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terça-feira, 18 de setembro de 2018

MÚSICO LANÇA RELEITURAS DE NAÇÃO ZUMBI FEITAS COM SINTETIZADOR CONSIDERADO 'PAI' DA MÚSICA ELETRÔNICA

Carlos Trilha, tecladista do Los Sebozos Postizos, usou um sintetizador analógico dos anos 1970 para dar vida ao projeto Moogbeat
Por: Emannuel Bento 

O minimoog, versão compacta do moog, foi lançado em 1970. 

Não é preciso ter vivido os anos 1980 para ouvir sucessos de bandas como Depeche Mode, Eurythmics e New Order e ser transportado diretamente para os clubes noturnos daquela época. Por trás dessas sonoridades misteriosas e envolventes, havia um importante artefato para a cultura pop: o minimoog - sintetizador analógico considerado "pai" da música eletrônica como conhecemos hoje. 

O tecladista Carlos Trilha sempre foi fascinado pelo instrumento. Tornou-se tão íntimo das batidas retrôs que resolveu lançar um álbum recriando faixas da Nação Zumbi com o sintetizador. Trilha, por sinal, é integrante da banda Los Sebozos Postizos, projeto paralelo da Nação, com música de Jorge Ben Jor.

Moogbeat: Nação Zumbi para Minimoog, disponível nas plataformas digitais, apresenta nove faixas do grupo pernambucano, incluindo clássicos como Meu maracatu pesa uma tonelada, Quando a maré encher, Blunt of Judah e Futura.Nos dedos fluídos do catarinense, que já trabalhou com Legião Urbana, Marisa Monte e Erasmo Carlos, os clássicos do manguebeat ganharam uma roupagem inédita e nostálgica, soando como sucessos dos primórdios da música eletrônica ou até mesmo trilhas sonoras de filmes de ficção científica dos anos 1970-1980.


“No universo da música, o grande trunfo do minimoog foi poder criar sons que são impossíveis de serem realizados acusticamente. É um instrumento com possibilidades infinitas, mas com a limitação de fazer apenas um único som de cada vez”, explica Carlos Trilha, em entrevista ao Viver. “Todo tecladista ligado em síntese sonha possuir um, porém é muito difícil de encontrá-lo à venda e ainda funcionando".

O projeto com as canções da Nação Zumbi nasceu a partir da amizade que o tecladista construiu com os membros do grupo. O pontapé foi a música Meu maracatu pesa uma tonelada. “Fui totalmente fisgado pelo som e pensei: 'Esses graves no moog seriam um terremoto'.”

Para realizar a "tradução eletromagnética", Carlos teve que identificar cada elemento dentro do turbilhão sonoro do manguebeat, reproduzindo-os manualmente no minimoog. Um verdadeiro desafio: só para finalizar Meu maracatu, foram dois meses. “Fiz tudo em segredo. Quando terminei, percebi que havia surgido algo novo e artisticamente interessante. Uma decodificação em síntese analógica do maracatu, do peso das alfaias”, avalia.


O resultado também agradou Pupillo, baterista que foi o primeiro integrante da Nação a ouvir o trabalho. "Ele me chamou de ‘doido’ e sugeriu que eu desenvolvesse um álbum inteiro neste formato", relembra Carlos. As outras faixas foram escolhidas de forma um tanto aleatória, de acordo com temas, sonoridades ou simplesmente pelo desafio, como no caso de Quando a maré encher.

Para Pupillo, o projeto de Carlos soa como um álbum lançado por Walter Carlos entre o final dos anos 1960 e os anos 1980: "Ele remonta esse quebra-cabeça com maestria e a sensibilidade de quem enxerga o possível e eficaz diálogo entre a raiz africana da Nação Zumbi e esse instrumento, com sonoridade atemporal e possibilidades infinitas", elogia.

Para divulgar o Moogbeat, Trilha prepara um show batizado de Concerto para sintetizadores. Armado com um "cockpit" de sintetizadores, sequencers e drummachines, irá apresentar releituras da Nação Zumbi e versões retrô-futuristas de Vangelis, Heitor Villa-Lobos, Jean Michel Jarre, Carlos Gomes e Kraftwerk.


PILARES

Embora o trabalho do músico desperte curiosidade por criatividade e ousadia, a música eletrônica já era um dos pilares do manguebeat difundido por Chico Science e Fred 04, juntamente com o maracatu, o rock e o hip hop. O álbum de Carlos reacende como a versatilidade do sintetizador foi (e ainda é) importante para esse movimento - e tantos outros gêneros ao redor do mundo. Confirma que o cosmopolitismo musical não tem barreiras geográficas ou temporais.

sexta-feira, 9 de março de 2018

DOIS ANIMAIS NA SELVA SUJA DA RUA (NAÇÃO ZUMBI)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

MÚSICA FRUTO DE PARCERIA ENTRE NAÇÃO ZUMBI E BAIANASYSTEM GANHA VIDEOCLIPE; ASSISTA

"Alfazema" foi lançada às vésperas do carnaval deste ano


Clipe foi lançado nesta quinta-feira. Foto: Reprodução/Youtube


A parceria entre o grupo BaianaSystem e os pernambucanos da Nação Zumbi, traduzida na faixa Alfazema, lançada às vésperas do carnaval deste ano, teve videoclipe divulgado nesta quinta-feira (22). Dirigida pela dupla Filipe Cartaxo e Filipe Bezerra, a produção foi gravada nas ruas de Salvador, com captação de várias manifestações populares, em especial no último dia 2 de fevereiro, quando é celebrada a figura de Iemanjá na capital baiana. 

As duas bandas estão de show marcado em Pernambuco e, portanto, fica a expectativa de que a parceria possa ser levada ao palco. No dia 6 de abril, no Centro de Convenções, em Olinda, eles tocam junto com o grupo O Rappa. 

Depois de lançar o disco Radiola NZ Vol. 1, inteiramente de covers, a banda pernambucana planeja lançar neste ano um novo álbum só de inéditas. Será a primeira empreitada autoral desde 2014. Outro produto previsto para 2018 é o próximo disco da carreira solo do guitarrista Lúcio Maia, que já havialançado os álbuns Homem binário (2007) e Mundialmente anônimo: O magnético sangramento da existência (2010).
 

Fonte: Diario de Pernambuco
 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

NAÇÃO ZUMBI APRESENTA RADIOLA DE CLÁSSICOS - RADIOLA N\Z VOL.1 / REFAZENDA




A essa altura, Gilberto Gil já é quase candidato a Orixá, e o clássico Refavela vem sendo celebrado Brasil afora por alguns de seus filhos musicais e de sangue. Somando nesse zeitgeist, a Nação Zumbi retoma a conexão com o mestre, iniciada nos tempos de Chico Science. 

Refazenda é primeiro single do novo álbum, Radiola NZ, composto totalmente por versões pessoais de músicas importantes na história da banda e que será lançado pelo selo Babel Sunset, no dia 8 de dezembro. 

Num encontro frutífero com o maestro Letieres Leite e seus comparsas da Orquestra Rumpilezz, cuja relação com a obra de Gil é profunda, a Nação encontra um elemento de sua alquimia musical que andava mais discreto em anos recentes. Tropical e colorido, pop sem deixar de ser roots.

Palmas pra eles: refazer Refazenda não é pra qualquer um.

