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domingo, 30 de junho de 2019

OS BASTIDORES DE "CHEGA DE SAUDADE", CLÁSSICO DE JOÃO GILBERTO QUE COMPLETA 60 ANOS... – PARTE 05

Lançado no dia 8 de março de 1959, o álbum começou a ganhar vida três anos antes no sítio da família de Tom Jobim, em Poço Fundo, na região serrana do Rio

Por André Bernardo



'É apenas um sujeito excêntrico e original'

Roberto Menescal é dos muitos amigos de longa data que, há anos, não tem notícias de João Gilberto. "Recluso ele sempre foi. Mas, nos últimos anos, chegou ao máximo da reclusão", lamenta.

Cravo Albin é outro que, para não soar invasivo, desistiu de procurar o amigo. "Há uns cinco anos, liguei para o João. Ele atendeu, mas disse que não estava. Respeitei. Dias depois, a pedido do Otávio Terceiro, seu antigo empresário, voltei a ligar. Ele atendeu de novo e disse que o João não estava. Pô, a voz do João é inconfundível!", resigna-se o musicólogo, que não sabe explicar o motivo de seu autoexílio voluntário. "Me recuso a dizer que João Gilberto é neurótico ou desequilibrado. Nada disso. É apenas um sujeito excêntrico e original."

Por essas e outras, ninguém cogita a hipótese de João Gilberto, hoje com 87 anos, voltar aos palcos ou aos estúdios.

Seu mais recente show – ou concerto, como ele prefere chamar 0 foi em 2008, por ocasião dos 50 anos da bossa nova. A turnê passou por Rio, Salvador e São Paulo e chegou ao famoso Carnegie Hall, em Nova York (EUA).

Já seu último álbum lançado no Brasil foi "João Gilberto in Tokyo" (Universal Music, 2004). "Devido à saúde fragilizada, acho praticamente impossível", diz Tárik de Souza.

Ruy Castro assina embaixo. E faz uma ressalva: "O que mais lamento é que, nos últimos 30 anos, enquanto ele teve gás para gravar inúmeros discos, isso não foi feito".

"Acho mais possível gravar um disco, talvez em casa mesmo, do que fazer um show", afirma esperançoso Nelson Motta. Cravo Albin vai além. Para ele, errado seria permitir que um homem sempre tão exigente quanto João Gilberto se apresente ao público com a saúde debilitada ou grave material de qualidade duvidosa. "Se, por acaso, algum empresário sugerir um absurdo desses, temos que ser contra! Uma lenda como João Gilberto precisa ser protegida."

sábado, 29 de junho de 2019

OS BASTIDORES DE "CHEGA DE SAUDADE", CLÁSSICO DE JOÃO GILBERTO QUE COMPLETA 60 ANOS... – PARTE 04

Lançado no dia 8 de março de 1959, o álbum começou a ganhar vida três anos antes no sítio da família de Tom Jobim, em Poço Fundo, na região serrana do Rio

Por André Bernardo




'Quase um sussurro ao pé do ouvido'


O jornalista e crítico musical Tárik de Souza explica que não foi fácil a João convencer a todos de sua proposta inovadora. Principalmente os músicos da percussão. "João não queria a estridência da bateria e, reza a lenda, recorreu a um catálogo telefônico para abafar o ressoar das baquetas", diz.

Aos 72 anos, Tárik pode se orgulhar de ter sido um dos poucos jornalistas a conseguir uma exclusiva com João Gilberto. A proeza aconteceu em 1971, no Hotel Glória, para a revista Veja. "Conversamos por mais de quatro horas, sem que ele me deixasse ligar o gravador ou fazer anotações. Dois dias depois, lá estava eu na redação, em São Paulo, redigindo a mais importante entrevista da minha vida", recorda. Do álbum em si, o que mais lhe chama a atenção é a "transparência vocal absolutamente confidente". "Quase um sussurro ao pé do ouvido", define.

Terminada a gravação, João ainda tinha que posar para as lentes de Chico Pereira, o fotógrafo da Odeon. A roupa que ele usa na capa, a propósito, é de Roberto Menescal. "Um dia, o João me pediu uma ou duas camisas emprestadas. Em casa, levou o armário inteiro e eu fiquei só com a roupa do corpo. Nunca mais devolveu", entrega, bem-humorado, o autor de "O Barquinho".

Fora de catálogo desde 1990, "Chega de saudade" só pode ser encontrado em sebos ou sites de compra e venda. No site Mercado Livre, uma cópia pode custar até R$ 900. Em 2014, o engenheiro de som André Dias foi contratado para remasterizar seus três primeiros LPs: "Chega de saudade" (1959), "O amor, o sorriso e a flor" (1960) e "João Gilberto" (1961). A epopeia, calcula, levou cinco meses. Na dúvida sobre o resultado do trabalho, João ouviu uma segunda e terceira opinião: a dos produtores Moogie Canazio e Shigeki Miyata. Os dois aprovaram a remasterização.

Dias não perde a esperança de, um dia, João Gilberto autorizar o relançamento. "Gostaria que isso acontecesse com o João ainda vivo. Queria muito que ele se orgulhasse e visse que foi feita justiça com sua arte. Será a grande realização da minha vida."

sexta-feira, 28 de junho de 2019

OS BASTIDORES DE "CHEGA DE SAUDADE", CLÁSSICO DE JOÃO GILBERTO QUE COMPLETA 60 ANOS... – PARTE 03

Lançado no dia 8 de março de 1959, o álbum começou a ganhar vida três anos antes no sítio da família de Tom Jobim, em Poço Fundo, na região serrana do Rio

Por André Bernardo




'Chet Baker brasileiro'


Dois meses depois do lançamento de Canção do Amor Demais, João Gilberto decidiu, ele mesmo, gravar Chega de Saudade. Mas não foi fácil convencer Aloysio de Oliveira, o todo-poderoso da Odeon, a investir na produção de um LP daquele ilustre desconhecido.

Antes de lançar seu primeiro disco, em março de 1959, João gravou dois compactos de 78 rpm: o primeiro, em julho de 1958, trazia "Chega de saudade" e "Bim Bom", e o segundo, em janeiro de 1959, "Desafinado" e "Hô-bá-lá-lá". Todos os arranjos levaram a assinatura de Tom Jobim.

Quando regressou aos estúdios Odeon, na Cinelândia, para gravar seu LP de estreia, 4 das 12 faixas já estavam prontas. Para finalizar o álbum, gravou "Brigas nunca mais" no dia 23 de janeiro, "Morena Boca de Ouro" no dia 30 de janeiro e "Lobo bobo", "Saudade fez um samba", "Maria Ninguém", "Rosa Morena", "Aos pés da cruz" e "É luxo só" no dia 4 de fevereiro.

"O repertório era superior ao dos maiores cantores da época, como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Anísio Silva", avalia o jornalista e pesquisador Ricardo Cravo Albin. "Em 1959, eu gostava de ouvir jazz e, por essa razão, senti um prazer imediato ao ouvir "Chega de saudade". João Gilberto era uma espécie de Chet Baker brasileiro", compara, em alusão ao cantor e trompetista americano.

As gravações de "Chega de saudade" duraram de 10 de julho de 1958 a 4 de fevereiro de 1959. Ao longo de sete meses, João conseguiu se desentender com todo mundo: técnicos, músicos e até Tom Jobim, o produtor musical do LP. A primeira vítima foi Z. J. Merky, o diretor técnico da gravação, que não entendeu quando João pediu dois microfones: um para a voz e outro para o violão. Exigência atendida, ele passou a interromper a gravação sempre que identificava algum erro da orquestra.

"Numa das incontáveis interrupções, alguns músicos se amotinaram e saíram batendo portas. Quando concordaram em voltar, era o cantor que já não queria gravar", conta Ruy Castro em Chega de Saudade. "Tom Jobim não sabia se tocava piano, se regia a orquestra ou se corria de um lado para o outro, com os panos quentes". Lá pelas tantas, sobrou até para ele. "Você é brasileiro, Tom, você é preguiçoso!", foi obrigado a ouvir.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

OS BASTIDORES DE "CHEGA DE SAUDADE", CLÁSSICO DE JOÃO GILBERTO QUE COMPLETA 60 ANOS... – PARTE 02

Lançado no dia 8 de março de 1959, o álbum começou a ganhar vida três anos antes no sítio da família de Tom Jobim, em Poço Fundo, na região serrana do Rio

Por André Bernardo




'Nunca levei uma surra assim'


Lançado no dia 8 de março de 1959, o álbum "Chega de saudade" começou a ganhar vida no sítio da família de Tom Jobim, em Poço Fundo, na região serrana do Rio. Foi lá que, em 1956, o maestro, então com 27 anos, compôs ao violão uma espécie de samba-canção em três partes. Ao regressar ao Rio, confiou a melodia aos cuidados do poeta Vinícius de Moraes.

