PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

SR. BRASIL

sábado, 22 de fevereiro de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

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• CAPÍTULO2•
A ERA DA VOZ



Ela: “Nos lindos tempos de outrora
Desde a noite até a aurora
Cantando versos de amor
Ouvia-se o trovador.”
Ele: “Hoje tudo está mudado.”
Ela: “Mas o trovador não tem data
Eu sou do século vinte
Mas gosto de serenata.”
Ele: “Ó linda imagem
da mulher que me seduz...”
Ela: “O microfone se fez
E o trovador foi ficando
No rol das coisas passadas
E hoje em dia
Ele canta de uma só vez
Para mil namoradas.”
ATAULFO ALVES e WILSON FALCÃO, “Trovador não tem data”, de 1940


O primeiro registro de voz no Brasil deu-se por intermédio do comendador Carlos Monteiro e Souza, que gravou as vozes do Imperador D. Pedro II e da Princesa Isabel por volta de 1889.
Mas foi somente em 1902 que o empresário de origem judaica Fred Figner criou a pioneira empresa fonográfica brasileira, a Casa Edison, na qual Manuel Pedro dos Santos, o cantor popular Bahiano, teve a primazia de registrar o lundu de Xisto Bahia “Isto é bom”.
A gravação de Bahiano na Casa Edison inaugurou a dinastia de cantores nacionais. Cadete (K.D.T.), Eduardo das Neves, Mário Pinheiro, Nozinho e Geraldo Magalhães fizeram parte dessa primeira geração de cantores que introduziu o profissionalismo no campo da música popular.
Esse profissionalismo também se estendeu aos músicos instrumentistas que até então ganhavam dinheiro com edições de composições para piano. Tornava-se possível para eles o emprego em casas de música, o trabalho eventual em orquestras estrangeiras de passagem pelo Brasil, assim como em orquestras do teatro musicado, ou a participação em grupos de choro e bandas musicais da cidade.
Não era fácil para os pioneiros cantores a tarefa de registrar suas vozes nos sulcos das ceras. O fato é que à época não existia microfone elétrico, mas sim o autofone, que obrigava os cantores a quase gritar (o famoso dó de peito) e os músicos a empregar toda sua força para que a cera da matriz do disco pudesse ser impressionada.
Era também necessário que o cantor executasse a obra de uma só vez, já que a gravação era feita diretamente na matriz. Qualquer erro era fatal: toda a matriz estaria comprometida. E o que dizer dos estúdios, geralmente montados com cortinas e forros de aniagem para o “isolamento acústico”? Tanto as cancionetas de Bahiano quanto o repertório romântico do erudito Mário Pinheiro penaram para ser registrados.
Num período de desencanto com os novos tempos do capitalismo após a Primeira Guerra Mundial, que decretou o fim da Belle Époque, a modernidade continuava a caminhar de mãos dadas com a ciência. A euforia prosseguia com os novos inventos e descobertas científicas. O frenético desejo de controlar a natureza era um dos lados da moeda cuja outra face mostrava os produtos dessa conquista: a luz elétrica, o telefone, o cinema, o automóvel, o avião e os novos inventos no campo da indústria fonográfica.


O“dó de peito”

A tradição do dó de peito é antiga na cultura musical brasileira. Nos teatros, dentro da lógica do belcanto italiano, os cantores precisavam utilizar seus plenos pulmões para não serem ofuscados pelas grandes orquestras. Bom cantor era, quase sempre, aquele que mais volume de voz apresentasse. 
Modinhas ou lundus, gêneros populares no século XIX, eram vociferados com toda força nos teatros da época. Ao ar livre, em serenatas, os cantores tinham necessidade de gritar para dominar as condições acústicas desfavoráveis. A expressão “estourar os tímpanos” tinha, literalmente, sua razão de ser.

Em 1927, as novidades tecnológicas possibilitaram uma melhoria significativa no processo de gravação e audição radiofônica. A energia mecânica contida no sulco dos novos discos, gravados pelo sistema elétrico, era convertida em energia elétrica, que o alto-falante transformava novamente em energia mecânica. Isso possibilitava que sons até então inéditos em gravações pudessem ser percebidos, não havendo mais a necessidade de se gritar – a partir de então se podia cantar com naturalidade.
No começo das gravações mecânicas, a primazia dos registros ficava por conta dos grupos instrumentais e das bandas de música. Era a música instrumental, quem diria, a que mais era levada para a cera. Segundo o levantamento dos pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, mais de 65% das gravações eram de música instrumental.
Mas a partir da década de 1920 e, sobretudo, com o surgimento da gravação elétrica, a era dos grupos de choro – como o Malaquias, o Passos no Choro e as bandas Escudero, Paulino Sacramento e do Corpo de Bombeiros – cede espaço para a era da voz. A partir daí, a palavra cantada liga-se diretamente ao crescimento do mercado fonográfico no Brasil. Com a criação da fábrica Odeon, em 1912, também por Fred Figner, o país passou a figurar entre os maiores consumidores de discos, alcançando a vultosa soma de 1,5 milhão de vendas por ano.
A seguir, veremos alguns dos principais nomes que se imortalizaram na história de nossa música popular como intérpretes de samba. Esses cantores arrastaram milhares e até milhões de fãs por todo o país, cristalizando no imaginário popular pérolas do nosso cancioneiro. Eles consolidaram uma linguagem citadina, marcada pelo ávido consumo musical e pelo contínuo distanciamento do universo folclórico. As vozes entoadas nos picadeiros de circo, nas serestas românticas ao luar e nos palcos do teatro de revista tornaram-se uma realidade cada vez mais distante ante o avassalador poder do rádio. Com vocês, senhoras e senhores, os cantores do rádio...


