Seu estilo regional dá especial destaque à viola caipira com seis pares de cordas, em vez dos cinco habituais
Por Eduardo Tristão Girão
Heraldo do Monte, de 81 anos, ouve choro desde criança, quando ainda morava no Bairro Mustardinha, no Recife, onde nasceu. Isso bem antes de trilhar o caminho que o levou a ser um dos guitarristas experientes do Brasil – ele integrou o lendário Quarteto Novo, tocou com Elis Regina e acompanhou Michel Legrand e o Zimbo Trio. O pernambucano sempre gostou de viola caipira, daí a ideia de reunir essas preferências num disco só, batizado com seu próprio nome.
“Jacob do Bandolim é o meu preferido tocando choro. Pixinguinha e todo mundo vêm depois. Além do suingue, ele tem um romantismo que me toca muito. Daí, imaginei um regional de choro, mas, em vez de o solista ser cavaquinho ou flauta, seria a viola. Comecei a compor as músicas para um projeto de shows, sem pensar em disco. Fomos tocando e, no meio disso, veio o convite da gravadora (Biscoito Fino). O regional já tava ensaiadão”, conta Heraldo.
A viola caipira, no caso, não é bem uma viola caipira. Em vez de cinco pares de cordas, ela tem seis – e é afinada como violão. “Sou um guitarrista que gosta de tocar viola. Estava conversando com o violeiro Ivan Vilela sobre a falta que sentia desse sexto par de cordas, e ele encomendou a um luthier uma viola desse jeito para me dar de presente. É um instrumento muito perseguido em termos de conservadorismo”, diz o músico.
Heraldo reuniu Edmilson Capelupi (violão de sete cordas), Cléber Almeida (percussão) e o filho, Luís do Monte (violão). Viajou de São Paulo para o Rio de Janeiro para gravar, o que não levou mais de dois dias. Das nove faixas que selecionou, sete são autorais: Pra Lurdes, Doçura, Torto, Moreneide, Choro de viola,Esperando a feijoada e Inteiriço. Paralelamente, providenciou os arranjos de Lamentos (Pixinguinha e Vinicius de Moares) e Doce de coco (Jacob do Bandolim).
“Doce de coco está entre as músicas tocadas com mais notas erradas. Aquela frase que toco devagarinho, na paradinha, nota por nota, dificilmente é executada certo. Fico chateado com quem não ouve Jacob e vai ouvir gravações de quem já mexeu e já errou. Fora isso, os músicos têm na imaginação o que gostariam que fosse aquela sequência de notas, mas terminam estragando a composição”, adverte.
MATURIDADE
O fato de ter currículo extenso como guitarrista lhe traz plenitude – não no sentido da vontade de se aposentar, mas de enxergar sorte em cada experiência com nomes relevantes da música brasileira. A lista é longa: Edu Lobo, Elomar, Arthur Moreira Lima, Quinteto Violado, Teca Calazans, Walter Wanderley, Paulo Moura e Dominguinhos, entre muitos outros.
“Aprendi a tocar com orquestra, a ser louco trabalhando com Hermeto Pascoal e fiz essa coisa de músico profissional na época em que havia boom de gravações. Numa noite, por exemplo, estava de smoking em São Paulo acompanhando o Michel Legrand. No dia seguinte, de manhã, tinha gravação de Eu não sou cachorro não com o Waldick Soriano”, revela.
Heraldo do Monte (Gravadora Biscoito Fino)
Repertório:
. Lamentos (Pixinguinha e Vinicius de Moraes)
. Doce de coco (Jacob do Bandolim)
. Pra Lurdes (Heraldo do Monte)
. Torto (Heraldo do Monte)
. Moreneide (Heraldo do Monte)
. Choro de viola (Heraldo do Monte)
. Doçura (Heraldo do Monte)
. Esperando a feijoada (Heraldo do Monte)
. Inteiriço (Heraldo do Monte)
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