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Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

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sábado, 7 de outubro de 2017

VERSOS E MELODIAS INCRUSTADAS ENTRE O PLANALTO E O SERTÃO

Embevecido da cultura popular nordestina, Túlio Borges a faz de esteio para os versos e melodias que sustentam a trilogia a que se propõe

Por Bruno Negromonte



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Um dos alicerces da esperança sertaneja encontra-se em uma frase atribuída a figura de Antônio Conselheiro, peregrino que liderou a Guerra de Canudos, no início do século passado. Enquanto a profecia de que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão sobrevive na crença e na alma do povo sertanejo, as agruras dessa região vêm sendo abrandada em verso, prosa e melodia ao longo de todos esses anos. Isso não impede que a observação feita, de modo astuto e singular, pelo escritor Euclides da Cunha, de que "o povo do sertão é, antes de tudo, um forte" perca o sentido, uma vez que essa robustez também pode ser observada na região a partir de outras características. Duas delas, culturalmente falando, evidenciam-se na força dos cantadores repentistas da região e no tradicional forró, denominação que segundo o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo é derivado do termo africano forrobodó (festa que foi transformada em gênero musical tal seu fascínio sobre as pessoas). Exponentes deste contexto cultural, nomes como Luiz Gonzaga, Jackson do pandeiro, os irmãos Batista, Pinto do Monteiro entre outros foram cruciais na desmistificação desta dicotomia entre o espaço do sertão e as peculiaridades das grandes metrópoles. Sem contar que continuam por substanciar os mais distintos discípulos desta vasta cultura como é o caso dessa grande leva de nomes que permeiam a nossa cultura musical desde os anos que sucederam o áureo período em que o baião e seus variantes reinaram em absoluto dentro da MPB, em especial nos anos de 1950. Como se vê, de década em década, de geração em geração, a força da verdadeira cultura nordestina não esmaece; pelo contrário, mostra-se um verdadeiro mosaico sonoro onde se destaca a mais pura verdade e autenticidade sertaneja imergidas na seiva da poesia.



Endossando este contexto eis que se destaca Túlio Borges, artista que dispensa maiores apresentações a julgar pela qualidade daquilo que vem apresentando fonograficamente desde 2010 quando lançou "Eu venho vagando no ar", trabalho considerado um dos 50 melhores álbuns daquele ano e que ganhou elogios de nomes como Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello; além de ter recebido a indicação para o Prêmio da Música Brasileira do ano seguinte ao seu lançamento. Este primeiro disco destaca-se por um frescor apresentado a partir de uma sonoridade abrangente e letras substanciadas de vigor e poesia. Após um hiato de cinco anos, Túlio Borges voltou ao mercado fonográfico reiterando sua singularidade com "Batente de pau de casarão", um disco dedicado ao município pernambucano de São José do Egito, terra do seu pai e berço da poesia popular nordestina. Este segundo álbum, "fruto da admiração pelos poetas e cantadores nordestinos" como o próprio artista o define, vem a ser um vigoroso elo lírico-sentimental entre duas distintas regiões. Um projeto que permitiu a imersão do artista às raízes nordestinas que o constituem, assim como também substanciou a sua poesia e refinamento artístico, lapidando ainda mais as nobres e valiosas características que destacam aquilo que produz a partir de canções como "Tu" e parcerias com nomes como o do cantor e compositor brasiliense Toty; do declamador, poeta e compositor paraibano Jessier Quirino; do escritor, cantor e compositor piauiense Climério Ferreira e do cantor e instrumentista Anthony Brito em faixas como "Baú de guardados", "Nanquim", "Adorável trovador", "São João" entre outras que sincretizam culturas e regiões aparentemente discrepantes, mas que fundem-se diante do talento de Borges.

