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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

O Musicaria Brasil relembra este álbum que completa 40 anos de lançamento

Por Luiz Américo Lisboa Junior


Gonzaguinha - De volta ao começo (1980)

Todas as gerações possuem seus poetas, aquelas pessoas dotadas de uma rara sensibilidade que tem o poder de transportar para as palavras todo o espírito de sua época e com isso tornarem-se seu porta-voz. No entanto é necessário que além do talento com o verbo se vivencie sua época com muito vigor a fim de poder transmitir suas impressões com realismo e não apenas como expectador tornando-se um cronista com um olhar aguçado sobre os problemas, angustias e esperanças que nutre como ser integrante de um universo em transformação.

Viver plenamente cada instante da vida, participar dos dramas da sociedade, tornar-se referencia na afirmação de valores, lutar por um mundo mais humano e com justiça social e ainda por cima ter tempo de ser romântico transmitindo emoções por todos os lados e firmar uma obra que extrapola seu tempo tornando-a eterna, não é tarefa para qualquer pessoa, é preciso além do talento, ter a argúcia necessária para compreender em plenitude a sua verdadeira importância histórica, perceber-se como um ser integrante desse período vivido e captar cada instante como sendo único, universalizá-lo e transpor com cores vibrantes uma mensagem que será referencia de um tempo em que ator e autor social se confundem. É dessa maneira que podemos identificar e reverenciar figuras ilustres que muitos chamam de ícones de uma geração, pessoas que ajudaram a transformar outras pessoas tornando-as melhores contribuindo com sua arte para um mundo mais belo.

Um dos maiores personagens de seu tempo, notadamente os anos setenta foi o cantor e compositor Luiz Gonzaga Junior, o Gonzaguinha. Iniciando sua carreira nos finais da década de sessenta sua consagração viria na década seguinte como um de seus poetas mais notáveis. Musico de rara inspiração é um dos poucos casos da música popular brasileira cuja obra é praticamente toda autoral, ou seja, sem parceiros, o que da a condição de analisá-la sem as fragmentações de pensamento muitas vezes vista em parcerias onde na grande maioria dos casos não se sabe onde começa e termina a participação de um ou de outros compositores/poetas, apesar de seus incontestáveis méritos.

Filho do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, o moleque Gonzaguinha não foi criado no Nordeste mais no Rio de Janeiro onde vivenciou todas as sutilezas e malandragens dos morros cariocas criando uma obra urbana e de grande conteúdo social cujo reflexo deu-se logo no lançamento de seu primeiro disco lançado em 1973 contendo a canção Comportamento geral proibida pela censura militar.

Critico ferrenho dos desmandos da ditadura e da falta de liberdade aos poucos foi-se deixando levar pelos caminhos do coração conseguindo com maestria aliar dramas sociais e políticos com paixão, sem ser piegas, mas sim um incorrigível poeta romântico capitalizando como poucos o universo feminino. Em 1980 já consagrado lança um disco fundamental para a compreensão de seu pensamento, intitulado De volta ao começo, conseguindo mesclar a sátira/critica social com belas canções de amor, resultando num trabalho simplesmente arrebatador, um verdadeiro panorama daquela época. Abrindo o LP temos Questão de fé, fazendo uma referencia aos exilados que estavam de volta ao país; em Ponto de interrogação, Grito de alerta e Sangrando atinge o clímax de seu talento de incorrigível poeta do amor criando três canções que são clássicos de nossa canção moderna. Em Pequena memória para um tempo sem memória, A cidade contra o crime, Marcha do povo doido e Achados e perdidos, temos o artista em todo seu vigor tecendo criticas sociais com uma linguagem clara, inteligível e que não deixa dúvidas quanto ao seu conteúdo e significação, aqui o poeta revela-se em completa sintonia e clara percepção de seu tempo/realidade vivida.

Contudo, apesar de misturar amor com dramas sociais cotidianos o que permeia todo o trabalho é o profundo sentido de esperança de um novo país que se avizinhava, pois, ele já não era o homem descrente dos primeiros tempos, havia uma luz de esperança e alegria no ar, e isso fica bem demonstrado no fabuloso samba, E vamos a luta, e na alegre e descontraída Bié, bié, Brazil. Em De volta ao começo, que da nome ao disco ele faz um retorno ao menino alegre e cheio de esperanças que era e verifica que esse tempo esta de volta. O LP ainda contem, Libertad mariposa, composta e interpretada em espanhol, Paixão, Mulher e daí e Da vida, belas canções que se integram plenamente no conjunto da obra.


Um trabalho que marca a trajetória de um grande musico e poeta de nosso tempo que soube como poucos perceber sua própria história e a de nosso país, tornando-se no maior poeta/cronista de sua geração, que infelizmente foi para o andar de cima numa triste manhã do dia 29 de abril de 1991 mas cuja voz rascante/doce e bela juntamente com sua musica e poesia vivem eternamente na memória de seus contemporâneos e na história da musica popular brasileira, inscrita em letras maiúsculas.

Itabuna, 16 de março de 2005.


Músicas:
1) Questão de fé
2) Ponto de interrogação
3) Marcha do povo doido
4) Libertad mariposa
5) E vamos a luta
6) Paixão
7) Grito de alerta
8) Sangrando
9) Amanhã ou depois/Achados e perdidos/Pequena memória para um tempo sem memória
10) A cidade contra o crime
11) Bié bié Brazil
12) De volta ao começo
13) Da vida

domingo, 30 de agosto de 2020

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

 Tradução de let it be, título de um grande sucesso dos Beatles, Deixa Estar completa 50 anos em 2020... mesmo tempo em que o grupo vocal britânico chegou ao fim

Por Luiz Américo Lisboa Junior



MPB4 - Deixa Estar (1970)


Se perguntarmos hoje a qualquer jovem o que ele sabe sobre o ano de 1970 muito provavelmente ouviremos que foi o ano em que o Brasil ganhou o tri campeonato de futebol no México. Essa resposta por si só demonstra duas coisas, a primeira que o futebol é uma paixão tão grande que seus feitos ao longo da história não são esquecidos e a outra é o profundo desconhecimento sobre a história pátria, ou seja, ao mesmo tempo em que o futebol é uma coisa presente, as torturas, o milagre brasileiro, o presidente Médici, a Transamazônica, soam como referencias bem distantes, so lembradas no colégio ou em algumas reportagens televisivas.

É claro que os pais dos jovens que viveram esse período e tinham noção dos acontecimentos os relatam para seus filhos de acordo com seu ponto de vista, outros não estavam nem um pouco preocupados com o que ocorria e nesse aspecto vivenciaram a época mas dela não guardam a mínima recordação histórica, apenas o trivial de seu dia a dia.

Contudo, é importante ressaltar que nesses trinta e seis anos muitas coisas mudaram, o país redemocratizou-se, a juventude perdeu o vigor participativo nas causas sociais, ou seja não é mais tão engajada como antes, a nossa educação publica foi destruída restando dela so escombros do que um dia já foi, os valores seguiram em outra direção, pois se antes era importante ter umas referencia ideológica seja ela qual for para compreender o mundo e relacionar-se com ele, nos dias que correm o que importa é ganhar dinheiro suificiente para ir as compras já que o mercado de consumo e seus apelos sedutores são a representação do que se almeja como felicidade e realização.

Em 1970 não existia a Internet, as pessoas comunicavam-se através do telefone, comercialmente pelo telex, ou via Embratel, inaugurando a fase dos registros em tempo real, foi assim com a copa do México a primeira a ser transmitida ao vivo. O noticiário era através da televisão ou dos jornais, não se falava em aldeia global, mas tínhamos já as informações precisas ainda no calor dos acontecimentos, não havia o chamado tempo real, mas sim o tempo ideal para a informação não ficar velha, era esse em grosso modo as formas de percebermos as coisas em nosso redor e assim tentar conviver com elas. Mas, aqui no Brasil a imprensa estava sob um rigoroso esquema de censura e por mais criativos que fossem seus profissionais para nos mostrar a verdade dos fatos essa so era veiculada de acordo com as conveniências governamentais. Porem nos restava uma válvula de escape, ou seja, um outro meio de demonstrar e revelar as nossas idéias e não nos deixarmos sucumbir pela repressão do pensamento, esse meio era a musica popular que vivia, apesar de tudo o que lhe ocorria como o exílio de artistas, um certo esvasiamento intelectual e censuras de toda ordem, um período glorioso já que o essencial era a mensagem e a qualidade artística do produto apresentado a população, pois ainda não estávamos contaminados pela musica camisinha que ocorre em sua maioria nos dias de hoje, usa-se, usufrui-se um pouco do prazer momentâneo e depois joga-se fora, claro que esse é um conceito genérico, pois sei que ainda há casos de amores permanentes em que a qualidade do sentimento ainda perdura e nossos heróis ainda continuam por aí.

