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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CHICO BUARQUE DIZ QUE É UM INCÔMODO TER UMA IRMÃ NO MINISTÉRIO DA CULTURA

Por Paulo Terron


Irmão da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, o cantor Chico Buarque disse ficar incomodado em ter uma pessoa de sua família ocupando o posto. "Para mim é um incômodo ter uma irmã no Ministério da Cultura", disse ele em entrevista à edição de outubro da revista "Rolling Stone Brasil", que chega às bancas na quinta-feira (13).

Chico contou que se mantém alheio aos assuntos relacionados ao Ministério porque, desde o início, tentou-se passar a impressão de que ele teria alguma ingerência na nomeação de Ana por Dilma Rousseff. "Para mim, o mais confortável era que o Juca Ferreira continuasse sendo ministro. Até mesmo para que as pessoas xingassem o Juca Ferreira e não a minha irmã nos jornais", brincou

O cantor admitiu desconhecer o Creative Commons (que permite flexibilidade na utilização de obras protegidas por direitos autorais) -- "eu sei que o selo foi tirado do [site do] Ministério. O que isso representa, eu não sei"-- e confessou que é mais difícil viabilizar turnês pelo fato de não se utilizar da Lei Rouanet .

Questionado sobre como lida com a fama e com a era dos paparazzi, Chico disse que é chata a "fiscalização moralista" da vida dos outros. "Vou deixar de ir à praia, mas outras coisas eu não vou deixar. O meu vinho vou tomar, meu cigarro vou fumar".

Chico falou também sobre a expectativa a respeito de suas músicas ser sempre alta. "Eu não posso me deixar levar por isso. E não adianta você querer matar um leão por dia, porque as pessoas sempre vão dizer que o leão antigo era melhor e mais forte do que o de hoje [risos]. Mas não é isso que vai me estimular".

"Existe uma pressão interna, sim, uma necessidade e um prazer grande em fazer uma música. Essa possibilidade de alternância é saudável, porque ninguém está esperando um disco novo meu daqui a um ano: nem eu, nem ninguém", arrebatou, acrescentando que, provavelmente, seu próximo lançamento será um livro.

Chico Buarque lançou seu último disco, "Chico", em 22 de julho deste ano.

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Amanda Garruth

A MPB ENTRE A ARTE E O TRONO DO MERCADO

Com a erosão dos meios de difusão, compositores e intérpretes viram seu palco de atuação e propagação diminuído.

Por Tárik de Souza


Como o Brasil é muito extenso – fragmentado por regionalismos e absurdas discrepâncias de renda, escolarização e capacidade de geração e apreensão cultural –, não há como definir um rumo linear para a música popular. De forte apelo nacional, ela não possui uma voz única. Ao mesmo tempo, os cada vez mais abrangentes meios de comunicação também não a disseminam de forma democrática, com igualdade de oportunidades para os mais diversos gêneros sonoros que povoam nosso território. Tais limitações são regidas pela engrenagem financeira imediatista do mercado. Ou seja, é fácil encontrar música populista brasileira (geralmente classificada de brega) nos horários mais nobres dos meios de comunicação de massa, muitas vezes turbinada por uma divulgação artificial, financiada (o assim chamado “jabá”). E não a resultante da que deveria ser uma demanda popular de oferta ampla. É um circuito que se autoalimenta, já que ele condiciona o ouvido da maioria da população a um único tipo de música e abordagem.

Ainda que essa música possa vestir formatos como sertanejo, pagode romântico, forró pop ou axé music, muda-se a embalagem, mas o conteúdo vem recheado dos mesmos clichês poéticos de paixão exacerbada ou revanche amorosa, enquanto as linhas melódicas reprisam sequências surradas, incapazes de tirar a audiência da zona de conforto do já conhecido. “O povo sabe o que quer / mas o povo também quer o que não sabe”, já cantava com sagacidade o compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, em “Rep”, faixa de seu disco O Sol de Oslo, de 1998.

Mas, dentro desse cenário viciado, há curiosas exceções, sob certos aspectos. Como o assumido “tecnobrega” paraense e suas variações, cujo lastro musical-poético não difere muito dos congêneres do mercado de massa, exceto pelo fato de ser um produto independente cedido à promoção pela divulgação pirata dos camelôs locais. Some-se a isso alta tecnologia, utilizada em iluminação, cenários, aparelhagem e efeitos sonoros. Da mesma forma, independentes (difundidos ou não por gravadoras) e virais, espalharam-se o rap, em geral de forte conteúdo contestatório, como o dos pioneiros Thaíde e DJ Hum, mais Racionais MC’s, Sabotage (que morreu assassinado), Mzuri Sana, O Rappa, Nega Gizza, Xis, MV Bill, Negra Li, e também uma perna associada ao samba, via Rappin’ Hood e Marcelo D2. E ainda o funk carioca, de alto apelo sexual, não raro pornográfico, junto aos “proibidões”, que exaltam os bandidos e a vida marginal. Inicialmente uma mera cópia dos batidões de baixo estertorado do estilo norte-americano miami bass, esse funk – dentro da espontânea antropofagia cultural brasuca – ganhou a adesão do tambor de candomblé, acelerou a batida e sofisticou-se na direção de um eletroclash nativo, com repercussões internacionais.

Após uma década de ouro – os anos 1980 –, quando implantou no país um modelo pós iê-iê-iê com tinturas punk e pop em variadas colorações (Blitz, Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Kid Abelha, Engenheiros do Hawaii, Lobão, Lulu Santos, Marina Lima, Cazuza, Angela Ro Ro, Barão Vermelho, Ira!, RPM, Capital Inicial, Camisa de Vênus), o BRock, que conseguiu exportar até heavy metal via os mineiros do Sepultura, diminuiu sua influência e poder. Passou por uma geração que incorporou elementos étnicos como os do “mangue bit” pernambucano, viveu a imolação da rascante antidiva Cássia Eller, a meteórica passagem da híbrida banda Los Hermanos, e desaguou em tribos pop de calibres variados. Dos tristonhos de rímel do emocore aos jeans de cores ácidas do happy rock. Num nicho à parte, bandas como a cearense Cidadão Instigado (do guitarrista Fernando Catatau, o mais influente da nova fornada), Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília, e a mato-grossense Vanguart oferecem dissonâncias ao discurso dominante no setor.


Fora do mercado os gêneros mais tradicionais do país

Os gêneros mais tradicionais do país, como o samba, o choro, a música nordestina (hoje abrigada sob o rótulo totalizante de forró), a música caipira (não confundir com a genérica sertaneja) e, principalmente, a MPB, foram desalojados da corrente principal do mercado. As mudanças sociológicas introduzidas no campo pelo agronegócio, seus utilitários de cabine dupla e rodeios luxuosos – que fez brotar até uma corrente de chamados “sertanejos universitários” – pareceram condenar os caipiras que ainda utilizam a ancestral viola, com afinações de nomes pitorescos como “cebolão”, “rio acima” e “rio abaixo”, à total obsolescência. Mas, a despeito de ter seu espaço reduzido a heroicos programas de TV, como os de Inezita Barroso e Rolando Boldrin, entre poucos outros, a caipirada, que revelou, a partir dos 1970, de Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho a Almir Sater, semeou ases da viola como Ivan Vilela, Roberto Corrêa e Paulo Freire. E um incontável número de seguidores, país adentro, do paradoxal virtuosismo caipira/erudito, do baiano Geraldo Ribeiro ao mineiro Renato Andrade – este, uma espécie de João Gilberto da viola, pelo mistério de sua originalidade e seus “causos” míticos.

Após conseguir reinventar-se por meio do pagode de raiz em meados dos 1980 (com Zeca Pagodinho, Grupo Fundo de Quintal, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jovelina Pérola Negra, Jorge Aragão), o samba voltou a brotar nas casas noturnas de classe média de uma Lapa renascida da decadência, no Centro do Rio. Um dos berços da urbanização do samba (ao lado do Estácio), a Lapa, que sucumbiu nos anos 1950 com a ascensão dos inferninhos de Copacabana e ganhou impulso com neossambistas como Teresa Cristina e o Grupo Semente, Rodrigo Maranhão, Roberta Sá, Moyseis Marques, também abrigou pelotões renovados (ou revalorizados) de chorões.

Mas, apesar do aparecimento de notáveis jovens virtuosos como o violonista gaúcho Yamandu Costa e o bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda, esse gênero (a que eles não limitam seus repertórios) enquadra-se no segmento da música instrumental, que teve seus espaços progressivamente reduzidos, especialmente no Rio, onde foram desativadas várias casas noturnas dedicadas ao setor. Ainda que sucessivos revivals da cinquentenária bossa nova tenham chamado atenção para o estilo samba-jazz, é pequeno o número de grupos ou solistas novos que conseguem traçar uma carreira expressiva fora do acompanhamento de estrelas canoras. Mas mesmo estas e os novos compositores(as) e cantores(as) viram seu palco de atua-ção e propagação diminuído, com a progressiva erosão dos meios tradicionais de difusão de seu trabalho: a venda de CDs e, posteriormente, DVDs.


O afundamento da indústria do disco

O afundamento da indústria do disco, especialmente no caso brasileiro, era previsível. Depois de décadas em que as diferentes gravadoras (na grande maioria, multinacionais) faziam suas apostas artísticas, como manda a prudência do mercado financeiro, em ases de curto, médio e longo prazo, essa estratégia foi drasticamente modificada, a partir dos anos 1990. O foco único passou a concentrar-se nos chamados produtos descartáveis, de fôlego curto, vendas altas e imediatas. A chamada MPB, cuja linha evolutiva após a era de ouro tinha tomado rumos cada vez mais inovadores após a bossa nova (era dos festivais, tropicalismo, clube da esquina, neonordestinos, vanguarda paulista), foi progressivamente alijada dos meios de difusão de massa, movidos, muitos deles, a jabá. Mesmo figurões coroados em décadas anteriores (Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa, Jorge Ben Jor, Maria Bethânia, Djavan) passaram a viver mais de shows do que de discos. E muitos saíram das majors para selos independentes, uma tendência iniciada ainda nos anos 1970, com o pianista e compositor Antonio Adolfo e seu Feito em Casa (vendido de mão em mão) e a explosiva estreia do grupo vocal Boca Livre, que vendeu 100 mil cópias, em 1979, e atestou ser possível triunfar fora das regras tradicionais do mercadão.