O poetinha gostou do que ouviu, "uma música nova, original, tão brasileira quanto choro de Pixinguinha ou samba de Cartola", mas, demorou a escrever a letra. "Nunca levei uma surra assim", admitiu em crônica publicada no jornal "Diário Carioca", em 1965. Quando deu a letra por encerrada, soltou um berro de alegria. Lila, sua mulher, não pareceu tão animada. "Rimar peixinhos com beijinhos, que coisa mais boba", fez pouco caso. No mesmo dia, Vinicius correu para mostrá-la a Tom, que morava na rua Nascimento e Silva, a poucos quarteirões de distância.

João Gilberto não foi o primeiro a gravar a mais recente obra-prima da dupla de Orfeu da Conceição. A cantora Elizeth Cardoso incluiu a música em seu álbum "Canção do amor demais", gravado em abril de 1958 nos estúdios da Columbia, no Rio, e lançado, um mês depois, pelo selo Festa.

João acompanhou Elizeth ao violão em 2 das 13 faixas: "Chega de saudade" e "Outra vez". Mesmo assim, fez questão de participar dos ensaios no apartamento de Tom. "Rolou um mal-estar quando João, um violonista até então desconhecido, tentou ensinar a Divina Elizeth a cantar "Chega de saudade". Queria que ela cantasse como ele cantava. Foi uma audácia", comenta Zuza.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

OS BASTIDORES DE "CHEGA DE SAUDADE", CLÁSSICO DE JOÃO GILBERTO QUE COMPLETA 60 ANOS... – PARTE 01

Lançado no dia 8 de março de 1959, o álbum começou a ganhar vida três anos antes no sítio da família de Tom Jobim, em Poço Fundo, na região serrana do Rio

Por André Bernardo



"Vai minha tristeza / E diz a ela / Que sem ela não pode ser...". Sessenta anos depois, a emoção de ouvir pela primeira vez os versos iniciais de "Chega de saudade" continua praticamente indescritível.

O jornalista Zuza Homem de Mello fala em um momento "impactante" e "enlouquecedor". Aos 86 anos, o autor de "João Gilberto" (Publifolha, 2001) seguia rumo ao parque do Ibirapuera quando "Chega de saudade" tocou no rádio da perua Dodge: "Na mesma hora, encostei e fiquei ouvindo aquilo, extasiado. 'Chega de saudade' era uma novidade em todos os sentidos".

Autor de "Chega de saudade" (Companhia das Letras, 1990), Ruy Castro lança mão de uma referência bíblica para ilustrar a sensação dos que ouviram "Chega de saudade" pela primeira vez: "Charlton Heston descendo do Sinai com os 'Dez Mandamentos' debaixo do braço".

Quem também não se esquece da primeira vez em que ouviu o samba-canção composto por Tom Jobim em parceria com Vinicius de Moraes é o jornalista, escritor e letrista Nelson Motta. Foi nas férias de 1958, em São Paulo, num radinho de pilha. Nelson tinha, à época, 14 anos.

"Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido", relata no livro "Noites tropicais" (Objetiva, 2000). "Fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas, quanto mais ouvia, mais gostava". Hoje, aos 74, solta uma risada ao se intitular um "gilbertômano terminal". "'Chega de saudade' é um dos discos mais influentes de nossa história", afirma. "Não houve propriamente uma ruptura. O samba-canção já produzira muitas canções que antecipavam a bossa-nova. Só faltava a batida revolucionária do João".

domingo, 14 de abril de 2019

OS MELANCÓLICOS DIAS FINAIS DO BECO DAS GARRAFAS, JOIA DA NOITE CARIOCA ONDE ELIS ESTREOU NOS PALCOS

Por Vinícius Mendes


Sergio Mendes no Beco das Garrafas em 2017; casas do local atualmente sofrem para atrair público


Faltavam apenas cinco minutos para o início da apresentação da noite do Little Club, no Beco das Garrafas, em Copacabana, mas ainda sobravam lugares na casa. Desde janeiro, a cantora Sanny Alves senta ali no acanhado palco ao lado do violonista Marlon Mouzer às segundas-feiras para o show "Ela é carioca", que percorre do samba-canção aos clássicos da bossa nova. Entre uma música e outra, ela costuma deixar que o público faça pedidos, conta pequenas histórias do lugar e até entra em conversas paralelas com um ou outro cliente.

Naquela segunda, o Little recebia dois casais estrangeiros, um outro casal de Campinas, um grupo de mulheres que, ao contrário dos demais, assistia à apresentação em silêncio, e a reportagem da BBC News Brasil. Quando os dois funcionários da casa falavam com a cozinha, ao lado do palco, o som de suas vozes arrancava caretas da plateia em direção ao balcão. Segundo os proprietários, o estabelecimento comporta até 45 pessoas sentadas, mas é difícil lotar.

No intervalo entre o Réveillon e o Carnaval, os shows ficam mais concorridos por causa do volume de turistas brasileiros no Rio de Janeiro. Depois, com a baixa frequência de cariocas, as duas casas que funcionam ali – o Little Club e o Bottle's Bar – convivem com alguns poucos estrangeiros apaixonados pela música brasileira.

Naquela noite, Mouzer, gripado, fora substituído pelo violonista Humberto Mirabelli, da banda da também carioca Mart'nália. Era a primeira vez dele na casa e, apesar da sólida carreira, parecia nervoso: no final da apresentação, quando um rapaz insistiu que tocasse Aos pés da cruz, do disco de estreia de João Gilberto, de 1958, ele admitiu que não sabia os acordes da canção de cor.

"Era a mesma coisa com a Elis Regina", lembra Paulo Henrique Vieira, que recebe os clientes na entrada das casas.
Palco para estrelas

Entre as várias glórias do Bottle's Bar está a de ter recebido o primeiro show da vida de Elis, em 1963. Seu produtor e ex-marido, Ronaldo Bôscoli, contava que dizia à jovem cantora que ela só receberia seu cachê se, ao final do show, o público do pequeno estabelecimento a aplaudisse de pé. A casa recebeu as apresentações durante todo aquele ano.

Elis, no entanto, é apenas um dos grandes nomes da música brasileira que iniciaram a carreira nas casas do Beco das Garrafas: nos anos 1960 passavam por ali músicos como Sergio Mendes, Jorge Ben e Wilson Simonal, além de produtores como o próprio Bôscoli e Luís Carlos Miele, que escolheram o Little para seus pocket-shows.

Todos eram atraídos pelo passado do pequeno beco sem nome entre os números 21 e 37 da rua Duvivier, em Copacabana, que havia servido de palco para os grandes nomes do samba-canção, como Marisa Gata Mansa, Altemar Dutra, Sylvinha Telles e Claudette Soares, recebido o último show de Dolores Duran, em 1959, e de ter tirado a bossa nova das pequenas reuniões privadas de Ipanema.

Dolores Duran fez seu último show, em 1959, no Bottle's Bar


"O Beco foi um espaço de música ao vivo muito conveniente para o samba-canção que então dominava. Todas as cantoras 'modernas' passaram por ele. As pessoas só pensam no Beco como um ambiente da bossa nova, mas, de 1950 a 1960, ele foi um reduto do samba-canção", diz o jornalista e escritor Ruy Castro, autor de Chega de Saudade (Companhia das Letras, 1990) e A noite do meu bem: A história e as histórias do samba-canção (Companhia das Letras, 2015).

"Aquele espaço era um laboratório musical que elevou o patamar da música brasileira. Enquanto o Bottle's Bar tinha uma vocação para a canção, o Little Club era mais para o improviso. No auge, entre 1957 e 1965, era o centro de produção de samba jazz. Posso citar ao menos 40 discos instrumentais incríveis signatários da estética que foi construída ali", completa o jornalista e DJ Marcelo Pinheiro, do blog Quintessência.

A primeira casa do Beco das Garrafas foi o Little Club, aberta pelo italiano Mario Pautasso em 1953. Dizem os relatos da época que os principais nomes do samba-canção saíam de suas apresentações em diferentes partes do Rio de Janeiro e se encontravam na viela para terminar a noite – convivendo com o risco de uma eventual garrafa jogada pelos moradores dos prédios vizinhos cair na cabeça de alguém.

Ruy Castro diz que a ameaça nunca se materializou, mas serviu para dar o apelido famoso ao local.

Dois anos depois, os irmãos – e garçons – Alberico e Giovanni Campana compraram o estabelecimento de Pautasso (que abriria o restaurante italiano La Trattoria ali perto) e fizeram dele um piano-bar. Eles também começaram as outras duas casas, a Bottle's Bar e a Baccarat, em 1955. "As paredes eram tão finas que quando alguém estava tocando em uma, os músicos da outra precisavam parar", conta o atual proprietário do Little Club, Sérgio de Martino.

