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sexta-feira, 10 de abril de 2020

terça-feira, 24 de setembro de 2019

segunda-feira, 8 de julho de 2019

COMO JOÃO GILBERTO REVOLUCIONOU A MÚSICA BRASILEIRA

A BOSSA NOVA FOI JOÃO GILBERTO

Por João Máximo
 
 
 
João Gilberto mudou tudo, sempre para melhor. Lembro-me que, no início, virtuosos do violão tradicional o acusaram de estar transgredindo a batida do samba por eliminar elementos da base rítmica. Mas foi só no início. Logo, todos aprenderam a entender o violão de João e a aceitar também esta mudança como "para melhor". Afinal, não fosse ela, até hoje o samba não seria tocado e ouvido fora do Brasil.

Se o violão foi discutido, o jeito de cantar também. Um dia, João Gilberto deixou o Rio para viver um misterioso exílio pelo Brasil. Cantava à maneira de Orlando Silva e voltou com outra voz, outro timbre, outro estilo. Se houve até quem quebrasse seu disco de estreia alegando que o cantor "desafinava", não durou muito e toda mundo aprendia com ele que não precisava ter garganta e pulmões operísticos para interpretar, e bem, samba e outras bossas.

O mundo nos descobriu quando descobriu João Gilberto. A história é simples. E não começa com Carmen Miranda, a quem se atribui o primeiro passo para a música brasileira acontecer no exterior. Carmen levou sua imagem, sua coreografia, sua baiana, sua personalidade, mas não a nossa música. Era mais conhecida pelo "South American Way" do que por "Bambo do bambu" ou "Mamãe eu quero". Mesmo no tempo dela, o samba, para os de fora, era quase inacessível. Ainda se pensava, como o filme de Walt Disney ensinou, que "Tico-Tico no fubá" era samba. Tudo começa com João.

A música brasileira realmente passou por uma entressafra nos anos 50. Uma geração de ouro havia ficando para trás sem que outra, de igual valor, a substituísse. João fez parte dessa fase de transição. Viveu os últimos anos dos grupos vocais, dos vozeirões, dos crooners seduzidos pelos vibratos. E viveu, mais intensamente, como pensamento e ação, a Bossa Nova. Com esta, o surgimento (ou afirmação) de uma nova geração tão brilhante quanta aquela. Ou mais. E não uma, mas duas gerações, a de Caetano, Gil, Chico, todos tendo como guia estético João e seu violão.

Bossa Nova, palavra mágica. Não foi uma reação ao samba-canção romântico, como querem alguns historiadores. Nem uma letra mais solar para as canções de amor, como dizem outros. Muito menos a adaptação de harmonias jazzísticas à moderna música brasileira, segundo os mais teóricos. A Bossa Nova foi, é e continua sendo João Gilberto.

FILHO DE JOÃO GILBERTO FALA SOBRE A MORTE DO PAI

CORPO DE JOÃO GILBERTO É VELADO NO THEATRO MUNICIPAL DO RIO

Músico morreu aos 88 anos neste sábado. Ele enfrentava problemas de saúde havia alguns anos


Corpo de João Gilberto chegou ao Theatro Municipal do Rio por volta das 7h desta segunda-feira

 
Rio - O corpo de João Gilberto será velado a partir das 9h desta segunda-feira, no Theatro Municipal do Rio, no Centro da cidade. O corpo do músico chegou ao Theatro Municipal por volta das 7h. O velório acontecerá até às 14h e será aberto ao público. O enterro acontecerá no cemitério Parque da Colina, em Niterói, às 16h. 
 
João Gilberto morreu em casa, no Leblon, Zona Sul do Rio, neste sábado. Ele tinha 88 anos e enfrentava alguns problemas de saúde.

O artista, conhecido por sua reclusão e perfeccionismo, cimentou as bases da Bossa Nova com os discos Chega de Saudade (1959), O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961). Chega de Saudade, de autoria de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, é uma das músicas mais famosas tocadas por João Gilberto. O álbum jazz e bossa nova Getz/Gilberto (1964), uma parceria com o saxofonista estadunidense Stan Getz, foi premiado com o Grammy. Ele também fez composições próprias, como Bim-Bom e Oba-la-la.

A última vez em que João Gilberto pisou nos palcos foi em 2008, por ocasião das comemorações dos 50 anos da Bossa Nova. Houve uma expectativa de que ele voltasse aos palcos em novembro de 2011, em uma turnê nacional com o show João Gilberto 80 anos - Uma Vida Bossa Nova. Mas a primeira apresentação que seria realizada na capital paulista foi cancelada por motivos de saúde do músico e a turnê acabou não acontecendo.

O compositor foi visto cantando e tocando violão pela última vez em 2015: ele aparece em vídeos postados na rede social Facebook por Claudia Faissol, mãe de Luisa, filha caçula do cantor. João estava de pijama e tocava e cantava Garota de Ipanema ao lado da filha.

Devido a problemas financeiros e de saúde do cantor, a filha dele Bebel Gilberto conseguiu a interdição do músico no último dia 15 de novembro. O processo corre em segredo de justiça na 5ª Vara de Órfãos e Sucessões do Rio de Janeiro.
 
 

Fonte: O Dia (*Com informações da Agência Brasil )
 
 
 

CANTOR JOÃO GILBERTO SERÁ ENTERRADO EM NITERÓI

Considerado pai da Bossa Nova, João Gilberto morreu aos 88 anos, em casa, no Rio de Janeiro


O velório do músico, aberto ao público, será no foyer do Theatro Municipal, no Centro do Rio


O corpo do cantor João Gilberto será enterrado nesta segunda-feira (8) no cemitério Parque da Colina, em Niterói, em um jazigo da família, às 16h. O velório do músico, aberto ao público, será no foyer do Theatro Municipal, no Centro do Rio, das 9h às 14h.

Pai da Bossa Nova, João Gilberto morreu no sábado, aos 88 anos, no apartamento onde morava, no bairro do Leblon, na zona sul. A causa da morte não foi divulgada. Bebel Gilberto, filha do cantor e compositor, estava em turnê nos Estados Unidos, mas voltou ao Brasil neste domingo para se despedir do pai.

O filho mais velho de João Gilberto, João Marcelo, que mora em Nova Jersey, nos EUA, não virá ao Brasil para o enterro. O advogado de João Marcelo, Gustavo Miranda, informou que ele está renovando o seu visto de permanência no país e, por isso, não poderia se ausentar dos EUA.

"Meu pai morreu. Sua luta foi nobre, ele tentou manter a dignidade à luz da perda da independência. Agradeço minha família por estar aqui por ele", escreveu o filho do cantor, João Marcelo, que mora nos Estados Unidos. Seu estado de saúde teria piorado desde a morte da ex-mulher, Miúcha, em dezembro de 2018, com quem foi casado e teve a filha Bebel. Ele chegou a pesar 40 quilos.
 
 
Fonte: Estadão Conteúdo

domingo, 7 de julho de 2019

O DIA EM QUE JOÃO GILBERTO ENCONTROU O FREVO NO RECIFE


José Teles relembra uma das passagens do cantor e compositor baiano João Gilberto pelo Recife


Por José Teles


Foi em sua primeira vinda ao Recife que ele conheceu os dois cantores de frevo mais populares da capital pernambucana, Claudionor Germano e Expedito Baracho.



João Gilberto, o baiano bossa nova, epíteto que ganhou quando estourou em 1958, com Chega de Saudade, nos primeiros anos de sucesso não se diferenciava de outros cantores da época. Cantava em programas de TV, e fazia apresentações pelo País. Foi em sua primeira vinda ao Recife que ele conheceu os dois cantores de frevo mais populares da capital pernambucana, Claudionor Germano e Expedito Baracho.