E os artistas de gerações seguintes, como o pernambucano Lenine, o paraibano Chico César, o maranhense Zeca Baleiro, o carioca Paulinho Moska, a fluminense Zélia Duncan – mesmo seguindo o caminho inverso da ala rock, ou seja, misturando a MPB com pop –, fizeram longos trajetos até estabelecer-se. Algumas cantoras/autoras chegaram mais rápido ao topo, como Marisa Monte (impulsionada pelo mix dos Tribalistas, com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown), Adriana Calcanhotto (reinventando-se no heterônimo infantil Partimpim), Vanessa da Matta (propulsionada inicialmente por Maria Bethânia) e Ana Carolina (versátil até na associação com o camaleônico Seu Jorge). Mas o mercado estreitou-se à tradição (re)elaborada de criadores como Guinga, Sérgio Santos, Celso Viáfora, Mônica Salmaso, Chico Pinheiro, André Mehmari, Chico Saraiva. O que não impediu o aparecimento de uma nova fornada de ambiciosos criadores desapegados da política de resultados do mercado, como Armando Lobo, Thiago Amud, Mauro Aguiar, Edu Kneip. E de programadores/produtores/intérpretes que mudaram as regras do jogo privilegiando timbres e texturas (sucedendo o anterior binômio melodia/harmonia), como Lucas Santtana, Berna Ceppas, Kassin, Domenico, Moreno Veloso. E grupos/aparelhagem como Instituto (SP) e Digital Dubs (RJ). A internet projetou o folk da precoce Mallu Magalhães, que se encaminha para a MPB. E o aparecimento de muitos novos criadores simultâneos numa São Paulo cada vez mais efervescente culturalmente, embora não configure um movimento estético, denota inescapável vitalidade criadora. Alguns exemplos: Rômulo Fróes (e seu núcleo ligado às artes plásticas, com Nuno Ramos e Clima), Céu, Mariana Aydar, Karina Buhr, Luísa Maita, Rodrigo Campos, Tulipa Ruiz, Guizado, Marcelo Jeneci, Lulina, Thiago Pethit, Tiê.

Para onde apontam essas novas tendências? Que fôlego ainda terão os culturalistas em meio a uma corrente principal de difusão de massa que privilegia os reality shows, as novelas e sua rasa casta de celebridades? A internet, suas redes sociais e o Twitter, se possibilitam ao artista um acesso direto ao fã, também podem fazer nascer uma arte domesticada, regida pela necessidade de cortejar um nicho de mercado remanescente, pós-implosão das cadeias de lojas e a própria indústria de discos. Num momento de transição (da era industrial para a avassaladora era tecnológica) podem ocorrer curiosos paradoxos. Como a volta do vinil, em contraposição ao linchamento do CD, posterior e mais prático, ainda que com uma perda técnica, que não se compara com a que é submetida a leva de consumidores de músicas congeladas em iPods e MP3. A pulverização da arte on-line – que pune os produtores de conteúdo com a gratuidade e remunera regiamente os inventores de software e mecanismos de busca – pode resultar em novos formatos artísticos. Ou na multiplicação dos guetos, alijados pela massificação descaracterizadora. O “tempo rei”, a que também se referia em outra canção Gilberto Gil, virou tempo real. E ai de quem não for para o trono.


Depoimentos:
A produção contemporânea é muito heterogênea e diversa. Temos nomes como Yamandu Costa e Hamilton de Holanda, inigualáveis e inovadores na música instrumental; Lula Queiroga, poeta criativo e cronista do nosso tempo, na música pop; o maestro Roberto Minczuk, que está revitalizando a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e trazendo um novo público para a música erudita. Precisamos de investimento na formação de uma plateia que pense música de uma maneira mais abrangente e crítica e que tenha mais elementos para poder escolher o melhor, dentro de seu gosto e estilo.
Roberta Sá, cantora

Os meios de produção ficaram mais baratos do que jamais foram. Há dez anos, a hora do estúdio era muito mais alta e você não conseguia a qualidade que temos hoje. Havia uma diferença enorme entre o estúdio caseiro e o profissional, mas, com a evolução digital, num laptop é possível fazer música. Isso definitivamente viabilizou que vários artistas tivessem o direito de existir. Existe a possibilidade de você publicar sua obra na internet, o que não dava para fazer há 15 anos. Precisava de uma gravadora grande, mas hoje tem a facilidade de sites, redes sociais etc. Inclusive dá para vender, além de produzir, publicar e promover seu trabalho. Claro que novos cenários trazem novas dificuldades e desafios, porém é inegavelmente mais barato. Acho que hoje é tudo mais democrático. Os talentos de hoje não têm a mesma dificuldade que os antigos, que ficavam na mão de umas cinco gravadoras com lançamentos limitados no ano. Principalmente no Brasil, que é um país que gosta de música e isso tem um efeito de difusão. É uma grande conquista.
João Marcello Bôscoli, diretor-presidente da Trama Entretenimento

domingo, 9 de outubro de 2011

05 ANOS SEM ROGÉRIO DUPRAT

Há exatos 05 anos morria o maestro e arranjador que foi, de certa forma, a alma de um dos movimentos mais representativos da música brasileira: a tropicália.

Por Fernando Rosa e Alexandre Matias


"Rogério Duprat teve experiências anteriores ao nosso trabalho, com a música erudita em São Paulo, trazendo-nos uma rica bagagem. Tinha uma posição muito arrojada, uma noção muito clara da interação entre música popular e erudita, na contramão do pensamento convencional da época. Foi fundamental para o meu trabalho, para o de Caetano, dos Mutantes e do Tom Zé. Foi fundamental para nós..." (Gilberto Gil, cantor e compositor)


Indissociavelmente o nome de Rogério Duprat está ligado ao início da tropicália de maneira muito intensa, e esse movimento talvez não fosse o mesmo se o nome de Duprat não fizesse parte do contexto. O músico nasceu no Rio de Janeiro no dia 7 de fevereiro de 1932, mas logo se transferiu para São Paulo, onde estudou violoncelo com Calisto Corazza; harmonia, contraponto e composição com Olivier Toni e Cláudio Santoro e chegou a fazer parte da Orquestra Sinfônica Estadual de São Paulo e da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, além de ter criado e dirigido a Orquestra de Câmara de São Paulo, na qual atuou também como violoncelista.

No início dos anos 60 começou a compor e a gravar para teatro, televisão e cinema e chegou a viajar para a Europa, onde aprofundou seus conhecimentos com Pierre Boulez, na França, e Karlheinz Stockhausen, na Alemanha. Ao voltar para o Brasil dedicou-se à criação de músicas experimentais em computador, em parceria com Damiano Cozzella. Vale salientar que ainda nesta mesma década integrou o movimento de vanguarda erudita "Música nova", em São Paulo, ao lado de Sandino Hohagem, Régis Duprat, Júlio Medaglia, Damiano Cozzella, Gilberto Mendes e Willy Correia de Oliveira.

"Fomos amigos por mais de 50 anos, e ele tinha uma cabeça bacana e útil para o Brasil. Foi também importante na comunidade musical paulista, teve escolaridade de boa qualidade, foi aluno de músicos importantes, e botou sua formação a serviço do universo da música popular, em que funcionou muito bem..." (Damiano Cozzella, compositor e maestro)

Ainda na primeira metade da década de 60 compôs a trilha sonora do filme "A ilha", de Walter Hugo Khouri, que lhe valeu diversos prêmios. Nessa mesma época, ocupou o cargo de professor assistente do Departamento de Música da UNB, participando de eventos e manifestações de música aleatória. Sem contar que atuou como regente e arranjador da TV Excelsior (SP) em 1964.

Foi premiado pelas trilhas sonoras dos filmes "Noite vazia" e "Corpo ardente", ambos de Walter Hugo Khouri, e "Cariocas", de Fernando de Barros, Roberto Santos e Walter Hugo Khouri.

Em 1967, foi contemplado com o prêmio Roquette Pinto como Melhor Arranjador do Ano, e o prêmio de Melhor Arranjador do III Festival de Música Popular (TV Record), pela autoria do arranjo da música "Domingo no parque", de Gilberto Gil.


"Foram os arranjos do disco 'Tropicália' que deram roupa final não só a cada música, mas ao movimento. E agora ele fez uma malandragem. Mostrou que não quer choro nem vela porque viajou o mundo com a exposição sobre a tropicália, fez até os Mutantes cantarem de novo, e agora disse 'chega, já vi tudo', e morreu..." (Tom Zé, cantor e compositor)

Teve relevante participação no Tropicalismo, assinando arranjos, marcados pela erudição, ousadia e criatividade, para os principais discos do movimento.

Em 1968, gravou, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão e Torquato Neto, o histórico LP "Tropicália ou Panis et Circenses", para o qual compôs vários arranjos. Nesse mesmo ano, foi contemplado com o prêmio de Melhor Arranjo do III Festival Internacional da Canção (TV Globo). Ainda em 1968, ocupou o cargo de diretor musical do programa "Divino maravilhoso", da TV Tupi (RJ).

Foi responsável pelos arranjos dos discos "Os Mutantes" (1968), "Mutantes" (1969), "A Divina Comédia ou Ando meio desligado" (1970), "Jardim elétrico" (1971) e "Mutantes e seus cometas no país dos Baurets" (1972), do conjunto Os Mutantes. Assinou arranjos para Chico Buarque ("Construção" e "Deus lhe pague") e Jorge Ben ("Descobri que sou um anjo!") .

"Era um sujeito muito querido e um ator histórico muito importante. Duprat foi um dos maiores produtores do mundo e provoca entusiasmo na juventude até hoje." (Caetano Veloso, cantor e compositor)

Escreveu mais de 40 trilhas sonoras para cinema.

Em 1987, recebeu o Prêmio Kikito no XVIII Festival de Cinema de Gramado, pela música do filme "Marvarda carne", de André Klotzer.

"Duprat foi bem mais que um músico, foi um filósofo bem-humorado. Infelizmente se desencantou com a porcaria que a música brasileira virou depois dos anos 60 e 70, e preferiu ficar surdo. Foi um protesto contra a barbárie. A morte dele também é um protesto..." (Júlio Medaglia, maestro)

Foi diretor artístico das gravadoras Vice-versa e Pauta.

