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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

BIOGRAFIA DE LIA DE ITAMARACÁ É COSTURADA PELA TRAJETÓRIA DA CIRANDA EM PERNAMBUCO

Por Juliana Aguiar


Foto: Bruna Costa/Esp.DP FOTO


Para coroar uma trajetória marcada por dificuldades e conquistas, do trabalho como merendeira ao sonho concretizado de se tornar uma artista reconhecida, a cirandeira Lia de Itamaracá teve a história e carreira musical narradas na biografia Lia de Itamaracá: Nas rodas da cultura popular. O livro, escrito pela jornalista pernambucana Michelle de Assumpção e editado pela Cepe, será lançado nesta quinta (14), às 17h30, em evento on-line no Instagram (@cepeeditora). O encontro terá bate-papo entre a autora e o editor da Cepe, Diogo Guedes. A publicação é o quarto título da Coleção Perfis, que já apresentou as biografias do artista plástico José Cláudio, do xilogravurista J.Borges e do ex-prefeito de Olinda Germano Coelho, falecido no último dia 15 de abril.

“Lia é uma artista que acompanho desde minha estreia como repórter de cultura no Diario de Pernambuco, há 20 anos. Já a tinha entrevistado por diversas vezes”, relembra Michelle. A jornalista diz que, desde o convite da Cepe, em agosto de 2018, sentiu o peso da responsabilidade de escrever a história sobre uma das artistas populares mais importantes da geração. “Eu me fiz a seguinte pergunta: que contribuição maior eu poderia dar, além de apenas reunir os principais fatos, discos, projetos, muitas dificuldades e outras tantas conquistas de Lia?”, questionou.

O passado de Lia, o trabalho como merendeira em uma escola pública e a vida mais íntima foram revisitados pela cirandeira e pela jornalista durante longas horas de conversas. “Lia é mais fechada, e foi interessante também esse processo de tentar penetrar em seu universo particular. Um obstáculo vencido a partir de entrevistas que fui fazendo com Obra será lançada com bate-papo on-line no Insta entre a autora, Michelle de Assumpção, e o editor da Cepe, Diogo Guedes pessoas próximas, que foram me dando não só informações sobre a vida de Lia, mas também me ajudando a criar uma conexão entre a trajetória da cirandeira e questões pertinentes sobre a cultura popular de Pernambuco”, ressalta a autora.

A narrativa conta a história de Lia ao mesmo tempo em que refaz a trajetória da própria ciranda como manifestação cultural em Pernambuco. “Não me ative só a contar a história de Lia, mas contextualizá-la dentro da história da própria manifestação. Lia não surge no cenário da música independente de qualquer movimentação, pelo contrário, o Festival de Ciranda do Recife, que a lançou para o grande público, recebia dezenas de cirandeiros, vindos de todos os bairros e regiões do estado. A ciranda bombava em Pernambuco. Alguns desses, como Mestre Baracho, eram altamente conceituados pelos folcloristas e pela mídia de então”, explica.

No livro, também são elencados personagens importantes que vieram antes dela como Mestre Baracho e Dona Duda, além de cirandeiros contemporâneos de Lia e os da nova geração. “Sabemos pouco da história dos nossos mestres e mestras, e sobre as manifestações que eles representam. Então, contar a trajetória desta que é uma das mais importantes artistas populares brasileiras, dentro deste contexto maior, acredito que seja a grande contribuição do livro”, destaca.

A maior dificuldade para Michelle foi resgatar a história da ciranda, porque ainda há poucos escritos sobre o assunto. “Não existe muita bibliografia, o que me ajudou bastante foi o Inventário da Ciranda, produzido pela Associação Respeita Januário. Além das matérias antigas de jornais como o Diario, desde os anos 1960 até os anos 1980, e os escritos do Padre Jaime Diniz das décadas de 1950 e 1960”, conta. As pesquisas da jornalista permitiram que o livro fizesse importantes correções da história de Lia, como o seu encontro com a ciranda. “Ao contrário do que já foi muito divulgado, Lia, que adorava cantar quando menina, não cresceu ouvindo ciranda. A ciranda, por sinal, uma inegável marca identitária da ilha, só chegou a Itamaracá pela voz e mãos da própria Lia, no final da década de 1970”, ressalta a escritora.

O passado de Lia, como os tempos de merendeira em escola pública, é revisitado na obra (Foto: Leo Caldas/Divulgação)

O livro conta como Maria Madalena Correia do Nascimento ficou conhecida como Lia nos anos 1960, depois que a cantora Teca Calazans, incorporando versos de Antônio Baracho cantados pela cirandeira, acrescentou: “Esta ciranda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá”. “A criação do mito Lia de Itamaracá a partir de uma canção foi, para mim, um grande desafio. Tive medo de contradizer o que a própria artista sempre afirmou sobre a composição. Acredito, no entanto, que encontrei uma resposta justa para o dilema, ou a polêmica, como a própria Lia se refere ao fato.”

Em 2019, aos 75 anos, Lia de Itamaracá lançou o disco Ciranda sem fim, através do edital Natura Musical, e quebrou um hiato de sete anos sem produções musicais. No mesmo ano, a artista foi reconhecida como doutora honoris causa pela UFPE, tornou-se tema de livros, atuou no premiado filme Bacurau, apareceu em programas de TV nacionais e até inspirou grife de moda-praia. “Lia conquistou novos mercados, dialogou com outros gêneros. Tudo isso sem deixar de ser cirandeira, sem sair da ilha, sem deixar de ser representante dessa cultura.”

