PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

NÃO EXISTE AMOR EM SP (MILTON NASCIMENTO E CRIOLO FEAT. AMARO FREITAS)


Mais de 40 milhões de brasileiros não têm casa ou vivem em condições de vulnerabilidade social. #ExisteAmor é um movimento que usa a arte como ferramenta de transformação para convidar todos, pessoas físicas e jurídicas, a espalharem o amor através por uma campanha com fundo solidário para a população em situação de vulnerabilidade social durante a pandemia do COVID-19. https://www.existeamor.com/doe

CLIPE
Direção: Beto Macedo e Denis Cisma
Edição: Tiago Berbare
Direção de fotografia: Will Etchebehere e Beto Macedo
Imagens aéreas: Beto Macedo
Produção: Saigon e Tilt Rec
Gaffer: Anisio Pacheco
1º Assistente de elétrica: Vinicius Mendes
2º Assistente de elétrica: Juninho do Grau
Elétrica: Maguiune de Oliveira (Didi)
Maquinista: Guzula
1º Assistente maquinaria: Damis Ferreira
2º Assistente maquinaria: Paulo Paulada
Assistente de câmera: Caio Muniz
Assistente de câmera: Danilo Saraiva
Operador de câmera: Thomas Dupre
Operador de câmera: João Mantovani
Transporte: Rafael Alves
Produção de externa: Gabriel Braga
Finalizador: Fabio Abreu
Colorista Sênior: Sérgio Pasqualino Júnior
Colorista Pleno: David Queiroz
Colorista Júnior: Bruno Pontes
Assistente de Color Grading: Natan Luna, Murilo Moraes
Pós produção: Btfly Coletivo
Apoio: Tilt Rec, PorqueEu Filmes, Monstercam, Mantopix, Grip Support, Cinemx

NÃO EXISTE AMOR EM SP (Criolo)
Voz: Milton Nascimento e Criolo
Piano e arranjos de base: Amaro Freitas
Produzido por Daniel Ganjaman
Gravado por Daniel Ganjaman no estúdio Arsis
Técnicos de gravação: Adonias Souza Jr e Daniel Tápia
Assistente de gravação: Gustavo Sant'anna
Mixado por Daniel Ganjaman no estúdio El Rocha
Masterizado por Fernando Sanches no estúdio El Rocha
Direção Geral: Augusto Nascimento e Beatriz Berjeaut
Produção Executiva: Kler Correa
Gravadora: Nascimento Música e Oloko Records
Editora: Oloko Records (Altafonte)

FICHA TÉCNICA PROJETO
Direção geral: Augusto Nascimento e Beatriz Berjeaut
Direção musical: Daniel Ganjaman
Direção criativa e de comunicação: Tino Monetti
Direção de arte: Denis Cisma
Produção Executiva: Kler Correa
Comunicação: Codex Uqbar, Danilo Japa Nuha e Perfexx Assessoria
Agência: AKQA (Aline Garcia, Beatriz Durlo, Christiano Vellutini, Diego Machado, Eduardo Nosé, Fernanda Pereira, Gabriel Junqueira de Andrade, Guilherme Marconi, Hugo Veiga, Juliana Pereira, Leandro Pitz, Lucas Araque, Luiza Baffa, Mauricio Dias, Paula Santana, Renato Zandoná, Thiago Custódio, Victor Polycarpo e Yago Sant'Anna)
Foto da capa EP: Will Etchebehere
Capa EP: Ricardo Fernandes
Produção Operacional: Giovanna Scarano
Distribuição digital: Altafonte Music Network
Correalização: AKQA e Coala.Lab
Realização: Nascimento Música e Oloko Records

FICHA TÉCNICA CAMPANHA
Campanha solidária #ExisteAmor
Iniciativa: Nascimento Música e Oloko Records
Direção geral: Beatriz Berjeaut
Direção de comunicação: Tino Monetti
Realização: AKQA e Coala.Lab (Aline Garcia, Beatriz Durlo, Christiano Vellutini, Diego Machado, Eduardo Nosé, Fernanda Pereira, Gabriel Junqueira de Andrade, Guilherme Marconi, Hugo Veiga, Juliana Pereira, Leandro Pitz, Lucas Araque, Luiza Baffa, Mauricio Dias, Paula Santana, Renato Zandoná, Thiago Custódio, Victor Polycarpo e Yago Sant'Anna)
Gestão Financeira do Fundo: SITAWI
Operação: benfeitoria.com
Gestão: Kler Correa

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

MILTON NASCIMENTO SERÁ HOMENAGEADO NA 3ª EDIÇÃO DO PRÊMIO UBC


Após nomes como Gilberto Gil e Erasmo Carlos levarem o troféu este ano Milton Nascimento será o homenageado do Prêmio UBC. A informação é da coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo.


Iniciativa da União Brasileira de Compositores (UBC), a terceira edição da premiação será realizada no dia 15 de outubro e, segundo a coluna, levará ao palco versões inéditas de músicas de Milton interpretadas por grandes nomes da música brasileira. O espetáculo da cerimônia de 2019 é dirigido por Zé Ricardo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

ESQUINA: VISLUMBRES DE UM BRASIL POSSÍVEL

Por Vinícius Juberte


Na última semana passou por São Paulo a turnê “Clube da Esquina”, álbum antológico de um dos artistas mais talentosos e completos da MPB, Milton “Bituca” Nascimento. Falar da excelência de Milton (ou “Bituca”, apelido pelo qual o próprio prefere ser chamado) é chover no molhado. Gostaria nesse texto de abordar alguns aspectos das músicas dos discos Clube da Esquina e Clube da Esquina II, o show que tive o prazer de assistir e os tempos pelos quais passa o Brasil.