Atuou, também, na produção de jingles.

Durante algum tempo, afastou-se das atividades artísticas devido a problemas de audição, provocados por longos períodos de trabalho em estúdio.

"Foi um companheiro do movimento da Música Nova, acabou se identificando com a música popular dentro da qual fez arranjos históricos. Foi uma virada que ele teve após uma crise de linguagem. Ele se socorreu na musica popular, na qual também foi primoroso. No cinema, manteve as direções da Neue Musik, o serialismo, o expressionismo nas trilhas sonoras, como em 'Noite Vazia', que é um caso exemplar..." (Gilberto Mendes, compositor)

Na década de 1990, retomou sua atividade, assinando arranjos para Lulu Santos ("Tempo/espaço") e Rita Lee.


"Rogério Duprat, um dos mais importantes maestros do mundo. Ele foi o George Martin do Tropicalismo. Sua morte é uma perda irreparável para a música..." (Rita Lee, cantora e compositora)

Em 2004, Alexandre Matias, Fernando Rosa e o então editor da revista Bizz, Emerson Gasperin, foram recebidos pelo maestro Rogério Duprat em seu apartamento, em São Paulo. Ambiente simples, quase modesto, foi palco de uma das entrevistas mais importantes da revista Senhor F nestes dez anos de existência e, por certo, também da revista Bizz, onde saiu em forma de texto, sem o ping-pong que reproduzimos aqui. Com um gravador no centro de uma mesa redonda, e perguntas em voz bastante alta, devido a surdez acentuada de Duprat, diversos mistérios da história do rock brasileiro foram desvendados.

Após a publicação da matéria na revista Bizz, Fernando Rosa (conta ele) ligou para Duprat, aliás, para dona Lalá, sua esposa, que atendia o telefone por ele, uma vez que o maestro já não ouvia quase mais nada. Depois de dizer que ele nunca atendia o telefone, e de pedir que apenas ouvisse o que ele tinha a dizer, dona Lalá passou o aparelho para Duprat. Direto, em poucas palavras, ele agradeceu o envio da revista e disse que aquela tinha sido a matéria mais fiel, correta e representativa da sua vida e da sua obra musical.


Fernando Rosa – Como é que um maestro com formação erudita, com com contato com músicos de vanguarda, concretistas, acaba no rock, no pop?

Rogério Duprat – Eu sou um músico multimídia. Eu já nasci assim. Acho que não é de estranhar. O que eu acho que é uma coisa da minha geração, essa coisa de atacar em várias frentes, um troço que foi comum. E temos casos parecidos como o meu. Amigos meus como Júlio Medaglia, Damiano Cozzela; houve outros casos. Eu tive oportunidades melhores do que os outros. Quer dizer, meus primeiros instrumentos foram gaita de boca, violão cavaquinho; foi antes de eu saber ler música; eu era um olherudo, não lia música, fui aprender a ler música depois. E aí, claro, trabalhando na área erudita, com a Orquestra de Câmara de São Paulo. Em seguida, fazer concurso, o violoncelo … fazer concurso e entrar na Sinfônica de São Paulo, estava me formando na profissão de músico. Aí, sim, dentro da profissão, começaram a aparecer as ramificações, até por necessidade fisiológica, para sobreviver a família. Eu me casei muito cedo; aos 21 anos já tinha uma filha. Isso tudo tinha que comer. E nesse tempo tocar só no Teatro Municipal não bastava, não era um salário. Então, fazia várias coisas. Aí, comecei a gravar muito; com isso, conheci muitos músicos populares, tocando em gravação de filmes, por exemplo, trilhas de filmes, enfim, muita música popular e, aí, acabei ficando muito amigo de Agostinho dos Santos, por exemplo. Toquei no que viria a ser, mais tarde, a Rede Globo, em São Paulo, era a Vítor Costa, era rede de televisão, não sei, não lembro o nome. Mas ali era toda a turma da Rádio Nacional, do Rio, que circulava para cá, porque aqui também chamam Rádio Nacional. Era Rádio Nacional e Televisão. Ali, a gente também conheceu muito músico popular. Eram os pré-roqueiros, os primeiros roqueiros eram ligados à vertente de Elvis Presley mesmo.

FR – Você foi arranjador da Gravadora Vilela Santos? É desse período?
RD– Vilela Santos …!

FR – Você produziu o “Vigésimo Andar”, do Albert Pavão?
RD – Pois é (risos)! Eu queria lembrar isso e não estava lembrando …

FR – Quem mais produziu, nessa época, além do Albert Pavão? Baby Santiago, The Rebels …?
RD – Esse pessoal eu acabei conhecendo. Aí, sim, eu já era músico profissional, tocando em orquestra basicamente, e comecei a escrever para o Ataliba, como é o nome dele …?

FR – Era VS, o selo, o nome do selo era VS. De Paulo Vilela e Ataliba Santos.
RD – E, aí, então, comecei a fazer vários arranjos e, na verdade, antes de fazer arranjo, eu estudei composição. Inclusive fui “mamar” nas vacas sagradas: Boulez, Stockhausen, aquele pessoal da música de vanguarda européia. Nós éramos afilhados deles. Um dia, Kollreuter – não sei se já ouviram falar – foi esse cara que trouxe essa coisa toda pra cá. Embora eu tivesse estudado principalmente com gente ligada à música nacionalista, “camarguista”, Olivier Toni e Claudio Santoro, com quem trabalhei em composição, orquestração, essas coisas. Fiz também um conservatório aqui, chamado Villa-Lobos. O Conservatório Villa-Lobos foi a minha formação em violoncelo, com as matérias complementares. Mas, aí, eu já tocava muita música popular, já estava familiarizado com essa coisa, e foi quando comecei a fazer esses arranjos aí, para a VS e a Penta. Tinha dois selos.

FR – Alberto Pavão diz em seu livro que você assinou Rudá, no arranjo de Vigésimo Andar, para não ser cúmplice de um rock … Como é que é essa história?
RD – Rudá é o nome do meu filho. Eu tinha um pouquinho assim de prurido erudito, de aparecer como compositor, porque eu era compositor de música de vanguarda, junto com – não sei se você sabe – as ligações que nós tivemos foi com os poetas concretos, Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos e outros. Fizemos festivais de música erudita, música de vanguarda e tal. Eles tinham uma revista importante – não lembro o nome -, uma revista a que a gente também comparecia, escrevendo artigos. Fizemos um grande manifesto, etc. Mas aí foi na volta, exatamente, na volta desse trabalho em que fui lá, “mamar” nas tetas culturais, é que a gente viu lá os “cagistas”, aqueles caras ligados ao John Cage (músico concrestista americano). E descobrimos, então, toda uma fatia de produção ligada ao acaso, ao happening, essa coisa, e começamos a fazer isso aqui. Eu, o Júlio Medaglia, o Damiano Cozzela, o pessoal que assinou aquele tal manifesto. Esse manifesto dizia exatamente isto: “chega desse negócio de coisinha da música erudita enfiada só dentro do teatro, pra meia dúzia de milionários e tal. A gente tem é que sair para a rua, fazer música na rua com os meios que houver; se forem bons ou maus, isso é outra coisa. Mas fazer o que for possível”. E aí que me aproximei deliberadamente da música popular. E é claro, nós somos do tempo em que a gente dançava os roquinhos, eu tinha 14 anos, eu já conhecia a minha mulher, nós dançávamos bem pra burro; íamos a todos os bailecos e dançávamos tudo – bolero, rock, samba, o que pintasse, e Gonzagão, que o Gil faz agora um show… Eu tocava todas as músicas do Caymmi, especificamente do Caymmi e do Gonzagão, acompanhado de violão.

FR – Mas a aproximação em relação ao rock foi por motivo financeiro?
RD – É… não só; também, é claro, eu já disse aqui … mas também porque a gente quis eliminar as fronteiras. Não deixando que se falasse que isto aqui é música erudita, isso aqui é música popular. Acabar com isso; a gente cantava e dançava tango, qualquer coisa. Então, todas as coisas estão aí, que são para a gente fazer mesmo. Nesse caso, nessa primeira fase aí, de arranjador, tinha um cara interessante que se chamava Edmar Aires Abreu – não sei se vocês ouviram falar. Ele era uma espécie de diretor de artístico nesses selos. Uma coisa grandiloqüente… quase sinfônica, mas com temas… Foi assim que começou. E ali, depois disso, eu não parei mais. Aí, vêm os prêmios, um prêmio aqui, outro ali, um faz uma badalação, outro faz outra. O povo brasileiro é o rei de jogar para o alto as coisas: é o maior do mundo, é o melhor do mundo, aquelas coisas; adoram dizer que em tudo são o melhor do mundo. Não é nada. Era uma bosta igual às outras. Nada disso. Todo esse trabalho ainda era uma coisa incipiente; a gente ainda não tinha descoberto o grande filão do pós-rock. Isso aqui é 1960.

FR – Como foi que vocês descobriram esse filão?
RD – Isso aí foi mais ou menos na era dos festivais, um pouquinho antes nós começamos a ouvir Beatles. Depois, fui para Brasília e aí a gente já estava ouvindo muitos os Beatles; começaram a aparecer os discos em fins de 64, 65. E lá fizemos alguns concertos muito interessantes. Uma das razões de os milicos terem invadido, era que eles achavam que aquilo era subversão, era música feita com aparelhos eletrodomésticos, leitura do jornal do dia… O coro era assim: todo mundo tinha o jornal do dia e, aí, a gente indicava entre nós um que era o maestro e, então, ele dava a dica. E o cara lia o que tinha na frente. Quando ele chamava uma dica, todo mundo lia, “tuque”, o que tinha na frente. Era uma balbúrdia total. E outra coisa: ninguém sabia quem era professor, quem era aluno, o que fazia parte também da nossa jogada e não era tão subversivo assim. A gente estava voltado para o mundo e os caras eram uns “caretas”. Não é só porque eles eram fascistas – eram caretas, filhos da puta mesmo. Aí começar a interferir cada dia mais, e nós todos, 200 professores, pedimos demissão e fomos embora.

