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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

ROBERTO CARLOS TEM DISCO PROSCRITO LANÇADO POR SELO ESTRANGEIRO

Louco Por Você saiu na Europa com outra capa. O Rei veta o relançamento do LP, hoje o disco mais caro do Brasil.

Por José Teles

Malena, raridade do Rei - FOTO: Foto: reprodução


Ano que vem o disco mais cobiçado do Brasil chega aos 60 anos. Louco Por Você, estreia de Roberto Carlos em LP, com selo Columbia, a atual Sony Music. Tocou muito pouco, vendeu menos ainda (não se sabe quantidade exata, mas não deve ter passado de mil exemplares). Com suas manias, ou idiossincrasias, RC colocou o álbum no índex de itens relacionados a ele que não quer de volta ao mercado.
Em 2012, Louco Por Você chegou a circular em streaming na plataforma de música da Apple, mas logo os advogados do cantor deram em cima, e o disco voltou ao limbo. Uma vez participei de uma coletiva de Roberto Carlos, no Copacabana Palace, que era onde ele geralmente concedia entrevistas, quando lançava discos. Perguntei sobre Louco Por Você que , acho, completava 40 anos. Ele desconversou, e deixou um talvez no ar, sobre um possível lançamento.
Bem, eu no lugar dele, talvez também, não aprovasse o relançamento do LP. O repertório é totalmente desigual, mistura bossa nova, com Roberto ainda imitando João Gilberto, com bolero, calipso, rock, e como se achassem pouco, a capa é a mesma de um disco do organista americano, Ken Griffin, lançado em 1946.
Uma das canções, Forever (Marcucci/de Angelis), ganhou uma versão de Carlos Imperial ruim na época, hilárias anos depois, É que Imperial cismou de não traduzir “Forever”. Pelo final dos anos 70, “forever” virou sinônimo de, digamos, “porta dos fundos”. Aí veio Muçum com o dizendo “Forevis” a três por quatro. A música tem versos com o “Forever é para sempre”, ou “Meu amor será seu forever”.
Ele não deixa lançar, pois lá fora lançaram Louco Por Você, com uma capa pavorosa, com o selo Brazilian As Anything, provavelmente de alguma república da ex-União Soviética. O pessoal que vende LPs torce para que Louco por Você nunca seja relançado. É lenda, a história de que é o segundo disco mais caro do Brasil, depois de um álbum original de Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Enquanto Paêbirú era cotado a três para quatro mil, um exemplar em bom estado de Louco Por Você vende-se por dez mil facilmente.


RARIDADES

No Brasil o bolachão de 78 rotações foi comercializado até 1964, quando em quase todos os países a regra já era o compacto, simples ou duplo. O departamento de projetos especiais da gravadora, se é que isto ainda existe, poderia começar a pensar num box do cantor para celebrar o 60 anos do LP de estreia de Roberto Carlos, na Columbia (que virou CBS e depois foi adquirida pela Sony Music). Se não receber sinal verde para relançar o álbum proscrito, poderia reunir músicas de 78 rotações que não chegaram a fazer sucesso, e estão esquecidas. Uma delas, de 1962, tem um título sugestivo: Triste e Abandonado, de Hélio Justo e Erly Muniz, um 78 que teve no outro lado Susie, do próprio Roberto Carlos (ainda sem o parceiro Erasmo). Uma música que ele parecia gostar, porque a cita em outras canções mais à frente. Malena também é outra musa original, também no limbo. A música de Rossini Pinto e Fernando Costa foi lançada em também 1962, como lado B de Fim de Amor (Runaround Sue), versão de Gilberto Rochel para o hit americano de Ernie Maresca e Dion DiMucci. Afora isto, tem os compactos simples e duplos, que RC lançou até 1999, canções lançadas na coletânea As 14 Mais. Um precioso filão para os fãs, que permanece ocioso nos arquivos da gravadora.

domingo, 19 de abril de 2020

ROBERTO CARLOS E SUA COLEÇÃO DE PÉROLAS ESQUECIDAS

Por José Teles


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Roberto, em 1965, ainda uma brasa, mora!


Comentei, dias atrás, no Facebook, e no Instagram, sobre o especial de Roberto Carlos exibido na TV Globo. Critiquei a mesmice, o conservadorismo, a total ausência de ousadia, à exceção de uma gravata amarela (que um seguidor do meu perfil no Instagram aventou que seria um sutil apoio ao ex-juiz Sérgio Moro. Opinião do seguidor, não minha, por favor). Há trocentos anos não ouvia RC em casa,a não ser eventualmente, no rádio. Quase nada do que gravou a partir dos anos 90, mexe pessoalmente comigo. Sei que toca a milhões de pessoas. Ótimo.
Numa folguinha que tive nesta semana, reouvi discos de RC e, num critério estritamente pessoal, relacionei 25 canções que dariam um grande especial de TV. Pinçadas de todas suas fases, mas enfatizando as melhores, mais criativas. Não inclui músicas exauridas, feito Emoções ou Detalhes, ou as de detalhes populistas de personagens, magrinha, buchudinha, miópezinha, baixinha. São, enfm, músicas que eu adoraria ver e ouvir RC cantando-as novamente, saindo do lugar comum. Tenho quase certeza de que os fãs adorariam, até porque eles sabem tudo do Rei. Vamos lá

Olhando Estrelas (Look For A Star) (Michael Antony/Vrs. Paulo Rogério), do LP Louco por você (1961), um dos poucos lugares onde esta tocou bem no rádio foi no Recife.
Desamarre O Meu Coração (Unchain My Heart) (Agnes Jones/Freddy James/Vrs. Roberto Carlos), de É proibido fumar (1964), com os anos ganhou outras conotações.
Perdido no Mundo (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)Interprete: Eustáquio Sena (da trilha sonora da novela O Bofe, 1972)
Gosto do Jeitinho Dela (Othon Russo/Niquinho), do álbum Jovem Guarda, de 1965))
Como É Bom Saber (Helena dos Santos), do LP Roberto Carlos Canta para a juventude (1965)
Eu Estou Apaixonado Por Você (Roberto Carlos/Erasmo Carlos), do álbum de 1966
Não Precisas Chorar (Édson Ribeiro) do mesmo álbum de 1966
Folhas de Outono (Francisco Lara/Jovenil Santos), de Roberto Carlos em Ritmo de Aventura
Quase Fui Lhe Procurar (Getúlio Cortes) de O Inimitável (1968)
Não Há Dinheiro Que Pague (Renato Barros) idem, O inimitável
É Meu, É Meu, É Meu (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) mais uma de O Inimitável
Do Outro Lado da Cidade (Helena dos Santos) do LP de 1969
Nada Tenho a Perder (Getúlio Cortes) idem, de 1969, talvez a melhor composição de Getúlio Côrtes. O Negro Gato não vale, porque é um óbvio remake de Three Cool Cats, de Leiber & Stoller, sucesso com os Coasters, em 1958.
Preciso Lhe Encontrar (Demétrius), do LP de 1970, a partir de O Inimitável, os discos de Roberto Carlos, passam a ter apenas o nome do cantor por título.
Uma Palavra Amiga (Getúlio Cortes), do LP de 1970
I Love You (Roberto Carlos/Erasmo Carlos), do LP de 1971
Por Amor (Roberto Carlos/Erasmo Carlos), do LP de 1972
Atitudes (Getúlio Cortes), do LP de 1973
Ternura Antiga (Dolores Duran/Ribamar, do LP de 1974
O Quintal do Vizinho (Roberto Carlos/Erasmo Carlos), do LP de 1975
Muito Romântico (Caetano Veloso), do LP de 1977
Abandono (Ivor Lancellotti), do LP de 1979
Procura-se (Roberto Carlos/Ronaldo Bôscoli), do álbum de 1980
Fera Ferida (Roberto Carlos/Erasmo Carlos), do álbum de 1982,umadas poucas óbvias da lista.

Trocaria algumas dessas por canções que ele compôs com Erasmo para discos do Tremendão. Meu Mar (de Sonhos e Memórias, 1942- 1972), certamente seria uma delas, é uma das mais felizes parcerias da dupla, na fase alterna de Erasmo que vai de 1971 a mais ou menos 74.

sábado, 7 de dezembro de 2019

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

FÃS DE ROBERTO CARLOS SE REÚNEM EM GRUPOS NA INTERNET PARA SURPREENDER REI EM SHOW

Cantor tem marcado oito shows em São Paulo


Por Karina Matias


Presença do Rei em São Paulo movimenta grupo de fãs espalhados pelo Brasil
Ronny Santos / Folhapress

Hoje, Roberto Carlos, aos 78 anos inicia uma série de oito shows em São Paulo. Um grupo de mulheres, de diversas cidades do país (algumas sem ingresso), promete estar na frente da casa de espetáculos para fazer barulho e declarar "todo o amor que sente pelo rei".

