PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

Mostrando postagens com marcador Chico Science. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chico Science. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de setembro de 2019

NOVO LIVRO DE JOSÉ TELES CONTA A HISTÓRIA DO DISCO 'DA LAMA AO CAOS'

Parte de uma coleção do Sesc São Paulo, 'Da Lama ao Caos: que Som É Esse que Vem de Pernambuco?' sai em edição digital



Por Diogo Guedes


O jornalista e crítico musical José Teles


“Chico Science & Nação Zumbi foi a banda certa num momento propício”, explica o jornalista e crítico musical José Teles no seu novo livro, Da Lama ao Caos: que Som É Esse que Vem de Pernambuco?, obra digital lançada nesta segunda (29/4) pela Edições Sesc São Paulo. O assunto não é estranho ao autor, que já escreveu uma biografia de Chico Science (1966-1997) e narrou a trajetória da música popular em Pernambuco no já clássico Do Frevo ao Manguebeat. Agora, nesse novo livro, mostra com fluidez a construção, o contexto e os detalhes de um disco que se tornaria o marco de um dos principais movimentos musicais brasileiros recentes.

O volume Da Lama ao Caos, na verdade, é o primeiro de uma coleção criada pelo jornalista Lauro Lisboa Garcia para o Sesc, que vai abordar discos incontornáveis do cancioneiro nacional. A ideia é publicar obras que tragam olhares além do relato ou da crítica, e é justamente isso que Teles, repórter deste JC, consegue: o livro se equilibra entre a trajetória pessoal de Chico e de outros integrantes do grupo e o contexto musical, artístico, geracional e econômico do período, com uma prosa que une um conhecimento profundo da área com a simplicidade da escrita.

“Uma das principais coisas desse novo livro é o distanciamento. Eu vivi esse período e escrevi muito sobre ele, mas agora pude observar com mais critério, notar o que era causo e o que era fato, entender mais Chico Science e o mangue”, conta Teles.

Da Lama ao Caos retoma um assunto que o escritor paraibano radicado no Recife conhece, acompanha e pesquisa há vários anos: o surgimento do manguebeat e o contexto musical da música pernambucana e brasileira no início dos ano 1990. Se já tinha um material amplo, fruto de outros livros e matérias especiais que fez, nesse novo trabalho teve uma facilidade: os arquivos digitais de jornais daqui e de fora, que permitiram rever entrevistas e declarações dos músicos.

Assim, o leitor de Da Lama ao Caos pode perceber, por exemplo, a importância da influência da cultura popular no imaginário musical de Chico, sua relação com os integrantes da Nação Zumbi, através tanto da Loustal como da Lamento Negro, a mesmice da cena independente pernambucana no começo dos anos 1990 e até mesmo o papel da maior abertura para circulação de discos de música alternativa no Brasil.

Além disso, Teles desfaz alguns mitos, como a ideia de que o mangue nasce já conectado com o pensamento de Josué de Castro. “Antes de compor Da Lama ao Caos, Chico não conhecia Josué de Castro. Ele mesmo dizia isso em entrevistas”, conta. Quem primeiro falou do romance Homens e Caranguejos para ele foi o próprio Teles, durante uma visita do músico a sua casa, acompanhado de Fred Zero Quatro. “A observação sobre a influência de Josué de Castro em Chico Science não o desmerece, pelo contrário. Apenas mostra o quanto era antenado e absorvia com impressionante poder de síntese as informações que lhe chegavam”, ressalta Teles.

O termo mangue, por sinal, segundo Jorge du Peixe, da Nação Zumbi, veio de forma direta: “O nome da parada é mangue”, disse Chico para ele quando os dois estavam em um ônibus saindo de Rio Doce para o Centro do Recife. “As versões variam, mas sempre concordam num ponto: foi Chico Science que surgiu com essa história de batizar de mangue a cooperativa, ou seja lá o que fosse, que eles estavam formando”, escreve Teles.

Outro ponto fundamental para essa visão distanciada e renovada do disco de Chico com a Nação Zumbi foi o acesso, durante a gravação do documentário Caranguejo Elétrico, das gravações originais do disco, com as faixas de captação separadas. “Isso ajudou a entender mais. As tracks separadas ajudam a notar melhor as músicas. Chico, por exemplo, criava muitos sons com a boca. Além disso, tem a dificuldade de transferir o som das alfaias, com um grave mais limitado, para captação”, cita Teles.


NOVAS ENTREVISTAS

Apesar de ter feito várias entrevistas ao longo dos anos como jornalista, ele conta que voltar a conversar com figuras como Gorete França, irmã de Chico, e Paulo André trouxe algumas novas informações. Através de Gorete, por exemplo, percebeu que os versos “Fui no mangue catar lixo/ Pegar caranguejo/ Conversar com urubu” são parte de uma cena da sua infância, quando a família morava na 5ª Etapa de Rio Doce.

A irmã também mostrou a Teles os cadernos do artista. “Chico Science foi bruxo de sons. Escrevia compulsivamente. Nos muitos cadernos que deixou com poemas e letras de música (os cadernos estão com Goretti França, sua irmã mais velha), ele descrevia que som pretendia para cada música”, aponta no livro. O relato multifacetado de Teles se conclui com a história da inclusão de Maracatu Atômico no disco Afrociberdelia. Chico não queria uma música que não fosse autoral, mas terminou aceitando a sugestão – que teve ares de ordem. “Fizemos uma versão só, as outras só escutamos com o disco pronto. Ninguém avisou a gente desses remixes, achei falta de respeito, nem considero como parte do trabalho”, diria o líder depois.

domingo, 2 de abril de 2017

20 ANOS SEM O MAIS CARISMÁTICO DOS MANGUEBOYS

Por David Cavalcante



Era um final de tarde de domingo, em 02 de fevereiro de 1997, em pleno carnaval de Recife e Olinda, quando, todos recebem a trágica notícia da precoce morte de Francisco de Assis França Caldas Brandão, o Chico Science, com apenas 30 anos de idade, devido a um acidente de carro. A sua morte foi simbólica não somente porque ocorreu em período carnavalesco cujos ritmos pernambucanos inspiraram suas músicas, mas também numa das principais fronteiras geográficas formais entre Olinda e Recife, bem próximo do Manguezal do Espaço Ciência, posteriormente batizado de Manguezal Chico Science.

Naquele ano, o luto pairou sobre os festejos de momo, ante a perda do mais carismático dos mangueboys. Aquele jovem negro que circulava nos bairros de Rio Doce e de Peixinhos, periferias de Olinda, onde teve seus primeiros contatos com o hip-hop, o funk e o soul, em uma mistura com ritmos pernambucanos como o maracatu, o frevo e o coco. O mangueboy ganhou o Brasil e o mundo com a banda Nação Zumbi, em festivais de músicas e em vídeo clips cuja performance no palco não deixava o público parado nem por um minuto sequer com a batida das alfaias embebida pelo rock e a música eletrônica animando multidões.

