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domingo, 7 de fevereiro de 2016

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB


Lamartine Babo (1904-1963)



Ao longo do mês passado trouxe aqui para a nossa coluna algumas curiosidades acerca de dois grandes nomes de nossa música. Tom Jobim e Vinícius de Moraes foram personagens marcantes dentro e fora da música e aqui no Musicaria tive a oportunidade de registrar algumas passagens engraçadas ao longo de suas respectivas biografias.


Pois bem, devido ao sucesso da pauta publicada em janeiro, volto agora com outro grande personagem de nossa música e algumas passagens interessantes (e porque não cômicas?) de sua biografia. Saudosista e ainda inebriado por confete e serpentinas, trago hoje um artista considerado como uma das figuras mais emblemática do carnaval brasileiro, que foi o compositor Lamartine Babo (também conhecido por Lalá). Dos doze irmãos, foi um dos três que chegaram a vida adulta e mesmo sem o menor conhecimento musical foi capaz de criar melodias maravilhosas ainda na adolescência como por exemplo a valsa “Torturas do Amor“, composta por ele aos 14 anos.

Sua primeira marchinha gravada, foi a divertida “Os Calças-Largas“, um deboche de Lamartine sobre rapazes que usavam calças boca-de-sino. Em 1937, com a implementação da censura advinda com o Estado Novo de Getúlio Vargas, as sátira foram proibidas e a partir daí as marchinhas não foram mais as mesmas. Porém é válido lembrar que além das marchinhas carnavalescas, o versátil Lamartine, foi capaz da proeza de, em 1949, compor os hinos (não-oficiais) de todos os 11 participantes do campeonato carioca daquele ano. Patrocinado pelo prgrama radiofônico “Trem da alegria“, todos os hinos compostos acabaram sendo lançados em 78 rotações. Uma curiosidade sobre a composição desses hinos é que em apenas um dia “Lalá” compôs os famosos hinos dos considerados seis maiores e mais tradicionais times de futebol do Rio de Janeiro – sendo o primeiríssimo em seu coração o América FC, além de Vasco da Gama, Fluminense, Flamengo, Botafogo e Bangu.

Algumas estórias mostram o quanto Lamartine Babo era um cara despojado e irreverente, como por exemplo o dia em que foi enviar um telegrama, o telegrafista bateu então o lápis na mesa em morse para seu colega: “Magro, feio e de voz fina“. Lalá tirou o seu lápis e bateu: “Magro, feio, de voz fina e ex-telegrafista“. Outra passagem interessante foi durante uma entrevista na década de 50 quando declarou: “Eu me achava um colosso. Mas, um dia, olhando-me no espelho, vi que não tenho colo, só tenho osso“. Ainda sobre sua magreza costumava dizer: “Eu era tão magro que não dava fotografias às minhas fãs, dava radiografias” e todas as vezes que alguém o repreendia pela vida desregrada o mandando cair em si, ele costumava dizer: “Amigo, eu sou tão magro que se eu cair em si, eu ainda caio fora“.

Há várias outras passagens interessantes na biografia deste que foi sem dúvida um dos maiores compositores de sua época, como um fato que ocorreu quando trabalhava na Companhia Internacional de Seguros. Neste emprego ele passou pouco tempo, pois logo foi despedido quando o seu patrão o viu batucando numa mesa, em horário de trabalho, e mordendo a língua, cacoete que fazia quando estava compondo.

Muitos dizem que Lalá especializou-se em copidescar canções mal feitas e mal arranjadas, transformando-as em grandes sucessos. Dizem que foi o caso de canções como “No Rancho Fundo” e “Uma Andorinha Não Faz Verão“. Outra composição polêmica é um dos seus maiores sucessos: “O Teu Cabelo Não Nega“. Dizem que escrita pelos irmãos pernambucanos João e Raul Valença, Lalá alterou a letra e alguns arranjos, além de criar a introdução instrumental da obra.