A Belle Époque

A “bela época” foi caracterizada pela crença desenfreada nas virtudes e benesses da vida burguesa. Indo do fim do século XIX ao início do XX, com grande força sobretudo em Viena e Paris, influenciou com muita vitalidade o cenário cultural das grandes cidades brasileiras. A cultura parisiense tornou-se referência para nossa elite. Reverenciavam-se o idioma francês e os poetas, escritores e pintores da Cidade Luz. No cotidiano do Rio de Janeiro, matriz política e cultural do país, a elite remodelava os espaços de sociabilidade, empurrando a cultura afrodescendente para as nascentes periferias e morros.
Mas, como bem apontou o antropólogo Hermano Vianna, “ao lado dessa tendência re-europeizante... talvez até dominante no período, subsistiram ... e foram inventadas práticas sociais que colocavam em cena um outro tipo de relação com os universos populares”.1 A hegemonia da cultura francesa não apagou as modinhas e lundus dos salões da elite, tampouco impediu que músicos populares circulassem com toda propriedade em palacetes de barões, intelectuais e políticos da cidade, com seus tão propalados violões “marginalizados”.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

DEIXA O GALO CANTAR (BRÁULIO DE CASTRO - NEI ARAÚJO)




Arranjos - Fábio Valois
Vocais - PERNAMBUCANEANDO: Bárbara Lessa Fátima de Castro Mileide Pinheiro

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

UM CAFÉ LÁ EM CASA

Por Nelson Faria



EM NOVO PROJETO, CONSUELO DE PAULA APRESENTA-SE VISCERAL

Entre meandros sonoros pouco explorados, a artista mineira passeia de modo seguro e cativante como é possível perceber em "maryákoré", seu sétimo registro fonográfico.

Por Bruno Negromonte




Quando nos referimos ao termo transcendência há quem afirme, sensorialmente, que seja algo que está relacionado com aquilo para além do mundo natural, real. Etimologicamente, transcender é sobressair, alcançar de uma maneira ou de outra algo que está fora dos limites que impõe o corpo; elevar-se sobre ou ir além dos limites de; situar-se para lá de... Dentre as mais distintas teorias sobre o termo (apesar de haver algumas divergências) pelo menos em um contexto todas elas são categoricamente convergentes: a arte é um dos caminhos para o alcance dessa tal transcendência e a música um dos portais mais acessíveis. Não há nenhum povo sem música. Nesse contexto sensorial nada é tão material como a música: a voz, instrumentos de sopro, de percussão e de cordas... e disso tudo resulta o que nos enleva, nos transporta para a transcendência, nos coloca lá donde viemos e lá para onde verdadeiramente queremos ir e talvez habitar. Se bem analisarmos poderemos perceber o quanto uma canção, um canto ou algo relacionado ao contexto sonoro é capaz de fazer, de algum modo, a alma transcender a um imaginário perfeito, a um estado único de equilíbrio. Homero, poeta épico da Grécia Antiga, nascido mais de 900 anos antes do início da era cristã, percebeu a existência desse, digamos, portal e soube usar muito bem o seu talento a favor da narrativa sobre o poder fascinante da música em um dos clássicos da literatura mundial. Feita de tempo, a música o pára, o transcende e tange o eterno. Em síntese é isso: Qualquer indivíduo que for questionado sobre quais são as suas percepções sobre uma determinada melodia, por exemplo, chegará a um ponto onde não poderá exprimir completamente, através das palavras, as sensações que a música lhe traz. E isso talvez seja a tradução mais visceral do termo transcender. 