O cientista dos ritmos foi um dos principais expoentes do movimento de contracultura chamado Manguebeat, um movimento cultural que surgiu em Recife e Olinda, no início dos anos 1990, cujas expressões musicais inspiraram o sincretismo rítmico dos batuques dos terreiros do candomblé, da magia cadenciada e frenética do “baque solto” do Maracatu Rural que originalmente sincroniza os exuberantes caboclos de lança e seus chocalhos gigantes. A batida do mangue incorporou também o imponente batimento das alfaias do “baque virado” do Maracatu Nação. Tudo permeado pelas guitarras envenenadas, os metais dos trompetes e trombones, os berimbaus e a música eletrônica, embalando um rock sincrético, originalmente pernambucano.

O Manguebeat não foi apenas um sincretismo rítmico, emergiu também da denúncia e da crítica social da histórica e estrutural situação de exclusão da maioria da população trabalhadora pernambucana, herdeira do escravismo colonial e da monocultura da cana, onde as vítimas são as maiorias negra e pobre, proletárias e oprimidas pelas seculares famílias oligárquicas, jamais reparadas social e economicamente na contemporaneidade.

A música do mangue, expressa em suas composições o tom da crítica irreverente, à mega e acelerada concentração populacional urbana da pobreza nos últimos 50 anos, na Região Metropolitana do Recife, que acentuou ainda mais suas extremidades sociais em face da ausência de políticas públicas universais principalmente às relacionada à habitação e saneamento. Daí que o símbolo social maior dos manguezais metropolitanos recifenses sejam as, ainda presentes e crescentes, palafitas, onde as famílias dos trabalhadores estão sujeitas às inumeráveis doenças relacionadas à falta de saneamento, ausência de água potável, coleta de lixo e inexistência de esgotos.

O caranguejo é o símbolo do Manguebeat, sintetiza a opressão e a resistência, pois como diz o título de uma das mais conhecidas músicas de Chico Science e título do seu primeiro CD (Da Lama ao Caos), nasce na lama do mangue e vai ao caos, enfrentar a grande cidade excludente e violenta: os Caranguejos com Cérebros, enfrentam a cidade caótica com arte, cultura e denúncia social.

O manguezal é um típico ecossistema do litoral do Nordeste caracteriza-se por ser úmido, salgado, lodoso, pobre em oxigênio, porém rico em nutrientes, daí a grande quantidade de matéria orgânica em decomposição, apresentando um forte odor – mais acentuado se houver poluição e sempre há – como é bem evidente no Recife. A matéria orgânica do mangue serve de alimento para uma extensa cadeia alimentar, a exemplo dos crustáceos e algumas espécies de peixes. O manguezal serve como habitat para diversas espécies, entre elas, os caranguejos.

O caranguejo, no entanto, nas pesquisas do sociólogo Josué de Castro, inspirador de Chico Science, é também representante de um ciclo cujo habitat faz parte o próprio homem das famílias pobres metropolitanas:

“Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo. Tudo aí, é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive o homem e a lama que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive nela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas… o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez…”

O Manifesto do Movimento Manguebeat, Caranguejos com Cérebro, nos lembra: “…Manguetown, a cidade… do Recife… é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex) cidade maurícia passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais. Em contrapartida, o desvario irresistível de uma cínica noção de “progresso”, que elevou a cidade ao posto de “metrópole” do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade. Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano”.

Chico Science & Nação Zumbi e demais mangueboys e manguegirls, entre tantos, inspiraram e foram inspirados, numa cena dos anos 1990 permeada pelas bandas como Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio, Comadre Fulozinha, Sheik Tosado, DJ Dolores, Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis, Eddie, Via Sat e Querosene Jacaré… contagiando a cena musical e artística brasileira com o que foi considerado o maior movimento cultural desde a Tropicália, nos anos 1960.

O disco Da Lama ao Caos está na 13ª posição da lista dos 100 melhores discos brasileiros de todos os tempos da revista especializada, Rolling Stone Brasil (outubro de 2007), escolhido entre 60 especialistas, e o Afrociberdelia, na 18ª posição.

O cenário cultural manguebeat, então em emergência, levou um pesado choque com a morte precoce do cientista dos ritmos que de uma forma trágica deixou o caos e voltou ao mangue, mas após segurar a bandeira dos caranguejos com cérebros e gritar para o mundo as injustiças sociais do Recife e Região Metropolitana marcou para sempre a história cultural de Pernambuco, do Nordeste e do Brasil.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

20 ANOS SEM CHICO SCIENSE

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

SAIBA COMO FOI A GRAVAÇÃO DO PRIMEIRO ÁLBUM DA CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI

Comemorando 20 anos , álbum é considerado um clássico da música brasileira

Por: Camila Souza e Raquel Lima



A banda usava a geografia da cidade como inspiração. Crédito: Fred Jordão/ Arquivo DP


O produtor paulista Pena Schmidt foi pioneiro em enxergar o potencial da Chico Science & Nação Zumbi. O contrato da sua pequena gravadora, a Tinnitus, foi o primeiro a chegar nas mãos de Francisco de Assis França (1966-1997). Certamente, ele não sabia que os cerca de 15 músicos que subiam aos palcos improvisados no Recife e em Olinda gestavam a que seria uma das maiores bandas da música brasileira. E que o álbum que tentava bancar seria considerado, décadas depois pelos críticos da revista Rolling Stone Brasil, um dos 100 mais importantes da história, na 13ª posição.

A Tinnitus não fechou com a CSNZ. Enquanto pesava prós e contras, a banda recebeu um contrato de R$ 40 mil pelo selo Chaos, da Sony Music. E semanas depois, em outubro de 1993, começava a criação de Da lama ao caos - que completa 20 anos de lançado neste mês de abril. A troca de assinaturas com a gravadora garantiu um adiantamento em dinheiro importante. Foi com ele que o guitarrista Lúcio Maia e o contrabaixista Dengue compraram os primeiros bons instrumentos. E não foi a única mudança.

A Nação Zumbi que, a cada show, tinha um músico diferente do Lamento Negro, grupo de Peixinhos, em Olinda, foi reduzida à primeira formação oficial: Jorge Du Peixe, Gilmar Bola 8 e Gira, nas alfaias, Canhoto, no caixa, e Toca Ogan, na percussão. Liderada por Chico, a banda hospedou-se em um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, e encarou - por um mês - uma rotina de 12 horas, de segunda a sábado, no estúdio Nas Nuvens.

