”. Ao mesmo tempo, com a polarização, a esquerda parou um pouco de pegar no pé dele nesse sentido.

Também em relação à crítica da esquerda identitária, não foi Chico Buarque que mudou, mas o Brasil e seu novo cenário musical que propiciaram uma nova leitura de seus trabalhos.

– Em certa medida, são o rap e as canções que vieram depois dos anos 1990 que deixaram o Chico em outro lugar em relação à esquerda. No entanto, é importante lembrar que, antes disso, ele deu voz a muita gente por meio da voz dele – pontua Guto Leite.

quarta-feira, 13 de março de 2019

O GRANDE CIRCO MÍSTICO

sábado, 29 de dezembro de 2018

CARAVANAS (DVD CHICO BUARQUE)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

CHICO BUARQUE (1967)

sábado, 4 de agosto de 2018

SANGUE LATINO

segunda-feira, 25 de junho de 2018

PAUTA MUSICAL: CHICO BUARQUE E TRIO ESPERANÇA

Por Laura Macedo




Chico Buarque e Trio Esperança cantam - “O que será (à flor da pele)” - para uma TV francesa.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

CHICO BUARQUE EM PORTO ALEGRE: CONFIRA DATAS DOS SHOWS, VALOR DE INGRESSOS E PONTOS DE VENDA



Chico Buarque na turnê "Caravanas"Leo Aversa / Canivello Comunicação


Chico Buarque de Hollanda fará shows em Porto Alegre nos dias 17 e 18 de agosto no Auditório Araújo Vianna. O cantor colocou a capital gaúcha no roteiro da turnê que apresenta seu novo trabalho, lançado ano passado e elogiado pela crítica, intitulado Caravanas. Os ingressos começaram a ser vendidos o último dia 17, em uhuu.com e na Bilheteria do Teatro do Bourbon Country. 

A última vez em que Chico esteve em Porto Alegre foi há seis anos, celebrando os 45 anos de carreira. Dessa vez, a razão é outra. O músico virá apresentar Caravanas - nove faixas -, além de 19 composições de diferentes décadas, dos anos 1960 até os dias de hoje. O encadeamento das músicas foi bastante elogiado nas cidades em que Chico já se apresentou com a nova turnê. Entre os relatos, chamou atenção do público os novos sentidos que músicas antigas ganham no roteiro de Caravanas.

Apesar do setlist numeroso, o repertório não interfere na duração do espetáculo, que transcorre em cerca de uma hora e meia. Nele, Chico vai de sambas (logo na abertura com a dobradinha Minha Embaixada Chegou e Mambembe) a boleros (Casualmente) e blues (Blues para Bia). 

A banda tem sido praticamente a mesma da última turnê, Chico, de 2011, com a substituição do baterista Wilson das Neves (1936 – 2017), morto em agosto, por Jurim Moreira, músico já presente no álbum que gerou o espetáculo. A direção musical, os arranjos e a regência dessa banda são do violonista Luiz Cláudio Ramos, com quem Chico trabalha há mais de 30 anos. A cenografia de Helio Eichbauer recicla formas e elementos (cordas e hélices, em especial) já vistos em outras molduras criadas pelo artista para shows. As informações são do site G1.

Caravanas é o 23º álbum de estúdio de Chico. O disco entrou em diversas listas de melhores de 2017 e levou o prêmio de Canção do Ano do Superjúri do Prêmio Multishow pela faixa que dá nome ao álbum.


CARAVANAS – show com Chico Buarque e banda

PORTO ALEGRE

Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685)

Datas: 17 e 18 de agosto (sexta e sábado)

Horário: 21h

Início das vendas: 17 de maio (quinta), às 10h.

Duração aproximada: 1h30.

Classificação indicativa: Livre.