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A ESTRELA DE LIA BRILHA PELO MUNDO, MAS SE APAGA EM PERNAMBUCO

Prestes a completar 75 anos, Lia de Itamaracá atende a convites de vários Estados para levar adiante seu legado na cultura popular, mas se queixa da falta de apoio e reconhecimento em sua terra natal

Por Mariana Mesquita e Juliano Muta 


Lia vestida de amarelo, com o figurino do novo show, na praia de Jaguaribe: sua presença de 1,80 metros magnetiza o olharFoto: Arthur de Souza/Arquivo Folha


O sol brilha quando chegamos à Ilha de Itamaracá e rebate na roupa amarela de Lia, que aguardava nossa equipe como que vestida para um show. Séria, tímida, Maria Madalena Correia do Nascimento faz cara feia quando o fotógrafo, em tom de brincadeira, pergunta o motivo de não estar trajando azul - cor que virou marca registrada e a transformou quase que numa representação da orixá Iemanjá. "Esse é o figurino novo do meu espetáculo, tem algum problema?", fulmina a deusa, magnânima. 

Minutos depois, andando pela areia da praia do Jaguaribe com o viralata Mike, recebendo o carinho de turistas e moradores da ilha e contando piadas para o mesmo fotógrafo, Lia sorri e se transforma numa aparição dourada, quente, vibrante. Mais de um metro e oitenta de presença que impacta e de quem é difícil desviar o olhar. 

Prestes a completar 75 anos, Lia se tornou um Patrimônio Vivo de Pernambuco - primeiro, de fato; depois, de direito: recebeu otítulo do Governo de Pernambuco em 2005, sendo uma das primeiras a ser distinguidas com a honraria. A trajetória artística é longa, desde que a adolescente foi "descoberta", nos anos 1960, após presentear a cantora Teca Calazans com a mais célebre de suas cirandas. De lá para cá, enfrentou altos e baixos, e em 2018 vive um momento peculiar da carreira. Quase não vem se apresentando em Pernambuco, e se queixa da falta de apoio e reconhecimento. Fora daqui, sua estrela brilha. 

Além de estar com um novo disco próprio já encaminhado, em 2019 ela terá um outro álbum gravado dentro do selo Natura Musical (selecionada em um concorridíssimo edital que recebeu 2.617 inscrições de todo o Brasil). Lia acaba de ser agraciada pelo Ministério da Cultura dentro do Prêmio Culturas Populares, na edição de 2018, que homenageia sua amiga Selma do Coco. "Ela concorreu com mestres da Cultura Popular de todo o País e teve nota máxima", comemora o produtor Beto Hees, parceiro de Lia há mais de duas décadas. 

Beto se orgulha em enumerar a série de shows que a artista tem programados até janeiro. "Chamam em Natal, Curitiba, Florianópolis... E a gente vai. Mas a frequência maior é em São Paulo, para onde a gente tem viajado quase todo mês, já há dois ou três anos. Quando Lia não faz show solo, vai como convidada", relata. 

Uma das últimas apresentações ocorreu justamente em São Paulo, no Sesc Pompeia, em comemoração ao Mês da Consciência Negra, e na companhia de Daúde e outros artistas locais. Lia homenageou outras mulheres negras como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e Dona Santa, foi destaque na imprensa local e arrebatou uma plateia lotada e emocionada diante da força de sua arte. 

O próximo grande evento será em Olinda, no encerramento do festival Mimo, neste domingo (25). Em dezembro, mesmo com as dificuldades de logística que atrapalham o funcionamento de seu centro cultural, o Estrela de Lia, haverá ciranda na praia, no dia 23. E, no Carnaval, Lia será homenageada pelos dois maiores blocos pernambucanos: o Homem da Meia-Noite, de Olinda, e o Galo da Madrugada, do Recife.

"Acho que eles estão com fome de Lia... Já que não deixam a gente fazer cultura popular no espaço da gente, estamos atuando fora. Esse jejum fez bem para Pernambuco se ligar. Lia não é só de Itamaracá, é do mundo!", brinca Beto Hees.


Ciranda continua sem funcionar

Nem tudo é brilho na vida de Lia de Itamaracá. Seu reconhecimento e a projeção nacional contrastam com o descaso que afirma estar recebendo dos governos locais. À reportagem da Folha de Pernambuco, Lia revelou que passou a evitar fazer shows pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) por conta dos atrasos no pagamentos de cachês. Além disso, o espaço que a artista mantém em Itamaracá, o Centro Cultural Estrela de Lia, nunca recebeu melhorias, mesmo contemplado desde 2016, com recursos do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento Municipal. 

O histórico de atrasos fez a artista decidir evitar propor shows ao Governo do Estado. "Há dois anos a gente não faz apresentações pelo Governo. Porque é aquela confusão para receber. Nos últimos tempos acentuou demais, não é mais três meses para receber, chega a um ano", denuncia Beto Hees, produtor de Lia. 


De acordo com ele, o fato do grupo que acompanha a artista ser muito numeroso torna as apresentações inviáveis. Segundo Beto, até os cachês de apresentações de Lia nas escolas, contrapartida pelo título de Patrimônio Vivo, foram pagos com atraso, um deles inclusive levando quase um ano para ser efetuado. Hoje Lia não tem nenhum pagamento pendente.

Por meio de nota, a Fundarpe não comentou sobre os atrasos de cachês e se limitou a destacar a importância da artista para a cultura pernambucana. "Lia de Itamaracá é um Patrimônio Vivo de Pernambuco e uma artista e mulher de extrema importância para nossa arte e nossa cultura. Temos orgulho de Lia. Ela sempre fez parte e continuará participando e contribuindo para a difusão da nossa cultura", diz o texto.