Foi nesse intervalo de uma década que o Beco explodiu na cena musical do Rio: foi ali que Armando Pittigliani, produtor da gravadora Philips, descobriu o ainda adolescente Jorge Ben tocando violão, que o grupo Bossa Rio, de Sergio Mendes, estreou nos palcos, e que a segunda geração da bossa nova, como Marcos Valle e Edu Lobo, se encontrava entre uma apresentação e outra. A batida entre o samba e o jazz, vale lembrar, completa 60 anos neste mês.

"Às vezes a gente ficava no beco jogando conversa fora com os grupos que estavam esperando acabar uma apresentação para entrar e tocar", conta Bebeto Castilho, contrabaixista, flautista e saxofonista que compunha o Tamba Trio ao lado de Luiz Eça e Hélcio Milito. "Era o único lugar do Rio de Janeiro onde os músicos podiam chegar e tocar", completa.Direito de imagemARQUIVO PESSOALImage captionJorge Ben, ao lado de músicos (o baterista Dom Um Romão à esq., o baixista Manuel Gusmão e o pianista Dom Salvador à direita) no Bottle's Bar; casa de shows era uma das localizadas em viela do Rio de Janeiro

O Beco, porém, não durou muito tempo: de 1966 em diante, quando a bossa nova já tinha dado lugar à jovem guarda e o pop americano influenciava as composições nacionais, os estabelecimentos fecharam suas portas.

Durante décadas, os outrora perturbados moradores passaram a conviver com os clientes dos shows eróticos do Don Juan, que substituiu o Little Club, e do Baccarat, que manteve suas portas abertas para peças de strip-tease. O Bottle's Bar ficou fechado até meados dos anos 2000.

"Vinha um monte de homem aí atrás de sacanagem. Era melhor quando tinha só música", resmunga Benedito, garçom do boteco Atalaia, do outro lado da rua Duvivier, em frente à viela.

Para Ruy Castro, a culpa da ruína do Beco das Garrafas é de Roberto Carlos e sua turma. "O iê-iê-iê tornou impraticável e matou aquele tipo de música que se fazia no Brasil", sentencia.

Pinheiro adiciona outro elemento para o fim das casas: o golpe militar de 1964. "A música brasileira perdeu a conotação idílica e contemplativa pela necessidade de tornar a canção um veículo de protesto, a chamada música de participação", relembra.
Os retornos do Beco

Em 1998, o empresário Sérgio de Martino, que tinha sido caixa do Little Club nos anos 1970 e depois comprou a propriedade onde já funcionava o Don Juan, na década de 90, tentou trazer a casa de volta à vida: encerrou o contrato com os inquilinos e, com a ajuda do compositor e produtor Durval Ferreira, reabriu o estabelecimento.

O negócio, porém, durou dois anos. Martino guarda até hoje um recorte de jornal em que Luiz Paulo Conde, então candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, prometia revitalizar o Beco. "Ficou na 'garganta'", lamenta.

Em novembro de 2014, Amanda Bravo, produtora e filha de Durval, falecido em 2007, convenceu Martino a tentar outra vez: eles alugaram o imóvel onde funciona hoje apenas o Bottle's Bar (sem divisórias com a antiga Baccarat) e, ao lado do Little Club e de uma livraria especializada inaugurada na esquina, promoveram a volta do Beco nos jornais da cidade.

Para a inauguração, na noite de Réveillon, chamaram a cantora Elza Soares, que só aceitou se apresentar se alguém se responsabilizasse por levá-la ao seu apartamento, na esquina da avenida Atlântica com a rua Santa Clara, antes da meia-noite.

"Faltavam dez minutos para a virada e eu estava no carro com ela, a multidão furiosa batendo na lataria, quando a Elza saiu na janela e gritou: 'Saiam da frente! Preciso voltar para casa'", recorda Martino. Foi o maior público da história recente do Beco.

À época, uma cervejaria topou financiar o empreendimento por dois anos, mas quando o contrato acabou, não quis renovar. Desde então, as casas seguem em funcionamento, mas com os dias contados. "Estou pagando do meu bolso para deixá-las abertas", conta Martino.

Segundo ele, se a frequência continuar baixa, ele será obrigado a fechar as portas do Bottle's e do Little daqui alguns meses. O deficit mensal é de R$ 10 mil. "Tem meses que a coisa anda, mas a gente está resistindo para não fechá-las", admite.

"Não vejo como estabelecimentos como este possam sobreviver sem gente bebendo, daí a decadência deles no mundo todo, inclusive em Londres", lamenta Ruy Castro. "O público do Beco ficou nos anos 1960", concorda Bebeto Castilho.

Para Martino, o problema não é a bebida, mas a falta de conhecimento que a nova geração tem sobre o Beco das Garrafas. A maioria do público é formada por estrangeiros e, quando não, os clientes são os poucos turistas brasileiros que sabem a história do lugar. "Dificilmente a gente vê cariocas aqui", concorda Sanny Alves.

Há quem desconfie que Bob Dylan esteve nas casas, mas há também quem ache que isso é só boato


Para atrair mais gente, além das tentativas de encaixar uma menção em alguma reportagem de jornal ou de fechar pacotes com agências turísticas, há o trabalho incansável de resgatar as pessoas que já passaram pelas casas da famosa viela.

Martino, por exemplo, diz que João Gilberto e Tom Jobim tocaram no Little Club, mas a informação é contestada por Ruy Castro e Marcelo Pinheiro.

"Esses gigantes nunca se apresentaram no Beco", afirma Ruy. "A bossa nova já estava consolidada e a carreira dos dois já era consagrada em âmbito internacional no auge do Beco", concorda Pinheiro.

Bebeto, porém, conta que viu Tom no Bottle's Bar uma única vez, em 1963: ele foi acompanhar um show do Bossa Rio, de Sergio Mendes, porque estava escrevendo os arranjos do álbum Você Ainda Não Ouviu Nada, um dos pilares do samba-jazz. "Ele chegou a tocar naquele dia", revela.

Segundo o contrabaixista do Tamba Trio, o poeta e compositor Vinícius de Moraes também frequentava as noites do Beco.

Martino também desconfia que Bob Dylan esteve nas casas, mas a história é mais uma dentro da disputa pelas presenças ilustres.

"Se Bob Dylan esteve no Beco foi nos anos 1980 ou 1990, no tempo em que só tinha show de sacanagem", ironiza Ruy. "Quando a carreira do Dylan se consolidou no circuito folk dos Estados Unidos, entre 1963 e 1964, ele provavelmente nem saiu dos Estados Unidos, e era a mesma época do auge do Beco. Acho que essa história é um delírio", também desconfia Pinheiro.

Ao final do show daquela segunda-feira, Sanny Alves sentou em uma das mesas vazias postas na viela e acendeu um cigarro. Já era madrugada em Copacabana e, apesar da distância, dava para ouvir um resto de barulho do mar. Quando os poucos clientes acabaram de sair, ela olhou para o alto e, diante das janelas apagadas, comemorou: "Nenhuma garrafa foi jogada hoje".

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

60 ANOS DE BOSSA NOVA

segunda-feira, 30 de julho de 2018

PRIMEIRA GRAVAÇÃO DA BOSSA NOVA COMPLETA 60 ANOS

Em 10 de julho de 1958, João Gilberto imortalizava Chega de saudade e criava um novo marco na música nacional



João Gilberto: criatividade que deflagrou a Bossa Nova (foto: Ari Versiani/ Divulgação)

Julho de 2018. João Gilberto está diante da televisão, assistindo com entusiasmo aos jogos da Copa da Rússia, torcedor entusiasmado de futebol que é. A aposta é de Zuza Homem de Mello, jornalista, pesquisador musical e interlocutor do pai da Bossa Nova há mais de 40 anos. Em julho de 1958, vencido o Mundial da Suécia pela seleção de Pelé, Garrincha e Nilton Santos, o músico baiano teve outra ocupação: no dia 10 daquele mês, exatos 60 anos atrás, ele entrou no estúdio da gravadora Odeon, no centro do Rio, para mudar a música brasileira de maneira indelével com apenas três minutos de som.
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Era a gravação do compacto com Chega de Saudade e Bim Bom - o cultuado marco inicial da Bossa, tratado sobre beleza e acuidade, pela voz e o "violão dissonante" únicos de João, então com 27 anos recém-feitos. O 78 rpm foi lançado pouco depois de Canção do amor demais, de Elizeth Cardoso; este, o primeiro LP a conter a "batida diferente" de João, que tocou em duas faixas (a própria Chega de Saudade e Outra Vez) chamado por um Tom Jobim impressionado com seu "novo samba" (além do compositor das músicas, com Vinicius de Moraes, Tom era o produtor).

