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sábado, 5 de agosto de 2017

ZABÉ DA LOCA (1924/2017)

Por José Teles



A pernambucana, de Buíque, Isabel Marques da Silva, a pifeira Zabé da Loca, falecida hoje, aos 93 anos (estava com Alzheimer), em Monteiro (PB), onde viveu a maior parte da vida, foi o santo de casa que demorou para fazer milagre, mas fez. Era bastante prestigiada na Paraíba. No ano passado, em Monteiro, foi inaugurado um memorial para a pifeira, extensivo à arte popular da região do Cariri paraibano, o Complexo Turístico Zabé da Loca.

Descoberta em 1995, ele passou a viajar país afora, a gravar discos, frequentar festivais importantes, dar entrevistas a TV. Ganhou, em 2009, aos 85 anos, o Prêmio da Música Brasileira, na categoria Revelação. A última vez que a encontrei foi no Marco Zero, na Feira de Música Brasil. Conversamos um pouco, no backstage, ela pitava um cigarrinho de palha. No meio da conversa, serviram-lhe uma cachacinha, que ninguém é de ferro. Me fitou com uns olhos bem pequenos e azuis, e perguntou se eu queria uma lapada. Agradeci, disse-lhe que não podia, estava trabalhando. E ela: “eu também tô”.

Das entrevistas que fiz com Zabé da Loca, só encontrei uma, que reproduzo abaixo ( publicada no Jornal do Commercio, em 2008). Ela estava lançando, o segundo disco, Bom Todo, pela Crioula Records.

Entrevista

“A senhora já havia ido ao Rio de Janeiro antes?” A pergunta é feita, por telefone, à pifeira dona Zabé da Loca. Ela afirma que não. A pergunta seguinte é sobre o que ela achou da cidade: “Boa toda!”.

Aos 84 anos, Zabé da Loca está lançando o segundo disco, em 73 de carreira (começou a tocar aos sete anos), cujo título vem de sua expressão preferida: Bom todo (Crioula Records, distribuído pela Rob Digital). São 16 temas, a maioria composta por ela, o restante de autores como Severino Biano (da Banda de Pífanos de Caruaru, desde a década de 70 em São Paulo), um clássico de Zé Marcolino e Luiz Gonzaga, Sala de reboco, e até o Hino Nacional Brasileiro (Joaquim Osório Duque Estrada e Francisco Manuel da Silva).

O disco foi feito parte no sítio em que ela mora, em Santa Catarina, distrito de Monteiro (PB). Parte foi gravada no Recife, no estúdio Fábrica. Para o Rio, ela foi registrar cenas para um documentário, dirigido por Sérgio Abragia, para a Lume Arte e Marketing Cultural. A produtora Lu Araújo diz que o documentário está em fase de finalização. “Não sabemos ainda quando será concluído, porque dependemos de captação. Comecei este trabalho com Zabé da Loca com recursos próprios, depois fizemos uma captação junto à Petrobras, mas a grana acabou. Estamos procurando patrocínio para finalizar, mas acho que o documentário deva ter uns 45 minutos de duração”, esclarece a produtora.

Dona Zabé da Loca é um destes fenômenos isolados, que surgem de tempos em tempos. Ela foi descoberta em 1994, pela Coordenação de Ação Cultural da Secretaria de Reordenamento Agrário, que vem mapeando as manifestações culturais do semiárido nordestino, com assessoria da Fundação Quinteto Violado. O disco de estreia foi lançado em 1995. Recebeu críticas entusiasmadas, teve faixas saídas na coletânea japonesa Nordeste Atômico.

Porém, o que mais despertou curiosidade na pifeira não foi sua inegável habilidade no instrumento, mas por morar com os filhos, durante 25 anos, na Serra do Tungão numa caverna. Nasceu nos arredores de Buíque ( no agreste de PE), e veio com 16 anos para a Paraíba. O apelido lhe foi dado pela sua peculiar habitação, caverna é chamada de “loca” no Sertão.

“Onde cair o disco vai cair uma flor, porque esta linguagem é universal”, preconiza Carlos Malta, virtuoso tocador de pífano, que foi levado a aprender o instrumento depois de ouvir a gravação de Pipoca moderna com a Banda de Pífanos de Caruaru, em 1972, no disco Expresso 2222. Anos mais tarde, ele formaria o festejado grupo Pife Muderno.