Lia também raramente se apresenta em eventos da Prefeitura da Ilha de Itamaracá. Não por falta de interesse, mas de convites. Na abertura do verão do município, por exemplo, a principal atração foi Solange Mendonça, contratada por meio de inexigibilidade de licitação, conforme Portal da Transparência. Mas a mesma atenção não tem sido oferecida ao principal ícone da cultura de Itamaracá, que além de não figurar nas programações do município, sofre para manter seu espaço.


Desvalorizada, Lia evita shows pelo Governo do Estado e luta para manter seu espaço, o 'Estrela de Lia', que já tem recursos garantidos que ainda não foram liberados - Crédito: Arthur de Souza/Arquivo Folha

O espaço Estrela de Lia foi adquirido pela cantora em 2004 e recebeu uma emenda parlamentar, em 2016, no valor de R$ 249.999,74, através do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento Municipal (FEM) para a reconstrução do espaço. O autor da emenda foi o então deputado estadual Guilherme Uchôa, falecido em 3 de julho deste ano. 

A Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag), responsável pelos repasses de recursos, informou que a primeira parcela foi transferida no ato da adesão, no valor de R$ 74.999,92, em 17 de janeiro de 2018, e o município ainda não solicitou a segunda parcela.

Mesmo com os recursos assegurados e a primeira parcela constar como "paga" no Portal da Transparência do Estado, nenhuma obra foi executada no Estrela de Lia até o momento. A Prefeitura de Itamaracá informou que foi feita a licitação, contratada a empresa e dada a ordem de serviço. Depois aguardou-se que a empresa iniciasse as obras, visto que o prazo de execução para a parte licitada era de seis meses. 

Após o trâmite legal de espera e não ocorrendo nenhum tipo de manifestação por parte da empresa, a Prefeitura, por meio da Secretaria de Infraestrutura, solicitou o distrato do contrato com a empresa de forma unilateral para chamar a segunda vencedora para realizar a obra.

O município aguarda o prazo legal para o novo processo licitatório, já iniciado pela Controladoria Municipal. A previsão é que o novo contrato seja assinado ainda em novembro.

Descontente com o tratamento recebido pelos entes governamentais e sem poder exercer as atividades do seu centro cultural, Lia de Itamaracá não escondeu sua tristeza. "Estou muito magoada, muito chocada. Espero, como esperei até hoje, com muita luta e muito aperreio e sem ter condições de nada, que alguém sinta [solidariedade pela] minha causa e faça alguma coisa. Se alguém tiver que fazer alguma coisa por mim, faça comigo viva, faça agora", desabafou.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A VIDA DE LIA DE ITAMARACÁ É COMO O VAIVÉM DE UMA CIRANDA

Patrimônio Vivo de Pernambuco, a cirandeira comemora 70 anos com uma grande roda em Jaguaribe

Por Ateus Araújo




Para Lia de Itamaracá, cirandar é verbo que se conjuga em coletivo; o mar e a areia são as pontes que lhe unem ao sagrado e a viagens antes nunca imaginadas. Alta, negra e elegante, a mulher que sempre sonhou em cantar (“O povo perguntava por que eu não quis cantar música de Nelson Gonçalves e Ângela Maria. Mas eu nasci pra ciranda. Cada qual com o seu qual”, lembra) se transformou em uma figura lendária na cultura brasileira. Hoje, com os pés na areia, vestido brilhoso, brincos e colares, e ostentando com orgulho o título de Rainha da Ciranda, Maria Madalena Correia do Nascimento (“Lia vem de Maria. Foi o apelido que me deram quando eu era menina.”) celebra seus 70 anos de vida, carregando consigo o que considera os maiores presentes: vitórias e amizades. A festa, neste domingo, é na beira-mar da Praia de Jaguaribe, em Itamaracá, a partir das 20h.

Lia nasceu e cresceu em Itamaracá. Foi criada por uma família adotiva, e logo na infância se apaixonou pelos folguedos populares. Adorava assistir aos pastoris e reisados, quando decidiu, aos 12 anos, fugir à regra e ser a primeira – e única – artista da casa. Nos anos 1960, período de efervescência do Movimento de Cultura Popular, Lia viu o auge da ciranda e virou um dos nomes recorrentes do ritmo praieiro. Em 1978, a cirandeira gravou seu primeiro LP, Rainha da Ciranda, entrando no ostracismo logo depois e ficando mais de 20 anos como merendeira numa escola pública da ilha.

Só nos anos 1990 é que Lia voltou à cena, graças ao empenho de regaste artístico do escritor Ariano Suassuna, à época secretário de Cultura do Estado, e do Movimento Mangue. Desde então, Lia se mantém ativa, e gravou dois CDs: Eu sou Lia (2002) e Ciranda de todos os ritmos (2008), chegando a viajar por todo o Brasil e também no exterior. “Eu vivia num mato sem cachorro. Mas já conheci o mundo, graças a Deus e graças à minha luta. Mas Itamaracá já me virou as costas”, diz. Nomeada Patrimônio Vivo de Pernambuco, em 2005, a cantora projeta, agora, gravar seu primeiro DVD. 

Mas o maior sonho de Lia é outro: reconstruir o Centro Cultural Estrela de Lia, que desabou na última quinta-feira, com a força da chuva e do vento. No local, aconteciam rodas de ciranda e eram dadas oficinas de música e cabelo afro. “Isso mais cedo ou mais tarde ia acontecer. Não tenho ajuda de ninguém. Sozinha eu não posso fazer nada", disse a cirandeira, emocionada. Ele se deparou com a cena enquanto recebia a reportagem na sua casa. O espaço, de madeira e palha de coqueiro, já estava em estado crítico há pelo menos dois anos. Sem condições para reformá-lo, Lia aguardava a ajuda da Prefeitura de Itamaracá, o que não aconteceu. No entanto, procurada pelo JC, a secretária de Educação e Cultura da Ilha, Conceição Menezes, garantiu que vai ser tomada alguma providência até amanhã.