Rodrigo Brandão
Novembro de 2017 

Jorge dü Peixe: voz
Dengue: baixo
Lúcio Maia: guitarra
Pupillo: bateria e tambor
Toca Ogan: percussão
Gustavo da Lua: tambor
Tom Rocha: tambor e percussão
Lettieres Leite: arranjo de metais
André Becker: flauta, flautim e sax alto
Leo Rocha: sax, tenor e flauta
Vinicius Freitas: sax barítono
João Teoria: trompete II e flugel
Rudney Machado: trompete I e flugel
Gilmar Chaves: trombone baixo

“Refazenda” foi produzida pela Nação Zumbi.
Gravada no Totem Estúdio, em Fortaleza-CE, por Yuri Kalil.
Metais gravados por Tadeu Mascarenhas no estúdio Casa das Máquinas, em Salvador-BA.
Mixada e masterizada por Daniel Carvalho.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O RAPPA E NAÇÃO ZUMBI MARCAM SHOW EM PERNAMBUCO

Banda carioca apresenta turnê do DVD Acústico gravado em Brennand


A banda carioca vai dar pausar na carreira por tempo indeterminado a partir de fevereiro de 2018. Foto: Facebook/Reprodução


A banda O Rappa anunciou show com a Nação Zumbi em Pernambuco. O grupo apresenta a turnê do DVD Acústico Oficina Francisco Brennand gravado no Recife, no dia 29 de setembro, no Classic Hall, em Olinda. Na mesma noite, sobem ao palco os pernambucanos Jorge Du Peixe (vocal), Lúcio Maia (guitarra), Alexandre Dengue (baixo), Pupillo (bateria) e Toca Ogan (percussão) da Nação Zumbi. O valor dos ingressos e o início das vendas não foram definidos pela organização do evento.

A banda carioca vai dar pausar na carreira por tempo indeterminado a partir de fevereiro de 2018. Eles anunciaram a interrupção em comunicado no Facebook. "Chegou a hora de dizer que vamos parar e, desta vez, sem previsão de volta. A boa notícia é que vamos terminar esta turnê. Os shows estão confirmados até fevereiro de 2018. Esperamos ver todos nossos fãs nestes shows. Fiquem ligados na nossa agenda. O nosso muito obrigado a cada um de vocês pelo carinho e dedicação de sempre", diz texto assinado por Marcelo Falcão, Marcelo Lobato, Lauro Farias e Xandão Meneses.

Gravado na Oficina de Cerâmica Francisco Brennand, no Recife, o CD e DVD Acústico Oficina Francisco Brennand foi dirigido pelo cineasta recifense Lírio Ferreira (Baile perfumado). O álbum é composto por 17 músicas, sendo quatro inéditas, como Uma vida só, e hits dos álbuns 7 vezes (2008) e Nunca tem fim (2013).


Fonte: Diário de Pernambuco

quarta-feira, 14 de junho de 2017

NAÇÃO ZUMBI NA EUROPA


A Nação Zumbi embarca, em julho, para uma nova turnê na Europa. No ano passado, a banda tocou no Festival de Montreux junto com o The Young Gods.

Abaixo as datas e cidades confirmadas até agora:

19/07 – Genebra – Musiques en Été – Participação especial de Franz Treichle (The Young Gods)
21/07 – Amarante – MIMO Portugal
22/07 – Londres – The Garage
23/07 – Berlim – YAAM
28/07 – Paris – New Morning (Show Los Sebosos Postizos)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

ROCK IN RIO ANUNCIA NEY MATOGROSSO COM NAÇÃO ZUMBI TOCANDO SECOS E MOLHADOS

Por Bruno Eduardo



Ney e Nação Zumbi: parceria vai acontecer no Palco Sunset 


A organização do Rock in Rio anunciou as primeiras atrações do Palco Sunset, que é conhecido por gerar encontros inusitados entre artistas de vários segmentos na parte da tarde. No dia 22 de setembro acontecerá um encontro inédito e que marca duas gerações da música brasileira. A mistura do vozeirão e extravagância de Ney Matogrosso se confundirá com o caldeirão de influências de Nação Zumbi, banda consagrada nos anos noventa. A atração foi desenhada a dedo pelo diretor artístico Zé Ricardo, que sabia da vontade de Ney em tocar com Nação desde 2012, quando o artista estava em turnê com "Atento aos Sinais". Para o público, o mais arrebatador deste encontro será o resgate de Secos e Molhados, grupo da década de 70 que trazia Ney como um dos vocais e que será reverenciado pelos artistas no Sunset. 

Desde 1974 os fãs não ouvem mais um show inteiro com canções de Secos e Molhados. Uma época que deixou saudades e que irá ganhar uma nova roupagem a partir de agora. Estamos fazendo um resgate desta história, que terá a voz original de Ney Matogrosso com arranjos musicais de Nação Zumbi. Isso será incrível, garante Zé Ricardo convidando o público a acompanhar de perto este momento. 


Entre as novidades que o público poderá ouvir no Rock in Rio será a apresentação da faixa exclusiva que Ney Matogrosso acaba de gravar com Nação Zumbi no Red Bull Studio, em São Paulo. A Red Bull é parceira do Rock in Rio e o estúdio da marca receberá, até a data do festival, artistas que se apresentarão no evento para a gravação de faixas exclusivas. As músicas, com novos arranjos, poderão ser ouvidas ao vivo durante o evento. No Rock in Rio, a Red Bull exibirá em telão making of e momentos que marcaram estes encontros em primeira mão. 

Já no dia 23, se apresenta o artista multifacetado CeeLo Green que vai fechar a noite no Palco Sunset. O cantor, rapper, compositor, produtor, ator e empresário já conquistou diversos prêmios, incluindo 5 Grammys, BET Award, Billboard Award e Brit Award. CeeLo Green ficou conhecido nos anos 90 como membro do grupo de R&B, Goodie Mob, mas deslanchou internacionalmente com o hit "Crazy" (2006), como parte do duo Gnarls Barkley. A música alcançou o topo de várias paradas internacionais. Em 2010, Green lançou sua primeira música solo "Fuck You!" com a versão editada para radio "Forget You", que alcançou o top de diversas paradas e se posicionou em 2ª lugar na Billboard Hot 100. CeeLo recebeu cinco nomeações para o Grammy por conta desse hit e ganhou na categoria de melhor performance urbana/alternativa. O single tem o certificado de Ouro nos EUA e na Dinarmarca e conquistou status de single platinum no Canada, Nova Zelandia e Reino Unido e multi-platinum status na Australia.

O Rock in Rio está marcado para os dias 15, 16, 17, 21, 22, 23 e 24 de setembro de 2017 e já confirmou as seguintes atrações no Palco Mundo: Lady Gaga, 5 Seconds of Summer, Ivete Sangalo (15/09), Maroon 5, Fergie (16/09), Aerosmith e Billy Idol (21/09), Bon Jovi (22/09) e Red Hot Chili Peppers (24/09). Os ingressos para o Rock in Rio estarão disponíveis no dia 6 de abril pelo Ingresso.com. 


Nova Cidade do Rock 

Duas vezes mais ampla que a anterior, a nova Cidade do Rock trará mais conforto para todos os visitantes, além de possibilitar o acesso por meio de transporte público direto, a partir de Metrô e BRT, um dos legados olímpicos.

Dentre as melhorias esperadas com o novo espaço, a organização destaca maior facilidade na circulação de público, nas operações de segurança, limpeza e acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, além de mais banheiros, posições de atendimento nos bares e áreas de sombra.

O público também ganhará muito em termos de facilidade de acesso, com o sistema de transportes que foi testado com sucesso durante os Jogos Olímpicos 2016. Quem sair da Zona Sul, por exemplo, levará pouco mais de 30 minutos para chegar ao Rock in Rio, utilizando o Metrô e BRT. Todo o acesso será facilitado para visitantes de qualquer região, pois o legado olímpico permanece. O novo esquema de transportes permite também que os impactos no trânsito do entorno sejam ainda mais leves. As interdições de vias públicas serão reduzidas a quase zero, permitindo que os moradores da região tenham ainda mais conveniência.