Um João Gilberto ainda sem as excentricidades que se tornaram folclóricas. Ele veio ao Recife como vinham todos os cantores de rádios com sucesso nacional, o dele era então Chega de Saudade, de Tom e Vinicius. O baiano se apresentou na TV Jornal, em seguida, acompanhado num programa em que estavam também escalados Claudionor Germano, Expedito Baracho e Osvaldo, que cantava com Os Cancioneiros. João fez mais duas apresentações uma no clube Sargento Wolff, e outra no América, na Estrada do Arraial, para onde foi em companhia dos novos amigos da TV Jornal do Commercio: “No América cantou com a maior barulheira, o pessoal querendo dançar e ele lá com aquela voz bem baixinha. Teve uma hora que eu quase brigo com o publico, pedindo para eles ficarem em silêncio”, contou Expedito Baracho, que acompanhou João Gilberto pela noite, de olho no violão: “Eu pensava, este cabra é meio doido, vai que ele esquece e leva meu violão, e era o único que eu tinha”, continua Baracho, naquele tempo muito bom de copo, tanto que não lembra bem para onde foram depois do Sargento Wolff. 

E Claudionor completa a história da noite com o papa da Bossa Nova:

“A gente foi até o Cabanga, já tarde. Pedimos pra um rapaz abrir o portão, e ficamos lá o resto da noite cantando com João, e bebendo. Sei que a farra acabou a gente em Boa Viagem, o dia claro, eu e João chupando laranja sentados num meio-fio”. O episódio marca o envolvimento maior que Claudionor Germano teve com a bossa nova, além da gravação de A Mesma Rosa Amarela, no disco Sambas de Capiba, como será visto, na segunda parte da biografia, dedicada à sua carreira fonográfica.

JOÃO GILBERTO SERÁ VELADO NO MUNICIPAL DO RIO SEGUNDA-FEIRA (8)


O velório será aberto ao público. Por enquanto, o corpo permanece no Instituto Médico Legal (IML) do Rio



A causa da morte ainda não foi divulgada. João Gilberto morreu por volta das 15h deste sábado, em seu apartamento, no bairro do Leblon, na zona sul da cidade

O corpo do cantor e compositor João Gilberto será velado nesta segunda-feira (8), de 9h às 14h, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O velório será aberto ao público. Por enquanto, o corpo permanece no Instituto Médico Legal (IML) do Rio.

O velório será aberto ao público. Por enquanto, o corpo permanece no Instituto Médico Legal (IML) do Rio. No início desta tarde, a filha do compositor, Bebel Gilberto, chegou ao Rio de Janeiro. Ela estava nos Estados Unidos. Em seu perfil no Instagram, Bebel fez uma homenagem ao pai. “Obrigada pelo último olhar, pela última risada, por ser honesto, por ser um homem totalmente família. Por ter sido o melhor pai que alguém que alguém poderia desejar”, escreveu.


Morte

A causa da morte ainda não foi divulgada. João Gilberto morreu por volta das 15h deste sábado, em seu apartamento, no bairro do Leblon, na zona sul da cidade. Ele estava com 88 anos.
 
 
Fonte: JC Online

"MELHOR DO QUE O SILÊNCIO, SÓ JOÃO." JOÃO GILBERTO JÁ DEIXA SAUDADES

Lenda da música brasileira, o criador da bossa nova morreu no sábado, aos 88 anos.



No dia em que João Gilberto fez 88 anos, 10 de junho de 2019, a nora dele, Adriana Magalhães, partilhou nas redes sociais algumas fotos do músico a brincar com a neta, Sofia. Magro, com a barba por fazer, quase irreconhecível. Mas com um sorriso.

Há muito tempo que não o víamos. As últimas notícias que tínhamos tido dele não eram boas: o pai da bossa nova, que vivia há anos sozinho e fechado em casa, estava falido e debilitado, pelo que os filhos tinham entrado num processo judicial para o considerar incapacitado. Como é que isto pôde acontecer a um génio?, ao músico que com o seu modo de tocar violão e de cantar baixinho mostrou como era bom ser Desafinado. Àquele sobre quem Caetano Veloso disse: "Melhor do que o silêncio, só João."

 
1958: Chega de Saudade

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira nasceu em Juazeiro, na Bahia, a 10 de junho de 1931, e foi nesse estado que começou a sua carreira musical com o grupo Enamorados do Ritmo e depois com os Garotos da Lua. Depois de algumas tentativas frustradas para se lançar a solo, aos 26 anos, no Rio de Janeiro, conheceu o músico Roberto Menescal, que ficou encantando com o seu Bim Bom e o apresentou ao resto da turma. Percebendo o potencial, em 1957, Chico Buarque levou João Gilberto a Ipanema para conhecer António Carlos Jobim e mostrar-lhe a nova batida de violão que tinha inventado: a mão direita tocava acordes e não notas, produzindo harmonia e ritmo ao mesmo tempo. É desse encontro que nasce a bossa nova.

Tudo começou com a canção Chega de Saudade, gravada primeiro por Elizeth Cardoso com João Gilberto ao violão e depois só por ele, já num disco a solo. O momento foi relatado pelo escritor Ruy Castro, numa crónica publicada no DN: "Foi no dia 10 de julho de 1958, no estúdio da então poderosa Odeon, aqui no Rio. João Gilberto postou-se diante de dois microfones - um para a sua voz, outro para o violão - e gravou a que seria a versão definitiva de Chega de Saudade, samba de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, num estilo que alguns meses depois seria chamado de... bossa nova.

"A voz de João Gilberto era um instrumento (...). O homem cantava num andamento e tocava em outro. Na realidade, não parecia cantar - dizia as palavras baixinho", conta Ruy Castro no livro Chega de Saudade.

O jornalista e crítico musical Nelson Motta lembra em Noites Tropicais a primeira vez que ouviu a gravação: "Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo o que eu já tinha ouvido, fiquei chocado sem saber se tinha adorado ou odiado. Mas quanto mais ouvia, mais gostava." Pouco depois já o adorava, sem hesitações: ele era "o criador de uma nova maneira de cantar e tocar, com um mínimo de voz e uma máxima de precisão". Para Nelson Motta - e para muitos outros - a santíssima trindade eram João, Tom e Vinicius.

"A ordem então vigente no mundo determinava que um género musical para vingar tinha que ser dançante", escreve Ruy Castro na obra A Onda Que Se Ergueu no Mar. Ora, como vingaria esta bossa nova se, "por mais gostosa e revolucionária, essa batida - que era samba e ao mesmo tempo 'não era' - não parecia feita para dançar. Ao contrário, pedia concentração e até algum esforço para ser 'entendida'. Quanto à voz do cantor, só faltava exigir que se grudassem as orelhas aos alto-falantes para ser escutada, porque ele cantava baixinho, 'desafinado', de forma relaxante - era quase uma massagem sonora".

E no entanto o sucesso não se fez esperar. Como conta Ruy Castro: "Foi tudo muito rápido: em 1958 o panorama era um, em 1959, outro. De posse da batida, Jobim começou a compor especialmente para ela e, em questão de meses, construiu um repertório capaz de alimentar um caminhão de intérpretes." O segundo disco de João Gilberto, O Amor, o Sorriso e a Flor (1960), inclui temas como Samba de Uma Nota Só, O Pato, Corcovado. Toda a gente tocava aquelas canções, os músicos mais velhos e os músicos mais novos, na rádio, nos bares, na televisão. Foi a loucura da bossa nova durante quatro anos.