Resultado de imagem para cutuca tulioNa plenitude do seu ofício e procurando perfazer novamente este já conhecido caminho, Túlio chega desta vez com  "Cutuca meu peito incutucável" (nome extraído de um dos versos da poesia que o cantor recita na última música). Segundo título de uma trilogia a qual pretende fechar no próximo ano, este é um disco que busca retomar a poesia popular nordestina assim como também a ambientação sonora presente no CD anterior reiterando essa espécie de pangeia sonora a qual caracterizou o exitoso projeto lançado em 2015. Sem delimitações fronteiriças, a sonoridade do disco nos conduz do Centro-Oeste ao sertão nordestino como se o mesmo fosse logo ali, após o pontão do Lago Sul, ou como se Brasília ficasse no oitão da Igreja Matriz de São José do Egito. Novamente o multifacetado artista parte da capital nacional aos mais longínquos rincões da região nordestina imbuído de toda a marcante e destacável autenticidade de sua primeira incursão. Talvez de modo proposital, em "Cutuca meu peito incutucável" o artista chega com uma poesia desfibriladora capaz de aplanar as mais distintas emoções dos ouvintes em canções que levam em consideração que sendo o coração o símbolo do amor, tal tema não poderia deixar de evidenciar-se no bojo do trabalho. Isso é possível evidenciar-se em gravações como o xote "Curvas" (de autoria do poeta Zeto, a quem o intérprete dedicou o último anterior), o reggae "Ela levantou os braços e eu morri de amores" (única letra composta para este projeto por Túlio sob música de Afonso Gadelha) ou outras como "Concreto, amor e canção" (parceria do cantor com a cantora Ana Reis, que também divide os vocais da faixa). A taquicardia evidencia-se no ritmo gostoso do tradicional forró a partir registros como "Grandes olhos" (parceria entre Aldo Justo e Alexandre Marino, integrantes do grupo brasiliense Liga Tripa), "Cantiga" (de autoria do saudoso Clésio e do irmão Clodo ferreira), "Vem não" (mais uma letra de Climério a adornar a robusta melodia de Borges), "Contracachimbo da paz" e "Enxerida no contexto" (parcerias do brasiliense com o paraibano Jessier Quirino).

Sob a égide das ilustrações da artista gráfica alemã Tina Berning e apresentação do escritor Renato Fino (que em se primeiro livro "Debaixo do céu do seu vestido" versa sobre o mesmo tema), "Cutuca meu peito incutucável" se propõe não apenas a mexer nos corações de forma lírica, mas reiterar que mesmo em tempo marcado pelas mais distintas dicotomias, Túlio mostra-se capaz de formar uma unidade pautada na sensibilidade e talento. Ninguém há de divergir em opiniões diante de características tão necessárias para o lânguido cenário musical brasileiro. Portanto, permitam-se cutucarem vossos peitos, pois Túlio Borges é a força do sintetismo de Paul Gauguin substanciada nas rimas, repentes e improvisos de nomes como cego Aderaldo, Otacílio Batista e Rogaciano Leite. É a antítese de Vidas Secas, Morte e vida Severina e O quinze; mas traz em sua poesia a mesma força súbita e intensa presente na escrita de João Cabral de Mello Neto, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. É confluência sem rótulos, por isso vai além do gênero que deu destaque à cidade em que nasceu conseguindo abarcar os mais distintos ritmos como é possível reafirmar neste álbum que chega para sacramentar em definitivo o nome deste talento no panteão da MPB contemporânea.


terça-feira, 1 de março de 2016

PROGRAME-SE


domingo, 20 de setembro de 2015

TÚLIO BORGES LANÇA ÁLBUM CUJO TÍTULO FAZ ALUSÃO AO REPERTÓRIO DOS REPENTISTAS SEBASTIÃO DIAS E JOÃO PARAÍBANO

Imerso as suas reminiscências, o cantor, instrumentista e compositor brasiliense lança "Batente de Pau de Casarão", fruto de sua admiração pelos poetas e cantadores nordestinos.



