PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sábado, 11 de janeiro de 2014

MARCO LOBO, 50 ANOS

Percussionista, brasileiro, nascido em Salvador (BA) em 4 de Janeiro de 1964. Desde criança, costumava extrair som dos mais inusitados objetos. Os primeiros passos de sua carreira como percussionista aconteceram no circuito noturno de Salvador, com Abel Lobo e Jorge Zarath. Em seguida integrou grupos essencialmente baianos, como o de Luiz Caldas, Margareth Menezes e Saul Barbosa, Armandinho Dodô e Osmar, com quem realizou muitos carnavais.


Aos vinte anos mudou-se para o Rio de Janeiro, apresentando-se com o cantor Carlos Ponta Negra e logo depois com Zezé Mota. Marco partiu para explorar também a música instrumental, participando de trabalhos como os de Léo Gandelman, Marco Pereira e João Carlos Assis Brasil.

Convites para acompanhar grandes nomes da MPB começaram a surgir: Elba Ramalho, Moraes Moreira, Marisa Monte, Ivan Lins, Lenine, Ana Carolina, João Bosco, Titães, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Vanessa da Mata, Maria Bethania, Milton Nascimento, entre outros.

No exterior, desenvolve desde 2006 alguns projetos com o baterista Billy Cobham, excursionando pela Europa, Rússia, Malásia e América do Sul. Neste período gravou os dois últimos CDs de Cobham.

Marco Lobo lançou o seu primeiro CD solo em 2007. Atualmente com três CDs, o percusissionista tem se apresentado em teatros, clubes de jazz, festivais e em diversos outros espaços no Brasil e no exterior, sobretudo na Alemanha, com o Trio Elf e com o saxofonista brasileiro Marcio Tubino. Também tem ministrado workshops e oficinas de percussão dentro e fora do país.

No Rio de Janeiro, foi o anfitrião do Projeto bRatuques em 2009 e 2010, importante iniciativa para unir a percussão às diversas vertentes da música brasileira.

Segundo Billy Cobham, "a musicalidade de Marco Lobo é muito especial e única de todas as maneiras. Tenho certeza que qualquer trabalho que ele venha a fazer traduzirá pensamentos positivos em bela música".


Trabalhos

Solo

Marco Lobo Quinteto - Munich - 2011
Marco Lobo e Walter Recording with Max Geller - 2011
Projeto bRatuques 2010 - Marco Lobo e Convidados
Projeto bRatuques 2009 - Marco Lobo e Convidados
Show Aláfia - lançamento CD - 2007
Show Severino - Marco Lobo e Amigos - Salvador - 2006


Participações

Billy Cobham - turnê Brasil - 2009
Vanessa da Mata - álbuns e shows - 2006 a 2009
Maria Bethânia - álbuns "Tua", "Encanteria" e shows - 2009
Luiz Brasil - álbum e show: Brasileiro - 2006
Lula Ribeiro - álbum: Algum Alguém - 2006
Milton e Caetano - show 2006
Vander Lee - DVD: Pensei que Fosse o Céu - 2006
Fiorella Mannoia (Itália) - participação em álbum - 2006
Billy Cobham World Tour - 2006
Milton Nascimento European Tour 2006
Copenhagen Jazz Festival - com Milton Nascimento - 2004
Milton Nascimento - álbum e shows: Pietá - 2003
Virgínia Rodrigues - álbum e shows: Mares Profundos - 2003
Antônio Carlos Jobim Song Book - vol. II e IV - 2002
Titãs - álbum: A Melhor Banda de Todos os Tempos - 2001
Simone - álbum: Seda Pura - 2001
Maria Bethânia - álbum: Maricotinha - 2001
Festival de Jazz de Viena - (Gil, Milton, Chico César, etc.) 2001
Gilberto Gil - álbum: Gil and Milton - 2001 
João Bosco - álbum: Na Esquina (ao vivo) - 2001 
Ivete Sangalo - álbum: Ivete Sangalo - 2000
Milton Nascimento e Gilberto Gil - álbum: Milton e Gil - 2000
Ivan Lins - álbum: Um Novo Tempo - 2000
Ana Carolina - álbum: Ana Carolina - 1999
Lenine - álbum: Na Pressão - 1999
Banda Beijo - álbum: Meu Nome E Gil - 1999
Milton Nascimento - álbum: Crooner - 1999 


Workshops

Workshop de Percussão em Munich - 2011
Workshop de Percussão em Curitiba - 2010
Workshop de Percussão Brasileira - Univ. Nova de Lisboa- 2009
Workshop de Percussão Brasileira em Helsinki (Finlândia) - 2007


Fonte: Site oficial do artista

HELENINHA COSTA, 90 ANOS

A cantora que nasceu no Rio de Janeiro, mas ainda na infância, foi para Santos (SP), se viva estaria completando 90 anos ao longo deste mês


Apesar de ter formado-se como perito-contadora, Helena Costa Grazioli, tinha vocação mesmo era para seguir a carreira artística e ciente disto foi em busca da realização do seu desejo. O primeiro passo foi dado em 1938, aos 14 anos, na Rádio Clube de Santos. Pouco depois, transferiu-se para São Paulo, onde atuou nas rádios São Paulo, Record e Bandeirantes.

Em 1940, gravou seu primeiro disco na Columbia, registrando a marcha "Sortes de São João", de Osvaldo Santiago e Alcir Pires Vermelho, e o samba "Apesar da goteira do quarto", de Pedro Caetano e Alcir Pires Vermelho. No ano seguinte gravou da dupla Pedro Caetano e Alcir Pires Vermelho, a marcha "Tocaram a campainha" e o samba "Está com sono vai dormir".

Em 1943, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde atuou na Rádio Clube do Brasil e trabalhou como "lady crooner" e bailarina do Cassino da Urca e cantou no Cassino Quitandinha. Neste ano, gravou na Colúmbia o samba "Exaltação à Bahia", de Chianca de Garcia (revistógrafo português) e Vicente Paiva que, na época, era diretor musical do cassino e compunha sambas de exaltação para os finais "apoteóticos" dos shows da casa. "Exaltação à Bahia" transformou-se no grande sucesso da carreira da cantora e eternizou-se como um clássico da MPB.

Em 1944 gravou na Continental com o conjunto Milionários do Ritmo o samba "O samba que eu fiz", de Oscar Bellandi e DiloGuardia. Em 1945, convidada por César Ladeira, passou a atuar na Rádio Mayrink Veiga. Dois anos mais tarde, também a convite de César, transferiu-se para a Rádio Nacional, participando do programa "Música do coração" e dos melhores musicais noturnos da emissora. No mesmo ano, gravou na Continental, o samba "Você é tudo que eu sonhei", de Laurindo de Almeida e Del Loro e o choro "Amor", de Laurindo de Almeida e Valdomiro de Abreu.



Em 1947 César Ladeira levou-a para a Rádio Nacional, onde atuou no programa Música do Coração. Lançou o samba "Recordações de um romance", de Bartolomeu Silva e Constantino Silva e o maxixe "Ginga", de Sá Róris.

Em 1951 gravou dois de seus grandes sucessos, o bolero "Afinal", de Ismael Neto e Luis Bittencourt e o fox "Cartas de amor", de Young e Heyman, com versão de Alberto Ribeiro. 

No mesmo ano, gravou com César de Alencar o baião "Não interessa não", de José Menezes e Luiz Bittencourt e o maxixe "Que é isto", de Nestor de Holanda e Abelardo Barbosa, o conhecido apresentador Chacrinha, e esteve presente no primeiro LP brasileiro lançado pela Sinter, com repertório para o carnaval, juntamente com Marion, Neusa Maria, Oscarito, Geraldo Pereira, Os Cariocas, César de Alencar e as Irmãs Meireles.

Em 1952, gravou na RCA Victor, da dupla Klécius Caldas e Armando Cavalcânti, o "Baião serenata" e de Marino Pinto e Don Al Bibi, o bolero "Por quanto tempo?". No mesmo ano, gravou um de seus grandes sucessos, o samba "Barracão", de Luiz Antônio e Teixeira, que seria revivido alguns anos depois com igual sucesso por Elizeth Cardoso. No mesmo período, gravou com o radialista César de Alencar, o samba canção "Está fazendo um ano", de Ismael Neto e Manezinho Araújo e o choro "Me dá, me dá", de Ismael Neto e Claudionor Cruz.