Ingressos:

Cadeiras extras: R$ 180,00 (inteira)/R$ 90,00 (meia)

Plateia alta central: R$ 400,00 (inteira)/R$ 200,00 (meia)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

DUETO (CHICO BUARQUE E CLARA BUARQUE)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

DEZ MOTIVOS PARA SEGUIR AS 'CARAVANAS' DE CHICO BUARQUE PELO BRASIL EM 2018

Por Mauro Ferreira, G1




A rigor, Caravanas é um show de 2017, ano em que estreou na cidade de Belo Horizonte (MG) em curta temporada que manteve Chico Buarque em cena na capital mineira de 13 a 17 de dezembro. Mas é neste novo ano de 2018 que o show do cantor, compositor e músico carioca vai percorrer o Brasil em turnê que recomeçou na última quinta-feira, 4 de janeiro, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde o show orquestrado com produção de Vinicius França ficará em cartaz até dia 4 de fevereiro na casa Vivo Rio. O show Caravanas é marcante e já se impõe como momento antológico da trajetória do artista nos palcos brasileiros. Eis dez motivos para seguir as Caravanas de Chico Buarque pelo Brasil ao longo de 2018:


1. Sem jamais adotar discurso panfletário, Chico manda recados para os haters através de versos das músicas do cancioneiro essencialmente autoral do roteiro de fina costura. Tanto que evidencia, em tom quase rapeado, os versos "Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio / Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio / Que eu já tô de saco cheio", de Partido alto (Chico Buarque, 1972). "E qualquer desatenção / Faça não / Pode ser a gota d'água...", reitera 22 números depois, já na parte final do show, ao cantar Gota d'água (Chico Buarque, 1975). O aviso está dado.

2. De chapéu panamá, como visto na foto de Leo Aversa, Chico samba no palco em Grande hotel, saudando Wilson das Neves (1936 – 2017), a quem o show Caravanas é dedicado, ao cantar o samba de 1997 que compôs com a Chefia, baterista dos shows anteriores do cantor.

3. O engenhoso desenho de luz de Maneco Quinderé valoriza o cenário em que Hélio Eichbauer usa cordas, hélices e outros elementos recorrentes na obra do artista visual. A projeção da luz de Maneco nos elementos cênicos de Eichbauer provoca espetáculo de luzes e cores que faz com que o cenário adquira formas variadas ao longo do show.

4. No único momento em que se desvia do trilho autoral do roteiro, Chico canta um samba de Assis Valente (1908 – 1958), compositor baiano de fundamental importância na música brasileira dos anos 1930 e 1940, nome relevante na discografia de Carmen Miranda (1909 – 1955), cantora que lançou em 1934 Minha embaixada chegou, samba alocado por Chico na abertura e no fecho (antes do bis) do roteiro. Os versos de Minha embaixada chegou são a senha para o entendimento do recado político do show.

5. Apagando a má impressão deixada por claudicante interpretação de As vitrines na última edição do Prêmio da Música Brasileira, em 2017, Chico interpreta lindamente a canção que lançou em 1981.

6. Algumas músicas do roteiro, como Retrato em branco e preto(Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1968), são bissextas nos palcos na voz do cantor e compositor.

7. Os encadeamentos das músicas no roteiro são sagazes. A propósito, o roteiro do show Caravanas é exemplar. Uma aula de como dar novos sentidos a músicas já antigas.

8. A banda orquestrada com elegância pelo maestro, arranjador e violonista Luiz Claudio Ramos é excepcional. Bia Paes Leme (teclados e vocais), Chico Batera (percussão), João Rebouças (piano), Jorge Helder (contrabaixo), Jurim Moreira (bateria) e Marcelo Bernardes (flauta e sopros) estão entrosados e à vontade no tradicionalista universo musical de Chico.

9. Os aplausos do público enquanto Chico canta os versos mais controvertidos de Tua cantiga (Chico Buarque, 2017) absolvem o artista nos julgamentos insanos dos tribunais do feicebuqui (para usar termo mordaz cunhado pelo tropicalista Tom Zé).

10. A simples presença em cena de Chico Buarque, aos 73 anos de vida, já justifica por si só a ida ao show Caravanas.

PÚBLICO ENFRENTA DEMORA NA FILA DE INGRESSO PARA SHOW DE CHICO BUARQUE

Os interessados chegaram a esperar quase duas horas para adquirir a entrada




Quem saiu de casa para comprar presencialmente os ingressos para os quatro shows de Chico Buarque, que acontecem entre 3 e 6 de maio, no Teatro Guararapes, enfrentou um longa demora na bilheteria do local, no Centro de Convenções, para conseguir os seus ingressos. Apesar de haver uma fila no local, o grande problema foi a pequena quantidade de guichês abertos e a lentidão do sistema de compra.