Também será beneficiado o público que vem de fora do Rio de Janeiro, com a ampliação da rede hoteleira ao redor do parque. Em 2015 foi comprovada a importância do festival para o fomento do turismo na cidade. Segundo a RioTur, o festival foi a motivação exclusiva para a vinda de 88,5% dos visitantes no período de sua realização.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

NAÇÃO ZUMBI FARÁ SHOW EM HOMENAGEM A GILBERTO GIL COM PARTICIPAÇÃO DO BAIANO

Repertório contemplará clássicos do cantor e compositor baiano





A banda pernambucana Nação Zumbi fará um show em tributo a Gilberto Gil durante o festival Pepsi Twist Land, antes batizado Rider Weekends. O cantor e compositor baiano será o homenageado do evento, realizado nos dias 2, 3 e 4 e 9, 10 e 11 de fevereiro, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro. ''Será uma honra poder tocar e homenagear Gilberto Gil'', comemorou o grupo, no Twitter.


A apresentação foi escolhida para a noite de abertura do festival. O repertório será composto por clássicos de Gil, que fará participação junto com Jorge Mautner. A programação da estreia terá show do Dream Team do Passinho, com espetáculo inédito dedicado ao The Jackson 5, e do DJ Nepal - Nep's Got Soul.

Uma das gravações mais populares da Nação Zumbi, Maracatu atômico é de autoria de Mautner e havia sido gravada por Gil antes da versão pernambucana, registrada no álbum Afrociberdelia com três remixes que não agradaram a banda. Em 1994, Gil fez uma histórica participação na apresentação da Nação Zumbi no festival SummerStage, nos Estados Unidos.



Fonte: Diário de Pernambuco

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

UM SONHO (NAÇÃO ZUMBI)

terça-feira, 10 de maio de 2016

NA VÉSPERA DE SHOW HISTÓRICO, JUSTIÇA DETERMINA REINTEGRAÇÃO DE GILMAR BOLLA 8 À NAÇÃO ZUMBI

Segundo a decisão com força de mandado, emitida na noite desta sexta (06), o percussionista deve voltar às atividades com a banda em até 24 horas, sob pena de multa


Gilmar Bolla 8, o primeiro da esquerda, deve ser reintegrado à Nação Zumbi, segundo decisão judicial. 

Na véspera do show marcado pela Nação Zumbi para este sábado (07), no Clube Português do Recife, Zona Norte da capital pernambucana, a justiça determinou, em caráter liminar, que o percussionista Gilmar Bolla8 seja reintegrado à banda. Segundo decisão emitida pela 1ª vara cível da comarca de Olinda, a ordem deve ser cumprida em até 24 horas - sob pena de multa diária de R$ 5 mil -, o que já possibilitaria a participação de Gilmar na apresentação deste sábado (07), quando a banda celebra 20 anos do lançamento do álbum Afrociberdelia. A Nação Zumbi ainda não se pronunciou oficialmente sobre a decisão da justiça.

Em documento judicial encaminhado pela assessoria do percussionista, um dos fundadores da Nação Zumbi, são citados outros membros do grupo e, ainda, sua produtora, Ana Almeida, da Babel Produções Artísticas. O prejuízo financeiro é um dos principais motivos alegados pelo juiz, que menciona, inclusive, tratamento médico do pai de Gilmar, custeado pelo percussionista. "Há perigo de dano consistente na situação do demandante, que se vê privado de receber os valores que lhes são devidos, estando sem meios de suprir as suas necessidades básicas e de sua família", informa a decisão com força de mandado, ordenando a reintegração imediata do músico à banda.

As alegações de Gilmar são elencadas e analisadas, bem como as formalidades do processo. Uma audiência teria sido marcada, segundo o documento, mas somente o músico teria comparecido, acompanhado por advogado, e os demais integrantes da Nação Zumbi teriam sido representados por advogada que justificou a ausência de dois deles. 

Entre as referências à saída de Gilmar da Nação Zumbi, o documento pontua: "Que a exclusão se deu sem qualquer aviso prévio, apuração de haveres e não recebimento de alguns cachês, direitos autorias, etc. Ressaltando ainda que mais uma vez foi surpreendido ao saber que o percentual que lhe era repassado pela execução dos shows (10% dez por cento) era inferior ao recebido pelos demais membros do grupo (20% vinte por cento), sem que houvesse quaisquer esclarecimentos sobre isso." 

A assessoria do Escritório Neves & Araújo, que representa Gilmar Bolla 8, emitiu a seguinte nota sobre a decisão:

O Juiz de Direito da 1ª Vara Cível da Comarca de Olinda determinou em caráter liminar agora no começo de noite desta sexta-feira (6), que o músico Gilmar Correia da Silva (Bolla 8) seja reintegrado imediatamente à Nac%u0327ão Zumbi, face a sua qualidade de músico e so%u0301cio fundador da banda.

O magistrado acatou a argumentação de que a exclusão do músico se deu sem qualquer aviso prévio. A decisão levou ainda em consideração o fato do Bolla 8, mesmo sendo sócio fundador do grupo, perceber percentual inferior ao recebido pelos demais membros.

Num dos trechos da decisão, o juiz trata do registro da marca Nação Zumbi, em tramite no INPI, onde aponta a clara má-fé da produtora da Nação Zumbi, para também fundamentar a decisão. 

A decisão determina que o músico seja reintegrado imediatamente à banda Nação Zumbi, no prazo de 24 horas, a contar da ciência da decisão, sob pena de multa diária de R.000,00(cinco mil reais). 


O CASO

Em dezembro passado, Gilmar Bolla 8 foi afastado da Nação Zumbi e, segundo ele, teria sido comunicado do afastamento através da empresária do grupo, Ana Almeida, após 25 anos de carreira em conjunto. Desde setembro de 2015, ele não fazia shows com a Nação. "É lamentável ver essa reação do Gilmar levando inverdades a público sem argumentos reais. Os motivos, que não ousamos listar aqui, serão conhecidos em seu devido tempo. Enfatizamos que não é uma questão de melanina e sim de disciplina. Nunca tivemos nenhum procedimento de exclusão de qualquer tipo, pois somos veementemente contra. Entretanto, má conduta, falta de profissionalismo e desrespeito não cabem dentro da banda", informou, em nota nas redes sociais, a Nação Zumbi, na época em que o conflito veio à tona.

"Fui realmente pego de surpresa com a decisão de ser retirado do grupo. Não fui oficialmente informado por nenhum dos componentes da banda, e sim pela produtora Ana Almeida, da Babel Produções. Nada tenho contra os meus companheiros de banda, afinal todo o trabalho que realizei junto a Nação Zumbi foi sempre cercado de muito amor, lealdade e compromisso com os princípios que construirmos desde da fundação do CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI", rebateu Gilmar, naquela ocasião, também nas redes sociais.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

REGISTRO DE NAÇÃO ZUMBI É QUESTIONADO PELOS ADVOGADOS DE GILMAR BOLA 8

Percussionista entrou na Justiça com pedido de oposição ao que foi solicitado por Ana Almeida

Por Carol Botelho




Advogados Carlos Neves e Adriano Araújo criaram setor específico em escritório local, batizado de Soluções Jurídicas CriativasMais um capítulo do imbróglio entre o músico Gilmar Bolla 8 e a banda Nação Zumbi. Agora a divergência é em relação ao nome da banda, que foi registrada em 11 de novembro de 2015, em nome de Ana Almeida, proprietária da Babel Produções, produtora da Nação Zumbi. A ação soou no mínimo estranha a Gilmar e a seus advogados, porque o registro não foi feito em nome da banda, e sim de uma única pessoa que, aliás, não é integrante do grupo.


Por causa disso, no último dia 6 de fevereiro, os advogados de Gilmar, um dos fundadores da banda desde os tempos de Chico Science, há 25 anos, entraram com um pedido de oposição no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) contra o pedido da produtora, dentro do prazo determinado pelo INPI. “A marca Nação Zumbi de nossa autoria sendo registrada em nome da produtora da banda Ana Almeida? Será que vamos perder a marca que é, antes de tudo, um patrimônio do povo pernambucano para uma pessoa que não tem ligação alguma com o grupo?”, declarou Gilmar, em sua página no Facebook.