Em 1953, gravou os baiões "Santo Antônio disse não", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, e com acompanhamento de Os Cariocas, "Que é que tu qué", de Luiz Gonzaga e Zédantas. Nesse ano casou-se com Ismael Neto, líder do conjunto "Os cariocas".

Em 1954 gravou os sambas "Arranha céu", de Luiz Antônio e Oldemar Magalhães e "Morro", de Luiz Antônio. Em 1956, registrou o samba canção "Eu já disse", de Lúcio Alves. 

Em 1958 gravou os sambas "Estrela de ouro", de Luiz Bandeira e José Batista e "Por que choras?", de Alberto Rego e Alberto Jesus.

Em 1968 Elizeth Cardoso regravou com reiterado sucesso o samba "Barracão".

A partir do final dos anos 1970, retirou-se definitivamente da carreira artística, não mais aceitando convites para quaisquer aparições públicas.



Fonte: Cantoras do Brasil

BABAÚ DA MANGUEIRA, 100 ANOS

"A Mangueira dava um negócio na gente, que ninguém precisava saber ler para compor. Já vinha de berço. Era só beber a água do registro de lá para ter inspiração à vontade."


Nascido Waldemiro José da Rocha em 23 de janeiro de 1914, Babaú passou a mocidade brincando nas ruas do Buraco Quente, localidade do Morro da Mangueira em que nasceu (na casa de número 24 da Travessa Sayão Lobato). Integrante desde os 12 anos do Bloco dos Arengueiros (núcleo que resultaria na fundação da Estação Primeira de Mangueira), aproximou-se da vida musical da comunidade por meio da observação de mestres mais velhos como Cartola, Carlos Cachaça, Gradim e Aluísio Dias - que foram também a principal motivação para que, aos 16 anos, aprendesse a tocar o instrumento que o acompanharia por toda a vida: o cavaquinho.

Por essa época, começou a participar das rodas dos baluartes nos botequins da Mangueira, com pausas apenas para os momentos em que a polícia chegava. "A gente corria", contava Babaú. "Quando eles iam embora, tornávamos a fazer samba. Assim vivemos por muito tempo."

Foi também desde cedo que se dividiu entre o trabalho - como carregador de sacos e chaveiro dos bondes da Light - e o samba, iniciando sua atividade de compositor no início dos anos 1930. Em 1937, numa visita de artistas do asfalto à Mangueira, o compositor Ciro de Souza gostou da primeira parte de um samba de Babaú já popular na comunidade e completou a composição.

O resultado do encontro foi o samba Tenha pena de mim, lançado em 1937 por Aracy de Almeida, que mais tarde diria ao programa Ensaio, da TV Cultura: "Conheço, por exemplo, Saturnino, o Cartola, o Casaca, Padeirinho, e conheço um também que realmente me deu o primeiro sucesso, onde eu me tornei popular, que era um crioulo que se chamava Babaú."

A composição atravessaria as décadas seguintes, sendo gravada ainda por Carolina Cardoso de Menezes, Jacob do Bandolim, pelo quarteto americano New Brothers e pelas cantoras Elza Soares, Beth Carvalho e Olívia Byington. Na década de 1940, Aracy gravaria um outro samba de Babaú: Eu dei.

Além de integrante da Mangueira (na Ala de Compositores e em antigas formações da Velha Guarda), participou ativamente de outras escolas, colaborando com sambas para a Unidos do Tuiuti, União de Jacarepaguá, Unidos do Outeiro (depois Arranco do Engenho de Dentro), Unidos do Cabuçu e Unidos de Vila Valqueire - tendo participado da fundação das últimas três.

Afastado do samba por algum tempo entre as décadas de 1950 e 60, retomou as atividades artísticas em 1972 para se apresentar no Teatro Opinião de São Paulo. No mesmo ano gravou os sambas Tenha pena de mim e Estou vivendo na floresta no LP Raízes da Mangueira (Discos Copacabana). Em 1975, teve o samba Brincadeira tem hora lançado por Xangô da Mangueira (no LP Velho batuqueiro), que em 1982 gravou também Por que você não foi?, no LP Chão da Mangueira.

Participou em 1989 do disco Mangueira chegou, da Velha Guarda verde e rosa, cantando o samba Vou viver minha vida (gravado originalmente em 1980, por Adelinha). Lançado no Japão pelo selo Bomba Records, o disco chegaria ao mercado brasileiro no ano 2000, pelo selo Nikita Music, já no formato de CD.

Sofrendo de glaucoma, ficou cego em seus últimos anos de vida, vindo a falecer em 3 de julho de 1993, um ano após ter sido personagem central do documentário Babaú na casa do Cachaça - Verde e Rosa Blues (de Luiz Guimarães de Castro), de onde foram retiradas as aspas de Babaú transctiras neste verbete. Em 1994, teve sua vida contada no livro Tempos de outrora - vida e obra de Babaú da Mangueira (Funarj/Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro), de Andréa Ribeiro Alves.


Fonte: Samba e Choro

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

LAMARTINE BABO - O REI DO CARNAVAL (110 ANOS)

Por Eliete Negreiros



“No dia 10 de janeiro de 1904 nasci num berço todo doirado e na rua mais bonita do Rio de Janeiro. Daí, comecei a engatinhar, a caminhar para frente. Com intuição da música, de tão precoce que eu era, nem maestro Pixinguinha, com seus lindos choros de flauta, poderia competir comigo... Eu chorava demais.” Era assim que Lamartine Babo contava sua vida em alguns dos muitos programas de rádio que fazia, sempre com muita alegria e com um humor inconfundível.

Desde a infância, vivia rodeado por música. Décimo segundo filho de uma família de classe média, em sua casa, a mãe e as irmãs tocavam aquelas valsas plangentes que inundavam a atmosfera do Rio daqueles tempos. Vez por outra, os chorões Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense apareciam por lá e o menino Lamartine ficava ouvindo aquela música bonita, chorinhos e canções, sonoridade que ia formando seu mundo musical. Afora isso, ouvia os discos de foxtrote americano, novidade que inundava a sociedade carioca.

No Colégio São Bento, já começava a compor: um foxtrote, uma valsa e uma Ave Maria. Desde o começo era eclético. Bacharelou-se em letras no Colégio Pedro II e começou a trabalhar como office boy na Light. Nesta época, juntava um dinheirinho e ia ao teatro Municipal, ao Lírico ou ao São Pedro de Alcântara (hoje João Caetano) para ouvir alegres operetas vienenses. Saía do teatro assobiando trechos das melodias. E, assim, sem saber música, compôs uma opereta, Cibele, em 1920. Nunca foi encenada. Compôs mais outras duas que tiverem a mesma sina ...

Lamartine foi despedido do emprego, arrumou outro e foi demitido também. Ele queria uma outra vida. Começou a frequentar a boemia, a se aproximar do pessoal de música e de teatro. Era amigo de uma figura de destaque, Eduardo Souto, que além de compositor, era dono de uma editora de partituras, a Casa Carlos Gomes. Com uma figura engraçada, que parecia uma caricatura, magrinho, inquieto e com um bigodinho fininho e preto, Lamartine se destacava pelo humor e facilidade em fazer trocadilhos e, assim, se tornou colaborador de algumas revistas, como Dom Quixote, que era especializada em humor e sátira dos costumes da época, Para todose Shymmy. Nas revistas, usava pseudônimos: Frei Caneca, Poeta Cinzento.



Começou então a compor para o teatro, pois o teatro de revista e as peças musicadas estavam muito em voga naquele momento, década de 20. Mas ainda não seria assim que ele se tornaria conhecido. Seu amigo, o compositor Eduardo Souto, costumava financiar a saída dos blocos de carnaval e as batalhas de confete que antecediam o carnaval, para divulgar suas músicas. Em 1924, Lamartine saiu num desses blocos, o Tatu Subiu no Pau, cantando a marchinha de Souto Não sei dizê. Gostou tanto que se animou e começou a compor músicas de carnaval.