Carlos Malta é o diretor musical de Bom todo e se revela um fã de dona Zabé da Loca. “Ela é incrível, do alto dos meus 48 anos, eu admiro uma tocadora que aos 80 anos continua na maior vivacidade. Claro que a idade pesa, mas imagino o que não deveria tocar quando estava na flor da idade”, comenta Malta. Lembrando a vivacidade de dona Zabé da Loca, ele diz que chegou a ensaiar umas paqueras com ele: “Nos tornamos parceiros, e até compus um xote para Zabé”, conta. Perguntada sobre o que achou do músico carioca, dona Zabé da Loca não se finge de tímida: “Ele é bonito todo!”.

O disco tem as participações especiais do próprio Carlos Malta, de Escurinho (nascido em Serra Talhada, mas radicado em João Pessoa), e Maciel Salú: “No começo Zabé da Loca estranhou a rabeca, disse que não dava certo pífano com rabeca, mas terminou concordando”, conta o diretor musical. A pifeira confirma: “Estranhei, mas achei que a rabeca ficou boa toda!”. Os demais músicos de Bom todo são os filhos e o neto de dona Zabé da Loca, River Douglas (zabumba), Pito (prato) e Júnior (caixa). Durante as gravações faleceu o pifeiro e compositor Beiçola, seu filho adotivo.

Confirma áudio de Zabé da Loca, com depoimento e o tema Fulô do Mamoeiro:


ZABÉ DA LOCA MORRE AOS 93 ANOS, EM MONTEIRO

Zabé tinha alzheimer e morreu na manhã deste sábado (5) em casa. Velórios e enterro acontecem em Monteiro.

Por G1 PB


Pifeira Zabé da Loca morreu aos 93 anos, em Monteiro 


A artista Zabé da Loca morreu na manhã deste sábado (5), na Comunidade Santa Catarina, na zona rural de Monteiro, no Cariri da Paraíba. As primeira informações repassadas pela família são de que Zabé estava com 93 anos de idade e morreu em casa de morte natural. Nos últimos anos, Zabé lutava contra a doença de alzheimer.

Ainda segundo a família, o corpo da pifeira será velado em casa durante toda a manhã deste sábado. Já à tarde, o velório acontecerá no Memorial Zabé da Loca, no Sítio Tungão, Fazenda Santa Catarina, a partir das 13h.

Haverá velório também no domingo (6) no Centro Cultural de Monteiro, às 7h. O sepultamento será às 10h, no cemitério municipal de Monteiro.

A Prefeitura de Monteiro decretou luto oficial de três dias, deste sábado até a segunda-feira (7), de acordo com a assessoria de comunicação.

Isabel Marques da Silva, a Zabé da Loca, ficou bastante conhecida por morar durante 25 anos dentro de uma pequena gruta (loca), na Comunicade Santa Catarina, na zona rural de Monteiro. Inclusive, o apelido surgiu por esse motivo.

E foi por esse motivo que ela teve que deixar a gruta e ir morar na casa de uma das filhas. Em 2003, aos 79 anos, gravou o seu primeiro CD, Canto do Semi-Árido, com composições próprias e versões de Luiz Gonzaga e Humberto Texeira.

Nascida em Buíque, Pernambuco, ainda adolescente Zabé foi para o município de Monteiro, no Cariri da Paraíba, e depois de mais de duas décadas morando na gruta ganhou uma casa em um assentamento do do Incra no processo de reforma agrária.