O produtor dos sonhos da CSNZ era o guitarrista norte-americano Arto Lindsay, mas a Sony escalou o contrabaixista Liminha, dos Mutantes, dono do Nas Nuvens. “Arto representava a cultura pop e conhecia bem o linguajar de Pernambuco, por ter morado em Garanhuns. Mas Liminha acrescentou o que Arto não poderia, pela experiência em estúdio. Soube tirar leite de pedra”, opina Dengue.

“Eles chegaram verdes, mas muito compenetrados”, lembra Liminha. “Era um som diferente, deu muito trabalho. Quando fui masterizar o álbum, em Los Angeles, o engenheiro de som sentiu falta da bateria, mas esse era um diferencial”, conta o produtor. Apesar da inexperiência e de contratempos, como Lúcio ter contraído caxumba durante as gravações, o clima no estúdio era leve.

Seis meses depois, em 9 de abril de 1994, a banda apresentava o disco na segunda edição do Abril Pro Rock. “A Sony Music veio em peso e distribuímos LPs e CDs para o público. Na segunda-feira após o festival, embarcamos para o Sudeste para participar de programas de TV, de Faustão a Jô Soares”, acrescenta o produtor Paulo André Pires, empresário da banda à época. E nessa viagem, ao apresentar as 14 faixas de Da lama ao caos, Chico Science & Nação Zumbi sacramentou o Manguebeat e começou a “desorganizar” a música brasileira. 


Entrevista >>> Liminha, produtor do álbum

Como foi o primeiro contato com a banda?

O pessoal da Sony me falou da CSNZ. Disseram que tinha um som interessante e me mandaram uma fita. Ouvi e gostei, embora fosse mal gravada. A primeira impressão foi a de que Chico fazia algo paralelo ao álbum Selvagem (1986), de Os Paralamas do Sucesso. Hebert assumiu toda a brasilidade ali, com uma junção de rock inglês e ritmos daqui. Chico veio para desencadear isso com mais força.


Foi um desafio produzir o álbum?

A ideia era muito boa, o conteúdo também. Mas eles não tinham experiência de estúdio. Era uma pedra bruta a ser polida. Por outro lado, eram muito compenetrados e profissionais. Deram o sangue para fazer o disco. E cresceram na gravação. Estou certo disso. O problema é que, quando você os via ao vivo, os tambores e os gestos tornavam tudo muito maior do que realmente era. Minha missão foi fazer aquilo tocar direito em um caixa de som menor.


E como você lidou com as críticas pós-lançamento?

Diziam que o disco era menor. Ao vivo, a banda era maior. Mas aí é que está. Não tinham imagens para dividir a atenção. Quando conversei com Alexandre Kassin (produtor do novo e sexto álbum de estúdio da Nação, após a morte de Chico), ele disse “os tambores não têm som”. Porra! Ainda bem que alguém percebeu. Tive a maior dificuldade para tirar som daquilo. Não tinham grave, mas gostei do resultado. Tenho o maior orgulho de ter trabalhado com Chico. Para mim, ele está no mesmo patamar de Gilberto Gil, Titãs. O CD está no meu cartão de visita.


Celebração

A Sony Music não vai relançar Da lama ao caos, mas a banda - que representou o Brasil no Lollapalooza - fez shows comemorativos em São Paulo.

terça-feira, 26 de abril de 2016

CHICO SCIENSE, 50 ANOS

Se vivo, Francisco Assis de França, completaria este ano meio século de vida 


Por Luiza Maia e Larissa Lins


À frente da Nação Zumbi, Chico cantou no festival Abril Pro Rock em 1994


Os caranguejos visitavam as casas e os quintais dos moradores da Rua Girassol. Na casa 83, morava o garoto Francisco de Assis França, em Rio Doce, Olinda. Caçula entre os quatro filhos de Dona Rita e Seu Francisco, nasceu há exatos 50 anos, no dia 13 de março de 1966. Veio ao mundo no Hospital dos Evangélicos, na Jaqueira. Da maternidade, Chico foi levado de barco, nos braços da mãe, para a casa da família, em Santo Amaro. "Tinha táxi na frente da maternidade, mas não peguei. Atravessei o rio com ele no barco e peguei o táxi no outro lado. Acho que foi uma intuição divina", revela Dona Rita, saudosa e cheia de orgulho, entre fotografias, vinis e objetos guardados do filho, morto em trágico acidente de carro no dia 2 de fevereiro de 1997.

A relação de Francisco com os manguezais e o fascínio pelo complexo ecossistema escolhido para batizar o movimento musical liderado por ele floresceram em Rio Doce, para onde se mudou aos 4 anos. Ao fim da rua onde morava, os garotos brincavam de catar caranguejo para comer ou arrecadar dinheiro para festas. Asmático, ia escondido da mãe, o dia inteiro à máquina de costura, apesar da proibição. "Ele tinha os amigos de andar de bicicleta, brincar no mangue, pião, perna de pau, bola de gude, carrinho de rolimã. Ele era um garoto levado. Era mais livre, porque os caçulas são mais soltos", revela a irmã Goretti França, 54 anos, com quem Chico morava quando morreu.


Nação Zumbi vai fazer show com repertório do disco Afrociberdelia em maio

Apaixonado por cinema, levava para casa recortes de película de filme recolhidos ao fim das sessões no Cine São Luiz, na Boa Vista. A família era toda amante da música. O pai tocava tamborim amadoramente e gostava das “músicas de antigamente”. Os irmãos mais velhos apreciavam MPB nordestina, como Alceu Valença, Fagner, Novos Baianos. A Chico, cabia introduzir em casa novos sons. O ecletismo conduzia as descobertas, impulsionadas pelas revistas especializadas como a Bis, compradas no aeroporto, único ponto de vendas: black music, hip hop, jazz, blues e punk estavam entre os gêneros prediletos.

Adolescente, passou a frequentar as rodas de break, nas quais conheceu o também b-boy Jorge [Du Peixe], futuro parceiro musical. Garoto de periferia, estudante de escola pública até o fim do ensino primário, foi transferido para o Colégio Bairro Novo, onde surgiu a primeira banda liderada pelo então Chico Vulgo, a Orla Orbe, de 1987. O currículo do grupo tem menos de 20 apresentações, mas inclui a primeira gravação de A cidade. O embrião da Nação Zumbi foi a Loustal, segundo conjunto de Chico, criado em meio à tentativa de movimentar a cena cultural encabeçada por jovens fanáticos por música. O nome denotava outra paixão: os quadrinhos. Loustal era o ilustrador francês por trás de publicações como Cyclone e Rock and folk, encartadas no fim dos anos 1970 e devoradas por Chico entre ensaios.