Sim! Não posso esquecer de lembrar aos amigos do Musicaria Brasil que Lalá foi tio de Oswaldo Sargentelli, o dono da casa de espetáculos “Sambão” em Copacabana. Sargentelli tornou-se conhecido nacionalmente quando teve a sua imagem associada as inúmeras mulatas que passaram em espetáculos organizados por ele.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

LAMARTINE BABO - O REI DO CARNAVAL (110 ANOS)

Por Eliete Negreiros



“No dia 10 de janeiro de 1904 nasci num berço todo doirado e na rua mais bonita do Rio de Janeiro. Daí, comecei a engatinhar, a caminhar para frente. Com intuição da música, de tão precoce que eu era, nem maestro Pixinguinha, com seus lindos choros de flauta, poderia competir comigo... Eu chorava demais.” Era assim que Lamartine Babo contava sua vida em alguns dos muitos programas de rádio que fazia, sempre com muita alegria e com um humor inconfundível.

Desde a infância, vivia rodeado por música. Décimo segundo filho de uma família de classe média, em sua casa, a mãe e as irmãs tocavam aquelas valsas plangentes que inundavam a atmosfera do Rio daqueles tempos. Vez por outra, os chorões Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense apareciam por lá e o menino Lamartine ficava ouvindo aquela música bonita, chorinhos e canções, sonoridade que ia formando seu mundo musical. Afora isso, ouvia os discos de foxtrote americano, novidade que inundava a sociedade carioca.

No Colégio São Bento, já começava a compor: um foxtrote, uma valsa e uma Ave Maria. Desde o começo era eclético. Bacharelou-se em letras no Colégio Pedro II e começou a trabalhar como office boy na Light. Nesta época, juntava um dinheirinho e ia ao teatro Municipal, ao Lírico ou ao São Pedro de Alcântara (hoje João Caetano) para ouvir alegres operetas vienenses. Saía do teatro assobiando trechos das melodias. E, assim, sem saber música, compôs uma opereta, Cibele, em 1920. Nunca foi encenada. Compôs mais outras duas que tiverem a mesma sina ...

Lamartine foi despedido do emprego, arrumou outro e foi demitido também. Ele queria uma outra vida. Começou a frequentar a boemia, a se aproximar do pessoal de música e de teatro. Era amigo de uma figura de destaque, Eduardo Souto, que além de compositor, era dono de uma editora de partituras, a Casa Carlos Gomes. Com uma figura engraçada, que parecia uma caricatura, magrinho, inquieto e com um bigodinho fininho e preto, Lamartine se destacava pelo humor e facilidade em fazer trocadilhos e, assim, se tornou colaborador de algumas revistas, como Dom Quixote, que era especializada em humor e sátira dos costumes da época, Para todose Shymmy. Nas revistas, usava pseudônimos: Frei Caneca, Poeta Cinzento.



Começou então a compor para o teatro, pois o teatro de revista e as peças musicadas estavam muito em voga naquele momento, década de 20. Mas ainda não seria assim que ele se tornaria conhecido. Seu amigo, o compositor Eduardo Souto, costumava financiar a saída dos blocos de carnaval e as batalhas de confete que antecediam o carnaval, para divulgar suas músicas. Em 1924, Lamartine saiu num desses blocos, o Tatu Subiu no Pau, cantando a marchinha de Souto Não sei dizê. Gostou tanto que se animou e começou a compor músicas de carnaval.

A partir de 1928, compôs para os ranchos da época e conseguiu um certo destaque com a marchinha Foi você. Em 27, Lalá foi para o bloco de um compositor de sucessos carnavalescos, Luís Nunes Sampaio, o Careca. Em 28 compôs Os calças-largas, uma sátira à moda das caças boca-de-sino: “Vem, meu bem / Que os calças-largas / Não te podem sustentar / Sem vintém / Almoçam brisas / E à noite vão dançar”. Este foi o primeiro sucesso de Lamartine, sua primeira música gravada. Mas o que estava ganhando com a música não garantia seu sustento: Lalá foi então para os clubes, dar aulas de dança de salão.

Lamartine sempre esteve ligado ao carnaval: começou desfilando com as canções de Souto e depois se tornaria o centro da festa, tendo suas músicas cantadas em todo Brasil: ele se tornaria “o rei do carnaval”.