Mas em 1970 o sonho acabou, foi-se embora os The Beatles e aqui em terras abaixo da linha do Equador um grupo vocal de Niterói, o MPB 4 um dos maiores e mais longevos que já tivemos, estavam em plena atuação produzindo discos memoráveis e dentre eles, neste ano um denominado Deixa estar... que é a tradução de let it be titulo de uma música e do último disco dos Beatles. No centro da capa do LP do grupo inglês estão quatro fotos de seus integrantes formando um quadrado, no disco do MPB 4 a idéia foi reaproveitada com uma colagem de parte do rosto de seus componentes, Magro, Aquiles, Miltinho e Ruy, mas se a referencia é explicita a mensagem nele contida nada tem a ver com rock e sim com musica popular brasileira da melhor qualidade revelando um painel heterogêneo de nossa canção, com seu toque de engajamento característico daqueles tempos, era a musica popular usando toda a criatividade de seus artífices a serviço da preservação e da conscientização social necessária em tempos de guerra de idéias, onde o politicamente correto era incorreto para alguns, mas não para maioria, portanto, criatividade literária aliada a uma bela melodia era a melhor receita para se dizer a verdade e sentir-se um pouco mais livre.

Esse disco do MPB 4 surge neste cenário e traz canções que refletem esse período de contestação misturando um repertório tradicional com musicas também assinadas por compositores que renovavam o nosso cancioneiro, por isso nele desfilam ao mesmo tempo, Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida; Gago apaixonado, de Noel Rosa e Derramaro o gai, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas; Deixa estar, de Mauricio Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho; Candeias, de Edu Lobo; Yara bela, de Toninho Horta; Liana verde bandeira, de Ronaldo Pereira e Toninho Horta; Beco do Mota, de Milton Nascimento e Fernando Brant; Lamento, de Tom Jobim, e as politicamente corretas, O crime, de Macalé e Capinam, o antológico samba, Amigo é pra essas coisas, assinado por Aldir Blanc e Mar da tranqüilidade, de Ruy, Cynara e Aquiles.

Eis aí um trabalho que nos da uma dimensão que apesar de vivermos entre a realidade e a fantasia de um ano difícil, o Brasil conseguia produzir momentos mágicos e atemporais, o resultado desses conflitos entre o bem e o mal não esmaeceram o talento e a beleza de nossa canção e o MPB 4 soube muito bem captar esses sentimentos dispares realizando um disco fundamental para historia musical recente de nosso país. Alias o MPB 4 não é apenas mais um grupo vocal surgido nos anos sessenta mas sim e com certeza, duvido quem há de me contestar, o maior e mais importante dentre todos que apareceram na cena musical brasileira nos últimos 40 anos, sua obra é um referencial de uma época que já adentra a três gerações e o seu repertório ao longo dos anos nos revela a fina flor da musica brasileira, continuando atual e vigoroso. Vida longa, pois!

Itabuna, 2 de março de 2006.



MÚSICAS:
01) Deixa estar (Mauricio Tapajós/Hermínio Bello de Carvalho)
02) Liana verde bandeira (Toninho Horta/Ronaldo Pereira)
03) Gago apaixonado (Noel Rosa)
04) Candeias (Edu Lobo)
05) Beco do Mota (Milton Nascimento/Fernando Brant)
06) Derramaro o gai (Luiz Gonzaga/Zé Dantas)
07) O crime (Macalé/Capinam)
08) Pelo Telefone (Donga/Mauro de Almeida)
09) Mar da tranqüilidade (Ruy/Cynara/Aquiles)
10) Lamento (Tom Jobim)
11) Yara bela (Toninho Horta)
12) Amigo é pra essas coisas (Aldir Blanc)

sábado, 18 de julho de 2020

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

55 anos depois, o Musicaria Brasil relembra o álbum de estreia do cantor e compositor Paulinho da Viola

Por Luiz Américo Lisboa Junior


Rosa de Ouro (1965)

Entre os muitos acontecimentos ocorridos nos anos sessenta que mudariam a face da música popular brasileira, estão as produções de espetáculos que se tornaram antológicos, como o Opinião onde se fundia a música urbana da zona sul carioca com Nara Leão, o samba de Zé Kéti e a música nordestina representada por João do Vale. Num outro momento tínhamos um grupo de artistas que se confraternizavam em pequenas apresentações no bar Zicartola, de propriedade do sambista mangueirense Cartola e de onde sairiam novos talentos que ajudariam na maturação da música popular como o elemento cultural mais representativo daquele período. Dessas noitadas no Zicartola surgiu a idéia de se realizar um show onde essas novas promessas fossem apresentadas ao grande público juntamente com artistas já consagrados, nascia então o projeto Rosa de Ouro idealizado por Hermínio Bello de Carvalho.

Estreando em 1965 no Teatro Jovem o espetáculo Rosa de Ouro visava principalmente apresentar toda a verdadeira grandeza do samba de morro em sua manifestação mais pura. O show começava com cinco sambistas, todos vestidos de branco, usando cada um na gravata a cor de sua escola de samba. Num cenário no qual aparecia uma pequena mesa de bar, os artistas iam cantando e se identificando junto à platéia. Eram eles: Elton Medeiros, da Escola de Samba Unidos de Lucas; Jair do Cavaquinho, da Portela; Anescar, do Salgueiro; Nelson Sargento, da Mangueira e ainda da Portela o garoto Paulinho da Viola em início de carreira.

No elenco ainda tínhamos a veterana Aracy Cortes, artista que reinara absoluta no palco dos teatros da Praça Tiradentes nas décadas de vinte e trinta e que retornava as apresentações públicas depois de um longo afastamento. Porem o acontecimento mais importante do Rosa de Ouro, foi ter revelado para o Brasil uma grande intérprete recentemente descoberta por Hermínio Bello de Carvalho e que iria revolucionar os conceitos interpretativos tradicionais do samba, mostrando toda uma cadência impregnada de pureza e plena identificação com suas raízes africanas, seu nome, Clementina de Jesus.

O espetáculo ficou vários meses em cartaz no Rio e em São Paulo, onde alcançou também enorme sucesso. Tão vitorioso que dois anos depois, em 1967 retornava ao palco do Teatro Jovem com os mesmos artistas, fazendo outra temporada em São Paulo e na Bahia, onde se apresentaram no Teatro Castro Alves com o êxito de sempre.

No intuito de deixar registrada para a posteridade uma página tão importante da música popular brasileira a Odeon lançou ainda em 1965 um LP contendo os melhores momentos do show, onde podemos apreciar a performance de um Paulinho da Viola estreando timidamente e já demonstrando todo o vigor de seu talento, Aracy Cortes em impressionantes interpretações como em Ai ioiô, de Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto, música essa que foi o primeiro samba canção brasileiro e por ela gravada em 1929 na Parlophon, Rouxinóis, de Lamartine Babo e o clássico Jura, de Sinhô, por ela também gravada em 1930. Outro momento fabuloso são as interpretações de Clementina de Jesus, em Benguelê, Boi não berra, Siá Maria Rebolo e Maparema, canções de origem folclórica, que são precedidas por Clemetina, cadê voce? de Elton Medeiros que o grupo de sambistas canta chamando a rainha negra para o palco.

Reviver esses momentos do Rosa de Ouro é poder verificar a verdadeira música popular, num momento histórico em que buscava reafirmar sua tradição através de um processo de resistência cultural que iria marcar profundamente os novos rumos que seriam por ela percorridos, e que seriam fundamentais para sua afirmação como um dos elos mais importantes da formação de nossa nacionalidade.

É importante salientar que a segunda temporada do Rosa de Ouro em 1967 também foi agraciado com um LP novamente gravado na Odeon, confirmando a qualidade e a perenidade do espetáculo.


Músicas:
01- Rosa de ouro
(Hermínio Bello de Carvalho/Elton Medeiros e Paulinho da Viola)
Quatro crioulos
(Elton Medeiros/Joacyr Santana)
Dona Carola
(Nelson Cavaquinho/Norival Bahia/Walto Feitosa)
Pam pam pam
(Paulo da Portela)
02- Senhora rainha
(Heitor Villa Lobos/Hermínio Bello de Carvalho)
03- Ai ioiô
(Henrique Vogeler/Luiz Peixoto/Marques Porto)
04- Os rouxinóis
(Lamartine Babo)
05- Jura
(Sinhô)
06- Escurinho
(Geraldo Pereira)
Se eu pudesse
(Zé da Zilda)
Nem é bom falar
(Ismael Silva/Francisco Alves/Nilton Bastos)
07- Sobrado dourado
(Folclore)
Clementina, cadê você?
(Elton Medeiros)
Benguelê/Boi não berra/Siá Maria Rebolo/Maparema
(Folclore)
08- Nasceste de uma semente
(José Ramos)
09- Bate canela
(Folclore)
10- Semente do samba
(Helio Cabral)
11- Rosa de Ouro
(Hermínio Bello de Carvalho/Elton Medeiros/Paulinho da Viola)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior 


Caymmi e Seu Violão (1959)

Existem compositores que se notabilizam como próprios intérpretes de suas canções de maneira tão inconfundível e definitiva que acabam tornando-se numa coisa só, ou seja, não possibilitam espaço para que outros artistas possam interpretá-lo tão bem. Esse é o caso de Dorival Caymmi que se confunde de maneira tão plena com sua obra que um acaba sendo cúmplice do outro a ponto de não podermos diferenciar onde começa o autor e o intérprete. 

