PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sábado, 9 de maio de 2015

EDERALDO GENTIL, O GRANDE SAMBISTA BAIANO QUE EXISTIU SEM VIVER

Por Abílio Neto





Na minha concepção, o grande sambista Ederaldo Gentil, uma espécie de Paulinho da Viola baiano, encarnou como ninguém o sentido da célebre frase do filósofo Nietzsche: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maior parte das pessoas apenas existe.”

Num dos seus lindos sambas, o lírico poeta nascido no Largo 2 de Julho, disse num dos seus versos que esperava ser feliz aos 70 anos. Morreu com 68. Aliás, o que me moveu para escrever este texto foi justamente o 3º aniversário da sua morte, ocorrida em 30/03/2012, após um longo período de ostracismo, tristeza e depressão.

A Bahia tem uma galeria de grandes sambistas desde a geração de Riachão até a de Ederaldo Gentil, mas o povo (ah, o danado do povo!) do meio da década de oitenta para cá, só tem olhos e ouvidos para quem é do “axé”. E o “axé” jamais foi a melhor música que se produziu na Bahia! Se já era difícil o reconhecimento do enorme talento de Ederaldo, a coisa então se tornou impossível.

Mudando-se muito jovem para o bairro de Tororó, Ederaldo começou a frequentar a “Escola de Samba Filhos de Tororó” e logo chamou a atenção pela extrema facilidade com que tocava qualquer instrumento de percussão. Ainda adolescente, começou a compor e fazer parte da ala de compositores da escola. Mas continuava a ser um jovem estudioso que para sobreviver ajudava o pai na difícil arte de consertar relógios.

Buscando viver e não apenas existir, Gentil tentou através do Esporte Clube Guarany ingressar no mundo do futebol. Atuava como meia-esquerda e quem o viu jogar diz que hoje seria um craque em qualquer clube do Brasil ou do exterior, onde até perna de pau é chamado de craque. Chegou a treinar no Vitória, também de Salvador, porém não foi devidamente olhado para que percebessem sua arte com a pelota. Voltou para a sua vida de compositor de samba-enredo e concurso de música carnavalesca. Em 1970, Ederaldo era unanimidade como grande compositor no universo das dez escolas de samba que existiam na capital baiana.


Cantor e compositor Ederaldo Gentil

Jair Rodrigues, em 1970, foi quem tornou Ederaldo conhecido pelo Brasil afora, ao gravar duas de suas criações, Bereketê e Alô Madrugada (parceria com Edil Pacheco). Em 1972, Gentil mudou-se para São Paulo na esperança de gravar seu primeiro disco. Recebeu a ajuda de gente importante como o ator Juca de Oliveira e o produtor musical Fernando Faro, mesmo assim o disco não saiu. Foi no começo de 1973 que, ainda em São Paulo, compôs uma pérola de samba em forma de carta que receberia este nome: “A Saudade Me Mata”. Logo depois retornou para Salvador. Ei-la:

“É que a saudade me mata
A distância maltrata
É que a distância maltrata
A saudade me mata

Doze de Maio chuvoso de setenta e três
Que esta lhe encontre em gozo de felicidade
Se não escrevi há mais tempo
Foi o próprio tempo que não me deu tempo
Hoje lhe escrevo contando minhas novidades

Quando eu cheguei era manhã
Fazia frio e um vazio dentro em mim
Nas mãos a minha esperança
No peito a mesma ilusão

Sem saber pra onde ir

É que a saudade me mata…

Banana d’água é nanica
Tangerina é mexerica
Sinto falta do luar
No mais tudo é igual
Abraços e ponto final
Carnaval eu chego lá.”

Deram-lhe a grande chace da sua vida: em 1975, a gravadora Chantecler o chamou de volta a São Paulo onde gravou um compacto simples, que trazia as composições “O Ouro e a Madeira” e “Triste Samba”, ambas de sua exclusiva e talentosa autoria. A primeira composição, se não fez sucesso na sua voz, pelo menos despertou a atenção do radialista e produtor musical Adelzon Alves, que na época trabalhava com a cantora mineira Clara Nunes e outros artistas do mundo do samba. Foi no famoso programa radiofônico de Adelzon, o “Comando da Madrugada”, da rádio Globo do Rio de Janeiro, que se decidiu a gravação do samba “O Ouro e a Madeira” pelo grupo “Nosso Samba” que acompanhava Clara Nunes. Essa nova gravação fez a música estourar em todo o Brasil.

Esse destaque como compositor fez com que a gravadora Chantecler convidasse Ederaldo para fazer um disco completo (LP). Foi assim que surgiu, ainda em 1975, o disco “Samba, Canto Livre de Um Povo”, que trazia novamente “O Ouro e a Madeira”. Ainda pela gravadora Chantecler, lançou, em 1976, outro LP, que recebeu o título “Pequenino”. Depois desse lançamento fonográfico recebeu vários convites para participar de shows e apresentações em rádio e TV.