Nos corredores da Empresa Municipal de Informática (Emprel), onde trabalhava, conheceu o contínuo Gilmar Bolla8, percussionista do bloco Lamento Negro. "Um dia, batendo papo, me perguntou o que eu gostava de ouvir. Descobrimos muitos gostos parecidos. Falei sobre a Lamento, os ensaios de samba-reggae na periferia, as aulas de capoeira e de percussão. E ele achou aquilo interessante", recorda. No sábado seguinte, Chico conhecia o grupo, no Daruê Malungo, cuja sede era na comunidade Chão de Estrelas, em Peixinhos.



Poucas semanas depois, Chico incorporou a batucada da Lamento Negro à sonoridade punk da Loustal, apesar do estranhamento inicial provocado nos integrantes, de ambos os lados. Os ensaios eram guiados pelo improviso e pela fusão dos ritmos. Mesmo com parco domínio dos instrumentos, conduzia os arranjos com batuques e sons emitidos com a boca. A alcunha Chico Science foi adotada sob inspiração do apelido de um tio sabichão do jornalista Renato L, segundo o próprio "ministro da comunicação" do movimento manguebeat, do qual foi ícone absoluto. A justificativa surgiu depois, conduzida pela alquimia intuitiva para misturar rock às sonoridades de afoxés, caboclinhos, escolas de samba e maracatus. Inspirado pelo legado histórico de Zumbi dos Palmares - ícones como Josué de Castro e Mestre Salustiano também foram reverenciados nas letras -, surgiu o nome da banda com a qual marcou a música brasileira: Chico Science & Nação Zumbi.

Science emprestaria a liderança e voz à Nação Zumbi por somente dois discos, lançados até no Japão. A carreira meteórica alcançou palcos internacionais a partir de 1995, quando a banda tocou no Central Park, nos EUA, e rumou à Europa. Pela primeira vez, um grupo de rock carregava, com as raízes regionais na bagagem e nos figurinos, o nome do estado aos holofotes da indústria musical e às manchetes da crítica especializada. Ele participou pela última vez de uma festa da turma em 1º de fevereiro de 1997, um dia antes do acidente de carro com o qual perdeu a vida. Na prévia do bloco Enquanto Isso na Sala da Justiça, no Centro de Cultura Luiz Freire, reencontrou amigos distantes devido à intensa agenda de shows. 

Chico conduziu os caranguejos com cérebro ao mundo e ao âmago da cultura pernambucana. Deixou uma filha, batizada Louise Taynã, e um legado repassado às gerações seguintes. Com chapéu de palha coquinho, óculos de segunda mão e camiseta de malha, impulsiona, quase 20 anos após a trágica morte, os sonhadores por um mundo melhor: "Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar".




Trajetória do mangueboy


1966


Nasce Francisco de Assis França Caldas Brandão, no dia 13 de março de 1966, no Hospital dos Evangélicos, na Jaqueira. O nome é uma homenagem ao pai (Francisco) e a São Francisco de Assis e, na fase adulta, daria lugar a alcunha Chico Science, como ficou conhecido internacionalmente.





1987

Ainda conhecido como Chico França, forma a primeira banda, Orla Orbe, em Rio Doce, composta por ele nos vocais, Lúcio Maia (guitarra solo), Helder (baixo), Vinícius (bateria), Fernando (guitarra). Na época, conhece Aninha, mãe da única filha, Louise Taynã, para quem dedicou a música Continuação, nunca lançada.


1989

Funda a Loustal, grupo cujo repertório mescla o rock dos anos 1960, soul music, hip hop e funk. Lúcio Maia (guitarra) e Dengue (baixo) integram o conjunto, com o qual fez a primeira gravação de Etnia, uma das faixas de Afrociberdelia. 


1991

A partir da convivência com Gilmar Bolla8 na Emprel, o bloco de samba reggae Lamento Negro, do qual Gilmar fazia parte, junta-se à Loustal. A reunião de artistas daria início, em poucos meses, ao projeto Chico Science e Nação Zumbi.



1992

Chico faz show marcante nos fundos da Galeria Joana D’Arc, no Pina, Zona Sul do Recife, em festa de Natal alternativa. A apresentação marca, para os engajados com a cena mangue, uma mudança no comportamento do público: a popularidade cresce e o nicho restrito de fãs ganha novos adeptos.


1993

Show da CSNZ no primeiro Abril Pro Rock desperta interesse de gravadoras nacionais. Em junho, a banda viaja de ônibus de linha para São Paulo e Belo Horizonte, junto com a Mundo Livre S/A. Chico previu, entre amigos e familiares, que viajaria "por baixo" e voltaria "por cima". Na capital paulista, durante almoços de negócios, o grupo pedia que embrulhassem as sobras para o jantar, dada a escassez de recursos. A Nação assina contrato com a Sony Music.


1994

Primeiro disco de estúdio do grupo, Da lama ao caos é lançado. As 14 faixas (uma de Fred Zeroquatro e as outras autorais) foram gravadas no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. Chico lançaria em vida somente um disco além deste, Afrociberdelia, em 1996.

1995

Chico Science e Nação Zumbi iniciam a primeira turnê internacional. A estreia é no Central Park, em Nova York, durante o festival Summerstage, em junho. O grupo abre o show para Gilberto Gil, a pedido do próprio, com quem Chico canta na ocasião, e conhece David Byrne. Quatro países europeus são visitados.


1996

A segunda turnê dura 17 dias e inclui Estados Unidos e 17 cidades na Europa, Chegam a tocar com nomes como Beck e Nick Cave. Chico se encanta pela Europa e, entre amigos, ventila a possibilidade de fixar residência no continente. Em setembro, sobe ao palco do Clube Português e faz seu último show com a Nação Zumbi na capital pernambucana, na turnê de Afrociberdelia. Em dezembro, comanda o último show, no Canecão, no Rio.

1997

Aos 30 anos, Chico Science morre em acidente de carro, em 2 de fevereiro. O veículo se choca contra poste, na região do Complexo de Salgadinho, enquanto ele dirige do Recife em direção a Olinda. Science está sozinho em um Uno branco e é socorrido ao Hospital da Restauração, onde dá entrada sem vida. Canta pela última vez no Baile dos Artistas, no Clube Português, a convite de Antônio Nóbrega, com quem se apresentaria em trio elétrico com o bloco Na Pancada do Ganzá, no dia 3 de fevereiro.


terça-feira, 29 de março de 2016

SHOW DE CHICO SCIENCE GRAVADO EM MONTREUX SERÁ LANÇADO EM ÁUDIO E VÍDEO

Nação Zumbi tocou com o cantor no festival de jazz na Suíça em 1995 e voltará em 2016



Ella Fitzgerald, João Gilberto, Ray Charles, Johnny Cash, Miles Davis, Alanis Morissette, Wu-Tang Clan, Jamiroquai, Phil Collins, Yes e Sun Ra estão entre os artistas que já lançaram discos gravados ao vivo no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. A Nação Zumbi pode estar nessa lista a partir deste ano, quando devem ser disponibilizados oficialmente o áudio e o vídeo do show que a banda fez com Chico Science em 1995. Eles também voltarão ao mesmo palco em 2016, desta vez ao lado da banda suíça The Young Gods.