A partir de 1928, compôs para os ranchos da época e conseguiu um certo destaque com a marchinha Foi você. Em 27, Lalá foi para o bloco de um compositor de sucessos carnavalescos, Luís Nunes Sampaio, o Careca. Em 28 compôs Os calças-largas, uma sátira à moda das caças boca-de-sino: “Vem, meu bem / Que os calças-largas / Não te podem sustentar / Sem vintém / Almoçam brisas / E à noite vão dançar”. Este foi o primeiro sucesso de Lamartine, sua primeira música gravada. Mas o que estava ganhando com a música não garantia seu sustento: Lalá foi então para os clubes, dar aulas de dança de salão.

Lamartine sempre esteve ligado ao carnaval: começou desfilando com as canções de Souto e depois se tornaria o centro da festa, tendo suas músicas cantadas em todo Brasil: ele se tornaria “o rei do carnaval”.


A década de 30 marca o início de uma nova fase da música popular brasileira a chamada “época de ouro”. Em 1931 morre o “rei do samba”, Sinhô: “A geração que então surgiu apresentou, de cara, uma turma nova, embora alguns viessem de tempos quase vizinhos – Lamartine Babo, Noel Rosa, Ary Barroso. Era a época de ouro, o esplendor da música popular brasileira. Ao mesmo tempo surgiram nos morros um Cartola, um Nelson Cavaquinho. Os poucos cantores que existiam chamavam-se Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Narciso de Figueiredo Caldas. Carmem Miranda dava baile e Aracy Cortes cantava Ai Ioiô. O páreo era duro. Mas surgiu um homem magrinho cheio de bossa e musicalidade. Fazia samba, fazia marchinha. Sabia de cor todas as operetas vienenses. O meu Lalá. O nosso Lamartine Babo.”, escreveu seu amigo, o jornalista e crítico musical Lúcio Rangel.

Com a nova década, vieram grandes mudanças e uma delas foi o cinema falado, “o grande culpado da transformação”, como cantaria Noel Rosa em “Não tem tradução”. A música do cinema já não seria mais tocada por Ernesto Nazareth e Pixinguinha. Com o cinema falado, a língua e a música americana passaram a tomar conta das salas de cinema, fazendo com que o brasileiro começasse a conviver com a cultura americana, o que seria satiricamente contado pelos compositores populares como Noel Rosa, em Não tem tradução (1933), Assis Valente, em Good-bye, boy (1933) e Lamartine Babo, em Canção para inglês ver (1931).

As emissoras de rádio também causaram uma revolução na divulgação das músicas, pois agora não era mais preciso financiar blocos para divulgá-las: o sucesso era “fabricado” em estúdios e divulgado pelas rádios por todo o Brasil. Imaginem o impacto que isto causou na música popular, que massificação vertiginosa! Assim, os cantores e compositores começaram a ficar tão famosos quanto os artistas de cinema.

A composição de músicas destinadas ao carnaval já era um costume brasileiro. A pioneira desta tradição foi Chiquinha Gonzaga com sua famosa e profética marchinha Abre- Alas. Na década de 20 a forma da marchinha de carnaval já estava estruturada e vieram os sucesso Pé de Anjo, de Sinhô e Pois não, de Eduardo Souto. Mas foi a partir de 30 que a marchinha alcançou seu apogeu. E para isso teve a contribuição fundamental de Lamartine Babo. Suas marchinhas marcaram sucessivos carnavais e algumas delas não se limitaram ao ano de lançamento, mas passaram a fazer parte do repertório dos foliões nos anos seguintes e entraram para a história do carnaval.



Em 1930, venceu um concurso da revista O Cruzeiro com a marchinha Bota o feijão no fogo; em 31, ganhou o concurso da Casa Edson com Bonde errado e fez sucesso com Lua cor de prata, Minha cabrocha e O barbado foi-se. Mas seu grande ano seria 1923, com Só dando com uma pedra nela, gravado por Mario Reis, AEIOU, em parceria com Noel Rosa e o sucesso estrondoso daquela que seria considerada um hino do carnaval carioca: O teu cabelo não nega.

“Linda morena, morena, morena que me faz penar / A lua cheia, que tanto brilha / Não brilha tanto quanto o teu olhar”, cantavam os foliões românticos em 1934, ano também da malandrem de Moleque indigesto, da filosofia de A tua vida é um segredo, do recado de Aí, hein?, “pensas que eu não sei / Toma cuidado, pois um dia eu fiz o mesmo e me estrepei” e da versão carnavalizante da História do Brasil, que vai de Peri e Ceci à Ioiô e Iaiá, do guarani ao guaraná. Linda morena é uma marchinha ingênua, alegre, lírica. Fez muito sucesso e com sua popularidade inspirou várias paródias.

Em 1934, Lamartine compôs também Ride palhaço, em parceria com João de Barro e Uma andorinha não faz verão. Em 35 , Grau dez, em parceria com Ari Barroso e Rasguei a minha fantasia. Esta e Ride palhaço têm um tom melancólico, triste .

Em 36, foi a vez da Marchinha do grande galo, em parceria com Paulo Barbosa, maior sucesso de carnaval daquele ano.


Mas em 1937 a grande vitoriosa do carnaval não foi uma marchinha de Lalá, foi Mamãe eu quero, de Vicente Paiva e Jararaca. Lamartine já não estava mais no centro da festa, nem a festa era a mesma, pois o espírito carnavalesco parecia se eclipsar diante do terror do fascismo, que se espalhara pela Europa e que já era sentido no Brasil: no final deste ano seria implantada a ditadura do Estado Novo. Ao mesmo tempo, a disputa carnavalesca perdia seu aspecto lúdico e gozador e ia se tornando uma competição sob a batuta não do talento mas do capitalismo: o dinheiro entra em cena para garantir a divulgação e execução das músicas, ao invés do talento, do humor. O espírito do carnaval vai perdendo sua beleza... Lamartine foi se afastando deste cenário, que nada tinha a ver com ele. Retraiu-se. Vez por outra, compunha alguma marchinha, mas só esporadicamente. Numa entrevista, ele disse: “Eu me achava um colosso. Mas um dia, olhando-me no espelho, vi que não tinha colo, só osso.” Ainda assim, diante da adversidade, Lalá continuava um gozador, um brilhante fazedor de trocadilhos.

Lamartine era um compositor eclético, desde o início. Fez músicas para festas religiosas, São João e Natal. Em 1933, Mário Reis e Carmem Miranda gravaram em dupla a canção juninaChegou a hora da fogueira.

E Lalá compôs também canções mais langorosas, samba-canção e valsa, as antológicas No Rancho Fundo, Serra da Boa Esperança e Eu sonhei que tu estavas tão linda, canções líricas, brasileiras, ingênuas, o outro lado da face da malícia gostosa e humorística de Lamartine.

Para finalizar, as palavras de um grande amigo de Lamartine, o jornalista e crítico musical Lúcio Rangel:

(Lamartine Babo) “Foi o maior compositor carnavalesco. Não. Foi também um grande compositor de samba e valsa. Falar do homem Lamartine torna-se, com toda razão, muito difícil para mim. Não consigo separar o homem Lamartine, o amigo Lamartine, daquela figura inesquecível que eu encontrava diariamente por aí. Cuidado, Lúcio, não vá derramar prantos pelo nosso Lamartine Babo, o compositor-poeta que é hoje um imortal da música popular brasileira.”

JOÃO DA BAIANA, 40 ANOS DE SAUDADES

XANGÔ DA MANGUEIRA, 05 ANOS DE SAUDADES...

Para não passar em branco os 05 anos de saudades do saudoso sambista, o Musicaria Brasil republica o texto "Xangô da Mangueira, batizado Olivério Ferreira, 77 anos, 53 dos quais como Diretor de Harmonia da Estação Primeira de Mangueira, é um estilista sublime do samba" publicado na Revista Afirma no ano de 2000



Se houvesse uma história social do samba, feita a partir de quem o vivencia e aprecia, aprenderíamos que existem dois tipos de sambistas: os cultores e os estilistas. Os cultores são músicos, cantores e poetas de enorme capacidade criativa que aprimoram a arte de compor e cantar samba. Já os estilistas são aqueles que simplesmente criam sua própria forma, única e original, de samba. Existem cultores que são até mais famosos que os estilistas, mas são os últimos que mantém a chama da inovação e comprovam a riqueza rítmica e melódica do samba. Xangô da Mangueira é o maior dos estilistas do samba em atividade e conversar com ele foi como fazer um passeio por partes conhecidas de nossa própria história que, estranhamente, somos forçados a esquecer. Foi também um enorme prazer e um ato de generosidade de um artista singular.

