segunda-feira, 22 de maio de 2017

PAUTA MUSICAL: GERMANO MATHIAS, CATEDRÁTICO DO SAMBA

Por Laura Macedo




Alguns anos atrás compareci ao Theatro 4 de Setembro, em Teresina (PI), para mais uma edição do Projeto Pixinguinha, apresentando, entre outros artistas, Germano Mathias. O impacto foi grande, apesar dele não ser totalmente desconhecido para mim.

Abrem-se as cortinas. E lá vem ele, representante do melhor samba sincopado de São Paulo, com passo cadenciado, sapatos brancos, roupas muito coloridas e chapéu malandreado. Fez de tudo: cantou, marcando o ritmo com sua famosa lata de graxa niquelada, representou, contou "causos" e falou na gíria da malandragem descrevendo o "personagem", desde o pisante (sapato), luva de baixo (meia), mimosa (camisa), bumbeta (chapéu), gurviana (gravata), enfim, a beca (terno), que tem o quilo enforcado (bolso pequeno da calça), o porão (bolso lateral da calça), a calutra (bolso de trás) e a janela (bolso da camisa), sem falar dos adereços: curinga (carteira), babilaque (documentos), bobo (relógio) e luneta (óculos). Brincalhão ao extremo ironizou a própria voz: "A minha voz tem cinco 'f', ou seja, é fina, feia, fraca, fedegosa e fuleira". Fez a platéia inteira dobrar gargalhadas e foi aplaudido de pé por um bom tempo. Enfim um show inesquecível que me motivou a pesquisar mais sobre o artista e a ficar antenada em suas produções.

O cantor e compositor Germano Mathias nasceu dia 2 de junho de 1934, no bairro do Pari, em São Paulo. O pai era carioca e a mãe paulista, mas ambos de descendência portuguesa.

Desde cedo atentou para o som que os engraxates faziam, batendo em suas latinhas, enquanto engraxavam os sapatos da freguesia. Assimilou a técnica e tornou-se expert em tirar sons desses instrumentos improvisados, demostrando um estilo sincopado de interpretar utilizando a lata de graxa niquelada para marcar o ritmo, o que faz até hoje.

Em 1956 gravou seu primeiro disco, ainda em 78 rpm, incluindo o samba "Minha nega na janela", em parceria com Doca. No ano seguinte lança seu primeiro LP, "Germano Mathias, o sambista diferente", recebendo os prêmios Roquete Pinto e Guarani. Em 1958 gravou um dos seus maiores sucessos "Guarde a sandália dela", com Sereno, que mais tarde receberia versão de Jair Rodrigues e Elis Regina.

As influências na sua obra são oriundas de Ciro Monteiro, Jorge Veiga, Moreira da Silva, irmãs Linda e Dircinha Batista, Aracy de Almeida, sendo marcante a exercida por Caco Velho (Matheus Nunes), conhecido por "Sambista infernal", devido a sua interpretação cheia de bossa, improvisos e total domínio rítmico. Germano afirma até hoje que ele é sua principal influência e para homenageá-lo lançou, em 2005, o CD "Tributo a Caco Velho".

Em sua produtiva carreira no campo do samba sincopado gravou, também, compositores do Rio de Janeiro, como Nelson Cavaquinho ("A história de um valente"), Pandeirinho ("A situação do escurinho") e Zé Kéti ("Malvadeza durão"). Outras gravações que marcaram sua carreira foram "Antologia do samba-choro", com Gilberto Gil, em 1978, e "Histórias do samba Paulista" ao lado de Osvaldinho da Cuíca e outros.

Popularizou-se ao participar de trilhas sonoras de novelas, a exemplo de "Cambalacho", da TV Globo, onde cantou o samba "Jerônimo", de Eduardo Gudin e Carlos Melo. Em 2000, o lançamento do filme/documentário com a história de sua vida - "O Catedrático do Samba" - contribuiu para que a mídia o redescobrisse, ficando as portas da imprensa escrita, falada e televisiva bem mais abertas. Foi um ano de agenda cheia com shows, entrevistas (programas de Jô Soares e Boris Casoy, dentre outros) e muitas homenagens, entre elas um texto publicado pelo jornalista Luis Nassif, no Jornal Folha de São Paulo.

Em suma: a malandargem não se limitou ao Rio de Janeiro, mas aconteceu também na Terra da Garoa.Com muita qualidade, São Paulo também teve seu samba "malandreado". Gíria própria, batida diferenciada, mas com compositores e intérpretes que focalizaram, de modo especial, os dramas e comédias da cidade, como Adoniran Barbosa, Geraldo Filme, que passaram a integrar, juntamente com o próprio Germano Mathias, a Santíssima Trindade do Samba Paulistano.

DICAS


DVD Germano Mathias - Ginga no Asfalto - Brasil - 2007

Germano, que foi um dos maiores vendedores de discos na década de 50 e 60, canta seus sucessos acompanhado por: Quinteto em Branco e Preto, Raul de Souza, Bocato, Osvaldinho da Cuíca e outros.



Fontes de pesquisa: Almanaque do Samba, de André Diniz; Grandes Sambas da História (fascículos editados pela Ed. Globo); vários sites na internet.

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