Apesar da reconhecida qualidade das suas músicas e dos músicos acompanhantes dos seus dois discos, a existência (e não a vida) de Ederaldo continuou bastante difícil. Os discos não venderam bem e mais uma vez ele teve que voltar para seu porto seguro: Salvador. E foi de lá que ele começou em 1982 a produzir um disco independente, que seria o último da sua carreira, concluindo o projeto em 1984. O LP foi denominado “Identidade”. Esse disco foi todo gravado nos estúdios da WR e contou com o apoio de todos seus amigos: músicos, compositores, divulgadores e outras pessoas identificadas com seu projeto. Por dever de gratidão, na contracapa do disco, ele citou todas as pessoas que o ajudaram a realizar seu último trabalho.

Um ano depois, surgiu disfarçada de “Fricote”, o que hoje se chama “axé music”. Com seu advento, Ederaldo Gentil não teve mais voz nem vez na Bahia. Ele emudeceu e suas músicas não eram mais tocadas no rádio. Em 1991, ele se retirou silenciosamente do meio artístico. Ouviu-se falar muito dele oito anos após, em 1999, com o lançamento do precioso disco “Pérolas Finas”, produzido por seu parceiro e amigo Edil Pacheco para homenageá-lo.

De 2000 a 2012, Ederaldo viveu em completo ostracismo, afastado do mundo do samba e acometido por uma grave depressão. Os muitos admiradores não faltaram ao seu sepultamento no Cemitério do Campo Santo, na tarde de 31/03/2012 e deram uma prova de que a sua grande obra mantém-se acima da morte e do esquecimento, não somente por parte da mídia interesseira como também (de maneira vergonhosa!) pelas autoridades da cultura da Bahia e do Brasil, ausentes no seu velório e enterro.

Mas o povo (ah, o povo!) esse esteve lá. Fazendo alusão ao nome de uma de suas músicas, Clarindo Silva, o famoso guardião do Centro Histórico de Salvador, discursou carregado de emoção: “Você não é de menor, Ederaldo. Você é grande!”. Na descida do caixão ao túmulo ouviu-se o recitar desses versos maravilhosos de um grande artista do samba que não viveu, mas apenas existiu de 07/07/1943 a 30/03/2012: “O ouro afunda no mar/ Madeira fica por cima/ Ostra nasce do lodo/ Gerando pérolas finas”.

Ouviremos, a seguir, três músicas de Ederaldo Gentil (sem parceiros). Vale a pena conferi-las! Uma com João Nogueira, outra com Elza Soares e a do vídeo é com o próprio autor, acompanhado por nomes ilustres do samba da Bahia, tais como Riachão e Batatinha.


sexta-feira, 8 de maio de 2015

CAIXA TRAZ A DISCOGRAFIA COMPLETA DO GRUPO PARALAMAS DO SUCESSO

Material recém-lançado apresenta 20 discos da banda com hits criados pelo trio

Por Gabriel de Sá





A gravadora tinha um estúdio enorme. Sedentos por diversão, qualquer intervalo na labuta era motivo para os Paralamas do Sucesso aprontarem. Gravar por longas horas não chegava a ser um problema, afinal, música era a praia deles. Mas quando pintava um tempo, o trio usava uma tapadeira (aquele objeto colocado ao redor da bateria para minimizar o impacto do som) como rede de vôlei e mandavam ver na brincadeira. “Era para matar o tempo”, lembra o baixista Bi Ribeiro, por telefone.

O clima de amizade e descontração está presente em boa parte dos discos dos Paralamas do Sucesso, relançados agora em uma caixa. São 18 álbuns gravados entre 1983 e 2011. Entre eles, seis foram produzidos a partir de shows ao vivo. “Esse é um lado muito forte da gente, somos uma banda de estrada”, defende Bi, que forma a banda, desde 1982, ao lado do vocalista e guitarrista Herbert Vianna e do baterista João Barone. “Esses trabalhos retratam bem o que é o grupo e foram bem sucedidos por causa disso”. O artista se refere, sobretudo, a 'Vamo batê lata' (1995), disco mais vendido da trupe, ao vivo, que gerou mais de 1 milhão de cópias comercializadas.

Na caixa, é possível ouvir também um disco com raridades da banda e outro com versões de alguns hits em espanhol. O trio conquistou público robusto na América Latina. Expoentes do rock brasileiro da década de 1980, e também precursores na mistura do gênero com outros elementos no país, os Paralamas do Sucesso têm, em sua discografia, um retrato político e social do Brasíl nas últimas três décadas. O romantismo também é uma marca constante no trabalho da banda — muito por conta das letras apaixonadas escritas por Herbert Vianna.

Sobre as gravações dos trabalhos, Bi Ribeiro lembra que, de maneira geral, as sessões de estúdio foram sempre muito tranquilas. Isso porque os Paralamas sabiam bem o que queriam e chegavam para o registro com quase tudo pronto em suas cabeças. Foi assim, por exemplo, quando eles pensaram no nome de Djavan para participar do megassucesso 'Uma brasileira', um dos maiores hits do trio. “Ele estava inseguro por gravar com uma banda de rock, mas o convencemos e ele ficou muito feliz com o resultado”, conta Bi.