"Proponho aos ouvidos atentos prestarem bastante atenção ao trabalho musical de Túlio Borges. Depois a gente conversa." A assertiva é do musicólogo e crítico de música Zuza Homem de Mello, a respeito da produção musical do cantor e compositor brasiliense. Pianista por formação, Túlio Borges já foi premiado em diversos festivais do país por sua criação musical poética e híbrida. Seu álbum de estreia, "Eu venho vagando no ar" (2010), é festejado pela crítica especializada pela profundidade, delicadeza e poesia calorosa, o perfeito domínio de textos e ideias, a cuidadosa feitura e, de acordo com Tárik de Souza, por ser um manifesto de um novo e singular artista. O disco foi nomeado como um dos 50 melhores do ano pela Revista Manuscrita, indicado para o Prêmio da Música Brasileira e rendeu ao autor o prêmio de Melhor Cantor Independente de 2010, concedido pela Rádio Cultura de São Paulo, enquanto o álbum foi escolhido como um dos cinquenta melhores discos do ano e nominado para o Prêmio da Música Brasileira. Este ano, o Túlio Borges apresenta seu novo trabalho, o álbum "Batente de Pau de Casarão". O disco é dedicado à cidade de São José do Egito (PE), conhecido berço da poesia popular nordestina e terras de nomes sagrados do panteão do repente, como Louro do Pajeú, Rogaciano Leite e Antônio Marinho. Em São José, onde diz-se que quem não é poeta é louco e quem é louco faz poesia, nasceu o pai do músico e compositor. Desta forma, aliando sua reconhecida e singular musicalidade brasiliense às raízes nordestinas. Túlio perfaz neste álbum o caminho poético-afetivo deste Sertão do Pajeú pernambucano até a moderna e convergente Brasília, capital onde nasceu e reside, aliando assim a reconhecidamente singular musicalidade brasiliense às suas raízes nordestinas.



A história do disco perfaz o caminho de São José do Egito (PE), terra dos maravilhosos vates do repente, dos nomes quase sagrados na poesia popular nordestina como o de Louro do Pajeú, Rogaciano Leite e Antonio Marinho, até a capital do país, Brasília. O álbum "Batente de Pau de Casarão"  fia cuidadosamente parcerias de Túlio com poetas nordestinos, como o Jessier Quirino (PB) e Climério Ferreira (PI), que se constituem em entoações contemporâneas e citadinas e um novo perfil sonoro para a poética do sertão. Trata-se de um projeto singular, fruto da admiração do cantor e compositor pelos grandes nomes da poesia popular nordestina como pode-se atestar ao ouvir o disco. 

"A história deste disco começa no Sítio dos Grossos, em São José do Egito, Pernambuco. Em 1942, na terra dos maravilhosos vates do repente, onde quem não é poeta é louco e quem é louco faz poesia, nasceu meu pai. De lá vieram os nomes quase sagrados de Pinto do Monteiro e Louro do Pajeú pousar humildes, silenciosos e agigantados na minha infância, trinta e oito anos depois e a mil e quinhentos quilômetros distante, em Brasília. Percebi cedo, como um processo geológico que pede o passar consistente e misterioso de muito tempo para formar uma pedreira e uma jazida, a poesia do improviso no sertão do Pajeú. De modo que na adolescência eu ouvia cassetes de cantoria, me interessava por folhetos e aprendia quem eram os grandes da poesia nordestina.

Em 2012, em viagem para levar meu pai que fazia vinte anos não revia a terra e os familiares, lá voltamos. Fora a emoção dos reencontros, lembranças diversas de todos, o bode com arroz de leite, o bolo de caco de minha tia e as cantorias, houve um pulo à cidade de Patos da Paraíba. Era noite escura e íamos com a estrada iluminada apenas pela Veraneio, quando meu primo Alex pôs no som um CD de Zeto e adiantou que eu ia gostar... Começava ali, de súbito naquela noite feita, uma outra viagem dentro da viagem. Zeto solava na escuridão, do violão arrancava um diamante bruto, recitava, cantava como se houvesse apenas isso no mundo, atitude e poesia assombrosas. Remetia-me à essência mais bonita, atemporal e que mais me emociona no ser humano. Fiquei doido e, com meu juízo, quis aprontar logo um disco.

Anos depois, juntei os queridos parceiros e parcerias e aqui está. Este trabalho é fruto da minha admiração pelos poetas e cantadores nordestinos, uma interpretação e aproximação da minha história.", assim define o projeto o autor.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TÚLIO BORGES, UM TALENTO

Por Aquiles Reis


Lá vem vindo o menestrel dos desa­tinos. Vem mon­tado em seu cavalo baio. Magia perambulando infinitos, sobrevoando tempos, pres­sentindo vidas. Lá vem o poeta avoando, cavalgando um sonho avoengo. Carrega nas mãos o cálice da amarga verdade. Voeja buscando semear boas ideias em terras sãs.