Até que "em 1962 ninguém queria mais ouvir, falar e ainda menos cantar bossa nova", explicou Nelson Motta, numa crónica publicada em 2008, celebrando os 50 anos do género. "A nova geração, de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, engendrava a futura MPB, o país fervia com os esquerdistas João Goulart e Leonel Brizola no poder, as forças políticas exacerbavam-se, havia grande agitação nas ruas, a economia soçobrava: não havia mais clima para uma música leve e sofisticada como a bossa nova."
 
 
Do Brasil para o mundo

Entretanto, a batida tinha chegado aos Estados Unidos e, como é óbvio, seduziu imediatamente as gentes do jazz. A partir do concerto no Carnegie Hall, em 1962, e logo em seguida a gravação do LP Getz/Gilberto - que fez de Garota de Ipanema uma coqueluche mundial e revelou Astrud Gilberto, mulher de João desde 1959 e mãe do seu primeiro filho, João Marcelo - João Gilberto tornou-se uma estrela internacional e a bossa nova ganhou novos sotaques.

Em 1965, o disco com Stan Getz esteve nomeado para nove categorias dos prémios Grammy, incluindo melhor álbum do ano. Astrud estava nomeada para as categorias melhor performance vocal feminina de música pop, melhor artista revelação e gravação do ano. Venceu nesta última categoria, com The Girl from Ipanema.

E João? "João era baiano, sua música era brasileiríssima e nela não havia espaço para improvisações. Pelo contrário, exigia uma constante elaboração e lapidação, extremo rigor e precisão na busca da sua simplicidade absoluta", explica Nelson Motta no seu livro. "As harmonias complexas do jazz encontravam no violão de João dissonâncias e sequências semelhantes, seus acordes pareciam ser os mesmos. Só que em lugares diferentes. Estavam onde não deveriam estar e por isso soavam tão bonitos e surpreendentes - e tão naturais. Seu domínio do ritmo e das divisões, seu suingue sincopado, seu fraseado seco e preciso, a sincronicidade entre voz e violão, tudo em João levava ao rigor e à disciplina, ao fundo do Brasil. E ao gênio. Os jazzmen gostavam muito de João, mas ele não ligava muito para jazz. Preferia Dorival Caymmi e Ary Barroso. E adorava Cole Porter."

Astrud ficou em Manhattan. Dividido entre o Brasil, que agora vivia numa ditadura militar, Nova Iorque e o mundo, em constante digressão, João Gilberto casou com Miúcha em 1965 e teve mais uma filha, Bebel. Nesta altura, já era conhecido pelas exigências que fazia quando se apresentava ao vivo e por cancelar ou interromper espetáculos quando não estavam reunidas as condições técnicas que considerava necessárias. "Seus shows são raros e, quando se apresenta, o suspense sobre se vai aparecer ou dar o bolo só se encerra no momento em que entra em palco", contou uma vez Ruy Castro."Muitas vezes é o som que não lhe agrada. Em outras, o organizador do evento desrespeita a sua proibição de vender camisetas com sua estampa na porta do teatro." Também é destas pequenas histórias que se fazem os mitos.

Nas décadas seguintes, João Gilberto atuou em festivais de jazz pela Europa - com passagem, em 1984, pelo Coliseu dos Recreios, em Lisboa - e seguiu com a sua vida e os seus concertos. Quando já ninguém acreditava que ele voltasse a ser notícia, em 2000, gravou João Voz e Violão, coleção de dez temas interpretados e gravados exatamente como ele quis, com a maior simplicidade, só voz, violão e o génio dele. Uma pequena obra-prima. Aos 68 anos, João Gilberto ganhou o prémio Grammy para Melhor Álbum de World Music e depois, aproveitando a vaga de recuperação da bossa nova por vários artistas, até conquistou o Japão.
 
 
A sua casa era o seu mundo

Já nos anos 1960, João Gilberto era como iria ser o resto da vida: "Não ia a festinhas, não dava entrevistas, raramente aparecia na televisão, não gostava de tirar fotografias e jamais ia à praia, que era onde todo o mundo se encontrava. O seu mistério e suas lendas, seu humor e sua inteligência tornavam sua música ainda mais fascinante", conta Nelson Motta. Ruy Castro confirmaria que João Gilberto "sempre foi pálido como gesso, passa décadas sem sair ao sol, ninguém jamais o viu de calção e há dúvida até sobre se sabe nadar".

Mais recentemente, no DN, Ruy Castro contava: "Seja na Bahia, onde nasceu, no Rio, onde se revelou, em Nova Iorque, onde se consagrou, e no Rio de novo, desde 1987, passou mais da metade da vida em solidão. Sempre foi de seu temperamento ficar recolhido em casa, sozinho, de pijama, falando ao telefone, tocando violão ou assistindo a esportes na TV, quase inacessível - há amigos que não o veem há mais de 50 anos. Nunca precisou de sair à rua para ir a bancos, consultar médicos ou almoçar. Aliás, como fazia para comer? O jantar lhe era servido à porta por um restaurante que mandava entregá-lo, e, mesmo assim, essa porta nunca se abria mais do que o suficiente para que passasse a bandeja."

João Gilberto vivia há décadas em reclusão, evitando os fãs e acima de tudo os jornalistas: "Não almoça ou janta fora, não frequenta bares, não vai a shows ou ao cinema e só aparece em casa de alguém com a garantia de que não encontrará estranhos", contou Ruy Castro. João detestava a exposição de tal forma que evitava tocar ao vivo. Como disse Sérgio Sant'Anna, autor do livro O Concerto de João Gilberto: ele "é um cara que se valoriza pelo silêncio, as pouquíssimas apresentações e os discos, muito selecionados. Quer dizer, ele se valoriza também pelo que não faz, os shows que não dá. E quando se dispõe a cantar em público, é um acontecimento que vem com muito peso. O mesmo peso que ele dá a cada nota musical".

Em 2008, o São João, como muitos lhes chamam, celebrou os 50 anos da bossa nova em grande, com atuações no Brasil e em Nova Iorque. Foi a última vez que se apresentou em palco.
 
 
João merecia mais

Em março de 2019, o cantor conseguiu que um tribunal do Rio de Janeiro lhe desse razão na disputa que mantinha com a editora Universal Music sobre os direitos de autor dos seus três primeiros discos. A sentença, unânime, obrigava a empresa a devolver a João os royalties que deixaram de ser pagos desde 1964, além de danos morais. É uma quantia que foi estimada em 173 milhões de reais (mais de 39 milhões de euros), embora provavelmente não seja a última palavra sobre o tema, porque a editora ia recorrer para o Supremo Tribunal Federal (STF).

A disputa refere-se aos direitos autorais de Chega de Saudade (1959), O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961), editados originalmente pela Odeon. Em 1997, quando o caso chegou à justiça, a visada era a EMI, que entretanto foi absorvida pela Universal. No entanto, este era apenas um dos muitos problemas que o músico enfrentava.

Filhos e ex-companheiras de João Gilberto lutavam pelo poder de controlar o patrimônio de João Gilberto. De um lado do conflito estava Cláudia Faissol, ex-companheira do músico (com quem ele teve uma filha, Luísa, nascida em 2004); do outro, os dois filhos mais velhos do compositor, João Marcelo e Bebel. Os filhos acusavam Cláudia​​​​​​​ de administrar de forma incompetente os negócios do artista, função que ela cumpriu durante mais de uma década.