Já em 'Severino' (1994), na faixa 'Navegar impreciso', eles conseguiram juntar, em uma mesma faixa, os ídolos Tom Zé e o poeta jamaicano Linton Kwesi Johnson. Mas nem tudo foi calmaria na gravação deste álbum. Bi, aliás, considera o registro de Severino o mais conturbado da carreira da banda. Isso porque, ao convidarem o guitarrista Phil Manzanera, da banda Roxy Music, para produzir o álbum, tiveram que se deslocar para a Inglaterra. Até aí, tudo bem. O problema foi o técnico de som, que quis controlar a gravação e acabou tornando o projeto muito mais cansativo do que o previsto, deixando o ritmo no estúdio arrastado. “Chegamos com o arranjos prontos. Era gravar e ir embora. Mas acabamos ficando três meses”, relembra Bi. “Saiu como a gente queria, mas foi difícil. O técnico atrapalhou bastante, e o produtor ficou na mão dele. Mas o resultado é muito bom”.


Música brasileira

A ligação dos Paralamas com a MPB ficou mais estreita quando, em 1986, o trio convidou o mestre Gilberto Gil para dar uma palinha na faixa 'Alagados', do álbum 'Selvagem?'. A ideia era só cantar, mas o baiano acabou fazendo a letra de A novidade, que se tornou um hit instantâneo. “A gente ficou muito agradecido a ele. Era nosso terceiro disco e o cara concordou em ir”, vibra o baixista.

“A gente sempre teve esse namoro com a MPB. Ouvimos muita música brasileira em casa, desde pequenos, apesar de muito fãs de rock. Meus pais ouviam Chico e Caetano. Tem uma época que você renega, diz que não gosta de samba etc. É só rock. Mas aquilo está dentro de você e uma hora vem à tona”, acredita Bi.

O balaio de referências sonoras e estéticas dos Paralamas, para além do rock e da música brasileira, passa por reggae, ska, new wave e pós-punk. Música africana também entra no pacote de influências. “Quando entramos nesta, fomos chamados de traidores do rock. Mas o rock sempre foi um gênero aberto, se alimentando de tudo por onde passou”, observa ele. “Acaba que a música sempre tende para a África, ela vem de lá e volta pra lá”.

Mesmo não tendo nenhum lançamento marcado para breve, os Paralamas do Sucesso já trabalham, despretensiosamente, em um novo projeto. “Nos encontramos duas vezes por semana para bater um papo e pensar no que vamos fazer”, conta Bi. O local das reuniões é o escritório de João Barone, uma casa confortável no bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, cidade onde os três vivem. “Até o fim do ano, devemos estar gravando um novo disco de inéditas”.

Segundo o baixista, o ritmo de composição da banda ainda é bastante intenso. Herbert é um criador compulsivo e está sempre escrevendo letras novas. “Ele não para nunca. Quando nos encontramos, juntamos nossas ideias”, comenta Bi.


De volta ao grande palco

Em 1985, acontecia pela primeira vez o festival Rock in Rio. Impulsionados pelo sucesso do segundo disco, 'O passo do Lui', aquele dos hits 'Óculos', 'Me liga', 'Meu erro' e 'Romance ideal', os Paralamas do Sucesso foram convidados a participar do evento, decolando de vez no showbiz nacional. O trio foi chamado de última hora e, mesmo sem banda de apoio, fez um dos shows mais marcantes daquela edição.

Os Paralamas tem um novo encontro com o público do Rock in Rio no próximo dia 20 de setembro, na noite que terá Rod Stewart como atração principal. Vale lembrar que, em 2011, o trio dividiu o Palco Mundo com os parceiros Titãs. Sozinhos, agora, 30 anos depois da estreia do festival, os Paralamas terão uma longa história para contar.


OS PARALAMAS DO SUCESSO 1983-2015

Caixa com 20 discos da banda. Lançamento Universal Music. Preço: R$ 366.


Mundo afora

Confira os países em que os Paralamas já tocaram
» Uruguai
» Argentina
» Paraguai
» Chile
» Peru
» Colômbia
» Bolívia
» Venezuela
» Panamá
» México
» Estados Unidos
» Inglaterra
» Escócia
» País de Gales
» França
» Suíça
» Espanha
» Portugal
» Alemanha
» Itália
» Japão

5 milhões
Discos vendidos dos Paralamas

1,1 milhão
Vendagem do álbum Vamo batê lata

DUO ASSAD CELEBRA 50 ANOS DE CARREIRA COM NOVO ÁLBUM EM TURNÊ NACIONAL

Virtuosos do violão, Odair e Sérgio Assad revisitam a história do instrumento na música instrumental brasileira

Por Alef Pontes



Completando 50 anos de atividades, o Duo Assad - formado pelos virtuosos irmãos Odair e Sérgio Assad - entram em nova turnê pelo Brasil, com o lançamento de um novo álbum: O clássico violão popular brasileiro. A turnê, que passa por 14 cidades em todo o país, chegou ao Recife no dia 17 de abril, com apresentação no Teatro de Santa Isabel. 