Como a bossa, o compacto torna-se sexagenário sem ter desbotado, acredita João Donato, precursor de tudo e todos. "A bossa não envelheceu, vai ser admirada pelo mundo para sempre. É como Debussy, que morreu há cem anos. São só números", diz o compositor, desde fevereiro de 2017 à frente de uma residência artística na Sala Baden Powell, em Copacabana, vertida em Casa da Bossa e com shows de bossa, jazz e MPB de alta qualidade. "Tem sido uma experiência trabalhosa, nesse mundo de teatros se acabando, mas muito prazerosa. Existe espaço para a bossa nova nesse tempo em que faltam ternura, amor e paz. O espaço idealizado por ela segue o ideal".

Zuza Homem de Mello lembra que, na visão de Tom, Desafinado, parceria com Newton Mendonça, é que continha os elementos formadores da bossa, e não a composição com Vinicius de Moraes à qual é comumente atribuída sua certidão de nascimento. "Tom considerava que Chega de Saudade tinha uma estrutura mais de choro que de samba, ao passo que Desafinado, gravada exatamente quatro meses depois, no dia 10 de novembro de 1958, já inova também no aspecto da letra", conta Zuza, autor de Eis aqui os bossa nova (2008) e Copacabana: a trajetória do samba-canção (2017), entre outros livros sobre a música do Brasil.

"Chega de Saudade não tem grande evolução em termos de letra. Foi uma composição feita para o álbum da Elizeth, de canções. Com Desafinado, deu-se o reboliço", relembra. "Havia uma indução a achar que João era desafinado, tanto que ele hesitou a gravar. Era mesmo o que as pessoas sem percepção auditiva pensavam." Sobre o João de hoje, de 87 anos e interditado pela filha, Bebel Gilberto, por problemas de saúde, Zuza não tem dúvidas: "Tenho notícias fidedignas de que ele está muito bem, em ótimo estado físico, cantando e tocando. A gente tem que ficar feliz, ele está fazendo o que gosta".


Sequência

Na segunda leva de gravações de João, junto com Desafinado, ele interpretou Ho-bá-lá-lá, de sua autoria, como Bim Bom. Em janeiro e fevereiro de 1959, registraria Brigas, nunca mais, Lobo bobo, Saudade fez um samba, Maria ninguém, Rosa Morena, Morena boca de ouro, É luxo só e Aos pés da cruz, e estaria completo o seminal Chega de Saudade, LP que traz na capa um João enfadado e na contracapa um Tom derramado. As palavras do compositor-produtor entrariam para a história da Bossa: "Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele".

Espalhado pelo mundo por seus bastiões e remanescentes, Donato, Roberto Menescal, Carlos Lyra e Marcos Valle, e por vozes femininas como Leny Andrade e Paula Morelenbaum, o repertório da bossa nova não está parado no tempo. "Canto canções que gravei nos meus primeiros discos (nos anos 1960), para diferentes plateias e com o mesmo frisson. Não dá nem para nomear. São eternas. Eu as reverencio hoje e daqui a 20 anos", diz Leny, que já levou seu "scat singing" a 55 países.


Memória

A exposição Bossa 60, passo a compasso, que o Espaço Cultural BNDES, no centro do Rio, abre ao público dia 18, cria experiências sonoras para os visitantes viajarem pelas transformações que a bossa trouxe em termos de ritmo, melodia, harmonia e interpretação. Fotos da época, de artistas fundamentais da bossa, como Johnny Alf, Nara Leão e Ronaldo Bôscoli, foram pinçadas dos acervos pessoais de Menescal, Lyra, Bebel Gilberto, Instituto Tom Jobim e outras instituições. A produtora é Valéria Machado Colela e o curador é o crítico musical Tárik de Souza.

"A ideia foi dar um panorama o mais abrangente possível do movimento de 60 anos atrás, que mexeu nas estruturas da MPB, desvelando uma nova forma de tocar, cantar e compor", explica Souza. "No quesito interpretação, há o contraste de gravações de músicas pelos cantores de antes e depois, como Aos pés da cruz, na gravação inicial de Orlando Silva, depois na de seu discípulo João Gilberto, e adiante na versão do jazzista Miles Davis. Trata-se do exemplo de um samba tradicional, que, a partir da ressignificação da interpretação bossa nova, acabou projetando-se no ambiente do jazz."

Para o curador, ainda há muito o que ser dito sobre a bossa. "A bossa já foi espanto e surpresa, moda e declínio. Mas ela tem uma profundidade estética que permite sempre novos mergulhos e alumbramentos. É um movimento estético apto a muitas releituras e apropriações. Tem a maleabilidade de atingir o rap (À procura da batida perfeita, de Marcelo D2) e sensibilizar um proto-punk farpado, como Iggy Pop, que gravou How insensitive, versão de Insensatez, a romântica canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Como cantou recentemente o Caetano Veloso, ‘a bossa nova é f...’".


Fonte: Estadão Conteúdo 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

BOSSA NOVA PERNAMBUCANA, UMA CENA MUSICAL POUCO LEMBRADA

Geraldo Azevedo foi um dos músicos que fizeram a bossa em PE


Por José Teles


Naná Vasconcelos, em 1966


O Recife também teve uma cena de bossa nova, com intérpretes e grupos. Capiba, inicialmente crítico do novo estilo de tocar e cantar samba, flertou com o movimento no álbum Sambas de Capiba, interpretado por Claudionor Germano. É certo que a BN aportou na capital pernambucana quando já enveredara pelo combos de samba jazz e pelas letras engajadas. Marcelo Melo (do Quinteto Violado), Geraldo Azevedo, Naná Vasconcelos, Sebastião Vilanova, Sergio Kyrilos, Zé Gomes e Clóvis Pereira, Paulo Guimarães, Edson Rodrigues, Ademir Araújo, Lizete, Euda, Terezinha Calazans e Jomard Muniz de Britto, que produziu, textos em um dos primeiros (senão o primeiro) livros sobre bossa nova. Esses são alguns dos nomes que atuaram na BN no Recife, esquecida e pouco documentada. Mesmo assim o Jornal do Commercio se propõe a contar um pouco da história deste momento riquíssimo ­ e esquecido ­, da música pernambucana.

Cantar resmungando ou gemendo pode ser uma demonstração nova de estilo, mas não significa muito. Isto vem a propósito de uma exibição de Terezinha Calazans cantando no programa de Alex no domingo último no canal 2. A menina tem a fisionomia parada, como uma imagem do Aleijadinho, e no mais sua voz é um filete d"água fraquinho e suave como um queixume de amor...". A crítica é do jornalista Medeiros Cavalcanti, publicada em 25 de abril de 1963, no Jornal do Commercio. Naquele ano, a bossa nova já havia se espalhado pelo mundo, mas ainda era artigo difícil de engolir para a maioria dos brasileiros, que preferia vozes potentes como a de Nelson Gonçalves.

A "Terezinha", citada por Medeiros Cavalcanti é a cantora Teca Calazans, que desde o início dos anos 70 mora na França e foi uma das pioneiras da BN pernambucana: "A bossa nova chegou tarde no Recife, e acredito que a aceitação do movimento BN na cidade está ligada à maneira de cantar as músicas. Aqui sempre existiu uma tradição importante de seresta, de voz de seresteiros. Acho que isso contribuiu para uma certa reticência do movimento. É engraçado ler que cantar bossa, na época, é igual a cantar desafinado", comenta a Teca, em entrevista por e­mail. Marcelo Melo, Sergio Kyrilos, Sebastião Vila Nova, Lizete Margarida, Zélia Barbosa, Toinho Alves, Luciano Alves, José Gomes, Geraldo Azevedo, Paulo Guimarães, Delmiro Lira, Marcus Vinicius de Andrade e Naná Vasconcelos foram alguns dos nomes destacados na esquecida bossa nova pernambucana:

"Eu fui considerado o melhor baterista de bossa nova do Recife. Tenho até hoje um troféu que ganhei na época", jactava-­se o percussionista Naná Vasconcelos, falecido em março deste ano. No início dos anos 60, ele participou do Quarteto Iansã, que chegou a fazer shows em Portugal, onde gravou acompanhando o cantor Agostinho dos Santos: "Era formado por mim, Lucas, Sérgio Kyrilos e Camilo, um cara que já faleceu. Depois participei do Bossanorte, com Toinho Alves e Marcelo Melo. Fiz vários shows com Teca Calazans, com Zélia Barbosa, que era a nossa Elis Regina", contou Naná.