A universitária Amanda Jordão conta que esperou duas horas no local. “Nunca imaginei que ia demorar tanto, porque aparentemente não tinha muita gente na frente. Acho que o problema foi porque só tinham dois guichês e um deles era preferencial. Quando chegou minha vez de ser atendida, notei que os computadores e a internet estavam super lentos”, explicou.

Segundo Amanda, a questão não era o tamanho da fila, mas o atraso para concluir as vendas. “Fui comprar presencial porque a taxa de ‘conveniência’ do site era de 20% (outro absurdo). Mas, sinceramente, valia mais a pena pagar os 20%”, ressaltou. A demora foi tão grande que a bilheteria chegou a disponibilizar água para quem estava esperando.


INGRESSOS

Os ingressos para os show de Chico Buarque em Pernambuco podem custar até R$ 490. Para o balcão, as entradas custam R$ 250 (inteira) e R$ 125 (meia). Já para a plateia, os valores são R$ 490 (inteira) e R$ 245 (meia).

sábado, 23 de dezembro de 2017

SINHÁ (CHICO BUARQUE E JOÃO BOSCO)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

CHICO BUARQUE ENCANTA O PÚBLICO NA ESTREIA DA TURNÊ CARAVANAS; LEIA A CRÍTICA

"Vai pra Cuba!", ordenam os críticos do cantor nas redes sociais. Pois Chico foi. Voltou de lá para o novo show com a tabelinha entre Iolanda e Desaforos, resposta enviesada aos agressores virtuais


Por Carlos Marcelo

(foto: Marcos Vieira/EM/D.A.Press)


Breves palavras entre as canções, olhares, sorrisos de cumplicidade e, logo no início, Chico Buarque tem a plateia do Palácio das Artes aos seus pés. Ele mostra as músicas novas, escava o passado. Escala seu time mexendo nas peças, mas sem alterar o esquema tático. Tudo dominado: eis o malandro em casa outra vez.

“Vai pra Cuba!”, ordenam os críticos do cantor nas redes sociais e nas caminhadas dele pelos “bairros chiques” do Rio. Pois Chico foi. Voltou de lá para o novo show com a tabelinha entre Iolanda e Desaforos, resposta enviesada aos agressores virtuais (“Custo a crer que meros leros-leros de um cantor possam te dar tal dissabor”), reforçada pela inclusão de Injuriado (“Não entendo/ Porque anda agora falando de mim”). Durante As vitrines, na qual surge o vigia que tanta polêmica histérica rendeu na linda Tua cantiga, a moça ao meu lado, não mais do que 20 anos, tira os óculos e enxuga as lágrimas. Como ele já dizia em Jorge Maravilha: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.

O script é meticulosamente arquitetado pelo autor, como se fossem capítulos de um romance. Por meio dos versos ou das sonoridades, tudo está conectado. A iluminação se adapta às sequências de canções: os blues (é surpreendente a acolhida à novata Blues pra Bia), os sambas, os amores, as catarses (Geni e o zepelim, dolorosamente atual). A luz ressalta as celebrações aos parceiros (Tom Jobim, Edu Lobo, Cristóvão Bastos), acompanha os passos miúdos e coreografados, reforça a reverência a Wilson das Neves. Ilumina cordas coloridas que se cruzam ao fundo da envolvente cenografia criada por Helio Eichbauer, formando teias semelhantes às engendradas no repertório. Linhas que se movimentam no ritmo de ondas para emoldurar Massarandupió, comovente declaração do avô ao neto sobre a inexorabilidade do tempo, disfarçada de idílio praieiro. 