FR – Você, então, estava entre os 200…
Rogério Duprat – O Cozzela também, o Cláudio Santoro…

FR – Os Beatles são os elementos de ligação com essa mudança, dessa sua aproximação com o rock, é isso?
RD – É, não só os Beatles, mas a também outros grupos. Em 62/63, eu vi os filmes dos Beatles na Europa.

FR – Você travou contato mais próximo com os Mutantes na preparação do arranjo de “Domingo no Parque”. Mas, antes disso, já tinha trabalhado com O’Seis … ?
RD – Vou contar uma historinha, como foi a coisa: quando nós voltamos a Brasília, nós começamos a pesquisar esses caras, esses grupinhos que já eram Jovem Guarda. Tinha, então, o Solano Ribeiro, que é produtor até hoje, está produzindo agora esse novo festival da Globo. Solano Ribeiro, com o jornalista Chico de Assis também, e outro cara que virou cronista esportivo, Alberto Helena Júnior…

FR – Foi ele – Alberto Jr. – que deu o nome de “Mutantes”, que batizou os Mutantes?
RD – Não sei.

FR – Na biografia dos Mutantes …
RD – Não sei. Acho que não é verdadeira essa informação… Pra nós foi ele quem achou Os Mutantes. Ele que andava querendo achar os Mutantes.

FR – Ele que achou os Mutantes? O’Seis?
Rogério Duprat – Ele que achou, porque ele começou… A gente insistiu: vamos ficar atrás desses grupinhos que fazem a Jovem Guarda, porque é o que tem de rock aqui, goste ou não goste, é isso o que tem. Então, muitos eram fraquinhos, mas tinha um cara aqui também… Albert…

FR – Albert Pavão?
RD – É, Albert, que era …

FR – Irmão da Meire Pavão….
RD – É .. Pavão (entusiasmado)!! A Meire!! A Meire era a irmã dele, o pai deles… era?

FR – Theotônio Pavão.
RD – Ah, isso mesmo… Exatamente… Eu fiz nesse selo aí o Vigésimo Andar… E tinha outros roqueirinhos também… O Helena nos levava. Olhe, tem um grupo na Bela Vista; a gente ia ver, é bonzinhos, quem sabe, e tal. Mas sei que quando chegamos lá, tinham Os Mutantes lá; quer dizer, quebrou a nossa cara, porque eles estavam fazendo os Beatles igualzinho os Beatles. Faziam Beatles perfeito. E já tinham já suas músicas, faziam suas músicas. E aconteceu que, então, nesse ano de 67, o Júlio Medaglia, que estava lá no júri de seleção da Record, aí por acaso, ele, conversando com o Gil, ele viu que o Gil estava meio malcontente, não estava satisfeito de fazer só com orquestra; como todo mundo fazia aquele negócio de festival; ele queria botar pra quebrar também. Ele e Caetano já estava pensando que tinha que chegar à música pop. Era a última palavra, aquela coisa que estava misturando, comportamento diferente, não mais só musiquinha. Então, o Gil, conversando com o Júlio, perguntou quem ele achava que podia ajudar no arranjo de “Domingo do Parque”. E ele me apresentou ao Gil. Aí, Gil disse: “veja, o que você quer fazer?” “Eu acho que o negócio é partir para o pau mesmo, botar rock, misturar com essa coisa baiana de vocês, e mandar o pau”. E ele: “Está bom, você conhece alguém?”. E eu disse: “Eu vou trazer as únicas pessoas que servem pra você… Dá um tempo, um dia ou dois…”. Então, peguei Os Mutantes, porque eu já estava “mamado” neles, porque eles eram um grupo de uma pureza sensacional, aquela coisa das primeiras músicas deles. Nenhum deles, nenhum desses grupos tinham aquela ingenuidade gostosa, agradável, aquela encenações que a Rita já fazia, e eles também, os meninos…

FR – Tinha um elemento nos Mutantes que era um elemento de subversão também…
RD – Ah, sim! Não tinha nada disso… Ao contrário, eram antinacionalistas.

FR – Engraçado você falar dessa aproximação que teve com o Gil, porque eu acho assim, que, pela observação histórica, sem os Mutantes e sem a sua presença, o tropicalismo não teria esse grau de…
RD – Talvez não tivesse essa cara que teve…

FR – Há um elemento de subversão, essa coisa de romper mesmo…
RD – O grupo, que fez “Alegria, Alegria” com o Caetano, também era bom. Mas era frio, não era quente, era frio… Era argentino… Então, eles tinham assim, eles faziam, tocavam bem, mas não tinha essa coisa inexplicável que Os Mutantes tinham. Essa grandiosidade… Ingênua, espontânea, tudo isso.

FR – E quando vocês começaram a tratar a tropicália como movimento, tanto a tua influência, quando a dos Mutantes foi definitiva para dar esse caráter mais de subversão artística?
RD – A influência foi total, dos Mutantes, porque eles (Gil e Caetano) passaram a fazer espetáculos com os Mutantes. Daí para a frente, depois, os festivais para a frente, todos eles são mais…

FR – E a sua influência deu uma espécie de respaldo erudito; se um maestro não estivesse no meio…
RD – Não, todo mundo conhecia; no fim de 67, todos conheciam aquele disco Sgt. Pepper’s e é claro que, quando viram os meus arranjos, disseram “é esse cara aí”. Porque eu não era melhor nem pior do que os outros!

FR – Por ser um maestro erudito, exterior, essa coisa toda, não dava um certo aval? Uma credibilidade, uma sustentação ao movimento?
RD – Não sei, mas foi a união da fome com a vontade de comer. Estávamos todos a fim disso aí. Não é que eu fiquei dando aula para eles; ao contrário, eu que aprendi pra burro com os Mutantes, com o Gil, com o Caetano, com todo mundo, como fazer uma coisa, que pode ser ao mesmo tempo com uma certa correção, com uma correção que a gente já conhecia, de músicos, e fazer isso, de uma coisa popular e avançada, uma coisa na frente dos Beatles.

FR – Tem uma história de que, antes disso, você teria trabalhado com O’Seis, o pré-Mutantes; um projeto de música, com Solano Ribeiro, pra fundir música sertaneja com rock?
RD – Aí, sim, mas isso era o Chico de Assis que forçava mais a barra. Eu também achava que podia, porque estava crescendo essa faixa sertaneja. Só veio a explodir bem mais recentemente, só há poucos anos que explodiu, pra valer, esse pé no saco que agora você não consegue ouvir outra coisa…

FR – O rock rural depois, que contou com os seus arranjos, por exemplo, em Terço, Bendegó, não seria um desdobramento dessa idéia original?
RD – É, a mistura veio. Com Alceu Valença, (Geraldo) Azevedo. Fiz um disco inteiro com Alceu Valença e Azevedo. Era uma dupla, você sabe. Fiz um LP inteiro. Mas também fiz com João Bosco. Enfim… Não é que eu só queria ver rock daí para a frente, não é. Tanto que chegou uma hora em que eu não agüentava mais ver rock, isso sim… Quando passou mais dois ou três anos e o pessoal todo repetindo a mesma coisa, me encheu o saco e comecei a puxar o carro. Fui fazer mais tarde alguma coisa com o Terço, com Sá, Rodrix & Guarabyra.

FR – Com o Bendegó…
RD – Enfim, ao que me dediquei e com mais força foi nesses dois anos – 67 e 68 – de aproveitar aquela… Era um material humano reunido… E que os milicos fuderam, prendendo os caras, no fim de 68. Eu viajei com os Mutantes para fazer uma música só deles, naquele festival da França, … lá de Cannes; era D. Quixote. Eles foram defender lá e eu fui com eles e orquestra. Quando nós voltamos, o Caetano estava preso, estava todo mundo apavorado, e nós, na rua, porque o pessoal da Philips…, enfim, passava aqui, nós fedíamos, tínhamos fedor subversivo. Então, não valia a pena ficarem muito ligados a nós, aquela sujeira… Então, todo mundo aí começou a fugir. No fim de 68 para 69, aí foi terrível – acabaram, proibiram, não podíamos mais fazer teatro.

FR – Foi o AI-5.
RD – Já estava armado um esquema muito bom com o Guilherme Araújo. Esse cara era um puta cara, um cara com uma belíssima cabeça…

FR – Como é que era a coisa do estúdio? Por que vocês produziram coisas que só os Beatles eram capazes. Você fala com entusiasmo muito grande dos Mutantes. Eu queria que você falasse como começou o teu namoro com os Mutantes que, para mim, é um dos períodos mais férteis da música brasileira? A partir daí como é que você descobriu que aquele grupinho que imitava os Beatles direitinho podia…
RD – Pensava-se que esse grupo tivesse algumas ligações com a TV e tal. Houve um festival, onde apareceu o Milton Nascimento, na atual TV Canal 9, antes de aparecer esse festival da Record, que é onde apareceu Caetano, Gil. Esse outro festival foi bem badalado, era TV Excelsior (Canal 9). Ela tinha tentado ser uma TV de alto repertório, só dedicada às coisas culturais. Eu também atuei nesse tempo, um ano antes, ou dois anos antes. Mas aí, de repente, descobriram que o negócio era festival de música popular. O Milton Nascimento foi uma pessoa que apareceu em São Paulo, nesse festival. A idéia que se tinha era fazer uma espécie de programa dos melhores roqueiros. Havia outros grupos, eu não me lembro agora, mas sei… Depois de conhecer os Beatles, os Mutantes, era difícil ficar trabalhando com outros mais primitivos, porque eles eram avançados em certas áreas, eles tinham a mãe pianista, pianista erudita, fazia concertos, cheguei a tocar com ela…

FR – E um dos irmãos fazia os instrumentos, o Cláudio César…
RD – O irmão, era um espetáculo esse cara… Isso ajudava muito, porque não precisava ficar esperando vir a guitarra dos Estados Unidos; ele fazia, quando tinham alguma idéia, ele faziam imediatamente lá, um trocinho deste tamanho (mostrando o gravador), que…

FR – Mas quando começou essa descoberta de que os Mutantes eram mais do que um simples grupo de rock perfeito, que podia ser maior do que os Beatles?
RD – Era um time pesquisador. Eles estavam permanentemente… Depois, eram muito atentos a todas as coisas. Aquelas brincadeiras da Rita eram coisas que os americanos andavam fazendo, aquela coisa de simular certa ingenuidade, fingir que é bobo, aquelas coisas, e só eles sabendo que aquilo era gozação. Então, isso aí foi se desenvolvendo, eles acabavam fazendo disso um retrato, a cara do grupo era isso. Tinha um negócio de tocar instrumento raro, uma harpinha. Enfim, eu só podia cair de amores por eles, não tem outro, era o maior grupo que o país tinha dado até ali.