Ao vê-lo, uma mulher pergunta: “O que pretendes, senhor das noites?” “Deixo que a brisa toque”, ele responde. A mulher prossegue: “O que buscas, senhor dos dias?” “O sino em mim no tempo”, entoa o cantador. Um jovem se intromete: “Ora, mulher, deixe que o homem siga. Não vês que ele é doido?” “Doido só podes ser tu, meu jovem, que não vê arder no cantador a labareda do futuro e do passado”, retruca a mulher.

Interrompendo o seu passar, o menestrel murmura alegorias... A mulher vira-se para melhor ouvi-lo e vê que quem acabou de lhe dirigir a palavra é agora um vulto que vai distante, em meio a denso feixe de estrelas. Ela acena, numa entristecida despedida. (O moço de há muito tomou outro rumo.) O silêncio se fez mais dolorido do que a solidão. Voltando-se para a mulher, o menestrel lança sua chama derradeira: “O vento sabe quando é tempo, e quando é silêncio entendo”.

A mulher e o moço são, claro, mera ficção. Mas os versos que compõem a fala do menestrel/cantador (“Deixo que a brisa toque/ O sino em mim no tempo/ O vento sabe quando é tempo/ E quando é silêncio entendo”) são da música “Eu Venho Vagando no Ar” (Túlio Borges), que dá título ao primeiro CD deste cantor, poeta e compositor.

Borges fecha o CD com ela, cantando acompanhado apenas do violão de Rafael dos Anjos e do pífano de Davi Abreu. Rafael dedilha a introdução e segue junto com o pífano de Davi, prenunciando a profundidade do que cantará a voz aguda, firme e afinada de Túlio.

Para abrir o disco, ele adaptou alguns “pontos” de domínio público que sempre ouviu D. Inácia (que o criou e trabalha com sua família há mais de 35 anos) cantar. Ela sola os versos que encerram a faixa. A percussão de Amoy Ribas realça a pueril candura de cada ponto, todos cantados doce e amorosamente por Túlio.

Em “Toca Aí” (Túlio Borges), o violão de Rafael dos Anjos é tocado de forma a deixar a letra fluir: “Toca aí uma canção pra eu cansar de ouvir/ Uma canção pra eu pensar em mim/ Pra eu calar e tentar me ouvir/ Vou fechar os olhos/ Se eu chorar, continua/ Há muito choro em mim/ Por mil razões que eu sei/ E mais dez mil que herdei”. Modestamente, eu respondo a cada um dos versos: “Ela está aí, cantador, nós a ouviremos até nos encantar. Nós nos calaremos, poeta, e o ouviremos enquanto o refletimos em nós. Acompanharemos seu choro e seguiremos, pois ele e mil porquês habitam também em nós.”

Construtor de melodias inesperadas, criador de poesia calorosa, a música de Túlio Borges tudo harmoniza em suave cumplicidade, com cuidadosa feitura. Seu CD independente Eu Venho Vagando no Ar traduz com música os sentidos e os sentimentos que são seus, mas também são nossos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

TÚLIO BORGES CHEGA PARA MOSTRAR, ALÉM DE TALENTO, UM NOVO PRUMO PARA A MPB CONTEMPORÂNEA

Túlio Borges, um dos mais talentosos cantores e compositores da nova geração da música brasileira, apresenta "Eu venho vagando no ar", um álbum que traz um novo alento para a mpb contemporânea.

Por Bruno Negromonte


Anotem esse nome: Túlio Borges. Sim! o tradutor, poeta, cantor e compositor brasiliense merece que seu nome seja lembrado posteriormente, apenas por seu primeiro álbum. Túlio além de ser um apaixonado por música (estudou piano na Escola de Música Brasileira) e ser fã de gêneros como o fado e o jazz (tendo participado inclusive de um grupo do gênero) e de nomes como Rosa Passos e João Gilberto, vem ganhando destaque no novo cenário musical brasileiro.