Toda esse contexto teórico sobre transcendência foi para chegar ao nome de uma artista singular, uma artífice guardiã e detentora de uma das chaves que nos conduz a este portal sonoro rumo a esse regozijo. Seu nome? Maria Consuelo de Paula ou simplesmente Consuelo de PaulaPoetiza, cantora, compositora, instrumentista e produtora, Consuelo nasceu na cidade de Pratápolis, localizada na Mesorregião do Sul e Sudoeste de Minas e Microrregião de Passos a cerca de 398 km de Belo Horizonte. Sua arte traz por característica uma identidade muito marcante (pois a sua música não faz concessão) e um canto aprazível. Talentosa, a cantora não rende-se ao ao modismo convencional e por isso mantém-se firme naquilo que acredita como ofício. Tal qual Hermeto Pascoal, para ela o valor maior está nas notas musicais e não nas notas de dinheiro como é possível atestar em cada registro fonográfico. Desde o primeiro álbum lançado em 1998 ("Samba, Seresta & Baião") que o seu trabalho é passivo desta afirmação. Deste ao mais recente somam-se um total de sete álbuns em pouco mais de duas décadas de mercado fonográfico. São projetos como "Dança das rosas", "Tambor e flor", o CD e DVD "Negra" (que foi gravado em espetáculo ao vivo no Teatro Polytheama de Jundiaí), "Casa", "O Tempo e o Branco" entre outros que reiteram a sua aguçada sensibilidade a serviço da arte e da vida. Seja como intérprete de suas próprias canções (havendo como destaque o repertório composto em parceria com o saudoso Rubens Nogueira) ou cantando temas de outros autores, Consuelo de Paula apresenta uma musicalidade originária e de relevante apuro estético como é possível atestar também neste mais recente trabalho cujo título, Maryakorè, um neologismo que surge da soma do primeiro nome da artista a termos indígenas, africanos entre outros.

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Com uma sonoridade bastante visceral, o álbum é um verdadeiro mergulho nos rincões do Brasil. Com alta precisão, a cantora, instrumentista e compositora soube onde se aprofundar assim como também imergir de tais entranhas. Essa viagem, somada o outros aspectos intrínsecos, trouxe como resultado um projeto fonográfico caracterizado por uma sonoridade para além do convencional, passiva à sensibilidade dos mais atentos. Uma ode aos sentidos e sensações, o disco conta com a participação dos músicos Carlinhos Ferreira (percussão) e Guilherme Ribeiro (piano), na apresentação daquilo que melhor foi absorvido pela artista ao aventurar-se no não convencional. Em dois movimentos e parcerias com nomes como Déa Trancoso, Paulo Nunes e Rafael AltérioMaryakorè é a lapidação da destreza a partir do seu estado bruto. É medula daquilo que podemos definir por arte; denso e forte, é raiz profunda de um Brasil intenso como pode-se perceber.

Como bem foi visto, a música tem o poder de nos transportar. Mítica, ela é o divino no mundo ou, pelo menos, o que nos abre à experiência ao divino em algumas situações. Talvez ela seja a tal beleza que o romancista russo Dostoiévski definiu como "salvadora do mundo". Caso não seja, não importa... a beleza pode ser algo mais real, mais audível como, por exemplo, o canto de Consuelo de Paula (que por si só já nos basta). Doce e conciso, o seu canto é uma das coisas que há de mais aprazíveis na música popular brasileira na atualidade. Indelével, seu talento não suprime-se ao apresentar-se inventivo, pelo contrário, mostra-se rico de tal maneira que serve até mesmo como parâmetro para ir de encontro à lógica obtusa de uma indústria cultural que preza por contextos escusos e que estão longe daquilo que muitos acreditam por arte. Xamã em seu ofício, Consuelo guia-se pela sensibilidade e permite-nos uma fascinante aventura no cerne de nossa cultura não apenas para que tomemos conhecimento da diversidade existente neste país de dimensões continentais, mas também para nos permitir uma apropriação que vai para além do tangível, algo muito mais sensorial do que paupável, uma viagem ao encontro de uma ancestralidade peculiar, onde a resistência transfigura-se em música e esta, imbuída de verdade, vai formando um caleidoscópio sonoro abrangente e interessante, passivo da possibilidade de conhecimento. Em síntese é isso: tal qual Caetano, essa mineira, nua com sua música, nos mostra devagarinho, de modo íntimo e intenso, o caminho que vai de tom a tom a nos proporcionar essa vertigem visionária que não carece de seguidor. Porangatu, Maryakorè!



Maiores Informações:

Facebook (Página) - 
Spotify - https://open.spotify.com/album/7gEMg1TJcjbUktU5dtTXOz

Para aquisição do álbum:
Pop Discos - https://www.popsdiscos.com.br/detalhe.asp?shw_ukey=47265 Saraiva - https://www.saraiva.com.br/consuelo-de-paula-maryakore-digipack-10621758/p





quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Xote pra vô Jaimão

Composição: Alberto Maia - Raul Marques 

Intérprete - Bruno Moritz

Disco - Raul Misturada & Bruno Moritz - Capim Limão (2012)



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

BAÚ DO MUSICARIA


A exatamente cinco anos, esta era uma das matérias que estava sendo publicada em mês como este em nosso espaço:


Link para relembrar a matéria:


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

BAÚ DO MUSICARIA




A exatamente dez anos, esta era uma das matérias que estava sendo publicada em mês como este em nosso espaço:



10 ANOS SEM PENA BRANCA, DA DUPLA PENA BRANCA E XAVANTINHO

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*


Futuros amantes

"Futuros amantes", de Chico Buarque, fala do amor adiado, que não tem pressa para ser consumado e consumido; do amor maduro, longe das urgências do amor juvenil. Mas fala também, de viés, da paciência como necessidade para os acontecimentos da vida.
Lançada no disco Paratodos (1993) - que tem também a regravação da bela "Sobre todas as coisas", de 1982 - "Futuros amantes" investe na mistura de um arranjo de cordas com uma batida bossa nova e ajuda a, calmamente (sem pressa), e a voz terna de Chico ajuda nisso, transmitir a sensação de certeza e segurança no amor que é imortal.
Expressões e palavras pouco usuais em canções dão o tom buarquiano, tais como: "Posta-restante", que é a correspondência que fica esperando alguém ir buscá-la numa agência dos Correios; e "Escafandristas", o mergulhador-explorador que faz uso do escafandro. Tudo se conjuga para falar da raridade do amor.
Importa lembrar que "escafandro" é palavra que aparece em "Rapaz de capricho", de Noel Rosa, de 1933: "Perguntei ao escafandro se o mar é mais profundo que as ideias do malandro. Chico Buarque, cria noelrosiana, recupera o capricho vocabular do poeta da Vila.
Se há amor, os amantes sabem permanecer esperando o momento exato para surgir e/ou ser descoberto. Este amor cantado pelo sujeito de "Futuros amantes" superará o tempo e chegará ao futuro: quando o Rio já seja uma "cidade submersa", os escafandristas descobrirão os resíduos desse amor atemporal, que servirá de objeto de pesquisa, e de uso, devido à sua estranheza, diante das novas (ou nem tanto) expressões do amor.
Afinal, "amores serão sempre amáveis" e qualquer maneira de amor vale o canto; ou: "a flor do amor tem muitos nomes", como Riobaldo diz em Grande sertão: veredas.
Sem dúvida, "Futuros amantes", com sua poesia, mentiras, segredos e retratos, é uma bela declaração do amor romântico. Daquele tipo de amor que é tão sutil e quente que fica esquecido num fundo de armário, mas, de modo imperceptível, dando suporte à nossa existência.


***

Futuros amantes
(Chico Buarque)

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você



* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".


CURIOSIDADES DA MPB

Mesmo após a morte, em 11 de outubro de 1996, Renato Russo voltou a subir no palco sob forma de holograma. Em 2013, um grande show em tributo ao cantor foi feito no estádio Mané Garrincha, em Brasília. A apresentação, que utilizava tecnologia ainda inédita no Brasil, foi idealizada por Giuliano Manfredini, filho do cantor.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

PAUTA MUSICAL: NOEL ROSA E VADICO – FEITIÇO DA VILA

Por Laura Macedo



Noel Rosa e Vadico – Feitiço da Vila, por Laura Macedo


Noel Rosa foi um dos inventores da samba urbano, com letras sem leteratices, usando da linguagem coloquial das ruas em rimas elaboradas, que continuam atuais quase um século depois de criadas.

Composto em parceria com Vadico [Oswaldo Gogliano/1910-1948] e lançado em disco em dezembro de 1934 pelo cantor João Petra de Barros (1914-1948), ‘Feitiço da Vila’ é exemplar da força e da beleza alcançadas por sua arte.

Com essa declaração de amor ao samba e ao bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, onde nasceu e viveu, Noel de Medeiros Rosa (1910-1937) dava prosseguimento à sua célebre polêmica com o compositor Wilson Batista (1913-1968), que rendeu grandes canções de ambos os lados.


Em 1933, o então iniciante Batista tinha apresentado suas armas com ´Lenço no pescoço’, samba que fazia apologia à malandragem. Noel não gostou da associação e deu início à com briga ‘Rapaz folgado’. E, quase dois anos depois, reafirmou sua posição, acenando com um samba de ´feitiço decente, sem farofa, sem vela e sem vintém´.

Houve quem enxergasse, na referência pejorativa ao candomblé, traços de racismo na canção, mas a obra e a vida de Noel não deixam dúvidas. Boêmio e farrista inveterado, o Poeta da Vila esteve mais perto da malandragem, que constatou a polêmica com Batista, do que da classe média, cujo balde chutou sonoramente. Largou o curso de Medicina para fazer samba numa época em que artista era considerado sinônimo de vagabundo e malandro.


Teve convivência estreita com sambistas negros, entre os quais Cartola e Ismael Silva, numa relação de parceria e amizade, sem a exploração e a compra de músicas que, estão, era prática comum de tantos intérpretes e compositores brancos. Ele também trocava o dia pela noite transitando entre a Lapa, o Estácio e os morros do Rio, e a sua paixão pela boêmia é exaltada em ‘Feitiço da Vila’.