De início, é bom frisar que segurar as lágrimas durante esse show foi tarefa quase impossível. Como não sentir uma batida forte no peito com “Tudo o Que Você Podia Ser” abrindo aquela noite? De versos como “você queria ser o grande herói das estradas”, “tudo o que você devia ser, sem medo!” e claro, aqueles dizeres que parecem quase um tapinha nas costas de consolo e incentivo por esses dias pelos quais passamos: “você ainda pensa e é melhor do que nada”. E de fato, foi impossível não pensar no Brasil durante todo esse show. Do país que fomos, que somos, mas principalmente, do que podemos ser.

O próprio Milton Nascimento é uma síntese da diversidade e da beleza, em todos os sentidos, do povo brasileiro: menino negro nascido nos morros do Rio, adotado por um casal de classe média, mãe musicista e pai dono de estação de rádio, radicado em Três Pontas, interior de Minas Gerais, escriturário de profissão que decide largar tudo para viver do sonho de cantar. Na música, junto de outras figuras fundamentais como os irmãos Borges (Márcio e Lô, para quem Bituca dedica os shows dessa turnê), Tavinho Moura, Flavio Venturini, Beto Guedes, Toninho Horta e Fernando Brandt (esse último lembrado por Milton durante o show: “Para mim é difícil falar sobre o Fernando. Só posso dizer que a vida não teria sido tão bonita sem a amizade dele”), Bituca criou dois álbuns antológicos da música brasileira: Clube da Esquina e Clube da Esquina II. Uma mistura de The Beatles, bossa nova, jazz e cantigas do cancioneiro popular mineiro. Algo único, genuinamente brasileiro.

Vale sempre lembrar que o cantor e compositor resistiu a todo o peso da ditadura militar sem ir para o exílio, sofreu uma perseguição implacável dos órgãos de repressão que ameaçavam a vida de seu filho como forma de tortura psicológica. Na mesma época, apesar de tudo, Milton estendeu o seu talento em encontros por toda América do Sul que lutava por liberdade. Minas se uniu ao Chile, a Argentina, a Venezuela…o abraço musical de Bituca na mítica Violeta Parra e o dueto com a inigualável Mercedes Sosa nos faz lembrar de algo crucial: entre tantas facetas de nossa formação, somos também latino-americanos. O Brasil faz parte de algo maior, faz parte da Grande América, que desde de tempos imemoriais compartilha dores e esperanças, triunfos e tragédias. Trajetória rememorada na belíssima e melancólica “San Vicente”: “Um sabor de vida e morte/ coração americano/ um sabor de vidro e corte…”.

O que mais me encanta no artista Milton Nascimento é a sua capacidade ímpar de ser local e universal ao mesmo tempo. Ser local sem ser provinciano, e ser universal sem deixar de ser brasileiro. Não seria essa, justamente, a definição do próprio Brasil? Aliás, Milton sintetizou com maestria essa percepção junto a Márcio Borges em “Para Lennon e McCartney”: “Eu sou da América do Sul/ eu sei vocês não vão saber/ mas agora sou cowboy, sou do ouro, eu sou vocês/ sou o mundo/ sou Minas Gerais”. O apelo daquele que quer ser reconhecido como um outro a ser visto e respeitado no mundo.

Voltando ao show, como não pensar nas agruras do Brasil atual e no desejo por mudanças estampadas na letra de “Clube da Esquina”? “Perto da noite estou/ o rumo encontro nas pedras/ encontro de vez, um grande país eu espero/ espero do fundo da noite chegar”. Uma certa melancolia de fundo otimista que dá lugar a certeza de um novo tempo em “Nada Será Como Antes”: “Já estou com o pé nessa estrada/ qualquer dia a gente se vê/ sei que nada será como antes amanhã”.

Destaco que esse novo tempo estava lá, presente nos detalhes do show: a arte de fundo que dava todo o clima da apresentação junto com as luzes era de autoria dos grafiteiros Osvaldo e Gustavo Pandolfo, Os Gêmeos. Também violão e voz ficaram a cargo de Zé Ibarra, vocalista da banda Dônica, jovem que dá um toque todo especial com seu belo timbre de voz às músicas do Clube.

Se Milton já apresenta certa fragilidade física pela idade e lutas acumuladas durante a vida, sua voz traz a força e o vigor de sempre, mostrando que barreira alguma é impossível de ser transposta. Foram duas horas de espetáculo, de lágrimas, de aplausos, cantoria e êxtase. Ou seja, uma catarse que só uma entidade como Milton Nascimento é capaz de proporcionar. O melhor do Brasil estava naquele palco: a música, o canto, o instrumental, os desenhos, as luzes, o velho e o novo apontando para novos caminhos. Em tempos de grossura bolsonarista, um alento e um vislumbre do que o Brasil é capaz de ser. Somos capazes de construir uma versão melhor de nós mesmos. Como diz a canção “O Que Foi Feito Devera”, um dos momentos altos do show: “Se muito vale o já feito/ mais vale o que será/ e o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir” e a promessa final: “Outros outubros virão/ outras manhãs. Plenas de sol e de luz”. Uma lição e um caminho para um novo futuro.