Além do pífano, a vida passada na antiga loca define a figura de Zabé. O apelido acabou por virar seu nome artístico. Ela ainda morava na gruta quando foi descoberta, aos 79 anos, pelo pessoal do projeto Dom Helder Câmara, do Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Saída da loca, Zabé foi ganhando reconhecimento. Aos 85 anos, recebeu o prêmio Revelação da Música Popular Brasileira em 2009. Ela colecionou diplomas importantes e muitas viagens de trabalho.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

ZABÉ DA LOCA, 90 ANOS

Aos 90 anos, Zabé continua em plena atividade apresentando-se em diversos lugares no Brasil, em homenagem aos seus noventa anos transcrevemos a reportagem exibida em 2011 no programa Globo Rural





Em 2011, o Globo Rural apresentou uma das personagens incríveis que o Brasil produz: uma mulher da Paraíba que toca pífano, a flauta típica do Nordeste. Ela é conhecida como Zabé da Loca. Loca é uma gruta pequena. Essa reportagem explica porque a dona Isabel, ou Zabé, é da loca.

Na dureza das pedras crescem cactos. Na aridez do cenário, surgem personagens que só o sertão parece fazer brotar. É assim na região do Cariri Paraibano, no município de Monteiro. Na zona rural, há uma moradora ilustre conhecida como Zabé da Loca.

A idade não tirou seu senso de humor da dona Zabé. Ela, na época com 86 anos, passava boa parte dos dias na varanda de casa azul, observando o movimento, que não é muito, e lembrando a sua história, que não é pouca. “Eu já trabalhei muito. Trabalhei tanto que fiquei velha no tempo. Pai gritava. Nós éramos quatro. Era um em casa mais a mãe e os outros no roçado mais ele. Me criei trabalhando, minha filha”, contou Isabel Marques da Silva.

Zabé é nascida em Buíque, Pernambuco. Ainda adolescente foi para o município de Monteiro, na Paraíba, e há sete anos vive no assentamento Santa Catarina, em uma casa que ganhou do Incra no processo de reforma agrária. “Eu gosto da minha serra. Eu não vou porque a subida pra mim é ruim demais”.

Ela prefere mostrar o lugar da antiga casa sem sair da atual e aponta para um grupo de pedras. Uma delas costumava ser sua morada. É daí que vem o apelido “Zabé da Loca”. Loca quer dizer gruta, caverna. “Eu morei 25 anos debaixo dela. Era eu e os filhos. Tinha um marido, mas o marido morreu. Daí ficou eu e os dois filhos. Fui feliz, graças a Deus”.

A dona Zabé tem bronquite crônica. A audição também é bem prejudicada. “Eu fumo, mas é pouquinho”, disse.

Fôlego e ouvido são essenciais para o pífano, a arte que deu fama a ela. Zabé é conhecida como a rainha do pífano. Ela aprendeu a tocar o instrumento com o irmão aos 10 anos. “To com vontade de parar com isso porque isso acaba com o fôlego, acaba com os pulmões. O cigarro eu fumo só um pouquinho”, acredita.

Além do pífano, a vida passada na antiga loca define a figura de Zabé. O apelido acabou por virar seu nome artístico.

A equipe de reportagem tentou convencê-la a visitar a loca mais uma vez. “Sei lá, minha filha. Se for muito cedinho”, propôs dona Zabé.

No dia seguinte, bem cedinho, o grupo voltou à casa de dona Zabé. Ela já estava acordada, tomando um cafezinho. “Eu acho que não vou, não. Sei não. Eu vou resolver”, disse.

A dona Zabé teve três filhos. Uma filha foi criada por outra família, um filho é doente e o outro morreu. Quem cuida dela é Josivane Caiano.

A senhora trocou de roupa e concordou em acompanhar a reportagem. Para chegar até a antiga casa de dona Zabé foi preciso subir cerca de 200 metros. O caminho foi feito bem devagarzinho e trouxe muitas lembranças.

Josivane ajudou na subida e na conversa. “Naquele tempo eu tinha mais força”, relembrou.

O pequeno espaço formado por uma pedra inclinada e outra que serve de apoio foi bem aproveitado com a construção de duas paredes de taipa, uma nos fundos e outra na frente, com porta e janela. A dona Zabé logo se emocionou. Nas lágrimas estão a saudade do dias que ela viveu dentro da gruta, quase um terço da vida.

A dona Zabé mostrou onde costumava cozinhar. “Era assim: riscava o fósforo e fazia o fogo. Botava as panelas no fogo, botava feijão, botava carne, se quisesse. Aí pronto. Era só comer, pronto. A gente fazia de comer, comia, aí quando dava meio dia eu corria pra cama, ficava lá e dormia”, recordou.