– Muitas falam que não têm dinheiro para ir ao show, mas essa é uma forma de mostrar o quanto somos fãs deles – conta a professora Rosemeire Aparecida Barbosa Salvadori, 57 anos, idealizadora da iniciativa. Moradora de Piracicaba (a 160 km de São Paulo), ela vai ficar em São Paulo do dia 4 ao dia 8 de setembro para ver o seu ídolo maior.

Rosemeire só tem ingresso para a apresentação de sábado, dia 7. Para ela, porém, isso pouco importa. 

– Vou ficar lá na frente e vou fazer uma live [transmissão ao vivo pela internet] para homenageá-lo – diz.

A professora é organizadora de três grupos no Facebook, que reúnem em torno de 10 mil participantes. Um dos mais curiosos é chamado de Eu e o Rei - Rosemeire Barbosa - Adesivos de Unhas do rei Roberto Carlos, que existe desde 2013. Foi naquele ano que ela começou a fazer adesivos para as unhas com o rosto do cantor e distribuir para fãs de todo o Brasil.

Ela conta que envia, por semana, entre 40 e 50 cartas com o artigo, que é distribuído por ela gratuitamente -os selos são pagos pelos beneficiários. 

– O combinado é colocar os adesivos nas unhas no sábado, que é o dia normalmente em que as mulheres se arrumam, vão ao salão. E se tem a fotinho de Roberto Carlos fica ainda mais interessante – explica.
Na página do Facebook, Rosemerie divulga adesivos à disposiçãoReprodução / Eu e o Rei -Rosemeire Barbosa- Adesivos de unhas do rei Roberto Carlos


Foi assim que Rosemeire conheceu a maioria dos fãs do músico, como o casal Ilze dos Santos Zamboni, 62 anos, e José Jacinto Zamboni, 66 anos, de Itaquera (zona leste de São Paulo). 

– Quando Roberto Carlos entra no palco é uma emoção incrível. Assistir ao show dele é reviver a nossa própria história – conta Ilze, que vai hospedar Rosemeire em sua casa durante o período em que ela ficar na capital paulista.

Ilze lembra que foi o marido que a fez gostar do músico, quando eles ainda eram namorados.

– Eu era fã da Jovem Guarda, mas gostava mais de Wanderley Cardoso. Foi o meu marido que chamou a atenção para o Roberto Carlos e acabei ficando fã. A gente vai a todos os shows – relembra, que preparou um presente para o seu ídolo: uma Nossa Senhora Aparecida feita em crochê. Ela pretende entregá-la no show do dia 7.


Rosemeire também quer dar algo especial para o rei: um pingente de ouro no formato de um calhambeque. O artigo em homenagem à música O Calhambeque foi comprado por outra grande fã de Roberto Carlos, a aposentada Marlene Bueno Queiroz, 69 anos. 

– Mandei fazer esse pingente para mim quando eu tinha 18 anos – fala.

Além da peça, a aposentada doou todo o seu acervo de revistas, objetos e livros sobre Roberto Carlos para Rosemeire, que ela conheceu pelo Facebook. Como seus parentes não são tão fãs do músico, Queiroz conta que escolheu a professora de Piracicaba por saber que os itens estarão bem guardados e cuidados com ela.

– O meu sonho é entrar no camarim e conhecê-lo – enfatiza Rosemeire. 

Apesar de ser fã desde criança, ela conta que só começou a ir em shows do artista em 2017. 

– Tive depressão e síndrome do pânico, achava que não conseguiria. Mas foi maravilhoso. Quando ele cantou Nossa Senhora, fiquei emocionada. A partir disso, a minha depressão melhorou – afirma. 

Na casa dela, Rosemeire criou um quarto onde guarda todos os artigos que têm do rei. No espaço, nomeado de "Estúdio Azul", ela tem até um totem de Roberto Carlos, em tamanho natural. 

Rosas: motivo de emoção e disputa acirrada
Roberto Carlos em show no Araújo Vianna
Rodrigo Lopes / Agencia RBS


Para as fãs de Roberto Carlos, um dos momentos mais esperados do show é quando ele distribui as rosas brancas e vermelhas para o público. Receber a flor é motivo de emoção e alegria, mas também de disputa feroz entre as tietes. Que o diga a dona de casa Sonia Alves Diogo, 57 anos, que já passou alguns apuros para conseguir o presente.

– É um empurra-empurra, um quebra-quebra. Ano passado, puxaram o meu cabelo e até quebraram a correntinha que eu estava usando – relata Diogo. O esforço, no entanto, vale muito a pena, segundo ela.

Mesmo sendo "baixinha" - ela mede 1,53 m de altura - e nem sempre ficando nas cadeiras da frente, porque o preço do ingresso costuma ser mais caro, Diogo conta que já conseguiu ganhar duas rosas: uma vermelha, e outra branca. Uma delas, inclusive, foi emoldurada em quadro. A outra está guardada.

– Ele me deu a rosa e ainda segurou para não puxarem – relata, orgulhosa Diogo, que vai ao show do dia 7 com a prima Luciana Carla Allves Oliveira, anos 42, e outras amigas. Dessa vez, ela mandou fazer um banner para chamar a atenção do músico durante a apresentação. Na faixa, está escrito: "Meu rei, realize o sonho dessa mulher pequena, tire uma foto comigo".

Luciana Oliveira, que é fã desde a infância do cantor, também revela que já recebeu uma rosa dele. 

– Já perdi as contas de quantos shows vi do rei e hoje, aos 42 anos, me sinto homenageada, pois tenho uma música para mim: Mulher de 40 – comenta, aos risos. 

A tradição de distribuir rosas para os espectadores dos seus shows começou há 41 anos, em 1978. A primeira flor oferecida por Roberto Carlos, porém, foi um cravo, que ele usava na lapela. 

– Um dia, ele viu uma pessoa conhecida e resolveu fazer uma gentileza, deu um beijo no cravo e jogou – lembrou Neide de Paula, sua maquiadora, em entrevista passada ao jornal Folha de S. Paulo.

A resposta do público foi positiva, e Neide começou a deixar vários cravos. O problema é que esse tipo de flor era difícil de ser encontrada. Foi assim que as rosas surgiram. O número de flores distribuídas por noite varia conforme o tamanho do público. Segundo a assessoria do cantor, para os shows de São Paulo, deverão ser oferecidas pelo cantor em torno de 12 dúzias de rosas por apresentação.

domingo, 16 de dezembro de 2018

ROBERTO CARLOS CONVIDA MARINA RUY BARBOSA E MICHEL TELÓ PARA CANTAR EM ESPECIAL

O Rei compartilhou as fotos do ensaios em sua conta oficial no Instagram. O programa vai ao ar no dia 21 de dezembro, após a novela das 21h, na Globo



Marina Ruy Barbosa e Michel Teló estão entre os convidados de Robertos Carlos para a edição do especial de fim de ano. O programa que vai ao ar no dia 21 de dezembro, após a novela das 21h, na Globo. Além deles, o Rei também convidou Dudu Braga, com a banda RC na Veia e Zizi Possi. 

Está a primeira vez que Marina vai cantar ao lado do Rei. Em sua conta oficial no Instagram, o cantor rendeu elogios à atriz e escreveu: "E o ensaio de ontem foi com ninguém menos que Marina Ruy Barbosa. Descontração e muito alto astral. Agora é gravar e assistir dia 21/12, na telinha da Rede Globo". 

Roberto Carlos também compartilhou um clique ao lado do cantor sertanejo Michel Teló, que participa pela segunda vez do especial. A primeira vez que ele cantou com o Rei foi em 2012, após o sucesso de Ai se eu te pego. 

Na legenda da foto acompanhado do filho com a banda RC na Veia, o cantor afirmou: "E vai ter rock".