Borges morou nos EUA e também na Inglaterra; e foi justamente em Londres que começou a reunir as cerca de 40 composições que havia feito até então no intuito de gravá-las. De volta ao Brasil deu início a compilação desse primeiro trabalho a partir das canções trazidas na bagagem, além de dar início a sua participação em diversos festivais. Esse laboratório rendeu-lhe dentre outros prêmios, o primeiro lugar no Sesc de Brasília e o segundo na Semana da Canção Brasileira, em SP, num júri que contava com Dante Ozzetti e Alice Ruiz.

Paradoxalmente por ser tão aficionado por música hesitou bastante antes de envolver-se com tal arte da maneira tal qual hoje está envolto, essa hesitação veio de forma positiva pois parece que surtiu como efeito o extravasamento máximo de ideias e acepção de novos ares para a nossa MPB em um tipo de efervescência agradabilíssima que resultou em seu álbum de estreia. O álbum (gravado entre 2007 e 2009) já habilita Borges como um incrível compositor e intérprete dos mais representativos da nova geração da música brasileira, tal qual um artesão musical virtuoso e inovador a partir da tradução de uma harmonização rara traduzido em um disco inovador e que demostra uma maturidade peculiar.

De canto brando e trazendo novos e prolíferos ares para a música popular brasileira, Túlio indubitavelmente vem para fazer parte do hall dos recentes compositores que merecem a atenção do grande público. Suas músicas e letras são fidedignas o suficiente para chamar a atenção da imprensa especializada, como a do crítico e musicólogo Zuza Homem de Mello, que ao ouvir o trabalho desse brasiliense foi sintético e enfático ao dizer: "Proponho aos ouvidos atentos prestarem bastante atenção ao trabalho músical de Túlio Borges. Depois a gente conversa." E é desta forma mesmo, sinteticamente impactante que este primeiro trabalho, "Eu venho vagando no ar" do Túlio Borges chega ao mercado fonográfico brasileiro.



Essa sua estreia no mercado fonográfico além da ter uma excelente receptividade do público e da imprensa especializada, traz um trabalho simples e que tem em sua contemporaneidade tudo aquilo que anseavamos encontrar sempre que surgem novas promessas na música brasileira. O músico Túlio nos traz alguns dos diversos ritmos brasileiros e suas tradições a partir de letras que são dignas das mais atentas audições para aqueles que prezam por textos coesos e coerentes o suficientes para receber inúmeras comparações como grandes nomes da MPB.

O álbum começa com a adaptação de alguns "Pontos" do folclore afro-brasileiro de domínio público a partir do canto de Borges e da percussão de Ribas que traz por peculiaridade a companhia nos vocais de sua segunda mãe (como costuma se referir) à Dona Inácia Maria da Conceição, que sola no último dos pontos e o criou e trabalha com a família do músico brasiliense há mais de três décadas. Segundo o próprio músico ela talvez tenha sido a pessoa que mais tenha o influenciado em sua formação musical por sempre ter ouvido ela cantar. “Era ela quem trazia o negro e o popular, o nordeste e as histórias para dentro de casa”, relatou em recente entrevista. Segundo Túlio a ideia era gravar fazer da gravação desses pontos um agradecimento em vida pela força que a piauiense sempre lhe deu, força essa expressada de maneira tão singela através de pequenos gestos que "limpam a alma de tão sinceros e puros", como define Túlio.

O álbum é essencialmente um trabalho autoral, cabendo apenas duas faixas que foram feitas em parceria com a carioca Vytória Rudan, que Borges a partir de festivais ao qual participou conheceu. No fado "Zorro" (a primeira das duas parcerias existentes), a sociedade existente na composição se repete nos vocais da faixa. A outra canção da dupla é o samba "Paraty", que fala da saudade de forma peculiar e destrinchada.

Por falar em saudade o tema também é abordado na faixa composta exclusivamente pelo cantor nascido em Brasília e intitulada "Cicatriz", a canção aborda o tema de maneira visceral ao ponto de referendar a saudade que devora e que deixa cicatrizes. As demais faixas também são assinadas unicamente por Túlio como o baião "Trem" que traz consigo uma propriedade do ritmo de maneira tão encorpada pelo acordeom de Ferragutti que ao tratar de um arrependimento em não confessar um amor tipo de amor cheio de peculiaridades nos remetes as mais genuínas composições do gênero. O álbum segue com blues e solos de guitarra como em "Shirley", que aborda uma relação com uma doidivana que inclui tardes de rum barato, linguicinha com pão e a cerimônias do chá.