A Fafire era um dos espaços referidos para musicais de BN, mas eles aconteciam em bares como o Canavial, o TPN, no Teatro de Arena ou na Rádio Jornal do Commercio, num programa apresentado por Washington França, que não apenas tocava os sucessos da BN como levava os bossa­novistas recifenses para cantar ao vivo. A TV Jornal do Commercio manteve por mais de ano o programa Bossa 2, apresentado por José Maria Marques. Quem também teve programa de bossa nova foi Geraldo Azevedo. Mas em Petrolina, onde morava. Chamava­-se Por Falar em Bossa Nova e ia ao ar pela recém­-inaugurada A Voz do São Francisco. Detalhe: ele tinha apenas 16 anos:

"Em Petrolina as novidades não chegavam logo. Comecei a ouvir João Gilberto, atravessado, já no segundo disco, O Amor o Sorriso e a Flor. Quando ouvi Desafinado, aí entronchou tudo", conta Geraldo Azevedo, único dos bossa­novistas pernambucanos que teve o privilégio de conhecer João Gilberto pessoalmente, em pleno auge da BN: "João foi a Juazeiro visitar o pai dele que estava doente. João já tinha lançado LPs, já era famoso, eu com apenas 16 anos, dá para imaginar como fiquei. Um amigo comum, Edésio, me levou para conhecer João Gilberto, uma pessoa muito educada, gentil. Combinamos de tocar violão juntos no dia seguinte. Mas tive azar, o pai dele morreu e o encontro não aconteceu. Conversei com ele anos mais tarde, nos falamos por telefone, mas nunca nos vimos".

O impacto causado na primeira audição de bossa nova não foi privilégio de Geraldo Azevedo, aconteceu também com Teca Calazans: "Eu ouvi João Gilberto pela primeira vez no rádio. Foi um choque! Inesquecível, cantando Lobo Bobo. Eu levei um tempo pra entender o que era aquilo. Fiquei fascinada! Eu estava acompanhada de um colega que não entendeu nada e disse: Que porcaria, esse cara não tem voz, canta desafinado e ganha dinheiro". A reação do violonista Marcelo Melo, do Quinteto Violado, foi até mais além: "Achei muito estranho, porque os acordes não batiam com a tônica. Aqui a gente tocava baião, frevo, música boa, mas quadrada. Quando entrou aquilo, João Gilberto, Carlos Lyra, eu achava um mistério. Foi quando Sérgio Ricardo passou um tempo no Recife e ficamos amigos dele. O cara era do meio bossa­novista no Rio, sabia como se tocavam aquelas músicas e passou as harmonias para a gente. Quem lembro de ter aprendido primeiro foi Sebastião Vilanova, que musicou uma peça chamada Cantochão, dirigida por Benjamim Santos, com músicas que já tinham aquelas harmonias diferentes".

Onipresente na cultura pernambucana há mais de cinco décadas, o escritor Jomard Muniz de Brito não poderia ter ficado fora da bossa nova. Ele é autor de um dos primeiros livros (se não o primeiro) sobre a BN: Do Modernismo à Bossa Nova (lançado pela Civilização Brasileira, com prefácio de Glauber Rocha). "Fiz este livro por influência da minha participação na bossa nova. Ele inclusive está sendo relançado, em São Paulo, pela Ateliê Editorial", diz Jomard Muniz de Brito, para quem a grande figura da BN pernambucana foi Teca Calazans: "Túlio Feliciano (ex­ator e produtor de shows musicais, hoje morando no Rio) dizia que Teca fez uma leitura muito própria da bossa nova, que não tinha nada a ver com o que Nara leão fazia. Mas a parte que me coube nesse minifúndio aconteceu depois do golpe de 64. Fiz direção musical de alguns shows, com o Mora na Filosofia e o Em Tempo de Bossa Nova. Naquele tempo eu era o queridinho das freiras da Fafire e conseguia o auditório para estes shows", lembra Jomard.

Por essa época a bossa nova já não era mais a de bucólicos barquinhos singrando o oceano, nem de longilíneas sílfides inspirando compositores enquanto iam a caminho do mar. Tornara­-se um instrumento de combate à ditadura militar que se instalara no país. "Os shows de 1964, 65, eram politizados, influenciados pela canção de protesto que vinha do Sul: Nara, Edu Lobo, Sergio Ricardo e os shows Opinião e Arena Conta Zumbi. Quando Nara Leão esteve no Recife, ela foi nos visitar, no Grupo Construção, na sede do AIP. Superssimpática, falando de música, de disco, do grupo Opinião e dando a maior força à gente", confirma Teca Calazans.

Jomard Muniz de Brito, que era do grupo Raiz, lembra que essa bossa nova de esquerda começava a incomodar o poder: "No show Mora na Filosofia aconteceu um episódio curioso. O auditório estava superlotado. Quando terminou havia uma equipe filmando as pessoas saindo. Fiquei empolgado com aquilo, imaginando que fosse alguma TV registrando o acontecimento. Depois soubemos que aquele pessoal era do SNI". Se essas filmagens ainda existem, são dos poucos registros da bossa nova pernambucana.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

EMI CONCEDE A JOÃO GILBERTO O DIREITO DE REAVER SEUS CLÁSSICOS DA BOSSA NOVA

Por Fabio Brisolla




O músico João Gilberto está prestes a reaver o controle sobre três discos que definiram a bossa nova. Na última sexta-feira (26), a juíza Simone Dalila Nacif Lopes, da 2ª Vara Civil do Rio, concedeu liminar que obriga a gravadora EMI a entregar ao compositor as "masters" dos LPs "Chega de Saudade", "O Amor, o Sorriso e a Flor" e "João Gilberto", além do compacto vinil "João Gilberto cantando as músicas do filme Orfeu do Carnaval".

No jargão da indústria fonográfica, master é a matriz de um disco que dá origem à produção das cópias autorizadas. Com a decisão, João Gilberto pode ter a chance de relançar seus três clássicos, que deixaram de ser produzidos em 1992, no curso da briga judicial com a EMI.

A juíza determinou que as matrizes sejam entregues pela gravadora até quarta-feira da próxima semana (8 de maio) no escritório do representante do músico na ação, o advogado Flávio Antônio Esteves Galdino. Caso descumpra a determinação, a EMI terá de pagar multa estipulada em R$ 100 mil e haverá uma operação de busca e apreensão do material.

Em sua decisão, Simone Lopes justificou a importância da transferência imediata dos discos para o autor: "é evidente a urgência de viabilizar que João Gilberto, aos 81 anos, possa se debruçar sobre sua obra para atualizá-la, com os recursos tecnológicos contemporâneos e sob seu crivo de qualidade, havendo inegável risco de o artista já não ter condições para tanto, se esperar pelo julgamento final."

A EMI não pode produzir novas cópias e comercializar os discos de João Gilberto sem sua autorização. Por isso, na avaliação da juíza da 2ª Vara Civil, com as matrizes em posse da gravadora "a obra-prima de João Gilberto permanecerá aprisionada, sem que o público, seu verdadeiro destinatário, possa dela usufruir".

Uma coletânea lançada em 1987 pela EMI deu início à disputa judicial. Sem a autorização de João Gilberto, a gravadora reuniu os três LPs em um álbum triplo, batizado como "O Mito", no mercado brasileiro. Nos Estados Unidos, o mesmo álbum foi comercializado como "The Legendary João Gilberto".

Além de não ter participado da concepção deste subproduto de sua obra, o compositor acusou a gravadora de distorcer a sonoridade das músicas originais durante a produção do novo disco. A ordem das faixas também acabou alterada pela EMI.

Em 2011, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu as alterações nas canções remasterizadas e condenou a EMI a indenizar João Gilberto "por violação ao direito moral do autor".

Apesar da decisão favorável do STJ, as matrizes dos álbuns "Chega de Saudade", "O Amor, o Sorriso e a Flor" e "João Gilberto" permaneciam como propriedade da EMI e, portanto, impossibilitadas de voltar ao mercado.

Na véspera do aniversário de 80 anos de João Gilberto, o escritor Ruy Castro lamentou a ausência dos LPs em sua coluna na Folha: "Imagine se os profetas do Aleijadinho estivessem, não expostos no adro da igreja, mas encaixotados e recolhidos a um almoxarife em Congonhas. Ou que, tantos anos depois de estreada, a peça 'Vestido de Noiva', de Nelson Rodrigues, não pudesse mais ser encenada. Ou que o romance 'Grande Sertão: Veredas', de Guimarães Rosa, já consagrado, não fosse mais reimpresso."

Procurada pela Folha de São Paulo, a direção da EMI não se pronunciou sobre o assunto.

Advogado de João Gilberto, Flávio Antônio Esteves Galdino preferiu não conceder entrevista sobre o caso.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

CHEGANDO AO FINAL...