Um dos deslizes ocorreu em 2011: quando completou 80 anos, João Gilberto anunciou que faria espetáculos comemorativos pelo Brasil. Mas os concertos foram cancelados por motivos de saúde e a Justiça ordenou que ele pagasse 1,2 milhões de reais de multa à produção. Outro erro foi cometido, segundo João Marcelo e Bebel, em 2013, com a entrega de 60% dos direitos sobre os quatro primeiros discos do cantor ao banco Opportunity, que assumiu a disputa judicial com a editora. Esta terá sido, segundo Cláudia​​​​​​​, uma maneira de minorar os problemas financeiros de João Gilberto. Mas João Marcelo acusou-a de fazer um negócio por fora com o banco, recebendo 5% a 10% do valor negociado. "Ela é uma criminosa e continua a roubar do meu pai", acusou João Marcelo. "Se as finanças do meu pai não estivessem um circo, ele estaria cheio de dinheiro."

Para tentar resolver a situação do músico, que até foi obrigado a deixar o apartamento por não pagar o aluguer, em novembro de 2017 João Gilberto foi interditado judicialmente pela filha Bebel devido aos muitos problemas financeiros que enfrentava. A interdição do cantor foi pedida porque "João já vem apresentando, há alguns anos, um quadro confusional, que não lhe permite compreender com clareza e exatidão os atos jurídicos que lhe são solicitados por terceiros, resultando numa situação atual de absoluta penúria financeira, apesar de ser titular de direitos autorais que deveriam garantir-lhe mais do que sua subsistência por toda a sua vida", explicou Bebel em comunicado.

Entretanto, os dois irmãos também se desentenderam. "Meu pai foi efetivamente sequestrado e alienado de mim e da minha família direta", disse João Marcelo, acusando Bebel Gilberto de roubar o dinheiro do pai. "Eu não fui informado, aconselhado, consultado ou sequer tinha conhecimento das maquinações legais ou físicas que minha irmã tomou (...) Desculpa, pai, eu não consegui manter os abutres longe de você."

Em abril de 2018, a ex-companheira Miúcha (entretanto falecida) contava à comunicação social: "A situação é difícil, ele é muito fechado, tem 86 anos e algumas questões de saúde. Está muito magrinho. A Bebel está tentando de tudo por ele. Todos queremos que o João se trate. Ele foge de médico como o diabo da cruz. Se a gente marcar, ele desmarca 30 vezes." Mas garantia que a situação não era tão má quanto alguma imprensa queria fazer crer: "Ele está cantando e tocando lindamente. É impressionante, mesmo com a idade."

Aquele que foi considerado pela revista Rolling Stone como o segundo maior artista brasileiro de todos os tempos, apenas atrás do seu companheiro e amigo Tom Jobim, merecia mais nos seus últimos anos de vida. Como disse Nelson Motta: "Não há, dificilmente haverá, artista mais influente na história da música brasileira moderna. Sim, também António​​​​​​​ Carlos Jobim, mas ninguém o influenciou mais do que João Gilberto. Como ninguém cantou António​​​​​​​ melhor do que João." Afinal, disse: "Sem a sua batida de violão não existiria bossa nova, é a sua base e coração."
 
Fonte: Diário de Notícias

ENTERRO DE JOÃO GILBERTO AINDA SEM DECISÃO. BOLSONARO CHAMOU-LHE "PESSOA CONHECIDA"

Corpo do cantor será velado amanhã das 09:00 às 14:00, mas ainda não se sabe se o funeral será em seguida ou mais tarde. A família ainda não decidiu se o cantor será enterrado ou cremado. O presidente Bolsonaro reagiu com um breve comentário: "É uma pessoa conhecida".

Por Ana Mafalda Inácio
 



É no Theatro Municipal do Rio que os brasileiros vão poder despedir-se do pai da Bossa Nova, numa cerimónia pública. O corpo do cantor e compositor vai estar em câmara ardente para ser velado a partir das 09:00 até às 14:00 desta segunda-feira, dia 8, embora não se saiba ainda a hora do funeral. A família ainda não decidiu se vai ser enterrado ou cremado, anuncia a edição digital do jornal Globo.

A filha Bebel Gilberto chegou há poucas horas ao aeroporto Tom Jobim, a cantora encontrava-se em tournée nos EUA, quando recebeu a notícia da morte do pai. Bebel era a filha que estava em conflito com o meio-irmão mais velho, João Marcelo, por ter pedido a interdição do pai em 2017, devido à sua idade avançada e à situação financeira precária em que se encontrava.

João Marcelo era o filho mais velho de João Gilberto, fruto do casamento com a cantora Astrud Gilberto, e não estará presente nas cerimonias fúnebres, anunciou o seu advogado, por se encontrar nos EUA e não poder sair daquele país sob pena de não conseguir voltar a entrar.

Há mais duas filhas, Bebel, que é a do meio, nasceu da relação do cantor com Miúcha, segue-se Luísa, a mais nova, do casamento com Cláudia Faissol.

Atualmente João Gilberto vivia no seu apartamento do Leblon com a sua última mulher, a moçambicana Maria do Céu Harris, de 55 anos, que só hoje ao início da tarde saiu à rua, afirmando, emocionada, não estar em condições para falar.

O cantor morreu no sábado, aos 88 anos, no seu apartamento no Leblon, no Rio de Janeiro. Desde que se soube da notícia que surgem reações de todo o mundo, desde cantores, atores a políticos.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro também o fez, com um breve comentário, que já está a ser criticado nas redes sociais e na comunicação social: "Era uma pessoa conhecida. Meus sentimentos à família, tá ok?".

Só assim. Alguns órgãos de comunicação social acusam o presidente brasileiro de estar alheio ao que se passa no país e à importância do cantor, músico e compositor. "Alheio ao Brasil e o mundo, que neste domingo choram a morte do cantor e compositor João Gilberto, falecido no sábado, o presidente Jair Bolsonaro tem usado seu tempo para tratar de outras prioridades em sua agenda", refere a revista Fórum.

O jornal Folha de São Paulo dá conta das reações à morte do cantor, compositor, violonista, de outros como ele, Caetano Veloso, Gal Costa, Nelson Motta. "Se foi João Gilberto o maior génio da música brasileira. Influência definitiva no meu canto. Fará muita falta mas o seu legado é importantíssimo para o Brasil e para o mundo", escreveu a cantora Gal Costa, no Instagram.

Foi com a palavra "mestre" que a também cantora brasileira Daniela Mercury se referiu a João Gilberto na sua mensagem de despedida.

"Vai minha tristeza e diz a ele que sem ele não pode ser. Um génio que revolucionou para sempre a música popular brasileira. João criou a Bossa Nova e me influenciou imensamente. Um dia ele me disse que eu era de sua família. E sou mesmo. Ele ensinou todos nós a cantar da forma mais bela do mundo. Vá em paz, mestre", declarou a artista.

Num vídeo enviado ao canal televisivo GloboNews, o músico e escritor brasileiro Caetano Veloso, um confesso seguidor de João Gilberto, lamentou a morte do compositor, declarando a sua importância ao longo da sua carreira.

"Acabo de saber que João Gilberto morreu. É um acontecimento de imensa importância para mim. Porque, tudo somado, João Gilberto é, no meu ponto de vista, o maior artista de todos. No momento exato, preciso da minha vida, ele apareceu dando sentido mais profundo à perceção das artes em qualquer estágio.

O Comité do Património da UNESCO considerou também que a morte do cantor brasileiro João Gilberto "é uma perda para o património cultural". Na reunião em Baku, Azerbeijão, em que o Palácio de Mafra e o Santuário do Bom Jesus de Braga foram classificados Património Mundial, Abulfas Garayev, presidente do Comité do Património da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), no início da 43.ª reunião, afirmou: "É uma perda para o património cultural".