CURIOSIDADES DA MPB

Um dos amores de Nelson Cavaquinho se chamava Lígia. Era uma sem teto que dormia na Praça Tiradentes, que ele sempre frequentava no Centro do Rio. Os dois bebiam juntos no banco da praça e acabavam dormindo ali mesmo. Nelson tinha o nome Lígia tatuado no ombro direito, motivo do samba "Tatuagem".

domingo, 16 de fevereiro de 2020

BONDE ALEGRIA - HOMENAGEM PERY RIBEIRO

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

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Criollo

sábado, 15 de fevereiro de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

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Sinhô

Jura, jura, jura
pelo senhor,
jura pela imagem
da santa cruz do Redentor
pra ter valor a sua jura
SINHÔ, “JURA”


Com alcunha de “Rei do Samba”, José Barbosa da Silva foi o mais popular compositor de samba das primeiras décadas do século XX. Conhecido pelo público como Sinhô, era filho de um pintor apaixonado por choro, que tinha adoração pelos flautistas Joaquim Callado e Patápio Silva. Seu pai gostaria muito de vê-lo flautista, mas o rapaz preferiu mesmo o piano e o violão.
Frequentando os principais redutos musicais da época – a Festa da Penha, as casas das baianas, as sessões de capoeira, as batucadas na Praça Onze –, Sinhô foi adquirindo, ao piano, um jeito muito pessoal de criar melodias. Vivia se apresentando em lojas musicais, gafieiras, bailes, grandes sociedades (Clube dos Democráticos e dos Fenianos, por exemplo) e casas familiares.


A vaidade de Sinhô

Cronista carnavalesco do Jornal do Brasil e autor do pioneiro livro Na roda do samba, João Guimarães (mais conhecido como Vagalume) foi convidar Sinhô, em maio de 1920, no Teatro São José, em plena temporada de sucesso da revista Pé de Anjo, para tocar nas bodas de ouro de um amigo. O diálogo entre os dois é um perfeito exemplo da vaidade do compositor de samba mais famoso da primeira geração:
– Sinhô, meu amigo. Preciso de você.
– Pois não, meu tio. Dê suas ordens.
– Organizei uma festinha na casa do nosso amigo F., que completa bodas de ouro, e você tem que ir comigo para animar a brincadeira, pois temos lá um bom piano.
– Não há dúvida, Guima do coração. Você manda neste mulato.
– Então vamos. O automóvel está esperando.
– Ah, querido, já... É impossível. Só depois de acabar o espetáculo.
– Por quê?!
– Porque eu sou o autor da música!
– E o que é que tem Frei Tomás com Isabel de Godói? O que tem uma coisa a ver com a outra?
– O que é que tem? E se de repente os espectadores me chamarem à cena?
– Mas Sinhô, a peça já está com 174 apresentações!
– É, mas o povo é exigente. De repente cisma e começa a chamar: “Sinhô à cena! Sinhô à cena!” E se eu não estiver no teatro, olha o fuzuê formado...

Numa dessas apresentações, em festa particular, ocorreu um fato curioso.
Uma jovem, entusiasmada com o pianista, pediu que ele executasse “Élégie”, do compositor erudito Massenet. Conta-se que Sinhô, autodidata por natureza e incapaz de ler uma nota sequer, teria se livrado da tarefa respondendo à senhorita que não tocaria a peça porque não se dava com o autor.
Vaidoso, boêmio, antenado com seu tempo e compositor inspirado, tinha como temática de sua obra as relações amorosas, a crítica social e as rixas pessoais, além de um assunto recorrente: dinheiro. Sinhô encaixava com muito jeito as melodias nos versos pitorescos. E foi, com sua perspicácia, um privilegiado fornecedor de composições para Aracy Cortes, Francisco Alves, Mário Reis e Carmen Miranda.