... Estou chegando ao final desse mês de outubro que foi interiamente dedicado a bossa nova em nosso blog. Com a sensação de dever cumprido e a promessa dos 50 discos relacionados ao tema disponibilizados, os 50 anos da bossa nova acho que em minha modesta opinião foi bem lembrada. Passamos por histórias da bossa, curiosidades e discos antológicos dos quais estão sacramentados na música brasileira para a eternidade.
As expectativas foram superadas em números de visitas e a satisfação de poder contribuir para a difusão de um gênero tão importante para a MPB me deixa extremamente lisonjeado. Obrigado a todos e vou deixar uma enquete em nosso blog para saber o quanto se deu a quantidade de downloads dos álbuns. Obrigado a todos e até breve!!

CD 49 - A BOSSA NOVA POR MAYSA (1992)

Faixas:
01 - A Felicidade
02 - Nos E O Mar
03 - Ah Se Eu Pudesse
04 - Samba Triste
05 - Cheiro de Saudade
06 - Fim de Noite
07 - Quem Quiser Encontrar O Amor
08 - Chora Tua Tristeza
09 - A Mesma Rosa Amarela
10 - O Menino Desce O Morro
11 - Carinho E O Amor
12 - Caminhos Cruzados



CD 50 - SUSAN WONG: JUST A LITTLE BOSSA NOVA (2005)

Faixas:
01 - The Look Of Love
02 - Girl From Ipanema
03 - Emotion
04 - And I Love Her
05 - Somewhere Beyond The Sea
06 - All The Way
07 - The Shadow Of Your Smile
08 - Just The Way You Are
09 - Imagine
10 - Desafinado
11 - Get Here
12 - If
13 - Kissing Of Fool

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

BOSSA NOVA NA CHINA

Pequim, China 17/10/2008 08:02 (LUSA)

Pequim, 17 Out (Lusa) - Um quarteto internacional com um nome português, Girassol, interpretou hoje em Pequim a "Garota de Ipanema" e outras canções emblemáticas da música brasileira, celebrando o 50º aniversário da bossa nova.

"Aqui é muito raro ver o sol e, além disso, gosto do som da tradução portuguesa da palavra 'sunflower'. É muito bonito", disse à agência Lusa o mentor do quarteto, o baterista norte-americano Jimmy Biala.

Jimmy Biala, 48 anos, vive desde a Primavera de 2007 em Pequim, onde dá aulas de música.

A celebração dos 50 anos da bossa nova assinalou também a estreia do Girassol, grupo que inclui a vocalista canadiana Camila Nasr, o pianista francês Christophe Lier e o contrabaixista chinês Hu Hao.

O concerto decorreu num conhecido bar de jazz perto do Templo do Sol (Ritan), na zona oriental de Pequim.

"Garota de Ipanema", composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, é a mais famosa canção brasileira de sempre, tendo já sido interpretada por Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Cher, Madonna, entre outros.


AC.

Lusa/Fim


Fonte:http://www.lusa.pt/lusaweb/user/showitemservice=310&listid=NewsList310&listpage=1&docid=8902583


CD 32: CAROL SABOYA - BOSSA NOVA (2003)
Faixas:
01 - Bem vindo ao Rio (overture)(Luiz Avellar)
02 - Pra que chorar (Vinicius de Moraes - Baden Powell)
03 - Nós e o mar (Roberto Menescal - Ronaldo Bôscoli)
04 - Alagoas (Djavan)
05 - Luar (Carol Saboya - Adriano Saboya)
06 - Tristeza de amar (Roberto uiz - Geraldo Vandré)
07 - Eu quero um samba (Haroldo Barbosa - Janet Almeida)
08 - Só tinha de ser com você (Antônio Carlos Jobim - Aloysio de Oliveira)
09 - Colar de flores (Hana no kubikazari)(Fusako Sugawara - Rei Nakanishi - versão Lysias Ênio)
10 - Fim de sonho (João Donato - João Carlos Pádua)
11 - Milagre (Dorival Caymmi)
12 - Amanda (Carol Saboya - Abel Silva)
13 - Olha pro céu (Antônio Carlos Jobim)



CD 33: BIA MESTRINER - BOSSA NOVA (1994)
Faixas:
01 - Chega de Saudade
02 - O Barquinho
03 - Retrato em Branco e Preto
04 - Samba de Uma Nota Só
05 - Meditação
06 - Rio
07 - Samba da Pergunta
08 - A Rã
09 - Inútil Paisagem
10 - Fotografia
11 - Minha Namorada
12 - Caminhos Cruzados
13 - Só Danço Samba

terça-feira, 14 de outubro de 2008

CARNEGIE HALL E BOSSA NOVA

O ritmo brasileiro da bossa nova se apresentou no Carnegie Hall, a mais tradicional sala de concertos de Nova Iorque, para um público de cerca de três mil pessoas, que superlotou a casa com entusiásticos aplausos.

Durante o espetáculo, milhares de xícaras de café foram servidas, numa oportunidade de apresentar o cafezinho preparado à moda brasileira.

Os ingressos já se encontravam esgotados uma semana antes do concerto.

Os brasileiros João Gilberto, Bola Sete, Agostinho dos Santos, Carmem Costa, José Paulo, Luis Bonfá, Carlos Lira, Sérgio Mendes, Antonio Carlos Jobim, Miltinho Bana, C. Feitosa e Roberto Menescal comandaram o espetáculo.

Além dos artistas brasileiros, participaram do show o pianista e compositor argentino Lalo Schifrin com o sexteto de que se valeu para difundir a bossa nova, Stan Getz, amigo de João Gilberto e um de seus mais entusiastas admiradores e grande propagador da bossa nova, e o quarteto de Oscar Castro Neves.

O Itamarati recebeu despachos dos EUA informando que compareceram ao concerto 300 repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e críticos especializados de toda a América do Norte e da imprensa mundial, o que deveria garantir grande repercussão ao show de bossa nova.

A nova música do Brasil

Este novo gênero musical deriva das estruturas típicas do samba em harmonia com o jazz americano.

A mulher do Presidente, Jacqueline Kennedy, a considerou "simplesmente maravilhosa", acentuando que "nunca houve coisa igual por aqui". Ela foi apresentada à bossa nova em um recital do sexteto de Paul Winter, que havia regressado de uma excursão pelo Brasil dois dia antes da apresentação no Carnigie Hall.


CD 26 - BOSSA NOVA AT CARNEGIE HALL(1962)
Faixas:
01 - Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim / Newton Mendonça) with Sergio Mendes e Sexteto
02 - Bossa Nova York (Madri / Paulo) with Carmen Costa, Bola Sete and José Paulo
03 - Zelão (Sergio Ricardo) with Sergio Ricardo
04 - Não Faz Assim (Oscar Castro Neves) with Quarteto de Oscar Castro Neves
05 - Influência do Jazz (Carlos Lyra) with Quarteto de Oscar Castro Neves
06 - Manhã de Carnaval (Luis Bonfá) with Luis Bonfá
07 - Manhã de Carnaval (Luis Bonfá) with Luis Bonfá, Agostinho dos Santos and Quarteto de Oscar Castro Neves
08 - A Felicidade (Tom Jobim) with Luis Bonfá, Agostinho dos Santos and Quarteto de Oscar Castro Neves
09 - Outra Vez (Tom Jobim) with João Gilberto and Milton Banana
10 - Influência do Jazz (Carlos Lyra) with Carlos Lyra and Quarteto de Oscar Castro Neves
11 - Ah Se Eu Pudesse (Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli) with Ana Lucia and Quarteto de Oscar Castro Neves
12 - Bossa Nova Em Nova York (Caetano Zamma) with Caetano Zamma and Quarteto de Oscar Castro Neves
13 - Barquinho (Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli) with Roberto Menescal and Quarteto de Oscar Castro Neves
14 - Amor no Samba (Normando) with Normando and Quarteto de Oscar Castro Neves
15 - Passarinho (Chico Feitosa) with Chico Feitosa and Quarteto de Oscar Castro Neves


CD 27 - MILTON NASCIMENTO E JOBIM TRIO - NOVAS BOSSAS (2008)
Faixas:
01 - Tudo Que Você Podia Ser
02 - Dias Azuis
03 - Cais
04 - O Vento
05 - Tarde
06 - Brigas Nunca Mais
07 - Caminhos Cruzados
08 - Inútil Paisagem
09 - Chega De Saudade
10 - Medo De Amar
11 - Velho Riacho
12 - Esperança Perdida
13 - Samba Do Avião

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

ROBERTO MENESCAL

Em 1956, pressionado pela familia, Menescal teve que "deixar a boa vida" de pesca submarina, violão e milk shake. E veio o conflito natural de todo jovem: a escolha da profissão. Não sabia se, continuando a tradição familiar, faria o vestibular para Arquitetura, se entrava para a Marinha (onde havia muitos "barquinhos" e muito peixe pra pescar), ou continuava a aprender violão com o Edinho, do Trio Irakitan, para desgosto dos pais.