RECLUSO, JOÃO GILBERTO PEDIU COMIDA NO MESMO RESTAURANTE POR DÉCADAS; GARÇOM RELATA AMIZADE


Sebastião Alves, o Tioãozinho, conta que considerava ele ‘como um pai’: 'Era uma pessoa muito carinhosa, falava do Vasco'. Criador da bossa nova morreu neste sábado, aos 88 anos.

Por Henrique Coelho, G1 Rio



A notícia da morte de João Gilberto, neste sábado (6), aos 88 anos, abalou um amigo de mais de 40 anos: Sebastião Alves, conhecido como Tiãozinho. À frente do caixa do restaurante Degrau, no Leblon, Tiãozinho fazia questão de deixar o serviço para entregar a refeição no apartamento do músico.

Depois de quatro décadas nesta rotina, entre uma entrega e outra, eles conta que se tornaram amigos – tendo o Vasco da Gama como um assunto recorrente.

“Sempre pedia em casa e sempre pedia a mim. Ele era uma pessoa muito carinhosa, falava do Vasco, a gente é vascaíno", relembra.

“Vou sentir muita falta dele, porque pra mim eu considerava como se fosse meu pai”, disse ao G1, emocionado.
Sebastião lembra que chegou a dizer isso ao músico, logo depois da morte do pai, em janeiro deste ano.

“Eu perdi meu pai no início do ano. E ele, como era muito carinhoso, eu falei: ‘Doutor João, a partir de hoje eu considero o senhor como meu pai, porque o senhor sempre foi uma pessoa carinhosa comigo’. E ele disse: ‘Fico feliz em ouvir isso, de você falar isso para mim’. Porque eu gostava muito dele”, conta.

Aos 67 anos, Tiãozinho lembra que o conheceu "pai da bossa nova" em 1976, quando começou a trabalhar no local.

“Sempre servia ele lá, me atendia muito bem. Eu liguei para lá hoje, e falei com Maria do Céu [portuguesa que vivia na casa com João Gilberto]. Disse que ele estava bem”, contou.

“Ele comia muita carne. O último prato que levei para ele foi filé com arroz e feijão, mas ele adorava um cordeirozinho, com molho e arroz de brócolis”

Ao saber da morte, Tiãozinho foi até o prédio confirmar a notícia. “Queria saber. Perguntei pro porteiro, que confirmou”, lamentou Sebastião.

Restaurante onde João Gilberto costumava pedir comida, a 200 metros de sua casa no Leblon — Foto: Henrique Coelho/G1 Restaurante onde João Gilberto costumava pedir comida, a 200 metros de sua casa no Leblon — Foto: Henrique Coelho/G1

O PRIMEIRO DISCO DE JOÃO GILBERTO COMO CANTOR SOLO


No lado A João Gilberto interpreta o samba-canção QUANDO ELA SAI, de Alberto Jesus e Roberto Penteado. No lado B temos, de Hianto de Almeida e João Luiz, o samba canção MEIA LUZ. 


Por Luciano Hortencio

 

Prestando homenagem ao grande João Gilberto, trago hoje seu primeiro disco como cantor solo, o Copacabana 096, lançado em agosto de 1952.

No lado A João Gilberto interpreta o samba-canção QUANDO ELA SAI, de Alberto Jesus e Roberto Penteado. No lado B temos, de Hianto de Almeida e João Luiz, o samba canção MEIA LUZ.




 Agradeço ao amigo Nirez o envio dos fonogramas e as fotos do disco.

Descanse em paz, João Gilberto.

ARTISTAS, PARENTES E PERSONALIDADES LAMENTAM A MORTE DE JOÃO GILBERTO

Luto pela morte do artista ecoou nas redes sociais na tarde deste sábado (6)



Pai da Bossa Nova tinha 88 anos


O cantor e compositor João Gilberto, um dos criadores da bossa nova, morreu neste sábado, 6, no Rio de Janeiro. A morte foi anunciada por seu filho João Marcelo Gilberto, pelas redes sociais. 
 
 
Repercussão

Artistas, personalidades e familiares do cantor e compositor que revolucionou a música popular brasileira se manifestaram pelas redes. Sofia Gilberto Oliveira, neta do cantor, escreveu: "meu amado vovô virou uma estrelinha, a estrela mais brilhante do céu " Ela ainda acrescentou: "meu vovô foi o vovô mais amoroso e carinhoso que eu podia ter tido, pedia pra eu irá pra lá todos os dias e quando estava tarde da noite e já estava na hora de eu ir embora, depois de eu já ter passado o dia todo com ele, falava: "Mas já vai? Dorme aqui..!" Comia pra ficar forte pra brincar comigo. Me dizia sempre que eu era grande e que todo mundo ia gostar de mim. Foi carinhoso não só comigo, mas com meu pai e minhas irmãs, pedia sempre pra Alice ir comigo e adorava ficar de mãos dadas com ela conversando. Amo ele demais e vai estar sempre no meu coração e na minha vida."

Adriana Magalhães Oliveira, mãe de Sofia, também lamentou a morte de João Gilberto: "Tristeza, tristeza, profunda tristeza. Tudo que ele queria era estar aqui conosco e brincando com sua netinha, nos pedia isso todos os dias, uma coisa muito simples, momentos felizes que foram negados a ele."

A cantora Gal Costa, um dos ícones da MPB, afirmou: "Se foi João Gilberto o maior gênio da música brasileira. Influência definitiva no meu canto. Fará muita falta mas seu legado é importantíssimo para o Brasil e para o mundo."

A também cantora Daniela Mercury escreveu em suas redes sociais: "Vai minha tristeza e diz a ele que sem ele não pode ser", citando Chega de Saudade, um dos clássicos eternizados na voz de João Gilberto. Ela acrescentou ainda: "um gênio que revolucionou para sempre a música popular brasileira. João criou a Bossa Nova e me influenciou imensamente. Um dia ele me disse que eu era de sua família. E sou mesmo. Ele ensinou todos nós a cantar da forma mais bela do mundo. Vá em paz, mestre!"

João Máximo, escritor e jornalista, afirmou em entrevista ao canal de televisão GloboNews: "a bossa nova surge com ele porque ele é um gênio, no violão, principalmente. O João Gilberto sai do Rio de Janeiro cantando de uma maneira, influenciado por Orlando Silva, sai tocando violão aparentemente comum e, quando volta, ele volta com novo violão e nova maneira de cantar que não se sabe ao certo como ele descobriu. Essa nova maneira é que vai levar a música popular brasileira ao exterior. A Carmem Miranda levou a personalidade dela, uma personalidade bizarra, mas a música não foi com ela. Ao contrário do João Gilberto. Ele transforma a música popular brasileira em algo mais digerível para o músico e para o americano. Ele tem essa importância, além de ser um gênio, porque o cara que descobre isso sozinho, trancado no banheiro (é essa história que se conta), é um gênio "

A escritora e roteirista de novelas Glória Perez, afirmou em seu Twitter: "sábado triste: morreu João Gilberto, o pai da bossa nova." O cantor Roger Moreira, da banda Ultraje a Rigor, também externou seu pesar: "morreu João Gilberto. Uma pena."

O crítico musical Rodrigo Faour lamentou: "talvez um dia o Brasil entenda quem foi o João Gilberto. Seja como for, sua semente rendeu árvores, galhos, flores, frutos e novas sementes pelos quatro cantos do mundo nos mais variados estilos musicais. Sua batida diferente, seu jeito de cantar, de dividir, usar o microfone, sua forma de gravar e o perfeccionismo à beira do absurdo... tudo em prol da música mais suave e pura em sua essência. Viva João e sua bossa sempre nova."