Em 70 anos de vida e 58 de carreira, Lia considera ter sido as amizades suas grandes forças para conseguir o sucesso. Na sua colorida casa, em Jaguaribe, ele empilha lembranças e as relembra numa conversa – sempre é assim – bem humorada. Foi com o sorriso que ela conquistou o carinho de muita gente, como é o caso do percussionista Naná Vasconcelos, que define a cantora como uma “explosão de cores, mas sempre sóbria e elegante”. Naná se lembra bem das primeiras vezes em que ouviu Lia cantar. Junto com a cantora Teca Calazans (a quem a Rainha da Ciranda atribui a autoria do clássico Quem me deu foi Lia), ele frequentava as rodas de ciranda para pesquisar a música e se encantou pelo trabalho dela. “Nos anos 60 e 70, depois do teatro, nossa diversão era ir para a ciranda. Teca adorava e cantava nos shows. Chegou a gravar, inclusive. Ela e o Quinteto Violado”, lembra o percussionista. “Lia é a ciranda viva. É simples, mas tem uma lírica poética maravilhosa, com profundidade. Ela é sinônimo de resistência, e guarda uma africanidade muito forte.”

Se na música ela é reconhecida por seu estilo particular – Lia já foi chamada de “diva da música negra” pelo New York Times, e é convidada de honra em todos os shows de Marisa Monte no Recife – a cirandeira da Ilha de Itamaracá é também querida pelo carinho com os amigos nos bastidores. “Ela é uma pessoa muito boa e batalhadora. Sempre me chama de mãe. E a gente brinca muito quando se encontra”, diz a coquista. “Quero que Lia viva muito, muito.”

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

LIA DE ITAMARACÁ, 70 ANOS


Por Hermínio Bello de Carvalho


Enquanto Lia não vem, é Dona Creusa que vai desfiando histórias. É a proprietária do "Sargaço" que comprou em 1973, ali no Jaguaribe. Trabalha com frutos do mar em geral: peixada, lagosta, filé de agulha, ostra, marisco, camarão. E tem sururu, pirão de guaiamum, e, é claro, cerveja bem geladinha — indispensável quando o sol castiga fone a ilha de Itamaracá. Não, não ganha muito dinheiro não. Agora mesmo, veja só, o bar só tem vocês aqui. Vocês, eu, o Dr. Bernardo, diretor do Manicômio, e o Gilberto Marques Paulo — Secretário de Justiça e, nas horas vagas, tocador de violão e seresteiro. E mais o Juca, filho de José Lopes — ex-Prefeito da ilha. Gilberto acaba de me fazer visitar a Casa Grande do Presídio. Estranho aqueles homens todos morando em mil e setecentos hectares de terra, cada um com sua família em casas bem feitinhas, plantando as verduras que comem, andando livres pela Ilha. É um trabalho de humanização que vem aplicando às penitenciárias, tarefa na qual se engajou Célia, sua mulher. Ela cuida dos menores, antes que cheguem à delinqüência. Pergunto se eles não fogem, tão fácil é o caminho da fuga. Nos dias de hoje, com moradia e comida garantida para si e a família — para que se evadir? Não me dou ainda por satisfeito, vou aqui e ali conversando com alguns presidiários. Visito a Casa da Farinha, vejo-a em pleno funcionamento. Vasculho as estradas, puxo conversa e me lembro de um tempo em que tinha. um programa de violão e poesia que era transmitido de uma rádio instalada na Frei Caneca. Vivaldi e Fernando Pessoa eram de vez em quando entrecortados por gritos pavorosos, a pancadaria comendo solta no meio da noite. Um dia contarei essa história, passada nos idos de cinqüenta.

"Lia já vem". Teca Calazans costumava passar uns tempos na Ilha e ia às cirandas de Dona Duda, no Janga — subúrbio de Olinda. E me parece que foi por lá que conheceu a Lia. Ouviu-lhe as cirandas, anotou algumas, e ainda compôs outra que ficou famosa em todo o Brasil, cantada pelo Quinteto Violado: "Essa ciranda quem me deu foi Lia/ Que mora na Ilha de Itamaracá". E ai a cirandeira virou símbolo da ilha, parte integrante de seu folclore. E vem ela chegando.

Bonita. essa Lia! Enorme mulher de metro e oitenta. Os cabelos desarrumados, blusa florida e calça jeans, pés gigantescos em sandália de couro cru. Não está nada à vontade, devemos ser mais alguns daqueles forasteiros que vêm para lhe tirar fotografias, posar ao lado se possível com um sorriso que por enquanto economiza, como também raciona as palavras. Mais mimetiza do que fala. Dona Creusa parece um pouco a Neuma da Mangueira, bonita como ela. Cabelos brancos, manda renovar a cerveja e a cachaça, os filés de agulha. Queixa-se do preço do camarão, diz que todo ano tem Festival de Cirandas, mas que a vontade dela é botar ali em freme do bar uma espécie de palco cheio de luz. Para que Lia cante e cirandeie. No espaço que tinha, ergueram um barraco inútil que só atrapalhou a vida do bar. "E vive de que a Lia?" Da profissão de merendeira escolar. empregada do Estado. "Ganho salário". Quer dizer: esse mísero salário mínimo, que é uma vigésima parte do preço de uma diária das suítes presidenciais que nós pagamos para nossa primeira-dama desfilar seu eterno sorriso, coisa aliás muito rara no rosto de Lia, a de Itamaracá.