Fonte: Redação EM Cultura 

domingo, 7 de outubro de 2018

STJ NEGA DIREITOS AUTORAIS POR 'EMOÇÕES' DE ROBERTO EM NAVIO ITALIANO

O Ecad cobrava de uma agência de turismo direitos autorais decorrentes de apresentações do cantor no cruzeiro Emoções em Alto Mar



Os ministros da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negaram provimento a recurso por meio do qual o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) cobrava de uma agência de turismo direitos autorais decorrentes de apresentações do cantor Roberto Carlos no cruzeiro Emoções em Alto Mar, realizado em 2010 em um navio de bandeira italiana.

As informações foram divulgadas no site do STJ. As instâncias ordinárias julgaram a ação improcedente ao fundamento de que competia ao Ecad comprovar que os shows do "Rei" ocorreram dentro dos limites marítimos brasileiros, já que o navio era estrangeiro. Esse entendimento foi ratificado no STJ.

No recurso ao STJ, o Ecad afirmou que "a prova era tecnicamente impossível, visto que os planos de navegação e outros documentos indicadores do trajeto efetivamente percorrido se encontrariam em poder exclusivo dos réus".

Sob esse argumento, o Ecad solicitou a inversão do ônus da prova, sustentando que caberia aos responsáveis pelo cruzeiro demonstrar, em sua defesa, que o navio se encontrava em águas internacionais.

Segundo o relator do caso, ministro Villas Bôas Cueva, "a mera dificuldade de comprovar que o navio estava em mar territorial brasileiro não justifica a inversão do ônus da prova, visto que o autor da ação dispõe de meios legalmente admitidos para demonstrar o fato constitutivo de seu direito, tais como a requisição de documentos em poder dos réus, a oitiva de testemunhas, a realização de fiscalização presencial ou de perícia técnica".

"Sendo incontroverso que as apresentações do cantor Roberto Carlos aconteceram em navio estrangeiro, só seria viável acolher a pretensão do Ecad caso comprovado que os fatos geradores ocorreram dentro das divisas marítimas brasileiras, mais especificamente no mar territorial, haja vista os limites espaciais da jurisdição, da legislação e da própria soberania nacional", anotou o ministro.

Villas Bôas Cueva destacou que "não há dúvidas a respeito da ocorrência do evento em si, o que não foi comprovado é se ocorreu ou não no Brasil".

Ele destacou que não houve sequer pedido de produção de provas, pois o próprio Ecad requereu o julgamento antecipado da demanda.

"Acolher a tese do recorrente equivaleria a atribuir à referida entidade, por vias transversas, o poder de demandar a contrapartida por direitos autorais de toda e qualquer embarcação estrangeira, dentro ou fora dos limites marítimos brasileiros, criando uma espécie de inversão de ônus da prova sem previsão legal, nem proporcionalidade, e que poderia, em última análise, implicar ofensa a compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito internacional", fundamentou o relator ao negar provimento ao recurso.


Defesa do Ecad

A reportagem fez contato com o Ecad e aguarda retorno.

Nos autos do recurso ao STJ, o Ecad afirmou que "a prova era tecnicamente impossível, visto que os planos de navegação e outros documentos indicadores do trajeto efetivamente percorrido se encontrariam em poder exclusivo dos réus" - as instâncias ordinárias haviam julgado a ação improcedente sob o fundamento de que competia ao Ecad comprovar que os shows ocorreram dentro dos limites marítimos brasileiros, já que o navio era estrangeiro.

Sob esse argumento, o Ecad solicitou a inversão do ônus da prova, sustentando que caberia aos responsáveis pelo cruzeiro demonstrar, em sua defesa, que o navio se encontrava em águas internacionais.


Fonte: Estadão Conteúdo 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

FILHO DE ROBERTO CARLOS, DUDU BRAGA GRAVA HITS DO PAI COM PEGADA ROCK N' ROLL

Primeiro disco do artista, 'RC na veia' foi lançado nos formatos CD e DVD. Dudu planeja turnê pelo país


Por Ana Clara Brant 





Ser filho de quem é, carregar o nome dele e ainda seguir sua profissão nunca foi tarefa fácil para Roberto Carlos II. Dudu Braga – como é conhecido – até hoje se diverte com o apelido que lhe deram na infância: Segundinho. “Eu me chamo Roberto Carlos Braga II (registrado assim, em algarismos romanos). Quando quero tirar um barato com alguém, falo que sou parente de William, Kate Middleton (risos). Mas, brincadeiras à parte, sempre quis ficar fora de tudo isso, inclusive do mundo artístico, mas não teve jeito”, conta.

Na tentativa de fugir do showbiz, Dudu chegou a trabalhar como vendedor de automóveis, mesmo sabendo tocar bateria desde moleque. “Só quando entrei na rádio (há quase 20 anos ele comanda um programa só com canções do pai em uma emissora de São Paulo) é que aprendi a me virar, porque a gente acaba se soltando, se interessando mesmo por esse meio. Ser filho do Roberto Carlos faz parte da minha identidade, simplesmente porque os nossos pais fazem parte da nossa identidade, e não porque ele é um cantor famoso. No dia em que desencanei dessa história, a coisa fluiu”, afirma Dudu, que acaba de lançar seu primeiro disco. “Apesar de eu ter feito participações em discos de vários artistas, como a Wanderléa, este é o primeiro em que toco do início ao fim e é com minha banda”, explica.

O álbum e o DVD RC na veia (Sony Music), que também é o nome da banda que ele montou há quase 5 anos, traz releituras de sucessos da fase roqueira do “paizão”, como ele chama Roberto Carlos. O quarteto formado pelo próprio Dudu Braga (bateria), Alex Capella (voz), Fernando Miyata (guitarra) e Juninho Chrispim (baixo) toca clássicos do cantor e compositor capixaba como É proibido fumar, Quando, Parei na contramão, Ciúme de você e As flores do jardim da nossa casa (feita em homenagem a Dudu). Desde que começou a se interessar por música, Dudu se identificou com o rock. Há algum tempo acalentava a ideia de dar a canções de Roberto numa roupagem mais pesada. “A gente quis fazer um metal mesmo, um rock mais assumido, com o peso da guitarra, baixo, uma batera mais marcada. Fernando (Miyata) foi o nosso maestro e responsável pela maioria dos arranjos”, diz.



VIRGENS

Boa parte do repertório é da época da Jovem guarda, mas o baterista esclarece que a sonoridade é bem diferente daquela das “jovens tardes de domingo”. “Não é que eu tenha nada contra a Jovem guarda, muito pelo contrário. Mas a ideia era outra. Alguns dos músicos nem conheciam tanto o trabalho do meu pai, e isso até que foi um lado bacana; eles eram ‘virgens’ de RC. A única preocupação era não perder a essência do Roberto e respeitar a linha melódica. E acho que conseguimos”, comenta Dudu, que é pai de Laura, de 2 anos e meio – o nome da menina é uma homenagem à avó de Dudu. “Fizemos até uma versão metal de Lady Laura, e o paizão gostou. Quem sabe não entra no RC na veia volume 2?. Repertório para isso tem”, afirma.

Quando apresentou o projeto ao Rei, Dudu diz que nem o pai imaginava que tivesse feito tanto rock’n’roll na carreira. Roberto não só aprovou o resultado como ainda fez uma participação na faixa Se você pensa. RC na veia, que tem produção de Rafael Ramos e foi gravado ao vivo na Casa Natura, em São Paulo, conta com convidados bem especiais. Toni Garrido solta a voz em As curvas da estrada de Santos, enquanto Digão, dos Raimundos, toca guitarra e imprime sua marca em uma das faixas mais interessantes do trabalho, Esse cara sou eu. Já o guitarrista do Sepultura Andreas Kisser mostra seu estilo em Além do horizonte e Não vou ficar.

Os artistas mineiros também estão presentes. Rogério Flausino e a bagagem black/soul/funk do Jota Quest emulam a fase de Roberto do final dos anos 1960 em Não vou ficar. “Sou fã dele (Flausino) e do Jota há anos. Amo soul music e acho que eles têm esse estilo que o paizão chegou a ter no passado e ainda gosta muito. Sem contar que nossa versão de Além do horizonte é mais baseada na versão que o Jota Quest gravou do que na original do Roberto. Em É proibido fumar, a gente mistura um pouco de surf music, Black Eyed Peas e Skank, que também gravou essa música. Além disso, a linha de voz do Alex (vocalista) nessa faixa é a mesma do Samuel (Rosa)”, comenta Dudu. O gran finale fica por conta de É preciso saber viver, quando todos os convidados se reúnem no palco.