Ana de Holanda relembrou diversos episódios e afirmou: "Ele cantava, tocava e fazia a gente cantar. Para mim algumas dicas foram fundamentais para entender o canto, a emissão do som e a intenção do que está sendo dito. Entendi naquela época o quanto cantar - mas cantar direito - é um privilégio."

ÚLTIMOS ANOS DE JOÃO GILBERTO FORAM MARCADOS POR DISPUTAS FAMILIARES

Uma de suas filhas chegou a pedir a interdição do pai em 2017


O cantor não tinha o controle de suas finanças desde 2018


Os últimos anos de vida do cantor e compositor João Gilberto, morto neste sábado, 6, no Rio de Janeiro, foram marcados por disputas entre seus familiares, problemas de saúde e dívidas que chegaram a R$ 9 milhões.

Dois de seus três filhos, João Marcelo e Bebel Gilberto, travaram guerra judicial contra Claudia Faissol, mãe de sua filha mais nova. Na Justiça, Bebel pediu em 2017 a interdição do pai para que ele não fosse induzido a assinar documentos com força legal sem saber o que estava fazendo.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, João Marcelo afirmou, em 2018, que João Gilberto não tinha mais controle de suas finanças: "Ele me pedia há um tempo para descobrir como estão suas finanças, me perguntava com frequência sobre os cheques que sumiam em sua casa, se eu tinha ideia para onde iam. Isso porque se sentia insatisfeito e sem o controle da situação, como sempre gostou de ter. Uma vez, me pediu para telefonar para a Claudia Faissol para eu poder entender algumas coisas que estavam acontecendo, sobre contratos e finanças."

Em 2013, o banco Opportunity comprou 60% dos direitos sobre os quatro primeiros discos do cantor, considerados alguns dos mais importantes da música brasileira. Na época, João Marcelo acusou Claudia de receber por fora algo entre 5% e 10% desse montante.

Em 2017, João Gilberto foi interditado judicialmente por Bebel, que afirmou que seu pai estaria passando por "absoluta penúria financeira". Nesse mesmo ano, o Estado tentou encontrar o músico em sua residência, em um prédio que fica a dois quarteirões da praia, mas nem mesmo os moradores sabiam de sua situação. "Você está aqui procurando o João Gilberto? Desiste! Nunca ouvi nem um violãozinho e moro há 30 anos no prédio", contou uma moradora.


Falecimento

João Gilberto morreu aos 88 anos, recluso e sem ter visto a guerra travada entre seus familiares pacificada.
 
 
 
Fonte: Estadão Conteúdo

JOÃO GILBERTO DEIXOU OBRA E LEGADO QUE ATRAVESSAM A PAISAGEM DA MÚSICA BRASILEIRA

Cantor baiano e criador da bossa nova morreu aos 88 anosPor Carlos André Moreira


João Gilberto em um concerto em São Paulo em 2008, ano de sua última turnê de apresentações


A morte do cantor baiano João Gilberto, aos 88 anos, ocorrida no sábado, não é apenas a morte de um artista, é um ponto final na história do protagonista por excelência da música brasileira em mais de meio século. Ícone da bossa nova, inventor de uma maneira de cantar e tocar violão, influenciador de gerações, desbravador de caminhos para toda a melhor MPB que o sucedeu. Coisas como essas já foram escritas sobre João Gilberto ao longo do fim de semana para dar uma dimensão da grandeza do artista, uma tarefa algo inglória e fadada desde o início à incompletude, já que a maior parte do que se escreveu sobre a MPB da segunda metade do século 20 em diante é um capítulo disfarçado da biografia de João Gilberto.

João nasceu em Juazeiro, na Bahia, em 1931. Estreou em disco em 1959, com Chega de Saudade, que, junto aos álbuns seguintes, O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961), ajudaram a criar, popularizar e internacionalizar a bossa nova.

O impacto de seu modo ciciante de cantar (em contraposição aos cantores de peito aberto como Francisco Alves, Orlando Silva ou Vicente Celestino, que dominaram a pregressa grande Era do Rádio) foi tal que praticamente tudo se reorganizou à sua volta. A maioria seguiu seus passos (como Caetano, Gil, Roberto Menescal e a torcida do Flamengo) enquanto muita coisa se definiu em oposição a ele (como o rock pioneiro de Raul Seixas).

Ao recordar, no livro de memórias Noites Tropicais, a descoberta de João Gilberto pela sua geração na juventude, Nelson Motta fez um elogio entusiasmado (como quase todos os elogios feitos a João Gilberto ao longo dos anos):

“A bossa nova era a trilha sonora que nos faltava, que nos diferenciaria dos ‘quadrados’ e dos antigos, dos românticos e melodramáticos, dos grandiloquentes e dos primitivos, dos nacionalistas e regionalistas, dos americanos. Tínhamos uma música que imaginávamos só para nós. João Gilberto era nosso pastor e nada nos faltaria”.

Ruy Castro, em Chega de Saudade, o livro mais próximo de uma “biografia autorizada” que já se teve de João Gilberto, também relata o impacto que a descoberta de João Gilberto teve para parte da juventude nacional: “Na época não se tinha consciência disso, mas depois se saberia que nenhum outro disco brasileiro iria despertar em tantos jovens a vontade de cantar, compor ou tocar um instrumento.

É uma afirmação que já foi corroborada por vários artistas da MPB, entre eles Gilberto Gil e Caetano Veloso – Caetano conta, em seu Verdade Tropical, que, quando estudante ginasiano em Santo Amaro da Purificação, fazia parte de um pequeno “culto a João Gilberto” se reunia em um boteco chamado Bar do Bubu:

“Bubu (o dono do bar) gostar de João Gilberto era apenas o primeiro sinal de que eu, Chico Motta, Dasinho e Bethânia não estávamos sós no entusiasmo da nossa descoberta”, relembra Caetano.



Últimos anos foram de reclusão e problemas

O fim de sua vida teve notas tristes. Perfeccionista a ponto de sofrer devido à acústica deficiente de um espaço de shows, ele encerrou as turnês ao vivo em 2008, e, em seus últimos anos, viveu com problemas financeiros e teve de lidar com um longo processo contra a gravadora Universal Music, acusada de esvaziar o patrimônio da EMI justamente para não lhe pagar os devidos créditos.

Em março deste ano, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) confirmou a vitória do músico em segunda instância.

Em sua etapa final, João havia sido interditado a pedido da própria filha, a também cantora Bebel, 52 anos, que voltou ao Rio depois de 26 anos em Nova York. A decisão provocou uma discordância pública entre Bebel e seu irmão João Marcelo.

Tumultos pessoais que não apagam o legado do artista: um personagem que marcou de tal modo a paisagem musical brasileira que é impossível imaginá-la sem ele. Cada novo mergulho na história da MPB atesta a sua influência, como um longo veio do qual seis décadas de músicos, aqui e lá fora, foram retirando preciosidades.

sábado, 6 de julho de 2019

JOÃO GILBERTO, EM 1966, ACUSA MPB DE PRETENSIOSA E SUPERADA - PARTE 02

Músicos e compositores procuravam uma saída para o impasse 

Por José Teles



A turma da MPB que estaria no festival da TV Record em 1967  


IMPASSSE

João Gilberto voltou ao Brasil quando até os que faziam a MPB reconheciam que se encontravam num beco sem saída. Afastaram-se do modelo de bossa nova iniciado com a citada Chega de Saudade, e enveredaram por um modelo mais apropriado à conjuntura política do país. As dissonâncias foram preteridas em favor de acordes perfeitos, tonalidades modais. Estilizaram-se o baião, a toada moldada por Luiz Gonzaga e parceiros, recorreu-se ao Nordeste do cordel, da cantoria de viola, com letras engajadas.