A idéia de estrear nossa nova editoria com Xangô vem do fato dele ser o melhor sambista desconhecido de sua geração. 

Um desconhecimento que é, obviamente, relativo. Embora tenha uma obra comparável a de personagens como Cartola e Nelson Cavaquinho, ele ainda não penetrou naqueles círculos de admiração nos quais artistas populares são "descobertos" por setores intelectuais de classe média, embora seu trabalho seja, há muito, reconhecido por seus pares e pelo público "não-formador" de opinião. A carreira em disco, iniciada nos anos 70, nunca foi tão bem-sucedida quanto, por exemplo, a de Martinho da Vila, cuja influência de Xangô é visível em vários sambas e calangos. Mesmo não tendo o devido reconhecimento, a obra musical de Xangô reúne cerca de 150 composições, muitas gravadas por ele mesmo em um compacto e em 4 lps lançados somente em vinil nos anos 70 e começo dos anos 80. Além de seus próprios discos, existem ainda as várias participações em coletâneas e tributos a outros artistas.



O estilo único de Xangô é a soma de vários talentos e fruto de várias vivências que se apresentam à medida em que conversamos. O talento mais aparente é o de cantor. A voz poderosa, que atraiu a atenção de Paulo da Portela, tem peso e sotaques ancestrais. A associação mais óbvia é com Clementina de Jesus, com quem dividiu palcos em uma turnê do antigo Projeto Pixinguinha. Por alguma razão misteriosa, os organizadores do projeto consideraram que ouvir Xangô e Clementina juntos deveria ser um privilégio apenas dos nordestinos, pois a turnê do show da dupla se limitou às capitais daquela região. O talento de compositor aparece nos sambas que misturam ritmos e personagens interioranos com uma picardia de sabor suburbano. A simplicidade dos versos estruturados em refrões, primeiras, refrões e segundas capturam o ouvinte em um universo de lavadeiras, pastoras, malandros, velhos batuqueiros e muitas rodas de samba.

Outro talento fundamental é o que o próprio Xangô chama de improvisador, uma atividade que só era possível quando as escolas de samba funcionavam realmente como escolas. O talento como improvisador levou-o a se identificar com o partido-alto, que se tornaria popular nos anos 70. "Eu achava bonito o partido alto", comenta Xangô, "quando os antigos formavam aquela roda e ficavam ali horas e horas cantando aqueles partidos e versando, os compadres com as comadres, uma coisa bonita mesmo". A maestria adquirida no partido-alto lhe valeu o título que dá nome ao seu primeiro lp, "O Rei do Partido Alto" (1972), seu álbum preferido. 

Nascido no Rio Comprido, bairro do Rio de Janeiro, Xangô passou a infância em um sítio em Paracambi, munícípio da Baixada Fluminense que, naquela época, poderia ser classificado como uma área de fronteira de expansão da antiga Guanabara. Daí, de sua mãe mineira (de Ubá) e de seu pai paulista (de Campinas), vieram o sotaque, o vocabulário e a inspiração em ritmos do interior. Adolescente, Xangô viveria em vários bairros do Rio de Janeiro (Rocha Miranda, Sampaio, Irajá, Pavuna), lugares que marcam a identidade de um tipo especial de carioca, o suburbano, que só merece alguma apreciação durante o Carnaval. Parte da genialidade do samba de Xangô está na forma como mistura ritmos populares distintos. A infância interiorana e a vida nos bairros da classe
trabalhadora da Rio consolidaram uma conexão distinta do clichê campo-cidade. Xangô une à roça ao subúrbio em sambas que falam línguas diversas mas mantém um espírito em comum ao estimular à participação com suas palmas e coros cadenciados.

Como Xangô destaca, "antigamente, não havia a segunda do samba". Foi improvisando, então, que ele começou a fazer música e a conviver com as escolas de samba. A carreira em disco, segundo ele, "só viria depois de um longo aprendizado". As primeira lições foram na Unidos de Rocha Miranda, onde foi aluno de Lilico, em algum período no começo dos anos 40 (as datas não vem claramente à sua memória). "Nesta época, eu via Cartola e Paulo da Portela no jornal e sonhava em ser como eles". Xangô também recorda que de um bom improvisador exigia-se bom ouvido, boa cabeça para versar, e a habilidade de "entrar no ritmo e na melodia e deixar o outro em boas condições".

Da escola de Rocha Miranda, Xangô foi convidado para desfilar em uma ala da Portela. É Xangô quem conta, com evidente orgulho, a reação do mítico Paulo da Portela, à sua voz, "Poxa, menino, você tem uma voz boa, deve aproveitar isto". Esta foi a deixa para que Xangô passasse alguns anos na tradicional escola de samba de Madureira, "improvisando com os grandes", como ele diz. Quando Paulo da Portela deixou a escola para atuar na Lira do Amor, Xangô o acompanhou como uma deferência especial. Mas a aventura da Lira do Amor não durou muito e Xangô pediria permissão ao professor para improvisar em outra agremiação.

"Mestre", disse Xangô, "estou com a idéia de ir para uma escola que admiro. Eu quero ir para a Mangueira". Paulo da Portela responderia, "Olha, a casa é sua lá porque eu tenho grande amizade, grande intimidade com o Cartola. Se você precisa de uma referência, eu estou aí para dar para você".

Além da referência ilustre, Xangô também já tinha achado seu caminho para a Estação Primeira por seus próprios meios. Nos bailes como o da Banda Portugal em clubes da Pavuna e do Irajá (os bailes eram uma variação das gafieiras da Praça XI), Xangô faria amizades com moradores da Mangueira que o apresentariam à direção da escola. Nem a referência ilustre, nem as novas amizades, no entanto, o livraram de ter que provar suas habilidades em um concurso onde teve que improvisar e versar em dupla com outros candidatos. Xangô relembra que deveria haver umas 10 duplas concorrendo naquele dia. Ele não só ganhou o concurso, com a auxílio de um parceiro com quem teve uma empatia imediata, como ainda foi escolhido 3° diretor de harmonia da escola.

A função não somente indicava que ele havia pulado vários degraus na hierarquia da Mangueira, mas também ajudaria a celebrizar sua presença no mundo do samba. Xangô fala do dia-a-dia na quadra da Mangueira em mais de meio século de atividade na função, "Eu adaptava as pessoas novas que chegavam para que eles entendessem o espírito da coisa". Xangô tornou-se conhecido pela paciência e cortesia. "Nunca xinguei uma pastora ou discuti com ninguém. Entro na quadra na hora em que o ensaio começa, e todos param de falar. Se tem alguma confusão, explico que todos têm que colaborar porque isto aqui é a diversão nossa. É a arena, o teatro da pessoa humilde".

A função inspiraria o seu parceiro mais freqüente, Jorge Zagaia, a escrever um dos mais belos versos da história do samba no partido-alto "Diretor de Harmonia", que ambos dividem no primeiro lp de Xangô. 'Sou eu o diretor de harmonia/aviso para entrar a bateria/sou eu quem manda o mestre-de-sala/se apresentar a porta-bandeira Maria/se estou errado me perdoa/eu sou o samba em pessoa/você já pensou/quando a velhice chegar/e eu não puder mais sambar'.

Ao entrar para a Mangueira, Xangô adicionaria o complemento nobre ao apelido que ganhou ainda na adolescência. Morando em Rocha Miranda, Xangô foi levado por amigos para trabalhar na fábrica de tecidos Nova América, no subúrbio de Del Castilho. "Naquela época, os garotos brincavam de apostar corrida com carrinhos de madeira. Os ingleses malandros logo viram que era melhor botar os garotos para trabalhar em vez dos velhos que não iam produzir tanto", ele relembra. Xangô foi então trabalhar na máquina de rolo e logo ficou conhecido como o engraçadinho que botava apelidos em todo o mundo, "Olhava para a cara do caboclo e dizia: Carranco! Jamelão! Chupeta!". Mas o próprio Xangô não tinha um apelido e um novo empregado iria alterar este fato com uma provocação simples. Xangô avisou ao novato que ele iria ganhar um apelido, porque todos ali tinham um, e sem perder tempo decretou, "Você tem cara de macumba, você vai ser o Macumba". O novato Macumba concordou, "Não tem nada, pode botar", mas acrescentou, "Qual é o seu apelido?". Xangô apenas respondeu, "Eu não tenho apelido", ao que Macumba replicou de imediato, "Não tinha! Se eu sou o Macumba, você vai ser o Xangô!".