Os músicos, afiados e harmônicos, seguem à risca o roteiro determinado pelo comandante. Nem os insistentes gritos político-românticos-ardentes da plateia de todos os sexos (“Casa comigo!”, “Você é foda!”, “Brasil urgente, Chico presidente!”, “Orgulho do Brasil!”) os tiram do prumo. Mas eis que surge Sabiá. Súbito encanto: a emoção dribla o script. “Vou voltar, sei que ainda vou voltar...”. Em contraluz, Chico hesita. A voz fraqueja, os olhos marejam. O nó na garganta demora a desatar. “Não vai ser em vão que fiz tantos planos...”. Envolvido pelo turbilhão de lembranças, sob a escultura suspensa que evoca um caleidoscópio, Chico se cala. Parece estar em outro tempo. No tempo do início, no tempo dos relógios que rodam para trás, do tempo da delicadeza e também das primeiras asperezas, como naquela noite de setembro de 1968, quando sua parceria com o “maestro soberano” foi vaiada no Festival Internacional da Canção. Amparado pelas vozes do público, ele volta ao presente. 

Se, no show de 2011, havia um instante de rap na citação da releitura de Criolo para Cálice, agora Chico flerta com o funk na poderosa As caravanas. Mostra que não aposentou a navalha ao escolher um lado e apontar o dedo para os seus vizinhos de Zona Sul carioca (“Gente ordeira e virtuosa que apela para polícia despachar o populacho de volta pra favela”), antes de ironizá-los: “O sol, a culpa deve ser do sol, que embaça os olhos e a razão...”. Ao lado do resgate de Sabiá e da contrição de Gota d´água, é um dos grandes momentos do show. Muitos sonhos foram extraviados no caminho, talvez os do próprio compositor. Apesar deles, e apesar das gritarias a favor e contra ele, não vale a pena se afobar. Amanhã há de ser outro dia, Chico acreditou lá atrás. Futuros sábios tentarão decifrar o eco de palavras ofensivas, fragmentos de verdades, marcas de uma estranha civilização que escolheu viver sob o império do confronto e do rancor. Como tudo no Brasil, nada é pra já. 

Enquanto não chega o outro dia, Chico decreta aos que o mandaram pegar uma caravana para Havana ou ficar no seu apartamento de Paris. “Sou um artista brasileiro”, encerra em Paratodos, no segundo bis, no show de estreia, realizado na quarta-feira. Sob rosas brancas e vermelhas, ele sai. Na carreira, sorri. Antes, uma fã, também ligeira, sobe ao palco e o agarra. Quando desce, Vânia, de 56 anos, se transforma. Agora é chamada por outras fãs de “a moça do abraço”. Chico enfurece? Sim. Mas Chico também rejuvenesce. Suas palavras, tantas palavras, provocam amor, repulsa, desejo, angústia, fascínio, raiva, sonho. Todas as reações. Todos os sentimentos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

CHICO BUARQUE ANUNCIA QUE TURNÊ 'CARAVANAS' COMEÇA POR BH EM 13 DE DEZEMBRO

É a segunda vez que o cantor estreia show no Palácio das Artes. Em 2011, ele abriu a turnê de 'Chico' na capital mineira



O cantor estreou 'Chico' no Palácio das Artes em novembro de 2011 (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)


O cantor e compositor Chico Buarque anunciou, no perfil oficial do Facebook, as datas da turnê nacional de seu novo álbum, Caravanas. Ele fará apresentações em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. A temporada na capital mineira vai de 13 a 16 de dezembro e marca a estreia do novo trabalho. 

Não é a primeira vez que Chico estreia em Belo Horizonte. O cantor iniciou por BH a turnê Chico, no dia 5 de novembro de 2011, no Palácio das Artes, fazendo temporada de quatro dias.

Depois de BH, Chico segue para o Rio de Janeiro, onde faz temporada de três semanas (de 4 a 21 de janeiro de 2018), no Vivo Rio. Ele chega a São Paulo depois do carnaval. Caravanas desembarca na capital paulista para quatro semanas no Tom Brasil (de 1º a 11 de março e de 22 de março a 1º de abril.)

