terça-feira, 24 de setembro de 2019

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*




Caetano Veloso

A Tropicália está completando meio século. Suas propostas marcaram profundamente o modo da Arte no Brasil. Sua "consciência de subdesenvolvimento" afirmava a ruptura entre cool e popular, vanguarda e primitivismo, cultura de massa e de elite economicamente privilegiada. Sua utopia inconfessa mirava na queda do muro entre a senzala e a casa grande, diante de nossa histórica condição de colônia e periferia do capitalismo.
Como disse Caetano Veloso, a Tropicália negava "folclorizar o subdesenvolvimento ["se intimidar diante de si mesmo"] para compensar dificuldades técnicas. Ora, sou baiano, mas a Bahia não é só folclore. E Salvador é uma cidade grande. Lá não tem apenas acarajé, mas também lanchonetes e hot dogs" (entrevista, 1967). E completou: "rechaço o que me parecem tentativas ridículas de neutralizar as características esquisitas desse monstro católico tropical, feitas em nome da busca de migalhas de respeitabilidade internacional mediana" (Verdade tropical, 1997).
Essa abertura à recepção e ao contato com o outro, estes lances de alteridade, esse tornar-se outro, base de nossa "tradição da ruptura", faz-nos destacar que a Tropicália pode ser interpretada como uma revisão crítica da Antropofagia oswaldiana: "Só me interessa o que não é meu", anotou Oswald de Andrade em seu "Manifesto Antropófago" (1928).
Aliás, foi também Caetano Veloso quem escreveu que "a ideia do canibalismo cultural servia-nos, aos tropicalistas, como uma luva. Estávamos "comendo" os Beatles e Jimi Hendrix. Nossas argumentações contra a atitude defensiva dos nacionalistas encontravam aqui uma formulação sucinta e exaustiva." (Verdade tropical). Para Caetano, a Antropofagia "é antes uma decisão de rigor do que uma panaceia para resolver o problema de identidade do Brasil. (...) A antropofagia, vista em seus termos precisos, é um modo de radicalizar a exigência de identidade (e de excelência na fatura), não um drible na questão." (idem).
Para o professor Benedito Nunes, "como símbolo da devoração, a Antropofagia é, a um tempo, metáfora, diagnóstico e terapêutica: metáfora orgânica, inspirada na cerimônia guerreira da imolação pelos tupis do inimigo valente apressado em combate, englobando tudo quanto devemos repudiar, assimilar e superar para a conquista da nossa autonomia intelectual; diagnóstico da sociedade brasileira como sociedade traumatizada pela repressão colonizadora que lhe condicionou o crescimento, e cujo modelo terá sido a repressão da própria antropofagia ritual pelos Jesuítas, e terapêutica, por meio dessa reação violenta e sistemática, contra os mecanismos sociais e políticos, os hábitos intelectuais, as manifestações literárias e artísticas, que, até à primeira década do século XX, fizeram do trauma repressivo, de que a Catequese constituiria a causa exemplar, uma instância censora, um Superego coletivo". ("A antropofagia ao alcance de todos").
Parece-nos que o movimento orientado por Caetano compreendia bem isso. Seja no gesto dessacralizador e demolidor (satírico), bem como nos comportamentos criativos sobre a tênue linha entre o óbvio e o exótico, a Tropicália devolveu a poesia ao corpo. Recalcados por anos de imposição grafocêntrica e patriarcal, a poesia e o corpo foram liberados numa catarse terapêutica tonificante e, portanto, perigosa. Ao causar pane no sistema, armada sobre o ser e não ser, na ambiguidade, na indefinição, na transvaloração dos gêneros, dos sexos, das etnias, a Tropicália incomodou. Nossa convalescença intelectual não soube lidar com tamanha ousadia. A rebelião estava - como sempre está - na linguagem, no modo de usar, na transformação permanente do tabu em totem.
Vale lembrar o causo narrado por Ney Matogrosso: "Eu fui na única sorveteria de Brasília, dentro do único hotel de Brasília, e quando estou na sorveteria, o Caetano sai inteiro vestido de cor de rosa. Rosa era uma cor que jamais um homem colocaria na viradinha da meia do pé esquerdo. Ele estava de rosa do pescoço ao pé, porque ele saiu com o figurino do show. Eu nunca tinha visto. Era uma afronta! Mas o impacto que ele provocou dentro de mim foi positivo, então o que eu pensei foi "poxa, se eu fosse artista, queria provocar isso". Fiquei todo tocado, mexido, estimulado. Se eu fosse artista, queria provocar algo assim. Eu não queria copiar aquilo, mas fui aceso por aquilo". O ano era 1964, ditadura militar. O que aconteceu desde então, todos sabemos: verdade e ação contra o messianismo patriarcal fascista.