Outros shows de Chico Science podem ser encontrados no YouTube, só que nenhum deles foi lançado oficialmente. A única gravação ao vivo oficial já lançada está no disco CSNZ, de 1998, mas são apenas cinco faixas. Ainda no YouTube, é possível ver apresentações em programas da TV Cultura no canal da emissora.

Em 1995, no Festival de Montreux, a banda pernambucana apresentou-se no Miles Davis Hall para 2 mil pessoas na mesma noite dos grupos The Specials e The Busters

A Nação Zumbi fará ainda três shows no Brasil com The Young Gods este ano. As duas bandas estarão no palco ao mesmo tempo e tocarão juntas as músicas do repertório de ambas. O formato será equivalente ao da Orquestra Manguefônica, projeto realizado com a Mundo Livre S/A em 2009. A parceria começou a ser articulada em 1996, mas foi interrompida por causa da morte de Chico Science. O vocalista Franz Treichler participou do show da Nação no Marco Zero na última segunda.

David Bowie, Chemical Brothers e Mike Patton (Faith No More) estão entre os artistas que já assumiram ter recebido influência do grupo, que é uma referência no uso do sampler (recurso bastante presente nos discos da Nação Zumbi).

Repertório do show de 1995 em Montreux:
Monólogo ao pé do ouvido
Banditismo por uma questão de classe
Etnia
Antene-se
Maracatu de tiro certeiro
Rios pontes & overdrives
Salustiano song
Sobremesa
A praieira
Macô
Samba makossa
Enquanto o mundo explode
Filha de gaiamun
Da lama ao caos
Coco dub (Afrociberdelia)
Todos estão surdos
A cidade
Corpo de lama
Mister moto


Fonte: Diário de Pernambuco

sábado, 12 de março de 2016

CHICO SCIENCE, 50 ANOS

Ao longo do ano, músico pernambucano receberá uma série de homenagens, que começam esta semana

Por Rebeca Oliveira



Chico Science não é o tipo de artista que precisa de efemérides para ser reverenciado. Mas o ano em que o ícone do movimento manguebeat completaria cinco décadas de existência não passará em branco nem em Pernambuco, terra natal de Francisco de Assis França, nem no restante do país. Isso em decorrência da dimensão da figura catalisadora que se tornou porta-estandarte da cultura brasileira desde que nela surgiu, em meados dos anos 1990. Os eventos não serão modestos, e as homenagens não param de ser anunciadas, como o Livro do disco sobre o álbum Da lama ao caos, e o lançamento do documentário Chico Science, um caranguejo elétrico.

A vida do garoto do mangue deve chegar às telas antes do aniversário do artista, em 13 de março, como uma coprodução da RTV, Globo Filmes e Globo Nordeste. A direção é de José Eduardo Miglioli, paulista que mora em Recife, e o filme contou com colaboração do jornalista José Telles na criação do roteiro. Parte das cenas se concentra em imagens inéditas de um show da Nação Zumbi feito há mais de 20 anos no Central Park, em Nova York. Há, também, espaço para detalhes pessoais, como as histórias contadas pela irmã, Gorete França. “São pessoas que realmente participaram da história dele”, detalha José Telles, que era amigo pessoal do cantor e escreveu O Meteoro Chico.

Segundo o jornalista, a produção dá a dimensão da relevância de Science para o estado de Pernambuco. “Depois dele, houve um processo musical pop e urbano muito forte em Recife. Nosso rock estava defasado em relação ao Sudeste. Não havia condição nenhuma de dizer que, na conjuntura social e econômica que vivíamos, tínhamos artistas”, comenta, lembrando que, à época, Recife foi considerada a quarta pior cidade do mundo para se viver — dado eternizado na letra da música Antene-se.

“Ele derrubou isso. Deu autoestima para a cidade, para o público. Esse legado não fica só na música, mas em outras esferas culturais, como o cinema. Esse boom da sétima arte local, por exemplo, começou com Baile perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, lançado em 1996, película na qual ele participou com o pessoal do manguebeat”, acrescenta Telles. “Era uma época em que não havia tantas ferramentas como hoje. A internet não era usada e ele já tinha essa amplitude enorme de conhecimento do que rolava na cena de fora, consumindo revistas, discos. Atualmente, Chico Science faria algo ainda maior, considerando o que fez na época e com poucos recursos. Seria até mais impactante do que naquele período”, acredita.

quarta-feira, 2 de março de 2016

NAÇÃO ZUMBI PRETENDE TOCAR REPERTÓRIO DO DISCO AFROCIBERDELIA AO VIVO NO ANIVERSÁRIO DO RECIFE

Banda quer fazer show histórico um dia antes da data do cinquentenário de Chico Science




A Nação Zumbi manifestou interesse em fazer um show no Recife com o repertório completo do álbumAfrociberdelia, lançado há 20 anos, no dia do aniversário da capital pernambucana, 12 de março, véspera do cinquentenário de Chico Science (1966-1997). A produção do grupo pernambucano confirmou uma turnê nacional do álbum entre os meses de março e junho e garantiu a inclusão da cidade no roteiro.

O horário e o local do show ainda não foram divulgados. Afrociberdelia, lançado em 1996, foi o último disco de estúdio gravado pela banda com Chico Science nos vocais. É um álbum revolucionário, que tem clássicos absolutos, como Maracatu atômico, Macô, Mateus enter e Cidadão do mundo, e faixas não tão famosas, comoEnquanto o mundo explode e O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu. Há também Sangue de bairro, incluída na trilha do filme Baile perfumado, e Criança de domingo, versão para uma canção da banda paulista Fellini.

Depois do Afrociberdelia, a Nação lançou o disco duplo CSNZ (1998), que tinha a voz de Chico Science, mas ele participava apenas em faixas gravadas ao vivo e remixes.

A matéria havia sido publicada incialmente com a confirmação oficial do show feita pela produção da própria banda. Mas o Twitter do grupo, horas depois, anunciou o interesse da realização da apresentação e negou a confirmação da data. 

O Viver entrou em contato com a produção da banda novamente e obteve a informação de que o evento não havia sido confirmado.

Procurada, a Prefeitura do Recife revelou que começa a preparar a programação de aniversário da cidade a partir de segunda-feira, quando serão analisadas as propostas para celebrar a data.