Como dizia Darcy Ribeiro, não há lugar melhor no mundo para se construir um grande país que não aqui, que não no Brasil. E Milton Nascimento é a prova viva de que o velho professor tinha razão. Não há tempo ruim que dure para sempre, nem mesmo por aqui. Que o sonho de um grande país continue nos guiando embalados por canções tão cheias de vida e significado quanto essas do Clube da Esquina. Afinal de contas, como canta Bituca em “Clube da Esquina II”: “sonhos não envelhecem!”.

domingo, 7 de julho de 2019

MILTON NASCIMENTO - UMA TRAVESSIA

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

MILTON NASCIMENTO FALA SOBRE A TURNÊ 'CLUBE DA ESQUINA' E A OBRA MEMORÁVEL

Nova turnê de Milton Nascimento celebra os 45 anos do 'Clube da Esquina' e os 40 anos do 'Clube da Esquina 2', revisitando a obra



Por Adriana Del Ré 


Milton Nascimento fala sobre revisita ao Clube da Esquina


Ouvir as canções do Clube da Esquina nos transporta a universos eloquentes, poéticos. Há uma série de estudos e teses sobre o tema que tenta decifrar essa admirável obra, construída a partir dos encontros de jovens músicos nas esquinas do bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, na década de 1960. Milton Nascimento conheceu os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô) no Edifício Levy. Da turma, faziam parte também Wagner Tiso, Fernando Brant, Beto Guedes, Flávio Venturini, e outros. Apesar das teorias bem elaboradas, Milton prefere uma definição simples e afetiva sobre o Clube da Esquina - que ganhou status de 'movimento' na história da música brasileira. "Foi um encontro de amigos", diz o cantor e compositor, de 76 anos.

Com as comemorações de 45 anos do álbum Clube da Esquina, de Milton e Lô (1972), em 2017, e de 40 anos do disco Clube da Esquina 2 (1978) no ano passado, surgiu a ideia de reviver essa obra no palco de uma maneira inédita: reunindo as canções dos dois discos. A turnê Clube da Esquina estreia em Juiz de Fora, no dia 16 de março, e segue para outras cidades, incluindo Rio, Lisboa, Porto, Zurique, Paris, Amsterdã e Madri. Em São Paulo, no Espaço das Américas, o primeiro show, no dia 27 de abril, já está com lotação esgotada, e, para a data extra, no dia 28, há poucos ingressos.

No repertório, estão canções como Clube da Esquina 2, O Trem Azul, Cais, Cravo e Canela, Maria, Maria e Nada Será Como Antes, além da clássica Para Lennon e McCartney, tirada do disco solo Milton, de 1970 - e que dialoga com essa história. Aliás, foi com Para Lennon e McCartney que Milton abriu seu show no sábado, 26, no Mineirão, como hino de amor a Minas após a tragédia em Brumadinho - e, nas redes sociais, ele replicou a frase: "Brumadinho: Não foi desastre. Foi crime!".

Segundo a assessoria de Milton, a participação de outros integrantes do Clube na turnê ainda não é confirmada, mas pode haver alguma surpresa. Milton falou com o jornal O Estado de S. Paulo por e-mail.
Entrevista


A ideia de realizar um show do Clube da Esquina era algo que você relutava em fazer?

Não me lembro de ter pensando algo assim no sentido de relutar, isso acho que não. Até porque nós fizemos turnês dos dois discos (do Clube) na época de ambos os lançamentos. O que eu nunca tinha feito antes era uma turnê com o repertório dos dois discos, e é isso que vai acontecer neste novo projeto. Ele será todo dedicado ao repertório dos Clubes 1 e 2. E essa foi uma ideia do meu filho, Augusto Nascimento, que, além de meu empresário, é também o diretor artístico deste show, ao lado de Wilson Lopes, responsável pela direção musical.


Você é saudosista? Pergunto isso no sentido de: quando você canta ou ouve as músicas do Clube, tem saudade daquela época, daquele encontro de amigos?

Aquela época do Clube foi de muita importância na minha vida. Mas posso dizer tranquilamente que o momento atual aqui em Juiz de Fora, onde moro hoje em dia, além do meu convívio pessoal, familiar e também na estrada com o pessoal que trabalha comigo, é das melhores coisas que já me aconteceram.


O repertório do show vai abranger os dois discos do Clube, mas, segundo você já adiantou, serão mais músicas do primeiro álbum? Por quê?

Primeiro por conta do tempo do show, e depois pelo fato de que por ter sido o primeiro disco dessa fase, o Clube 1 talvez seja aquele que esteja com o repertório mais presente entre os pedidos dos fãs. E isso acontece em praticamente todos os nossos shows, e o lance que a gente mais gosta é deixar as pessoas felizes.


Numa entrevista que fiz com Lô Borges, ele se recordou com carinho de quando conheceu você em Belo Horizonte. Ele disse: "É coisa do destino: eu, com dois meses morando no centro em BH, conheci o Milton e o Beto (Guedes), pessoas fundamentais na minha vida. No primeiro mês, conheci o Milton na escadaria do prédio e Beto andando de patinete". Qual a lembrança que você tem desse encontro como os irmãos Borges?

Tudo isso foi uma passagem natural da vida. Eu tinha que conhecer Marilton, depois o Marcinho, para aí sim mais tarde conhecer o Lô e toda família Borges. Uma das lembranças mais fortes que eu tenho desse tempo foi quando eu percebi que o Lô tinha crescido, a gente chegou num bar lá em BH e em vez de refrigerante ele pediu uma batida de limão (risos). Saímos dali e fizemos nossa primeira parceria, Clube da Esquina 1 (Milton/Lô e Márcio Borges).


O Clube da Esquina nasceu em meio à ditadura. Aquele cenário endurecido no Brasil influenciou o surgimento da obra do Clube de alguma forma?