As reminiscências de Xangô sobre os desfiles da Mangueira, onde morou por vários anos, são como preciosas crônicas de uma cultura que parece perder essência à medida em que ganha brilho e holofotes. Xangô conta com evidente saudosismo sobre os dois sambas-enredos, um de entrada e outro de saída, que toda escola escolhia para o desfile principal, e da função do diretor de harmonia de narrar o desfile para a comissão julgadora no alto do palanque em que esta se colocava. A excelência de uma escola e a perícia de seus membros eram medidas no momento da parada, quando a escola trocava de sambas. "Se errasse, era logo desclassificada", ele observa. Quando os desfiles não eram oficiais, Xangô conta como os membros da escola tinham que proteger a sua porta-bandeira contra os ataques de outras escolas. Explica-se: se fosse deixada sem proteção, a porta-bandeira de uma escola poderia ser gentilmente "raptada" por outro mestre-sala que não o seu par para ser exibida em outra agremiação. Cabia então ao descuidado mestre-sala original aceitar o duelo, indo em busca da parceira na escola "inimiga" para trazê-la de volta ao grupo original. 

Tais histórias foram vividas por Xangô ao longo de décadas no mundo do samba. Mas Xangô, como muitos outros sambistas da sua época, nunca viveu do samba. Aposentado como funcionário público federal, ele exerceu ao longo da vida as funções de operário, estivador, segurança e agente federal. Em certos períodos, ele acumulava dois empregos. Trabalhava como segurança em regime de plantão, mas tirava as folgas no cais do porto do Rio de Janeiro. O trabalho, no entanto, não o impediu de viajar com grupos da Mangueira por vários países da Europa e de comprovar como o samba brasileiro encanta as platéias de todo o lugar, incluindo os japoneses, que Xangô visitou antes mesmo deles se tornarem uma espécie de gravadora alternativa para sambistas que sequer sonham em gravar um disco no Brasil.

Ao longo de nossa conversa, Xangô também deixou claro que um improvisador não se faz sozinho. Foi esta apreciação pelo trabalho dos parceiros que transformou os discos de Xangô em trabalhos quase coletivos. Seus parceiros compõem e cantam com ele em várias faixas. Muitos deles, Jorge Zagaia, Waldomiro do Candomblé, Babaú da Mangueira, Aniceto do Império, são também artistas excepcionais. Em seu último lp solo, "Xangô Chão da Mangueira" (1982), um destes "parceiros" aparece com destaque especial. Dona Ivone Lara, levada para o mundo dos shows e das gravações pelo próprio Xangô, compôs para ele uma de suas músicas mais inspiradas ("é a sua cara", ela disse a Xangô ao entregar a música). "A Festa de Santo Antônio", uma ladainha com cadência de samba e versos que subvertem um hierárquico sincretismo religioso, é provavelmente a melhor interpretação de Xangô em disco.


Os dias atuais de Xangô são passados ao lado da esposa, Sonia, que organiza um impressionante acervo de recortes, troféus e memorabilia, em seu apartamento no Irajá. Além do museu particular, que ocupa um quarto inteiro do apartamento, Xangô também tem um altar budista em sua casa. O diretor de harmonia ainda cumpre suas funções na Mangueira e participa das atividades, agora mais intensas, da Velha Guarda da escola. Sobre o ressurgimento das velhas guardas, Xangô é cuidadoso. "O sujeito comprou a corda, carregou os instrumentos, organizou os desfiles, e agora gente que não tem idade para ser da Velha Guarda quer explorar os velhinhos. A Velha Guarda tem que ter o olho vivo porque tem muito material, muitas músicas, que eles nunca mexeram e hoje é hora de eles botarem para fora".

Por seu talento e pela convivência com outros personagens ilustres do samba carioca, Xangô da Mangueira poderia pedir filiação à mais de uma velha guarda, idéia que parece nunca ter passado por sua cabeça. Mas é isto o que passa pela cabeça de quem ouve o samba, outra parceria sua com Jorge Zagaia, que Xangô canta no recente CD da Velha Guarda da Mangueira, "Eu encontrei no Carnaval que passou/aquela que foi o meu grande amor/como estava bela/fantasiada com as cores da Portela/eu não pude resistir e chamei por ela/ela não quis me ouvir/a minha divergência com ela/é que eu sou Mangueira e ela é Portela".

Para nós, que tivemos o privilégio de ouvi-lo cantar esta música em seu pequeno museu particular, é quase impossível não pensar que no coração verde-e-rosa de Xangô corre um pouco de sangue azul-e-branco.

Fonte: Revista Afirma 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

MARCUS VIANA LANÇA DVD EM PARCERIA COM CINEASTA AMERICANO

DVD Transcendental nature tem música composta originalmente para imagens registradas pelo cineasta americano David Fortney em parques naturais dos EUA

Por Eduardo Tristão Girão



O músico e compositor mineiro Marcus Viana acredita que o efeito de seu novo DVD, Transcendental nature, no espectador pode variar entre o do Lexotan e o de fazê-lo despertar para uma nova consciência. Ele está feliz da vida com o resultado que alcançou ao unir seus temas instrumentais de tempero multiétnico a vídeos do cineasta norte-americano David Fortney, conhecido por suas espetaculares imagens de natureza. É a segunda vez que os dois trabalham juntos.

Antes mesmo de começar a assistir ao DVD, dá para ter ideia da sua estética, pelos títulos das faixas: Dance of light, Orion calls, Earth dreams, Sacred elements, Gardens of Gaya, Symphony of light e Hymn to Gaya, entre outros. Utilizando instrumentos como teclado, bansuri (flauta indiana de bambu), esraj (espécie de cítara tocada com arco), violoncelo e, claro, seu inconfundível violino elétrico, Marcus fez músicas para sequências de paisagens de tirar o fôlego, alguns delas com cor e tempo manipulados.

Foi num evento da indústria musical em Cannes, na França, que Viana conheceu um representante da empresa de Fortney. Voltou para Belo Horizonte com alguns filmes do norte-americano na mala e, maravilhado com o que assistiu, decidiu editar as mesmas imagens, mas susbtituindo a trilha original por músicas suas. “Mandei para ele, acrescentando que gostei de tudo, menos da trilha original. Ele respondeu curto e grosso: ‘Fantástico. Você pode lançar isso na América do Sul e Ásia’”, conta.

O culto à natureza, diz Viana, é o ponto forte de Fortney como cineasta. “Nos e-mails que trocamos, ele disse que se as pessoas não podem estar na natureza, que seus vídeos mostrem que há algo maior em volta delas. O sentimento de formiga é muito necessário atualmente, no meio desse progresso loucão. As pessoas estão perdendo a conexão com a realidade. É preciso buscar uma forma de acordar. Esse DVD pode ajudar nisso e também auxiliar o ocidental a meditar”, acredita.

O compositor conta que Transcendental nature é semelhante a Symphony of nature, primeiro trabalho que os dois fizeram juntos, com a diferença que as imagens do segundo não sofreram tanta intervenção quanto as do segundo – em geral, as imagens do novo trabalho foram gravadas em parques naturais dos Estados Unidos nos anos 1990. Além disso, ele revela que a tentação de usar recursos eletrônicos para a parte musical esse projeto foi grande: “A plataforma digital é mais prática, além de ser a minha base”.

Para algumas faixas, Marcus usou composições suas que estavam engavetadas; para outras, elaborou temas na hora, misturando texturas de cordas com suas divagações em instrumentos diversos. “Essas imagens me deram vontade de compor, embora seja deliciosa essa brincadeira de achar os pedaços de música que mais combinam com as imagens e colar uma coisa na outra. O Jayme Monjardim costuma dizer que edição de áudio e vídeo chega a ser melhor que sexo”, brinca Viana.


