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segunda-feira, 22 de junho de 2020

IVINHO, 05 ANOS DE SAUDADES...

sexta-feira, 29 de junho de 2018

IVINHO COM 50 DÓLARES E UMA VIOLA QUEBRADA EM MONTREUX

Por José Teles



Ivinho

O guitarrista Ivinho era um músico conhecido apenas de um pequeno círculo de admiradores, artistas e colegas de profissão, em 1978, quando embarcou para a Suíça, como uma das atrações da primeira noite brasileira no então seleto Festival Internacional de Jazz de Montreux. Levava 50 dólares na carteira, e uma case com uma viola de doze cordas, com o bojo furado. Além dele, viajaram o grupo A Cor do Som, e Gilberto Gil, com uma banda à qual foi incorporado o conterrâneo Pepeu.

Naquele tempo não era comum participações de brasileiros em eventos internacionais de tal porte, com exceção de um punhado de nomes que conseguiu chegar à gravadoras gringas, casos de Milton Nascimento, Egberto Gismonti, percussionistas que viviam nos EUA, Naná Vasconcelos ou Airto Moreira e, claro, a turma da bossa nova. Como o recifense Ivson Wanderley chegou a tal patamar, inalcançável para a maiorias dos músicos brasileiros?

Claude Nobs (1936/2013), o criador e principal curador do festival de jazz de Montreux, encontrava-se no Rio para acertar a participação dos músicos brasileiros no festival. Acompanhado por André Midani, que assumira o cargo de presidente da recém-chegada ao Brasil Warner Music, e o produtor Marco Mazzola, assistiu a um show em que o guitarrista tocava. Entusiasmou-se com a performance do pernambucano, e sugeriu que ele fosse incorporado à comitiva do Brasil em Montreux, com os dois contratados da Warner, A Cor do Som (então a banda mais bem sucedida do pop nacional), e Gilberto Gil, aposta internacional da filial brasileira da multinacional.

Com ingressos rapidamente esgotados, Claude Nobs decidiu realizar uma sessão extra da noite brasileira em Montreux, oficialmente intitulada Viva Brasil, com as participações do percussionista mineiro Djalma Correa, e do tecladista suíço Patrick Moraz (que substituíra Rick Wakeman no Yes). Às 17h, e Ivinho foi incumbido de abrir a primeira edição do Viva Brasil.


O jornalista carioca Tárik de Souza cobriu o festival, e escreveu minuciosamente, para o Jornal do Brasil, o show de Ivinho: “De saída, subiu ao palco o enigmático Ivinho, Magro e miúdo, de calça Lee surrada, camiseta e tênis, além de um chapéu de feltro interiorano, que dividia em duas cascatas, sua longa cabeleira. Ivson Wanderley Pessoa, recifense de apenas 25 anos, não se mostrava nem um pouco assustado, mesmo alguns minutos antes, ainda no ensaio, quando fui entrevista-lo. Um estreia solo, mesmo num festival internacional, era para ele apenas uma questão de curriculum, e seus planos para o show resumiam-se a “me deixar desligar durante 25 minutos, deixar fluir algumas sequencias harmônicas, harmonizando minha vida para dias melhores”.

Ele não sabia que sua carreira chegaria ao auge naquela tarde do verão suíço. Seu concerto, um único e longo improviso, a partir de um tema ad lib, que batizou de Noturno número zero, mistura de escalas oriental com nordestina, recebeu palmas e pedidos de bis. Ivinho não concedeu o bis, porém se apresentou novamente na segunda sessão do Viva Brasil (que recebeu um público bem menor do que o esperado). Mais uma vez transcrevemos um trecho da matéria de Tárik de Souza:

“Ivinho entrou sem muitos aplausos, tocou números mais curtos e foi assessorado pela percussão de Djalma (Correa), que duelou com sua viola utilizando um banjilógrafo, mistura de banjo e máquina de escrever”. Novamente Ivinho saiu do palco debaixo de aplausos e pedidos de bis. Um feito, já que a plateia, “cabeça”, não perdoou o som pop de A Cor do Som, pedia “jazz e não rock”. As vaias tomaram conta do salão, a ponto de ser necessário, segundo o relato de Tárik, o próprio Claude Nobs vir ao palco para acalmar o público, que aceitou com ressalvas o pop brasileiro da Cor do Som. O show final, de Gilberto Gil, foi apoteótico e o público só voltou a vaiar quando o baiano avisou que estava encerrando o concerto, que acabou madrugada adentro.

A Warner lançaria, poucos meses depois, com ampla divulgação, enfatizando ser uma participação no festival de jazz de Montreux ainda, discos das apresentações dos brasileiros. Tanto o de Gilberto Gil (originalmente um álbum duplo), quanto o da Cor do Som tiveram reedições em CD. Mas o álbum de Ivinho (Warner/Nonesuch) continua, inexplicavelmente, fora de catálogo. O que não é de se estranhar. Chega a ser um enigma o fato de ele ter sido lançado. O LP de Ivinho não tinha o menor potencial comercial. Muito menos para uma gravadora cujo recém-chegada ao Brasil e em busca do sucesso. A música foi criada ad lib, ou seja, na hora, no improviso. Só receberam títulos quando precisaram ser registradas para o disco: Os temas do álbum: Teimosia, Clarão vermelho,Meditação, Frevo único e Partida dos lobos.