Falsificando a carteira de estudante, começava a invadir os lugares da noite carioca, fascinado pelo Tito Madi e pela Sylvinha Telles.

Fascinado também pelo disco "Julie is her name", onde um tal de Barney Kessel "destroçava" um tremendo violão!

Preocupados, os pais observavam o fanatismo do Menescal, que cursava o último ano do Curso Científico do Colégio Mello e Souza, na Rua Xavier da Silveira.

Ele soube que no Colégio Mallet Soares, na mesma rua, um tal de Carlos Lyra já tocava violão por cifra, quase profissional. Muitos alunos, e até professores, "matavam aula" pra ouvir o violão do Carlos Lyra, que já gravara duas músicas. Sem o conhecimento dos pais, Menescal rapidamente pediu transferência para o Mallet Soares. Queria ficar perto do mestre das harmonias.

Era 1956. Os pais de Menescal, como todos os pais, não aceitavam o violão, de jeito nenhum. Era "instrumento de boêmio irresponsável". E, coitado do Menescal, que não tinha nada de boêmio. Não fumava. Só bebia milk shake. Com a mesada cortada pelos pais preocupados, o nosso Menescal teria que virar-se. Sem dinheiro para o milk shake, propôs ao Carlinhos Lyra abrirem uma Academia de Violão. Mais que depressa, Carlos Lyra aceitou, louco pra se livrar dos desvelos de sua super-mãe.

TOQUINHO TRIBUTO A BOSSA NOVA (CD 01)
Faixas:
01 - Rapaz De Bem
02 - Minha Namorada
03 - Garota De Ipanema
04 - Coisa Mais Linda
05 - Marcha Da Quarta-Feira De Cinzas
06 - Samba Em Prelúdio
07 - Samba Do Avião
08 - EU Sei Que Vou Te Amar
09 - Berimbau
10 - Amor Em Paz
11 - Se É Tarde, Me Perdoa
12 - O Barquinho
13 - Wave
14 - Samba De Verão
15 - Meditação

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

HISTÓRIAS DA BOSSA NOVA

Todo mundo ouvia falar muito de João Gilberto. Diziam que era um cara maluco, que já havia sido internado, vivia de cabelo enorme, barbado e que, como um vampiro, só saía à noite.

Certo dia, chegou à casa do Ronaldo Bôscoli. Não era nada do que diziam as más línguas.

Cabelo cortado, barba feita, sapato engraxado e, claro, um violão debaixo do braço. Tocou um violão fantástico que deixou todo mundo boquiaberto e explicou que tinha brigado com o Tito Madi, não tendo para onde ir. Já era madrugada quando João, convidado pelo Bôscoli, mudou-se para o pequeno quarto-e-sala do Edifício Haiti onde já moravam, além do Bôscoli, Mièle e um empregado chamado Chico. Cinco "artistas" num quarto-e-sala.

Era um sujeito de hábitos muito estranhos. Ficava horas ao telefone, horas no banheiro, para desespero dos outros moradores. Dormia vestido, com uma gravata tapando os olhos. Ficava, como um morto, em decúbito dorsal. Sempre muito limpo, muito asseado.

Havia um sistema para compras de mantimentos para a casa em que todos cooperavam. Só que o João Gilberto só comprava o que gostava: Tangerina!

Ia pra rua de madrugada, passava na feira e comprava quilos de tangerina. Chegava por volta das seis horas e acordava todo mundo, cantando as músicas do dono da casa, Ronaldo Bôscoli. Aprendeu "Lobo Bobo" (que o Bôscoli fez para a Nara) e "Saudade fez um Samba", com acordes magníficos, deslumbrando a todos.

Certo dia disse ao Ronaldo (a quem ele chamava de "Ronga"):

- "Que suéter bonito, Ronga! Vocês cariocas tem bom gosto! Me empresta?".

O coitado do Bôscoli emprestou o lindo suéter que ficou pra sempre com o "cara-de-pau".

Quem quiser ver, compre o primeiro LP que gravou: "Chega de Saudade". O suéter está lá.


CD 21: LEILA PINHEIRO - ISSO É BOSSA NOVA (1994)

Faixas:
01 - Overture: Desafinado / O Pato / Ela É Carioca / Vivo Sonhando / Garota de Ipanema
02 - A Primeira Vez
03 - Discussão
04 - Amor Certinho
05 - Sem Mais Adeus
06 - Caminhos Cruzados
07 - Este Seu Olhar
08 - Folha de Papel
09 - Samba da Pergunta
10 - Por Quem Morreu de Amor
11 - Chega de Saudade
12 - Rapaz de Bem
13 - Sabe Você
14 - Samba do Avião




CD 22: WANDA SÁ E BOSSA TRÊS (2000)

Faixas:
01 - Errinho à toa
02 - Deixa a Nêga Gingar
03 - Casa Forte
04 - Se é tarde me perdoa / Pra machucar meu coração / Palpite Infeliz
05 - Brisa Do Mar
06 - Light My Fire
07 - Pode Ir
08 - Zazueira
09 - Moonlight / Garota de Ipanema
10 - Estrada do Sol / Foi a Noite
11 - Amor Até o Fim
12 - Canção Que Morre No Ar
13 - Zanga, Zangada
14 - Two Kites / Fotografia / Eu Preciso De Você

DICAS DA MUSICARIA

16 - EMÍLIO SANTIAGO - BOSSA NOVA
Faixas:
01 - Corcovado
02 - Insensatez
03 - Doce Viver
04 - Rio
05 - Manhã de Carnaval
06 - A Felicidade
07 - Bateu Pra Trás
08 - Faixa de Cetim
09 - A Volta
10 - Naquela Estação
11 - Aula de Matemática
12 - Chuva
13 - Canto de Ossanha
14 - Garota de Ipanema
15 - Você e Eu
09 -


CD 17: A BOSSA MUITO MODERNA DE JOÃO DONATO E SEU TRIO (1962)
Faixas:
01 - Depois Do Natal
02 - Rio
03 - Bluchanga
04 - Só Danço Samba
05 - Sambongo
06 - O Morro Não Tem Vez
07 - Silk Stop
08 - Outra Vez
09 - Índio Perdido
10 - Nôa... Nôa
11 - Villa Grazia
12 - Sambolero

BOSSAS E BOSSAS

Roberto Menescal

Nós éramos um grupo de jovens que procurava uma identidade musical, pois o que se tocava no Brasil no final dos anos 60, apesar de ser uma música bonita, bem feita, não era em absoluto uma realidade de uma geração mais solta, mais alegre, mais ligada à natureza do que a geração anterior que curtia a noite, as boates, os amores sofridos e cuja música refletia essas situações de seu dia-a-dia.

Ouvíamos e tocávamos sambas-canções que diziam: "Sei que falam de mim, sei que zombam de mim, ó Deus, como sou infeliz", ou "Se eu morresse amanhã de manhã, não faria falta a ninguém", ou "Garçom apague essa luz que eu quero ficar sozinho, garçom me deixe comigo que a mágoa que eu tenho é só minha".

Imaginem nós, com 20 anos de idade, cantando todo esse sofrimento!

Passamos então a criar um outro universo mais leve e mais otimista na maioria das vezes, como: "Era uma vez um lobo mau que resolveu jantar alguém", ou "Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver", ou "Dia de luz, festa de sol, e um barquinho a deslizar no macio azul do mar". Todas essas mensagens vinham acompanhadas de uma música que era uma fusão de tudo que ouvíamos, como samba-canção, samba, bolero, jazz e muito musical norte-americano que passava sempre nos cinemas Metro. Essa fusão de melodias e harmonias veio embalada por uma batida que ficou famosa como "a batida da Bossa Nova" que todo mundo queria aprender, aliás, todo "O Mundo".

Nossa música, que sofreu essas influências que enumerei, viria, pouco mais tarde, a influenciar compositores, músicos e arranjadores do mundo inteiro.

Para mim, música é isso, uma coisa em eterna transformação, mutante e recebendo
influências (boas) de todos os lados, pois se ela tentar se manter totalmente fiel às suas origens, tenderá a se extingüir, dando lugar a outras formas. A Bossa Nova está aí há 50 anos com sua forte personalidade, mas com novas harmonias, melodias mais arrojadas, e até a célebre batida da Bossa Nova hoje tem uma série de variações.

Poucos anos atrás, ou seja, no final do século passado, na Europa e Japão, principalmente, começou um movimento de uma música mais dançante, ligado à Bossa Nova, fazendo uma fusão com a música eletrônica e DJs. Com isto, compositores vários da Bossa, como Joyce, Marcos Valle, Jobim, etc., tiveram suas músicas regravadas e lançadas nessa nova onda, fazendo com que milhões de jovens saíssem dançando e cantando canções compostas há mais de 40 anos, como se fossem feitas para eles hoje em dia. Claro que tem muita coisa ruim sendo feita para aproveitar essa "onda", mas também tem muita coisa legal.