Procurada pela Folha de Pernambuco, a produtora Ana Almeida disse que “a banda acha que esse é um assunto particular, que não leva a lugar nenhum. Não é assunto nem para a Imprensa nem para fã”, resumiu a produtora.


NEGOCIAÇÕES

O registro da marca ocorreu em meio às negociações que ainda acontecem entre representantes da banda e do músico, desde sua saída, há quatro meses. Entre interrup­ções e retomadas de acordos, ficou decidido que Gilmar faria os shows de toda a agenda do Carnaval 2016 da Nação Zumbi, para não perder os cachês dessa época do ano, e também para estar presente na homenagem feita a Chico Science em virtude de seus 50 anos. A proposta seria uma maneira de o músico se organizar financeiramente e, principalmente, não prejudicar o andamento do tratamento de saúde do pai, que faz hemodiálise.

Mas não foi o que aconteceu. No perfil do músico no Facebook, Gilmar comentou o episódio, no dia 29 de janeiro: “Hoje a Nação Zumbi faz o segundo show oficial sem minha participação. O primeiro foi dia 16/01/16, em Maracaípe; hoje, no Siri na Lata. Estou tranquilo e seguindo minha missão com o Combo X”, publicou Gilmar, um dos sócios fundadores da banda, e que hoje toca também o Combo X, projeto musical paralelo.

Os advogados de Gilmar, Carlos Neves e Adriano Araújo, tentam fechar com a Nação Zumbi um acordo para que ele receba o pagamento sobre o faturamento dos shows dos últimos dois anos, de acordo com a correta participação que lhe caberia como sócio fundador. “Em tese, cada um dos seis integrantes detém 16,66% da suposta empresa Nação Zumbi. Mas o que acontece na prática é que alguns recebem 20% do faturamento e outros, 10%, como é o caso de Gilmar”, dizem os advogados. Eles também pedem um percentual sobre a utilização da marca nos próximos cinco anos.

Problemas como esses seriam evitados se os músicos pensassem nas bandas como empresas logo no começo da carreira. Ao menos quando perceberem que não serão apenas uma banda de garagem. “O que chama a atenção é o nível de informalidade de uma banda do nível da Nação Zumbi. Desde a morte de Chi­co Science, os seis músicos remanescentes poderiam ter regulamentado uma relação de sociedade. Mas isso não é só uma exclusividade da Nação Zumbi. Muitos artistas não se preocupam com o aspecto legal e formal. Para isso basta pegar um pedaço de papel e instituir quem vai administrar, quem vai ganhar o quê”, sugere Adriano.


Uma produção cultural não sai do papel apenas com criatividade. Um tanto de burocracia é necessário para que dê tudo certo. E isso inclui assessoria contábil, de imprensa e jurídica. Cercando-se desses auxílios que para muitos parecem supérfluos na hora de cortar gastos, é possível evitar até mesmo desfazer amizades de longa data. “Acompanhamos quase que diariamente, via internet, mídias sociais, jornais, revistas e programas de televisão disputas entre produtores e artistas de qualquer natureza, sobretudo se geram lucro, reforçando a necessidade de orientação preventiva de profissional da área jurídica nas realizações culturais, afinal trata-se de atividade laboral como outra qualquer”, declaram os advogados Adriano Araújo e Carlos Neves.

Adriano é especializado em Direito Autoral, militante dos chamados Direitos Culturais, e Carlos é especialista em Direito Societário e Propriedade Intelectual. Juntos, resolveram implantar dentro do escritório um setor específico para a área cultural batizado de Soluções Jurídicas Criativas. Além do assessoramento, eles buscam debater a economia criativa no âmbito da adequação da legislação em vigor voltada para o setor e a construção de um marco regulatório para área.

“É justamente na abertura do próprio negócio que muita gente acaba se encontrando profissionalmente. E a formalização é essencial para evitar situações desagradáveis no futuro. Também é de muita importância o registro da marca junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), que garante ao seu titular o direito de uso exclusivo em todo o território nacional em seu ramo de atividade econômica”, explica o especialista Carlos Neves. A dupla de advogados conta que recebe mais casos que já chegam com problemas do que solicitações de consultorias para que se evitem complicações futuras.

terça-feira, 29 de março de 2016

SHOW DE CHICO SCIENCE GRAVADO EM MONTREUX SERÁ LANÇADO EM ÁUDIO E VÍDEO

Nação Zumbi tocou com o cantor no festival de jazz na Suíça em 1995 e voltará em 2016



Ella Fitzgerald, João Gilberto, Ray Charles, Johnny Cash, Miles Davis, Alanis Morissette, Wu-Tang Clan, Jamiroquai, Phil Collins, Yes e Sun Ra estão entre os artistas que já lançaram discos gravados ao vivo no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. A Nação Zumbi pode estar nessa lista a partir deste ano, quando devem ser disponibilizados oficialmente o áudio e o vídeo do show que a banda fez com Chico Science em 1995. Eles também voltarão ao mesmo palco em 2016, desta vez ao lado da banda suíça The Young Gods.

Outros shows de Chico Science podem ser encontrados no YouTube, só que nenhum deles foi lançado oficialmente. A única gravação ao vivo oficial já lançada está no disco CSNZ, de 1998, mas são apenas cinco faixas. Ainda no YouTube, é possível ver apresentações em programas da TV Cultura no canal da emissora.

Em 1995, no Festival de Montreux, a banda pernambucana apresentou-se no Miles Davis Hall para 2 mil pessoas na mesma noite dos grupos The Specials e The Busters

A Nação Zumbi fará ainda três shows no Brasil com The Young Gods este ano. As duas bandas estarão no palco ao mesmo tempo e tocarão juntas as músicas do repertório de ambas. O formato será equivalente ao da Orquestra Manguefônica, projeto realizado com a Mundo Livre S/A em 2009. A parceria começou a ser articulada em 1996, mas foi interrompida por causa da morte de Chico Science. O vocalista Franz Treichler participou do show da Nação no Marco Zero na última segunda.

David Bowie, Chemical Brothers e Mike Patton (Faith No More) estão entre os artistas que já assumiram ter recebido influência do grupo, que é uma referência no uso do sampler (recurso bastante presente nos discos da Nação Zumbi).

Repertório do show de 1995 em Montreux:
Monólogo ao pé do ouvido
Banditismo por uma questão de classe
Etnia
Antene-se
Maracatu de tiro certeiro
Rios pontes & overdrives
Salustiano song
Sobremesa
A praieira
Macô
Samba makossa
Enquanto o mundo explode
Filha de gaiamun
Da lama ao caos
Coco dub (Afrociberdelia)
Todos estão surdos
A cidade
Corpo de lama
Mister moto


Fonte: Diário de Pernambuco

quarta-feira, 2 de março de 2016

NAÇÃO ZUMBI PRETENDE TOCAR REPERTÓRIO DO DISCO AFROCIBERDELIA AO VIVO NO ANIVERSÁRIO DO RECIFE

Banda quer fazer show histórico um dia antes da data do cinquentenário de Chico Science




A Nação Zumbi manifestou interesse em fazer um show no Recife com o repertório completo do álbumAfrociberdelia, lançado há 20 anos, no dia do aniversário da capital pernambucana, 12 de março, véspera do cinquentenário de Chico Science (1966-1997). A produção do grupo pernambucano confirmou uma turnê nacional do álbum entre os meses de março e junho e garantiu a inclusão da cidade no roteiro.

O horário e o local do show ainda não foram divulgados. Afrociberdelia, lançado em 1996, foi o último disco de estúdio gravado pela banda com Chico Science nos vocais. É um álbum revolucionário, que tem clássicos absolutos, como Maracatu atômico, Macô, Mateus enter e Cidadão do mundo, e faixas não tão famosas, comoEnquanto o mundo explode e O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu. Há também Sangue de bairro, incluída na trilha do filme Baile perfumado, e Criança de domingo, versão para uma canção da banda paulista Fellini.