A música popular brasileira esta repleta de compositores que têm suas canções imortalizadas por outros artistas e na maioria das vezes nem sabemos a sua verdadeira autoria, porém, quando constatamos que determinada música pertence a um compositor conhecido nos admiramos e ficamos a imaginar como ele a interpretaria. 

No caso de Dorival Caymmi além da perfeita identificação entre autor e intérprete verificamos que ninguém sente como ele aquilo que fez, porque simplesmente Caymmi é a própria essência de todas as suas músicas. Quem por exemplo seria capaz de cantar tão bem as belezas do mar? Senti-la de forma tão ardente? Captar seu lirismo de maneira tão cativante? Cantá-lo com tanta emoção? Só mesmo um compositor que tivesse um profundo sentimento e interação com a natureza de sua obra e admirasse as belezas das espumas e das ondas do mar para que pudesse contar seus mistérios e segredos. Dorival Caymmi é o mar da nossa canção, profundo e belo, e o mar é o próprio Dorival Caymmi, solene, infinito e inesquecível quando dele nos aproximamos. 

A natureza com toda sua exuberância esta delineada nos versos desse poeta/cantor que traduz em poucas palavras o que muitos não conseguem explicar basta ouvir e sentir que "o mar quando quebra na praia é bonito, é bonito"... isso diz tudo! 

Quando iniciou sua trajetória Caymmi inspirou-se no mar e ele o inspirou para fazer coisas belas, foi uma ajuda mútua, e saiu cantando em versos tudo que via na linda criação da natureza e assim foi gravando seus discos, vendo os outros cantarem suas musicas, e tornando-se o rei do mar na canção popular brasileira. Faltava porem, que suas canções fossem reinterpretadas por ele da maneira como foram feitas, apenas com o violão, e assim ele quis e assim ele fez. 

Em 1959 o responsável pela direção artística da gravadora Odeon era o incansável Aloysio de Oliveira, que tinha em mente realizar um disco em que Caymmi cantasse suas canções da maneira mais simples possível, acompanhando-se somente com o violão. Contudo, foi difícil convencer a cúpula da fábrica de discos, que não acreditava no sucesso da idéia - até porque todas as músicas incluídas no repertorio do disco, exceto "O bem do mar" já tinham sido gravadas pelo próprio autor e outros cantores com acompanhamento de orquestra ou regional o que era a praxe na época. Portanto, apostar numa gravação solo seria arriscar demais. Achavam que o violão somente não daria brilho a gravação. Ficaria muito oco, vazio. 

Os argumentos de Aloysio de Oliveira, no entanto, acabaram convencendo os empresários da Odeon. E como Dorival Caymmi já havia sinalizado positivamente com a proposta de se realizar a gravação, assim foi feito. E em fins daquele ano saiu o LP, considerado uma obra prima de nossa canção popular. Caymmi estava inspiradíssimo e se supera em todas as canções, sua voz grave da um tom dramático às narrativas expressas nas letras e ao mesmo tempo nos provoca uma vontade de nos espreguiçarmos e sentirmos a brisa do mar em nosso rosto, enlevando nossos pensamentos, tornando-nos felizes, deixando a vida passar contemplando as belezas da criação divina. 

Este é um disco inigualável, definitivo, um diamante fino plenamente lapidado. A expressão máxima de um gênio que a Bahia criou, o Brasil abraçou e o mundo consagrou. E que deixou para todos nós uma frase e uma verdade inquestionável, cunhada por ele com sabedoria e sensibilidade: "quem vem pra beira do mar, ai, nunca mais quer voltar".


Músicas: 
01- Canoeiro 
(Dorival Caymmi) 
02- A jangada voltou só 
(Dorival Caymmi) 
03- Dois de fevereiro 
(Dorival Caymmi) 
04- É doce morrer no mar 
(Dorival Caymmi e Jorge Amado) 
05- Coqueiro de Itapoan 
(Dorival Caymmi) 
06- O mar 
(Dorival Caymmi) 
07- O vento 
(Dorival Caymmi) 
08- O bem do mar 
(Dorival Caymmi) 
09- Quem vem pra beira do mar 
(Dorival Caymmi) 
10- A lenda do Abaeté 
(Dorival Caymmi) 
11- Promessa de pescador 
(Dorival Caymmi) 
12- Noite de temporal 
(Dorival Caymmi)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior


Orlando Silva - Carinhoso (1959) 

Uma das tradições da música popular brasileira é a revelação de grandes cantores que no decorrer da história deixaram um legado dos mais significativos afirmando-se como verdadeiros e legítimos patrimônios culturais do país. 

Houve um tempo em que o bel canto, o dó de peito, era sinônimo de força e beleza vocal, essa característica interpretativa gerou representantes ilustres destacando-se Vicente Celestino e Francisco Alves que tiveram seu apogeu entre as décadas de vinte a quarenta do século passado. Numa época em que o rádio como meio de divulgação de música popular dava seus primeiros passos esses artistas eram tratados como grandes ídolos nacionais e lotavam praças, teatros e seus discos vendiam aos milhares. Ocorre que com o surgimento de Mário Reis no final dos anos vinte até a segunda metade da década de trinta, quando ele se retira precocemente da vida artística, o dó de peito apesar de manter-se em alta divide seu prestígio em virtude da maneira descontraída e intimista que Mario empregou à sua interpretação. 

Por outro lado nos anos trinta tínhamos um mercado artístico promissor, pois além da força do radio, as gravadoras também apostavam em novos talentos a fim de formar um time de astros e estrelas que justificasse o investimento realizado e conseqüentemente a garantia de seus lucros. Vivíamos um momento fértil de produção artística e a musica popular era o segmento que mais crescia. Em virtude disso a cada hora surgiam novos valores, alguns alcançavam um êxito relativo e com pouco tempo sumiam de circulação, outros se mantinham em ascensão e tornavam-se grandes ídolos. Dentre esses últimos destacou-se Orlando Silva, um jovem humilde trocador de ônibus que tinha um timbre de voz encantador, afinadíssimo e uma sedução interpretativa sem precedentes.

Levado à presença de Francisco Alves em 1934 pelo compositor e boêmio Bororó para que este o ouvisse, o Rei da Voz logo se encantou com o talento do jovem rapaz conseguindo para ele uma oportunidade em seu programa na Rádio Cajuti, abrindo-lhe as portas para o mercado musical e conseqüentemente à carreira artística. Daí em diante o nome de Orlando Silva só fez crescer, gravou um disco na Columbia e em 5 de julho de 1935 gravava seu primeiro disco na R.C.A. Victor com as músicas No kilometro 2, de J.Aimberê e Para Deus somos iguais, de J. Cascata e J. Barcellos. 

A partir de então inicia uma brilhante carreira de sucesso jamais igualada em toda a história da música popular brasileira. Com apenas três anos de sua estréia na Victor grava até 1938 um total de 37 discos com 73 músicas, praticamente todas de grande êxito, como, Ùltima estrofe e Apoteose de amor, de Cândido das Neves; Chora cavaquinho, de Waldemar de Abreu; Dama do cabaré, de Noel Rosa; Alegria, de Assis Valente e Durval Maia; Abre a janela, de Roberto Martins e Arlindo Marques Junior; Caprichos do destino, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz; Nada além, de Custódio Mesquita e Sady Cabral; Enquanto houver saudade, de Custódio Mesquita e Mário Lago; e Balalaika, de George Moran e O. Fernandes. 

Em 1938 após uma vitoriosa excursão a São Paulo onde protagonizou cenas impressionantes de popularidade e inéditas no Brasil, retorna ao Rio de Janeiro e ao se reapresentar no programa de Oduvaldo Cozzi da Rádio Nacional este o apresenta como O cantor das multidões, em alusão ao sucesso alcançado em São Paulo, firmando definitivamente o slogan que o identificaria pelo resto da vida. 

No ano de 1959 em comemoração aos seus vinte e cinco anos de carreira a R.C.A. Victor lança um disco contendo parte significativa de sua produção gravada entre 1937 e 1942. É um disco antológico com um repertório da mais alta qualidade, nele temos um intérprete com a voz um pouco mais grave daquela do início de carreira, mas conservando o timbre que o transformou no maior cantor brasileiro de todos os tempos. Ao regravar os antigos sucessos, Carinhoso de Pixinguinha e João de Barro; Lágrimas, Cândido das Neves; Mágoas de Caboclo, J. Cascata e Leonel Azevedo; Amigo Leal, Benedito Lacerda e Aldo Cabral; Súplica, Otávio Mendes, Jose Marcílio e Déo; Rosa, Pixinguinha; Lábios que beijei e Juramento Falso, J. Cascata e Leonel Azevedo; Aliança partida, Benedito Lacerda e Roberto Martins; Sinhá Maria, René Bittencourt, Jardineira, Humberto Porto e Benedito Lacerda e lançar o samba Aos pés da cruz, de Marino Pinto e Zé Gonçalves, Orlando Silva reafirmou seu grande talento. O LP foi um grande sucesso dando um novo impulso a sua carreira.