A década de 30 marca o início de uma nova fase da música popular brasileira a chamada “época de ouro”. Em 1931 morre o “rei do samba”, Sinhô: “A geração que então surgiu apresentou, de cara, uma turma nova, embora alguns viessem de tempos quase vizinhos – Lamartine Babo, Noel Rosa, Ary Barroso. Era a época de ouro, o esplendor da música popular brasileira. Ao mesmo tempo surgiram nos morros um Cartola, um Nelson Cavaquinho. Os poucos cantores que existiam chamavam-se Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Narciso de Figueiredo Caldas. Carmem Miranda dava baile e Aracy Cortes cantava Ai Ioiô. O páreo era duro. Mas surgiu um homem magrinho cheio de bossa e musicalidade. Fazia samba, fazia marchinha. Sabia de cor todas as operetas vienenses. O meu Lalá. O nosso Lamartine Babo.”, escreveu seu amigo, o jornalista e crítico musical Lúcio Rangel.

Com a nova década, vieram grandes mudanças e uma delas foi o cinema falado, “o grande culpado da transformação”, como cantaria Noel Rosa em “Não tem tradução”. A música do cinema já não seria mais tocada por Ernesto Nazareth e Pixinguinha. Com o cinema falado, a língua e a música americana passaram a tomar conta das salas de cinema, fazendo com que o brasileiro começasse a conviver com a cultura americana, o que seria satiricamente contado pelos compositores populares como Noel Rosa, em Não tem tradução (1933), Assis Valente, em Good-bye, boy (1933) e Lamartine Babo, em Canção para inglês ver (1931).

As emissoras de rádio também causaram uma revolução na divulgação das músicas, pois agora não era mais preciso financiar blocos para divulgá-las: o sucesso era “fabricado” em estúdios e divulgado pelas rádios por todo o Brasil. Imaginem o impacto que isto causou na música popular, que massificação vertiginosa! Assim, os cantores e compositores começaram a ficar tão famosos quanto os artistas de cinema.

A composição de músicas destinadas ao carnaval já era um costume brasileiro. A pioneira desta tradição foi Chiquinha Gonzaga com sua famosa e profética marchinha Abre- Alas. Na década de 20 a forma da marchinha de carnaval já estava estruturada e vieram os sucesso Pé de Anjo, de Sinhô e Pois não, de Eduardo Souto. Mas foi a partir de 30 que a marchinha alcançou seu apogeu. E para isso teve a contribuição fundamental de Lamartine Babo. Suas marchinhas marcaram sucessivos carnavais e algumas delas não se limitaram ao ano de lançamento, mas passaram a fazer parte do repertório dos foliões nos anos seguintes e entraram para a história do carnaval.



Em 1930, venceu um concurso da revista O Cruzeiro com a marchinha Bota o feijão no fogo; em 31, ganhou o concurso da Casa Edson com Bonde errado e fez sucesso com Lua cor de prata, Minha cabrocha e O barbado foi-se. Mas seu grande ano seria 1923, com Só dando com uma pedra nela, gravado por Mario Reis, AEIOU, em parceria com Noel Rosa e o sucesso estrondoso daquela que seria considerada um hino do carnaval carioca: O teu cabelo não nega.

“Linda morena, morena, morena que me faz penar / A lua cheia, que tanto brilha / Não brilha tanto quanto o teu olhar”, cantavam os foliões românticos em 1934, ano também da malandrem de Moleque indigesto, da filosofia de A tua vida é um segredo, do recado de Aí, hein?, “pensas que eu não sei / Toma cuidado, pois um dia eu fiz o mesmo e me estrepei” e da versão carnavalizante da História do Brasil, que vai de Peri e Ceci à Ioiô e Iaiá, do guarani ao guaraná. Linda morena é uma marchinha ingênua, alegre, lírica. Fez muito sucesso e com sua popularidade inspirou várias paródias.

Em 1934, Lamartine compôs também Ride palhaço, em parceria com João de Barro e Uma andorinha não faz verão. Em 35 , Grau dez, em parceria com Ari Barroso e Rasguei a minha fantasia. Esta e Ride palhaço têm um tom melancólico, triste .

Em 36, foi a vez da Marchinha do grande galo, em parceria com Paulo Barbosa, maior sucesso de carnaval daquele ano.