Passeando entre os universos do violão clássico e popular, o álbum conta um pouco da história do instrumento na música brasileira, assim como de seus grandes autores. "Eu sempre fui um defensor da ideia de que as pessoas que praticam o violão brasileiro deveriam levar muito a serio, porque ele tem tanta força quanto o violão flamenco, por exemplo", afirmou Sérgio Assad.

"Uma coisa que eu acho hipercuriosa é essa mania que as pessoas têm de fazer uma divisão entre violonista popular e violinista clássico. Essa barreira nunca existiu. A música brasileira é muito forte, e não tem porque fazer essa divisão", complementa o músico.

Segundo ele, o repertório foi selecionado com a intenção de narrar parte da história do violão na música brasileira, focando nos autores que alicerçaram a carreira do Duo, como João Pernambuco e Américo Jacomino, o Canhotto.

Conheça um pouco do trabalho do Duo Assad:

quinta-feira, 7 de maio de 2015

GRAMOFONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*




Canção: A tempestade

Composição: Ivan Salvador

Intérprete - Marion Duarte


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 5000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

CURIOSIDADES DA MPB

A 1ª vez que o grande cantor das multidões Orlando Silva se apresentou numa emissora de rádio foi com o nome artístico de Orlando Navarro.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

FESTIVAL NACIONAL DA SERESTA CONTARÁ COM NOITE DEDICADA AO DIA DAS MÃES

Entre os dias 6 e 9 de maio, atrações como The Fevers e Adilson Ramos comandam o evento




Entre os dias 6 e 9 de maio, sempre a partir das 20h, a Praça do Arsenal será palco do 20º Festival Nacional da Seresta. Assim como nas edições anteriores, o evento contará com noites temáticas. Da Jovem Guarda ao bolero, várias épocas e estilos musicais serão lembrados a partir de atrações como The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Altemar Dutra Júnior e Leonardo Sullivan. 

Na quarta-feira (6), sucessos da década de 1970 farão parte dos repertórios de Gilliard, The Fevers, Fernando Mendes e Augusto César. A noite do dia 7 será dedicada à Jovem Guarda. Jerry Adriani, Renato e seus Blue Caps, Roberto Carlos cover e Mozart comandam a programação. 

A quinta-feira (8) contará com bolero ao som de Altemar Dutra Júnior, Walesca, Adilson Ramos e Mevinha Queiroga. O último dia, sábado (9), será de homenagens ao Dia das Mães, celebrado no dia 10 de maio. Cláudio Almeida, Leonardo Sullivan, Agnaldo Timóteo e o Conjunto pernambucano de choro fecham a programação do festival.


Serviço
Festival Nacional da Seresta
Onde: Praça do Arsenal (Rua do Bom Jesus, Bairro do Recife)
Quando: entre os dias 6 e 9 de maio
Entrada Gratuita


Fonte: Diario de Pernambuco

PROGRAME-SE


JORGE BENJOR - ACÚSTICO MTV

terça-feira, 5 de maio de 2015

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



Em tese, concordamos que cada relação afetiva é única, ímpar e singular. As comparações entre elas são sempre da ordem de nossas inseguranças humanas. Cada relação (cada afeto) é parte do todo - sempre em progresso - que nos figura na existência. É por este viés que podemos entender o adjetivo "pura" no título da canção "Pura semente", de Arlindo Cruz e Acyr Marques.

Sendo diferente e nova, cada relação é pura semente: almejando o florescimento das sensações nos indivíduos envolvidos. Amar, portanto, entre tantas outras murmúrias mais, é zerar, é baixar a guarda, é ceder às vontades do desejo: é desfazer as mágoas e renovar as ilusões.

Na prática, porém, há sempre uma luta inglória entre o lado carente e a vida ordinária. Daí o tom algo ressentido do sujeito da canção "Pura semente": cobrando o tempo perdido, mesmo sendo "os melhores momentos" que movem o pensamento e o canto.

Antes "uma só canção" em uníssono, hoje vozes separadas. Gesto brilhantemente apresentado pelo diálogo entre Teresa Cristina e Seu Jorge (Melhor assim, 2010). A entoação individual de cada estrofe - com seus argumentos próprios -, feita por cada cantor, e a sobreposição final reitera o desejo de permanência do afeto para além do fim da relação.

Os sujeitos sabem que só restou a canção. Nunca mais ouvida, ela agora é cantada pelas personagens. Afinal, o tempo não pára enquanto a vida dói. Se a solidão é castigo e as personagens fizeram por merece-la, como o sujeito sugere autopunindo-se, cabe recordar na voz, no canto - naquilo que não se extingue quando o amor resolve parar de cantar - o começo: sempre puro e ingênuo.

Antes, parceiras na vida, hoje as personagens se confraternizam - numa roda de samba, numa mesa de bar - recordando e celebrando o (merecido) sofrimento que resultou do assassinato do amor. Certamente, se cantada por uma única voz, "Pura semente" proporcionaria outras inferências. Mas é daí que surge a beleza da interpretação da parceria entre Teresa Cristina e Seu Jorge: findadas as palavras, restam vocalizações, lamentos e ais de ambos: lúcidos do crime e do castigo.