Confiram áudio de Iviho em Partida dos lobos:

domingo, 14 de junho de 2015

A ÚLTIMA ENTREVISTA DE IVINHO

Em janeiro de 2014, Ivinho conversou com o Diário de Pernambuco sobre música, drogas e as dificuldades financeiras enfrentadas



O primeiro brasileiro a subir no palco do Festival de Montreux, na Suíça, em 1978, não foi Gilberto Gil, como erroneamente acabou sendo creditado na história de um dos mais importantes templos do jazz e da world music. Horas antes da apresentação do cantor baiano, um guitarrista pernambucano de semblante invocado entrou sozinho, empunhando um violão de 12 cordas com um furo na madeira - apelidado depois de furiola, já que o rombo fora provocado por ele em um acesso de fúria.

Aos 61 anos, Ivson Wanderley Pessoa, o Ivinho, mora sozinho no térreo de um cortiço alugado no bairro da Boa Vista, onde, 35 anos depois de surpreender o público suíço com improvisos de frevo e baião numa pegada setentista, tenta retomar a carreira e a vida dentro um universo particular, chacoalhado por problemas pessoais.

Ex-guitarrista da não menos lendária banda Ave Sangria, virou personagem mítico da música psicodélica brasileira, não apenas pela habilidade na guitarra, mas pelo sumiço incompatível com alguém comparado a músicos do quilate de Robertinho do Recife e Lanny Gordin. Após raras aparições, Ivinho faz apresentação instrumental neste sábado, em Olinda, dividindo o palco com a Anjo Gabriel, banda da nova safra de artistas influenciados pela geração udigrudi pernambucana. “Ele é um herói da guitarra. Tem a assinatura só dele no jeito de tocar. O disco de Montreux é a prova disso”, diz Marco da Lata, baixista da Anjo Gabriel, falando do único registro solo em disco de Ivinho.

O músico vive da aposentadoria de um salário mínimo e, quando o bolso esvazia, pirateia os discos de que participou, vendendo as cópias para amigos e fãs. Almir de Oliveira, baixista da formação original do Ave Sangria e amigo de infância de Ivinho, se emociona ao lembrar do guitarrista: “Ivinho é único. Ele não perdeu o feeling, aquele estilo próprio, mesmo depois de todo esse tempo, de tudo isso. Um músico com a capacidade dele tem que trabalhar”.

Vestido de amarelo, como a personagem na letra Hei Man, do único disco do Ave Sangria, Ivinho recebeu o Viver para um entrevista em casa, onde, entre respostas sinuosas e raciocínio solto, demonstrou mais entusiasmo ao encerrar a conversa para tocar sua guitarra Memphis: “Música tem que ter três coisas: técnica, expressão e sentimento”.

Entrevista - Ivinho

Você continua tocando ou revisitou o repertório apenas para este show?

Às vezes, quando estou sozinho escutando alguma coisa, pego a guitarra, ligo no amplificador e saio acompanhado as imagens (da TV). Por exemplo, recentemente vi o DVD de João Bosco, a banda quebrando tudo, eu fui lá, botei o som da minha guitarra em cima e fiquei me divertindo. Ou deixo tudo no silêncio pra qualquer coisa que começar a surgir. Eu estou colocando (no show) o que eu já tinha feito. Porque nunca ninguém deu valor ao que fiz. Eu dei valor a quem ficou comigo. Eu me coloquei do lado de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho, Vital Farias, de Xangai, de Tito Lívio, de Ednardo. Foi sempre ao lado, mas eu nunca disse ‘eu fiz’, ‘eu vou mostrar’, ‘é assim’. Quando, na fase de mesa de bar, de caipirinha, de cervejinha, que a boca ficava solta no ar, as palavras saíam. Hoje em dia as palavras perderam o valor. Eu tou fazendo assim agora: passo a harmonia para os músicos da banda, aí eu coloco a melodia com harmonia entrosando. 


Mantém contato com os cantores que você acompanhou ao longo desse tempo?

É como dizia Erickson Luna (poeta, falecido em 2007): ‘Se você não vem ao meu, eu não vou ao seu’. Entendeu? É Alceu mesmo (falando de Alceu Valença). Nenhum deles fala mais comigo. Fica lá na ficha técnica dos discos. Guardo tudo de bom e de ruim daquele tempo, desde a mordomia na Suíça, sentado em cadeiras de veludo, até o Departamento de Tóxicos, Roubos e Furtos, clínicas, internamentos. Existe o lado bom da vida, que é a mordomia, e o lado ruim, que são as regras de estado: o filho fica com a mãe, a mãe morre e fica o filho, aí aparecem os irmãos, a divisão de imóveis, aí eu, puf, casei. Os bons momentos foram a Suíça, o Festival de Montreux, a burguesia, o avião, o hotel de luxo. O outro lado da realidade é uma paradinha chamada averiguação – espero que não exista mais essa palavra.