O repertório do Clube 1 foi todo praticamente composto na praia de Mar Azul, Piratininga, Niterói (RJ). E a gente só decidiu sair um pouco da cidade do Rio depois que as coisas foram ficando mais complicadas. Então, de certa forma, essa mudança aconteceu por conta disso também.


A que você atribui o alto nível de qualidade do som do Clube da Esquina? E o quanto as influências (musicais, cinematográficas, etc.) que vocês carregavam na época foram importantes na construção dessa identidade?

O Clube da Esquina foi um encontro de amigos que estava na hora certa e no lugar certo. E, principalmente, que sempre se cercou de pessoas que queriam dividir o melhor do mundo onde quer que fosse: amizade, música e amor, sempre.


Para você, por que as músicas compostas nessa época se perpetuam por gerações?

Nunca gostei de analisar as coisas que a gente mesmo faz. Gosto mesmo é quando as pessoas me contam seus sentimentos. Isso pra mim é o mais importante.

domingo, 23 de dezembro de 2018

MILTON NASCIMENTO LANÇA NADA SERÁ COMO ANTES, SEU PRIMEIRO PROJETO TOTALMENTE ACÚSTICO

O EP reúne os clássicos Clube da Esquina e Clube da Esquina 2 e parcerias com outros artistas

Por Ângela Faria 


"A gente tem de usar a tecnologia", diz Milton Nascimento (foto: Andre Patroni/Divulgacao)


Todo artista tem de ir aonde o povo está, diz a letra de Fernando Brant em Nos bailes da vida, uma das canções mais conhecidas de Milton Nascimento. Pois foi ouvindo a voz do povo que o cantor e compositor decidiu gravar seu primeiro projeto inteiramente acústico. De acordo com ele, o EP Nada será como antes (Universal), que acaba de ser lançado, surgiu de pedidos dos fãs. Nas cinco faixas, Milton está acompanhado pelo violão de Wilson Lopes, o maestro de sua banda.

O EP reúne os clássicos Clube da Esquina e Clube da Esquina 2, parcerias dele com Lô e Márcio Borges; Para Lennon em McCartney, dobradinha com Fernando Brant, Márcio e Lô; Saudade dos aviões da Panair, dele e de Fernando Brant; e Nada será como antes, parceria com Ronaldo Bastos. Nesta entrevista, concedida por e-mail, ele fala sobre o novo trabalho e comenta sua relação com a música digital.

Você lançou dezenas de álbuns marcantes da MPB. Atualmente, mudou a forma de fazer música devido à internet, plataformas de streaming e ao YouTube. Chegou a vez dos singles, EPs... Você se adequou a esse jeito contemporâneo de fazer música?

Tem um lance na minha vida e de que nunca abri mão, que é o seguinte: nunca fui obrigado a fazer nada. Até na época em que sofri muita pressão pra sair do Brasil, decidi ficar justamente porque não queria ir embora. Agora a gente tem que usar a tecnologia que temos à disposição. Se a coisa agora é lançar música pela internet, então vamos lançar.


Todas as canções do EP foram compostas durante ditadura militar, nos chamados Anos de Chumbo. De que forma elas dialogam com o atual momento do Brasil?

Nunca fui muito de analisar música, principalmente as minhas. Acho que isso é uma coisa que vai de pessoa pra pessoa. Minha parte é compor, depois cada um sente a música de um jeito muito pessoal. Gosto quando as pessoas vêm me contar o que sentem. Isto, sim, é o que conta mais, o sentimento dos fãs.


As canções do novo EP são “quarentonas”, digamos assim. Ao regravá-las, você as renovou? Acrescentou algo para que soassem, digamos, contemporâneas?

A gente não ficou pensando muito nisso não. Música, pra mim, é um lance que chega bem naturalmente. Nesse projeto, a gente apenas tocou. E deixamos que a música nos guiasse.


Como é o seu diálogo com a nova geração? Os meninos da Dônica, por exemplo, são “discípulos” seus. Jovens rappers te adoram. O mineiro Djonga “copiou” a capa do Clube da Esquina 1 em seu disco Heresia. Criolo virou seu parceiro. Você gosta de rap? Pensa em se aventurar nessa nova linguagem? 

Gosto de música que me emociona. Independente do gênero, se emocionar já valeu. Na verdade, essas parcerias já existem. Criolo e eu já fizemos uma turnê juntos em 2014, a Linha de frente. Depois, fizemos uma música juntos, Dez anjos, que foi até gravada pela Gal Costa. Então, acho que esse movimento já está acontecendo.


 

NADA SERÁ COMO ANTES• Milton Nascimento e Wilson Lopes
• Universal
• Disponível nas plataformas digitais

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

NIE MYER - VIKINGS FT. MILTON NASCIMENTO

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

NIE MYER UNE INTEGRANTES DO SKANK, DJ ANDERSON NOISE E MILTON NASCIMENTO

Projeto inovador Vikings, primeiro single do grupo, com surpreendente fusão de jazz e eletrônica

Por Mariana Peixoto


Anderson Noise, Henrique Portugal, Milton Nascimento e Lelo Zanetti (foto: Diego Ruahn/divulgação)

A grafia é nie myer, a pronúncia é niemeyer. Faça a leitura que quiser, leitor. O que importa é que o Nie Myer, grupo mineiro criado na Savassi, tirou da zona de conforto três nomes da música que desde os anos 1990 estão na ativa: o DJ e produtor Anderson Noise, o tecladista Henrique Portugal e o baixista Lelo Zanetti, os dois últimos integrantes do Skank.

