sábado, 14 de outubro de 2017

A CANTIGA DE MORTE DE CHICO BUARQUE

Motivo de debates acalorados nos últimos dias, "Tua Cantiga", primeiro single do novo disco de Chico, não é simplesmente uma canção de amor



Por Guto Leite*



Ouvir uma canção inédita de Chico Buarque é lembrar do quanto pode ser complexa uma canção. Trata-se de objeto de arte, e aqui isso significa uma forma que recusa leituras rápidas ou imediatas. A percepção dessa diferença desperta uma desconfiança, um redobrar da atenção para as nuances da forma e a necessidade de mobilizar o que for possível de instrumental crítico para dar conta da riqueza de recursos do artista. Em outras palavras, ouvir Chico é ouvir um compositor que cria grandes canções há 50 anos, pelas quais passa boa parte da história da canção popular e do Brasil moderno.

Chico não é um aplicativo, não é um link, não é uma postagem, que se abre ao primeiro toque. Suas canções trabalham no sentido inverso da mercadoria, seja no tempo que requerem para ser consumidas, seja na relação que estabelecem com o ouvinte, decepcionando os desejos superficiais e falsos do consumidor. Em termos práticos, algo não resolvido nas canções de Chico não remete a uma insuficiência de recursos. Seu mais novo disco, Caravanas (já disponível nas plataformas digitais e nas lojas físicas) traz nove canções, sete delas inéditas, lançadas seis anos após o trabalho anterior. Deve-se presumir, por isso, que não se trata de sujeito ingênuo, e que essas canções foram escolhidas dentre dezenas. É desse lugar que parto para ouvir Chico Buarque, é desse lugar que parti para ouvir Tua Cantiga.

Logo na primeira audição, dois trechos me chamaram a atenção. Primeiro, a rara, pensando na obra de Chico, alteração de acento natural da palavra que acontece em "tua" de "quando 'tuá' garganta apertar", logo na "cara" da música. Segundo, a expressão cristalizada "estrada afora" em "E, estrada afora, te conduzir", que reconhecemos na versão popular da canção de Chapeuzinho Vermelho. Por tudo o que já foi dito, esses elementos não estão aí por acaso, e fui investigá-los. (Um aparte: a música de Cristóvão Bastos é extraordinária! Um lundu em compasso ternário, supersincopado, com uma linda modulação na melodia e uma harmonia que sublinha a rítmica peculiar da canção. O resultado é que gruda na cabeça, de cantarolar antes de decorar a letra.)

Comecei a abrir a porta pelo "estrada afora", que evoca a história formatada pelos irmãos Grimm. Passamos, então, a notar nas outras estrofes as referências ao Lobo Mau ("basta soprar meu nome"), à Bela Adormecida ("toda manhã/ eu te despertarei"), à Rainha Má ("serás rainhas/ serás cruel, talvez"), ao vigia de castelo ("se teu vigia se alvoroçar"), ao espelho mágico ("entre suspiros/ pode outro nome/ dos lábios te escapar/ terei ciúme/ até de mim/ no espelho a te abraçar") e, com alguma mediação, às Mil e Uma Noites ("se as tuas noites não têm mais fim") e aos corpos errantes ("se um desalmado te faz chorar", em que o "desalmado" precisa ser lido literalmente, como um morto-vivo). Essas lendas não aparecem em sua versão edificadora, moralista, mas suscitam uma ambiência macabra.

Com as alusões descobertas, fui buscar as referências nos trechos que me escapavam. O "tuá garganta", soando o francês toi ("tu", "você"), em posição invertida, recupera o Gargantua, de Rabelais, uma figura grotesca de glutão – a impessoalidade do verbo "apertar" nesse verso torna ambíguo se a garganta se aperta sozinha ou se alguém a aperta, o que sugere também o verbo francês tuer ("assassinar"). Em "Ou estas rimas não escrevi/ Nem ninguém nunca amou", a menção aos versos de Shakespeare, "If this be error and upon me proved/ I never writ, nor no men ever loved" (devo essa referência a Liziane Kugland), recuperando a figura do bardo e a figuração trágica do amor. A canção é uma ciranda de referências variadas pertencentes a um universo comum, antigo, anterior. Nessa leitura, a última estrofe se transforma na chave principal do todo, em que "o próprio compositor" confessa "E quando o nosso tempo passar/ E eu não estiver mais aqui/ Lembra-te, minha nega/ Desta cantiga/ Que eu fiz pra ti", presentificando o cantar da canção e colocando-se como um resquício do passado. (Passo ao largo dos muitos recursos poéticos mobilizados, mas gostaria de frisar as rimas aliterantes, "suspiro/ligeiro", "nome/perfume", "lenço/alcanço", "filhos/joelhos" etc., uma espécie de rima deceptiva, cuja presença marcante reforça o sentido geral da minha interpretação, a construção de um signo de descompasso.)