FR – Como era essa coisa de estúdio, vocês produziam coisas fantásticas que nem os Beatles faziam…
RD – Nós tínhamos essa história, que você já sabe, de misturar todas essas músicas, todos os tipos de música, e eu em especial tinha uma predileção por gozar a música, fazer gozação, algumas pornográficas, por exemplo, na música – não é uma música, é uma peça do Caetano… esqueci a palavra – como é o nome?

FR – “Épico”?
RD – Foi aquele que diz que foi na Bahia, quando eles estavam confinados lá…

FR – “Acrilírico”.
RD – “Acrílírico”! Ele acabou me dando a parceria. E o Gil também tocou na parceria; de um Gil com dois Rogérios, o Rogério Duarte. No “Acrílirico” tem vários sons feitos num estúdio. Um deles, um desses sons é um peido meu (risos). Fiz questão absoluta de entrar no estúdio – e o Fritz era um operador, também entrou na gozação, um ótimo operador. Aí eu dizia, “dá um tempo”, fique atento aí. Um dia eu vou contar para todo mundo qual é o lugar em que tá esse peido, eu tenho que localizar de novo, mas tá lá. Isso fazia parte do nível de gozação que a gente estava disposto a assumir.

FR – E a história do LP “A Banda Tropicalista do Duprat”?0
RD – É, eu não gosto muito daquilo. Na verdade, eles forçaram muito. Para começar, aquela foto… O pai do Edu Lobo era produtor – já falecido, Deus o tenha em bom lugar – mas eles não entendiam as coisas. Dentro da gravadora, eles não entendiam bem as coisas. Então, forçaram a barra, me fizeram subir em cima da mesa para bater fotografia… Coisa tão boba, ingênua, cretina, mas enfim, acabei fazendo porque queria fazer o disco, tem umas coisas que eu gosto. Mas ele sofreu um pouco do efeito desse negócio do repertório, de me forçarem um pouco algum repertório da música internacional, que era um pouquinho mais comercializada. Mas agora, sei lá, eu teria…

FR – Quem é o autor da capa do lp “A Banda Tropicalista do Duprat”?
RD – Não sei.

FR – Porque essa capa é a primeira a satirizar o Sgt. Pepper’s dos Beatles…
RD – Eu não sei quem fez esse trabalho. Eu lembro que eu não interferi na escolha. Eu disse: não é meu problema, manda fazer. Quem acha que sabe fazer … Não sei. Uma hora vou perguntar pro Manuel Barenbein… Outro cara espetacular, o Mané Barenbein. Foi sorte nós termos esse cara. Já era da Polygram, Phillips… Ele é um cara que deu a maior cobertura. Defendia a todos nós perante a direção da gravadora, porque não era fácil, com o francesão que tinha lá, que só queria botar besteira, não é?

FR – Em As Amorosas, têm duas músicas com os Mutantes, que também participam do filme? Isso foi lançado na época, um lp da trilha? Existe master disso?
RD – Não! Foi feito só pro filme.

FR – Só para o filme?
RD – É, eles aparecem no filme.

FR – O Peticov (Antonio) também aparece no filme, no papel de um hippie.
RD – É num boteco… É um pouco forçado aquele boteco…

FR – Quando tu entrou nessas histórias de música pop, tu rompeu com teus colegas eruditos?
RD – Alguns. A maioria não. Eu continuei a fazer, trilhas de filmes, essas coisas… Agora, quando eu voltei para Brasília, já não voltei para a Orquestra Sinfônica mais. Porque eu já havia experimentado uma vida independente daquilo. Eu não quis mais tocar na Sinfônica. Voltei e pedi demissão, eu havia pedido licença antes; voltei e pedi demissão, não quis mais tocar na Sinfônica. Não que eu tenha sofrido alguma restrição profissional por causa disso, acho que não. Ao contrário, os músicos que continuaram a gravar comigo, músicos eruditos.

FR – Mas não era uma coisa meio contraditória, assim, tipo … Com os Mutantes tu fazia gozações com música erudita e, depois, tu gravava música erudita de verdade – não era uma coisa meio contraditória?
RD – Eu não tinha… uma das coisas que eu fiz nesse selo ainda é fazer tudo isso em bossa nova. Não sei se você chegou a ver, tocava clássicos em bossa nova. Soltaram até com dois títulos, acho que eles tinham dois selos para isso, para jogar uma parte aqui outra lá… Penta e o outro VS, era o mesmo disco, a mesma mistura, ela saiu com o nome de “Clássicos em Bossa Nova” num deles e, no outro, com outro nome. Mas eu vinha fazendo isso… E eles gravavam comigo…

FR – Quando viste os Mutantes, te apaixonaste por eles. E eles, se apaixonaram por ti?
RD – Acho que sim. Pergunta pra eles. Precisava ver a festa que a Rita Lee fez há pouco tempo. Ela me pediu uma faixa, o “Gosto do Azedo” e, aí, na gravação pela MTV lá no Rio, ela insistiu que eu fosse; fez a MTV, obrigou a MTV a pagar, minha mulher foi junto e, puxa!, na hora que ela tocou o troço, a festa que ela fez. Ela é tão minha amiga quanto eu dela. Ela fez uma puta festa, sobre o meu arranjo, lá na gravação. Foi um teatro lá.

FR – Essa admiração era recíproca?
RD – É. O Arnaldo também, mesmo depois. Vocês souberam que ele teve um problema de saúde, seríssimo, ele pirou um pouco, mas foi internado num hospital, que deixaram janela aberta. Onde é que já se viu? Um hospital que tem um departamento dedicado a doenças mentais, deixam uma puta de uma janela aberta, o cara pode se atirar…

FR – Você tem contato com o Arnaldo hoje?
RD – Ultimamente, pouco. Mas ele foi muito à minha casa lá em Itapecerica. Ele mora num sítio. Ele mora em Juiz de Fora, Minas Gerais. A mulher dele também é muito conhecida nossa, conhecida de outras coisas. Mas não é tão fácil a gente se encontrar. Agora, com o Serginho, perdi um pouco de contato porque ele viaja para caralho, virou jazzman também. A vida do Serginho é na ponta dos dedos.

FR – Você consegue fazer um retrato de cada um dos Mutantes, dentro do estúdio, qual era o papel de cada um deles, o Arnaldo fazia isso, a Rita fazia aquilo, o Sérgio entrava com… Eles eram grandes instrumentistas?
RD – O grande músico, inventor mesmo, criador era o Arnaldo, sem dúvida. Agora, charme, essas coisas eram com a Rita, e o Serginho era mais coisas técnicas, ele não sabia música, por exemplo, do ponto de vista de música erudita, mas com guitarra ele tocava qualquer coisa, até fazia brincadeiras. E o Arnaldo era mais universalista, um cara mais John Lennon… por sinal, saiu uma coisa sobre o John Lennon… Eu não acredito… Você viu?

FR – Que ele fazia sexo com a mãe dele… Inclusive a matéria que saiu antes, há um mês, é que ele financiava o Ira . Então, acho que é uma campanha…
RD – É foi a primeira coisa que pensei; aí tem treta; coisa editorial… Parece que têm coisas inéditas. Há pouco tempo também, a japonesa lá… Ela teria material inédito para soltar…

FR – Quando os Beatles acabaram, tu não estavas mais no rock? Tu já estavas de saco cheio do rock?
RD – Acho que já estava, sim.

FR – Aquela história que tu falaste aqui, aquela coisa que ficaste dois, três anos no rock?
RD – Eu não lembro as datas.

FR – Você falou do fato de o Arnaldo ter pirado no meio dos anos 70. Eu queria pegar esse gancho para falar de outra coisa. Eu queria saber como era a relação dos tropicalistas e, especificamente, dos Mutantes com drogas, e como isso se refletia na música, como era. E no estúdio? E a tua própria experiência também…
RD – Todo mundo consumia um pouco. Mas, eu, por exemplo, nunca fui às drogas pesadas, não cheguei… Acho que também Caetano e Gil, não. O Arnaldo, um pouco; a Rita, uma ou outra experiência, talvez. Mas, maconha rolou pra todo lado. Quase igual ao tabaco. Toda essa área aí… maconha…

FR – Quando você fala drogas pesada, o que é? Ácido? LSD?
RD – Ácido, eu não ataquei, eu não tive coragem. Eu já tinha várias notícias, eu não estava afim de pirar clinicamente.

FR – E como funcionava a relação com as drogas musicalmente? Porque, nos Beatles, o espelho, o parâmetro com os Mutantes, tinha uma lei assim de que nos estúdios não se usa droga porque atrapalha…
RD – Eu nunca usei para facilitar êxtases, essas coisas… Na minha presença, frente à música, ao trabalho, procurei estar sempre careta, sempre bem careta, para ver as coisas que estavam acontecendo. Eu recomendava a eles; várias vezes falei “tudo bem, não tenho nenhum preconceito, façam tudo o que quiser, mas esse negócio de chegar ao estúdio, encher a cara de todas as coisas e chegar lá e ficar duro no chão…”.

FR – Mas acontecia essa coisa com os Mutantes?
RD – Não. Eu acho que eles não… Na hora em que eles iam trabalhar, acho que não; talvez em shows. Mas em gravações não; em gravações, eles estavam sempre caretas também, porque não dá certo, não combina…

FR – No começo do rock, tu estavas presente. Na Tropicália, mais ainda; na “pré-invasão nordestina”, que foi o primeiro disco gravado pelo Geraldo Azevedo e o Alceu Valença, em 72, lá estava o Duprat. Como é que tu explicas isso?
RD – Você conhece o Brasil. Até hoje, é assim; aparece um cara que faz uma coisa diferente, todo mundo vai levantar o cara … Com a mesma facilidade, tira a mão dele e vai ver ele cair. Então, era isso, todo mundo achava que tinha uma fórmula secreta qualquer. E não tinha nada disso. Eu sempre achei que podia ajudar todo mundo, com a minha experiência.