Sobre o disco destacamos alguns trechos do critico e pesquisador Ary Vasconcelos em sua coluna de O Jornal: "Estamos diante a nosso ver do mais importante lançamento de 1959 em matéria de música popular brasileira. (...) Orlando Silva reafirmou suas velhas qualidades que comoveram o Brasil há cerca de vinte anos. Para nós, Orlando Silva é o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Sua voz sob o aspecto da beleza, não encontra absolutamente rival, pelo menos no Brasil. (...) Mas Orlando Silva não é apenas cantor dotado de insuperável beleza e voz é um intérprete dos maiores que já possuímos. (...) A maleabilidade de sua voz é extraordinária e Orlando que é um intérprete perfeito de música romântica é um sambista da melhor categoria. (...) Não canta nunca o mesmo verso da mesma maneira, sendo notável como se atrasa e se antecipa ao acompanhamento sem nunca perder o ritmo. Embora a Victor não tenha dado a Orlando o acompanhamento ideal, permitindo a entrada no estúdio do acordeão em nenhuma gravação antiga de Orlando se recorreu a esse instrumento (bom apenas para musicas sertaneja ou dançante), não poderemos negar a Orlando a nossa cotação máxima: 5 estrelas."

A partir daí, ele que pertencia ao elenco da Odeon e havia sido cedido para a realização deste LP, retorna a sua antiga e primitiva gravadora reiniciando uma série de gravações e lançando inúmeros discos de grande sucesso comercial.

Ao morrer em 1978 Orlando Silva já havia entrado para a história da cultura brasileira influenciando com seu canto grandes nomes da música popular que nele se espelharam como modelo de virtuosismo vocal e interpretativo, a exemplo de João Gilberto e Caetano Veloso.

Este LP, portanto, comemorativo de seu jubileu de prata, reafirma em letras maiúsculas o merecido título de O cantor das multidões alem de glória máxima de nossa canção popular.


Músicas: 
01) Carinhoso (Pixinguinha/ João de Barro) 
02) Lágrimas (Cândido das Neves) 
03) Mágoas de caboclo (J. Cascata/Leonel Azevedo) 
04) Amigo leal (Benedito Lacerda/Aldo Cabral) 
05) Spuplica (Otavio Mendes/Jose Marcílio/Déo) 
06) Rosa (Pixinguinha) 
07) Lábios que beijei (J. Cascata/Leonel Azevedo) 
08) Juramento falso (J. Cascata/Leonel Azevedo) 
09) Aliança partida (Benedito Lacerda/Roberto Martins) 
10) Aos pés da cruz (Marino Pinto/Zé Gonçalves) 
11) Sinhá Maria (René Bittencourt) 
12) A Jardineira (Humberto Porto/Benedito Lacerda)

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior 

A Música de Edu Lobo por Edu Lobo (1964)

Quando no início dos anos sessenta a Bossa Nova já dava seus primeiros passos rumos a uma carreira internacional bem sucedida e alguns de seus componentes já fincavam raízes permanentes ou temporárias nos Estados Unidos, aqui no Brasil o cenário se abria para uma nova geração que surgia no bojo do movimento renovador. Eram jovens compositores que influenciados pelos realizadores da Bossa Nova iriam seguir um caminho próprio mas que revelavam em sua poética e em suas melodias a forte influencia daqueles que modificaram e modernizaram esteticamente a musica brasileira. 

O país vivia um momento de larga produção cultural comandada por rapazes de talentos múltiplos que queriam mostrar sua cara e fazer história, seja no teatro, no cinema ou na música, projetando seus idealizadores. Fazendo um contraponto com o movimento renovador e de redescoberta de nossa nacionalidade ocorrido com a Semana de Arte Moderna de 1922 com seus representantes como Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Heitor Villa Lobos, Manuel Bandeira dentre outros, a nova geração que aparece no cenário a partir de 1964 vem também com uma proposta de discutir e idealizar um Brasil que vivia um momento de vanguarda dentro do cenário cultural internacional. 

Aqui, contudo, não estamos querendo comparar as propostas dos dois cenários, mas apenas demonstrar que foi a partir da força criadora da Bossa Nova que se proporcionou em nosso país o surgimento de uma grande quantidade de talentos em diversas áreas da atividade cultural na mesma proporção ou ate mesmo em número maior do que aqueles pioneiros dos anos vinte. Por outro lado podemos também afirmar que após o período que vai de 1930 a 1945 onde foram revelados os compositores e interpretes que formaram a base da musica popular do Brasil, a nova geração oriunda da Bossa Nova e que adentra os anos sessenta representa outro momento de grande transformação e consolidação da nossa canção popular como veículo de entretenimento e parceira das profundas transformações sociais que o país estava atravessando. Dentre esses realizadores iremos encontrar o jovem Eduardo de Góes Lobo, filho do compositor e radialista Fernando Lobo e que iria se tornar nacionalmente conhecido como um dos nossos mais sólidos criadores na área musical, assinando-se como Edu Lobo. 

Em dezembro de 1964 ele entraria no estúdio da Rio Som no Rio de Janeiro para iniciar as gravações de seus primeiro LP a ser lançado pela gravadora Elenco de Aloysio de Oliveira que estava formando um time de primeiríssima qualidade com novos artistas que se revelavam no cenário nacional. O disco intitulado A música de Edu Lobo por Edu Lobo, revela um compositor notável, de harmonias sofisticadas com um repertório de canções autorais além de parceiros destacados e seria lançado no primeiro semestre no ano seguinte. 

Com Vinicius de Moraes, ele nos brinda com Arrastão, música vencedora do I Festival de Música Popular realizado pela TV Excelsior de São Paulo em 1965 e defendida com brilhantismo pela também estreante Elis Regina. Influenciado pela cultura popular numa visão de engajamento criativo de forte conotação social, une-se a Ruy Guerra e produz canções como Canção da terra, Reza e Aleluia além de Resolução com Lula Freire. Penetrando no universo do teatro que se realizava nos Centro Populares de Cultura ligados a UNE compõe com Oduvaldo Viana Filho para a peça Os Azeredos e os Benevides, a canção Chegança, com Vinicius de Moraes assina ainda Zambi música cujo tema central gira em torno de Zumbi dos Palmares e inspirou a realização da peça Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. O disco traz ainda Borandá, música de protesto incluída com muito sucesso no repertório do show Opinião e as líricas Canção do amanhecer, também com Vinicius de Moraes, Réquiem para um amor e Em tempo de adeus com Ruy Guerra e As mesmas histórias. 

Marco inicial de uma trajetória pessoal que se iniciou timidamente em 1962 este primeiro LP de Edu Lobo acompanhado pelo Tamba Trio, responsável por todos os arranjos e formado por O'Hanna, na bateria, Bebeto, na flauta e Luis Eça, no piano, nos revela o nível artístico e os primeiros passos de um dos mais talentosos e fundamentais autores da música popular brasileira. 


Músicas: 
01- Borandá 
(Edu Lobo) 
02- Resolução 
(Edu Lobo e Lula Freire) 
03- As mesmas histórias 
(Edu Lobo) 
04- Aleluia 
(Edu Lobo e Ruy Guerra) 
05- Canção da terra 
(Edu Lobo e Ruy Guerra) 
06- Zambi 
(Edu Lobo e Vinícius de Moraes) 
07- Reza 
(Edu Lobo e Ruy Guerra) 
08- Arrastão 
(Edu Lobo e Vinícius de Moraes) 
09- Réquiem para um amor 
(Edu Lobo e Ruy Guerra) 
10- Chegança 
(Edu Lobo e Oduvaldo Viana Filho) 
11- Canção do amanhecer 
(Edu Lobo e Vinícius de Moraes) 
12- Em tempo de adeus 
(Edu Lobo e Ruy Guerra)

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior


MUTANTES - 1969


Nos anos cinqüenta a turma da juventude transviada invadia o espaço público com suas atitudes rebeldes embaladas numa musica com um ritmo dançante acompanhadas por guitarras elétricas, ou violões elétricos que deixavam todos num grande frenesi. No inicio apesar da atitude contestadora de rompimento com padrões conservadores traziam em suas letras contraditoriamente mensagens açucaradas, muitas com um certo toque adolescente, quase infantil. No Brasil esse ritmo batizado de Rock and roll, teria sua primeira geração formada por nomes como os irmãos Tony e Cely Campelo, Rony Cord e Sergio Murilo. Suas canções em sua grande maioria eram versões de sucessos americanos que agradavam em cheio os jovens que se identificavam com a sua energia e filosofia de vida, mascando chicletes, andando de lambretas, os cabelos com topetes e brilhantina e vestidos com blusões de couro. Essa rebeldia ingênua caracterizou um tipo de comportamento social que daria novos rumos a musica popular brasileira, mesmo que alguns não a considerassem como tal, já que na mesma ocasião disputavam a preferência do público com os artistas da Bossa Nova. Seja como for depois do surgimento do rock nossa canção popular jamais seria a mesma.