Ingressos para o show de Belo Horizonte estarão à venda a partir das 10h do dia 11 de outubro, próxima quarta-feira, simultaneamente na bilheteria do Palácio das Artes, no site www.ingressorapido.com.br e pelo APP Ingresso Rápido. Os valores do ingressos vão de R$ 320 a R$ 490 (inteira); R$ 160 a R$ 245 (meia entrada).

sábado, 14 de outubro de 2017

A CANTIGA DE MORTE DE CHICO BUARQUE

Motivo de debates acalorados nos últimos dias, "Tua Cantiga", primeiro single do novo disco de Chico, não é simplesmente uma canção de amor



Por Guto Leite*



Ouvir uma canção inédita de Chico Buarque é lembrar do quanto pode ser complexa uma canção. Trata-se de objeto de arte, e aqui isso significa uma forma que recusa leituras rápidas ou imediatas. A percepção dessa diferença desperta uma desconfiança, um redobrar da atenção para as nuances da forma e a necessidade de mobilizar o que for possível de instrumental crítico para dar conta da riqueza de recursos do artista. Em outras palavras, ouvir Chico é ouvir um compositor que cria grandes canções há 50 anos, pelas quais passa boa parte da história da canção popular e do Brasil moderno.

Chico não é um aplicativo, não é um link, não é uma postagem, que se abre ao primeiro toque. Suas canções trabalham no sentido inverso da mercadoria, seja no tempo que requerem para ser consumidas, seja na relação que estabelecem com o ouvinte, decepcionando os desejos superficiais e falsos do consumidor. Em termos práticos, algo não resolvido nas canções de Chico não remete a uma insuficiência de recursos. Seu mais novo disco, Caravanas (já disponível nas plataformas digitais e nas lojas físicas) traz nove canções, sete delas inéditas, lançadas seis anos após o trabalho anterior. Deve-se presumir, por isso, que não se trata de sujeito ingênuo, e que essas canções foram escolhidas dentre dezenas. É desse lugar que parto para ouvir Chico Buarque, é desse lugar que parti para ouvir Tua Cantiga.

Logo na primeira audição, dois trechos me chamaram a atenção. Primeiro, a rara, pensando na obra de Chico, alteração de acento natural da palavra que acontece em "tua" de "quando 'tuá' garganta apertar", logo na "cara" da música. Segundo, a expressão cristalizada "estrada afora" em "E, estrada afora, te conduzir", que reconhecemos na versão popular da canção de Chapeuzinho Vermelho. Por tudo o que já foi dito, esses elementos não estão aí por acaso, e fui investigá-los. (Um aparte: a música de Cristóvão Bastos é extraordinária! Um lundu em compasso ternário, supersincopado, com uma linda modulação na melodia e uma harmonia que sublinha a rítmica peculiar da canção. O resultado é que gruda na cabeça, de cantarolar antes de decorar a letra.)

Comecei a abrir a porta pelo "estrada afora", que evoca a história formatada pelos irmãos Grimm. Passamos, então, a notar nas outras estrofes as referências ao Lobo Mau ("basta soprar meu nome"), à Bela Adormecida ("toda manhã/ eu te despertarei"), à Rainha Má ("serás rainhas/ serás cruel, talvez"), ao vigia de castelo ("se teu vigia se alvoroçar"), ao espelho mágico ("entre suspiros/ pode outro nome/ dos lábios te escapar/ terei ciúme/ até de mim/ no espelho a te abraçar") e, com alguma mediação, às Mil e Uma Noites ("se as tuas noites não têm mais fim") e aos corpos errantes ("se um desalmado te faz chorar", em que o "desalmado" precisa ser lido literalmente, como um morto-vivo). Essas lendas não aparecem em sua versão edificadora, moralista, mas suscitam uma ambiência macabra.