Depois do Afrociberdelia, a Nação lançou o disco duplo CSNZ (1998), que tinha a voz de Chico Science, mas ele participava apenas em faixas gravadas ao vivo e remixes.

A matéria havia sido publicada incialmente com a confirmação oficial do show feita pela produção da própria banda. Mas o Twitter do grupo, horas depois, anunciou o interesse da realização da apresentação e negou a confirmação da data. 

O Viver entrou em contato com a produção da banda novamente e obteve a informação de que o evento não havia sido confirmado.

Procurada, a Prefeitura do Recife revelou que começa a preparar a programação de aniversário da cidade a partir de segunda-feira, quando serão analisadas as propostas para celebrar a data.

As primeiras informações sobre um show em março no Recife foram reveladas pelo cantor Jorge du Peixe em entrevista coletiva cedida logo após tocar na última segunda-feira, no Marco Zero, no Carnaval do Recife. 


REPERTÓRIO DO ÁLBUM AFROCIBERDELIA:
Mateus enter 
O cidadão do mundo
Quilombo groove
Macô
Um passeio no mundo livre
Samba do lado
Maracatu atômico
O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no céu 
Corpo de lama
Sobremesa
Manguetown
Um satélite na cabeça [Bitnik generation]
Baião ambiental
Sangue de bairro
Enquanto o mundo explode
Interlude Zumbi 
Criança de domingo
Amor de muito
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Fonte: Diário de Pernambuco

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

GILMAR BOLA OITO É SACADO DO NAÇÃO ZUMBI E ACIONA BANDA

Membro-fundador ao lado de Chico Science, percussionista diz que não estava sendo convidado para shows e gravações do grupo


Por José Teles


Gilmar Bola Oito (sentado de chapéu, à direita) com a Nação Zumbi


O show do Nação Zumbi em 15 de agosto, no Clube Português, lançando o último disco e celebrando os 20 anos do álbum da Afrocibederlia, pode ter sido o último com o percussionista Gilmar "Bola Oito" Correa, um dos fundadores do grupo. Os fãs da Nação Zumbi estranharam a sua ausência no Rock In Rio 2015, na participação que o grupo fez no show de Lenine, no palco Sunset. Ele costumava receber as passagens com dois dias de antecipação. "Na hora de dormir, a viagem seria na manhã seguinte, liguei para empresária, que me falou: Você não tá sabendo não? Houve uma reunião e lhe tiraram da banda. Ficou de alguém lhe falar, mas ninguém quis, eu estou lhe falando agora".

A confirmação de uma saída anunciada. No início de agosto passado, Gilmar revelou, em entrevista a Marcelo Pereira, editor do Caderno C, que era o último a saber o que acontecia na banda e não estava sendo convidado para shows e gravações do grupo. O desabafo foi feito às vésperas de viajar para Nova Iorque, para a apresentação no festival Summer Stage, Nova York, onde, com Chico Science, a Nação Zumbi fez sua estreia internacional, 20 anos atrás. A repercussão entre os fãs foi grande e, como era de se esperar, explodiu forte dentro das hostes do Nação Zumbi:

"Ana Almeida, a empresária da banda, pagou dez minutos de esporros em mim. Eu falei que ali estava acontecendo uma inversão de valores: Você trabalhava pra mim, sou um dos donos da banda. Ela disse que eu lavei roupa suja em público, porque fui falar que a banda estava rachada. Disse que no grupo as coisas aconteciam sem eu saber, ninguém me procurava pra dizer nada, que parecia uma estratégia. E ela aos gritos comigo em uma calçada em Nova Iorque, não dava para acreditar. Uma das primeiras coisas que fez, logo depois, foi me tirar do WhatsApp da banda", conta o percussionista.

Ela disse que eu lavei roupa suja em público, porque fui falar que a banda estava rachada.

Gilmar sempre se considerou um dos sócios da banda. No começo dos anos 1990, conheceu Chico Science, seu colega de trabalho, na Emprel, empresa de processamento de dados municipal. Contou ao colega que tocava com um grupo de samba reggae, o Lamento Negro, de Peixinhos, em Olinda: "Chico perguntou o que era samba reggae, expliquei: o dumdudum era o baixo, e aquelas batidas, thcatchatcha, era a guitarra. Ele disse que queria ver", lembra o percussionista. Chico Science foi ao ensaio do Lamento Negro, no Daruê Malungo, uma ONG, dirigida por Mestre Lua, em Chão de Estrelas: "Quando viu, ele pirou. É isso que eu quero fazer, me disse", continua Gilmar. Passaram a fazer shows juntos, o Lamento Negro fundiu­se com a Loustal (formada por Chico Science, Lúcio Maia e Dengue) e daí surgiu o Nação Zumbi, banda que em lugar de bateria empregava inusitadas alfaias, tambores de maracatu.

No entanto, pelo que revela Gilmar, não chegou a ser uma fusão, mas coexistência, com dois pesos e duas medidas: "Os quatro (Jorge du Peixe, Lúcio Maia, Pupillo e Dengue) ganham 20 por cento e eu ganho 10 dez por cento. O tratamento comigo é outro. Tenho que dividir o quarto com fulaninho ou sicraninho, enquanto eles, cada um tem um quarto", queixa­-se. Ele decidiu procurar o JC e tornar pública sua situação na Nação Zumbi, e contratou um advogado para resolver a separação nada.

Os músicos da Nação Zumbi, foram procurados pelo Caderno C, mas nenhum se pronunciou sobre a exclusão de um dos seus fundadores. "É um assunto ainda não resolvido e muito particular para se dar entrevista", desculpou­-se Ana Almeida, empresária da banda, contactada pelo Facebook.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (VINTE ANOS DEPOIS DA ESTREIA DE CHICO SCIENCE, O RECIFE CONTINUA EM BUSCA DE SAÍDA)

Cidade é protagonista no álbum Da lama ao caos. Vinte anos depois, revisitamos a capital pernambucana


Por Valentine Herold



O sol nasce mais um dia – qualquer para uns, decisivo para outros. E ilumina, como todas as manhãs, “as pedras evoluídas” – ou nem tanto – do Recife. Andar pelas ruas desta cidade ainda é uma aventura: lama, caos, infinitos buracos, fios soltos e os maracatus de quem tem de se virar para se manter de pé. “A cidade não para”, eis o mantra de Chico Science que não sai das nossas cabeças desde 1994, quando o álbum Da lama ao caos veio ao mundo para se tornar um clássico.

Vinte anos depois, andando sobre este mangue asfaltado, travamos uma relação não só arriscada, mas de amor não correspondido, com o qual ainda se é obrigado a conviver diariamente. Um amor daqueles que te despreza em público e, quando dá vontade, volta correndo, arrependido. Mas sem quase nunca se render, rever defeitos ou verbalizar seu perdão. Esta “ilusora de pessoas”, “sempre mais ou menos”. Chico Science, tão afiado em sua lança, certamente não mudaria de opinião se entre estes rios e pontes ainda estivesse...

Recife, 2014. No ponto de ônibus, sete habitantes se dividem no abrigo da parada. Abrigo entre aspas, porque não protege nem do sol nem da chuva. O mísero teto pouco ampara os “trabalhadores, patrões, policiais, camelôs”. A cidade não para com suas manias, ô, Chico. Os demais que aguardam o coletivo estão nas barraquinhas improvisadas de batatas fritas em óleo queimado, Treloso de morango, pipoca de saquinho. Esta última apelidada (quase) carinhosamente de “póca” pelos vendedores ambulantes, que correm atrás da clientela, que corre atrás do ônibus, que corre contra o tempo.