FR – Mas você tinha consciência disso, que você estava sendo a moda da vez, que já, já eles iam largar…
RD – É esse negócio da moda, para mim, tem isso; o Brasil tem isso, os Estados Unidos também têm; é esse negócio da obsolecência programada…

FR – Em 63, você e o Cozzela fizeram experiência ou gravaram com um IBM 1620, com cartão de perfurar e tal… Como foi isso naquela época? Como é que tu vê agora essa coisa da música eletrônica?
RD – Era uma coisa primitiva porque o computador com que fomos trabalhar tomava três salas dessas daqui… Era verdade. Fora a impressora, que tomava outra sala.

FR – O computador era de quem? De um banco, de um órgão?
RD – Era da Escola Politécnica, da USP.

FR – Com o pessoal viu na época o uso pouco ortodoxo do computador? Esse uso artístico do computador?
FR – Ah sim, mil gozações. Não tinha alma, cadê a alma? Aquela coisa dos italianos, que gostam de ópera, da grande alma. A resposta foi sempre essa … Ih, esses caras estão loucos …

FR – Hoje, a música eletrônica também tem essas barreiras aí. “Essa música aí é feita com botãozinho, isso não é música”…
RD – Isso aconteceu com a guitarra. Todos os puristas da música brasileira …

FR – Teve até passeata contra a guitarra, com Elis Regina, Edu Lobo, Vandré… A MPB mais tradicional organizou uma passeata contra a guitarra elétrica.

FR – Foi a mesma coisa, o que aconteceu com o pessoal da música erudita em relação à música atonal em geral. Foi a mesma coisa que aconteceu também com os caras da MPB, que jamais nos perdoaram. Eu não tenho nada contra esses caras, mas o fato é que o próprio Chico queria distância, não se comprometia, não queria nada com a gente.

FR – Mas em 72 você fez um arranjo de “Construção” e “Deus lhe pague”?
RD – Eu estava no Rio e ele estava fazendo um show no Canecão. Alguém lá nos pôs em contato com alguém da gravadora, talvez, fosse o próprio Barembein, não tenho certeza. Eu estava no Rio fazendo outra coisa, gravando outro disco, não sei o que era. Aí, veio alguém, eu já tinha ouvido a música “Construção”, não sei se em show. Interessante, é uma brincadeira com proparoxítonas. Então, na hora que me mandaram avisar, eu fui direto lá, dizendo que ele queria, que ele estava me chamando. Eu fui direto lá, fui ouvir, estavam ensaiando no Canecão – aí, tudo bem; eu ouvi e pedi, então “me arrumem uma fita, eu vou trabalhar”. Tinham pressa. Tinha o negócio de pressa, já estavam começando a gravação. Aí, eu fui para a casa do meu irmão que morava no Rio e escrevi a coisa, porque eu não podia ficar no Rio, tinha que voltar para São Paulo, e deixei na mão do Barembein, ou de alguém lá.

FR – Mas foi de um dia para outro?
RD – De um dia para outro. A parte dele estava pronta, com MPB4. Mas também foi a única coisa que eu fiz com o Chico. Depois, ele viajou também … Foi pra Itália. Perdi o contato.

FR – Vocês falaram nesse negócio tipo rock – estava o Duprat, “Tropicalismo” – estava o Duprat, começou a “Invasão Nordestina” – estava o Duprat. Mas, de repente, Duprat saiu da discussão. Na década de 80, o Duprat deixou de ser moda?
RD – O problema maior aconteceu com aquela coisa do inferno, em 69, depois do AI-5. Nós todos ficamos na rua, de cueca com as mãos no bolso. Os baianos foram proibidos de voltar, tiveram de ficar confinados.

FR – Você sofreu alguma sanção política?
RD – Direta, não. Só mais tarde, quando tiveram no júri, lá da Globo, com aqueles caras nos pegando pelo cu das calças.

FR – Essa é uma história que foi desenterrada agora, com aquele vídeo, aquele documentário do Walter Franco. Houve uma ingerência militar para o “Cabeça” não ganhar…
RD – A impressão que eu tive, e o Décio, que estava lá, também tinha essa impressão, aliás, até conversamos sobre isso há poucos dias – mas o Solano continua insistindo que não, que foi só política o negócio. Eles cismaram que a Nara Leão não podia ser presidente de júri nenhum neste planeta fascista, que era o Brasil naquele tempo. Talvez existisse as duas coisas, na verdade. Acho uma besteira discutir isso agora, trinta anos depois. Em todo caso, eu continuo achando que foi mais comercial da Globo, porque eles traziam aqueles cantores daqueles países… Têm países, lá, do tamanho deste apartamento, que é um país.

FR – Você trabalhou com Walter Franco. Eu queria que tu falasses um pouco do teu contato com Walter Franco e analisasse a obra dele. Ele tem também esse trabalho de estar voltado mais para a vanguarda do que para a música popular.
RD – É e não, quer dizer, sei lá. O Walter Franco é um um cara multimídia também, um cara que atacou várias áreas, vários tipos de coisas; a gente foi se encontrar, eu produzi o disco dele, o disco dele que tem na cabeça o poderoso Pica-pau. Sabe quem é o Pica-Pau, o Walter Silva (o Pica-Pau); ele tinha programa de rádio, mexeu com a bossa nova… Quem ia produzir o disco do Walter Franco era o Pica-Pau. Quando ele conheceu o repertório e conheceu melhor o Walter Franco, que é uma cabeça formidável, tem uma idéia a cada segundo, é impressionante o Walter Franco… Aí, pulou fora. Aí passou para mim, porque ele achou que eu ia ter melhor trânsito, e de fato tive, nós nos entendemos maravilhosamente, o disco foi uma beleza.

FR – É o da mosca – “Ou Não”?
RD – É. É um disco todinho. Não lembro a data, mas… Depois disso, a partir – só para completar esse papo aí – foi uma coisa muito grave; todos ficaram na rua, desmanchou a todos, os Mutantes e os baianos estavam fazendo show juntos, no Canecão, no Rio, e na Boite Sucata, que era do Ricardo Amaral. E ali esquentou a coisa, porque começaram a pegar uns motes mais políticos “seja herói, seja marginal”.

FR – Hélio Oiticica…
RD – Enfim, teve um major que um dia foi lá ver um show, quebrou o pau, foi lá com a Polícia Federal e dedou, entregou. Essa foi a razão. Isso no fim de 68. Isso que gerou a prisão deles.

FR – Talvez seja por isso que os Mutantes tenham partido, depois da saída da Rita, para uma coisa mais progressiva, mais apolítica?
RD – A gente nunca deixou de ser cagista. O Cage era nosso grande modelo. Cage e, enfim, os americanos que tinha por lá. Eu tinha conhecido o Frank Zappa, lá na Alemanha; ele era cagista.

FR – Em que época?
RD – Em 62. Ele não era… Nós nos conhecemos assim. Eu estava com o Gilberto Mendes, o Billy Correa de Oliveira, inclusive eles…; outros caras, outros brasileiros… Cozzela tinha ido no ano anterior. Os americanos é que estavam fazendo, então, a grande farra na música erudita, fazendo já gozação com os grandes ídolos da música serial. O serialismo era o contrário, era a coisa toda superestruturada, tudo estruturado, tudo amarrado. Eu tenha uma composição que se chama “Organismo”, que vai ser gravada provavelmente nos próximos meses. Era nesse tipo aí, bouleziana, tudo era seriado, estruturação dos sons, a reunião dos sons, a reunião dos grupos, o jeito de cantar, porque também tinha canto. E, aí, o Zappa passou lá e botou, jogou merda no ventilador. O Zappa e outros amigos deles. Ninguém conhecia o Frank Zappa, ele não fazia, não tinha formado os Mothers of Invention, uma coisa caralhal… Não sei se já se já chegaram a ouvir … espetacular. Mas ele estava prestes a fazer isso, mais tarde, às…. Quando nós chegamos, mais tarde, em 69, que eu fui vê-lo em Nova York, já era 69. Enfim, essa geração, aí, que está hoje beirando os 70 anos, como eu, 68 anos, é que fez essa mistura toda. Então, tudo virou uma coisa só. Não tem esse negócio que tem música erudita, tem música popular; não sei o que, é som aí.

FR – Mas também uma quebra de barreiras entre diversos gêneros da própria música popular?
RD – É, esse pessoal, Cozzela, o Júlio Medaglia mesmo, mas fora do Brasil, muita gente fez essa fusão geral de todas as músicas. Não precisa mais da rótulo; tira esses rótulos daí, até jazz e sambão, por que não? Qualquer coisa.

FR – Mutantes vêm depois do Beatles?
RD – Como assim?

FR – Na sua hierarquia, Beatles e, depois, Mutantes?
RD – Ah, é outra coisa; têm coisas que os Beatles não saberiam fazer. “Panis et Circenses”, por exemplo, nós fizemos um happening naquela música. Você pensa que os Beatles fizeram alguma vez? Nenhuma peça dos Beatles era uma coisa assim avançada. Não quero denegrir os Beatles, espetaculares e tal. Mas esses caras estavam na frente.

FR – Já havia essa consciência de ser melhores que os Beatles? Você sabia que os Mutantes eram melhores do que os Beatles?
RD – Eu, pelo menos, sabia (risos). Eu sabia que os Mutantes eram melhores que os Beatles.

FR – O inglês é muito escolar, muito comportado mesmo quando quer ser mais gozado, eles são muito certinhos. Brasileiro já é mais moleque… Com um maestro maluco…
RD – É aquela coisa de valer tudo. Você se lembra, tem momento em que a música pára lá, fica só ruído de pratos, “passa a salada aí!” Isso aí é claro que tinha a ver com o happening que a gente fazia…

FR – E a história de citar Marighella em uma das músicas de Gil, se não me engano?
RD – Eu fiz umas coisas, essa coisa com o Gil e com o Caetano, que era usar emissão de rádio, noticiário do rádio. Mas eu punha em rotações diferentes, que era para ninguém ficar reclamando; os milicos não virem reclamar. Então, teve gente que andou decodificando aquilo lá.