As primeiras informações sobre um show em março no Recife foram reveladas pelo cantor Jorge du Peixe em entrevista coletiva cedida logo após tocar na última segunda-feira, no Marco Zero, no Carnaval do Recife. 


REPERTÓRIO DO ÁLBUM AFROCIBERDELIA:
Mateus enter 
O cidadão do mundo
Quilombo groove
Macô
Um passeio no mundo livre
Samba do lado
Maracatu atômico
O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no céu 
Corpo de lama
Sobremesa
Manguetown
Um satélite na cabeça [Bitnik generation]
Baião ambiental
Sangue de bairro
Enquanto o mundo explode
Interlude Zumbi 
Criança de domingo
Amor de muito
Samidarish


Fonte: Diário de Pernambuco

sexta-feira, 15 de maio de 2015

AFETO E DESCASO POR CHICO SCIENSE

Enquanto os fãs nutrem as lembranças do mangueboy, o poder público vira as costas para a memória daquele que colocou Pernambuco no mapa da música pop


Por Karoli Pacheco


Landau de Chico Science sofre com a maresia no Espaço Ciência

A memória de Chico Science, que hoje faria 49 anos, se ainda está muito viva entre os familiares, companheiros de banda e fãs (muitos deles que sequer o conheceu), ela é, por outro lado, objeto de um abjeto descaso do poder público do Recife, Olinda (onde nasceu) e de Pernambuco, sua terra natal que tanto projetou e colocou no mapa da música pop, em tão pouco tempo de meteórica carreira – abortada num acidente de carro às vésperas do Carnaval, em 2 de fevereiro de 1997. 

A saudosa Dona Rita, 81 anos, mãe de Francisco de Assis França, sabe que para lembrar do filho não necessita ver fotografias, tampouco ouvir suas músicas. Por sinal, a memória dela não falha ao recordar daquele nascimento. “Ele nasceu numa maternidade que ficava à beira do rio, o Hospital Evangélico, no Recife. Foi um dos meus filhos que nasceu bem fácil”, diz. Sobre o início da carreira artística de Chico Science, relembra: “Depois do show do Aeroanta, em São Paulo, ele foi convidado para fazer outro show. E ele me disse: mamãe, eu vou por baixo e volto por cima.” Literalmente, foi de ônibus e voltou de avião, com um contrato com a Sony que rendeu o seminal Da lama ao caos (1994), que marcou uma década e uma geração.

O agitador cultural Roger de Renor lembra-se bem do carro tunado de Chico, do mesmo modelo de um que ele tivera. “Ele comprou esse carro quando voltou daquele show no Summerstage, em Nova Iorque, e não o reformou. Ele dizia que o carro tinha que parecer com o da galera do Brooklyn, pagando mais caro no som e nas luzes florescentes do carro, e deixou amassado mesmo”, conta um dos maiores bróders de Chico.

Segundo Jamesson França, Jamelão, irmão de Chico Science, o Ford Galaxy Landau 79 está exposto no Memorial Arcoverde há mais de 15 anos. Aliada a falta de manutenção, a maresia deteriora o veículo estacionado no Espaço Ciência. Outra negligência diz respeito ao Memorial Chico Science, no Pátio de São Pedro. Mofo, infiltrações, calor e outros problemas estruturais deixa o espaço às moscas – já que os fãs, muitas vezes, passam direto pela fachada mal sinalizada. Na contracorrente, os mangueboys se manifestam e cobram à Prefeitura do Recife a reforma do local. O órgão público responde de forma rasa. Diz que espera receber, oficialmente, as reivindicações para posterior análise das ações a serem realizadas no local.



Enquanto isso, um tributo neste sábado (14), em Olinda, faz as homenagens que a Semana Chico Science, cancelada pela Secretaria de Cultura, não fará neste ano. No palco do Fábrica Bar (Travessa Municipal, 9, Carmo), às 23h, a banda Cadillac 65, com participação de Jamaelão, toca o repertório da Nação Zumbi enquanto teve o malungo como frontman. E, assim, mais pelos fãs que pelo governo, a memória daquele que teve Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão toma corpo.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

ACERVO DA VIDA E OBRA DE CHICO SCIENCE ESTÁ AMEAÇADO POR DESCASO EM MEMORIAL

Museu que celebra vida e obra de Chico Science e integra complexo de aparelhos da Prefeitura do Recife no Pátio de São Pedro está abandonado

Por Larissa Lins





Às 15h da última segunda (09), ainda não havia assinaturas no livro de presença disposto na entrada do Memorial Chico Science, mantido pela Prefeitura do Recife. No dia anterior, somente um punhado de nomes. É uma época morta para visitas, atestam os cinco funcionários do espaço, localizado há quase seis anos no Pátio de São Pedro. O passeio não impressiona. Para chegar à porta, é preciso pedir ajuda a comerciantes, já que não há sinalização. Desgastada, a fachada anuncia as más condições do interior. 

São três ambientes com pouca ou nenhuma ventilação. O segundo deles, uma videoteca, é mais úmido e, por isso, tem as paredes mofadas. Os outros, secos e abafados. No último deles, uma biblioteca com cerca de 70 livros se aperta sob a escada que conduz ao setor administrativo, ao qual nossa reportagem não teve acesso. O percurso - que pode ser feito em menos de 10 minutos - pode ou não ser guiado por um dos funcionários, mediante pedido do visitante. Dados o calor e a estrutura pouco convidativa do espaço, não surpreendem as críticas dos fãs do movimento manguebeat ao memorial. Hoje, liderados pelo grupo Raízes do Mangue, eles se reúnem na Rua da Aurora para pleitear uma reestruturação do espaço ou a criação de uma nova sede. 

Segundo Almir Cunha, um dos líderes do levante, a convocação foi toda feita através das redes sociais. Cerca de 500 pessoas foram convidadas, mas a estimativa é de que 10% compareçam ao encontro, ao lado da escultura Carne da Minha Perna (a do caranguejo), às 14h. A ideia é redigir uma carta com as exigências detalhadas em torno da revitalização ou transferência do Memorial Chico Science. 


Na videoteca, as paredes estão tomadas por mofo. Foto: Blenda Souto Maior/DP/DA Press 

“Esperamos que fãs e artistas ligados ao manguebeat compareçam”, diz Almir, estudante de jornalismo, que administra o Raízes do Mangue, com o amigo Marcos Azeredo. Para ele, a atual sede do memorial está muito aquém do legado de Science. Os objetos cedidos pela família do músico, bem como acervos de livros e discos que serviram de referência ao manguebeat, estão se deteriorando. O cartaz virtual de divulgação do protesto foi compartilhado por Jorge DuPeixe na página oficial da Nação Zumbi. A legenda “essa preocupação também é nossa” só encorajou o Raízes do Mangue.