Em "Birosca" (um samba típico das crônicas musicais de compositores da estirpe de Noel Rosa), o protagonista finge que torce para que o vento não vente o suficiente para levantar a pequena saia de frequentadora do bar que por sua simples presença já aguça o libido dos frequentadores do estabelecimento. A clarineta, os violões e o piano remete-nos aos clássicos sambas de nossa música. Já as faixas "Oi/Morro de rir", "Altar" e "Toca aí" têm as suas peculiaridades. A primeira trata-se de um choro onde a competência musical aflora a partir de instrumentos como a trompa e a clarineta acompanhadas pelo toque do pandeiro trazendo o relato de alguns desejos em forma de chorinho; já "Altar" (que tem nos vocais a participação do cantor e compositor fluminense Fred Martins) traz sentidos figurados tão consistentes em seu propósito que chegam a ganhar valor denotativo; e por fim "Toca aí", uma canção que traz o alerta: "Se eu chorar, continua há muito choro em mim...".

Sem deixar de abordar o lado feminino, Túlio vem com a faixa "Sua" que traz o compositor ao piano e tem por característica uma competência inerente a nomes como o de Chico Buarque e por fim a faixa que dá título a obra: "Eu venho vagando no ar", canção de uma singularidade melódica e de uma estética lírica fascinante.

Na tessitura instrumental do álbum há participações de nomes como o do pianista, maestro, compositor e arranjador paulista Leandro Braga que dá seu toque peculiar em faixas como "Altar", "Birosca" e "Cicatriz" e do músico, arranjador e compositor paulista Toninho Ferragutti que participa das faixas "Trem", "Zorro" e "Sua". Além desses renomados músicos, participam do disco o percussionista Amoy Ribas, os violonistas Marcus Moraes, Rafael dos Anjos e Fernando César; os bateristas Sandro Araújo e Leander Motta; o cavaquista Pedro Vasconcellos, o bandolinista Jorge Cardoso, o guitarrista Genil Castro, o trompista Yuri Zuvanov, o clarinetista Ademir Júnior e o baixista Oswaldo Amorim que completam com requinte e sofisticação as faixas apresentadas em "Eu venho vagando no ar". Os músicos, procuraram partir em busca da construção de uma sonoridade que flerta com ritmos como o samba, o fado e o jazz a partir de variantes que acabam classificando-se como uma sonoridade atípica (no sentido mais sublime da palavra).

E é dessa forma impressionante que o álbum do brasiliense Túlio a cada nova faixa, vai ganhando a consistência no limite exato sem perder a leveza, algo que torna-se perene pelo conjunto e qualidade. Dessa forma chega a ser possível afirmar que "Eu venho vagando no ar" (que pode ser adquirido clicando na imagem ao lado ou através dos endereços abaixo) supre uma parcela significativa da esperança que temos em firmar novos e talentosos nomes no cenário musical brasileiro a partir dos últimos anos. Não é que não haja tais talentos, pelo contrário, existem muitos, porém poucos são aqueles que trazem em suas composições a robustez necessária para se firmar como tal. As letras de Túlio Borges trazem-nos um tipo de linguagem que apresenta um novo tipo de consciência estética tal qual o poeta francês Arthur Rimbaud e a sua linguagem libertária, já as suas melodias remetem-me a uma gama de ritmos de caráter contemporâneo e universal, partindo de suas mais profundas raízes. E é no paradoxo desta dicotomia que encontramos um álbum que merece uma atenção especial ao ser ouvido, pois Borges apresenta um timbre agradável aos ouvidos em uma combinação perfeita entre letras e músicas, fazendo de cada faixa uma agradabilíssima descoberta a partir de um projeto muito bem elaborado procurando apresentar tudo o que precisamos para uma excelente audição na medida certa. Parafraseando o título da obra do autor Aldous Huxley analogicamente com este disco vos digo: Admirável disco novo!

Maiores informações:
Myspace -
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