É pertinente perguntar quem as canções de Chico representam, visto que é impossível que mantenham a mesma representatividade entre 1966 e hoje – Chico já foi um herdeiro da Bossa Nova, um opositor da ditadura, um intérprete do Brasil, um sinônimo do que seja canção popular. O compositor está ciente da questão, e Tua Cantiga também se refere a esse entroncamento, como estou argumentando. Além disso, pensando a forma estética como uma permanência do contraditório humano, o envelhecimento e a anacronia cantados pelo compositor são uma extraordinária qualidade, na percepção do artista maior absolutamente lúcido sentindo e expressando a passagem do tempo; no conjunto de seus discos mais recentes, a entoação gradual de um passamento. Tua cantiga é muito mais valiosa do que se ele reduzisse essa perspectiva a uma posição fragmentada, alienada, e artificialmente atualizada e representativa, o que resultaria em gesto reificado.

Muito diferente disso, Chico insiste na canção de um amor que soa, a uma primeira audição, ultrapassado, desde a escolha do lundu como ritmo. É ridículo considerar que o cancionista seja inocente em relação a isso ou que não tenha recursos para fazer diferente. Ao revés, Chico caminha deliberadamente nessa floresta sombria que está representada na canção, afrontando o medo, o problema, o pesadelo vivo e complexo de um dos maiores artistas do país envelhecendo na nossa frente, deixando de estar na crista de seu tempo. Concomitantemente, como um velho malandro, dribla a audição consumista, dando-lhe migalhas rumo a um caminho simples, mas erroso, enquanto sobrepõe camadas de leitura que apontam para outras trilhas. As múltiplas referências às histórias infantis exageram propositadamente o passado enquanto entrelaçam horror e mística. Embora seja o mesmo eu cancional, seu caráter é monstruoso e aceita a leitura de que possa ser um a cada estrofe, uma voz particular, um narrador, para cada história. Há estrofes, inclusive, que um eu cancional feminino é mais provável, como a do espelho mágico.

A única referência ao gênero masculino na voz da canção é no verso "Mas teu amante sempre serei". Se pensarmos nesse esfacelamento, os polêmicos versos "Largo mulher e filho/ E de joelhos/ Vou te seguir", que representariam abandono pela figura paterna, podem também ter sido entoados por uma mulher ou pelo amor a uma espécie de santa, não um amor carnal. Se não pensarmos, ou seja, se entendermos que uma única voz entoa todas as estrofes, a canção não constrói a voz de um amante solar, de um conquistador, de um príncipe encantado, mas espalha, da letra à ambiência, sinais de sofrimento, a voz de um maldito, de um Quasímodo, de um Ahasverus. Os quandos e ses que abrem as estrofes expressam a não realização do amor, ao passo que a iluminação da melodia (sua modulação) evoca, com a letra, as fantasias possíveis, os fachos de luz, dentro desse bosque fechado.

Tua Cantiga é repleta de interrupções, de desencantos, traz as histórias infantis sem o velar dos finais felizes. Aceita e dá forma cancional ao substrato medieval dessas histórias, enquanto ironiza sobriamente a si mesmo. Chico, um medieval? Ele se pergunta, sarcasticamente. Estamos ouvindo a voz de um morto? Poderíamos nos perguntar. Tua Cantiga não é uma canção de amor, mas uma canção de morte. Nesse sentido, não poderia ser mais política.


P.S.: quando este texto já estava escrito, Chico divulgou a capa do álbum, em que aparece de costas, na sombra, do avesso, quase temos a sensação de que o compositor toca violão como canhoto (veja abaixo). Mais água para esse moinho. A foto de um drible.




*Poeta, compositor, professor de Literatura Brasileira da UFRGS


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