Faço essas considerações prévias para comentar a canção intitulada "Caetano Veloso" de Johnny Hooker (Coração, 2017). Não é preciso muito esforço para perceber que se trata de uma homenagem ao organizador da Tropicália. A pergunta "Você já foi a Bahia?" glosada por Dorival Caymmi é respondida por Hooker já na abertura da letra: "Eu nunca fui a Bahia / Eu nunca fui a Salvador". O sujeito da canção de Hooker não precisa ir a Bahia, Caetano Veloso é a síntese da Bahia que interessa.
Se em "Vamo comer Caetano", pela ambiguidade dos versos e mistura de ritmos, Adriana Calcanhotto resgatava o tom erótico, jocoso e corrosivo da Tropicália - "Vamos comer Caetano / Pela frente / Pelo verso / Vamos comê-lo cru" -, em "Caetano Veloso" a mensagem direta e laudatória - pouco antropófaga, nada canibal - não exige a imaginação do ouvinte. Talvez a agoridade exaltada da Tropicália esteja presente em versos como "Dançar contigo me dá Caetano / Amanhã cedo a gente pode esquecer". Vê-se que, diferente de Calcanhotto, que se apropria da vitalidade criativa de Caetano, Hooker mantem o cânone caetânico sagrado, intocável, tabu.
Com um pouco mais de atenção (e boa vontade) até poderíamos relacionar os versos de Hooker - “Mas um dia que a gente não troca calor / Não me preocupa / Alguém por aqui me mostrou / Caetano Veloso” - com os versos do sujeito exilado em “Itapuã” (1991): "Itapuã, quando tu me faltas, tuas palmas altas / Mandam um vento a mim, assim: Caymmi". Portanto, Caymmi seria para Hooker o que Caymmi é para Caetano: calor, presença, pertencimento. Porém, sem outros elementos de uma canção do exílio, tal interpretação soa forçada.
Se para Caetano Veloso "o tropicalismo começou dolorosamente". E foi "o desenvolvimento de uma consciência social, depois política e econômica, combinada com exigências existenciais, estéticas e morais que tendiam a pôr tudo em questão" (Verdade tropical), para o sujeito da canção de Hooker o banzo - esse "sentimento de melancolia em relação à terra natal e de aversão à privação da liberdade praticada contra a população negra no Brasil na época da diáspora africana", como diz Wikipedia - é enfrentado com toques de ijexá.
De fato, a canção "Caetano Veloso", o personalismo que o título sugere, insere-se no projeto “narciso pintado em ouro” de Hooker. Sua fossa solar, tão bem apresentada no disco anterior - Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito! (2015) -, cheia de pragas, juras e ex-votos do amor romântico em primeira pessoa do singular, finda espelhar demais. Sem refração crítica tropicalista e caetânica.
Nesse sentido, Hooker é mais eficaz antropofagicamente na derradeira canção do disco. "Escandalizar", assim como "Desbunde geral", do disco anterior, é uma ode à felicidade urgente e devora "Chuva, suor e cerveja" (1977), de Caetano Veloso. Além de evocar a “bruta flor do querer”, citação de “O quereres” (1984).
Ao escrever aqui sobre "Desbunde geral", observei que "no Brasil, desbundar é resistir, é engendrar gestos antiprovincianos e ser contra a mentalidade conservadora e domesticadora dos corpos. É ainda a recusa dos discursos populistas, é criticar os projetos de tomada de poder, diante da certeza da falência do sistema. O desbundado faz do desbunde a crítica como resistência, a resistência como desvio, o desvio como enfrentamento". É aqui que Hooker consegue dá o salto crítico carnavalizante (o exótico óbvio) que a Tropicália impulsionou.


***

Caetano Veloso
(Johnny Hooker)


Eu nunca fui a Bahia 
Eu nunca fui a Salvador 
Mas um dia que a gente não troca calor 
Não me preocupa 
Alguém por aqui me mostrou 
Caetano Veloso 

Eu tô chegando 
Tira aquele pé de trás 
Bate aquele banzo 
Que eu já vou me levantar 
Que eu já tô me levantando 

Dançar contigo me dá Caetano 
Amanhã cedo a gente pode esquecer









* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

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