Cantar a canção do fim, evocando a canção do começo, ou seja, desdobrando um canto dentro de outro canto, faz de "Pura semente" um canto singular, mas impuro, visto que contaminado por algo que poderia ter sido e não foi. Resta às personagens reouvir intimamente e cantar o cântico dos cânticos contemporâneo: triste e alegre - mais feliz.


***

Pura semente
(Arlindo Cruz / Acyr Marques)

Quando começou
Era diferente
Tinha o nosso amor
A pura semente
Que desfaz as mágoas
E traz a ilusão
Era o nosso amor
Numa só canção

Tanto tempo fez,
Mudar a nossa vida
E a nossa canção
Não foi mais ouvida
Ficou reduzida
Hoje é só refrão
Do nosso amor
Só recordação

E foram os melhores momentos
Que me fizeram pensar
Por que sem tentarmos de tudo
Deixamos o amor acabar
Se a solidão é castigo
Fizemos por merecer
Quem mata o amor na semente
Merece sofrer




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

A HISTÓRIA MUSICAL DO RÁDIO NO BRASIL

Em 1950 as músicas mais executadas no Brasil foram estas:

01 - Pé de Manacá (Isaura Garcia e Hervé Cordovil
)
02
 - Antonico (Alcides Gerardi)
03
 - Olhos Verdes (Dalva de Oliveira)
04
 - Ave-Maria (Trio de Ouro)
05
 - General da Banda (Linda Batista)
06
 - A Bahia Te Espera (Trio de Ouro)
07
 - Meu Brotinho (Francisco Carlos)
08
 - Balzaqueana (Jorge Goulart)
09
 - Boa Noite Amor (Francisco Alves)
10
 - Paraíba (Emilinha Borba)
11
 - Naná (Ruy Rey)
12
 - O Sanfoneiro Só Tocava Isso (Dircinha Batista)
13
 - Maria Rosa (Francisco Alves)
14
 - Pedalando (Adelaide Chiozzo e Alencar Terra)
15
 - Qui Nem Jiló (Luiz Gonzaga)
16
 - Errei, Sim (Dalva de Oliveira)
17
 - Boneca de Pano (4 Ases e um Coringa)
18
 - Não Tem Tradução (Aracy de Almeida)
19
 - Brasileirinho (Ademilde Fonseca)
20
 - Assum Preto (Luiz Gonzaga)
21
 - Baião de Dois (4 Ases e 1 Coringa)
22
 - Aquarela (Francisco Alves)
23
 - Que Será (Dalva de Oliveira)
24 - Trepa no Coqueiro (Carmélia Alves)
25
 - Pra Seu Governo (Gilberto Milfont)
26
 - Cadeira Vazia (Francisco Alves)
27
 - Adeus Pilar (Augusto Calheiros)
28
 - Tudo Acabado (Dalva de Oliveira)
29
 - Sertão de Jequié (Dalva de Oliveira)
30
 - Lírios do Campo (Jorge Goulart)
31
 - Mentira de Amor (Dalva de Oliveira)
32
 - Meu Bairro Canta (4 Ases e um Coringa)
33
 - Caminho Certo (Trio de Ouro)
34
 - No Fim da Estrada (Jorge Goulart)
35
 - Pisa no Chão Devagar (Augusto Calheiros)
36
 - Segundo Andar (Dalva de Oliveira)
37
 - Baião de Dois (Emilinha Borba)
38
 - Chofer de Praça (Luiz Gonzaga)
39
 - Tá Fartando Coisa em Mim (Ivon Curi)
40
 - Teu Exemplo (Trio de Ouro)
41
 - Chama-se João (Dircinha Batista)
42
 - Tico-Tico no Fubá (Mário Gennari Filho)
43
 - Vinte e Cinco de Abril (Jorge Goulart)
44
 - Anjo da Noite (Francisco Carlos)
45
 - Me Deixa em Paz (Francisco Carlos)
46
 - Gavião Calçudo (Mário Gennari Filho)
47
 - Daqui Não Saio (Vocalistas Tropicais)
48
 - Eu e Meu Coração (Francisco Carlos)
49
 - Transmissão Maluca (Zé Fidelis)
50
 - Canção de Amor (Elizeth Cardoso)
51
 - Carne Seca com Tutú (Jorge Veiga e Ademilde Fonseca)
52
 - Casca de Arroz (Emilinha Borba e Marlene)
53
 - Nego, Meu Amor (Marlene e Ivon Curi)
54
 - Marcha do Gago (Oscarito)
55
 - Cinco Malucos (Waldyr Azevedo)
56
 - Coração Magoado (Carmélia Alves)
57
 - Mensageiro da Saudade (Elizeth Cardoso)
58
 - Ela, Sempre Ela (Ataulfo Alves)
59
 - Famoso (Canhoto)
60
 - Dona Vera Tricotando (Marlene)
61
 - Eu Já Vi de Tudo (Emilinha Borba e Marlene)
62
 - Fumaça nos Teus Olhos (Edu da Gaita)
63
 - Eu Não Sou Louco (Isaura Garcia)
64
 - Eu Vou Sapatear (Trigêmeos Vocalistas)
65
 - General da Banda (Blecaute)
66
 - Teco-Teco (Ademilde Fonseca)
67
 - Grande Mágoa (Augusto Calheiros)
68
 - Segura a Mão (Benedito Lacerda)
69
 - Tudo Me Lembra Você (Francisco Carlos)
70
 - Lancha Nova (Nuno Roland e Trio Melodia)
71
 - Qui Nem Jiló (Marlene e Os Cariocas)
72
 - 1 x 0 (Garoto)
73
 - Macapá (Marlene)
74
 - Rag Mop (Ralph Flanagan)
75
 - Um Falso Amor (Gilberto Milfont)
76
 - Migalhas (Linda Batista)
77
 - O Castigo Vem do Céu (Manoel Reis)
78
 - Morena de Sapucaia (Carlos Galhardo)
79
 - Turí-Turê (Carlos Galhardo)
80
 - Nêga Maluca (Linda Batista)
81
 - Rei dos Reis (Alcides Gerardi)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