Mais importante ainda: o trio de jazz, bossa e eletrônica, que surgiu no palco há dois anos, estreia agora no meio digital com a maior e mais importante das vozes. Será lançado nesta sexta-feira (26) o clipe de Vikings (música do Nie Myer, letra de César Maurício), primeiro single do grupo, gravado com Milton Nascimento.

Hoje completando 76 anos, Milton deixa de lado as gravações de caráter revisionista – como o recente EP A festa, com seis faixas – para abraçar uma sonoridade inédita em sua carreira.

“Nunca tive conhecimento muito próximo dessa fusão entre jazz e música eletrônica. Posso dizer que meu primeiro contato com essa expressão foi por meio do Nie Myer. E essa é a proposta que eles trouxeram: inovação. É muito difícil você pegar um gênero tão forte (e tradicional) como o jazz e misturar com uma sonoridade mais moderna como o eletrônico. Mais difícil ainda é fazer disso um som que seja completamente novo no cenário e que possa atrair diferentes gostos”, afirma Milton.

O que vem à tona agora foi trabalhado nos dois últimos anos. Noise se lembra exatamente da maneira como ficou quando esteve na casa de Milton, em Juiz de Fora, para a gravação da voz. “Foi em 16 de novembro de 2016. O Milton é um deus que escuto desde criança. Naquele primeiro contato, me deu uma tremedeira, pois ele cantou a música de uma vez só.”

Henrique Portugal comenta que a letra – “o César escreve poema” –, quase psicodélica, logo ganhou a assinatura de Milton. “Ele foi, parou, escutou uma, duas, três vezes e disse: ‘Vamos gravar’. Foi direto.” Sem as métricas da música pop, Vikings (que ainda contou com a guitarra de Wilson Lopes) tem quase nove minutos.

Dirigido por Diego Ruahn, o clipe foi gravado no ano passado durante a Casa Cor, no prédio da Rua Sapucaí, em BH, que foi sede da extinta Rede Ferroviária Federal. É elaborado e sofisticado, mas sem afetação. A parte de Milton foi registrada na própria residência do cantor, em Juiz de Fora. Wilson Lopes aparece em uma cena em frente à estante de vinis de Noise, no apartamento do DJ, na Savassi. Foi também ali, onde ele mantém seu estúdio, que todas as gravações do Nie Myer ocorreram.


SAVASSI 

O projeto nasceu em 2016 com o nome de Niemeier. Morador da Savassi desde que voltou a viver em BH, em 2013, Noise fez do apartamento um ponto de encontro de amigos, músicos e DJs. Lelo Zanetti começou a dar umas passadas por ali para mostrar o que estava fazendo. Certo dia, Noise, que havia tocado como DJ em três edições do
Savassi Festival, encontrou-se com o organizador do evento, Bruno Golgher. E comentou que estava começando a fazer música com Lelo.

Golgher perguntou se eles poderiam fazer algo que tivesse a cara do Savassi Festival. Amigo de Portugal há muitos anos, Noise o convidou para o projeto. Niemeier, ainda com a antiga grafia, estreou no palco em julho de 2016, durante ao festival.

O trio já conta com 10 faixas gravadas. “Definitivamente, não é um projeto comercial”, explica Portugal. O lançamento será espelhado na prática dos DJs. “A gente estava preocupada com a coisa do álbum. Aí, chegamos à conclusão de que iríamos fazer como na música eletrônica. Soltamos um single a cada dois, três meses. É bem melhor, pois você tem sempre material legal na praça”, diz Noise.

TAYLOR 

O próximo lançamento será a música ainda sem título gravada por Ben Taylor (autor da letra), filho de James Taylor. Há uma outra faixa, também pronta, em japonês. Os três integrantes do Nie Myer escreveram o texto traduzido e gravado por Emi, amiga japonesa de Noise. E há ainda a intenção de ter um registro em francês.

“São coisas bem diferentes, quase instalações artísticas. A música está precisando um pouco disso”, comenta Portugal. Como cada um tem sua própria agenda, os shows do Nie Myer, agora devidamente batizado (e balizado) por Milton Nascimento, deverão ocorrer a partir do ano que vem. Mas sem pressa, como dita a música do trio.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

AOS 75, MILTON ESTÁ CHEIO DE PROJETOS, MAS DESCRENTE NO BRASIL

Cantor tem gravado clipes e anuncia que lançará em breve nova parceria com jovem artista. 

Por Mariana Peixoto 


O cantor Milton Nascimento fez show diante de uma Praça da Liberdade lotada, como atração principal do Festival de Inverno de Bonito. 


Bonito – “Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores. Há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida: estes são imprescindíveis.”

Os versos de Bertolt Brecht que Milton Nascimento recita, em espanhol, durante o show Semente da terra, antecedem Sueño con serpientes (do cubano Silvio Rodriguez), que ele gravou em dueto com Mercedes Sosa. A citação brechtiana refere-se a milhares de homens e mulheres. E (por que não?) também a si mesmo.

Milton Nascimento tem 75 anos de luta – completa 76 em 26 de outubro. A fragilidade que ele demonstra em entrevista antes do show no Festival de Inverno de Bonito (MS) – do qual foi a atração principal – desvanece no palco. Ali, Milton se agiganta.

As mãos trêmulas não o impedem de empunhar o violão para tocar, entre outras, Nos bailes da vida. Os vocalises em Coração de estudante (dedicada a Marielle Franco e Anderson Gomes) e Clube da esquina n.2 (o maior dos momentos de uma apresentação cheia de grandes momentos) impactam muito mais do que a conversa que ele entabula, timidamente, com a plateia.