Os funcionários contam que, em época de férias, o fluxo de visitantes aumenta, principalmente antes do carnaval. A gerente operacional do Memorial, Carmem Piquet, trabalha na sede da prefeitura, que - por meio da Secretaria de Cultura - informou por e-mail que não poderia responder às demandas da reportagem até o fechamento desta edição.

ATUALIZAÇÃO: Na noite de ontem, após o fechamento do caderno Viver, a Secretaria de Cultura informou, através de email, que a Prefeitura fará uma análise das reivindicações do Movimento Raízes do Mangue, assim que as receber oficialmente para, em seguida, definir quais as ações que poderão ser realizadas no local.

Confira Chico Science & Nação Zumbi com Manguetown:




>> SAIBA MAIS

Outros espaços no Pátio de São Pedro enfrentam o mesmo descaso, como o Centro de Design, temporariamente sem atividades, e o MAP (Museu de Arte Popular), de portas fechadas na tarde desta terça. Outros, como a Casa do Carnaval e o Memorial Luiz Gonzaga exibem maior organização, mesmo com pouco movimento.

Centro de Deisgn (superior esquerda), Casa do Carnaval (superior direita), Núcleo Afro (inferior esquerda) e Memorial Luiz Gonzada (inferior direita). Fotos: Blenda Souto Maior/DP/DA Press


Centro de Design

Também sediado no Pátio de São Pedro, o Centro de Design encontra-se temporariamente fora de atividade. A previsão dos funcionários que estavam no local é de que ainda neste semestre o endereço receba novas oficinas ou exposições.


Casa do Carnaval

Coordenada pelo gerente operacional Cláudio Nascimento, a casa guarda livros, álbuns, manuscritos, estandartes e peças carnavalescas. Funciona há seis meses em endereço provisório, também no Pátio de São Pedro, onde a sede oficial está sendo reformada. Também sem placas, mas de estrutura organizada e convidativa. O assistente de pesquisa Cássio Ranieri orienta os visitantes.


Núcleo de Cultura Afro

Vizinho à sede provisória da casa do carnaval, o núcleo foi instalado no Pátio de São Pedro em 2001. Guarda referências do folclore afro, de esculturas a documentos. É coordenado pelo mesmo gestor da Casa do Carnaval, Cláudio Nascimento. 


Memorial Luis Gonzaga

Localizado ao lado do Memorial Chico Science, tem estrutura bastante diferente do vizinho. Conservado e refrigerado, não tem o glamour do Cais do Sertão, mas guarda acervo precioso do Rei do Baião. É administrado pelo pesquisador Josemauro de Alencar, que comanda uma equipe de oito pessoas - dividias em pesquisa, mediação do público e catalogação de documentos.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (VINTE ANOS DEPOIS DA ESTREIA DE CHICO SCIENCE, O RECIFE CONTINUA EM BUSCA DE SAÍDA)

Cidade é protagonista no álbum Da lama ao caos. Vinte anos depois, revisitamos a capital pernambucana


Por Valentine Herold



O sol nasce mais um dia – qualquer para uns, decisivo para outros. E ilumina, como todas as manhãs, “as pedras evoluídas” – ou nem tanto – do Recife. Andar pelas ruas desta cidade ainda é uma aventura: lama, caos, infinitos buracos, fios soltos e os maracatus de quem tem de se virar para se manter de pé. “A cidade não para”, eis o mantra de Chico Science que não sai das nossas cabeças desde 1994, quando o álbum Da lama ao caos veio ao mundo para se tornar um clássico.

Vinte anos depois, andando sobre este mangue asfaltado, travamos uma relação não só arriscada, mas de amor não correspondido, com o qual ainda se é obrigado a conviver diariamente. Um amor daqueles que te despreza em público e, quando dá vontade, volta correndo, arrependido. Mas sem quase nunca se render, rever defeitos ou verbalizar seu perdão. Esta “ilusora de pessoas”, “sempre mais ou menos”. Chico Science, tão afiado em sua lança, certamente não mudaria de opinião se entre estes rios e pontes ainda estivesse...

Recife, 2014. No ponto de ônibus, sete habitantes se dividem no abrigo da parada. Abrigo entre aspas, porque não protege nem do sol nem da chuva. O mísero teto pouco ampara os “trabalhadores, patrões, policiais, camelôs”. A cidade não para com suas manias, ô, Chico. Os demais que aguardam o coletivo estão nas barraquinhas improvisadas de batatas fritas em óleo queimado, Treloso de morango, pipoca de saquinho. Esta última apelidada (quase) carinhosamente de “póca” pelos vendedores ambulantes, que correm atrás da clientela, que corre atrás do ônibus, que corre contra o tempo.

O busão chegou, mas parou uns quatro metros depois, como de costume. Junto à senhora que enfrenta os degraus com dificuldade, entra também um rapaz para vender adesivos da Hello Kitty: “Bom dia, pessoal! Queria a atenção de vocês por alguns segundos. Eu podia estar roubando, podia estar matando. Mas estou aqui humildemente....” É sempre o mesmo discurso. E a mesma falta de atenção. A “plateia” está antenada para baixo, cabisbaixa, absorta nos celulares com internet. Novas antenas parabólicas.

Do alto do Ibura, no UR-1, “a cidade se apresenta o centro das ambições”. Vendo assim, lá de cima, parece até de brinquedo. “É o Ibura...” Tanta coisa mudou desde 1994. Por lá, o chão não era asfaltado e a então comunidade tinha apenas algumas casas. O resto, segundo José Carlos, de 53 anos, “é tudo invasão”. Ele chegou ao local ainda menino, em 1966, época da enchente que engoliu Santo Amaro, onde ele, a família e todos moravam antes até migrar para o Ibura. Lá, as ruas parecem calmas. “Calmo que só, ontem só teve tiroteio...”, ironiza a moradora Neide Maria, 60. Ela não esconde, com razão, o desgosto pela ausência do poder público por lá.

Na época do lançamento do disco da Chico Science & Nação Zumbi, não havia tanta violência, segundo narram os moradores, embora o Recife fosse a “quarta pior cidade do mundo” – para lembrar os versos de Chico baseados no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) de então. Por aqui, as estatísticas seguem subindo e descendo. Não somos certamente mais a quarta pior cidade do mundo, mas os problemas estão longe de zerar. Números do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) apontam que entre 2000 e 2010, por exemplo, o índice de óbito por arma de fogo, na capital, reduziu em 41,4%. Mas, no Ibura, ainda se escuta muito tiro...