A partir os anos sessenta os brotos comandavam parcela significativa da cena musical tupiniquim, e após terem se inspirado em seus ídolos da década anterior chegavam com toda a força para marcar presença, desse modo, conjuntos, compositores e intérpretes como Renato e Seus Blue Caps, Snakes, The Jet Blacks, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Jerry Adriany e Wanderleia, provocaram uma verdadeira febre entre os jovens empunhando guitarras e compondo uma trilha musical que tinha em suas letras uma alienante mais romântica mensagem que sacudiu o Brasil com o nome Jovem Guarda. Vivíamos então um cenário de incertezas políticas e sociais, contudo, todas essas questões que inquietavam a nação passaram ao largo e os jovens mandaram ver, principalmente quando explodiu no planeta a bomba Beatles, ai, tudo era iê iê iê, apesar da guerra às guitarras promovida pelas brilhantes cabeças pensantes da MPB, um time de compositores e intérpretes que faziam com talento inigualável o contra ponto da alegria rebelde da turma que achava que tudo “era uma brasa, mora!”.

Este cenário rico de valores artísticos estaria portanto vulnerável à chegada a cada momento de novos e arrebatadores personagens para compor a geléia geral brasileira, e assim em 1967 a Tropicália liderada por Caetano Veloso e Gilberto Gil tomam conta da cena e com eles surge então um grupo de rock com uma proposta bem diferente das melodiosas, infantis/rebeldes canções da Jovem Guarda, trata-se de Os Mutantes, o nosso primeiro conjunto tipicamente rock and roll que vieram para bagunçar o coreto desse circo chamado Brasil. Formado em São Paulo pelos irmãos Arnaldo e Sergio Dias Batista e por Ria Lee Jones, estrearam no programa O pequeno mundo de Ronnie Von, na TV Record em 1966 e no ano seguinte foram convidados para acompanhar Gilberto Gil na musica Domingo no parque, no III Festival de Musica Popular da TV Record. 
Seu talento conquistou todo o grupo de baianos que lideravam a cena musical e passaram então a acompanhá-los em apresentações e gravações, participando inclusive do legendário LP Tropicália ou panis et circensis, lançado em 1968, ano em que gravaram também seu primeiro disco pela gravadora Polydor em que registraram canções de sua autoria e também de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Bem. Aliás o ano de 1968 foi de grandes conquistas para Os Mutantes, recebendo o Troféu Imprensa como o melhor conjunto musical e o convite para se apresentarem no MIDEM, o Mercado Internacional de Discos e Editores Musicais realizado em Cannes, na França.

O caminho portanto estava aberto para o grupo e em 1969 surge um novo LP novamente tendo como titulo o nome do conjunto. Nesse disco são lançados vários sucessos permanentes como Dom Quixote e Caminhante noturno, de Arnaldo Batista e Rita Lee e 2001, de Tom Zé e Rita Lee. A irreverência, uma das suas mais fortes características verifica-se em Dom Quixote, que inclui na introdução uma citação a ópera Aída, de Giuseppi Verdi terminando com um deboche e uma citação a Chacrinha e sua barulhenta buzina. Já em Caminhante noturno, há uma mistura de sons distorcidos, misturando vaias e a voz de um robô, numa alusão ao Robô B9 da serie Perdidos no Espaço, gritando, “Perigo! Perigo! Rota de colisão! É proibido proibir” acompanhado de um fundo sonoro gravado da platéia do Marcanzinho durante a apresentação de Caetano Veloso no III Festival Internacional da Canção do ano anterior, gritando em coro e aos berros, Bicha! Bicha! 

Com um som moderno, inventivo e livre de amarras, Os Mutantes promoveriam diversas inovações neste LP gravando por exemplo a musica Algo mais, composta pelo grupo e que era nada menos do que um jingle publicitário para uma campanha da Shell o que traria constrangimentos a gravadora Philips, mas que acabou consentindo com a sua inclusão. Os Mutantes experimentavam sempre e tinham em Rogério Duprat e Cláudio César os responsáveis pela sonorização dos impressionantes efeitos produzidos nas suas canções. 

Com toques geniais e muito além do seu tempo tupiniquim, Os Mutantes realizaram um tipo de som que marcaria de maneira irreversível todos os outros grupos que iriam surgir na cena musical brasileira, já que foram os pioneiros não somente nos arranjos e no toque vanguardista de suas musicas como também na irreverência visual de suas apresentações. O nome já esta na história e a alegria compromissada desses jovens lá nos idos dos anos de chumbo, fizeram mais amenas as agruras de tempos difíceis demonstrando com muito talento que a criatividade brazuca pode realizar uma antropofagia cultural, comendo do lado de cima do equador suas impressões e ruminando uma linda e leve loucura nacional, com todos os adjetivos positivos que a nossa louca criatividade pode produzir.

Músicas: 
01) Don Quixote (Arnaldo Batista/Rita Lee)
02) Não vá se perder por aí (Raphael Vilardi/Roberto Loyola)
03) Dia 36 (Johnny Dandurand/Mutantes)
04) 2001 (Rita Lee/Tom Zé)
05) Algo mais (Mutantes)
06) Fuga N 2 (Mutantes)
07) Banho de lua (B. de Filippi/F. Migliacci/Versão Fred Jorge)
08) Rita Lee (Mutantes)
09) Qualquer bobagem (Tom Zé/Mutantes)
10) Caminhante noturno (Arnaldo Batista/Rita Lee)

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior 


Adoniram Barbosa (1974)


A história da formação do povo brasileiro tem origem no processo de miscigenação ocorrido durante a colonização portuguesa que nos primeiros anos de sua permanência em nossas terras ao relacionar-se com as índias nativas proporcionou o surgimento da nossa civilização, depois vieram os negros trazidos da África para a triste missão de serem escravizados, tivemos também contato com holandeses e franceses e assim muitos outros povos vieram mais tarde abrigar-se em nosso solo constituindo famílias cujos descendentes apesar de em muitos casos manterem a fidelidade à sua cultura acabaram incorporando-os ao clima tropical brasileiro dando origem ao nosso maior patrimônio, a pluralidade racial e cultural cujo convívio harmônico nos diferencia da maioria dos povos do planeta. 

Inegavelmente a contribuição estrangeira na formação da nação brasileira é tão importante e necessária para a compreensão de nosso modo de ser, ou seja, para explicar o nosso comportamento que não se consegue mais separar as tradições e os hábitos daqueles que aqui se estabeleceram e criaram raízes, pois acabaram tornando-se todos brasileiros, cúmplices de uma nação mestiça que adquiriu maturidade cultural própria sabendo com maestria perceber as diversas influencias a que foi submetido, incorporá-las ao seu cotidiano e dar-lhe um caráter definitivo nacional, mérito talvez dificilmente igualado por outros povos. Eis aí o mistério pátrio, a unificação pluriracial invejada por muitos e motivo de orgulho para todos nós. 

Seja nas artes plásticas, no teatro, cinema ou na música popular a presença estrangeira foi um dos componentes fortes de consolidação da cultura brasileira, pois seus protagonistas nacionalizaram-se a tal ponto que o Brasil passou a ser a sua pátria, outros foram os filhos de imigrantes, portanto, brasileiros, mas que não tirariam de seu olhar a cultura ancestral, contudo, ela precisaria ser transformada num modelo tipicamente nacional com características próprias. Quem soube muito bem se aproveitar da sua tradição importada e nacionalizá-la criando um regionalismo urbano na musica popular que marcaria definitivamente a identificação do povo paulista fruto dessa miscigenação foi Adoniran Barbosa, ou João Rubinato, seu verdadeiro nome, nascido em 6 de agosto de 1910 na cidade de Valinhos interior paulista filho dos imigrantes italianos Fernando e Emma Rubinato. 

Sua vida foi inteiramente dedicada a arte atuando no radio, cinema, teatro, televisão e na musica como compositor, esta a atividade que lhe deu mais notoriedade. Foi ao seu tempo o cronista das ruas, becos e avenidas da cidade de São Paulo, percebendo o calor de sua gente, suas transformações, a contribuição estrangeira em seu crescimento, enfim, Adoniram foi o porta-voz sonoro de uma cidade que ele viu no século vinte crescer e tornar-se orgulho nacional pela sua pujança econômica e a força de todos que nela foram conquistar um lugar ao sol e construir a sua riqueza. Poucos como ele conseguiram captar a essência paulistana dando-nos a impressão que seu espírito permanece ainda em cada canto, em cada monumento, no olhar e andar de seus moradores, enfim, na sua alma, assim Adoniram e São Paulo acabaram fundindo-se num so corpo, numa unidade indivisível. 