Aos 49 anos, Dudu Braga planeja sair em turnê pelo país com o disco. “Já temos shows marcados em São Paulo e no Rio. Mesmo eu trabalhando com música há tanto tempo, sendo produtor musical, confesso que nunca imaginei que o projeto ia ficar deste tamanho, com uma gravadora grande encampando-o e que meu pai iria gostar tanto. É uma conquista profissional, mas pessoal também.”


VEIA ROQUEIRA
Confira o repertório do álbum

1 - Quando
2 - Eu sou terrível 
3 - É proibido fumar
4 - As curvas da estrada de Santos – Toni Garrido
5 - Lobo mau 
6 - Ciúme de você
7 - Splish splash 
8 - Esse cara sou eu - Digão, dos Raimundos
9 - As flores do jardim da nossa casa 
11 - Além do horizonte – Andreas Kisser
12 - Não vou ficar – Rogério Flausino
13 - Você não serve pra mim 
14 - Parei na contramão
15 - Se você pensa – Roberto Carlos
16 - É preciso saber viver

quarta-feira, 27 de junho de 2018

DEUSAMÚSICA - UM OLHAR RELATIVO SOBRE DISCOS ABSOLUTOS


Roberto Carlos (1971)


Em 1971 o maior vendedor de discos da época lançava o quarto LP intitulado “Roberto Carlos” que integraria uma série de títulos-clone que até a segunda década do novo milênio chegaria a mais de 30. Não obstante, os contemporâneos Irmãos Valle já terem alertado no ano anterior ser melhor não confiar em ninguém com mais de 30 anos, ternos, conselhos, etc. – não havendo referência a discos com o mesmo nome, Roberto optaria carreira à fora pela segurança quase patológica da repetição da fórmula.

O veio romântico “descoberto” em “O Inimitável” (1968), amadurecido no disco de 1969 (“Roberto Carlos”) e embalado para (longa) viagem no ano zero década de 70 no terceiro disco com seu nome, este “Roberto Carlos” de 1971 resplandece ainda como uma relíquia da fase em que na escolha do romantismo havia uma manifestação sincera, consequente e natural da expressão do espectro artístico de Roberto Carlos. Ele e o romantismo, como reflexo íntimo do ser brasileiro, passariam ali a serem a mesma “pessoa”. 

Se fôssemos selecionar como clássico esse disco simplesmente por conter a canção “Detalhes” - uma espécie de “carteira de identidade musical” do capixaba Roberto Carlos Braga - já seria uma escolha indiscutível. A canção tem esse poder. Na forma ela invade com ternura e dedo em “v” o território do bolero para dar propriedade definitiva ao Rei de sua sequência harmônica mântrica. Arejada por flautas com bordados neohippies sobre um tapete elegante de cordas, xilofone e piano escritos pelo arranjador americano Jimmy Wisner; em lugar de bongôs e bigodes, o arranjo revigora o formato passando ao largo do machismo passional latino. A letra teve o mérito de colocar no topo da cena popular onde seu intérprete já transitava livremente, um novo perfil de amante masculino repaginado pelos movimentos de paz, amor, liberdade e de afirmação dos direitos femininos do final da década de 1960. A bordo do vórtice afetivo gerador de suas estrofes, os homens brasileiros passariam a considerar a possibilidade concreta e “prafrentex” de desamarrar sem culpa seu “Roberto” interior que até então se resguardara. O gigantesco sucesso da canção colocou em cima da cama a alternativa da compreensão em mão dupla no relacionamento do casal e propôs diminuir a atenção no todo e aumenta-la nos detalhes tão pequenos que o compõem – uma característica exclusiva até então da alma feminina. Roberto, quase que inconscientemente, começa ali uma revolução de costumes e como um monarca generoso perdoa os resquícios de imperfeições machistas como até os erros de um Português ruim. Afinal, como a canção que Roberto e Erasmo entregariam no ano seguinte a Agnaldo Timóteo, no cinema ou na música pop, “Os brutos também amam”.

Mas no álbum havia muito mais do que apenas detalhes. Do recanto de onde vem a luz do grande intérprete que já era Roberto Carlosnaquele começo de década, surgem a bela “A namorada” de Maurício Duboc – autor que estaria presente ainda em outros discos do Rei – e de Carlos Colla, que ao longo de sua carreira filiar-se-ia ao segmento da música (super) popular brasileira por sua veia incontrolável de hitmaker. A música já exibe na forma algo que passaria por décadas sendo o escopo de canção romântica ao qual RC se dedicaria esquivando-se intencionalmente da ousadia. Ainda sob a luz de canções de outros compositores há “Você não sabe o que vai perder” do blue cap Renato Barros que mata as saudades da Jovem Guarda com um delicioso charleston-rock ao mesmo tempo provando que o lugar ideal para o gênero já seria mesmo àquela altura, na distância nostálgica. Roberto interpreta também “Se eu partir” do veterano Fred Jorge – uma amarga canção que, ainda que esteticamente tenha a forma da balada romântica moderna com seu aro de bateria marcando os compassos e o coração do amargurado ouvinte - esbarra no universo emocional lírico da geração anterior à sua, de partidas definitivas de homens desprezados abandonando o lar. O que não deixava de ser um primeiro sintoma do envelhecimento precoce de um cantor com apenas 30 anos.

Como fecho de ouro (negro) das canções não autorais do álbum, aparece Getúlio Cortes. É interessante notar que mesmo sendo ele o autor de “Negro Gato”, canção de unhas cravadas na Jovem Guarda, dos autores do movimento foi o que manteve infinita a data de validade de suas obras. “Eu só tenho um caminho” salta do repertório com um vigor inimitável que só poderia inspirar-se mesmo na injustiça apontada contra o negro no país camuflada pelo abandono afetivo na canção. O fato de esta vir, propositadamente antes de uma canção gospel, acaba forçando seu caminho na direção do universo da opção religiosa, mas vale pensar nela como um grito de revolta pois isso potencializa o discurso do grande autor que é Getúlio Cortes. De “Negro Gato” à Pantera Negra, movimento étnico americano contemporâneo, nota-se que embora sua versatilidade de intérprete o adequasse ao megafone coletivo, a imagem de bom moço acabaria por definitivamente fazer o Rei alienar-se das misérias de seus súditos acastelando-se na apolítica como procedimento padrão de sobrevivência. 

Tanto “Eu só tenho um caminho” quanto “Todos estão surdos”, a segunda como primeiro tema cristão composto imediatamente após “Jesus Cristo” por Roberto e Erasmo, abaixo-assinavam ainda o compromisso de RC com um pop sessentista vigoroso que, por menos tempo do que gostaríamos, também representou. Da embalagem da faixa 7 para seu (divino) conteúdo, pode-se dizer que se “Jesus Cristo” publicava a prontidão do artista para a mensagem evangélica, “Todos estão surdos”, por sua vez, parte para o ataque panfletário reutilizando o mesmo palanque da faixa anterior para esfregar na cara do maior país católico do planeta, o óbvio. Ao repaginar a vinda do Messias segundo a ótica revolucionária da prática do amor incondicional, fazia involuntariamente com que os filhos do desbunde encontrassem paralelos claros entre os cabeludos Jesus e Guevara.

“I love you” talvez seja a que menos tem a dizer num disco que pelo acúmulo de significados e grandes canções marca a entrada de Robertono clube do milhão de cópias que, junto com a face comercial sórdida do Natal, o escravizaria pelo resto da vida. Seria no máximo de sua potência um “When I´m sixty-four” brazuca que brinca com a estética ford-bigode sem grandes pretensões além de uma curta e limitada piadinha de salão.

O mesmo não acontece com “Traumas”. Nela, o cantor revisita a dor, a inocência e a relação paterna da criança abandonada pelo Rei da Juventude nos flamboyants do pequeno Cachoeiro do Itapemirim. Ao mesmo tempo em que contextualiza a psicanálise para o povão, a canção fere fundo a meninos de qualquer idade que sofreram sob o carinho possessivo da superproteção paterna ou até mesmo pela sempre sentida ausência dessa figura na formação do modelo masculino. Novamente, como fizera em “Detalhes” em seu subtexto Roberto e Erasmo revelam a fragilidade masculina em contraponto à necessidade imperativa e cruel do homem-fortaleza impermeável ao sofrimento. Chorar catarsicamente ou correr para os braços do analista é o que nos resta depois de ouvi-la.