Terapia musical 

Um pouco triste com a dificuldade de transpor Transcendental nature para os palcos ou mesmo conceber um formato especial para exibi-lo, o artista mineiro gostaria de manter a colaboração com Fortney, mas teme que isso não seja possível devido aos custos de royalties. Paralelamente, prepara-se para dar novo uso a essas e outras músicas autorais com o projeto Pharmácia de Música, de musicoterapia em hospitais, casas de saúde, penitenciárias e clínicas psiquiátricas.

Ele já foi aprovado na Lei Estadual de Incentivas à Cultura e estão previstas gravação e prensagem de 10 CDs com música de Viana composta especialmente para essa finalidade. “Colocaríamos sonorização em quartos e celas, com horário definido. Essa música poderá trazer mudança muito grande”, acredita ele. No momento, Viana está empenhado em associar mais conceitos acadêmicos ao projeto, conferindo-lhe maior credibilidade.

BIOGRAFIA RECUPERA TRAJETÓRIA DE WILSON BAPTISTA, O MESTRE ESQUECIDO DO SAMBA

2013 marca o centenário de nascimento do compositor genial negligenciado pela história

Por Jones Lopes da Silva



Livro dá conta da extensa obra do músico, bem como a histórica polêmica com Noel 


O moço de chapéu de lado, cabelos ondulados de Glostora, fatiota batida e o gingado manemolente era deliberadamente isso mesmo, o malandro carioca dos anos 1930. Ninguém mais do que o compositor Wilson Baptista (1913 - 1968) encarnou essa estética e assumiu a sua defesa em sambas de melodias sincopadas de se dançar em gafieiras e letras bem-humoradas com personagens de minioperetas como a Nega Luzia, que recebeu o Nero e queria botar fogo no morro.

Malandros havia muitos na flamante noite da primeira metade do século passado na então Capital Federal. Brotavam dos morros da área central da cidade e se realizavam no entorno da Praça Tiradentes e da Lapa de prostitutas, gente da noite, malandros, intelectuais, jornalistas, músicos, escritores e turistas. Por ali circulavam Orestes Barbosa, Vadico, Ataulfo Alves, Noel Rosa, Nássara, Herivelto Martins, Donga e Francisco Alves e Wilson, gente que compunha (ou cantava) para as peças dos teatros da redondeza.

Mas só Wilson Baptista, cujo nascimento completou 100 anos neste 2013 que já termina, só ele mereceu a distinção de "filósofo do samba".

Um filósofo underground, diga-se.

Letras rabiscadas em guardanapos de cafés e bares, Wilson cantou a boêmia, os conflitos dos apaixonados, as ilusões do povo, a vadiagem, os azares da jogatina e a ironia de quem erguia construções e não tinha onde morar e assim impregnava seus sambas de vida e cotidiano. Foi ele um dos primeiros a retratar a mulher, no auge da imposição machista:

(...) - Oh! Seu Oscar

Tá fazendo meia hora

Que sua mulher foi embora

E um bilhete deixou

O bilhete assim dizia;

"Não posso mais

Eu quero é viver na orgia"

Este samba, Oh! Seu Oscar, de parceria com Ataulfo Alves, venceu um grande concurso de música popular promovido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, o tenebroso DIP do Estado Novo, em 1936. Mas ainda assim, seu desfecho é libertário. Esse é um lado desconhecido de Wilson Baptista. O mais conhecido é o de sua polêmica com outro mestre, Noel Rosa. Entre meados de 1933 e o final de 1936, os dois compositores esgrimiram sambas feitos nos cafés da Lapa, a começar quando Wilson compôs um lindo elogio à malandragem, o Lenço no Pescoço, gravado por Sylvio Caldas. Mas havia uma linda morena de um cabaret da Lapa, uma bailarina por quem Wilson e Noel tinham interesse. Como a moça se engraçou com Wilson, Noel fez um samba desancando Lenço no Pescoço e disse "proponho ao povo civilizado/não te chamar de malandro/e, sim, de rapaz folgado". Noel se alinhava ao Rio moderno, das largas avenidas recém abertas onde antes havia cortiços, casarios e morros do centro da cidade. Noel, porém, era tanto ou mais apaixonado pela malandragem quanto Wilson. O duelo divertido se seguiu e nele Noel presenteou o país com Feitiço da Vila e Palpite Infeliz. O gênio de Wilson não era menor. Só que ele ficou esquecido na história.

Quem recupera sua memória aproveitando a efeméride é o escritor, ator e músico Rodrigo Alzuguir, que apresentou neste Natal a biografia Wilson Baptista, o Samba Foi a sua Glória (Casa da Palavra), já tendo lançado este ano um Cancioneiro Comentado com 105 partituras e, em 2011, um musical e um álbum duplo: O Samba Carioca de Wilson Batista (Biscoito Fino).

Uma preciosidade recuperada no baú por Paulinho da Viola fala muito do modo de vida de Wilson Baptista. Em Meu Mundo é Hoje, ele diz que "assim morrerá um dia / não levará arrependimentos / nem o peso da hipocrisia". Malandro que faz um verso desses no início do século passado tem o seu valor.

Em outro samba, Chico Brito, um valente do morro, e mais um grande personagem de Wilson, vai preso pelo delegado Peçanha. Isso que no início Chico crescera aluno aplicado no colégio. Wilson remata: "(...) Se o homem nasceu bom / e bom não se conservou / a culpa é da sociedade que o transformou.

— Ele falava nas composições como veículos do pensamento, como no Chico Brito. Usava algo como o Rousseau no samba — diz o biógrafo Rodrigo Alzuguir.

Amigos, músicos, compositores tratavam Wilson como um pensador do samba porque ele dizia que uma obra deve ser suficientemente "forte" e alcançar "personalidade". Evitava temas religiosos. Compunha batucando na caixa de fósforo, que, aliás, foi o instrumento minimalista de muito sambista do porte de Cyro Monteiro, Lupicínio Rodrigues e Zé Keti. De grande parte de suas 720 músicas, uma imensidão criativa, vendia parcerias de dia para dançar no cabaré à noite e, em alguns casos, revendia a outro interessado que aparecia na Lapa. Se fosse flagrado, fazia na hora uma nova composição e pagava a dívida. Noel Rosa era do mesmo tipo. Houve épocas em que o poeta da Vila tornou-se quase um empregado do cantor Francisco Alves, que lhe emprestava dinheiro mas exigia em troca a parceria.

Nessa vida hedonista, Wilson torrava com mulheres seu parco dinheiro e, no dia seguinte, mal sabia o que havia composto no anterior. Não cuidou da obra, não deixou acervo e nem providenciou quem zelasse pela memória. Também por isso seu nome hoje soa desconhecido.

PROGRAME-SE


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

PROGRAME-SE


PROGRAME-SE


MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Ed Motta

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A DIVINA TRAGÉDIA DE BELCHIOR - NO TREVO, A 100 POR HORA (CAPÍTULO 01)

Procurado pela polícia e hospedado de favor na casa de fãs, o compositor de clássicos como “Divina comédia humana” protagoniza uma história de amor e decadência

Por Marcelo Bortoloti




Edna Prometheu é o pseudônimo da produtora cultural Edna Assunção de Araújo, de 46 anos. Morena, de cabelos encaracolados e baixa estatura, não é uma mulher de beleza estonteante. Militante de organizações de extrema-esquerda, é definida por seus amigos como “idealista utópica”. No começo de 2005, ela estava em São Paulo, no ateliê do artista plástico cearense Aldemir Martins, já morto, quando entrou pela porta o músico Belchior. O cantor de “Paralelas” também pinta quadros e frequenta o ambiente artístico. Edna queria organizar uma exposição de Aldemir no Ceará. Belchior disse que tinha amigos por lá, poderia ajudar. Trocaram telefones.


Os dois acabaram organizando juntos a exposição em Fortaleza, naquele mesmo ano. Na volta, Edna ligou para um amigo e contou a novidade: “Estamos namorando”. A partir daí, a vida plácida de Belchior derrapou no trevo a 100 por hora, como diz a letra de “Paralelas”. Para ficar com Edna, ele abandonou a então mulher, Ângela, com quem estava casado havia 35 anos, mãe de dois dos quatro filhos que tem. Afastou-se dos amigos e foi gradativamente deixando de fazer shows, até sumir sem dar explicações, em 2009. “Essa figura nefasta está fazendo uma lavagem cerebral nele”, afirma Jackson Martins, ex-empresário de Belchior. “Depois dela, sua vida só andou para trás”, diz o artista plástico cearense Tota, amigo de Belchior.