Mas em 1937 a grande vitoriosa do carnaval não foi uma marchinha de Lalá, foi Mamãe eu quero, de Vicente Paiva e Jararaca. Lamartine já não estava mais no centro da festa, nem a festa era a mesma, pois o espírito carnavalesco parecia se eclipsar diante do terror do fascismo, que se espalhara pela Europa e que já era sentido no Brasil: no final deste ano seria implantada a ditadura do Estado Novo. Ao mesmo tempo, a disputa carnavalesca perdia seu aspecto lúdico e gozador e ia se tornando uma competição sob a batuta não do talento mas do capitalismo: o dinheiro entra em cena para garantir a divulgação e execução das músicas, ao invés do talento, do humor. O espírito do carnaval vai perdendo sua beleza... Lamartine foi se afastando deste cenário, que nada tinha a ver com ele. Retraiu-se. Vez por outra, compunha alguma marchinha, mas só esporadicamente. Numa entrevista, ele disse: “Eu me achava um colosso. Mas um dia, olhando-me no espelho, vi que não tinha colo, só osso.” Ainda assim, diante da adversidade, Lalá continuava um gozador, um brilhante fazedor de trocadilhos.

Lamartine era um compositor eclético, desde o início. Fez músicas para festas religiosas, São João e Natal. Em 1933, Mário Reis e Carmem Miranda gravaram em dupla a canção juninaChegou a hora da fogueira.

E Lalá compôs também canções mais langorosas, samba-canção e valsa, as antológicas No Rancho Fundo, Serra da Boa Esperança e Eu sonhei que tu estavas tão linda, canções líricas, brasileiras, ingênuas, o outro lado da face da malícia gostosa e humorística de Lamartine.

Para finalizar, as palavras de um grande amigo de Lamartine, o jornalista e crítico musical Lúcio Rangel:

(Lamartine Babo) “Foi o maior compositor carnavalesco. Não. Foi também um grande compositor de samba e valsa. Falar do homem Lamartine torna-se, com toda razão, muito difícil para mim. Não consigo separar o homem Lamartine, o amigo Lamartine, daquela figura inesquecível que eu encontrava diariamente por aí. Cuidado, Lúcio, não vá derramar prantos pelo nosso Lamartine Babo, o compositor-poeta que é hoje um imortal da música popular brasileira.”

sábado, 22 de junho de 2013

LAMARTINE BABO, 50 ANOS DE SAUDADES

2013 completa-se 50 anos sem o saudoso Lalá, apelido dado ao compositor Lamartine Babo, autor dos principais hinos dos clubes de futebol do Rio de Janeiro e autor de diversas marchinhas carnavalescas.

Por Bruno Negromonte



Dos doze irmãos, foi um dos três únicos que chegaram a vida adulta e mesmo sem o menor conhecimento musical foi capaz de criar melodias maravilhosas ainda na adolescência como por exemplo a valsa “Torturas do Amor”, composta por ele aos 14 anos.

Sua primeira marchinha gravada, foi a divertida “Os Calças-Largas”, um deboche de Lamartine sobre rapazes que usavam calças boca-de-sino. Em 1937, com a implementação da censura advinda com o Estado Novo de Getúlio Vargas, as sátira foram proibidas e a partir daí as marchinhas não foram mais as mesmas. Porém é válido lembrar que além das marchinhas carnavalescas, o versátil Lamartine, foi capaz da proeza de, em 1949, compor os hinos (não-oficiais) de todos os 11 participantes do campeonato carioca daquele ano. Patrocinado pelo programa radiofônico “Trem da alegria”, todos os hinos compostos acabaram sendo lançados em 78 rotações. Uma curiosidade sobre a composição desses hinos é que em apenas um dia “Lalá” compôs os famosos hinos dos considerados seis maiores e mais tradicionais times de futebol do Rio de Janeiro – sendo o primeiríssimo em seu coração o América F.C., além de Vasco da Gama, Fluminense, Flamengo, Botafogo e Bangu.

Algumas estórias engraçadas fazem parte da biografia do compositor mostrando o quanto Lamartine Babo era um cara despojado e irreverente. Uma dessas irreverentes estórias aconteceu no dia em que foi enviar um telegrama, e ao chegar ao no local  o telegrafista bateu o lápis na mesa em morse para seu colega: “Magro, feio e de voz fina”. Lalá tirou o seu lápis e bateu: “Magro, feio, de voz fina e ex-telegrafista”.