Na loca não havia medo e dona Zabé disse que foi feliz no lugar. Ela passou necessidade, mas nunca fome. Do lado de fora, ela se lembrou do trabalho na roça para sustentar os filhos. “Eu plantava milho, plantava feijão por isso tudo. É que eu não posso mais trabalhar agora, não, mas se eu pudesse trabalhar, eu estava era aqui. Aqui é meu. Aqui eu comprei, lá foi o Incra que deu”.

Não demorou para dona Zabé sentir falta de Josivane. “Essa moça aqui, quando eu morrer, com uns oito dias, um mês, eu venho aqui buscar ela”, brincou.

“Nem pense, nem pense. Eu não vou não”, avisou Josivane.

A ligação entre Josivane e dona Zabé é quase de mãe e filha. As duas estão juntas há muitos anos. “Desde pequena eu convivo com Zabé. Minha mãe ia pra cidade e a gente ficava com Zabé, eu e mais quatro irmãos. Hoje, a gente não tem mais como se afastar. Ela adoece quando eu saio de perto dela. Acho que sente mais segurança”, acredita a jovem.

Ao lado da Loca, Zabé ensaiou as notas do Hino Nacional. A música, ao som do pífano de dona Zabé e sua banda foi parar em CD. Zabé ainda morava na gruta quando foi descoberta, aos 79 anos, pelo pessoal do projeto Dom Helder Câmara, do Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Saída da loca, Zabé foi ganhando reconhecimento. Aos 85 anos, quem diria, recebeu o prêmio Revelação da Música Popular Brasileira em 2009. Ela coleciona diplomas importantes e muitas viagens de trabalho. As viagens e os shows pelo Brasil mudaram a vida de Zabé e de muita gente ao redor.

“A dificuldade quando a gente começou a viajar, sete anos atrás, era de chegar ao hotel e não saber preencher a fichinha. Eu ficava morrendo de vergonha, meu Deus do céu. Eu ficava empurrando para os outros fazerem. Aí me perguntavam ‘por que você não faz?’ e eu ficava com vergonha de dizer que não sabia ler. Quando eu comecei a preencher aquela fichinha eu disse ‘agora eu já sei, agora não tenho mais vergonha, não’. Antes de alguém pegar, eu já pegava. Falava ‘me dá a minha fichinha porque eu vou preencher a minha e as dos outros’”, revela Josivane.

Antônio Soares da Silva, conhecido como seu Pitó, tem história parecida. Ele também faz parte da banda. “Da primeira vez que fui pra Brasília com ela, fiquei na rodoviária atado, sem saber onde estava o sanitário, porque não sabia o nome do sanitário, onde era. Estava vendo, mas não sabia. Daí apareceu esse Brasil Alfabetizado, eu fui, comecei e hoje eu leio até o jornal”, conta.

Com a fama de Zabé, a já letrada Josivane fez um projeto e venceu o prêmio do Ministério da Cultura. Com a verba que recebeu, de R$ 10 mil, criou uma escola de músicos. Ele dá aula de percussão e mostra que tem muito jeito com a criançada.

A dona Zabé ensina o pífano a Daniele, de 11 anos. Ela deve aprender logo, assim como Ranielson. Neto de pifeiro, ele só foi aprender a tocar com o projeto de Zabé.

A banda dos meninos, formada há dois anos, já participa de festivais no estado da Paraíba. “Meu sonho é poder ampliar este projeto para outras áreas que não tenham Zabé como estímulo e que não tem músicos, mas que tenham pessoas ali que carreguem uma cultura, que tenham uma raiz forte na música, na cultura, na arte”, afirmou Josivane.

Cultivar a raiz cultural do nosso povo e fazer brotar desejos antes nem sonhados. Josivane que se tornar assistente social, o seu Pitó sonha em escrever suas próprias canções e os meninos da banda querem se tornar profissionais da música.

E o sonho de dona Zabé? “Meu sonho é trazer tudo de casa e vou me mudar para aqui”, revelou.

A Zabé quer voltar para a loca, mas ela também adora viajar. Ela disse que vai de carro, de avião ou do que aparecer.

Fonte: G1

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