ARTISTAS TROCAM OS PALCOS PELAS RUAS, PRAÇAS E ÔNIBUS

Bárbara Fagundes e Carlos Batata contam suas trajetórias como artistas de rua.

Por Alana Lima e Luiza Falcão




Há uma semana, o artista de rua Jessé de Paula morreu em provável acidente no metrô do Recife. As imagens mostram que o homem de 30 anos estava de costas para o trem que chegava na estação Largo da Paz quando o retrovisor do meio de transporte bateu nele, ocasionando a morte. Ele teria ultrapassado a faixa de segurança da estação e estava falando ao celular. As investigações ainda não foram concluídas. 


O trágico acidente deixou muitos moradores do Grande Recife perplexos, sobretudo os que se locomovem através de transporte público. A surpresa se deu não apenas por expor a falta de segurança a que os usuários são submetidos diariamente, mas, e principalmente, por fazer com que passageiros de ônibus lotados perdessem um companheiro de viagem. Jessé trabalhava no transporte público, tocava violino, embalava viagens, acalantava engarrafamentos. Como estratégia, Bárbara Fagundes e Carlos Batata só sobem em ônibus que param para eles. 



A tragédia causou comoção nas redes sociais e mostra como a música, a arte e a sensibilidade causam empatia, conquistam pessoas, tornam a existência menos dolorosa - neste caso traduzida em tornar as viagens de ônibus mais agradáveis. Os depoimentos de passageiros de coletivos, o público de Jessé de Paula, mostram que em tempos de fone de ouvido para escutar música no celular ainda há espaço para uma apreciação de arte coletiva onde erudito e popular se misturam cativando o povo com violino. Povo que aplaude, dá dinheiro, se emociona e, sim, gosta de violino. Jessé, que ganhava o seu sustento nos coletivos, morreu atropelado pelo metrô. Se não fosse real, ninguém ia acreditar. 


Se Jessé não pode mais fazer músicas nos ônibus, a bandeira da arte de rua continua sendo levada por uma gama de artistas. Bárbara Fagundes e Carlos Batata são dois deles. Há cerca de um ano, cantam e tocam em coletivos. Contam com a ajuda de motoristas, cobradores e o público em uma experiência artística diferente: "Geralmente, é o público que sai de casa para ver os artistas, no caso da arte de rua, é o artista que vai encontrar o público", explica Bárbara. 

A apresentação nos ônibus é a forma de sustento de Bárbara. Ela trabalha cerca de 8 horas por dia, de terça a sábado.

No bate-papo de meia hora, os músicos conversaram com as jornalistas Alana Lima e Luiza Falcão e falaram do frio na barriga da primeira vez ao se apresentar em ônibus, das dificuldades, das alegrias, e, com música, lembraram Jessé.

PROGRAME-SE


CURIOSIDADES DA MPB

Em 1938, Braguinha compôs com Alberto Ribeiro a marcha "Yes, nós temos bananas", de grande êxito naquele Carnaval, na gravação de Almirante, e feita em resposta ao fox norte-americano surgido no Brasil,"Yes! We Have no Bananas" (Frank Silver e Irving Cohn).

domingo, 3 de maio de 2015

EM MAIS UM VOLUME, A EXITOSA SÉRIE "PERNAMBUCO FORROZANDO PARA O MUNDO", ABARCA A OBRA DE XICO BIZERRA

Em seu segundo volume, a série Pernambuco forrozando para o mundo presta uma singela homenagem a um dos compositores mais representativos da música Nordestina contemporânea

Por Bruno Negromonte


Com a primeira letra do seu nome artístico também escreve-se xote, um dos gêneros musicais ao qual sua obra está intrinsecamente ligada. Nascido na região cearense do Crato, Xico Bizerra teve a oportunidade de vivenciar toda a rica sonoridade que alimenta aquelas pairagens. O que o pequeno Francisco talvez não dimensionasse era o quanto aquela experiência influenciaria sua obra anos mais tarde quando já se encontrava longe do sopé da Chapada do Araripe.