Outra passagem interessante foi durante uma entrevista na década de 50 quando declarou: “Eu me achava um colosso. Mas, um dia, olhando-me no espelho, vi que não tenho colo, só tenho osso”. Ainda sobre sua magreza costumava dizer: “Eu era tão magro que não dava fotografias às minhas fãs, dava radiografias” e todas as vezes que alguém o repreendia pela vida desregrada o mandando cair em si, ele costumava dizer: “Amigo, eu sou tão magro que se eu cair em si, eu ainda caio fora”.

Há várias outras passagens interessantes na biografia deste que foi sem dúvida um dos maiores compositores de sua época e que hoje o relembramos com muita saudade. Fatos como o que ocorreu quando ele ainda trabalhava na Companhia Internacional de Seguros. Neste emprego ele passou pouco tempo, pois logo foi despedido quando o seu patrão o viu batucando numa mesa, em horário de trabalho, e mordendo a língua, cacoete que fazia quando estava compondo.

Muitos dizem que Lalá especializou-se em copidescar canções mal feitas e mal arranjadas, transformando-as em grandes sucessos. Dizem que foi o caso de canções como “No Rancho Fundo” e “Uma Andorinha Não Faz Verão”. Outra composição polêmica é um dos seus maiores sucessos: “O Teu Cabelo Não Nega”. Dizem que escrita pelos irmãos pernambucanos João e Raul Valença, Lalá alterou a letra e alguns arranjos, além de criar a introdução instrumental da obra.

Sim! Não posso esquecer de lembrar também que Lalá foi tio de Oswaldo Sargentelli, o dono da casa de espetáculos “Sambão” em Copacabana. Sargentelli tornou-se conhecido nacionalmente quando teve a sua imagem associada as inúmeras mulatas que passaram em espetáculos organizados por ele.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O HOMEM QUE INVENTOU A MARCHINHA

Lamartine Babo foi, de longe, o maior, o melhor e mais reverenciado compositor de música carnavalesca de todos os tempos

Por Marcelo Xavier


Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1931,nove horas da noite. Músicos e cantores tropeçam entre si, todos apertados dentro do estúdio da RCA Victor. O diretor musical havia marcado a gravação de dois discos. Na ordem, gravariam primeiro Carmen Miranda e Murilo Caldas. O acompanhamento seria feito pelo grupo da Guarda Velha, sob a batuta de Pixinguinha. Todos tomam seus lugares diante do microfone. Em dupla, Carmen e Murilo gravam “Isola, Isola” e, sozinho com a Guarda Velha, Murilo Caldas interpreta “Doquinha”, de André Filho. Após breve pausa, o diretor combina com a Pequena Notável e Caldas a gravação seguinte, que seria interpretada por Castro Barbosa — famoso por ter voz parecida com a de Francisco Alves e por fazer dupla com Jonjoca naquela época. Nesta gravação eles deveriam entrar no coro, juntamente com o compositor, um rapaz magro, feio e engraçado, além de mais três cantores de estúdio, que estavam no local.

Músicos e cantores se posicionam na frente do captador (um cone parecido com o do gramofone, porém maior, para captar todo o som ambiente). Como a gravação era registrada toda ao vivo, sem edição, num acetato em cera, nada poderia sair errado. A função do diretor, por sua vez, era evidenciar as vozes na frente do cone e colocar instrumentos de sopro no fundo do estúdio, para não se sobreporem aos vocais. Cantores na frente, orquestra atrás, o diretor dá o sinal para a técnica, que acena para um atento Pixinginha, que levanta os braços e dá a introdução que o autor havia concebido para “O Teu Cabelo Não Nega”, cuja fanfarra foi criada pelo próprio maestro. Castro Barbosa, com sua voz característica, junto com o coro, entoa, pela primeira vez:

O teu cabelo
Não nega, mulata,
Porque és mulata na cor
Mas como a cor
Não pega, mulata,
Mulata eu quero o teu amor...


Assim nasceu o maior sucesso carnavalesco de todos os tempos, e uma das dez gravações mais importantes de todos os tempos, na história da música popular brasileira. O disco seria lançado no suplemento de janeiro de 1932 da RCA, e se tornaria desde então tema característico das festas de Momo em terras brasileiras. Porém, esta seria apenas uma gota dentro do oceano musical daquele que seria imortalizado pelo inventor da marchinha carnavalesca, o carioca Lamartine Babo (1904-1963).