Bebel Gilberto, filha de Miúcha e João Gilberto, fez sucesso mundial com sua Nova Bossa, Marcos Valle e Joyce têm feito shows pelo mundo inteiro com suas Bossas revalorizadas, eu mesmo participei de algumas viagens com o grupo Bossa Cuca Nova fazendo shows em festivais com público de mais de 200 mil pessoas, coisa que a Bossa Nova tradicional nunca poderia ter alcançando com a intimidade de sua música.

Hoje podemos ter uma convivência pacífica entre a Bossa tradicional e a atual e acho isso super benéfico para as duas formas.

Não tínhamos a menor noção de que nossa música, nascida no final dos anos de 1950, continuasse com o vigor que tem hoje, 50 anos depois...

E se a deixarmos caminhar por aí se juntando às boas coisas que forem aparecendo, garanto que ela chegará a mais 50 anos. Quem sabe a gente ainda verá isso acontecer!


Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor, originalmente publicado no Livro-agenda 2008 ― 50 anos de Bossa Nova.


CD14: JOHNNY ALF - RAPAZ DE BEM (1960)
Faixas:
01 - Rapaz De Bem
02 - Escuta
03 - Feitiçaria
04 - Fuga
05 - Tema Sem Palavras
06 - Penso Em Você
07 - O Que É Amar
08 - Fim De Semana Em Eldorado
09 - Que Vou Dizer Eu?
10 - Ilusão À Toa
11 - Tudo Distante De Mim
12 - Vem

CD15: LUIZ EÇA E CORDAS(1964)
Faixas:
01 - A Morte de Um Deus de Sal (Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli)
02 - Imagem (Luis Eça)
03 - Canção da Terra (Edu Lobo / Ruy Guerra)
04 - Tristeza de Nós Dois (Durval Ferreira / Maurício Einhorn / Bebeto)
05 - Velho Pescador (Dori Caymmi / Nelson Motta)
06 - Canção do Encontro (Luis Bonfá)
07 - Chegança (Edu Lobo / Oduvaldo Viana Filho)
08 - Primavera (Carlos Lyra / Vinicius de Moraes)
09 - Consolação (Baden Powell / Vinicius de Moraes)
10 - Saudade (Luis Bonfá / Maria Helena Toledo)
11 - Quase Um Adeus (Luis Eça)
12 - Amando (Dori Caymmi)

CANÇÃO DO AMOR DEMAIS...

Em 1958 era lançado um LP que seria considerado como o marco inicial da Bossa Nova. Canção do Amor Demais, com Elizete Cardoso, tornou-se um disco histórico na música popular brasileira por ter revelado pela primeira vez a batida do violão de João Gilberto. Com 13 canções de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, Canção do Amor Demais (relançado em 1998) está saindo agora pela Biscoito Fino, comemorando os 50 anos da Bossa Nova. Gravado pelo selo Festa, do jornalista Irineu Garcia, dois anos depois da estréia da peça Orfeu da Conceição, que marcou o início da parceria de Tom e Vinicius, Canção do Amor Demais é, segundo o poeta no texto do encarte, ''a maior prova que podemos dar da sinceridade dessa amizade e dessa parceria. A partir dos sambas de Orfeu da Conceição, raras têm sido as vezes em que, de um encontro meu com o maestro, não resulta alguma composição nova, por isso que eu creio ser essa a verdadeira linguagem da nossa relação.(...) E nunca houve entre nós quaisquer reservas no sentido de um tirar o outro de um impasse durante o trabalho. É possível mesmo que tudo isso se deva ao fato de que ele crê na poesia da música e eu creio na música da poesia''. É ainda Vinicius quem explica porque Elizete Cardoso foi convidada para cantar no LP: ''É claro que, por ela interpretado, ele nos acrescenta ainda mais, pois fica sendo a obra conjunta de três grandes amigos; a gente que se quer bem para valer; gente que pode, em qualquer circunstância, contar um com o outro; gente, sobretudo, se danando para estrelismos e vaidades e glórias. Mas a diversidade dos sambas e canções exigia também uma voz particularmente afinada; de timbre popular brasileiro mas podendo respirar acima do puramente popular...E assim foi que a Divina impôs-se como a lua para uma noite de serenata''. Gravado com uma roupagem orquestral altamente sofisticada, como explicou o jornalista Sérgio Augusto no Cancioneiro Jobim (2000), encorpada por instrumentos (trompa, oboé, harpa, fagote, clarone) raramente usados para acompanhar músicas populares, o por vezes camerístico Canção do Amor Demais contou com a participação muito especial - em duas faixas (Chega de Saudade e Outra Vez) - de um baiano chamado João Gilberto, cujo violão não tinha, sem hipérbole, similar, e de quem muito se ouviria falar nos meses, anos e décadas seguintes''. Além de João Gilberto, Tom Jobim escolheu também outros músicos de sua preferência, como o flautista Copinha, os trombonistas Gaúcho e Maciel, a violoncelista Nídia Soledade e o baterista Juca Stockler. No repertório, nove músicas de Tom e Vinicius (Chega de Saudade, Caminho de Pedra, Luciana, Janelas Abertas, Eu não Existo sem Você, Estrada Branca - só com Elizete e Tom ao piano -, Vida Bela, Modinha, Canção do Amor Demais); duas de Tom (As Praias Desertas e Outra Vez) e duas de Vinicius (Serenata do Adeus e Medo de Amar). À exceção de Outra Vez e Eu não Existo sem Você, todas eram inéditas em disco. Anos depois, em Carta ao Tom 74, música composta com Toquinho, Vinicius de Moraes relembraria este momento marcante de sua vida: ''Rua Nascimento Silva 107, você ensinando pra Elizete as canções de Canção do Amor Demais/Lembra que tempo feliz ai que saudade/Ipanema era só felicidade/era como se o amor morresse em paz''.

Faixas:
01 - Chega de Saudade (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
02 - Serenata do Adeus (Vinicius de Moraes)
03 - As Praias Desertas (Tom Jobim)
04 - Caminho de Pedra (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
05 - Luciana (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
06 - Janelas Abertas (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
07 - Eu Não Existo Sem Você (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
08 - Outra Vez (Tom Jobim)
09 - Medo de Amar (Vinicius de Moraes)
10 - Estrada Branca (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
11 - Vida Bela (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
12 - Modinha (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
13 - Canção do Amor Demais (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

HISTÓRIAS DA BOSSA

Quando a Bossa Nova começou a ser descoberta, produzida e respeitada pela imprensa, algumas das mais lindas mulheres de Copacabana começaram a se interessar também pelos seus autores e cantores, que passaram a ser literalmente "cantados". Elas organizavam festas em seus grandes apartamentos e disputavam avidamente a atenção dos galãs.

Tom, Menescal, Bôscoli, Carlinhos e Normando eram os alvos principais. O primeiro era o mais cobiçado, embora casado e super-vigiado por sua mulher - Teresa Hermany.

Consta que quando uma moça apaixonada pelo "bom pinta" debruçava-se no piano, exibia seu generoso decote e dizia languidamente: "-Tom, você me leva em casa?", ele respondia:

"- Um momentinho, vou telefonar pra Teresa".

Mas não resistiu aos encantos da atriz francesa Milene Demongeot.


A GRANDE BOSSA DOS CARIOCAS (1963)
Faixas:
01 - Pra Que Chorar (Baden Powell / Vinicius de Moraes)
02 - Rio (Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli)
03 - Garota de Ipanema (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
04 - Anjinho Bossa Nova (Silvino Júnior / Wilson Tirapelli)
05 - Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim / Newton Mendonça)
06 - Devagar Com a Louça (Haroldo Barbosa / Luis Reis)
07 - Amanhecendo (Roberto Menescal / Luis Fernando Freire)
08 - Samba do Avião (Tom Jobim)
09 - Menina Certinha (Durval Ferreira / Luis Fernando Freire)
10 - O Amor Em Paz (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
11 - Desafinado (Tom Jobim / Newton Mendonça)
12 - Só Danço Samba (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)

DOWNLOAD: http://rapidshare.com/files/90316364/UQT1964_A_Grande_Bossa_dos_Cariocas.rar


STAN GETZ E JOÃO GILBERTO - GETZ & GILBERTO (1963)
Faixas:
01 - The Girl From Ipanema
02 - Doralice
03 - Para Machuchar Meu Coracao
04 - Desafinado (Off Key)
05 - Corcovado (Quiet Nights Of Quiet Stars)
06 - So Danco Samba
07 - O Grande Amor
08 - Vivo Sonhando (Dreamer)

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