Seu primeiro sucesso data de 1918 e nasce de uma rixa com China, Pixinguinha, Donga e sua turma. “Quem são eles?” (“A Bahia é terra boa/ ela lá eu aqui”) fez grande sucesso no carnaval e gerou uma forte resposta de Pixinguinha e seu irmão China, que retratava aspectos de Sinhô na música “Já te digo”: “...ele é alto, magro e feio/ é desdentado/ ele fala do mundo inteiro...” Após sua primeira polêmica pública, Sinhô começa a compor músicas que caem ainda mais no gosto popular, mas que com freqüência provocam querela com alguém. Em “Pé de anjo” (“Eu tenho uma tesourinha/ que corta ouro e marfim/ serve também para cortar/ línguas que falam de mim”) ele briga com Hilário Jovino. Já Heitor dos Prazeres acusa-o de ter plagiado a música “Ora, vejam só”, de melodia viva e ritmo saltitante. Aliás, as brigas com Heitor eram recorrentes. Como já vimos, Heitor acusou Sinhô de ter roubado os seus sambas “Gosto que me enrosco” (“Não se deve amar sem ser amado/ é melhor morrer crucificado/ Deus me livre das mulheres de hoje em dia/ desprezam o homem só por causa da orgia”), de um lirismo malandro, e “Dor de cabeça”. Heitor respondeu à suposta afronta de Sinhô com dois sambas, “O rei dos meus sambas” e “Olha ele, cuidado!”. O primeiro diz assim: “Eu lhe direi com franqueza/ tu demonstras fraqueza/ tenho razão de viver descontente/ és conhecido por bamba/ sendo rei dos meus sambas”. O imbróglio entre os dois compositores acabou por inspirar a frase de Sinhô que entrou para os anais do samba, caracterizando de forma lapidar os primórdios do gênero: “Samba é como passarinho: é de quem pegar.”
Do vasto repertório de Sinhô destacam-se ainda “Fala baixo”, “Amar a uma só mulher”, “Que vale a nota sem o carinho da mulher”, “A medida do Senhor do Bonfim”, “Não quero saber mais dela”, “Carinho da vovó”, “Sai da raia” e “Jura”, seu maior clássico, gravado pelo cantor Mário Reis, seu aluno de violão. Apesar de dever a todos e de mudar de casa como passarinho pula de galho, Sinhô era muito consciente do seu trabalho de compositor. Organizou um grupo de músicos que, no período pré-carnavalesco, saía pela cidade divulgando suas novas composições, o que ajudou em muito na popularização de seu repertório.
Além disso, também pagava músicos de bailes para tocar seus sambas – um jabá à moda antiga. Outro dado interessante em relação a sua carreira é que ele foi provavelmente o primeiro a exigir, de forma direta, o reconhecimento de sua autoria, com um carimbo nas partituras e uma assinatura personalizada nos discos. Sendo o teatro de revista o melhor meio de divulgação do compositor popular, Sinhô acabou consolidando na Praça Tiradentes, reduto dos teatros, sua fama de divulgador do samba urbano. E foi realmente ele, nessa primeira leva de compositores, o fixador de estilos que se perpetuariam no samba carioca. De certa forma, o título de “Rei do Samba” que José do Patrocínio Filho queria lhe conferir em uma festa – o que acabou não acontecendo – caiu como uma luva na vaidade, sagacidade e musicalidade de José Barbosa da Silva. Circulando pela elite, pela intelectualidade e pelas camadas mais simples da sociedade, Sinhô foi um privilegiado ator cultural. Sua biografia é um retrato do ser carioca, com aqueles indiscutíveis elementos simbólicos que se tornariam características de nossas brasilidades. “Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé urbana”, finalizou o poeta Manuel Bandeira.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Nome expressivo dos anos de 1930, Mario Reis atravessou o tempo inovando-se como é possível perceber neste álbum que este ano completa 60 anos.

Por Luiz Américo Lisboa Junior


Mario Reis canta suas criações em HI-FI (1960)


No final dos anos vinte quando a industria fonográfica deu seu grande salto qualitativo criando a gravação elétrica muitos artistas que não tinham voz possante puderam gravar suas músicas, mas se para os compositores essa era uma grande oportunidade, a nova técnica proporcionaria o surgimento também de novos e reveladores intérpretes e um deles foi o cantor carioca Mario Reis. Oriundo de uma família de classe média alta, desde jovem deixou aflorar seus pendores artísticos e procurou sobreviver de seu talento.

Tomou aulas de violão com Jose Barbosa da Silva, o famoso Sinhô, o "Rei do samba" e ingressou na carreira em junho de 1928 gravando na Odeon seu primeiro disco com duas musicas de seu mestre professor, De que vale a nota sem o carinho da mulher e Carinhos da vovó. Seu estilo moderno de interpretar o samba não passou despercebido e no mesmo ano gravou mais quatro discos e oito musicas, com quatro de Sinhô, destacando-se o samba Jura seu primeiro grande sucesso e Gosto que me enrosco. Registrou também a primeira musica gravada do jovem compositor mineiro Ary Barroso com o samba Vou a Penha e em 28 de novembro gravou de Jose Francisco de Freitas, o samba Dorinha meu amor, que foi um dos maiores sucessos do carnaval de 1929. Portanto com dez canções gravadas em seu ano de estréia como intérprete Mario Reis já era um ídolo popular, fato não muito comum, pois como sabemos, são poucos os artistas que tem uma ascenção tão rápida.

O que o diferenciava de seus contemporâneos era sua maneira intimista de cantar o samba, sua voz era suave, sem o vibrato típico dos artistas de sua época, ele fundou um novo estilo interpretativo, sem retórica, com uma emissão vocal reduzida, sintética, e com a capacidade de falar a letra da musica dentro da melodia. Seu estilo único iria revolucionar a estética da musica popular brasileira e criar uma escola que iria ser um dos elementos inspiradores da formação interpretativa dos cantores da Bossa Nova notadamente João Gilberto.

Em sua época Mario Reis foi o mais moderno dos artistas, sua fama e prestigio aumentavam a cada dia e a uma nova gravação, seu repertório é um dos mais significativos da década de trinta, contando êxitos permanentes ate hoje como, Rasguei a minha fantasia, de Lamartine Babo; Agora é cinza, de Bide e Marçal; Quando o samba acabou, de Noel Rosa, além das 24 composições gravadas com Francisco Alves incluindo-se Fita amarela, de Noel Rosa; Formosa, de Nássara e J. Rui; Se voce jurar, e O que será de mim, ambas de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves.