O busão chegou, mas parou uns quatro metros depois, como de costume. Junto à senhora que enfrenta os degraus com dificuldade, entra também um rapaz para vender adesivos da Hello Kitty: “Bom dia, pessoal! Queria a atenção de vocês por alguns segundos. Eu podia estar roubando, podia estar matando. Mas estou aqui humildemente....” É sempre o mesmo discurso. E a mesma falta de atenção. A “plateia” está antenada para baixo, cabisbaixa, absorta nos celulares com internet. Novas antenas parabólicas.

Do alto do Ibura, no UR-1, “a cidade se apresenta o centro das ambições”. Vendo assim, lá de cima, parece até de brinquedo. “É o Ibura...” Tanta coisa mudou desde 1994. Por lá, o chão não era asfaltado e a então comunidade tinha apenas algumas casas. O resto, segundo José Carlos, de 53 anos, “é tudo invasão”. Ele chegou ao local ainda menino, em 1966, época da enchente que engoliu Santo Amaro, onde ele, a família e todos moravam antes até migrar para o Ibura. Lá, as ruas parecem calmas. “Calmo que só, ontem só teve tiroteio...”, ironiza a moradora Neide Maria, 60. Ela não esconde, com razão, o desgosto pela ausência do poder público por lá.

Na época do lançamento do disco da Chico Science & Nação Zumbi, não havia tanta violência, segundo narram os moradores, embora o Recife fosse a “quarta pior cidade do mundo” – para lembrar os versos de Chico baseados no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) de então. Por aqui, as estatísticas seguem subindo e descendo. Não somos certamente mais a quarta pior cidade do mundo, mas os problemas estão longe de zerar. Números do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) apontam que entre 2000 e 2010, por exemplo, o índice de óbito por arma de fogo, na capital, reduziu em 41,4%. Mas, no Ibura, ainda se escuta muito tiro...

... E o barulho do ônibus também. Ele chega no bairro em direção a uma área vizinha próxima, mas bem diferente: Boa Viagem (nem tão boa assim). O sol do meio dia tá fraco não, mas pelo menos tem o mar. Quase não dá tempo de curtir o frescor da água, mas melhor isso do que ser atacado por tubarão. Os altos, brilhantes e misteriosos prédios da avenida seguem inacessíveis a quase todos. “A cidade não para, a cidade só cresce/ O de cima sobe, o de baixo desce”...





Descendo ao calçadão, um ciclista vai na contramão, enquanto uma Hilux passa raspando por ele. Do outro lado da rua, entre quiosques de coco, senhores jogam dominó. “Veeeeem, novinha, tomar Toddynho!” Passa o rapaz do carrinho de CDs piratas ao som de MC Sheldon. Ele vende brega, sertanejo, forró e até música gospel (nada mais surpreende nesta cidade multicultural). Tá difícil atravessar a rua. Aliás, é difícil ser pedestre: além dos carros, do sol e das calçadas, o Recife ainda acorda com a “mesma fedentina do dia anterior”... Talvez não tanto quanto no tempo da “Recifede”, pichação que costumava tomar os muros da cidade. 

Lá na Conde mais famosa do Recife, o sol parece rachar mais forte. Brunos, Márcios, Anas e Carolines passam pela avenida dia a dia. Indo e vindo, sem cessar. “É a responsabilidade de você manter-se inteiro.” Dobrando a esquina do Shopping Boa Vista, ouve-se uma voz a bradar os descontos que o transeunte não pode perder. 

E tem ainda a Várzea, o bairro com mais motel em linha reta do mundo... E “Macaxeira, Imbiribeira, Bom Pastor (...) Santo Amaro, Madalena, Boa Vista, Dois Irmãos (...)”. No trava-língua recifense, tudo dá em embolada, samba e maracatu. Entre “rios, pontes e overdrives”, o Recife não é mais exatamente aquele cantado por Chico. Mas é também. E não para de crescer. “Da lama ao caos. Do caos à lama."

sábado, 31 de maio de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (O AMOR CANTADO EM RISOFLORA POR CHICO SCIENCE REVELA UM SEGREDO AINDA 20 ANOS DEPOIS)

Canção é a única de amor do disco Da lama ao caos. O mistério de Risoflora ficará para sempre guardado no mangue

Por Valentine Herold



Em meio a tantos versos políticos de revolta social, Da lama ao caos abarca, em sua 11° faixa, uma das mais lindas mensagens de amor: Risoflora. Mas a flor que nasceu no meio do mangue e foi retratada por Chico Science como símbolo de carinho e arrependimento fez brotar uma curiosidade: o mistério de quem seria a verdadeira Risoflora.

Ex-namorada de Chico, a designer Maria Duda Belém acompanhou o início da Nação Zumbi, o antológico show da primeira edição do Abril Pro Rock e viajou com a banda para o Rio de Janeiro na época da gravação do álbum. A história de amor entre Duda e Chico teve início no começo da década de 1990. O compositor e sua flor tinham uma diferença de idade de cerca de sete anos. Ele morava na Rua da Aurora e foi no apartamento à beira do Rio Capibaribe que os dois se conheceram. O elo entre o mangueboy e a sua manguegirl foi uma amiga em comum que levou Duda à festa de inauguração da nova moradia de Chico e alguns amigos.

Mas é necessária uma volta no tempo para entender que, assim como as raízes entrelaçadas do manguezal, o amor e a paixão são complexos – vão e voltam, se misturam. Em 1991, Chico conheceu Renata Pinheiro. Também alguns anos mais nova do que ele, a jovem atriz foi a um show em Candeias do pouco conhecido grupo que se chamava Chico Science & Lamento Negro. “Fiquei impressionada com a qualidade das músicas, das letras políticas e poéticas. Nos conhecemos melhor naquela noite”, relembra Renata. A conexão ficou estabelecida e a relação entre os dois continuou de andada, que nem o caranguejo quando sai da toca para encontrar sua “cara metade” pelo mangue. Chegou o ano de 1992 – o mesmo da publicação do manifesto Caranguejos com cérebros – e com ele, o Carnaval. Uma festa que, nas palavras de Renata, “misturava suor, música, amor e despedida.” Na sequência, o espetáculo no qual ela atuava viajou para Portugal, onde ficou alguns meses em cartaz. 

Tempos depois, Chico e Maria Duda engatavam um namoro. “A gente terminou e eu fui passar cerca de um mês de férias na Bahia. Quando voltei, Chico me entregou a letra de Risoflora e cantou para mim. Foi muito bonito”, narra Duda, recordando também o pouco jeito do rapaz com o violão. Depois disso, começaram a namorar. “Ele era um cara muito atencioso e carinhoso. Tinha um caderninho e compunha no ônibus. Admiro muito a capacidade que ele tinha de colocar a marca dele com poucos recursos, e a fé em seu próprio taco.” 

Enquanto isso, Renata trabalhava em um café em Amsterdam, onde morou por um ano, após a temporada em Portugal. Foram 12 meses de muitas transformações e amadurecimento. Quando voltou ao Recife, Chico Science já estava acompanhado da Nação Zumbi e Risoflora vinha sendo tocada nos shows. “Perguntei se ele havia escrito para mim. Ele logo respondeu, num tom reativo: ‘Essa música fiz para todas as minhas manguegirls’.”

“Foi uma linda história de amor. Tenho muitas cartas de Chico.Risoflora é uma música que me sensibiliza muito ainda”, conta Duda, que, depois da morte de Chico, prometeu colocar o nome do filho de Francisco; filho este que realmente veio a parir anos mais tarde. O pai é um artista argentino cujo desejo também era ter um filho Francisco. Coincidências da vida.

O romance de Duda com o cantor durou pouco mais de dois anos. Segundo José Teles, crítico de música e testemunha ocular da cena mangue, durante este período Chico mostrou a ele a canção e disse que a tinha escrito para sua namorada. No caso, a própria Duda. 