Milton é da voz, não das palavras. Mas em Bonito, cidade onde se apresentou pela primeira vez, ele falou. “Esse meu filho aqui se tornou meu empresário. Graças a Deus, porque tudo começou a dar certo. Quando mudei para Juiz de Fora, estava mal de saúde, mal de tudo. Ele tomou conta de mim. Toma até hoje e é o responsável por eu, inclusive, estar aqui.”

Na entrevista ao Estado de Minas, Milton tinha ao seu lado esquerdo o produtor e assessor de imprensa, Danilo Nuha; ao lado direito, o filho e novo empresário, Augusto Kesrouani Nascimento. No papel, Augusto, de 25 anos, formado em direito, se tornou filho de Milton em 2017. Mas a relação vem de mais de uma década.

“Quando fui para Minas”, diz Milton, que vive há pouco mais de dois anos na cidade da Zona da Mata, “fui por causa dele. Ele (que estudava em Juiz de Fora) ia todo fim de semana para o Rio, ia e voltava, ia e voltava. Acabou ficando muito pesado, né? Teve um dia que ele foi me buscar lá no Rio e me apresentou uma casa. Falei: ‘Poxa, quero morar aqui’. Conta você”, diz Milton, olhando para Augusto.

“Aí ele já ficou lá”, completa o filho, dando sequência à conversa. Milton acrescenta: “O lugar que eu estava morando no Rio... O teto caiu.” “Deu cupim, estava caindo”, explica Augusto. “Fui para Juiz de Fora e nunca mais voltei. Graças a Deus.”

A saúde debilitada fez com que Milton ficasse fora do circuito de shows por um ano. O retorno se deu em março de 2017, com a estreia de Semente da terra (no Palácio das Artes, que voltou a recebê-lo há poucos meses e, mais uma vez, com ingressos esgotados). A turnê termina no fim do ano.

Apresentar Semente da terra no Mato Grosso do Sul – a Praça da Liberdade, em Bonito, lotada de uma plateia respeitosa e emocionada – tem um significado maior. A turnê é uma homenagem aos guarani kaiowá, nação indígena do estado.

“Desde que eu era rapazinho, sempre fui chegado aos índios, e eles a mim. Em 2010, estive em Campo Grande (onde Danilo e Augusto nasceram) fazendo um show. Quando vi, chegou lá um pessoal com uma foto minha, gente de várias nações indígenas (37 líderes espirituais). Quando fui fazer o bis, eles foram ao palco. O chefe pintou a minha cara de preto, outros chegaram e falaram que meu nome, a partir daquela noite, era Ava Nheyeyru Iyi Yvy Renhoi”, conta Milton.
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Em português, o nome quer dizer semente ancestral que germina na terra – ou, simplesmente, semente da terra. O repertório faz uma costura interessante dos grandes sucessos e de canções de cunho político-social (Credo, O cio da terra, Lágrimas do sul). Essa porção do show remete ao final dos anos 1970 e meados dos 1980, período da redemocratização e das Diretas-Já.

Entretanto, Milton não vê tanta esperança no país. A menos de três meses da eleição presidencial, ele diz: “Para dizer a verdade, não estou acreditando muito no Brasil que está por aí. As pessoas que vão se candidatar... Não estou vendo ninguém em quem eu possa acreditar. É isto. Muita coisa acontecendo por trás que não vale a pena. Não sei que Brasil podemos esperar”.

O falar de Milton sempre foi de poucas e pausadas palavras – e alguns silêncios. Hoje, ele fala com mais fluência e graça do passado. Contou com gosto – e algum humor – o encontro com Fernando Brant em Travessia, a parceria inaugural da dupla. A canção completou 50 anos no fim de 2017.

Presente e, principalmente, futuro, ficam a cargo de Augusto. Uma versão acústica de Maria, Maria, parceria com Brant de 1976 que virou um hino pelo direito das mulheres e ganhou nova força recentemente, foi lançada em maio. Ainda neste mês, será lançado o clipe, gravado com a participação de atrizes como Zezé Motta, Camila Pitanga e Sophie Charlotte.

“Tem muito a ver com tudo o que está acontecendo com as mulheres”, resume Milton, dando espaço para Augusto explicar o projeto. “Comecei a mexer nas coisas da carreira toda e vi que não tinha um clipe de Maria, Maria. Com o momento atual, o tema muito debatido, tive a ideia de fazer o clipe.”

Além desta, outras 10 canções em formato acústico foram gravadas. O material, que fará parte do novo álbum de Milton, deverá ser lançado até dezembro. Das canções, somente uma é inédita na voz do cantor.

Este é um dos projetos nos quais Milton Nascimento está envolvido. Há ainda a gravação de um especial produzido pela Gullane Filmes em parceria com o Canal Brasil. E, depois de Tiago Iorc – “Já saiu uma música, nós temos outra, mas ainda tenho que mexer nisso”, conta Milton – ele gravou recentemente com outro jovem artista. O nome deverá ser anunciado em breve, Augusto diz. Milton, ao lado, apenas assente. Pois venha o que vier.

Bituca e o filho Augusto Kesrouani Nascimento dão entrevista ao Estado de Minas. 