Surpreendentemente Mario Reis abandonou a carreira em 1936 no auge da fama, retornando apenas em 1939 com dois discos e em 1951 na Continental com quatro discos e oito músicas, sendo quatro antigos sucessos de Sinhô por ele anteriormente registrados além de uma canção de Ary Barroso, Flor tropical e outra de Fernando Lobo, intitulada, Saudade do samba. Vivendo recluso, sem aparições em público, Mario Reis continuava sendo um mito da musica brasileira e uma referencia muito forte, motivos suficientes que levaram Aloysio de Oliveira então diretor artístico da Odeon a convencê-lo a gravar um LP em 1960, o primeiro, portanto, de sua carreira. Convite aceito, Mario antes de entrar no estúdio impôs a condição de escolher sozinho o repertório do disco, que incluía antigos sucessos como, O que vale a nota sem o carinho da mulher e Deus nos livre do castigo das mulheres, de Sinhô; Mulato bamba, de Noel Rosa; A tua vida é um segredo e Rasguei a minha fantasia de Lamartine Babo. Solicitou ainda que Tom Jobim escrevesse para ele duas músicas inéditas e Tom que o considerava um precursor da Bossa Nova fez sozinho o samba, Isso eu não faço, não e em parceria com Vinicius de Moraes compôs, O grande amor. O disco ainda incluiu uma música também inédita do pianista Mario Travassos de Araújo intitulada, Palavra doce. Os arranjos foram do maestro Lindolfo Gaya e a orquestra que o acompanhou foi de Oswaldo Borba, na contra capa um texto biográfico de Lucio Rangel.

Apesar da maturidade as características vocais de Mario Reis ficaram inalteradas demonstrando todo seu virtuosismo e confirmando tudo que sobre ele já se havia dito, contudo, agora se poderia ouvi-lo em plenitude, sem as deficiências técnicas dos antigos 78 rotações. Ah! o nome do LP é, Mario Reis canta suas criações em hi-fi (alta fidelidade para os mais jovens). Precisa dizer mais alguma coisa para considerá-lo fundamental? É so ouvir e conferir, e importante, o LP foi relançado em CD numa coleção intitulada 2 em 1.

Itabuna, 26 de janeiro de 2005.




Músicas:
1) Palavra doce (Mario Travassos de Araújo)
2) Vamos deixar de intimidade (Ary Barroso)
3) O que vale a nota sem o carinho da mulher (Sinhô)
4) Yayá boneca (Ary Barroso)
5) Mulato bamba (Noel Rosa)
6) Rasguei a minha fantasia (Lamartine Babo)
7) Isso eu não faço, não (Tom Jobim)
8) Deus nos livre dos castigos das mulheres (Sinhô)
9) Linda Mimi (João de Barro)
10) A tua vida é um segredo (Lamartine Babo)
11) Vai-te embora (Francisco Matoso e Nonô)
12) O grande amor (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra




A CHITA DO VESTIDO DE MINHA AMADA


Ficou escuro e quase não se via o caminho. Mais parecia uma vereda, uma senda. Da última vez que o céu nublou, demorou mais de 20 anos para desnublar. E a cada dia ficava mais fechado o tempo. Mas um dia o sol raiou. Como sei que qualquer hora outro sol raiará e amanhã será outro dia. Mas quando será o amanhã? Parei, cauteloso, esperando tempo bom, mesmo sabendo que não adianta ficar parado no acostamento no aguardo de bom tempo: tem que botar o carro na estrada, ainda que ela seja estreita e cheia de catabis, encarar o perigo e chegar ao destino final. Redobrar os cuidados, faróis acesos, que o perigo mora perto, mas seguir é preciso, sempre acelerando, cantando e sorrindo, quando possível. Dona Alzira, a costureira, aguarda o corte de chita que eu levo pra fazer um vestido pra minha amada ficar mais bela do que ela já é. Se eu ficar parado no acostamento esse vestido jamais a vestirá. E a chita é muito bonita para se perder numa estrada só porque o tempo escureceu. Logo eu, que nunca tive medo do escuro e que por tantos escuros já passei ... Melhor seguir, cantando e sorrindo, mas sempre atento às negras nuvens e às assombrações. Vai passar ...

REFERÊNCIA DA GUITARRA JAZZÍSTICA, ALEXANDRE CARVALHO LANÇA CD RIO JOY

Carioca define seu som como "universalista". Seu novo trabalho une jazz, música brasileira e erudita

Por Augusto Pio 

(foto: Rosi Reis/Divulgação)


Um músico da corrente Third stream (terceira corrente – termo criado pelo compositor norte-americano Gunther Schuller, em 1957, para descrever um gênero musical que junta a música clássica ao jazz), que gosta de misturar o jazz com elementos da música de concerto europeia. Assim Alexandre Carvalho define o seu som, que considera universa- lista. Ao lado de Fernando Trocado (sax), Jefferson Lescowich (baixo) e Vitor Vieira (bateria), ele está lançando o álbum Rio joy, composição autoral que também dá nome ao CD.

O disco ainda contou com as participações especiais de Ademir Junior (sax-tenor), Daniel Castro (baixo acústico) e Pedro Almeida (bateria), nas faixas Rio joy e Nica’s mood. Neste álbum, o guitarrista carioca revisita clássicos de grandes músicos, como o norte-americano Charles Mingus, o argentino Astor Piazzola e os brasileiros Luis Eça (1936-1992) e JT Meirelles (1940-2008). Alexandre é doutor em música pela Manhattan School of Music, compositor e arranjador, sendo considerado pela crítica especializada uma referência da guitarra jazzística no Brasil e nos Estados Unidos, onde viveu por muitos anos.