Contudo, Lamartine levou anos para fazer sucesso da noite para o dia. Nasceu em um ambiente musical, mas teve que sustentar a família na juventude, após a morte do pai, em 1917. Foi office-boy da Light e da Companhia Internacional de Seguros. Sua facilidade em fazer versos e seu desregrado bom-humor lhe abriram as portas da revista Dom Quixote, onde colaborava com poemas e sátiras aos costumes da época. Em 1924, largou o trabalho e descobriu o teatro musicado, que então vivia o seu auge, com paródias e quadros carnavalescos. Em um ano, já era um assíduo colaborador das chamadas revistas musicais.

Mas não seria o teatro de revista o seu caminho. Eduardo Souto, proprietário da Casa Carlos Gomes, financiava batalhas de confetes que antecediam o Carnaval, divulgando assim suas músicas. Entusiasmado, Lamartine quis compor também. A partir de então, criou temas para os ranchos carnavalescos da época, entre eles o Ameno Resedá (exato, aquele mesmo, da música do Ernesto Nazaré). Em 1927, encontramos Lamartine no bloco do Careca, que era tricampeão dos carnavais de 1920, 22 e 24. Ali, ele criou seu primeiro êxito carnavalesco, Os Calças-Largas, que seria a coqueluche do Carnaval de 1928.

As coisas só mudariam na década de 30. Agora o cinema era falado e a música migrou para o espaço das emissoras de rádio, que se expandiam de forma vertiginosa. Não era mais preciso divulgar blocos para lançar música, como os pregoeiros do começo do século, ou vender partitura de porta em porta. A coisa toda nascia com a divulgação de discos. Mais do que isso, havia também a revolução do rádio, que era capaz de criar conceitos e mudar opiniões. O sucesso nascia nos estúdios, e ganhava as ruas numa progressão fulminante. Aqui, cantores e compositores se tornavam notórios da noite para o dia, de uma forma nunca vista até então. A música carnavalesca mantinha um padrão, e compositores que estavam habituados a lançar canções nessa época do ano, desde os tempos do “Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, agora descobriam o imenso filão.

Antes de “O Teu Cabelo Não Nega”, Lamartine Babo já havia ganhado um concurso da revista O Cruzeiro com a marcha “Bota o Feijão No Fogo”. Em 1931, ganhou outro certame, desta vez, promovido pela Casa Edson (a antiga EMI), com “Bonde Errado” e fez sucesso com “Lua Cor-de-Prata”, “Minha Cabrocha” e “O Barbado foi-se”. A partir de 1932, Lamartine orientava o Carnaval com a citada “O Teu Cabelo Não Nega”, “Só Dando Com Uma Pedra Nela” e AEIOU, em parceria com Noel Rosa:

A-E-I-O-U
Dabliú
Dabliú
Na Cartilha da Juju
Juju

Mas a verdade é que o compositor carioca teve que repartir a taça com “O Teu Cabelo Não Nega”. Na verdade, se tratava de uma composição original dos irmãos Valença. Eles eram pernambucanos,e haviam enviado a canção para a Victor, com o nome de “Mulata”. Lamartine apenas adaptou a cantiga regional, deu-lhe a introdução, mudou-lhe o ritmo, e não teve responsabilidade quando o selo dizia “motivo do norte, adaptado por L. Babo”. Os compositores ganharam a questão na Justiça e, desde então, aparecem com seus nomes mencionados ao lado de Lamartine...

Com o tempo, Lamartine Babo se transformava em motivo de expectativa. Quando o Carnaval ia chegar, todos se entreolhavam em bares, cafés, gravadoras e rádios: que será que ele vai apresentar este ano? As respostas eram várias, mudavam no título e no tema, mas eram sempre os mesmos com relação ao acolhimento do público. Por exemplo, em 1933, os foliões cantavam e gritavam:

Linda Morena
Morena
Morena que me faz penar
A lua cheia
Que tanto brilha
Não brilha tanto como o teu olhar

Ou então:

A tua vida
É um segredo
É um romance
E tem enredo!

Lamartine tinha já os seus intérpretes característicos, como a jovem Carmen Miranda, que quanto mais desafinava, mais engraçada deixava a música, e Mário Reis, que ia na contramão dos cantores de dó maior e fazia arrelia com as letras picarescas do compositor. Muitas vezes, dividia o microfone com o próprio Lamartine Babo que, assim como Noel Rosa, tinha um fiapo de voz mas era capaz de compensar com uma interpretação hilária e bastante sua, tanto em gravações próprias ou em companhia de Mário ou Carmen, como em “Moleque Indigesto”:

Esse moleque
É bom rapaz
Tem um defeito
Come demais
Como, come, não deixa resto
Oh, que moleque indigesto!