O MALETTA, O PAPEL E A MOÇA DA AVENIDA
Milton conta como se deu a parceria com Fernando Brant que resultou em Travessia

“Eu estava morando em São Paulo e fiz três músicas. Uma, que não tinha letra ainda, não era música para meus outros parceiros. Pensei no Fernando Brant, que era muito legal, legal demais. Peguei um ônibus para Belo Horizonte, Viação Cometa. Encontrei com ele no Maletta e falei: ‘Fernando, quero que você faça a letra desta música.’ Ele: ‘Quê isso, Milton! Gosto de música, gosto de você cantando, mas não sei fazer.’ Aí eu falei: ‘Mas você vai fazer.’ Quando voltei a Belo Horizonte, no mesmo lugar, ele estava com um papelzinho. ‘Fernando, o que é isto?’ ‘Não é nada não.’ ‘Fernando, me mostra o que é isto.’ ‘Não, não é nada não.’ ‘Me mostra ou eu vou rasgar essa merda.’ Ele me deu e foi para o banheiro, morrendo de vergonha. 

Era Travessia, a primeira letra que ele fez na vida. Tem uma coisa que teve lá em Belo Horizonte também. A gente descia todos os dias, lá pelas 11 horas da manhã, para ver uma mulher na avenida. A gente ficava desesperado com ela. Então, quando o Fernando me entregou a letra de Travessia, fomos para a casa dele, pois a irmã tinha ganhado um violão do namorado. Estava tocando num lugar quase sem luz quando, de repente, veio uma voz. ‘O que vocês estão tocando aí?’ A gente falou que não era nada. Mas quando ela chegou, eu disse: ‘Fernando, essa aí é a sua irmã?’ Era a menina que passava todo dia na avenida (Maria Célia, a primogênita dos Brant).”

*A repórter viajou a convite da organização do Festival de Inverno de Bonito

quinta-feira, 26 de abril de 2018

domingo, 19 de novembro de 2017

'NOSSA MÚSICA CONSTRÓI PONTES', DIZ MILTON NASCIMENTO EM ENTREVISTA

Cantor falou ao Estado de Minas, para edição comemorativa dos 50 anos do clássico Travessia


Por Ana Clara Brant


(foto: Instituto Antonio Carlos Jobim/Acervo Milton Nascimento/ Clovis )


Quando você escuta a palavra Travessia, o que vem à cabeça?

É impossível pensar em Travessia sem a presença do meu amigo. Cada vez que me deparo com Travessia, estou, na verdade, diante do próprio Fernando.


Passados 50 anos, qual é a importância de Travessia para a sua carreira e a de Fernando Brant?

Travessia significou muita coisa pra gente. Através dela, Fernando e eu abrimos um punhado de portas que acabaram definindo nossas vidas. O Wayne Shorter (saxofonista e compositor norte-americano), por exemplo, costuma dizer que a nossa música constrói pontes, pontes de amizade, paz e união por onde ela passa.


Com surgiu o nome da canção? É verdade que ela se chamaria Vendedor de sonhos?

A história de Travessia é das mais emocionantes pra mim e tem um capítulo bastante longo. Como já contei isso milhões de vezes nesses últimos 50 anos, às vezes nem sei por onde começar... Mas me lembro de que quando Fernando estava com a folha de papel com Travessia pronta, naquela mesa de bar em BH, tinha alguma coisa indicando que o nome era Vendedor de sonhos, uma frase ou algo assim. Mas aconteceu de Fernando pegar um livro de Guimarães Rosa e ver a palavra lá, travessia, no Grande sertão: veredas. Daí foi inevitável; tinha que ser Travessia. Fernando e eu voltamos ao tema em 1987, escrevemos uma música e colocamos o nome de Vendedor de sonhos, que foi gravada no disco Yauaretê, com a participação de Paul Simon e do Herbie Hancock.


O que ocorreu nos bastidores do Festival Internacional da Canção (FIC) em 1967? Alguma coisa ali te marcou?

Tem uma história que talvez pouca gente conheça. Poucos dias antes do festival no Maracanãzinho, eu estava num hotel quando chegou Fernando. Ele estava bem preocupado, porque Travessia tinha chamado tanta atenção que os jornalistas não paravam de lhe perguntar sobre as outras músicas de Fernando Brant. Então, ele me sugeriu que fizéssemos outra canção, pelo menos pra fazer número (risos). Foi assim que surgiu Outubro; nasceu praticamente nos bastidores do festival de 67.


Qual foi a importância de Agostinho dos Santos nessa história?

Se não fosse pelo Agostinho dos Santos, não teria tido festival nenhum. Ele já tinha me falado pra fazer a inscrição no festival em 1967, mas nem dei chance de continuar o papo. Depois de 1966, prometi não participar de mais nenhum festival. Aquele clima de competição não me agradava em nada. Um mês depois, o Agostinho apareceu, falando que tinha arrumado produtor para gravar um disco dele. E que minhas músicas iam entrar no repertório, mas pra isso eu teria que gravar as guias num estúdio do amigo dele. E fui lá pensando assim: “Pô, vou gravar três músicas e os caras vão acabar escolhendo só uma no final”. Até que, uma semana depois, encontrei a Elis (Regina) na porta da Record: “Eu sabia! Você classificou três músicas no festival!” Quase morri quando ela disse isso, ainda mais com a hipótese de existir outro Milton Nascimento. Foi então que escutei a gargalhada do Agostinho, bem atrás de mim. Daí entendi tudo. Ele tinha inscrito três músicas minhas no FIC 67, e as três tinham entrado.


Você ficou frustrado por não vencer o FIC em 1967?

Olha, ganhei tanta coisa nesse festival, que nunca pensei nisso.


Muitos especialistas afirmam que ninguém supera a sua interpretação de Travessia. Nem mesmo você (risos)...

Acho que sou a pior pessoa pra falar disso, ainda mais sobre minha própria música.


Travessia é um marco na música mineira e brasileira...