Depois de tornar-se uma dessas raras unanimidades quando a glória já lhe beijava os pés após quase cinqüenta anos de atividade artística era chegada a hora de ele mesmo registrar suas próprias musicas imortalizadas já há muito por outros intérpretes. Assim em 1974 a convite do produtor musical J. B. Botezeli, o Pelão, foi convidado para gravar um disco na Odeon, em suas instalações paulistas. Acompanhado por um time de excelentes músicos como, Xixa no cavaquinho, Marçal na percussão, Miranda e Theo de Barros no violão, o LP teria arranjos e regências do maestro Jose Briamonte que procurou dar um caráter simples aos arranjos a fim de preservar a naturalidade do compositor, a única exceção por ele concedida foi no samba canção Bom dia tristeza, de Adoniram e Vinicius de Moraes, incorporando uma introdução de violinos e violoncelos.

Após a gravação o disco foi submetido a censura federal, estávamos no governo Médici e os “intelectuais” da censura, acharam por bem cortar duas musicas, Samba do Arnesto e Um samba no Bixiga, alegando que a primeira era permeada de erros de português, o que ia de encontro a política de erradicação de analfabetismo realizada através do Mobral e a outra por causa de uma breve citação aos militares considerada por eles insultuosa. Absurdos de uma ditadura preconceituosa e diminuta em densidade intelectual. Mas eles detinham o poder e apesar dos apelos do produtor o disco acabou saindo sem essas canções, e sim com o seguinte repertório: Abrigo de vagabundos, As mariposas, Saudosa maloca, Iracema, Já fui uma brasa, com Marcus César, Trem das onze, Prova de carinho, com Herve Cordovil, Acende o candieiro, Apaga o fogo Mané, Véspera de natal, Deus te abençoe, de Peteleco e a já citada Bom dia tristeza, com Vinicius de Moraes. 

O lançamento deu-se em julho de 1974 e o LP tornou-se um clássico da musica brasileira aclamado pela imprensa. Dentre os inúmeros comentários favoráveis destaca-se o do critico Jose Ramos Tinhorão publicada em sua coluna do Jornal do Brasil de 1 de agosto de 1974, quando afirma que “para quem sabe apreciar um bom prato regional em termos de música popular, não há melhor oportunidade do que esta. Adoniran é o que há de mais puro em sabor paulistano, em matéria de musica popular”.

Aí esta, portanto um disco fundamental da musica popular brasileira, pois, Adoniran Barbosa com sua arte representa e reafirma a nossa democrática pluralidade cultural contribuindo para nos conhecermos cada vez mais e melhor. 



MÚSICAS: 
1) Abrigo de vagabundos (Adoniran Barbosa) 
2) Bom dia tristeza (Adoniran Barbosa/Vinicius de Moraes) 
3) As mariposas (Adoniran Barbosa) 
4) Saudosa maloca (Adoniran Barbosa) 
5) Iracema (Adoniran Barbosa) 
6) Já fui uma brasa (Adoniran Barbosa/Marcus César) 
7) Trem das onze (Adoniran Barbosa) 
8) Prova de carinho (Adoniran Barbosa/Hervé Cordovil) 
9) Acende o candieiro (Adoniran Barbosa) 
10) Apaga o fogo Mane (Adoniran Barbosa) 
11) Véspera de natal (Adoniran Barbosa) 
12) Deus te abençoe (Peteleco)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior


MARTINHO DA VILA (1969)



A vida do cidadão comum, o brasileiro simples que trabalha, se esforça para criar seus filhos, colocá-los numa boa escola, pagar suas contas em dia, esta cada vez mais difícil, não apenas pelo flagelo do desemprego mas também pela descrença generalizada de que o que importa é a desonestidade, ou seja, o ganho fácil e sem escrúpulos. Esse desencanto que abala a estima de nosso povo vem chancelada pelos poderes executivo e legislativo que nos últimos anos avalizaram a corrupção e a permissividade aos maus costumes, e, como o judiciário não cumpre seu papel como deveria devido a sua assumida lentidão, temos então, um quadro desolador onde o cidadão se vê completamente desprotegido e sem voz para reinvidicar democraticamente uma mudança de postura, pois, quem deveria salvaguardar os direitos e valores morais da nação simplesmente ignoram esse principio, daí se instalando o caos e a desesperança.

Chego à conclusão de que o Brasil parece o país do já foi, ou seja, quase se tornou uma grande nação, tivemos historicamente momentos brilhantes, outros nem tanto, mas pelo menos nos orgulhávamos do país que construíamos, e esse sentimento de nostalgia que em grande parte toma conta da população é a demonstração inequívoca dessa constatação. Perdemos o bonde da história e a sociedade adoeceu de tal modo que nos da a impressão de estar morrendo e levando consigo toda a nossa esperança em ver um país mais ético, menos violento, com autoridades que se respeitem, e um elevado padrão moral. 

É triste constatarmos a gangrena do nosso tecido social, contudo, a esperança tem que continuar como instrumento de redenção de um povo que precisa regenerar-se e seguir adiante com altivez, caso contrário as conseqüências serão piores do que as que temos hoje, e num quadro desse não me arrisco a nenhum prognóstico por que será devastador. O que será de nossos filhos e netos? Fazemos a nossa parte dando-lhes todas as condições necessárias para um bom proceder e procuramos incutir-lhes valores de respeito, cidadania, a fim de tornarem-se pessoas de bem, porém são eles cercados a todo momento por padrões de comportamento e exemplos que caminham no sentido diametralmente oposto, obrigando-os, portanto, a terem que redobrar a vigilância a fim de se tornarem futuramente os protagonistas de nossa assepsia social. A missão é grande, mas, necessária e permanente.

Muito bem! O texto esta num tom de desabafo porque ele se faz necessário, mas, também pelo fato de querer demonstrar, que quando se quer, se consegue transformar uma sociedade, tendo como espelho positivo o exemplo que certas pessoas dão ao longo de suas vidas, sabendo enfrentar com dignidade todas as dificuldades que se pôs à prova em seu caminho, conseguindo sair vencedoras, fazendo de sua biografia um modelo de humildade, talento, respeito ao próximo e as suas tradições, contribuindo para a sua felicidade, dos seus e de todos que se espelham no seu exemplo, estabelecendo um efeito multiplicador que só traz benefícios para a nossa sociedade. Esse é o verdadeiro cidadão, o brasileiro vitorioso, seja na carreira que abraçou e o tornou famoso, ou no anonimato, mas que contribui sobremaneira para que possamos ser cada vez mais felizes. 

Esse brasileiro típico, lutador e guerreiro, no campo da musica popular moderna tem um nome, o carioca, nascido em 12 de fevereiro de 1938, Martinho Jose Ferreira, ou Martinho da Vila, para o Brasil e o mundo. Compositor e poeta de grande talento, já aos quinze anos fazia seu primeiro samba de terreiro, Piquenique, para a escola de samba Aprendizes da Boca do Mato e em 1957 aos dezenove anos inicia uma surpreendente produção de 12 sambas enredo para a escola. Serviu ainda ao exercito, fez um curso de contabilidade, mas seguiu mesmo a vocação de sambista. Participou de festivais tornando-se mais conhecido do grande público. O crescente respeito ao seu talento o levou a gravar o primeiro disco na RCA Victor em 1969 tendo seu nome no título. O resultado foi um dos maiores fenômenos de popularidade já registrados por um compositor de samba, e seguramente o primeiro sambista a se tornar recordista em venda de discos, desse modo da noite para o dia o Brasil ficou sabendo quem era o notável compositor carioca e Martinho da Vila elevou o samba a um patamar de respeitabilidade que já vinha crescendo mas que se consolidou com o seu sucesso.

Neste LP de estréia ele nos brinda com canções que se tornaram referências permanentes no clássico repertório do samba, a exemplo de Carnaval de ilusões; Quatro séculos de modas e costumes; O pequeno burguês; Iaiá do cais dourado; Casa de bamba; Quem é do mar não enjoa; Tom maior e Pra que dinheiro. É difícil acreditar que num único disco existam tantos sucessos, e que após trinta e sete de lançados eles continuem sendo cantados pelo povo, e não somente pelos seus contemporâneos, mas também pela nova geração. Trata-se portanto de um disco histórico e fundamental para a compreensão do processo de aceitação e maturação do samba como patrimônio de nossa nacionalidade. 

Com seu jeito manso meio preguiçoso de cantar Martinho da Vila impôs seu estilo, renovando o samba enredo, dando forma e estrutura ao partido alto, demonstrando sua devoção pelos cantos africanos e promovendo ao longo de sua trajetória uma verdadeira cruzada em defesa da arte negra do Brasil, tudo isso sem perder a sua naturalidade, o espírito de camaradagem que lhe é peculiar, mantendo a tradição do samba, tornando-se referencia e sendo reverenciado por tantos quanto enxergam nele, o brasileiro que deu certo, o brasileiro que devemos ser. 


