
Por Tito Guedes
Aquilo parecia mentira, coisa inventada, chocante, na mesma medida em que era um acontecimento mais previsĂvel que as promoçþes de Natal no fim do ano. Estamos falando da morte do roqueiro-mor do Brasil, Raul Seixas. Encontrado morto pela empregada em seu apartamento no centro de SĂŁo Paulo hĂĄ exatos 30 anos, no dia 21 de agosto de 1989, ele jĂĄ era Raul Seixas, um mito da mĂşsica nacional, consagrado pela loucura irreverente e pelas mĂşsicas geniais. Dois dias antes, havia chegado Ă s lojas aquele que acabou se tornando seu Ăşltimo ĂĄlbum: A panela do diabo, gravado em conjunto com Marcelo Nova, com quem jĂĄ havia realizado uma turnĂŞ de 50 shows pelo paĂs.
O fato era chocante porque Raul jĂĄ era um Ădolo consagrado, e as pessoas costumam esquecer que Ădolos consagrados tambĂŠm morrem. Mas era tambĂŠm Ăłbvio, porque as frestas de humanidade que o Ădolo deixava transparecer revelavam um homem cujo estilo de vida nĂŁo poderia ser considerado “saudĂĄvel”, sendo o vĂcio das drogas o mais determinante nesse aspecto.
No entanto, como ĂŠ a sina de todos os artistas (em especial dos artistas geniais), quem entrou pra HistĂłria foi o Ădolo Raul Seixas, o Maluco Beleza, o homem que ĂŠ atĂŠ hoje chamado de “Pai do Rock” brasileiro. O que, ao lado daquela que ĂŠ chamada de “mĂŁe” da mesma criatura, Rita Lee, ajudou a conferir uma personalidade definitiva ao rock´n´roll tupiniquim, dando o passo que a Jovem Guarda nĂŁo conseguiu dar.
Aliås, quem pensa na imagem do Raul Seixas que entrou para a posteridade, o guru anårquico obcecado por ocultismos e seguidor de Aleister Crowley, talvez não saiba (e nem imagine) que foi justamente na Jovem Guardaque ele teve seu berço musical e profissional.
Apaixonado por Elvis Presley, Raul naturalmente se apaixonou pelo movimento que ajudou a traduzir (muitas vezes, literalmente), o rock americano dos anos 1950 para o Brasil. Foi assim que, em 1962, criou, ainda em Salvador, o grupo The Panthers, que depois virou Raulzito e os Panteras. A banda acabou ganhando renome na Bahia e chegou a excursionar com Jerry Adriani , sendo depois convidada por ele para gravar um LP no Rio de Janeiro, que se chamou tambĂŠm Raulzito e os Panteras (1967).
Foi a ponte necessĂĄria para que, em 1970, Raulzito se tornasse o mais novo produtor da CBS (Columbia Broadcast System), habitat natural dos jovem guardistas. LĂĄ, produziu discos do prĂłprio Jerry Adriani e de outros roqueiros, como o “maldito” SĂŠrgio Sampaio. Apesar de ter sido um exĂmio produtor, a carreira nĂŁo se alongou muito porque, em 1971, ele decidiu gravar, sem autorização de ninguĂŠm da gravadora, o disco Sociedade da GrĂŁ-Ordem Kavernistaapresenta sessĂŁo das 10, que reuniu tambĂŠm SĂŠrgio Sampaio, MĂriam Batucada e Edy Star. O projeto vanguardista e anĂĄrquico se propunha a captar os desdobramentos da cultura hippie no Brasil. O disco, claro, foi completamente ignorado por pĂşblico e crĂtica, mas serviu para transformar Raulzito em Raul Seixas, o Profeta. Aquele que, em 1972, subiu ao palco do VII Festival Internacional da Canção para cantar uma mĂşsica que misturava inglĂŞs com portuguĂŞs, rock com baiĂŁo:
Let me sing, let me sing
Let me sing my rock´n´roll
Let me sing, let me swing
Let me sing my blues and go!