E sobre as drogas e os problemas que enfrentou... Chegou a ser diagnosticado?

De início, na cidade era muita cachaça, lá em Maria Farinha (onde viveu um tempo) estava cheirando muito pó, era muita doideira, muito isso, aquilo. Estava me tremendo todo. Ia ficar jogado na rua. Ninguém abria a porta pra mim. Agora, eu prefiro ter minha vida controlada. Quando vejo que estou com um problema, aperreado, eu falo com o menino do bar, levo três garrafas (de cerveja), faço um tiragosto, meto o volume lá em cima, tomo uma aqui e passo o dia sozinho com três garrafas de um litro, cada. Mas não faço isso todos os dias. Fiz isso ontem. Não quero fazer até o dia do show. Quero saber do repertório, dos ensaios. Fui para a fila da previdência social na época de Fernando Henrique Cardoso. Vi que a situação tava preta, entrei na fila, peguei esse papel. Um senhor que me ajudava uma vez me chamou para ajudar a preencher essa papelada. Eu queria saber onde me enquadrava. Afinal, tenho duas pernas, que funcionam. Ele resolveu colocar deficiente mental. Eu disse “legal, é isso mesmo”. 


Como começou essa fixação com a guitarra? Você é autodidata?

Eu não sou um grande guitarrista. Comecei tocando um violão de 13 cruzeiros. Tinha a banda Os Selvagens, de Casa Amarela. A gente tinha que tocar covers dos Stones, Beatles, do Creedence Clearwater. Aprendi a tocar escutando, tirando a base do ouvido, e Almir (de Oliveira, ex-integrante da banda) ajudava na pronúncia do inglês. Eu era da Vila dos Comerciários, e era lá que a gente ensaiava. Era banda para tocar em bailes. O Tamarineira Village (que deu origem ao Ave Sangria) veio depois. Marco Polo entrou para a banda, era um cara articulado, inteligente, e ficou com aquela história de ser líder da banda, mas existia uma competição entre ele e Almir, que era um cara mais na dele. Foi quando eu disse: ‘Eu não sou traidor. Dou apoio a vocês dois’. Aí Alceu Valença começou a querer Israel Semente (baterista da banda, já falecido)… 


Mas isso de Alceu foi depois do fim do Ave Sangria, não?

Não. O Ave terminou porque Alceu levou quem ele queria para a banda dele. Levou Paulo Rafael, levou Israel Semente, levou Zé da Flauta, levou Zé Ramalho, levou Lula Côrtes, levou Agrício Noya e me levou. Sobrou quem da banda? Marco Polo e Almir. Porque eram os protagonistas. Não interessavam. Eu não fiquei bajulando Alceu. Botei logo uma camisa com a inscrição ‘Abaixo o Folclore’ porque eu queria crescer o Ave Sangria, e Alceu queria crescer sozinho. E cresceu. Mas derrubou os dois (Marco Polo e Almir). Almir é engenheiro da Prefeitura de Olinda e Marco Polo desistiu da música, virou jornalista e foi arrumar emprego em jornal.

Fonte: Diário de Pernambuco

MORRE IVINHO, GUITARRISTA DO AVE SANGRIA

Ele estava internado no Hospital Otávio de Freitas




"Meu colírio são as lágrimas". Assim, Ivinho definiu durante a semana, poucas horas antes de morrer, o sofrimento pelo qual passava. Ele queria comemorar nos palcos a retomada da Ave Sangria, lendária banda pernambucana da década de 1970, um dos principais ícones da rock psicodélico da época.

Nesta sexta-feira, ele perdeu a luta contra a a hemorragia digestiva, em decorrência de uma cirrose diagnosticada no início do ano. Ivson Wanderlei Pessoa morreu às 20h31 da última sexta-feira, de falência múltipla de órgãos. Ele estava desde o dia 4 de junho no Hospital Otávio de Freitas, em Tejipió, bairro do Recife. 

O corpo de Ivinho será enterrado no Cemitério de Casa Amarela, neste domingo. O horário ainda não foi definido pela família. "Ele teve uma recaída muito forte e estava sofrendo muito. Não tinha mais onde pegar sangue. Deus sabe o que faz. Quando fui visitá-lo ontem (sexta), ele estava muito debilitado. Passou mal e foi transferido para a UTI", conta o irmão dele, Sinay Pessoa, de 60 anos. O guitarrista tinha uma filha e morava sozinho, na Boa Vista.

No fim de abril, ele foi internado com hemorragia gástrica e ficou internado no Hospital Agamenon Magalhães. Devido à internação, ele não participou do show do Ave Sangria na primeira noite do Abril Pro Rock. O companheiro de banda Paulo Rafael assumiu a guitarra solo.

"A gente estava aguardando ele se recuperar para voltar a tocar com a banda. Mesmo quando não tinha show da Ave Sangria, a gente se encontrava, tinha uma relação musical muito forte. Ele era meu amigo desde criança", conta Almir Oliveira, violonista do grupo.

Fonte: Diario de Pernambuco

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