Músicas: 
01) Boa noite (Martinho da Vila)/Carnaval de ilusões (Martinho da Vila/Gemeu)/Caramba (Martinho da Vila)
02) Quatro séculos de modas e costumes (Martinho da Vila)
03) O pequeno burguês (Martinho da Vila)
04) Iaiá do cais dourado (Martinho da Vila/Rodolfo)
05) Casa de bamba (Martinho da Vila)
06) Amor, pra que nasceu? (Martinho da Vila)
07) Quem é do mar não enjoa (Martinho da Vila)
08) Brasil mulato (Martinho da Vila)
09) Tom maior (Martinho da Vila)
10) Pra que dinheiro (Martinho da Vila)
11) Parei na sua (Martinho da Vila)/Nhem, nhem, nhem (Martinho da Vila/Cabana)
12) Grande amor (Martinho da Vila)

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior

Cartola (1974)


Muitas vezes quando a velhice vem se aproximando as pessoas começam a se sentirem menos prestigiadas surgindo problemas como a depressão da terceira idade. Mas sabemos que a idade física apesar de suas limitações não nos impede que possamos seguir adiante com vigor e uma mente arejada ajustando-se aos novos tempos e continuando a sermos úteis a sociedade, mesmo porque a idade mental é a que conta pois nos deixa permanentemente sintonizados com as transformações do tempo sem deixar-nos abater pelo fantasma da inércia e do comodismo. Quantas pessoas no mundo inteiro continuam produtivas com 60, 70, 80 anos? Os exemplos são muitos e se multiplicam cada vez mais, porque a cada dia buscam-se novas maneiras de se manter uma qualidade de vida saudável e estimulante, para isso contamos com a ajuda da avançada medicina que disponibiliza os recursos necessários, contudo o fator principal que move todo esse entusiasmo é a nossa própria vontade de viver, onde percebemos que somadas as experiências acumuladas ao longo dos anos construímos um patrimônio que nos deixa mais seguros e dispostos a continuar contribuindo para o progresso da humanidade. 

As dificuldades vividas fazem parte de nossa jornada e devemos superá-las com galhardia, pois sabemos que nada acontece por acaso, e a superação das provas é a demonstração que amadurecemos e conseguimos seguir adiante em nossa tarefa redentora. Os exemplos de perseverança e determinação na lida cotidiana são inúmeros, porém, vamos nos ater a apenas um, mas antes uma pergunta: O que faria uma pessoa que conseguiu o respeito e a credibilidade de sua comunidade e de repente inicia um processo de declínio e se vê obrigado a lavar carros nas calçadas para manter a sobrevivência? Alguns entrariam em depressão ou se resignarão sem luta e outros verão naquilo um momento transitório, mas necessário e continuam com fé e esperança que dias melhores virão. 

Foi assim que aconteceu com o compositor carioca Angenor de Oliveira, o Cartola, depois de conhecer a fama foi até considerado morto desaparecendo por completo do cenário artístico, no entanto, não se deu por vencido e foi sobreviver como podia, lavando e enxugando automóveis na rua. Até que um dia o cronista Sergio Porto, o Stanislau Ponte Preta o redescobriu, começaria assim uma nova vida cheia de esperanças e conquistas a realizar. Disposto a superar as dificuldades não se intimidou seguindo adiante e aos 65 anos de idade quando muita gente já perdeu as esperanças de viver ele entra nos estúdios de gravação e nos dias 20 e 21 de fevereiro e 16 e 17 de março de 1974 grava seu primeiro LP produzido pela etiqueta Marcus Pereira incluindo novas e antigas canções. 

Demonstrava que continuava vivo, vigoroso, disposto a tirar a diferença dos anos de extrema dificuldade e reaparece com um dos mais belos trabalhos da música popular brasileira. O talento esta ali, intacto, lapidado pela vida, a sensibilidade expressa nas melodias e nas letras de suas canções retratam o que há de mais autentico em nossa canção. Músicas e poemas inspirados, construídos com a intuição de alguém que não teve escolaridade formal mas aprendeu na luta do dia a dia a ver apenas as coisas belas da existência, aí esta a diferença. 

Contando com um competente naipe de músicos destacando-se Canhoto do cavaquinho, Copinha na flauta e Dino no violão sete cordas, Cartola desfila dentre outras um rosário de canções que já se tornaram clássicas de nosso cancioneiro, como Disfarça e chora, Sim, Acontece, O sol nascerá, Alvorada, Tive sim, Corra e olhe o céu e Quem me vê sorrindo. 

Fundador da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, a quem deu as suas cores definitivas o verde e rosa, Cartola foi um dos baluartes da música brasileira, com a realização deste seu primeiro disco abria um caminho para outros que foram produzidos com igual dedicação e talento, demonstrando que não se tem idade para recomeçar, basta ser digno, confiar em seus próprios méritos e ter humildade suficiente como o antídoto necessário para viver em plenitude. Este disco é reafirmação desses valores! 

Faixas:
01 - Disfarça e chora 
(Cartola e Dalmo Casteli) 
02 - Sim 
(Cartola e Oswaldo Martins) 
03 - Corra e olhe o céu 
(Cartola e Dalmo Casteli) 
04 - Acontece 
(Cartola) 
05 - Tive sim 
(Cartola) 
06 - O sol nascerá 
(Cartola e Elton Medeiros) 
07 - Alvorada 
(Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Belo de Carvalho) 
08 - Festa da vinda 
(Cartola e Nuno Veloso) 
09 - Quem me vê sorrindo 
(Cartola e Carlos Cachaça) 
10 - Amor proibido 
(Cartola) 
11 - Ordenes e farei 
(Cartola e Aluízio Dias) 
12 - Alegria 
(Cartola)

domingo, 18 de agosto de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior


Nelson Sargento - Sonho de um Sambista (1979)


Existem pessoas que nasceram para brilhar, outras que ficaram fadadas ao anonimato e aquelas que se tornam importantes e ficam entre essas duas posições, adoradas por poucos, aclamadas por muitos, desconhecidas da maioria. Esta necessidade que muitos artistas possuem de manterem-se em evidencia parece mais uma tentativa desesperada de alimentar seu ego e tentar diminuir suas carências, pois, têm gente que para aparecer faz de tudo, se submete as mais vexatórias situações não conseguindo viver sem um fotógrafo por perto ou ver sua cara estampada nas revistas ou em programas de TV. É um prazer neurótico que infelizmente faz parte do nosso cotidiano e a todo o momento convivemos com essa excessiva exposição de “celebridades”. No campo da música isso se da de forma também desenfreada, e a maioria dos grandes astros de hoje não fazem jus ao tamanho de sua exposição já que seu produto artístico não corresponde em equivalência ao seu sucesso. 

Ocorre que nem sempre a fama é prerrogativa para avaliação do conjunto da obra de um determinado compositor, intérprete ou grupo musical, é preciso cautela para não se deixar levar pela emoção do momento e ter um posicionamento crítico que busque a isenção. Porém como vivemos numa época de prazeres fúteis dominado pelo materialismo e pelo consumo, o imediato passa a ser mais importante do que qualquer outra coisa que demande médio ou longo prazo, pois as pessoas só estão interessadas no aqui e agora.

É uma pena verificar que essa é uma tendência consolidada e que só tende a crescer, produzindo na sociedade uma diminuição cada vez maior do seu tempo de reflexão, pois o pragmatismo está entranhado como um valor e a palavra cada vez mais distante das pessoas, chego mesmo a pensar que a palavra morreu, o diálogo encontra-se em processo de extinção e a robotização do homem já é uma realidade. Matamos o ser e incorporamos a criatura.

Se formos parar para pensar nestas poucas reflexões poderemos crer que elas podem não atingir o seu intuito, contudo, acredito os leitores não ficarão indiferentes, pelo menos durante a leitura desse texto. Vamos então voltar à questão inicial e falar de um artista que se enquadra naquela posição mediana, adorado por poucos, admirado por muitos e desconhecido pela maioria, trata-se do sambista Nelson Sargento, compositor de grandes méritos que conserva sua essência justamente por não se deixar levar pela neurose da fama, mas consciente de seu valor para a cultura nacional. Esse homem de 82 anos é um baluarte do samba juntamente com tantos outros que como ele ainda mantêm viva uma tradição onde o mais importante é traduzir em versos e melodias um tipo de sentimento pátrio cada vez mais distante, utilizando uma linguagem popular/rebuscada traduzindo o verdadeiro caráter de nossa gente, ou seja, o primitivo ser brasileiro que infelizmente só é lembrado de modo estereotipado pelos que desconhecem nossa gênese malandra/heróica/sobrevivente/lírica.