Veja letra na íntegra:

"Eu sou um carangueijo e estou de andada/ Eu quero gostar

E quando estou um pouco mais mais junto eu quero te amar/ E aí te deitar de lado como a flor que eu tinha na mão/ E a esqueci na calçada só por esquecer

Apenas porque você não sabe voltar pra mim

Oh isoflora ! Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar

Oh Risoflora ! Não vou dar mais bobeira entro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só

Eu sou um carangueijo e quer gostar /Enquanto estou um pouco mais junto eu quero te amar

E acho que você não sabe o que é isso não/ E se sabe pelo menos você pode fingir

E em vez de cair em tuas mãos preferia os teus braços/ E em meus braços te levarei como uma flor

Pra minha maloca na beira do rio, meu amor !

Oh Risoflora ! Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar

Oh Risoflora ! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só"

sábado, 24 de maio de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (DESIGUALDADE SOCIAL CANTADA POR CHICO SCIENCE HÁ 20 ANOS AINDA SE FAZ PRESENTE)

Canção é a única de amor do disco Da lama ao caos. O mistério de Risoflora ficará para sempre guardado no mangue


Por Valentine Herold



Na manhã da última segunda-feira, assim como na letra de A cidade, gravada há 20 anos por Chico Science & Nação Zumbi, o Recife acordou com a mesma fedentina do dia anterior. Carros, ônibus, motos, bicicletas e metrôs já circulavam energicamente na capital que, no fim da década de 1980, andava com a autoestima baixa com suas patas de caranguejo. O título de “quarta pior cidade do mundo” fez fervilhar ainda mais o sangue de alguns moços moradores de Peixinhos e Barra de Jangada. A indignação os levou a escrever o manifestoCaranguejos com cérebro em 1992. Agora, 22 anos depois, a situação social da capital pernambucana não é mais a mesma, mas as marcas da desigualdade social ainda se fazem bastante presentes.

Na paisagem, os prédios não param de crescer. Para cima, para os lados. O processo de verticalização na capital pernambucana está em números: nos últimos dez anos, foram 4.404 alvarás de construção autorizados pela Prefeitura do Recife, mostrando que os versos gravados por Chico Science & Nação Zumbi em 1994 continuam atuais. “A cidade não para, a cidade só cresce.”

Na mesma manhã da última segunda-feira, José Carlos da Silva, morador da comunidade Ilha de Deus, localizada no bairro da Imbiribeira (Zona Sul recifense), continuava vivendo e sobrevivendo do mangue, aquele tão cantada por Chico. Zé Carlos habita ainda uma das primeiras palafitas suspensas sobre o rio, localizada logo após a ponte de concreto construída, há cinco anos, na entrada da Ilha. Mora com a esposa, Néa, e seus dois filhos. O mocambo destoa das casas estreitas e siamesas construídas pelo Governo do Estado desde 2007 a alguns metros. A família espera pela sua desde 2010, dois anos a mais que o prometido. Também destoa dos altos prédios que se encontram por trás dos manguezais, no Pina. Pescador de 39 anos, José Carlos tira sua renda da venda de sururu, tainha, curimã e, principalmente, camarão.





A pesca do crustáceo virou a principal atividade dos que viviam antes de pegar somente caranguejos. “Graças a Deus, minha vida melhorou, pude comprar meu barco. Agora quase não pego mais caranguejo, só se for de braço, quando ele tá de andada (época em que o animal sai de sua toca para se reproduzir)”, conta. Há uns meses, Zé Carlos passou por uma cirurgia de hérnia de disco, mas não pode continuar de repouso o tempo que deveria. Apenas Néa não consegue sair só para pescar e sustentar o quarteto.

“Aqui, a gente não tem apoio de nada, de como aprender a cuidar dos camarões. Enquanto isso, não revendemos aos compradores. Sou revoltado. Dizem que é um lugar conhecido, mas cadê que não tem nem ninguém do Ibama?”, desabafa o pesador. O lixo acumulado nas margens dos rios também indigna Zé e esse cuidado com o meio ambiente faz com que, quando sai para pescar no Pina, sempre acabe voltando com garrafas plásticas, sacolas e outros dejetos físicos no barco, além dos peixes. É ele o verdadeiro mangueboy: da lama ao caos.

Deixando a casa da família Da Silva, dobrando à esquerda e, depois de mais alguns metros, à direita, chega-se à sede do núcleo comunitário Caranguejo Uçá. É lá que Edson Barros – mais conhecido como Fly, “First Love Yourself, cara!” – ministra ações culturais. Ele conheceu Chico Science no início dos anos 1990, no bairro da Mustardinha. “Ele chegava e falava: ‘Escuta aí’. Achei muito massa o que ouvi”, relembra. “O movimento foi importante, mas acho que a galera que ainda produz o fraudou, não se importa mais com o mangue. A Nação Zumbi agora está se importando mais com o sucesso”, resigna-se. Durante a entrevista, um menino de cerca de 14 anos passa pedindo emprestado um pandeiro. Uma herança positiva, segundo Fly, do manguebeat.





ZONA NORTE

Cantado nos versos de Chico Science & Nação Zumbi, o Centro Cultural Daruê Malungo, localizado em Chão de Estrelas, na Zona Norte,foi palco dos primeiros interesses do compositor para com os ritmos africanos. Lá, ele se juntou ao grupo Lamento Negro, semente que viria a se chamar Nação Zumbi. “O Lamento Negro continuou depois. Foi um grande movimento que trabalhava a questão das raízes culturais afro”, diz o mestre Meia Noite, sociofundador do Daruê Malungo e ex-integrante do Lamento. “O manguebeat foi uma grande alavanca para educar uma nova geração sobre maracatu, coco, ciranda, afoxé.”

Assim como no Caranguejo Uçá, lá as crianças e adolescentes das comunidades vizinhas têm acesso gratuito a aulas de dança, percussão, desenhos, costura e expressão corporal. “É uma grande satisfação enquanto negro, revolucionário e percussor da construção do centro. ver a evolução do Daruê.”

sábado, 17 de maio de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (O NOME FORTE E ESQUECIDO DOS TAMBORES DA NAÇÃO ZUMBI)

Integrante da formação original da banda, Gira voltou a morar em Peixinhos. Para ele, divisor de água da banda foi a morte de Chico Science


Por Valentine Herold


O núcleo musical embrionário da Nação Zumbi, o Lamento Negro, tinha como um dos pontos de encontro e de exercício da força afro da percussão o Centro de Cultura Daruê Malungo, em Chão de Estrelas. Apenas um pequena ponte separa o bairro de seu vizinho, Peixinhos, local de onde vinha e morava a maioria dos integrantes do Lamento. Dentre eles estava Givanildo, mais conhecido por todos como Gira, responsável desde o início do grupo por um dos três tambores da Nação (com Gilmar Bolla 8 e Jorge du Peixe).

E é bem ali, na divisa entre o Recife e Olinda, as cidades irmãs tão cantadas por Chico Science emDa lama ao caos, que ele voltou a morar. Gira saiu da banda em 2000, três anos após a morte de Chico – fato que ele avalia como o maior divisor de águas do grupo. Com a Nação, ele gravou Da lama ao caos (1994), Afrociberdelia (1996) e CSZN(1998). Mas apesar da longa parceria e dos anos de estrada com a banda, sua saída não foi muito suave. Tampouco ele mantém relações com os integrantes, a não ser com Gilmar, vez por outra. “Ele me ligou outro dia, mas eu não tenho o número dele. É o único que ainda vem falar comigo”, conta.

De origem muito humilde e, ao contrário de alguns de seus antigos colegas de banda, nada privilegiado economicamente, Gira morava em uma das áreas mais pobres de Peixinhos antes de integrar a Nação Zumbi. De lá, saiu para conhecer o mundo: Estados Unidos (o lendário show no Central Park, em Nova Iorque, com Gilberto Gil, em 1995), Alemanha, França e Holanda – entre outros cantos do Velho Continente. De Peixinhos para o mundo, e de volta a Peixinhos. Nesse meio tempo, Gira pode comprar uma casa para a mãe em um local mais abastado da cidade, mas se viu obrigado a voltar ao bairro da infância há alguns anos. 