O desaparecimento de Belchior, há cinco anos, surpreendeu a todos, família e amigos. Ninguém poderia esperar tal atitude. Ele deixou para trás a agenda de shows e todo o patrimônio, incluindo roupas, documentos, quadros, automóveis e apartamento. O sumiço transformou Belchior em figura cult. A pergunta “onde está Belchior?” ecoou na internet e teve até repercussão internacional. Surgiram blogs sobre o tema. Campanhas nas redes sociais pediram a volta do músico. E apareceram montagens cômicas – “memes” – em que Belchior aparece em locais inusitados como a ilha do seriado Lost. Suas músicas no YouTube, que antes tinham 5 mil acessos diários, hoje batem 500 mil.

O sucesso no mundo virtual não trouxe nenhum benefício para o Belchior de carne e osso. Aos 67 anos, ele vive escondido com Edna em Porto Alegre. Não pode sair em público, pois é procurado pela polícia. Pesam contra Belchior dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias. Uma devida à ex-mulher Ângela, com quem tem dois filhos já maiores de idade, e outra à mãe de uma filha de 19 anos que teve fora do casamento. Além das pensões, Belchior abandonou todos os demais compromissos e é cobrado na Justiça em processos que correm à revelia. O ex-secretário particular de Belchior, Célio Silva, ganhou um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão. Não há mais como recorrer. As contas de Belchior estão bloqueadas, e os imóveis que tinha comprometidos. Sem dinheiro, ele já se abrigou numa instituição de caridade no Rio Grande do Sul e morou de favor na casa de fãs que nem conhecia.

O mais intrigante na espantosa história de Belchior é que ele aparentemente não agiu movido por depressão, dívidas ou golpe publicitário, como se pensou no princípio. A influência da mulher é apontada pela maioria dos amigos como o motivo do seu comportamento. Ainda assim, não há unanimidade. “Edna não conseguiria sozinha virar a cabeça de alguém inteligente como Belchior. São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”, diz o artista plástico José Roberto Aguilar, de 72 anos, amigo do casal.

Belchior nasceu numa família simples no interior do Ceará. Foi o mais bem-sucedido entre 23 irmãos. Estudou medicina na capital. Abandonou o curso depois de quatro anos, para ingressar na carreira artística. Estourou nos festivais na década de 1970 e compôs músicas com letras poderosas, como “A palo seco”. Seus sucessos foram gravados por Elis Regina, Jair Rodrigues e Roberto Carlos. Belchior é um artista com vasta cultura, domina cinco idiomas, conhece filosofia e gosta de física quântica. Até os anos 2000, lançava em média um disco por ano. “Ele era uma máquina, chegava a fazer três shows por noite. Era uma pessoa completamente dedicada à carreira”, diz o parceiro e ex-sócio Jorge Mello.

Tudo isso ficou para trás. O sumiço de Belchior lembra o caso do escritor russo Liev Tolstói. Aos 82 anos, ele abandonou tudo para viver como camponês. Tolstói teve um fim trágico – morreu de pneumonia depois de viajar na terceira classe de um trem durante o inverno soviético. Belchior, quanto mais se afasta da vida em sociedade, mais se afunda em dificuldades mundanas.

DA LAMA AO CAOS (O SOM DO VINIL)

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Bossa Nova - Carlos Lyra (Philips, 1959)

Carlos Lyra é um dos inventores da Bossa Nova, ele foi um dos primeiros a gravar um álbum de Bossa Nova. Várias das músicas que ele escreveu e co-escreveu com, por exemplo, Vinicius de Moraes tornou-se padrões de Bossa Nova mais tarde. Uma música como "Maria Ninguém" foi interpretado por praticamente todo músico brasileiro. Este ano o debute fonográfico de Carlos Lyra completa 55 anos com o músico em franca atividade.

Faixas:
01 - Chora tua tristeza (Oscar Castro Neves - Luvercy Fiorini)
02 - Ciúme (Carlos Lyra)
03 - Barquinho de papel (Carlos Lyra)
04 - Rapaz de bem (Johnny Alf)
05 - Só mesmo por amor (Carlos Lyra)
06 - Gosto de você (Carlos Lyra - Carlos Fernando Fortes)
07 - Quando chegares (Carlos Lyra)
08 - Maria Ninguém (Carlos Lyra)
09 - Canção do olhar amado (Marino Pinto - Francisco Feitosa)
10 - O bem do amor (Carlos Lyra - Nelson Lins e Barros)
11 - Menina(Carlos Lyra)
12 - Sem saudade de você (Helena Lyra - pseudônimo de Carlos Lyra)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

PROGRAME-SE


MÚSICA, ÍDOLOS E PODER (DO VINIL AO DOWNLOAD) - PARTE 28



CAPÍTULO 28 

Sempre fiquei muito atento ao meu redor. Consultava frequentemente meus artistas porque eles eram, e são até hoje, uma fonte inesgotável de ideias, simplesmente porque pensam nas suas carreiras e criações dia e noite. Eu lhes perguntava sobre projetos próprios ainda não realizados, conversava com pessoas de outros setores criativos, e nunca deixava de consultar meus colaboradores para saber se haviam tido alguma ideia original. Meu talento profissional, além de competente administrador de empresas, era saber identificar uma boa ideia e depois trabalhar duro para transformá-la em realidade. 

E o meu saber escutar foi responsável por gravações que hoje fazem parte da história da MPB, e que foram extremamente bem-sucedidas, artística e comercialmente falando. Todos os projetos que reúnem artistas que se admiram pessoal e profissionalmente são fascinantes pela interação, que provoca uma atmosfera excitante, e seus resultados são surpreendentemente mágicos. Algumas vezes esses momentos eram o resultado dessa minha busca, mas outras vezes chegavam a mim em formas inusitadas... de desafios. 

Um dia, em Salvador, almoçava com um grupo grande de amigos da Maria Bethânia e do Caetano, quando um arquiteto ou advogado — cujo nome não me recordo — sentado ao meu lado me provocou com certa ironia, como sabem fazer tão bem os baianos: 

—Você, que é o tal todo-poderoso do disco... Quero ver você reconciliar o Caetano e o Chico... Quero ver você botar os dois no palco juntos! 

— Por favor, você deve estar brincando! — respondi. 

É bom lembrar que, naquela época, os fãs de um detestavam os fãs do outro, de tal maneira que uma rivalidade se estabeleceu entre Caetano e Chico, sem que eles mesmos tivessem algo a ver com a situação, e a imprensa alimentava a suposta rixa. 

Uns meses depois do almoço, pensei na sugestão louca de reconciliar os dois, o que na verdade significaria desmistificar aquela bobagem entre dois artistas da maior importância e da maior seriedade. Num jantar com Caetano, papo vai, papo vem, e acabei perguntando: 

— Caetano, estive pensando que talvez seja a hora de acabar com esse mal-estar com o Chico, o que você não acha? 

— André, eu não tenho nada contra o Chico, bem pelo contrário. Gosto muito dele e também concordo que essa história é uma bobagem. 

Posso falar, então, com Chico ? 

Pode, sim... 

Jantei com o Chico, acompanhado da Marieta Severo, e rolou a mesma conversa: 

Não tenho nada contra o Caetano. Mas depende dele. Se ele quiser, por mim tudo bem… 

Chico, fique sabendo que eu já falei com Caetano e ele concorda inteiramente em acabar com essa estupidez... 

Após várias reuniões com Guilherme Araújo e Roberto Santana, chegamos à conclusão de que a chamada reconciliação deveria acontecer publicamente num concerto, na Bahia, no Teatro Castro Alves. No dia 10 de novembro de 1972, estávamos todos nervosos: o ensaio havia sido tumultuado; a passagem de som, incompleta; Chico e o MPB4 beberam bastante durante o almoço; e eu, como para esquecer, dormi a tarde inteira numa rede, ali mesmo num jardim onde estávamos almoçando... Só Caetano estava sereno. 