A influência do jazz no samba era renegada por Carlinhos Lyra, um dos principais autores da bossa nova, agora ponta de lança do nacionalismo na MPB, mas não eram tão incomunicáveis quanto João Gilberto entendia ser. A letra quilométrica da citada Disparada foi cantada país afora, disputando as paradas de sucesso com o iê-iê-iê, que os nacionalistas consideravam agente alienador da juventude. Aventava-se a possibilidade de Wanderléa ser manipulada pela CIA pois, logo em seguida ao golpe militar, gravou O Tempo do Amor (Já chegou, já chegou a esperança/todo mal já passou, já chegou a bonança”). Verde era a cor da esperança, e da farda do Exército.


“Só a retomada da linha evolutiva pode nos dar uma organicidade para selecionar e ter um julgamento de criação. Dizer que samba só se faz com frigideira, tamborim e um violão sem sétima e sem nonas não resolve o problema”, diz o trecho pinçado do citado artigo de Caetano Veloso. Mais ou menos na mesma época, Gilberto Gil comentava no Diário da Noite, carioca: “A música é por si mesmo política. Ela faz parte do mundo, da vida das pessoas, portanto de seus problemas sociais. A Nossa música precisa enriquecer-se, tornar-se mais popular. Pode até ter protesto político, mas como elementos normais.


POIS É

Em setembro de 1966, Vinicius de Moraes, Maria Bethânia e Gilberto Gil estrearam a peça Pois É, mais um musical, com textos de Caetano Veloso, Torquato Neto, e José Carlos Campinan, dirigida por Nelson Xavier. Com citações de Karl Marx, Mario de Andrade e Casemiro de Abreu, o texto questionava o papel da música popular na evolução social do Brasil. Tinha muito dos elementos que iriam compor o Tropicalismo, um ano mais tarde. Naquele momento, porém, era mais um item acrescentado ao debate sobre a cultura nacional, com ênfase para a música. Ressalte-se que a maioria do futuro grupo tropicalista está em Pois É, incluindo Jards Macalé (mesmo não sendo oficializado na Tropicália), que toca violão com o grupo de Edson Machado, e Paulo Moura, entre outros músicos (a direção musical é de Caetano Veloso e Francis Hime). Os debates sucediam-se.

A gaúcha, de sangue quente, e língua afiada, Elis Regina, preferiu partir para as vias de fato. Declarou guerra ao iê-iê-iê, no seu programa na TV Record: “Quem está conosco, muito bem, quem não estiver que se cuide”. Por trás da briga, havia o interesse da emissora paulistana preocupada com os baixos índices de audiência do programa de Elis, O Fino da Bossa. Qualquer que fosse o vencedor da guerra, ganhava a emissora, que produzia tanto Elis quanto o Jovem Guarda, com Roberto, Erasmo e Wanderléa.

Uma passeata contra a guitarra elétrica foi uma propaganda eficaz para chamar atenção para os dois programas, mas dividiu a turma da MPB, Caetano Veloso e Nara Leão, dois futuros tropicalistas ficaram de fora. Indiferente às picuinhas de grupos, as emissoras de rádio na época abriam-se para todos os ritmos e gêneros: tocava quem comunicasse melhor. Roberto Carlos, Beatles, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Zimbo Trio, Agnaldo Timóteo, Ângela Maria. Antes do tropicalismo arvorar-se a derrubar as barreiras entre o que se rotulava de bom ou de mau gosto, as AMs brasileiras já faziam isso na prática.


BAIÃO

Uma terceira via para a MPB foi ensaiada por um grupo de músicos bem jovens, que via a saída para o impasse da música popular no baião, tirado de cena pela bossa nova, quase uma década antes. O pianista Antonio Adolfo, então com 19 anos, foi o arranjador de Boa Palavra, baião de Caetano Veloso, defendido por Maria Odete, vencedor na categoria de Melhor Letra, no Festival da Record, em 1966. Adolfo, que tocava no trio 3D, passou a pesquisar o baião. Concluiu que um estilização do ritmo, também estilizado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, na segunda metade dos anos 40, poderia ser adaptado para várias formações instrumentais, inclusive orquestral.

Criou variações deste baião moderno, de comunicação fácil: “Nada de complicações, nem letras difíceis, nem mensagens metafísicas”, explicava Antonio Adolfo. Pretendiam lançar este novo baião numa festa na Cervejaria Canecão, a casa de shows mais badalada do Brasil. O néo-baião já se tornara quase um movimento, com adesão de Artur Veroccai, Tibério Gaspar, Novelli, Edmundo Souto, Paulinho Tapajós, todos com idade entre os 18 e 20 anos, que logo teriam o talento reconhecido, embora não exatamente com baião. O próprio Antonio Adolfo emplacaria seu maior sucesso em 1968, com Sá Marina, na voz de Wilson Simonal.

JOÃO GILBERTO, EM 1966, ACUSA MPB DE PRETENSIOSA E SUPERADA - PARTE 01

Músicos e compositores procuravam uma saída para o impasse 

Por José Teles



A turma da MPB que estaria no festival da TV Record em 1967  


A inquietação que desaguaria no que se batizou de tropicalismo iniciou-se em 1966, logo depois do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em que o primeiro lugar deu empate entre Geraldo Vandré e Théo de Barros (Disparada), e Chico Buarque de Holanda (A Banda). A MPB politizou-se e virou monotemática. O Nordeste onipresente nas canções de protesto, pano de fundo com catilinárias dirigidas contra os militares que assumiram a ditadura naquele ano, quando a linha dura do marechal Arthur da Costa e Silva tomou o poder.

A música popular (a universitária, dos festivais) chegara a um impasse. Estacionara numa encruzilhada, sem que se soubesse que caminho seguir. Estava entre o samba jazz, baiões, sambas, toadas, de letras que falavam num porvir, um futuro utópico. “Ainda viro este mundo em festa, trabalho e pão (Viramundo, de Gilberto Gil e Capinam), com a devida retaliação ao opressor, “é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Aroeira, Geraldo Vandré). Caetano Veloso escreveria um antológico artigo na revista Civilização Brasileira, em que conclamava os companheiros a retomarem a “linha evolutiva da Música Popular Brasileira”. Ela seria retomada, um ano depois. Mas foi preciso o guru de todos os emepebistas, João Gilberto, vir dos Estados Unidos e dar um puxão de orelhas nos pupilos.

VIRADA DE MESA

No início de 1966, João Gilberto, então morando nos Estados Unidos, passou quatro meses no Brasil, entre Rio e Bahia e São Paulo (na casa dos pais de sua então mulher Heloísa Buarque de Holanda, que mais tarde faria sucesso como Miúcha, o apelido de família). Negou todos pedidos de entrevistas, até que resolveu conversar com o Jornal do Brasil. A matéria, assinada por Armando Aflalo, surpreendeu muitos, e irritou outros tantos. João Gilberto, o papa da bossa nova, influência maciça na geração que entrara em cena em 1964, não aprovava o que começava a se chamar MPB, e até teceu elogios à odiada (pela esquerda), Jovem Guarda.

João voltou para um Brasil muito diferente de 1958, quando deflagrou a bossa nova com Chega de Saudade, o chorinho de Tom e Vinicius, a qual ele deu uma roupagem nova, revolucionária. No Rio, visitou o Beco das Garrafas, dos lendários clubes noturnos, palcos de shows memoráveis, mas em decadência. Não encontrou mais ninguém conhecido por lá. E pior: nem foi reconhecido. Estava-se na fase dos combos de samba jazz, ou bossa instrumental, que considerou datada: “É pretensiosa, e até superada, porque estão querendo fazer um tipo de jazz que foi feito há uns 20 anos nos Estados Unidos, e porque, além de tudo, o fazem mal”, sentenciou o baiano.