... E o barulho do ônibus também. Ele chega no bairro em direção a uma área vizinha próxima, mas bem diferente: Boa Viagem (nem tão boa assim). O sol do meio dia tá fraco não, mas pelo menos tem o mar. Quase não dá tempo de curtir o frescor da água, mas melhor isso do que ser atacado por tubarão. Os altos, brilhantes e misteriosos prédios da avenida seguem inacessíveis a quase todos. “A cidade não para, a cidade só cresce/ O de cima sobe, o de baixo desce”...





Descendo ao calçadão, um ciclista vai na contramão, enquanto uma Hilux passa raspando por ele. Do outro lado da rua, entre quiosques de coco, senhores jogam dominó. “Veeeeem, novinha, tomar Toddynho!” Passa o rapaz do carrinho de CDs piratas ao som de MC Sheldon. Ele vende brega, sertanejo, forró e até música gospel (nada mais surpreende nesta cidade multicultural). Tá difícil atravessar a rua. Aliás, é difícil ser pedestre: além dos carros, do sol e das calçadas, o Recife ainda acorda com a “mesma fedentina do dia anterior”... Talvez não tanto quanto no tempo da “Recifede”, pichação que costumava tomar os muros da cidade. 

Lá na Conde mais famosa do Recife, o sol parece rachar mais forte. Brunos, Márcios, Anas e Carolines passam pela avenida dia a dia. Indo e vindo, sem cessar. “É a responsabilidade de você manter-se inteiro.” Dobrando a esquina do Shopping Boa Vista, ouve-se uma voz a bradar os descontos que o transeunte não pode perder. 

E tem ainda a Várzea, o bairro com mais motel em linha reta do mundo... E “Macaxeira, Imbiribeira, Bom Pastor (...) Santo Amaro, Madalena, Boa Vista, Dois Irmãos (...)”. No trava-língua recifense, tudo dá em embolada, samba e maracatu. Entre “rios, pontes e overdrives”, o Recife não é mais exatamente aquele cantado por Chico. Mas é também. E não para de crescer. “Da lama ao caos. Do caos à lama."

sábado, 31 de maio de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (O AMOR CANTADO EM RISOFLORA POR CHICO SCIENCE REVELA UM SEGREDO AINDA 20 ANOS DEPOIS)

Canção é a única de amor do disco Da lama ao caos. O mistério de Risoflora ficará para sempre guardado no mangue

Por Valentine Herold



Em meio a tantos versos políticos de revolta social, Da lama ao caos abarca, em sua 11° faixa, uma das mais lindas mensagens de amor: Risoflora. Mas a flor que nasceu no meio do mangue e foi retratada por Chico Science como símbolo de carinho e arrependimento fez brotar uma curiosidade: o mistério de quem seria a verdadeira Risoflora.

Ex-namorada de Chico, a designer Maria Duda Belém acompanhou o início da Nação Zumbi, o antológico show da primeira edição do Abril Pro Rock e viajou com a banda para o Rio de Janeiro na época da gravação do álbum. A história de amor entre Duda e Chico teve início no começo da década de 1990. O compositor e sua flor tinham uma diferença de idade de cerca de sete anos. Ele morava na Rua da Aurora e foi no apartamento à beira do Rio Capibaribe que os dois se conheceram. O elo entre o mangueboy e a sua manguegirl foi uma amiga em comum que levou Duda à festa de inauguração da nova moradia de Chico e alguns amigos.

Mas é necessária uma volta no tempo para entender que, assim como as raízes entrelaçadas do manguezal, o amor e a paixão são complexos – vão e voltam, se misturam. Em 1991, Chico conheceu Renata Pinheiro. Também alguns anos mais nova do que ele, a jovem atriz foi a um show em Candeias do pouco conhecido grupo que se chamava Chico Science & Lamento Negro. “Fiquei impressionada com a qualidade das músicas, das letras políticas e poéticas. Nos conhecemos melhor naquela noite”, relembra Renata. A conexão ficou estabelecida e a relação entre os dois continuou de andada, que nem o caranguejo quando sai da toca para encontrar sua “cara metade” pelo mangue. Chegou o ano de 1992 – o mesmo da publicação do manifesto Caranguejos com cérebros – e com ele, o Carnaval. Uma festa que, nas palavras de Renata, “misturava suor, música, amor e despedida.” Na sequência, o espetáculo no qual ela atuava viajou para Portugal, onde ficou alguns meses em cartaz. 

Tempos depois, Chico e Maria Duda engatavam um namoro. “A gente terminou e eu fui passar cerca de um mês de férias na Bahia. Quando voltei, Chico me entregou a letra de Risoflora e cantou para mim. Foi muito bonito”, narra Duda, recordando também o pouco jeito do rapaz com o violão. Depois disso, começaram a namorar. “Ele era um cara muito atencioso e carinhoso. Tinha um caderninho e compunha no ônibus. Admiro muito a capacidade que ele tinha de colocar a marca dele com poucos recursos, e a fé em seu próprio taco.” 

Enquanto isso, Renata trabalhava em um café em Amsterdam, onde morou por um ano, após a temporada em Portugal. Foram 12 meses de muitas transformações e amadurecimento. Quando voltou ao Recife, Chico Science já estava acompanhado da Nação Zumbi e Risoflora vinha sendo tocada nos shows. “Perguntei se ele havia escrito para mim. Ele logo respondeu, num tom reativo: ‘Essa música fiz para todas as minhas manguegirls’.”

“Foi uma linda história de amor. Tenho muitas cartas de Chico.Risoflora é uma música que me sensibiliza muito ainda”, conta Duda, que, depois da morte de Chico, prometeu colocar o nome do filho de Francisco; filho este que realmente veio a parir anos mais tarde. O pai é um artista argentino cujo desejo também era ter um filho Francisco. Coincidências da vida.

O romance de Duda com o cantor durou pouco mais de dois anos. Segundo José Teles, crítico de música e testemunha ocular da cena mangue, durante este período Chico mostrou a ele a canção e disse que a tinha escrito para sua namorada. No caso, a própria Duda. 



Veja letra na íntegra:

"Eu sou um carangueijo e estou de andada/ Eu quero gostar

E quando estou um pouco mais mais junto eu quero te amar/ E aí te deitar de lado como a flor que eu tinha na mão/ E a esqueci na calçada só por esquecer

Apenas porque você não sabe voltar pra mim

Oh isoflora ! Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar

Oh Risoflora ! Não vou dar mais bobeira entro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só

Eu sou um carangueijo e quer gostar /Enquanto estou um pouco mais junto eu quero te amar

E acho que você não sabe o que é isso não/ E se sabe pelo menos você pode fingir

E em vez de cair em tuas mãos preferia os teus braços/ E em meus braços te levarei como uma flor

Pra minha maloca na beira do rio, meu amor !

Oh Risoflora ! Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar

Oh Risoflora ! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só"

LinkWithin