Com as alusões descobertas, fui buscar as referências nos trechos que me escapavam. O "tuá garganta", soando o francês toi ("tu", "você"), em posição invertida, recupera o Gargantua, de Rabelais, uma figura grotesca de glutão – a impessoalidade do verbo "apertar" nesse verso torna ambíguo se a garganta se aperta sozinha ou se alguém a aperta, o que sugere também o verbo francês tuer ("assassinar"). Em "Ou estas rimas não escrevi/ Nem ninguém nunca amou", a menção aos versos de Shakespeare, "If this be error and upon me proved/ I never writ, nor no men ever loved" (devo essa referência a Liziane Kugland), recuperando a figura do bardo e a figuração trágica do amor. A canção é uma ciranda de referências variadas pertencentes a um universo comum, antigo, anterior. Nessa leitura, a última estrofe se transforma na chave principal do todo, em que "o próprio compositor" confessa "E quando o nosso tempo passar/ E eu não estiver mais aqui/ Lembra-te, minha nega/ Desta cantiga/ Que eu fiz pra ti", presentificando o cantar da canção e colocando-se como um resquício do passado. (Passo ao largo dos muitos recursos poéticos mobilizados, mas gostaria de frisar as rimas aliterantes, "suspiro/ligeiro", "nome/perfume", "lenço/alcanço", "filhos/joelhos" etc., uma espécie de rima deceptiva, cuja presença marcante reforça o sentido geral da minha interpretação, a construção de um signo de descompasso.)

É pertinente perguntar quem as canções de Chico representam, visto que é impossível que mantenham a mesma representatividade entre 1966 e hoje – Chico já foi um herdeiro da Bossa Nova, um opositor da ditadura, um intérprete do Brasil, um sinônimo do que seja canção popular. O compositor está ciente da questão, e Tua Cantiga também se refere a esse entroncamento, como estou argumentando. Além disso, pensando a forma estética como uma permanência do contraditório humano, o envelhecimento e a anacronia cantados pelo compositor são uma extraordinária qualidade, na percepção do artista maior absolutamente lúcido sentindo e expressando a passagem do tempo; no conjunto de seus discos mais recentes, a entoação gradual de um passamento. Tua cantiga é muito mais valiosa do que se ele reduzisse essa perspectiva a uma posição fragmentada, alienada, e artificialmente atualizada e representativa, o que resultaria em gesto reificado.

Muito diferente disso, Chico insiste na canção de um amor que soa, a uma primeira audição, ultrapassado, desde a escolha do lundu como ritmo. É ridículo considerar que o cancionista seja inocente em relação a isso ou que não tenha recursos para fazer diferente. Ao revés, Chico caminha deliberadamente nessa floresta sombria que está representada na canção, afrontando o medo, o problema, o pesadelo vivo e complexo de um dos maiores artistas do país envelhecendo na nossa frente, deixando de estar na crista de seu tempo. Concomitantemente, como um velho malandro, dribla a audição consumista, dando-lhe migalhas rumo a um caminho simples, mas erroso, enquanto sobrepõe camadas de leitura que apontam para outras trilhas. As múltiplas referências às histórias infantis exageram propositadamente o passado enquanto entrelaçam horror e mística. Embora seja o mesmo eu cancional, seu caráter é monstruoso e aceita a leitura de que possa ser um a cada estrofe, uma voz particular, um narrador, para cada história. Há estrofes, inclusive, que um eu cancional feminino é mais provável, como a do espelho mágico.

A única referência ao gênero masculino na voz da canção é no verso "Mas teu amante sempre serei". Se pensarmos nesse esfacelamento, os polêmicos versos "Largo mulher e filho/ E de joelhos/ Vou te seguir", que representariam abandono pela figura paterna, podem também ter sido entoados por uma mulher ou pelo amor a uma espécie de santa, não um amor carnal. Se não pensarmos, ou seja, se entendermos que uma única voz entoa todas as estrofes, a canção não constrói a voz de um amante solar, de um conquistador, de um príncipe encantado, mas espalha, da letra à ambiência, sinais de sofrimento, a voz de um maldito, de um Quasímodo, de um Ahasverus. Os quandos e ses que abrem as estrofes expressam a não realização do amor, ao passo que a iluminação da melodia (sua modulação) evoca, com a letra, as fantasias possíveis, os fachos de luz, dentro desse bosque fechado.

Tua Cantiga é repleta de interrupções, de desencantos, traz as histórias infantis sem o velar dos finais felizes. Aceita e dá forma cancional ao substrato medieval dessas histórias, enquanto ironiza sobriamente a si mesmo. Chico, um medieval? Ele se pergunta, sarcasticamente. Estamos ouvindo a voz de um morto? Poderíamos nos perguntar. Tua Cantiga não é uma canção de amor, mas uma canção de morte. Nesse sentido, não poderia ser mais política.