“De tanto amor” e “Amada amante” são joias de um romantismo roots ainda vacinado contra o populismo que batia à porta empacotado na mistura das obrigações do soberano para com seu povo e da neurose de perseguição e repetição do sucesso. “De tanto amor” arrancou para a galeria das canções românticas inesquecíveis encabeçando a trilha do filme Roberto Carlos a 300 KM Por Hora de Roberto Farias que dirigiu o tocante clipe-fantasia sonorizado pela canção. Por mais que nos pareça quase patético hoje pelo fôlego ainda mais limitado da produção cinematográfica brasileira em 1971, vale à pena rever a cena que hipnotizou o Brasil e ajudou a montar a imagem do apaixonado sensível, intenso, abandonado e, consequentemente, triste que até hoje compõe a imagem do mito Roberto no inconsciente nacional.

Reza a lenda que “Amada Amante” teria sido composta dos autores siameses Carlos para Nice, a garota com quem Roberto Carlos se casara na Bolívia em 1968 driblando o obstáculo jurídico e social do fato de ser ela uma mulher desquitada – uma pecha ainda pesada naquela sociedade em mutação. Transformar em canção o empecilho preconceituoso que tornara sua amada uma “amante”, acabou por capturar a todos: homens que cultivavam relacionamentos paralelos a casamentos infelizes, sucumbiam mortalmente feridos junto às mulheres envolvidas neste triste roteiro que não poderia incluir ainda o divórcio do Deputado Nelson Carneiro em seu script. Prostitutas e deserdados do amor de todos os quilates se juntavam também àqueles que viam em suas namoradas e esposas potenciais fantasias sexuais reprimidas, davam-se às mãos nesse coral. Uma grande canção motivada por questões íntimas que se plugava na catarse coletiva como quase tudo na obra - em múltiplos detalhes - redentora, do Rei Roberto Carlos.

E o que dizer da pintura em tela branca por pincéis marrom-castanhos da capa? Talvez uma auto-gioconda intuitiva retratando a distância que ainda guardava da monotonia azul onde suas capas e obra passariam por décadas a pairar. No entanto, nada chega perto da beleza e do gigantismo emblemático da “troca de flâmulas” entre Roberto e Caetano proporcionada pela gravação de “Como dois e dois” - dada inédita por Veloso ao Rei em sua famosa visita ao deportado em Londres. E esta em um elo quase invisível para o grande público que sequer se dava conta da expulsão de Gil e Caetano sob a barra autoritária do ano de 1969, há a carta-homenagem ao exilado baiano contida em “Debaixo dos caracóis de seus cabelos” composta por Roberto e Erasmo. O encontro dessas correntes estéticas é um acontecimento musical de retumbância histórica que coloca o disco no centro da mais perfeita tradução da alma brasileira feita pela canção e definitivamente entrona o disco e “a quem chamamos de Rei”, como disse Caetano, acima do bem e do mal.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

ROBERTO CARLOS JÁ LANÇOU 24 DISCOS QUE TEM PRATICAMENTE A MESMA CAPA - PARTE 02

Por Carlos Viegas



A opção por capas tão semelhantes não acompanha Roberto Carlos desde os seus primeiros passos dentro da indústria fonográfica. O primeiro álbum do cantor, que trazia o hit “Splish Splash” (1963), chegou às prateleiras com uma diagramação diferente e o disco seguinte, É Proibido Fumar (1964), trazia o cantor com um cabelo curto e uma rara camisa vermelha. Nesta primeira fase, a grande referência para a confecção das capas de Roberto eram os Beatles, que também norteavam fortemente o som do artista brasileiro. A referência aos Beatles está no corte de cabelo adotado pelo Rei (a la McCartney), nas roupas sociais que conversam com a fase iê-iê-iê do grupo inglês e na descarada capa de 1966 que nada mais é do que uma releitura da imagem trazida na capa do disco With The Beatles, que ficou internacionalmente conhecido anos antes.


Ainda na onda de referência aos Beatles, o disco de 1967 do Rei traz uma imagem do filme “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, película lançada na época por Roberto copiando a onda de filmes musicais popularizada pelos Beatles desde o filme “Help!” (1965).

Em uma segunda fase, já saído da Jovem Guarda e buscando por uma identidade própria, o cantor experimentou influências musicais diferentes e isso esteve refletido na capa de seus álbuns. O disco mais pesado e soul de 1970 tem uma capa que faz jus ao seu conteúdo, enquanto o melancólico álbum de 1972 traz uma foto monotônica do cantor quase chorando. O experimental disco de 1973 apresenta uma capa mais artística do que de costume e o trabalho cool de 1975 (mais jazz/MPB) traz uma capa em tom hipster onde o cantor aparece fumando um cachimbo e o seu nome aparece rabiscado em formato de autógrafo. Até aqui, poucos padrões e uma sintonia observável entre capa e conteúdo.


Na segunda metade da década de 70, o cantor desprendeu-se um pouco da sua veia gospel e isso esteve refletido na capa cafajeste de 1976 (no disco que traz a clássica “Ilegal, Imoral ou Engorda”). A capa de 1977 conversa com a febre discovivida na época, embora o conteúdo lembre bastante o disco anterior, e a pose gótica-suave de Roberto no álbum de 1981 é um dos últimos sinais de variação nas capas do cantor. Depois disso, somente em 1994 uma capa sua traria algo de diferente.

A variabilidade das capas dos anos 70 reflete a busca de Roberto Carlos por um padrão que “funcionasse”. Enquanto testava, descobriu em 1974 a fórmula visual que perduraria. A roupa azul, a pose e o cabelo padrão apareceriam ali pela primeira vez.




O ano de 1974 pode ser considerado o ano em que Roberto Carlos começou a se tornar o que hoje conhecemos, e isso não toma como base só a capa deste disco. O ano marcou também a ruptura definitiva do cantor com o público jovem e o incluiu na galeria dos cantores adultos românticos que dominariam comercialmente a música brasileira naquele período. Em 1974, o cantor também começava a ser reconhecido como grande compositor, abandonando as saídas fáceis de anos antes e investindo em letras mais sentimentalmente carregadas. Por fim, o ano marcou também a primeira exibição do especial de final de ano de Roberto na Globo, que foi essencial para o aumento de sua popularidade. A fama de Rei data deste período.


Desde que Roberto Carlos se tornou rei

Depois de encontrar a sua praia, Roberto passaria a criar soluções dentro disso, mas nunca mais daria uma grande virada estética, tanto na música quanto no visual. A década de 80, inclusive, seria a fase em que ele menos lançaria clássicos, mas ao mesmo tempo seria a década em que ele mais faria sucesso, se estabelecendo como um cantor das massas, ganhando o Grammy e chegando a ocupar o topo da parada latina da Billboard.

Enquanto a sua fama como cantor se expandia, crescia também o culto à sua imagem, que deixava claro que qualquer álbum do cantor (com mais clássicos ou menos clássicos famosos) faria sucesso, independente de sua qualidade, porque o público consumia Roberto Carlos não só como cantor, mas como ícone popular.

A obra de Roberto, como um todo, alimenta essa busca personalista do fã pela imagem e pela pessoa de Roberto Carlos, algo que se tornou mais explícito nos anos 80 (quando as capas azuis se tornaram mais recorrentes), mas que já perseguia o ícone desde os seus primeiros discos. Uma prova disso são os nomes dados aos álbuns do cantor. Dos 49 discos avaliados nesta pesquisa, 30 se chamam simplesmente Roberto Carlos e apenas um (sim, um único lançamento) não traz uma foto do cantor na capa: o disco de 1971, que substitui a foto por uma pintura com a cara do Rei.