O músico explica que neste novo trabalho (ele já havia lançado, em 1996, o CD Central Park West, em duo com o saxofonista francês Idriss Boudrioua), procurou resgatar pérolas do Brazilian Jazz, revisitando clássicos das obras dos cariocas JT Meirelles (Samba jazz) e Luis Eça (The Dolphin), dois nomes fortes do Beco das Garrafas nos anos 1960. “Também procurei homenagear o grande Astor Piazzolla (La Calle 92) e a lenda do jazz Charles Mingus (Duke Ellington's sound of love), além de gravar Armadilha, um samba-jazz eletrizante do novato compositor Henrique Alvim.”

Autorais, Alexandre gravou três composições inéditas, Rio joy, Nica's mood e Waltz nova, que mesclam elementos do jazz com a música clássica, mas sem perder o sotaque brasileiro. “Tenho influências de estilos de várias partes do mundo e meu único critério na escolha do repertório é a qualidade da música e não sua nacionalidade”, justifica.

Ele explica que o disco tem uma vertente tripla, com um pouco de jazz, um pouco de música brasileira e um pouco de música de concerto. “Na verdade, ele tem umas texturas meio de concerto. Gravei três músicas autorais que compus quando ainda fazia doutorado nos Estados Unidos. Ele tem também um pouquinho de Third stream, além de influência de música mineira, algumas harmonias típicas de Toninho Horta”, revela o músico carioca.

Alexandre ressalta que resolveu também homenagear alguns músicos do samba-jazz, como Luizinho Eça e JT Meireles, porém lamenta não ter podido tocar com eles. “Mas cheguei a ver o Luizinho tocar por várias vezes e acabamos ficando amigos. Por outro lado, ele também me viu tocar. O Meireles não tive o prazer de conhecê-lo, mas sempre admirei o seu trabalho, que pode ser acessado através da internet. Eça era professor, músico, compositor, arranjador e pianista, e Meireles, saxofonista, arranjador e compositor, ambos incríveis.”

O músico também gravou uma canção que é considerada por muitos como jazz puro. Trata-se de Duke Ellington’s sound of love, de Charles Mingus (1922-1979). “É uma composição que não tem influência de nada, digamos que é bem purista”. Ele lembra que quando começou a tocar, ainda na adolescência, ouvia muitos guitarristas de rock, principalmente Jimmy Page, do Led Zeppelin, mas hoje garante que ouve mais as orquestras. “Uso a guitarra mais como uma ferramenta. Além disso, toco um pouco de piano e contrabaixo.”

Alexandre conta que a sua migração do rock para o jazz se deu quando foi ver um show do guitarrista e violonista carioca Hélio Delmiro. “Como disse, comecei ouvindo rock na adolescência, mas, a partir daquele show, minha cabeça se abriu para outras coisas. Delmiro faz aquela coisa mais moderna, mais rebuscada de violão, mais de harmonia. Então, ele conseguiu abrir a minha cabeça para as sutilezas harmônicas do jazz. A partir dali, fui beber na fonte, ou seja, ouvir os grandes músicos do jazz e do fusion.”


SHOWS

O músico confessa que hoje quase não ouve mais os guitarristas, pois prefere mesmo as orquestras. “Interesso-me mais pela música pura mesmo, erudita, pelas orquestras e concertos, lembrando que fiz mestrado em música erudita no Brasil e nos Estados Unidos. Quanto a este disco, por enquanto, vamos fazer um show de lançamento no Rio de Janeiro e depois vamos para São Paulo. Esperamos percorrer várias cidades.”

Alexandre já tocou ao lado de nomes importantes do jazz, nacional e internacional, como Danilo Perez, Jeff Andrews, Bob Mintzer, Jerry Bergonzi, Claudio Roditi, Marcio Montarroyos, Mauro Senise, Leo Gandelman, Robertinho Silva e Pascoal Meirelles, além de fazer parte do quinteto Victor Assis Brasil. Tocou também ao lado de João Bosco, entre outros.


FAIXA A FAIXA
01 – Rio joy (Alexandre Carvalho)
02 –Samba jazz (JT Meirelles)
03 – Nica’s mood (Alexandre Carvalho)
04 – La Calle 92 (Astor Piazzolla)
05 –The Dolphin (Luiz Eça)
06 –Waltz nova (Alexandre Carvalho)
07 – Duke Ellington’s sound  of love (Charles Mingus)
08 – Armadilha (Henrique Alvim)

(foto: Reprodução)

Rio Joy
Alexandre Carvalho 
Oito faixas
Selo: Tratore
Preço: R$ 20
Disponível nas plataformas digitais

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Nervos de aço

Composição: Lupicinio Rodrigues

Intérprete - Déo - Raul de Barros e sua Banda

Disco - Continental 15.785 - matriz 1657-1. Gravação de 06 de maio de 1947.


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

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