A simploriedade destes primeiros anos, somado a um astuto, sonoro e poético modo de enxergar os mais ínfimos detalhes poéticos que o cercam deram ao compositor as principais credenciais e ferramentas para torná-lo uma espécie de bastião do apuro estético em defesa da nordestinidade em sua melhor potência. Vem do seu matulão o projeto Forroboxote e canções como “Se tu quiser”, “Oração do sanfoneiro”, “Tangendo a dor” e tantas outras. São xotes, baiões, valsas, forrós, e uma gama de ritmos, composições e parcerias que não param de crescer e que agora finalmente encontram-se sincretizados nesta coletânea que chega em comemoração aos quinze anos de estrada do compositor completados ao longo de 2015. 

Com o primeiro volume dedicado ao saudoso Dominguinhos, agora chegou a vez do selo Passadisco prestar essa homenagem a este nome que mostra-se a cada nova produção como um dos mais importantes, promissores e representativos compositores da música nordestina contemporânea. Difícil mensurar a sua relevância dentro do atual quadro do cancioneiro nordestino, no entanto, este segundo volume da série Pernambuco Forrozando para o Mundo arrisca-se, de modo bastante abrangente, e acerta na mosca ao prestar essa justa homenagem a quem tão bem vem construindo um mosaico sonoro onde se destaca a mais pura verdade e autenticidade sertaneja imergidas na seiva da poesia.

Com projeto gráfico de Ana Rios, as fotos (capa e luva) ficaram a cargo do acervo do médico Paulo Fernando Fragoso de Carvalho e Tom Cabral (encarte). A masterização de Delbert Lins (da Gusdel Estudio). O disco que conta com quinze canções, dentre elas uma versão inédita registrada pelo Projeto Sal do clássica "Se tu quiser", enumera um sem fim de importantes nomes da música nordestina, dentre eles Elba Ramalho, Dominguinhos, Marinês, Trio Nordestino, Petrúcio Amorim, Jorge de Altinho, Amelinha, Adelson Viana, Waldonys, Quinteto Violado entre outros.

O lançamento deste novo projeto do selo Passadisco acontecerá na próxima quarta-feira a partir das 19hs na loja homônima ao selo localizada no Shopping Sítio da Trindade, Estrada do Encanamento, 480. O endereço fica no Parnamirim, bairro localizado na zona norte da capital pernambucana, onde o obstinado, Fábio Cabral mantém o selo e a loja. Vale salientar que o projeto junino chega um semestre depois de Fabio "gerundiar" outro ritmo pernambucano, o frevo. Para conhecer este e outros títulos conheçam o website da loja: http://www.passadisco.com.br/

Eis as quinze faixas presentes no álbum "Pernambuco forrozando para o mundo - Volume 02":
01 - Se tu quiser - Elba Ramalho 
02 - Musa - Dominguinhos 
03 - Chico das águas - Quinteto Violado 
04 - Oração do sanfoneiro - Chambinho, Cezzinha, Targino Gondin, Waldonys e
Adelson Viana 
05 - Pé-de-saudade - Marinês 
06 - Jarrim de fulô - Santanna, O Cantador 
07 - Forró do bole bole - Trio Nordestino 
08 - Hoje tem forró - Silvério Pessoa 
09 - Baião vagamundo - Flávio José 
10 - Céu de baião - Amelinha 
11 - Esconderijo do amor - Trio Sabiá 
12 - Oferendar - Flávio Leandro 
13 - Aroma de alegria - Josildo Sá 
14 - Pelos cantos da casa - Maciel Melo 
15 - Vou deixar não - Irah Caldeira 
16 - Bom de prosa - Petrúcio Amorim 
17 - Você não quis - Adelmário Coelho 
18 - Oceano do querer - Jorge de Altinho 
19 - Tangendo a dor - Nádia Maia 
20 - Se tu quiser - Projeto Sal

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes e Tom Jobim

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior


Ataulfo Alves e seus Sucessos (1960)


Passam-se os anos, a vida corre, os tempos mudam, os heróis ficam esquecidos, novos hábitos são adquiridos, a sociedade se transforma, a história contudo mantêm sua imperecível vocação para recordar, recontar, contextualizar e manter vivo o passado, dando-lhe a dimensão necessária para que as novas gerações possam compreender melhor o universo que as cerca, percebendo que mesmo com tantas modificações de comportamento o homem jamais atingiria seu estagio atual se não fossem aqueles que o precederam e contribuíram para seu avanço em direção ao futuro. Assim é e sempre será o mecanismo da vida, a incessante roda da existência que permite que a humanidade se renove fundamentada na simplicidade da evolução dos tempos e na compreensão de que somos frutos daqueles que ficaram e com as experiências acumuladas seremos os responsáveis diretos para os que virão.

Mas se essa é a inevitável e única forma de evoluirmos devemos então aproveitar o máximo a experiência que nos é dada pela divindade para que possamos chegar a plenitude realizando os nossos objetivos que são fazer os outros felizes, contribuir para um mundo melhor e mais justo, tentar diminuir ao máximo as nossas imperfeições ficando atentos para que elas se sublimem ao longo da vida e darmos no final o exemplo de uma existência plena para quando retornarmos a essência espiritual possamos levar apenas o que construímos de bom, ou seja os valores morais que amealhamos enquanto estivemos vivenciando as experiências da existência corporal.