As cirandas são famosas: além do canto de Lia, existem os músicos que a acompanham: um surdo, pistom. tarol e ganzá. Às vezes, ao invés do pistom, um saxofone. Disco já gravou sim, na Rozenblit — isso em 1977. Diz que não viu a cor do dinheiro. Vai lá dentro do bar e traz a capa: Lia bonita. sorridente, florida. Cheirosa. Lamenta que lhe roubem as músicas que faz, mas o que se há de fazer? Direito autoral, direitos conexos — são coisas de que ela não ouviu falar, sabe apenas que a música a empobrece mais ainda. Pergunto se ela não quer participar do disco do Capiba, diz que vai sim e não tenho muito por que acreditar. Promessas deve receber a toda hora, nota-se isso no olhar entristecido que quase nunca se fixa no interlocutor, vagueia para um lado para outro, como se buscasse na linha do horizonte as palavras de seu fraseado curto, quase monocórdio. E como é que é na hora da ciranda. hein Lia? “E cachorro amarrado, pau comendo!" Ai desamarra a boca, solta-se um pouco mais, parece que vejo os seios bufarem quando fala em ciranda. E começa cantar uma que Capiba lhe fez de presente: "Minha ciranda não é minha só/ é de todos nós!/ a melodia principal quem tira/ é a primeira voz/ pra se dançar cirandada/ juntamos mão com mão/ formando uma roda / cantando uma canção". Combino quase tudo: o dinheirinho que vai ganhar. ela fala dos músicos que precisa arregimentar. Vem mais uma rodada de pinga e mais peixe-agulha. Lia vai buscar seu Bezerra, do saxofone; e Marcelo do ganzá, Genuário do tarol, do surdo: precisa deles para a gravação.

A Ilha de Itamaracá começa a se parecer um pouco com a da Jipóia ou Jibóia, como queiram: lá de Angra dos Reis. Não a de agora, que nem mais a quero conhecer. Mas a dos tempos de meu avô Gregório que não conheci, e que era tido como o melhor violeiro do Estado do Rio. A velha Florinda, sua mulher, vinha trazendo aviso:"Lá na ilha Grande tem um violeiro que anda prosando que é melhor do que você. Se aprepare”. Ele ia temperar (afinar) a viola. ela fazer o farnel. Desciam os dois, ela pegava o remo e ele só temperando, temperando. E que só voltasse vencedor. Essa herança de violeiro passou para os filhos, pegou de raspão num neto que ainda chegou a dedilhar uns clássicos e largou tudo pela poesia, mas agora ressurgiu num bisneto que está firme em Leo Brouwer, Villa-Lobos, Torroba. Lembro meu sobrinho Saulo, fico orgulhoso de meu avô Gregório e largo meus devaneios porque é hora de voltar ao mundo.

Claro que deveria explicar o que estou fazendo aqui em Recife: um disco para Capiba, história que já comecei a contar há duas semanas passadas e correu firme pelo Recife inteiro: todo o mundo de Pasquim na mão. Cansaço, emoção: e lá vou eu parar na Unicordis, outra crise de hipertensão — eu ali domesticado na sala branca, monitorizado para um eletro que vai apontar a polirritmia dos batimentos cardíacos, o coração já em compasso de frevo dedilhado peja "Valsa verde" de Capiba, pelo choro que Jacaré fez em minha homenagem, mas também pelos aborrecimentos todos que cercam a vida de um fazedor de cultura, de um brasileiro irremediável e que anda chorando à toa pelos cantos da vida — a serenidade escoando aos poucos, a tensão desses dias ameaçadores provocando a hipertensão — e ainda mais agora essa tal de Lia de Itamaracá, ora vejam só.

Lia chega ao estúdio: seu Bezerra se perdeu no caminho, daqui a pouco chegará. Os meninos da "Casa do Guia Mirim" de Olinda estão por aqui, para deitar recitação no disco de Capiba. E uma ciranda come solta no estúdio três por quatro da Somax. Lia cirandeira de Itamaracá ,toda sorridente e festeira, primeira-dama destituída de outros privilégios que não seu próprio talento de mulher do povo, assalariada com um mínimo que não lhe roubou ainda toda a alegria.

Estranha música, essa de seu povo! As cirandas pernambucanas de Lia estão na boca de toda a gente, na alegria das pessoas se dando as mãos. cirandando em volta dela. E na verdade essa mulher de quarenta anos, meiga às vezes e justamente desconfiada quase sempre, e para muitos apenas uma dessas peças de artesanato urdidas em barro e que vão ornamentar uma estante — até que se espatifem e ganham o caminho da lixeira. Pegaram o disco de Lia e o trataram como se fosse de barro. Nem ela tem um só, até porque nem escutaria: vitrola é coisa que deve existir em sua vida de merendeira escolar. Volta e meia um turista de ar dementado virá tirar-lhe uma foto e nisso eu fico toda hora me lembrando de meu querido Camafeu de Oxossi, toda hora requisitado no extinto Mercado Modelo para exibir o sorriso, o chapéu imenso, a fama de melhor sabedor da Bahia, elogio que lhe pespegou o Jorge Amado.

Deixo Lia à porta do estúdio. Parece até que está feliz. Por pouquinho deixa de cruzar com Mestre Capiba, que vem cheio de guizos no rosto, a felicidade lhe tomando a alma.