FR – “Ando Meio Desligado”, dos Mutantes, tem uma versão normal do disco; mas existe uma segunda versão ao vivo, e uma outra em que, ao invés de ter sonoridade de órgão meio distorcida e tal, tem barulho de metralhadora, tiros. De quem foi a idéia?
RD – Não me lembro disso…

FR – E “Chão de Estrelas”? Lembra como fizeram no estúdio?
RD – Não, mas eu sei que a gente agia muito coletivamente, é coisa que eu dava a idéia e, depois, eles faziam, e vice-versa.

FR – O Cláudio tinha também grande participação nisso?
RD – Mas na feitura, nos instrumentos…

FR – Você trabalhou com o Lanny Gordin. Como ele era?
RD – Um prazer. É meio jazzista, um cara meio jazzista. Mas um grande músico. No disco da Gal Costa, que eu fiz inteirinho, em todas as faixas o Lanny está, eu nem lembro qual é o disco … O Lanny inventava pacas também. Ele não lia música, mas lia cifras, acordes. Só que ele lia e acrescentava umas 400 notas naquilo que estava escrito. Ele era espetacular.

FR – Olhando uma enciclopédia, que deve ser a mais conhecida, no seu verbete, tem apenas uma rápida referência a tua participação no movimento tropicalista, e o resto é o teu lado erudito. Como é que você vê isso? De não haver o resgate desse teu lado mais intenso, esse lado sobre o qual conversamos aqui…
RD – Em uma enciclopédia, advinha o que o cara queria botar? Só quer botar coisas enciclopeidais (risos).

Rogério Duprat morreu às 15h35 do dia 26 de outubro de 2006, aos 74 anos, no hospital Premier Residence na Vila Cordeiro (São Paulo) depois de passar 16 dias hospitalizado. Ele sofria de mal de Alzheimer e câncer de bexiga, que causou insuficiência renal, segundo o hospital.

Discografia
Rogério Duprat - A Banda Tropicalista do Duprat (1968)

Faixas:
01 - Judy in disquise Letra da música
02 - Honey / Summer rain
03 - Canção para inglês ver / Chiquita Bacana
04 - Flying
05 - The rain, the park and other things
06 - Canto chorado / Bom tempo / Lapinha
07 - Chega de saudade
08 - Baby
09 - Cinderella rockefella
10 - Ele falava nisso todo dia / Bat macumba / Frevo Rasgago
11 - Lady Madona
12 - Quem será?

Os Maestros Premiados - Lindolpho Gaya & Rogério Duprat (1968)
Faixas:
Arranjos de Gaya:
01 - Carolina
02 - Margarida
03 - Travessia
04 - O sim pelo não
05 - Fuga e antifuga
06 - São os do norte que vêm

Arranjos de Duprat:
07 - Alegria, alegria
08 - Ponteio
09 - Roda viva
10 - Maria, carnaval e cinzas
11 - Gabriela
12 domingo no parque



Rogério Duprat - The Brazilian Suite (1970)
Faixas:
01 - Theme Montage
02 - Setting The Scene
03 - Spotlight
04 - Commerce In Rhythm
05 - Percussion Highway
06 - Tropical Green
07 - Meeting In Brazilia
08 - Rio Back Street
09 - Flute Formula
10 - Skilful Manoeuvre





Alguns dos álbuns produzidos pelo Duprat:
Tropicália ou Panis et Circencis (1968)
Gilberto Gil - Gilberto Gil (1969)
Os Mutantes (1968)
Os Mutantes - Mutantes (1969)
Os Mutantes - A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)
Os Mutantes - Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972)
Walter Franco - Ou Não (1973)
Erasmo Carlos - Carlos, Erasmo (1971)
Lulu Santos - Liga Lá (1997)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

A 50 anos atrás João Gilberto lançava o último disco de uma trilogia que marcaria para sempre a música popular brasileira, ajudando também a fazer do gênero Bossa-nova o mais bem aceito e conceituado produto musical no exterior.

João Gilberto (1961)




Por Augusto Gomes

São longos os anos em que 3 dos principais álbuns referentes ao gênero musical brasileiro mais bem aceito no exterior anda fora de catálogo por divergências existentes entre o seu autor e a gravadora que o produziu. O perfeccionismo do músico João Gilberto é o principal responsável por seus três primeiros álbuns estarem fora de catálogo. "Chega de Saudade" (1959), "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960) e "João Gilberto" (1961) (álbum que ao longo de 2011 completa 50 anos de lançamento) estão indisponíveis por causa de uma batalha judicial com a gravadora EMI, que no início dos anos 1990 reuniu canções desses três discos numa coletânea chamada "O Mito". João odiou a remasterização feita e exigiu a retirada do disco das lojas na justiça. Até hoje, músico e gravadora não chegaram a um acordo.

O perfeccionismo de João Gilberto é tão famoso quanto a sua batida de violão. As lendas que envolvem suas exigências no palco, por exemplo, são inúmeras. Uma boa parte delas são apenas isso, lendas – ele não proíbe que o ar condicionado das casas de shows em que toca seja ligado (só reclama se estiver muito frio), nem faz questão de centenas de toalhas brancas em seu camarim. Mas o microfone – ou melhor, os microfones, um para a voz e outro para o violão – tem de ser de marca e modelo específicos, sim.

É a sua principal exigência: onde quer que se apresente, os microfones têm de ser da marca austríaca AKG, modelo C414. O aparelho custa, em média, R$ 2 mil e é mais comum em estúdios de gravação. João, no entanto, faz questão de usá-lo em suas apresentações ao vivo. Em 2003, quanto tocava para 17 mil pessoas no Hollywood Bowl, em Los Angeles, ele esteve a ponto de abandonar o palco porque o microfone não era o especificado no contrato. Foi até o final, mas passou a performance inteira reclamando do som.


Faixas:
01 - Samba da Minha Terra (Dorival Caymmi) - Walter Wanderley e Seu Conjunto
02 - O Barquinho (Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli) - Antonio Carlos Jobim (arranjos, piano)
03 - Bolinha de Papel (Geraldo Pereira) - Walter Wanderley e Seu Conjunto
04 - Saudade da Bahia (Dorival Caymmi) - Walter Wanderley e Seu Conjunto
05 - A Primeira Vez (Alcebíades Barcelos "Bide" / Armando "Marçal") - Antonio Carlos Jobim (arranjos, piano)
06 - O Amor Em Paz (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) - Antonio Carlos Jobim (arranjos, piano)
07 - Você e Eu (Carlos Lyra / Vinicius de Moraes) - Antonio Carlos Jobim (arranjos, piano)
08 - Trem de Ferro-trenzinho (Lauro Maia) - Walter Wanderley e Seu Conjunto
09 - Coisa Mais Linda (Carlos Lyra / Vinicius de Moraes) - Antonio Carlos Jobim (arranjos, piano)
10 - Presente de Natal (Nelcy Noronha) - Antonio Carlos Jobim (piano)
11 - Insensatez (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) - Antonio Carlos Jobim (arranjos, piano)
12 - Este Seu Olhar (Tom Jobim)

TÚLIO BORGES, UM TALENTO

Por Aquiles Reis


Lá vem vindo o menestrel dos desa­tinos. Vem mon­tado em seu cavalo baio. Magia perambulando infinitos, sobrevoando tempos, pres­sentindo vidas. Lá vem o poeta avoando, cavalgando um sonho avoengo. Carrega nas mãos o cálice da amarga verdade. Voeja buscando semear boas ideias em terras sãs.

Ao vê-lo, uma mulher pergunta: “O que pretendes, senhor das noites?” “Deixo que a brisa toque”, ele responde. A mulher prossegue: “O que buscas, senhor dos dias?” “O sino em mim no tempo”, entoa o cantador. Um jovem se intromete: “Ora, mulher, deixe que o homem siga. Não vês que ele é doido?” “Doido só podes ser tu, meu jovem, que não vê arder no cantador a labareda do futuro e do passado”, retruca a mulher.

Interrompendo o seu passar, o menestrel murmura alegorias... A mulher vira-se para melhor ouvi-lo e vê que quem acabou de lhe dirigir a palavra é agora um vulto que vai distante, em meio a denso feixe de estrelas. Ela acena, numa entristecida despedida. (O moço de há muito tomou outro rumo.) O silêncio se fez mais dolorido do que a solidão. Voltando-se para a mulher, o menestrel lança sua chama derradeira: “O vento sabe quando é tempo, e quando é silêncio entendo”.

A mulher e o moço são, claro, mera ficção. Mas os versos que compõem a fala do menestrel/cantador (“Deixo que a brisa toque/ O sino em mim no tempo/ O vento sabe quando é tempo/ E quando é silêncio entendo”) são da música “Eu Venho Vagando no Ar” (Túlio Borges), que dá título ao primeiro CD deste cantor, poeta e compositor.

Borges fecha o CD com ela, cantando acompanhado apenas do violão de Rafael dos Anjos e do pífano de Davi Abreu. Rafael dedilha a introdução e segue junto com o pífano de Davi, prenunciando a profundidade do que cantará a voz aguda, firme e afinada de Túlio.

Para abrir o disco, ele adaptou alguns “pontos” de domínio público que sempre ouviu D. Inácia (que o criou e trabalha com sua família há mais de 35 anos) cantar. Ela sola os versos que encerram a faixa. A percussão de Amoy Ribas realça a pueril candura de cada ponto, todos cantados doce e amorosamente por Túlio.

Em “Toca Aí” (Túlio Borges), o violão de Rafael dos Anjos é tocado de forma a deixar a letra fluir: “Toca aí uma canção pra eu cansar de ouvir/ Uma canção pra eu pensar em mim/ Pra eu calar e tentar me ouvir/ Vou fechar os olhos/ Se eu chorar, continua/ Há muito choro em mim/ Por mil razões que eu sei/ E mais dez mil que herdei”. Modestamente, eu respondo a cada um dos versos: “Ela está aí, cantador, nós a ouviremos até nos encantar. Nós nos calaremos, poeta, e o ouviremos enquanto o refletimos em nós. Acompanharemos seu choro e seguiremos, pois ele e mil porquês habitam também em nós.”