No mesmo ano, Lamartine aparecia com “Aí, Hein?”

Pensas que eu não sei?
Toma cuidado
Pois um dia
Eu fiz o mesmo
E me estrepei!

Em parceria com Paulo Valença, ele fazia todo mundo rir com “Boa Bola”

Queria bordar teu nome
Na própria gola da camisola
Ao som da Traviata
Numa vitrola
Que boa bola!

Em 1934, fazendo troça com a ópera “Paliacci”, de Leoncavallo, fez a marchinha “Ride Palhaço”, na dupla Mário Reis-Francisco Alves:

Ride, palhaço, lá, lá, lá, lá, lá, lá!
Ah, ah, ah, ah!
Eu sou
O teu pierrô
Colombina
Colombina
Reparte esse amor
Metade pra mim
Metade pro teu arlequim!

Com Ari Barroso, fez “Grau Dez”

A vitória de ser tua, tua, tua
Moreninha prosa
Lá no Céu a própria Lua, Lua, Lua
Não é mais formosa
Rainha da cabeça aos pés
Morena, eu te dou grau dez!

Em contraste, Lamartine quis mostrar o lado melancólico e efêmero do Carnaval, em “Rasguei a Minha Fantasia”, interpretada por Mário Reis:

Rasguei a minha fantasia
O meu palhaço
Cheio de laço e balão
Rasguei a minha fantasia
Guardei os guizos no meu coração

“TUDO CHEIRA A CARNAVAL ” — Em 1935, a coisa não estava muito boa. Sem promoção e sem dinheiro, Lamartine conseguiu um polpudo financiamento de uma fábrica de sabonetes. A forma de fazer propaganda sem ferir as regras da arte foi vender o produto de forma subliminar. Assim nasceu “Senhorita Carnaval”, cuja fanfarra de abertura se tornaria característica nos bailes, a partir de então. O refrão era todo feito em superlativos, e cantada, com todo o acinte, pelo próprio Lamartine, para chorar de rir:

Carioquíssima!
Animadíssima!
Renovadíssima!
Nacionalíssima!
Amabilíssima!
Valiosíssima!
Assanhadíssima!
Luxuosíssima! Há!

Oh, que dama divinal,
Ela se chama senhorita Carnaval!

O sabonete se chamava Carnaval, e cada letra inicial dos superlativos, se somada, uma a uma, dá exatamente “Carnaval”. Talvez tenha sido a primeira propaganda subliminar na história...

Em 1936, Lamartine aparecia com “Marchinha do Grande Galo”

Cocococococoricó
Cocococococoricó
O galo
Tem saudades
Da galinha Carijó

Prolífico, ele fazia paródia com o nonsense e o lúdico da poesia modernista em “AB Surdo”. Na marchinha, completamente sem sentido, o compositor dizia:

Nasci na praia do Zumbi 86
Vai fazer um mês
Vai fazer um mês
Que a minha tia me emprestou Cinco mil Réis
Pra comprar pastéis
Pra comprar pastéis
É futurismo, menina, É futurismo
Isso não é marcha,
Nem aqui, nem lá na China

Noutra feita, Lamartine fez uma versão bem sua para o conhecido tango Yira Yira, de Enrique Discépolo, que passou a se chamar “A Família Orangotango”. O refrão ficou mais ou menos assim:

Um rapagão de traquejo,
Queijo! Queijo!

Lamartine Babo ia além, a cada Carnaval. As marchinhas se acumulavam, muitas delas reapareciam com mais intensidade a cada festa de Momo, outras já nasciam clássicas, e caiam na boca do povo. Muitas restariam na memória, outras, porém, são lembradas por poucos.“Vou cantar a noite inteira/Rancheira/ Vou dançar pela fonética/Estética” (“Babo...seira”); “Só danço valsa nos salões/Tango com bandoneões/Yo me rompo todo assim/ Arlequim, arlequim (De...cadência de pierrô”); “Teus braços/Meu bem/Com tanto sinal/Fazem lembrar a Central/ E lá na Central/Tem teu namorado, menina/ Fugiu com a Leopoldina”.