Vai com Deus, Lia! toma conta dele direitinho.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

LIA DE ITAMARACÁ: "SE EU FICAR NA ILHA, VOU FICAR A VER NAVIOS"

Cirandeira reclama do descaso político em relação à cultura e revelou o desejo de deixar a ilha que a tornou conhecida

Por Gabriel de Sá



Nascida na Ilha de Itamaracá, Litoral Norte de Pernambuco, Maria Madalena Correia do Nascimento conquistou público e prestígio, mas não conseguiu deixar o local de origem, nem subsídios para viver apenas da arte. “Vou continuar com a música até quando Deus quiser”, diz ela, aos 69 anos, “Por que a idade tá chegando, neguinho, e a gente vai se enferrujando”. Liinha para os pescadores e Mãe Lia para os estudantes, ela impressiona, primeiramente, pelo tamanho: 1,80 m. A voz grave e o ritmo envolvente da ciranda terminam o trabalho. Neste papo, durante uma manhã ensolarada de julho, Lia reclamou do descaso político em relação à cultura e revelou o desejo de deixar a ilha que a tornou conhecida. 


Existe em Itamaracá um centro de atividades culturais erguido pela senhora…

Esse espaço cultural foi comprado com esforço meu. Ficamos tirando do bolso da gente, de shows, do meu salário de merendeira, para poder ter atividades todos os sábados. E esse povo (autoridades) nem “tcham”. A gente fazia nossas cirandinhas, se esforçava, ajeitava tudo bonitinho... Chegou uma época que eu falei pro antigo prefeito: “Eu, sozinha, não faço cultura. Ou vocês me ajudam ou eu paro”. Quando não tem turista, é a comunidade que vai. E qual é o pobre que vai pegar seu dinheiro de comprar caroço de feijão para pagar para beber e comer lá? A ciranda é de graça. Todo município tem uma verba para turismo. Cadê esse dinheiro? Não pode ser assim. No Recife é ainda pior. Eles estão acabando com a cultura de Pernambuco. Agora, tenho meus empresários. E eu tô correndo daqui. Me sinto mais feliz fazendo meus trabalhos fora. Se eu ficar na ilha, vou ficar a ver navios.


A senhora trabalhou por 30 anos como merendeira de escola pública. Como conciliou os dois ofícios por tanto tempo?

Já me aposentei. Um ofício não se misturava com o outro. A música é a música, a merendeira é a merendeira. Juntei esse patrimônio pra quando chegasse essa época de parar eu ter um cabelo pra me segurar. Se não fosse isso, eu tava a ver navios. Se dependesse deles (autoridades)… Ficar no pé deles feito sapo no pé do boi, eu não tô pra isso. Dou minha cara a tapa e ganho o mundo. Quando ficarem sabendo que eu saí da ilha, já vou ter voltado. Na escola, era muito bacana. Eu tinha que agir.


Onde se sai melhor, no palco ou na cozinha?

Cozinhava no meio da semana e no fim de semana eu fazia show no mesmo lugar. Isso antes da escola e do espaço cultural. Adoro cozinhar. Faço bem peixada, lagosta, camarão… Ai, mamãe. Peixada é o prato predileto.


Como se aproximou da ciranda?

Meu sonho sempre foi cantar. Eu ia pro Recife e via os cirandeiros. Fui me encantando, e já estava com a cabeça para ser aquilo que sou hoje. Fui encaixando tudinho. A ciranda é uma dança de roda, que começa nas crianças e vai até os adultos. O artista, que sou eu, está ali pra cantar. A dança da ciranda é ligada às ondas do mar, você segue, é bem lenta, pra lá e pra cá. Capiba é meu compositor e me deu Minha ciranda não é minha só. Fomos grandes amigos. A música mais conhecida do meu repertório é Quem me deu foi Lia.


Como foi a experiência de tocar no festival Abril Pro Rock, em 1998?

O Abril Pro Rock abriu os caminhos para eu seguir. Foi bom demais. Eu nunca pensava em me meter no meio dos roqueiros. É bem diferente o andamento deles e o da ciranda. Mas resolvi fazer o teste pra ver se passava. Me meti no meio deles e foi maravilha. Roqueiro pra cá, ciranda pra lá e eu no meio, uma salada feita.


A rainha da ciranda é o nome do LP de 1977. A senhora conserva o título ou surgiram outros grandes cirandeiros deste então?

Em Abreu e Lima (PE), tem o Antônio Baracho da Silva, que é o rei da ciranda. E tem a rainha. Agora, a gente tem que usar as coroas, né (gargalha)? Esse LP foram poucas cópias. Nem sei quantas venderam. Eu fiquei com 25 discos, dei pra alguns dos músicos que gravaram comigo e não tive conta de nada. Nem direito autoral. Eu tenho um em casa que emprestei e voltou todo desbotado.


Tirando a ciranda, o que a senhora gosta de ouvir?

Roberto Carlos, Nelson Gonçalves, Caetano Veloso, Agnaldo Timóteo, Reginaldo Rossi... Gosto mais das músicas que mexam com meu andamento, com minha idade. Aí é que é bom, que vem o molhinho bem gostosinho. As românticas é que são boas.


Chico Buarque e Edu Lobo citam a senhora em Na ilha de Lia, no barco de Rosa.

Eu já ouvi, em um DVD. Foi maravilha. Para mim, é muito bom. Eu tô mais reconhecida no meio do mundo, não é? O povo vai me conhecendo muito mais. É muito importante esse reconhecimento entre os músicos e compositores.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A MULHER QUE DANÇA O AMOR

Lia de Itamaracá, ou Maria Madalena, conta como é mais do que uma cirandeira.