Pouco depois, em 1973, lançou seu disco solo de estreia (considerado por muitos sua obra-prima), Krig-Ha, Bandolo!, que revelou clåssicos definitivos de seu repertório (Mosca na sopa, Metamorfose ambulante, Al Capone, Ouro de tolo) e inaugurou a parceria com Paulo Coelho. Juntos, os dois se tornaram uma das mais icônicas (certamente a mais irreverente) duplas de compositores brasileiros.
Ao longo da carreira relativamente curta, mas muito intensa, o compositor Raul Seixas deixou letras inquietantemente arrebatadoras. SĂŁo letras irreverentes, muitas vezes irĂ´nicas ou debochadas - afinal, o humor sempre foi seu aliado. Mas em todas elas, repletas de metĂĄforas poderosas e alegorias inteligentes, hĂĄ sempre um subtexto, uma mensagem crĂtica que faz a gente querer escutar a mĂşsica de novo, prestando atenção. Ou entĂŁo, sĂł faz a gente pensar: “o que ĂŠ que ele quis dizer com isso?”.
Somado a essas letras, o mĂşsico Raul Seixas tambĂŠm passou longe de ser careta. Unindo seu interesse pela Jovem Guarda, o rock e seu lado baiano, brasileiro, Raul quase sempre optava por arranjos estranhos e iconoclastas. Sua grande atitude roqueira nĂŁo veio por solos de guitarras sensacionais, mas por ter misturado sua mĂşsica a outros gĂŞneros, como o baiĂŁo, o brega (Tu ĂŠs o MDC da minha vida), o bolero (SessĂŁo das 10) e atĂŠ ritmos afro-religiosos (Mosca na sopa). Claro que na maioria das vezes essas “homenagens” tinham uma finalidade mais irĂ´nica do que verdadeiramente reverencial, mas isso sĂł aumenta a sua faceta roqueiro-irreverente.
O certo ĂŠ que o grande mĂŠrito de Raul Seixas foi ter sido popular. Tomando a descrição de um roqueiro ligado a filosofias obscuras, letras metafĂłricas, com arranjos esquisitos e iconoclastas, o mais natural ĂŠ que pensemos logo em um artista cult, de nicho, palatĂĄvel apenas para ouvidos “privilegiados”. Raul, nĂŁo. Ele conseguiu ser popular, tocar nas rĂĄdios, ter suas mĂşsicas cantadas por multidĂľes atĂŠ hoje. Talvez essa façanha (mais difĂcil do que parece), possa ser explicada por seu background de produtor (alguĂŠm que precisa necessariamente ter faro comercial), ou talvez sĂł por sua genialidade mesmo. O fato ĂŠ que ele soube, como ninguĂŠm, unir o cult ao pop, conseguindo ser popular sem limitaçþes de pĂşblico ou influĂŞncias.
Contudo, para alĂŠm de todas as definiçþes e categorizaçþes que possam ser feitas em torno da obra de Raul Seixas, para alĂŠm da imagem de “maluco beleza”, “excĂŞntrico” ou “mĂstico”, o mais apropriado talvez seja dizer que ele foi um libertĂĄrio. Mais do que qualquer outra coisa, Raul Seixas cantou a liberdade. E a cantou em suas mais variadas formas: a liberdade individual (Metamorfose ambulante, Maluco beleza), a liberdade transcendental (Gita), a liberdade amorosa (A maçã, Medo da chuva) e a liberdade social, mandando Ă s favas os preceitos burgueses em cançþes como Sociedade alternativa, Ouro de tolo e Novo aeon.
Hoje, passados 30 anos de sua morte, sua mĂşsica permanece relevante e atual. E nĂłs continuamos ouvindo embasbacados sua obra, tentando entender por que ele ĂŠ tĂŁo fascinante e por que ĂŠ tĂŁo difĂcil ser indiferente a ele. Mas se alguĂŠm estĂĄ achando que vai encontrar uma resposta Ăşnica, definitiva, cientĂfica, ĂŠ melhor desistir logo e ficar com uma frase dita pelo prĂłprio Raul que explica (sem explicar absolutamente nada) a força estranha de sua mĂşsica:
“Na verdade, eu sou um ator. E sou tĂŁo bom ator, que finjo ser compositor e poeta e todo mundo acredita.”
Nada mais Raul Seixas.
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