P.S.: quando este texto já estava escrito, Chico divulgou a capa do álbum, em que aparece de costas, na sombra, do avesso, quase temos a sensação de que o compositor toca violão como canhoto (veja abaixo). Mais água para esse moinho. A foto de um drible.




*Poeta, compositor, professor de Literatura Brasileira da UFRGS


sábado, 30 de setembro de 2017

MEUS CAROS AMIGOS

Por Ricardo Moreira



Em 1976, ano em que foi lançado "Meus Caros Amigos", o Golpe Militar completava 12 anos e Chico Buarque de Hollanda - 32 anos, casado com Marieta Severo e pai de três meninas - ainda carregava nas costas a sina de ser “o nosso Errol Flynn” – como definiu Glauber Rocha pela ótica cinematográfica, dois anos antes. A essa altura a imagem de paladino da liberdade e o intrépido figurino capa-e-espada que Glauber e a nação tinham orgulho em lhe emprestar, não eram mais do seu tamanho.

Capa do Disco "Meus Caros Amigos" (1976)


Chico era muito maior do que tudo isso, mas difícil também era fechar os olhos a um Brasil perverso presidido pelo quarto militar onde atos simbólicos como a recusa do Prêmio Molière pela peça Gota d’água que escreveu com Paulo Pontes, ainda eram necessários para lutar contra a navalha da censura. Um país onde morria de forma suspeita, naquele mesmo ano, a estilista e mãe-coragem Zuzu Angel – que partia sem saber que destino fora dado a seu filho. Na obra de Chico, Zuzu e seu drama apareceriam duas vezes. A primeira no desesperado acalanto “Angélica”, em parceria com Miltinho e gravado por Chico apenas em 81, e na letra de “Cálice” – parceria com Gilberto Gil – no verso: “quero cheirar fumaça de óleo diesel / Me embriagar até que alguém me esqueça...”. Uma clara referência à morte de Stuart Angel que depois de torturado, teria sido arrastado com a boca no cano de descarga de um jipe da aeronáutica até morrer por asfixia. Era difícil calar.

A conta desse ativismo “visceral” era muitas vezes paga com a subestimação de suas primorosas melodias e do lirismo de suas canções. Tudo em favor de versos que davam voz aos anseios de liberdade àqueles brasileiros que tinham o privilégio e o desconforto de saberem o que se dava nos subterrâneos da liberdade, nas veias de um país abertas por tenebrosas transações. Se Chico por um lado precisava ser episodicamente resgatado do papel indesejado de “cantautor revolucionário”; já contra o forjado duelo estético com a Tropicália dos festivais, ele havia se vacinado tanto pelo arranjo primoroso do tropicalista Rogerio Duprat para “Construção” em 1971, quanto pelo histórico disco “Caetano & Chico - Juntos e Ao Vivo” de 1972.

Caetano e Chico - Juntos e Ao Vivo (1972)


Ainda perseguido pela incansável lupa da censura em “Calabar, O Elogio da Traição”, depoister-se camuflado dela em personagens fictícios como Julinho da Adelaide em “Sinal Fechado” e coadjuvado numa temporada e disco históricos com Maria Bethânia no Canecão, o artista estava pronto para continuar a aviar notícias frescas para novos e para caros amigos através de sua obra-prima de 1976. 

Meus caros amigos está no olho do furacão da discografia de Chico Buarque. Por se tratar de um disco, segundo ele próprio definiu os álbuns dos anos 1970, que tem “alguma coisa de abafado”, ele está num ponto intermediário entre o começo do sufoco de “Construção” e as janelas abertas a partir de “Chico Buarque” de 1978, quando a censura afrouxava e o projeto “lento e gradual” da Abertura começara.