Por Dora Amorim (texto) e Ricardo Moura (Foto)




“Tia Lia”, “Mãe Lia”, “Lia da ciranda”. Na beira-mar de Itamaracá, uma mulher alta, com um pouco mais de 1,80 metros de altura, caminha chamando a atenção dos pedestres – que gritavam o seu nome. Com uma blusa amarela berrante, Lia de Itamaracá, batizada como Maria Madalena, estava em plena comunhão com o dia ensolarado. Naquela mesma manhã, quando me recebeu na sua ilha, a cirandeira, intitulada Patrimônio Imaterial de Pernambuco desde 2005, recepcionou 15 turistas em casa. Acordou e percebeu o murmurinho do outro lado do portão. Ao chegar mais perto viu as sombras e abriu a porta. "É ela, é a Lia!", teriam gritado.

A filha mais famosa da Ilha de Itamaracá nos levou ao Centro Cultural Estrela de Lia, desativado desde 2009. Antes, ela organizava cirandas todos os sábados e, ao longo da semana, eram realizados encontros e oficinas no local. A falta de incentivo, no entanto, fez a cirandeira paralisar o projeto e o lugar foi ficando, aos poucos, esquecido. Foi lá, à beira-mar, que nos reunimos para falar sobre a vida e os carnavais de Lia e sua ilha. Saudosa, a cirandeira se lembrou da infância, quando os blocos tomavam as ruas, alegravam as famílias e animavam a praia.

“O Carnaval era muito animado, cheio de blocos, algumas manifestações de Olinda vinham de lá pra se apresentar aqui, mas com o tempo foi se acabando. Hoje temos o Bloco As Catraias, o Bloco do Bode, ainda existe alguma coisa...”, lembra Lia. Atualmente, o Carnaval de Itamaracá reúne cerca de 30 blocos de frevo, trios elétricos e cortejos, sendo As Catraias, lembrado pela cirandeira, o maior dos blocos, levando 50 mil foliões às ruas da cidade. “Fui chamada para desfilar (no Bloco As Catraias) e gostei, tem senhoras de idade, meninos, as famílias vão. Mas, depois do Carnaval é mais fácil encontrar as cirandas, o coco de roda, o cavalo marinho. Aqui tem e tinha muitas tradições boas”.

Em 2012, a cirandeira abriu a folia de Itamaracá com uma apresentação no Polo Pilar. O Carnaval está no sangue dela, mas nem sempre foi foliã de carteirinha. Quando era menina, ela e a irmã iam para Olinda ver a saída dos blocos Elefante e Pitombeiras: “Não perdia um ano”, recorda. Depois do desfile, a jovem voltava para a ilha e acabou-se o Carnaval, não gostava de dançar ou se fantasiar. Mas tudo mudou quando a cirandeira se casou com um porta-estandarte do Maracatu Elefante. O marido Antônio convenceu a artista a visitar o maracatu sem muitas expectativas. E então Lia se encantou.

“Só me meti com o Carnaval, porque meu esposo fez a minha cabeça para conhecer o Maracatu Elefante. Eu disse que não ia dançar, pois não gostava de Carnaval. Comecei a ver aquela coisa bonita, todo mundo dançando, as baianas, aquelas mulheres, as crianças e pensei como tudo era lindo. Assim, a diretora do maracatu me colocou para dançar e eu pensei: 'Me lasquei'. Ela fez a minha roupa e me soltou no meio da roda como baiana rica. Logo como baiana, foi uma riqueza! Eu gostei tanto de desfilar nesse maracatu que eu lembro até hoje, desfilei duas vezes!”, comenta com entusiasmo.

Lia de Itamaracá também gosta de se lembrar do passado, quando a ilha era repleta de casas de palha e ela brincava na areia preta, em frente à casa de Santino de Barros Monteiro, patrão da sua mãe, considerado até hoje o seu pai de criação. Lia recorda ainda que começou a cantar aos 12 anos, encantada pelo pastoril e pelo cavalo marinho. Pouco depois, com a mesma idade, a artista teve contato com a ciranda: “Fui conhecendo e entendendo como funcionava vendo os outros cantarem”. Depois disso, ela nunca mais deixou de cirandar. No ano seguinte, conheceu a cantora Teca Calazans, que veraneava em Itamaracá. Ao escutar os cantos de Lia, a amiga fez os versos:

“Essa ciranda quem me deu foi Lia/
Que mora na Ilha/
De Itamaracá”

Um hino da ciranda de Pernambuco, a canção intitulada “Lia” veio como um presente e abriu as portas para a pernambucana. “A ciranda é uma dança do amor”, falou olhando fixamente para o mar, e depois olhou para mim e sorriu como se estivesse falando alguma tolice. Não era. A partir da figura de Lia, a ciranda realmente se tornou uma dança do amor, do toque, da aproximação. “É uma música forte, ela nunca se acaba, você pode colocar qualquer música, a ciranda não fracassa, é sempre uma cultura forte. Quanto mais cirandeiro tiver, mais ela vai avante”, diz.


GUERREIRA

Lia tem orgulho da sua ciranda e da sua ilha. Foram as ondas do mar de Itamaracá que inspiraram as suas canções e a tornaram conhecida. No entanto, ela lamenta a falta de sucessores, não há ninguém na sua família que se interesse pelo legado. O neto disse a uma repórter que seria o responsável por dar continuidade à ciranda, mas logo se desinteressou. Ninguém da ilha ainda apareceu. Por enquanto, a cirandeira se prepara para lançar a campanha “Vamos cirandar”, voltada a arrecadar recursos para o Espaço Cultural Ciranda de Lia e para a ciranda de Itamaracá.

“Sou uma guerreira, meto a cara no mundo”, diz ela, ao se lembrar dos muitos anos de carreiras e falta de patrocínio. Mesmo assim, nunca deixa de falar com alegria sobre a música e a vida em Itamaracá. “Às vezes gritam: ‘Dona Selma do Coco’, e eu penso: ‘Esse povo deve estar doido’. Mas respondo do mesmo jeito. É tudo da cultura”, fala sorrindo.