Construtor de melodias inesperadas, criador de poesia calorosa, a música de Túlio Borges tudo harmoniza em suave cumplicidade, com cuidadosa feitura. Seu CD independente Eu Venho Vagando no Ar traduz com música os sentidos e os sentimentos que são seus, mas também são nossos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O SOM DO VINIL E A TRILOGIA DO RÉ COM CHARLES GAVIN

Parte 01:




Parte 02:

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

35 ANOS SEM ARACY COSTA

Por Bruno Negromonte

Quando criança trabalhou em circo Iniciou a carreira artística em 1948 ao participar do concurso "A procura de uma Lady Crooner", da Rádio Clube do Brasil, que se destinava a encontrar uma cantora para a orquestra de Napoleão Tavares. Nesse ano, dois meses depois, venceu o concurso de calouros do programa "Papel Carbono", de Renato Murce, e foi contratada pela Rádio Nacional.

Em 1949, passou a atuar na Rádio Guanabara e posteriormente foi para a Rádio Tupi por intermédio do compositor Haroldo Barbosa. Estreou em discos na Todamérioca em 1950 com os baiões "Obalalá", de Xerém e Guará e "Rio Vermelho", de J. Batista e Guará. No mesmo ano, gravou a marcha "Também tenho", de Peterpan e Ari Monteiro e o samba "Eu sou assim", de Peterpan e Amadeu Veloso. Gravou duas composições da dupla Roberto Martins e Ari Monteiro em 1951, o maxixe "Maxixe do beijo" e o samba "Se você me adora". Gravou em 1952 o samba "Até logo amor", de Cristóvão de Alencar e César Brasil e a marcha "Imigrante", de Ari Monteiro e Irani de Oliveira e no ano seguinte, o samba "Dim-dim-dim", de Peterpan e José Batista e a rumba "Rumba, rumba", de Rosalino Senos e Oldemar Magalhães. Nesse ano, fez sucesso no carnaval com a marcha "Papai me disse", de Peterpan e José Batista.



Viajou para uma excrusão pela Argentina e pelo Uruguai com a orquestra do maestro Carioca em 1953 indo posteriormente apresentar-se nos Estados Unidos como crooner da orquestra de Ary Barroso. Gravou em 1954 os baiões "Iaiá da Bahia chegou", de Clodoaldo Brito e João Melo e "Rio Guará", de Luiz Vieira e João do Vale. Nesse ano, ingressou na Columbia e lançou os baiões "Querubim", de Humberto Teixeira e "Romaria a Santo Antônio", de Henrique de Almeida e Rômulo Paes; o maxixe "Um carioca na Bahia", de Hilton Simões e J. Miranda e o samba "Deixa sofrer", de Cyro Monteiro e Dias da Cruz. Em 1955, foi escolhida como a melhor cantora das emissoras associadas, época em que esperimentou seu apogeu artístico.

Foi contratada pela RCA Victor em 1956 e estreou cantando o baião "Na beira-mar", de Zé Dantas e a toada "Coração pequenino", de Valdir Rocha e Salvador Miceli. No mesmo ano, gravou a marcha "Zum, zum, zum", de Haroldo Lobo e Brasinha e o samba "Estrada da vida", de Sebastião Gomes, Newton Braziel e Mirabeau. No ano seguinte, lançou o samba "Outra vila", de Maria Terezinha e o bolero "Refrães", de Gardaz e Voumar com versão de Júlio Nagib. Gravou em seguida o fox "Depois das sete e quarenta", de Fernando César e Carlos César e a guarânia "Tuas lágrimas", de Ortiz; Molar e Belafonte.

Foi contratada pela gravadora Continental em 1958 e estreou cantandoo mambo-rock "Tequila", de Chuck Rio e Paulo Rogério e o samba "Samba do teleco-teco", de João Roberto Kelly. Em seguida gravou a marcha "A mulher do Fu-Man-Chu", de João de Barro e Alberto Ribeiro e a batucada "Também vou na jogada", de José Batista e João da Silva. Lançou no ano seguinte os sambas "Consolo de otário", de João Roberto Kelly e "Favela amarela", de Jota Jr. e Oldemar Magalhães, este um grande sucesso no carnaval e uma das músicas mais reconhecidas de seu repertório; o bolero-mambo "Tua", de Malgoni e Pallesi com versão de Lourival Faissal e a marcha "Carnaval na lua", de João de Barro.



Em 1960, gravou os mambos "Kani mambo", de A . Fonseca, R. Ferreira e M. Siqueira e "Mustafá bossa nova", de Bob Azan, E . Barclay e Luiz Mergulhão e os sambas "Brotinho bossa nova", de João Roberto Kelly e "Em hora errada", de Fernando César e Diva Correia. No carnaval desse ano, com o samba "Favela amarela", gravado meses antes foi eleita como "Rainha do Carnaval".

Em 1961, lançou o samba "Luz de Mangueira", de Paulo Menezes, Dalton Furtado e Edu Rocha e a marcha "Bate mas tem som", de Jackson do Pandeiro e Geraldo Figueiredo. Doia anos depois, gravou a marcha "Botão de laranjeira", de Brasinha, Rutinaldo e Jorge Gonçalves e o samba "Quero chorar", de João de Oliveira e Oldemar Magalhães. Gravou 28 discos em 78 rpm pelas gravadoras Todamérica, Columbia, RCA Victor e Continental.

PILANTRAGEM, O GÊNERO MUSICAL QUE A MPB ESQUECEU...

Por Artur Xexéo

A capa do livro não me entusiasmou: uma foto de Wilson Simonal, usando a bandana tradicional que caracterizava seu figurino, sobre o título “Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”. Minha interpretação foi rápida: lá vem mais uma obra tentando recuperar a importãncia de Simonal na música brasileira. Resisti à implicância e abri o livro. Me dei bem. O trabalho do historiador Gustavo Alonso, que a editora Record está mandando este mês para as livrarias, pretende mesmo entender o ostracismo a que Simonal foi relegado e recuperar sua importância, mas de uma maneira original, talvez da maneira mais original entre as que foram tentadas até agora.

O livro empreende uma viagem aos anos 60, período em que a música brasileira fazia parte da luta política travada no país. Para começar, Alonso recupera um gênero que, até gora, nem mesmo era considerado um gênero: a Pilantragem. “O conceito MPB foi forjado por meio da luta contra a ditadura, ecoando e catalisando a construção de uma memória de resistência que a própria sociedade vinha criando para si mesma”, escreve o autor, para explicar as canções de Bethãnias e Vandrés, consideradas a única coisa importante que era composta na época. “A História da MPB sempre foi privilegiada por pesquisadores, escritores, acadêmicos e jornalistas, muito mais do que qualquer outro gênero musical. É comum que artistas não identificados a este gênero estético-político sejam associados à baixa qualidade estética e à ‘alienação’ política.”

Então é isso. Muito antes de o nome de Simonal ser associado à imagem de dedo-duro a partir de a seu polêmico envolvimento na detenção ilegal de seu contador, como está mais do que explicado no documentário “Simonal — Ninguém sabe o duro que dei”, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, o cantor já era associado à baixa qualidade, um alienado, um adesista e, portanto, não merecia fazer parte da História da nossa música.
“Certos artistas são silenciados pela memória hegemônica em nome de um conceito estético e político, apagando-se a vivência afetiva de milhões de brasileiros”, escreve Alonso, me fazendo lembrar que, lá em casa, a vitrola não parava de tocar Simonal, a Turma da Pilantragem, Regininha, Antônio Adolfo e A Brazuca, Turma da Pesada e uma certa fase de Marcos e Paulo Sérgio Valle. Por que nunca se fala deles quando se escreve sobre a música dos anos 60? É o que o livro de Gustavo Alonso explica.
Para ser mais polêmico, o autor é definitivo: a Pilantragem, um projeto estético da década de 60, inventado por Simonal, Carlos Imperial e Nonato Buzar, “buscava, como o Tropicalismo, fundir o que vinha ‘de fora’ com as tradições de ‘de dentro’. (...) Assim como a bossa nova teve em Tom Jobim o ‘maestro soberano’, a Pilantragem também teve seu cérebro musical: Cesar Camargo Mariano. Muito antes de ser conhecido e reconhecido pelos arranjos para Elis Regina na década de 70, ele já era um dos grandes responsáveis pelo movimento da Pilantragem, criando levadas inovadoras e sacudindo todo mundo com suingues dançantes através do instinto e da sensibilidade de Simonal.” Aí já há combustível suficiente para uma explosão e tanto nas entranhas da MPB, mas o livro é muito, muito mais inflamável.

A trajetória De Simonal é muitas vezes abandonada para o autor se debruçar sobre o tempo em que a música brasileira se dividia entre resistentes e adesistas. Um tempo de passeatas contra guitarras elétricas, do papel do jornal “O Pasquim” em determinar quem merecia ser ouvido (os resistentes) e quem não (os adesistas), da intolerância que quase acabou com a carreira de Ivan Lins, do preconceito que acabou com a carreira de Erlon Chaves... O livro traz ainda uma tese nova que promete reacender o velho debate: a transposição da imagem de Chico Buarque de adesista à resistente.
“A imagem do artista hoje é a do resistente ideal, louvado pela postura combativa e aguerrida na luta cultural contra o regime”, escreve Alonso. “No início da carreira, muitos tiveram dificuldades em associá-lo à luta contra a ditadura, pois ele quase sempre preferia compor temas lírico-amorosos e ‘alienados’.’’ O autor lembra que “Carolina”, de Chico, fez parte do repertório de Agnaldo Rayol no disco “As minhas preferidas”, uma seleção de canções “preferidas” do presidente Costa e Silva. E que a imagem de Chico só se transformou após o que ele chama de “breve” exílio do artista na Itália. Baseado em tese ainda não publicada do historiador italiano Luca Bacchini, o ivro é contundente: “Sabendo da sede da juventude italiana pelos mitos da América Latina, especialmente Che Guevara, a RCA (gravadora italiana) criou uma campanha publicitária que colocava Chico Buarque vítima da ditadura. Passou-se a vender a ideia de que ele era um exilado político, cantor de protesto expulso do país. Paradoxalmente, foi na Itália que Chico tornou-se o resistente ideal.

É lenha na fogueira da MPB. E bem que a MPB está precisando.

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