Quanto à música brasileira que estava sendo exportada para os EUA, não foi menos severa sua crítica: “É melhor mandar músicas como as de um Jackson do Pandeiro do que o negócio desses meninos de hoje, que só servem para chatear o público”. Além de não procurar os velhos amigos da música, João não livrou a cara nem do incensado Edu Lobo. Considerou a música Arrastão, parceria de Edu com Vinicius de Moraes, “uma bobagem, demagogia”.

Quanto ao iê iê iê, que cada vez mais deixa nosso samba em segundo plano, João diz que não é contra ele, pois é uma música inocente, enquanto a bossa nova que os meninos estão fazendo hoje, esta sim é que prejudica o nosso desenvolvimento musical, porque é pretensiosa, sem autenticidade e sem espontaneidade”, resumia o artigo no jornal. 
 
 
NOVOS INVENTOS

João, um inventor, não aprovava os novos inventos da MPBM (Música Popular Brasileira Moderna, como se chamou por algum tempo a MPB): “... os músicos brasileiros são muito inconstantes. São ávidos demais em inventar novas coisas e por isso nunca terminam o que começam”. O cunhado Chico Buarque de Holanda foi dos poucos novatos que ele elogiou, depois de ouvir, a também cunhada, Cristina cantar Sonho de Um Carnaval: “Tão Brasil, não só o samba, mas este clima”. Tietado pelo violonista Toquinho, que frequentava a casa dos pais do amigo Chico, João deu uns conselhos: “A música é som, e o som não pode ser arrancado, tem que ser obtido naturalmente, suavemente. Quem gosta mesmo de tocar, estuda muito, e não larga nunca o instrumento”.

A entrevista começou meia-noite e se estendeu até oito da manhã, na casa dos Buarque de Holanda, em São Paulo. O repórter teve o privilégio de curtir João Gilberto repassar seus conhecimentos de música popular brasileira, algo que os principais produtores de shows do país não conseguiram. João Gilberto recusou todas as propostas que recebeu para fazer shows no Brasil. Durante a madrugada, até o dia amanhecer, entre uma e outra alfinetada na MPB, ele desfiou clássicos feito Faceira (Ary Barroso), Linda Morena (Lamartine Babo), Carinhoso (Pixinguinha/Braguinha), Diz Que Vou Por Aí (M.Rocha/Zé Kéti) e Acalanto (Dorival Caymmi).

AOS 88, MORRE JOÃO GILBERTO, ÍCONE DA BOSSA NOVA

Artista faleceu na tarde deste sábado (6), no Rio de Janeiro


João Gilberto tinha 88 anos.

O cantor e compositor João Gilberto, um dos criadores da bossa nova, morreu neste sábado, 6, segundo uma postagem de seu filho João Marcelo nas redes sociais. A causa da morte ainda não foi confirmada pela família.

"Meu pai morreu. Sua luta foi nobre, ele tentou manter a dignidade à luz da perda da independência. Agradeço minha família por estar aqui por ele", escreveu o filho do cantor.

João Gilberto era o próprio violão. Calado para o mundo, ruidoso consigo mesmo, percutia as ideias em sua caixa de ressonância de forma que só quem estivesse próximo o escutasse. Na vida em monastério que adotou por anos, seguia invisível e em total silêncio, abrindo a porta de seu apartamento apenas para poucos, como a filha Bebel Gilberto, a ex-namorada Claudia Faissol e sua filha com ela, Lulu.

João não estava pronto para se tornar um gigante. Nunca entendeu bem o que era isso. Menino de Juazeiro da Bahia, nadou nas águas do São Francisco e beijou garotas da vizinha Petrolina como se fosse normal. E era, até o dia em que avistou um caminhão vindo por uma estrada que cruzada sua cidade. Ao amigo que o acompanhava, disse como se recitasse uma oração: "Veja lá aquele caminhão, que maravilha. As árvores estão acariciando sua cabeça " Árvores, pássaros, chuva, tudo parecia mais importante a seus olhos e ouvidos do que os próprios homens.

Mas a história estava em suas mãos. Filho do comerciante Juveniano Domingos de Oliveira e da católica Martinha do Prado Pereira de Oliveira, a Patu, João viveu em terras juazeirenses até 1942, aos 11 anos, quando seguiu para estudar em Aracaju.

Juazeiro ainda o teria de volta quatro anos depois, quando o violão que o pai lhe deu começou a ganhar as primeiras carícias. A Rádio Nacional lhe trazia o mundo e João flutuava ao som de Orlando Silva, Dorival Caymmi, Chet Baker e Carmen Miranda. O primeiro grupo, Enamorados do Ritmo, veio logo, e Juazeiro ficou pequena.

A cidade que o recebeu na sequência teria sério papel na formação de seu caráter artístico. Aos 18 anos, em Salvador, já trabalhava com carteira assinada na Rádio Sociedade da Bahia. Não havia ainda desenhado o formato voz e violão, mas seguia os mandamentos de Orlando Silva tentado imitá-lo, por mais que o moderno já fossem Dick Farney e Lúcio Alves. O grupo vocal Garotos da Lua o chamou e lá se foi, ainda sem a obrigação com o violão, gravar dois discos em 78 rotações.

O Rio de Janeiro fervia na segunda metade dos anos 50, e foi para lá que João seguiu, aos 26 anos, em 1957. Sem muitos recursos, seguia a trilha de quem queria ser alguém com um violão debaixo do braço. Cantou para quem poderia fazer a diferença, como o cantor Tito Madi, mas teve mais sorte ao cair nas graças do produtor e também violonista Roberto Menescal.

O violão de João virava a vedete. Bim Bom, uma das primeiras que apresentou aos círculos de artistas no Rio, já trazia o caminhão com a carroceria cheia. A levada uniforme deslocando acentos fortes para lugares incomuns, a harmonia abrindo picadas onde ainda ninguém havia passado, a mão que fazia acordes fazendo também percussão. E a voz. A voz de João deixava as tentativas da impostação e partia para o que fazia o trompetista Chet Baker quando cantava. Volume baixo e notas de longa duração, limpas, sem vibrato. João, depois de acreditar no violão, passava a ter fé no fio da própria voz.

E, então, fez-se a Bossa Nova. Era julho de 1958 quando Elizeth Cardoso aparecer com o disco Canção do Amor Demais, com músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Ao violão em duas das faixas, Chega de Saudade e Outra Vez, João Gilberto. E era só a ponta da cabeça de um baiano que se revelaria por inteiro um mês depois. Em agosto, João, já uma aposta de Tom Jobim, Dorival Caymmi e Aloysio de Oliveira, grava seu próprio 78 rotações com Chega de Saudade e Bim Bom, gravado pela Odeon.

Se acabasse aqui, a missão de João já estaria completa. O que ele fez foi pouco e simplesmente tudo. Criou um violão brasileiro e, sobre ele, ajudou a fundar um gênero. Seguiu na formatação de sua proposta com o seguinte 78, em 1959, que trazia Desafinado, de Tom e Newton Mendonça, e Hô-bá-lá-lá, música de sua autoria. E ainda traria seu LP Chega de Saudade, definindo-se como um acontecimento. "Em pouquíssimo tempo, (João) influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores", escreveu Tom na contracapa do disco.


Fonte: Estadão Conteúdo

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