Capa dos discos "Calabar" (à esquerda) e "Construção" (à direita)


Caía então como uma luva a influência ensolarada de Cuba na estupenda faixa de abertura “O que será”. A encomenda fora feita pelo diretor Bruno Barreto para Dona Flor e Seus Dois Maridos – uma adaptação cinematográfica do romance homônimo de Jorge Amado. Chico atendeu não só com uma obra-prima, mas com três “o que serás” subintitulados: Abertura, “À flor da pele” e “À flor da terra” para situações distintas do roteiro. O ensaio do cubaião, como ficou apelidada a música pela mistura rítmica caribenha e nordestina, encantou Milton Nascimentoque a ouviu por acaso ao passar pelo estúdio em que Chico ensaiava com o arranjador Francis Hime. Assim se deu o dueto histórico que teve o convite retribuído pelo mineiro em seu disco “Geraes”, onde Chico participa na versão à flor da pele de “O que será”.

“Mulheres de Atenas”, faixa dois do disco, foi composta também sob encomenda para a peça de mesmo nome do dramaturgo Augusto Boal - parceiro de Chico na canção. Ao espelhar a humilhação, abuso e a exploração feminina na remota sociedade grega a música aviva produtivamente o debate sobre o tema no mesmo 1976 em que a Academia Brasileira de Letras passa a aceitar mulheres em seus quadros e seis anos após a ativista Betty Friedan queimar sutiãs em Nova York.

“Olhos nos olhos” segue no mote da libertação feminina da submissão. Sucesso estrondoso no mesmo ano com Maria Bethânia, a balada evidencia o poder quase mediúnico de Chico em se transportar em verso para o universo do sexo oposto com naturalidade e identificação espantosas. 

“Você vai me seguir” – parceria com o cineasta Ruy Guerra - é ainda uma canção, que pelo caminho poético inverso como em “Mulheres de Atenas”, mostra quadro a quadro o poder subterrâneo do sexo “frágil”. Parte da trilha da peça “Calabar” – a belíssima toada conta ainda com um magistral trabalho vocal do MPB-4.

Hugo Carvana descolou “Vai trabalhar vagabundo” em 1975 para trilha de seu filme homônimo que contava a história de um malandro, o próprio Carvana, libertado da prisão. Chico não perde a viagem e salpica a música de críticas sociais pautadas pelas misérias do dia a dia do trabalhador brasileiro.

O samba “Corrente” é um universo paralelo que rescende ao mesmo concretismo pavimentado em “Construção” cinco anos antes. Como se fosse um playmobil poético, sua letra brinca de mover versos desvendando novos significados que o próprio ouvinte pode livremente atribuir. Apesar de ser “um samba bem pra frente”, como diz o primeiro verso, desafiando subliminarmente os militares em sua campanha institucional Este é um país que vai pra frente e de quebra a marchinha ufanista também usada pela Ditadura - “Pra frente, Brasil” da Copa de 70, a genialidade de Chico cria uma espécie de marcha-ré melódica e harmônica em que se tem a sensação clara de retrocesso. Uma obra-prima de concepção. 

“A noiva da cidade” e “Passaredo” foram compostas com Francis Hime para o filme A noiva da cidade, de Alex Viani. Na primeira o belo samba sonha com o amor de uma distraída menina-moça, enquanto a segunda é um verdadeiro tratado ornitológico que fez com que Chico pesquisasse em dicionários científicos os nomes de pássaros para compor a rica fauna da letra.

A intensa e errática “Basta um dia” é originalmente da peça Gota D’água, escrita com Paulo Pontes que tinha Bibi Ferreira no papel principal, foi também para o disco do mesmo ano da sambista Clara Nunes no esteio de seus costumeiros passeios à MPB.

O exilado político Augusto Boal – falecido em 2009 – aparece novamente desta vez como destinatário da carta-choro “Meu caro amigo” que Chico compôs também com Hime e inspira o nome do disco. O resultado da conversa entre melodia e letra brilhantes com arranjo de Francis para o regional de choro liderado pelo virtuosismo da flauta de Altamiro Carrilho, é arrebatador e definitivo.

Apesar da asfixia daqueles tempos de opressão, o sentimento que fica depois da leitura dessa carta libertária chamada “Meus caros amigos” é um intenso orgulho de ter Chico Buarque de Hollanda como patrício e, porque não dizer, caríssimo amigo.

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