Depois da entrevista, demos uma carona para Lia até o castelo, como chamou sua casa. Da porta, ela acenou e pediu muito obrigada. Linda e de amarelo, a filha ilustre da Ilha de Itamaracá brilhava naquela manhã, três semanas antes do Carnaval.

domingo, 1 de março de 2009

OS GRANDES TALENTOS FEMININOS DA MÚSICA PERNAMBUCANA

Por Bruno Negromonte

Pernambuco sempre foi um celeiro cultural riquíssimo e que continue em plena ebulição. E dentro dessa gama de talentos que surgem a cada novo instante na cena musical pernambucana, há espaço também para as mulheres, mulheres estas que vem alcançando espaços cada vez mais significativos dentro deste cenário. São muitas, mas queria aproveitar o espaço para destacar quatro grandes mulheres que vem levando em seus trabalhos musicais o que há de mais regional. Talvez por isso elas têm se tornado a cada dia mais universal. São elas:

Lia de Itamaracá
Cirandeira de Itamaracá, ilha perto de Recife, Maria Madalena Correia do Nascimento ficou conhecida como Lia de Itamaracá desde os anos 60, quando a compositora e cantora Teca Calazans registrou a quadra "Esta ciranda quem me deu foi Lia/ que mora na ilha de Itamaracá". Lia canta e compõe desde a infância, e em 1977 gravou seu
primeiro disco, o LP "A Rainha da Ciranda". Mas não enveredou pela vida artística e continuou trabalhando como merendeira em uma escola de sua cidade. Na década de 90 foi redescoberta pelo produtor Beto Hees, que a levou para participar do festival Abril Pro Rock em 1998, com grande êxito. Com repertório que inclui coco de raiz e loas de maracatu, além, é claro, de cirandas, acompanhadas por percussões (ganzá, surdo, tarol, congas) e saxofone, gravou o segundo álbum em 2000, o CD "Eu Sou Lia", lançado inicialmente pela Ciranda Records e depois pela Rob Digital. Em 2008 lançou seu terceito álbum.

EU SOU LIA (2000)

Alessandra Leão
Alessandra Leão é percussionista, compositora e cantora. Iniciou sua carreira musical em brincadeiras de rua, frevo de bloco, boi de carnaval, cavalo-marinho, afoxé...
Logo em seguida, participou da fundação do grupo Comadre Fulozinha, sendo esse seu primeiro trabalho profissional. Nesses 12 anos atuando mercado musical, teve privilégio de trabalhar ao lado de músicos como Antônio Carlos Nóbrega, Siba , Silvério Pessoa, Zé Neguinho do Coco, entre outros...
Desde 2004, idealizou e coordena o projeto coletivo Folia de Santo, que se propõe a compor músicas baseadas nas tradições ligadas ao “catolicismo popular”. O CD homônimo está em fase de finalização.
Em 2006, Alessandra deu início ao seu trabalho autoral, com o elogiado Brinquedo de Tambor. Produzido e arranjado em parceria com o violeiro, compositor e arranjador Caçapa. O repertório para o segundo CD solo já começou a ser composto e deverá ser produzido em 2008 através do Programa Petrobrás Cultural/2007.
Em Dois Cordões, título do próximo CD, Alessandra mantém a parceria com Caçapa nos arranjos e produção musical e também passam a assinar algumas composições juntos. Também mantém a parceria com Juliano Holanda em outras músicas e terá como convidados os músicos; Kimi Djabaté (Guiné Bissau), Jon Luz (Cabo Verde) e Florencia Bernales (Argentina). O CD será todo gravado em Recife com os músicos que acompanham a artista.

ALESSANDRA LEÃO - BRINQUEDO DE TAMBOR (2006)


Isaar
Cantora com timbre peculiar e marcante, Isaar foi um dos destaques da festejado grupo Comadre Florzinha, com o qual passou oito anos, viajando pelo Brasil e exterior, e deixando seu trabalho registrado em dois discos. Iniciada na música em
festas populares, onde era comum se ouvir coco, maracatu, afoxé, Isaar , levou este sua bagagem musical para a Orquestra Santa Massa criada por Hélder Aragão, o DJ Dolores, com a qual também gravou disco e fez turnês internacionais. A voz de Isaa esteve também a serviço de peças de Zé Celso, no Teatro Oficina, em filmes de João Falcão e Eliana Café, além de participar de gravações com Antonio Nóbrega, Silvério Pessoa, Mundo Livre S/A e a Eddie.

ISAAR - AZUL CLARO (2006)


Selma do coco
Dona Selma Ferreira da Silva, ou Dona Selma do Coco, faz coco desde os anos 60, mas era conhecida apenas na comunidade em que vivia em Olinda desde 1966 (nasceu em Vitória de Santo Antão). Viveu do comércio até 1994, quando jovens do manguebeat, a exemplo de Chico Science, passaram a tecer elogios ao seu trabalho.Em 1995 gravou o
primeiro disco. Em 1996, o coco A rolinha foi sucesso durante o carnaval do Recife e Olinda. Em 1997 Dona Selma e seu grupo fizeram uma turnê Alemanha, onde gravou mais um disco. No ano seguinte ficaria conhecida nacionalmente ao participar do Abril pro Rock. Em 1999 seria uma das vencedoras do Prêmio Sharp, na época o mais importante da música brasileira. Em 2001 participou do festival de Nova Orleans.


DONA SELMA DO COCO - MINHA HISTÓRIA (1999)

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