Muito bem! Essas são apenas algumas impressões iniciais sem rodeios ou maiores pretensões para afirmamos ainda que os atos humanos são conseqüência em sua grande maioria gerada pelos legados daqueles que os antecederam, como insinuamos, e que as influencias são inevitáveis pois servem como espelho ou modelo para aqueles que o sucederem, isto é um fenômeno que ocorre em todos os campos da atividade humana e nas artes ele se manifesta de modo muito contundente materializando-se quando se fazem as comparações entre quem fez e quem faz, ou seja, entre o criador primário e aqueles que seguiram seu estilo.

Percorrendo esse caminho é que traçaremos o perfil de um dos maiores criadores da musica popular brasileira, Ataulfo Alves, o homem que deu um estilo requintado ao samba, que o vestiu com grifes antes que a Bossa Nova o fizesse, transformando coisas simples em melodias e versos inesquecíveis e de beleza plástica minimamente inigualáveis. Mineiro da cidade de Mirai nascido em 20 de abril de 1909, teve uma infância dura e simples ao mesmo tempo, precoce, desde muito garoto já fazia seus primeiros versos respondendo de improvisos os criados por seu pai, Severino Alves, violeiro, sanfoneiro e repentista da Zona da Mata que lhe transmitia então o dom da criação artística. Em 1927 vai residir no Rio de Janeiro trabalhando como ajudante de farmácia tornando-se logo um prático na profissão. A atividade porem apesar de lhe render meios de sobrevivência não lhe satisfazia plenamente desse modo passou a freqüentar a noite e as rodas de samba, conhecendo artistas e apresentando suas primeiras composições. Em 1933 Almirante, cantor, compositor e radialista grava sua primeira musica, Sexta feira e logo em seguida em 2 de maio do mesmo ano Carmen Miranda emenda com outra composição do jovem e talentoso sambista, Tempo perdido.

O caminho estava traçado, o sucesso seria apenas uma mera conseqüência e ele chegou com o samba Saudades de meu barracão, gravado pelo estreante interprete Floriano Belham. A partir de então Ataulfo Alves tornava-se um nome nacional e um dos mais importantes e requisitados compositores de nosso cancioneiro, reinou quase absoluto nos anos quarenta, manteve-se em evidencia constante nos anos cinqüenta e na década de sessenta com os louros conquistados tornava-se glorioso, imortal, referencial.

Desfilar todos os sucessos de sua carreira seria uma tarefa que não caberia nessas poucas linhas, contudo, as mais significativas, se assim as podemos chamar, foram imortalizadas pelo ele próprio num disco da gravadora Sinter lançado em 1960 com um titulo simples, comum, mas definidor, Ataulfo Alves e seus sucessos. São doze canções, apenas um apêndice de sua vasta obra, mas que revela a sua importância enquanto criador, musicas que ficaram para sempre guardadas na memória de nossa gente não importando o tempo transcorrido de sua criação, pois fazem parte do memória afetiva do povo brasileiro. Desse modo arrisco-me a afirmar com plena convicção que ao citar os títulos da maioria das canções do LP todos irão entoar seus primeiros versos lembrando-se da melodia, cantando e lendo este texto que deixa de ter pretensão literária e passa a ser musical. Vamos a elas, Sei que é covardia, Vida da minha vida, Mulata assanhada, Meus tempos de criança, Leva meu samba, Atire a primeira pedra, Ai que saudades da Amélia, Saudade dela.

Agora que já cantaram vamos voltar ao texto finalizando-o dizendo apenas que ao se lembrarem das canções é porque Ataulfo Alves já é um símbolo e uma referencia da cultura brasileira confirmando-se sua atemporalidade alem de sua influencia passada, presente e futura e não adianta me desmentir nem achar que há neste comentário louvores em excesso, afinal de contas, foram vocês mesmos que cantaram as composições desse notável artista, eu simplesmente dei aqui um empurrãozinho.

Portanto, quem pensa que Ataulfo, cuja voz se calou em 2 de maio de 1969 não esta mais entre nós engana-se redondamente, pois ela esta viva e vibrante no coração e na alma de todos, quem duvidar que Atire a primeira pedra!

P.S. Síntese de todo brasileiro que se preza, goste ou não: “Quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”. É isso aí!

Faixas:
01 - Sei que é covardia (Ataulfo Alves - Claudionor Cruz)
02 - Vida da minha vida (Ataulfo Alves)
03 - Mulata assanhada (Ataulfo Alves)
04 - Meus tempos de criança (Ataulfo Alves)
05 - É hoje (Ataulfo Alves - Dunga)
06 - Caminhando (Ataulfo Alves)
07 - Leva meu samba (Ataulfo Alves)
08 - Atire a primeira pedra (Ataulfo Alves - Mário Lago)
09 - Vai na paz de Deus (Ataulfo Alves - Antonio Domingues)
10 - Ai que saudades da Amélia (Ataulfo Alves - Mario Lago)
11 - Sai do meu caminho (Ataulfo Alves)
12 - Saudade dela (Ataulfo Alves)

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