No Carnaval de 1934, nasceu da impagável pena de Lamartine a sua versão da “História do Brasil” e que, como sempre, era uma janela aberta a prospecções filosóficas sobre o pensamento antropológico do brasileiro sem-culotes que, como dizia aquela epígrafe de um conhecido jornal carioca, questionava que não queria saber quem descobriu o Brasil mas, sim, “quem põe água no leite”. Nesse sentido, e mais tropicalista do que nunca, “Lalá” entendia que Cabral descobriu o Brasil dois meses “depois do Carnaval”. Nada mais sugestivo. De qualquer maneira, tudo começa depois da festa. Inclusive, segundo consta, essa marchinha também fez muito galego sambar lá na terra de Camões:

Quem foi que
inventou o Brasil?
Foi seu Cabral
Foi seu Cabral!
No dia 21 de abril
Dois meses depois
Do Carnaval!

Depois
Ceci amou Peri
Peri beijou Ceci
Ao som
Ao som do Guarani...
Em 1936, a vencedora foi “Mamãe eu Quero”, de Vicente Paiva e Jararaca. No ano seguinte, a ameaça do fascismo e a ditadura do Estado Novo enfraqueceram o espírito carnavalesco, que sempre foi crítico, cáustico e irreverente. Os tempos estavam mudando. Por outro lado, a disputa se tornara desleal, com o advento do “jabá” e a censura do recém-instituído Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A folia estava perdendo para a censura. O destino de Lamartine foi o rádio, onde trabalhou em programas de humor até 1955, com a morte de seu grande amigo, Héber de Bôscoli.

Claro que, durante todo esse tempo, Lamartine não seria apenas um compositor carnavalesco: fez sucesso com pérolas como a lírica “Serra da Boa Esperança” (que foi grande sucesso cna voz de Francisco Alves), a inesquecível “Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda”, a junina “Chegou a Hora da Fogueira” e a antológica “No Rancho Fundo”, em parceria com Ari Barroso. Mesmo com a qualidade das suas composições de “meio da ano”, Lamartine ficou conhecido pelo seu lado folião. Também se tornou conhecido por ser o autor de quase todos os hinos de times do futebol carioca, entre eles, o do Flamengo, do Fluminense e do seu time do coração, o América.

RESSURREIÇÃO — O seu ostracismo foi inversamente proporcional à profissionalização do Carnaval. Lamartine não podia competir com a crescente indústria da folia, que era capaz de eleger sucessos em detrimento da saudável competição dos tempos da Era do Rádio. Agora, por mais perfeitas que fossem as canções, elas não estavam livres do trabalho de caitituagem, que sempre impediu a divulgação de autores não comprometidos com a indústria carnavalesca ou acostumados com os fins e os meios dos meios de comunicação. Definitivamente afastado das festas de Momo, Lamartine virou membro da União Brasileira dos Compositores (UBC). Voltou em 1959, com uma criação especialmente composta para um rancho carnavalesco. Nostálgico, viria às cargas dois anos depois, com “Ressurreição dos Velhos Carnavais”, que se caracteriza pelo tocante saudosismo de seu poeta: “vem arlequim, que a tua sina/ Era adorar a Colombina/Dos carnavais que não voltam mais”.

Em 1963, o produtor musical Carlos Machado montava um espetáculo no Copacabana Palace com as marchinhas de Lamartine Babo. O compositor chegou a assistir aos ensaios. Estava frustrado porque sua última canção, “Seja lá o que Deus Quiser”, foi abafado pelo jabá das escolas de samba. Agora ele tinha um show completamente seu, em sua homenagem. Ao assistir aos primeiros ensaios, Lamartine se comoveu profundamente. Reviver daquela forma seus velhos sucessos foi demais para ele. Lamartine recém havia se recuperado de um enfarte, em fevereiro daquele ano. Faleceu dia 16 de junho daquele mesmo ano. Um mês depois, as portas do “Copa” exibiam cartazes anunciando o grande show “O Teu Cabelo Não Nega”, que se tornou numa justa homenagem (póstuma) ao homem que inventou a marchinha.

E, neste Carnaval, foliões e orquestras certamente irão relembrar a alegria da música de Lamartine Babo.

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