Definitivamente, a repetição nas capas não é acidente ou falta de criatividade, mas um trabalho de construção de imagem muito bem sucedido e que teve como resultado a fixação de Roberto Carlos como um dos rostos mais conhecidos da história brasileira, algo que se refletiu em vendagens, culto e construção de uma base de fãs para os quais o personalismo está acima da estética e muitas vezes acima da própria música.

domingo, 20 de agosto de 2017

ROBERTO CARLOS JÁ LANÇOU 24 DISCOS QUE TEM PRATICAMENTE A MESMA CAPA - PARTE 01

Por Carlos Viegas


Se você perguntar para um fã do Roberto Carlos qual é o seu disco preferido do Rei, há quase 50% de chances deste fã responder que prefere “aquele disco em que o cantor aparece na capa vestido de azul posando para a foto com o cabelo na altura dos ombros”. Falando assim, parece que Roberto tem em sua discografia um grande disco que é o preferido entre quase metade dos fãs, né? Mas a verdade é que a discografia do cantor é bastante equilibrada entre cada lançamento. O fã provavelmente preferiria um disco cuja capa fosse como a descrita anteriormente por uma questão matemática mesmo: dos 49 discos lançados pelo cantor até hoje, 24 trazem em sua imagem frontal uma foto com essas características. Olha só:



Neste universo de 24 capas, há algumas variações, é verdade. Às vezes, o azul no fundo é tão escuro que quase parece preto (como em 1979 e 1991). Algumas fotos são clicadas em estúdio e outras são registradas ao ar livre, com variações no traje usado pelo cantor, que vai do jeans surrado de 1993 (obviamente azul) ao suéter azul bebê de 1980 (praticamente um João Doria vintage). Às vezes, o Rei está mais despojado; em outras vezes, mais elegante. Às vezes, prefere encarar a câmera; em outras vezes, mirar o horizonte ou algum objeto aleatório e, em uma pequena quantidade de capas, olhar assustado para algo que aparentemente está ao lado do fotógrafo, como fez em 1974 e 1978. Tudo isso, no entanto, sem abandonar a já citada fórmula.

Comparar o mosaico de capas de Roberto Carlos com as artes nas capas de qualquer outro artista causa, inicialmente, estranhamento. Pesquisadores das mais diversas áreas têm se dedicado a estudar a função da capa do disco no sucesso destes produtos. Chegou-se já a concluir, por exemplo, que o álbum Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd, deve uma boa parte de seu sucesso à capa com o prisma e as cores do arco-íris. A capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, é mais conhecida do que qualquer música registrada naquele álbum e, logo, cumpre função importantíssima na perpetuação deste álbum como peça reconhecida e fundamental dentro da cultura pop. Com a capa do álbum sendo assim tão importante, não parece desperdício que Roberto Carlos tenha colocado em circulação capas tão iguais e monótonas que sequer ajudam a diferenciar um disco do outro?

A resposta é: não necessariamente.

Como mostram os pesquisadores da cultura pop, a função primordial da capa do álbum é ilustrar o conteúdo do disco, seja de forma direta ou indireta. Em uma primeira análise, portanto, a capa diz muito sobre o álbum. Em uma segunda análise, uma reunião de todas as capas já lançadas por um artista diz muito não só sobre cada álbum em si, mas também sobre o próprio artista e sua trajetória de maneira mais ampla. Neste sentido, a repetição de capas diz muito sobre o artista Roberto Carlos e a sua relação com os fãs. Acreditem: a repetição, no caso de Roberto, também cumpre função importantíssima na construção do mito sobre este artista.

Sem ir muito longe, podemos imaginar que a repetição dos modelos de capa funciona como um aviso aos fãs de que o novo disco de Roberto Carlos traz o velho Roberto que todos conhecem. Ou seja: quando o disco novo vem a público com a capa quase igual à do disco anterior, o artista está comunicando aos fãs que o disco novo pode ser consumido sem desconfiança e que o fã não precisa se preocupar com o que vai encontrar quando for ouvir, pois não terá ali grandes surpresas. A manutenção das canções românticas, das letras reflexivas e ainda assim verbalmente simples… tudo estará igual como era antes. Tal manutenção talvez ajude a explicar a fidelidade do público do Rei desde o início dos anos 70.

A repetição do modelo de capa, com Roberto aparecendo sempre com a mesma cara e o mesmo cabelo ao longo de quatro décadas, ajuda também a emprestar atemporalidade aos discos. Nenhum disco dele tem uma “capa com cara de antiga”, porque a capa de 40 anos atrás é igual à do último disco lançado pelo cantor. Essa intenção de Roberto, de fazer com que o seu repertório seja atemporal, está expressa também em seus shows, onde músicas de diferentes décadas aparecem lado a lado niveladas por arranjos semelhantes que fazem com que o ouvinte nem note que pulou da década de 70 para a década de 90 em dois minutos. Quantos outros artistas conseguem fazer isso?

Por falar em shows, o roteiro das capas de Roberto Carlos só tem mudado um pouco quando os registros são realizados ao vivo. Nestes trabalhos, a pose solitária do cantor ganha a companhia de um pedestal e só sofre a interferência de uma segunda pessoa em cena quando esta pessoa assina a autoria do trabalho junto com o Rei: caso do tributo a Tom Jobim dividido com Caetano Veloso (e note que mesmo nesta capa o pedestal aparece no cantinho).



Em seu Acústico MTV, o cantor também dá espaço na capa para um violão, que simboliza ali o projeto em parceria com a emissora norte-americana, em raro momento recente em que a capa de um álbum seu conversa diretamente com o conteúdo. O disco, no entanto, é uma peça à parte na obra de Roberto Carlos, tanto pelo formato estético quanto pela iniciativa comercial de se aliar a uma emissora de TV que não seja a Globo. É um disco fora do padrão por tudo isso e a capa ilustra tal especificidade.

Mas nem sempre Roberto Carlos foi assim…

quarta-feira, 19 de abril de 2017

DA INFÂNCIA À JOVEM GUARDA, ROBERTO CARLOS COMEÇA A VIRAR FILME


Sem previsão de estreia, longa-metragem será dirigido por Breno Silveira, com ajuda de Nelson Motta, que já iniciou as entrevistas com o rei 



O filme sobre Roberto Carlos começou a ser produzido. Aos 75 anos, o artista faz encontros em sua casa com o diretor Breno Silveira e equipe para contar passagens de sua vida que poucos conhecem. O longa, ainda sem previsão de estreia, vai começar nos anos de infância de Roberto e seguir até a saída do artista do programa Jovem Guarda, em 1968, quando segue para o Festival de San Remo, na Itália, e volta pronto para estrear sua carreira mais alinhada com a soul music e as canções românticas.

Breno conta com a ajuda de Nelson Motta para criar o roteiro. Um recurso a ser usado será a voz do próprio Roberto cantando a capela para narrar alguns episódios. "A sensação nesses encontros que estamos é de que ele vai abrir o coração mesmo", diz Breno Silveira.

Ele não confirma a informação de que Roberto irá incluir ou deixar de fora temas delicados que estiveram na biografia de Paulo Cesar de Araújo, proibida de circular há 10 anos. O acidente do trem na infância, que o fez perder parte da perna direita, é um dos mais sensíveis.

Se a história deve ser contada, que seja por seu protagonista. Afinal, é ele, e mais ninguém, o dono das próprias lembranças. Não exatamente com essas palavras, mas com esse mesmo teor, Roberto Carlos defendeu sua postura contrária às biografias não autorizadas em 2014. Criou assim um fuzuê generalizado, iniciado mais precisamente há dez anos, quando o artista entrou na Justiça para tirar de circulação o livro Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo Cesar de Araújo, e finalizado em 2015, no tribunal mais alto do País, o STF. A decisão favorável às publicações sem autorização abriu a porteira para as editoras, empolgou biógrafos, mas nunca mudou as ideias de Roberto Carlos.


Canções para mim

Se a história deve ser contada, uma delas será por seu protagonista. Roberto está em processo de revisionismo da própria vida, abrindo gavetas da memória, algumas mais pesadas, e narrando episódios até então desconhecidos para o cineasta Breno Silveira e o jornalista e produtor Nelson Motta. É o início do que deve se tornar uma produção cinematográfica das mais aguardadas do cinema nacional dos últimos tempos. A vida de Roberto, que já prometeu escrever também uma biografia, será contada por ele mesmo em um filme dirigido pelo homem que quebrou recordes de bilheteria com Dois Filhos de Francisco, de 2005, e que desenvolveu a trama de À Beira do Caminho, de 2012, a partir das canções de Roberto.

A linha de produção está na primeira etapa. Depois de decidirem o roteiro, com as passagens de Roberto devidamente colhidas, os produtores começam a garimpar os atores. Silveira, até agora, sentou-se por três vezes com Roberto. "Foram três encontros bem longos até agora." Uma primeira informação divulgada pela imprensa, não confirmada pela direção, de que o cantor estaria falando sobre o acidente de trem na infância, que sacrificou parte de sua perna direita, teve uma péssima repercussão entre o artista e os produtores. Agora, todos tomam muito cuidado quando se pronunciam. E muitos, apenas sob anonimato. "Vai ser sobre a juventude de Roberto", diz um deles.