À noite, Caetano e seus músicos, e Chico com o MPB4 , cada um instalado de um lado do palco, deram partida ao concerto com o teatro repleto, numa atmosfera cada vez mais entusiasmada. A gravação, por milagre, transcorreu normalmente; sua qualidade excelente, pelos padrões da época, nos proporcionou um disco memorável: Caetano e Chico juntos e ao vivo. 

— Existe um artista com quem você sonha gravar? — perguntei, um dia, a Maria Bethânia . A resposta foi imediata e contundente: 

— Com o Chico, sem dúvida! Adoro ele, mais do que qualquer outro artista. Menos do que o Caê, claro... 

Poucos dias depois, nessa deliciosa rotina de jantares, contei ao Chico minha conversa com a Bethânia e deixei a pergunta no ar: 

E você, Chico, gostaria de gravar com Maria? Ao que Chico, sem a menor hesitação, respondeu: 

Na hora que ela quiser... 

Na semana seguinte, por acaso, encontrei Mário Priolli , que estava em busca de um artista ou de uma ideia para um espetáculo no Canecão. Evidentemente, a visão de uma temporada “Chico Bethânia ” foi forte demais para ele pensar em outra alternativa. Ruy Guerra, Perinho Santana e Osvaldo Loureiro puseram a mão na massa para dirigir o show e a Companhia de Discos se instalou na mesa de gravação, os ensaios correram normalmente e a noite de estreia reuniu todo o Rio de Janeiro. A censura proibiu Chico de cantar “Tanto mar”, música inédita, os microfones pifaram algumas vezes, sem por isso afetar o entusiasmo dos artistas e sobretudo do público, e o espetáculo terminou com a entrada da escola de samba Mocidade Independente. O disco Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo foi um dos maiores sucessos da história da MPB. 

Elis ia celebrar dez anos de carreira em 1974, aniversário que merecia de todos nós a maior atenção. Menescal e Armando Pittigliani, em particular, queriam produzir um disco espetacular, memorável! Porém... Qual? Essa era a questão. 

Aqui entra em cena Roberto Oliveira, que eu conhecera alguns anos antes, recém-formado, quando ele me propôs vender discos em universidades de São Paulo. De nossas conversas nasceu o “Circuito Universitário”, inicialmente com venda de discos e produção de shows nas faculdades da capital e do interior do estado. Agregamos ao projeto Benil Santos , empresário de Vinicius e Toquinho, que acabou sendo de uma importância capital para os estudantes naquela época de ditadura. 

Reaparece, então, Roberto Oliveira, sob a figura de administrador da carreira de Elis Regina. Cansada de ter muito sucesso popular e nenhum prestígio dentro da classe, Elis pensou, com razão, que o primeiro passo era separar-se do Marcos Lázaro, seu empresário de muitos anos, e convidar o Roberto Oliveira para o posto. 

Voltando aos dez anos de carreira da Elis, em consenso com Roberto Oliveira, Menescal, Armando e eu pensamos que Tom Jobim seria o parceiro ideal para a celebração. “O maior compositor do Brasil em dueto com a maior cantora do Brasil.” Elis e Tom . Roberto Oliveira e Menescal ficaram responsáveis por falar com Elis, e eu, com Tom, que vivia em Los Angeles. A gravação inesquecível da Elis em “Águas de março” tinha aproximado os dois pouco antes. De tal maneira que a resposta foi imediata, entusiasta. Por sorte, Aloysio de Oliveira, que também residia em Los Angeles, era o produtor ideal da gravação do disco, enquanto Roberto providenciava a filmagem do acontecimento. Dois concertos com Elis e Tom , um no Rio e o outro em São Paulo, celebraram o lançamento desse disco, um dos mais importantes marcos da música popular brasileira. 

É natural que nem todos os projetos dessem certo. Porém, lamento particularmente o fracasso de um encontro musical proposto por João Gilberto, que previa a gravação ao vivo de um especial de TV, na então ainda poderosa Tupi, em co-produção com a nossa gravadora, com a participação da Gal e do Caetano. O LP seria lançado simultaneamente com a apresentação do programa na televisão. Em 1972, creio que João Gilberto morava em Roma. Caetano, ainda exilado, estava em Londres. Gal era a única a viver no Brasil. Tia Léa, responsável pelos contratos e prestação de contas de muitos artistas, e João Carlos Müller, diretor jurídico da companhia, conseguiram com grandes dificuldades que os militares deixassem Caetano vir ao Brasil por poucos dias. 

A TV Tupi de São Paulo tinha disponibilizado totalmente um de seus estúdios principais durante três dias e três noites para os artistas trabalharem sem interrupção e com toda a tranqüilidade, protegendo, assim, o caráter intimista do encontro. Até mesa de pingue-pongue havia. As câmeras ficaram permanentemente ligadas, assim como os equipamentos de gravação de áudio, para registrar tudo o que fosse acontecer — inclusive as conversas entre os artistas, que poderiam ser interessantes para reprodução no programa e no disco. 

As gravações se desenrolaram normalmente. Caetano voltou para Londres. Manoel Barenbeim e os produtores de TV fizeram uma primeira edição, e Manoel me mandou uns dez rolos de fita para que eu selecionasse o material que me parecesse mais interessante. Sendo de João Gilberto a autoria do projeto, mandei uns cinco rolos para sua aprovação e seleção final. João me devolveu um mero meio rolo de fita. Nada tinha sobrado dos registros do Caetano — nem o canto, nem os ótimos comentários e conversas. E da Gal , somente uma canção em dueto com João. Supondo que João estivesse certo na sua apreciação do resultado musical do encontro, lamentei profundamente que ele não tivesse considerado a importância simbólica que aquele programa de TV, em horário nobre, com a presença de um Caetano exilado, pudesse significar em plenos tempos de ditadura militar. 

Robert Stigwood, naquele momento um dos homens mais bem-sucedidos do music business mundial, produtor de Jesus Christ Superstar, de Saturday Night Fever e de Evita, além de manager dos Bee Gees e do Eric Clapton , me ligou de Londres, informando que ele e o Clapton viriam passar uns dias de férias no Rio, naquele ano de 1975. Robert disse que o Eric gostaria de participar de uma reunião para encontrar os artistas brasileiros que eu achasse oportuno. Convidei Gil, Erasmo, Rita Lee, Caetano, Jorge Ben , Nelson Motta e Cat Stevens para um jantar em minha casa. 

O Eric chegou com uma magnífica guitarra branca. Gil, Jorge e Stevens estavam com seus violões ou suas guitarras. Sentados em círculo no chão, Jorge, Gil, Stevens e Clapton deram início a uma incrível jam session. (Não creio que Rita e Caetano tenham participado. E, se participaram, foi bem no início.) Cat Stevens foi o primeiro a sair: 

— Eu não sou guitarrista para enfrentar isso — disse. 

Pouco depois, foi a vez do Clapton largar sua guitarra e se transformar num espectador fascinado. 

De tal maneira que ficaram o Jorge e o Gil tocando um frente ao outro, visitando mundos musicais estranhos e desconhecidos para mim, um comum mortal que assistia ao concerto como a um desafio entre cavaleiros medievais africanos. O Gil improvisava, dava voltas e voltas de assustadora virtuosidade, enquanto o Jorge, impávido, conservava a sua essência fundamental, que é o ritmo. De vez em quando, à custa de vertiginosas manobras, Gil se apoderava do ritmo por minutos, que Jorge retomava; outras vezes, seguravam o ritmo juntos. Minha sensação era que tinham se fundido por uma força magnética poderosa. 

Ao final, encharcados de suor da cabeça aos pés, exaustos, aterrissaram de volta ao planeta, mais do que felizes com a viagem que tinham feito, aliviados por terem tido a generosidade de atingir, por instantes, lugares que devem compor o verdadeiro e real Paraíso... Minutos depois, antes que todos fossem embora, e ainda celebrando aquela festa, pedi aos dois que entrassem em estúdio o mais rápido possível para registrar aquela importante colaboração artística, sob a supervisão de seus produtores, Paulinho Tapajós e Perinho Albuquerque. Dali nasceu o antológico álbum duplo Gil e  Jorge.

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