Chegou a desaguar as mágoas na bebida, mas agora “sou crente. Aceitei a Jesus”, diz. Nunca mais tocou tambor nem ouviu os marcantes álbuns. “Não tinha os discos nem um som ou DVD player. Todas as músicas que fiz com a Nação me marcaram e foi minha toda a base dos tambores do Afrociberdelia.” Foi aí que as divergências entre o percussionista e parte do grupo começaram a surgir. “Nunca foi tolo. Começaram a registrar as músicas no nome da banda, como sendo de Chico Science & Nação Zumbi. Mas desde o início eu falava: ‘tem que coloar os nomes de quem compôs’, e eles respondiam: “calma, é só assim para colocar no computador”. Mas eu sabia que estava no meu direito, fui lezado”, desabafa.


LEMBRANÇAS

A primeira vez que viu Chico Science foi quando assistiu a um show dele no Forte das Cinco Pontas. Gira era amigo de Gilmar, que também morava em Peixinhos. “Fiquei admirado com aquele som do caramba e pedi para fazer parte daquilo”, relembra. Passou dois anos no Lamento Negro e participou da transição para Chico Science & Nação Zumbi. “A gente tocava muito na Soparia e em Maracaípe. Lembro bem das gravações do Da lama ao caos no Rio, em meado de 93, com Liminha. O disco ficou bem original, gostei muito.”

O olhar crítico sobre o mangue, a cidade e suas discrepâncias sociais não fazem mais parte do repertório da Nação Zumbi, mas Gira se lembra bem desta preocupação de Chico. “A gente queria ver o progresso da cidade, queria ver o povo bem.” Apesar de receber mensalmente uma pequena e apenas simbólica quantia do Ecad, Gira está atualmente sem trabalhar. A vontade de voltar a tocar e montar um projeto não falta, mas ele reclama da falta de possíveis companheiros de banda. “Mas eu vou voltar.”

sábado, 10 de maio de 2014

DA LAMA AO CAOS - 20 ANOS (O LADO SOCIOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DO ÁLBUM DE ESTREIA DE CHICO SCIENCE, DA LAMA AO CAOS)

Disco nasceu entre antenas parabólicas e palafitas e ficou na história não só como marco musical mas também como objeto das ciências sociais


Por Bruno Albertim



Disco-símbolo mais expressivo das primeiras e definitivas andadas do manguebeat, Da lama ao caos apareceu, em 1994, como divisor de águas dos fonogramas brasileiros desde o movimento tropicalista. Mas ali não há apenas estética. Projeto identitário, catalizador de um ethos e alargador de fronteiras sociais, o álbum apresenta, entre riffs e batuques, fartas doses de ciências sociais. Uma poética politizada, cravada na lama. 

“No disco, Chico recorre a várias práticas etnográficas”, diz Luciana Mendonça, professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sobre o expediente clássico da antropologia de “estranhar” o outro, mesmo que semelhante, para analisá-lo e descrevê-lo. “No disco, Chico Science fala de bairros, práticas sociais, coisas específicas do Recife, modos de sobrevivência”, pontua Luciana, que defendeu sua tese de doutorado pela Unicamp, em 2004, com o título Do mangue para o mundo: o local e o global na recepção da música brasileira.

Da lama ao caos é mais do que música. É etnografia musicada. E o Recife etnografado em suas veias menos visíveis não costumava constar, até então, na música pernambucana de expressão nacional. Uma investigação guiada por um manifesto que buscava politizar a música e a cidade a partir de suas contradições alagadiças. “Chico, Fred (Zeroquatro) e Renato (L) faziam uma crítica à coisa idílica do Recife e de Olinda cantada, por exemplo, por Alceu (Valença) nos anos 1980. Eles achavam que havia muito mais contradições”, observa a doutora em sociologia pela UFPE, Carolina Leão, também autora de tese sobre o manguebeat.“A cidade era muito pobre e houve ainda a pesquisa do Instituto de Washington, em 1991, que apontava o Recife como a quarta pior cidade do mundo para se viver”, diz Carol.

Escrito por Chico, Renato e Fred, o Manifesto mangue (1992) tomava o caranguejo como metáfora do homem que se agarrava na lama para sobreviver. “A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade ‘maurícia’ passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais. Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de progresso, que elevou a cidade ao posto de ‘metrópole’ do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade”, eis um dos trechos do manifesto.

O Recife da banda Chico Science & Nação Zumbi não tinha o alumbramento de Manuel Bandeira nem a sombra rendada das árvores de Gilberto Freyre, tampouco o gosto de fruta sensualizada de Alceu. Fedia nas contradições de sua lama – e do asfalto sobre ela. “A cidade não para, a cidade só cresce,/ O de cima sobe, e o de baixo desce”, versos da canção A cidade não apenas falavam da pouca mobilidade social, mas antecipavam, ali nos anos 1900, problemas que se tornariam crônicos no Recife dos anos 2000 até hoje. Entre eles, a verticalização e a urbanização desordenadas. “Muitos dos problemas graves de hoje, como a falta de mobilidade, estavam tomando forma ali”, lembra Carolina Leão.




A poética radiografou a realidade vista, ocasionalmente, nas páginas dos jornais. “O Recife que se vê ali, no disco, é um Recife plural e cheio de contradições. Sobretudo pela questão da desigualdade social, com versos como ‘com o bucho mais cheio, comecei a pensar, que eu me desorganizado, posso me organizar...’. O disco tinha uma série de chamadas para a questão da opressão social e a falta de possibilidade de organização popular”, analisa Luciana. 

Também sociólogo, Paulo Marcondes, investigador da relações entre arte e política, lembra que a inserção da paisagem social do Recife não era exatamente uma novidade em música, assim como a fusão de elementos da chamada cultura popular com o pop, mas que, ali, isso se deu numa poética vigorosamente nova, que “se configura na tensão entre a poesia e a prosa do mundo”. “Ele (Chico) elege o mangue pensado como característica da cidade, a bandeira da biodiversidade, para trabalhar a ideia de quem habita ali. A música faz, o tempo todo, uma analogia entre o sujeito humano e o caranguejo para mostrar o humano nas formas de exploração.”


PARABÓLICAS

Antes de Chico e seus pares, a cultura popular estava afastadas, há muito, das classes médias e elites. “Isso se deu por várias questões, uma delas foi a expansão da indústria fonográfica ocorrida durante a ditadura militar. Diferente da geração de Alceu, da Ave Sangria etc., Chico e Fred adolesceram em uma indústria cultural consolidada e da implantação do punk, do rock”, diz Carol Leão. Ao dar visibilidade midiática à periferia, Chico interferiu no comportamento da juventude de classe média. “Nos anos 1980, usar bandeira de Pernambuco era uma excrescência. Usar chapéu de palha era ser pobre ou esquizofrênico. Esses elementos foram assimilados. Chico condensa essa nova pernambucanidade, mais politizada”, pontua.

“Sou crítico da expressão, pernambucanidade, essa coisa que quer fundar um ethos muito geral. Costumo brincar: a pernambucanidade é a mesma para o usineiro e o cortador de cana? É preciso reconhecer que, nos anos 1990, já existiam outras manifestações não enquadradas como manguebeat e que foram enquadradas à força pela mídia, em sua necessidade de classificação”, observa o sociólogo Marcondes. “Mesmo no manguebeat, esse termo pode ser conservador, já que supõe uma unidade falsa. Identidade, dos pontos de vista histórico e antropológico, é algo que se dá sempre em conflito”, diz ele, lembrando que a cena mangue ajudou a recuperar o Carnaval 12>do Bairro do Recife – zona relegada, até então, a marinheiros e prostitutas. Pelas ruas do bairro, aliás, ainda se ouvem versos saídos de Da lama ao caos. E assim a música segue alimentando a conversa sobre as identidades da cidade que o manguebeat ajudou a redefinir.

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