O recorte adotado pelo cineasta será da infância de Roberto, na cidade capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, até o final da Jovem Guarda. Há muita vida depois do fim das jovens tardes de domingo, com a fase soul dos anos 1970, a romântica dos 80 e a religiosa dos 90, mas nada será aproveitado. As fases deixadas de fora suscitam a hipótese de que haja uma ou duas continuações, mas nada é confirmado.

O tom do filme não será de uma cinebiografia convencional. Algumas cenas terão como narrativa a voz de Roberto cantando a capela canções que explicam por si só sua vida, uma prova de que sua biografia está escrita há anos pelas suas próprias canções. Gente ligada à equipe de produção conta que o recurso da narração feita pelo próprio artista está sendo pensado para arrepiar o espectador.

As memórias de Roberto estão indo a recantos da alma que seu público não conhece. "Ele contou coisas incríveis, passagens que nem imaginávamos que havia vivido", confirma Breno Silveira.




Outros jovem-guardistas

Seu amigo, Erasmo Carlos, deve ter a vida contada nas telas mais cedo. Em fase final de produção, Minha Fama de Mau (baseado em seu livro de memórias) tem previsão de estreia para o segundo semestre. A direção é de Lui Faria e o ator Chay Suede é quem faz o papel de Tremendão. Wanderléa, a terceira integrante no time de apresentadores do programa Jovem Guarda, também terá sua vida passada a limpo por ela mesma e pelo jornalista Renato Vieira em um livro biográfico que está sendo finalizado. Do mesmo período, Eduardo Araújo lançou recentemente sua autobiografia, Pelos Caminhos do Rock, e Jerry Adriani prepara um livro de memórias para este ano, quando comemora 70 anos de idade.

terça-feira, 17 de maio de 2016

'ESSE CARA SOU EU' É A MÚSICA MAIS TOCADA DE ROBERTO CARLOS NOS ÚLTIMOS CINCO ANOS



Às vésperas do aniversário de Roberto Carlos, que comemora seus 75 anos nesta terça-feira (19), o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) divulgou o ranking inédito das músicas mais tocadas e mais gravadas do Rei ao longo dos quase 60 anos de carreira.Um dos artistas brasileiros de maior êxito, Roberto vendeu mais de 120 milhões de discos, de acordo com a Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD). Ele é autor de 588 obras e interpretou mais de 800 canções de outros compositores.

Segundo o Ecad, as canções do Rei mais executadas em shows e casas de festas (ao vivo) são: Esse cara sou eu,Como é grande o meu amor por você, É preciso saberviver, Além do horizonte e Detalhes. Já entre as obras deautoria dele mais gravadas por outros artistas estão as faixas Emoções, Como é grande meu amor por você,Detalhes, Jesus Cristo e Sentado à beira do caminho.

Um sucesso à parte na carreira de Roberto, a canção Esse cara sou eu, foi repercutida nacionalmente como tema do casal Théo (Rodrigo Lombardi) e Morena (Nanda Costa), na novela Salve Jorge (2013). A faixa conquistou o terceiro lugar da lista de músicas mais tocadas do ano de 2013 e rendeu ao artista a primeira posição no ranking anual de autores com maior rendimento em rádio daquele ano. Também ganhou a versão em espanhol Ese tipo soy yo e foi indicada ao Grammy Latino nas categorias Melhor Canção Brasileira e Canção do Ano. No YouTube, o clipe acumula mais de 7 milhões de visualizações e centenas de versões e paródias contestando a letra.

Ouça:




Músicas de Roberto Carlos mais executadas nos últimos cinco anos:

Esse cara sou eu
Como é grande o meu amor por você
É preciso saber viver
Além do horizonte
Detalhes
Emoções
Sentado à beira do caminho
Gatinha manhosa
Eu te amo, te amo, te amo
Do fundo do meu coração


Músicas de Roberto Carlos mais regravadas por outros artistas:

Emoções
Como é grande o meu amor por você
Detalhes
Jesus Cristo
Sentado à beira do caminho
Se você pensa
Nossa Senhora
Proposta
Olha
Quero que vá tudo pro inferno 



Fonte: Diário de Pernambuco

domingo, 20 de dezembro de 2015

O REI CONTRA A REALIDADE

Por Francisco Bosco



Roberto Carlos foi protagonista do que se pode chamar, sem exagero, de a invenção da juventude no Brasil. Até os anos 1960, crianças e adolescentes eram tratados como adultos em miniatura. Não havia uma cultura que decifrasse sua experiência. O próprio Roberto iniciaria sua carreira de cantor, ainda de calças curtas, cantando boleros. Na esteira do rock e do cinema estadunidenses, a Jovem Guarda deu à juventude seu espelho. Nos anos 1970, junto ao parceiro Erasmo Carlos, Roberto construiu um repertório de alta qualidade, que permanece como um standard das canções de amor brasileiras. Tornou-se “o mais moderno 
dos cantores românticos latinos”, como disse Chico Buarque. A partir de meados dos anos 1980, contudo, sua obra entrou em um declínio que perdura até hoje. A decadência artística do Rei desde então já foi apontada muitas vezes — mas o que está em jogo nessa decadência? O que havia em sua criação que em certo momento deixa de existir?

O que faz de um artista um artista é a sua coragem, sua entrega para conhecer a realidade em toda a sua complexidade e profundidade. Há outros entendimentos do que seja um artista, mas é esta noção que proponho aqui, por ser ela a que ilumina a trajetória de Roberto Carlos. 

Uma frase de Almodóvar nos ajuda a esclarecê-la. O cineasta espanhol mudou-se para Madri aos 16 anos, sozinho e sem dinheiro, a fim de estudar cinema. Muitos anos depois, ele diria dessa experiência: “Eu me acostumei à realidade (eu a assumi, como se assume a doença de alguém que se ama).”

O artista é aquele que assume a realidade, assume-a com sua imperfeição constitutiva, com seus impasses insolúveis, com toda sua dimensão dolorosa, trágica, fatal como uma doença. Artista é aquele que se entrega à realidade, que se dispõe a percorrer a geografia subjetiva que ela descortina. O resultado dessa experiência, quando traduzida para uma linguagem, é sempre um alargamento do campo da realidade. O mundo fica maior, mais surpreendente, mais admirável — e mais angustiante também.

Roberto Carlos foi um grande artista até certo momento. Na Jovem Guarda, levou para a canção popular experiências da realidade que não eram tematizadas. Embora hoje soem ingênuas, aquelas canções ampliaram a experiência de seu tempo, tratando de temas como apaixonar-se pela namoradinha de um amigo, andar de carro em alta velocidade, recusar-se ao casamento, usar cabelos compridos etc. A Jovem Guarda tinha uma radicalidade limitada, é verdade. Uma frase de Jorge Mautner sobre Roberto define com precisão os limites de seu gesto: “[...] rebelde e submisso, puritano e sexy [...] eis o grande rei, situado exatamente na fronteira do permitido e do não permitido”. Mas, apesar dessa ambivalência, houve ali um alargamento da realidade, um desrecalque de alguns de seus aspectos.

Isso não se reduz ao plano comportamental. As canções de Roberto dos anos 1960 eram inovadoras na temática das letras e também na sonoridade. Havia experimentação timbrística, busca por um som novo e moderno. Na passagem dos 1960 para os 1970, e ao longo desta década, a intensidade artística só fez crescer. Os arranjos orquestrais são impactantes. As melodias, inspiradas e eficazes. As letras continuavam a não temer a realidade, tematizando desde seus aspectos mais delicados, como a rotina esvaziadora do casamento, aos mais provocativos, explicitando a sexualidade em Cavalgada, Proposta e Os seus botões.

Esse destemor da realidade revela-se plenamente em canções como Traumas e O divã. Em ambas ele alude ao acontecimento do acidente que lhe causou a amputação da perna. “Relembro bem a festa, o apito/ e na multidão um grito/ o sangue no linho branco.” O trauma, para a psicanálise, é uma espécie de limite da realidade. Traumático é o acontecimento que o sujeito não é capaz de simbolizar. O fato de Roberto Carlos ter tido a coragem de retornar a esse limite da realidade, às fronteiras do insuportável, trazendo desse lugar estrangeiro sua forma poética, cancional, isso resume a exigência fundamental ao artista. Foi precisamente isso que se perdeu. 