Nelson Sargento é um artista completo, pois alem de compositor é ator e pintor, nunca teve a divulgação e o reconhecimento à sua altura, porém, tenho certeza que ele não liga pra isso, pois no fundo sabe de sua importância e contribuição a cultura brasileira. Em 1979 gravou seu primeiro LP, Sonho de um sambista, na gravadora Eldorado interpretando o melhor de seu repertório. Sua poética mistura ironia, humor e momentos de lirismo, como, “A terra é quem da a vida para a flor, num coração sincero é que desponta um grande amor” (A noite se repete); “Os amores que arranjo morrem prematuros, é uma luta tremenda pra sobreviver, eu não tenho passado, presente ou futuro, mesmo assim lhe asseguro que quero viver” (Muito tempo depois); “Se eu voltar a teus braços vou repetir meus fracassos tudo aquilo que passou, eu sinto-me tão alegre é justo que eu não me entregue a teus caprichos amor” (Minha vez de sorrir); “Desabrocham as flores nos campos, nos jardins e nos quintais, a primavera é a estação dos vegetais” (Primavera); “Destruamos nosso lar paraíso que fizemos com carinho e amor, pois hoje ele é simplesmente residência da dor” (Por Deus por favor); “O nosso amor é tão bonito, ela finge que me ama e eu finjo que acredito, nosso falso amor é tão sincero isto me faz bem feliz, ela faz tudo que eu quero, eu faço tudo que ela diz” (Falso amor sincero). 

O repertório do disco ainda inclui Triangulo amoroso; Sonho de um sambista; Infra estrutura; Lei do cão e dois grandes sambas, Falso moralista e Agoniza mais não morre, este último um grito de alerta premonitório contra a descaracterização do samba por ele já observado e que veio a tornar-se realidade anos depois com o advento da febre dos pagodeiros oxigenados. Portanto, nada mais adequado do que terminar este breve comentário sobre Nelson Sargento e seu primeiro LP com os belos e verdadeiros versos deste que é a síntese do seu compromisso com as suas/nossas tradições.

Samba agoniza, mas não morre, alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro, samba, negro forte, destemido
Foi duramente perseguido, na esquina, no botequim, no terreiro
Samba, inocente, pé no chão, a fidalguia no salão
Te abraçou, te envolveu, mudaram toda tua estrutura
Te impuseram outra cultura e você não percebeu.

Músicas: 
01) Triangulo amoroso (Nelson Sargento)
02) Falso moralista (Nelson Sargento)
03) Agoniza mas não morre (Nelson Sargento)
04) A noite se repete (Nelson Sargento)
05) Muito tempo depois (Nelson Sargento)
06) Minha vez de sorrir (Nelson Sargento/Batista da Mangueira)
07) Sonho de um sambista (Nelson Sargento)
08) Infra estrutura (Nelson Sargento)
09) Primavera (Nelson Sargento/Alfredo Português/Jose Bispo)
10) Por Deus por favor (Nelson Sargento)
11) Falso amor sincero (Nelson Sargento)
12) Lei do cão (Nelson Sargento)

sábado, 10 de agosto de 2019

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior

Moraes Moreira - Lá vem o Brasil descendo a ladeira (1979)


Uma das características do povo brasileiro é sua vocação para ser alegre ou como dizem os mais radicais a sua imensa capacidade de rir de sua própria desgraça, nos últimos tempos temos vivenciado essa certeza, pois diante de tanta lama incrustada no governo e em varias instituições, o que mais caracterizou e confirmou essa fama foi a dança da pizza levada a cena no teatro dos horrores e da desfaçatez em que se transformou o Congresso Nacional.

Mas se o país mergulha em trevas a sua população em sua esmagadora maioria não aprova os desmandos daqueles que detêm o poder, indigna-se a cada instante, sofre um abalo em sua auto estima, chega a pensar que chegamos no limite das nossas reservas morais e que a nossa democracia nada mais é do que o mostruário da podridão reinante e da impunidade que nos cerca a cada dia. Contudo, não vamos aqui ser catastróficos, afinal de contas ainda é melhor vivermos em liberdade, pois, assim podemos com nosso voto e com a plena convicção de nossa consciência deletar de uma vez das nossas vidas personagens tão espúrios, além de exercer nosso papel de cidadão fiscalizando outras instancias de poder para que elas cumpram sua obrigação constitucional e não se deixem contaminar pela bandalheira reinante.

Vamos agora deixar um pouco o lado sombrio de nossas vidas e falar de alegria que em nosso país se traduz em duas palavras, carnaval e futebol, pois sem essas duas coisas não sobreviveríamos, afinal elas nos dão o lenitivo necessário para seguirmos adiante. O carnaval, nossa maior festa, já teve momentos de maior brilho, hoje em dia reduziu-se praticamente a quatro estados, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Bahia. Nos dois primeiros a única coisa que restou das antigas tradições são as escolas de samba, que atualmente não desfilam mais com belos sambas enredo e sim com marchas enredo devido ao andamento acelerado que lhe foi imposto em função do limite de tempo de seu desfile, mesmo assim, ainda é repleto de brilho e encantamento. No Recife o frevo continua reinando ao lado dos maracatus e outras manifestações folclóricas amparadas por uma forte participação popular. Já na Bahia o carnaval elitizou-se de tão maneira que a rua deixou de ser do povo, pois este ficou espremido entre as calçadas vendo os trios elétricos e os blocos passarem com seus foliões turistas enquanto os poderosos aplaudem o desfile em seus caríssimos camarotes, portanto o carnaval do povo na Bahia decididamente ficou no passado.

Outro aspecto importante para ser salientado é a musica carnavalesca, antigamente, sambas e marchas rivalizavam-se na preferência popular, nos dias que correm ambos os gêneros desapareceram dando lugar com preponderância ao axé music, ou seja, ao lixo, do lixo, do lixo. Porem, em um passado recente ainda vivíamos a alegria dos carnavais baianos com liberdade, sem camarotes e congestionamentos de trios elétricos, com o povo cantando e dançando espontaneamente embalado por lindas canções que retratavam infelizmente o epílogo de nossas canções carnavalescas. 

Partiremos agora para um outro aspecto do que nos leva a escrever estas linhas, o motivo de considerarmos o LP de Moraes Moreira, Lá vem o Brasil descendo a ladeira, lançado em 1979 como um disco fundamental da musica popular brasileira. Em primeiro lugar trata-se de um trabalho eminentemente carnavalesco fruto do epílogo da musica carnavalesca a que me referi, não apenas da Bahia, apesar de sua evidente e natural baianidade, mas do Brasil de um modo geral. Músicas como Chão da praça; Eu sou o carnaval; Feito Muhammad Ali; Assim pintou Moçambique; Pelas capitais, além da faixa titulo, ouvidas hoje em dia nos causam uma certa melancolia quando pensamos que fizeram parte de um tempo recente e que não volta mais, de um período em que a violência, o comercio desenfreado, a mídia fabricando e bancando artistas praticamente inexistiam e o som dessas canções não se limitavam apenas as território baiano, faziam pular o país inteiro, pois eram executadas a exaustão em todos os rincões de nosso território. Claro que os defensores do axé vão dizer que o Brasil também pula ao som de suas “musicas’, porém, há um aspecto que não se pode negar, que é a grande mídia que se fez em torno dessa musica, retire-a e ela não vingará, além do mais, não quero nem tecer comentários a respeito de méritos qualitativos, afinal, um acorde de Moraes Moreira vale por centenas de axés”. 

Em 1979 nosso herói estava no auge de sua capacidade criativa, era absoluto no carnaval baiano, o país inteiro se admirava de seu talento e seus discos eram tocados durante os doze meses não se restringindo a um período apenas. 
O Brasil via ali um exemplo típico da sobrevivência da musica carnavalesca através de um compositor que reinventava o carnaval com dignidade, não o deixando cair na banalidade. Se os clássicos de Lamartine Babo, João de Barro e outros compositores ainda sobrevivem nos bailes de salões carnavalescos que ainda restam, e que estão em processo de extinção, a musica de Moraes Moreira há também de continuar ecoando como clássicos modernos de nossa festa maior, infelizmente os últimos.

Um disco que ao se ouvir traz-nos a triste certeza de que fomos tragados em muito pouco tempo pelo artificialismo e mediocridade, o que só faz reforçar a sua importância, pois onde quer que estejamos ao ouvir uma de suas canções teremos a certeza que ali o Brasil pulsa mais forte, íntegro, inteiro, traduzindo com sinceridade a nossa real capacidade de rirmos de nos mesmos, só que com orgulho e não de desespero e melancolia.


Músicas: 
01) Lá vem o Brasil descendo a ladeira (Moraes Moreira/Pepeu Gomes)
02) Pelas capitais (Moraes Moreira/Jorge Mautner)
03) Eu sou o carnaval (Moraes Moreira/Antonio Risério)
04) O prometeu (Moraes Moreira/Cícero Lima)
05) Coração nativo (Moraes Moreira/Armandinho/Fausto Nilo)
06) Som moleque (Moraes Moreira/Fausto Nilo)
07) Valentão (Oswaldinho/Moraes Moreira)
08) Chão da praça (Moraes Moreira/Fausto Nilo)
09) Feito Muhammad Ali (Moraes Moreira/Abel Silva)
10) Choro pequenino (Moraes Moreira)
11) Assim pintou Moçambique (Moraes Moreira/Antonio Rosério)

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