E por que se perdeu? A decadência artística de Roberto começa na mesma época em que se intensificam sua experiência religiosa e os sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, ambos a partir dos anos 1980. Com efeito, há um estreitamento da realidade na perspectiva religiosa dogmática, assim como no TOC. 

O idealismo religioso, seguido radicalmente, conduz a um recalque dos aspectos incômodos, porém constitutivos, da realidade. O TOC, por sua vez, é a metáfora perfeita (e a causa efetiva) do estreitamento da realidade. Seus sintomas mais característicos incluem evitações e repetições, transformando a realidade num campo minado, temível, repleto de interdições. Roberto Carlos, então, descobre-se impedido, por essa força estranha no seu psiquismo, de falar e cantar certas palavras. é assim que uma das canções mais importantes de sua carreira, Quero que vá tudo pro inferno, desaparece de seu repertório. Letras são modificadas, com resultados bizarros, porque determinadas palavras não podem ser cantadas. Na canção “ Épreciso saber viver”, o verso “se o bem e o mal existem” chegou a ser substituído por “se o bem e o bem existem”. Não se trata de uma mera troca de palavras: é toda a dimensão negativa da experiência humana que é recalcada.

O estreitamento da realidade tem como consequência necessária o estreitamento da arte. O que havia em Roberto Carlos, e que o fez merecer o título de Rei da juventude, e depois simplesmente Rei, na medida em que suas canções traduziram a experiência humana madura nos anos 1970, o que havia, e se perdeu, era a aceitação da realidade. Não se pode ser artista recusando-se a olhar para ela.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

VOCÊ SABE QUEM FOI HELENA DOS SANTOS?

2015 completa-se uma década sem 


Por Alberto Robson Gonçalves



Quando encontrei aquela revista, me surpreendi, logo na capa, uma frase que dizia “letras dos dois últimos LPs”, logo, vi que se tratava de uma raridade, a foto de um cabeludo que, só tinha a certeza de que se tratava do rei Roberto Carlos porque, só não o reconhece quem ainda não nasceu, pois, sua imagem é uma das mais divulgada no mundo da música, e também, porque estava escrito o seu nome em letras garrafais. Em seu interior, fotos surpreendentes, do rei e do tremendão, aparentando seus vinte e poucos anos, bem jovens mesmo. Mas, tinha mais, Dorival Cayme com sua cabeleira já bastante grisalha e Jorge Amado, com poucos fios negros em seu famoso bigode branco, como se fizessem parceria, os dois se encontravam na mesma foto, também, tinha uma foto do jovem compositor de Cachoeira do Itapemirim, Edson Ribeiro com seu tímido sorriso e uma cabeleira que fez lembrar-me da era brecocô, cocota, Jovenguarda, coisas daquela época. Mas na verdade a foto que mais me surpreendeu, que também continha lá, foi a da jovem compositora Helena, que pela forma que foi publicada naquela revista “Roberto Carlos por Fred Jorge HOJE”, parecia que não havia tanta consideração a sua pessoa, que esgotou seu estoque de fotografias, que era desmazelada que não se preocupava com um possível legado, que os direitos autorais eram tão pouco que não dava para fazer um álbum, que era tão humilde que não se preocupava com o que mostrar, não sei, mas, sua foto além de parecer que foi reaproveitada de uma carteira profissional, ainda veio sorteada com um fio de cabelo impresso, compreendo, naquele tempo ainda não havia Photo shop, mas as dos outros foram verdadeiros closes.




Naquela época já descrevia o autor Fred Jorge, “pouca gente sabe quem é Helena dos Santos Oliveira”, hoje, quarenta anos depois muito menos. Segundo o que relata a reportagem, Helena nasceu em Minas Gerais, na cidade de Conselheiro Lafaiete, no dia 7 de Janeiro, foi uma mulher do povo, humilde, humana, que sofreu muito, mas soube transformar seu drama em canções românticas. Seus pais, Francisco dos Santos e Maria Amélia dos Santos, jamais poderiam imaginar que, Helena um dia viria a ser famosa. Muito cedo, perdeu a mãe, passando a viver com a madrasta até aos onze anos de idade, vindo para o Rio de Janeiro em companhia de uma irmã que era casada. Logo começou a trabalhar em uma fábrica de tecidos e depois em confecções de roupas para homens na rua Frei Caneca, trabalhava muito, para sobreviver com o pouco que ganhava, até sofrer um acidente e ficar dois anos desempregada, passando por grandes dificuldades financeiras. Depois de se recuperada do acidente voltou a trabalhar, dessa vez como doméstica. Aos dezessete anos conheceu um jovem de Cabo Frio, Lauro de Oliveira, com quem namorou, se casando mais tarde, tiveram quatro filhos, doze anos depois seu marido faleceu. Novamente só, com quatro filhos para criar e com a saúde fragilizada, não desistiu, começou a fazer pequenos trabalhos de costura, passando horas na máquina para entregar suas encomendas, muitas vezes, até de madrugada.

Um belo dia, sem saber como, Helena decidiu a fazer música, simplesmente lhe veio uma inspiração e ela se sentiu capaz de compor, imaginava que, talvez com isso desse para ela acabar de criar e educar os filhos sem as duras penas que a tempo vinha sofrendo.

Helena começou a compor bolero, sambas, marchas e valsas, mas era algo que ninguém queria ouvir. Embora, insistentemente, procurasse os cantores daquela época para cantar suas músicas, ninguém lhe dava atenção, mesmo assim não desistia. Ainda animada, continuava a compor, certa de que um dia seria ouvida por alguém.

Um dia ela assistiu a um programa chamado “HOJE É DIA DE ROCK”, sentiu-se influenciada por aquele ritmo, era como algo diferente, dinâmico e gracioso, tendo a inspirado a compor uma música, que aos amigos pareceu algo maluco. Ainda animada com a nova tendência, sem dar confiança às críticas, voltou a procurar os cantores famosos, mas eles não davam muita atenção para compositores jovens, pois, eram quase todos maduros.

Ainda insistente em seu sonho, helena procurou a Rádio Nacional, onde encontrou-se com uma cantora, a quem mostrou-lhe a música, a qual disse “a música é boa, embora não seja meu gênero, senão eu gravaria, mas vou lhe dar um conselho procure o Roberto Carlos, é um menino que está começando agora e vai indo muito bem, esse é o gênero que ele gosta, é bem capaz que ele se interesse!”. Ao ouvir esse conselho Helena não esperou mais, foi ao encontro do rei. Ficou surpresa ao ver que realmente se tratava de um menino como a cantora havia descrito, porque naquele tempo os cantores eram praticamente todos maduros (coroas), Roberto era apenas um jovem iniciante de carreira, mas que já era bastante aceito como cantor e ia muito bem.


Roberto, atenciosamente ouviu Helena que apresentou-lhe as composições, dizendo em seguida que havia gostado muito das músicas prometendo-lhe que iria gravá-las. Disse mais, “não estou fazendo nenhum favor a você, a música é boa e merece ser gravada!”



Chegou sua vez, aquela foi a primeira vez que uma música de Helena fora gravada por ninguém menos do que aquele que até hoje está no coração do povo como o maior astro da música popular brasileira, o rei Roberto Carlos. Daquele dia em diante, não nasceu para Helena, apenas o sucesso, mas uma grande amizade entre ela e Roberto. A partir daí, ela passou a ser prestigiada até mesmo pela família de Roberto, e os sucessos não pararam mais, algumas de suas composições são: “NA LUA NÃO HÁ”, “COMO É BOM SABER”, “MEU GRANDE BEM”, “SORRINDO PARA MIM”, “NEM MESMO VOCÊ”, “DO OUTRO LADO DA CIDADE”, “ESPERANDO VOCÊ”, “O ASTRONAUTA” e “AGORA EU SEI”.

Mais tarde, Helena veio a fazer parceria com Edson Ribeiro, idéia de Roberto Carlos, que parece, gostava muito dos dois, e percebendo que eles se combinavam e que havia uma grande concordância de idéias entre ambos, os influenciou a compor juntos,“O ASTRONAUTA” e “AGORA EU SEI”, grandes sucessos, são frutos dessa parceria.

Helena não parou por aí, continuou compondo, mas tinha também outros planos, o de escrever livros, já havia escrito três obras enquanto planejava outro, intitulado “O REI E EU”, é nesse que ela irá contar a sua história de encontro com o rei Roberto Carlos.

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