Taí outra coisa que prefiro que os fãs, críticos e especialistas opinem. Falar da gente assim é muito difícil.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A TRAVESSIA DE MILTON NASCIMENTO CONTRA O RACISMO DE UM CLUBE EM TRÊS PONTAS

Em 1967, Bituca recebeu homenagem no Clube Trespontano, onde era proibido de entrar

Por Ângela Faria



(foto: Instituto Antonio Carlos Jobim/Acervo Milton Nascimento/ Clovis )


Logo depois de conquistar o Brasil com Travessia, em outubro de 1967, Milton Nascimento ganhou homenagens em Três Pontas, cidade onde foi criado. Fizeram até um baile para ele no Clube Trespontano. Milton foi, mas só para atender ao pedido da mãe, dona Lilia. 

Tinha 25 anos, completados quatro dias depois de deslumbrar os brasileiros no 2º Festival Internacional da Canção. Aos 14, era proibido de frequentar aquele clube onde jovens como ele se divertiam. Motivo: racismo.


(foto: Instituto Antonio Carlos Jobim/Acervo Milton Nascimento/ Clovis )


Bituca ficava lá embaixo, enquanto o pré-adolescente Wagner Tiso entrava e saia, narrando para o amigo tudo o que ocorria lá dentro – sobretudo o que a orquestra tocava. Recentemente, Bituca relembrou o episódio.

Contou que o pai, Josino, chegou a empunhar um revólver para defendê-lo de racistas em Três Pontas. As imagens que ilustram este texto, do acervo do compositor, abrigadas no site do Instituto Antônio Carlos Jobim, mostram o carioca Milton na sua cidade de coração.

(foto: Instituto Antonio Carlos Jobim/Acervo Milton Nascimento/ Clovis )


Naquele novembro de 1967, ele cantou para o Trespontano ouvir: "Já não sonho/ Hoje faço/ Com meu braço/ O meu viver".




quarta-feira, 15 de novembro de 2017

AVESSO A FESTIVAIS, MILTON NASCIMENTO NÃO SABIA DA INSCRIÇÃO DE TRAVESSIA ANTES DA CLASSIFICAÇÃO

Bituca foi o único a ter três músicas entre as finalistas, superando compositores consagrados como Chico Buarque e Vinícius de Moraes

Por Renan Damasceno 



Embora já ocupasse as frequências dos rádios e palcos desde o ano anterior, quando Elis Regina gravou pela primeira vez Canção do Sal, foi há 50 anos que a música mineira entrou definitivamente no mapa da Música Popular Brasileira. Entre 19 e 22 de outubro de 1967, Travessia, primeira parceria entre Milton Nascimento e o compositor Fernando Brant, ficava em segundo lugar no II Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, no Rio, atrás de Margarida, de Guarabyra, e à frente de compositores já consagrados como Chico Buarque e Vinícius de Moraes.

Se hoje, Travessia goza de tal unanimidade, por muito pouco a composição não ficou de fora do festival. Milton não era afeito ao clima de competição dos festivais, tanto que coube a Agostinho dos Santos inscrevê-la junto com outras duas: Maria, minha fé, interpretada pelo próprio Agostinho, e Morro Velho, defendida por Milton, que havia escrito a música na mesma tarde que compôs a melodia de Travessia – a música era para se chamar Vendedor de Sonhos, mas depois de ganhar letra de Brant, foi eternizada com a última palavra do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

“O Bituca sempre fez questão de agradecer ao meu avô por tudo, por tê-lo inscrito no Festival sem o conhecimento dele”, lembra o músico Tiago dos Santos, neto de Agostinho (1932-1973).


MOMENTO POLÍTICO

O Brasil estava em ebulição naquele outubro de 1967, um ano antes do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), que ficaria marcado pela perseguição a artistas. No mesmo fim de semana, o III Festival de Música Brasileira, promovido pela TV Record, em São Paulo, era marcado por polêmicas e músicas de protesto contra o regime. Edu Lobo venceu com Ponteio. 
Diploma concedido a Milton e Brant pelo segundo lugar no FIC (foto: Leandro Couri/EM/D.A. Press)

No Rio, o II FIC, promovido pela TV Globo, recebia músicos estrangeiros e atraia estrelas internacionais, como a atriz Kim Novak.
Único a classificar três músicas entre as 20 finalistas, Milton defendeu Travessia com maestria. A apresentação, com Milton engomado em terno alugado, ao lado de Fernando, com o blazer emprestado por Toninho Horta, foi um divisor de águas para os mineiros, abrindo as portas para a geração do Clube da Esquina ao passo que o mundo era apresentado à voz sublime de Bituca.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

50 ANOS DE TRAVESSIA: COMO NASCEU E CRESCEU O DIVISOR DE ÁGUAS DA MÚSICA MINEIRA

Em 1967, Travessia ganhava o Brasil e o mundo era apresentado à voz de Milton Nascimento


Por Ana Clara Brant , Fred Bottrel Renan Damasceno 



Há 50 anos, primeira parceria entre Milton Nascimento e o compositor Fernando Brant ficava em segundo lugar no Festival Internacional da Canção, entre 19 e 22 de outubro, no Maracanãzinho, no Rio. Travessia abriria as portas para a geração do Clube da Esquina e o mundo era apresentado à voz sublime de Bituca.


A convite do Estado de Minas, Toninho Horta e Bárbara Barcellos interpretaram a música, no palco do Teatro Alterosa:



quarta-feira, 26 de julho de 2017

MILTON NASCIMENTO VIRA DESENHO NA SÉRIE PERNAMBUCANA MUNDO BITA

Artista será o personagem Bituca, batizado com o mesmo apelido que é conhecido entre os amigos


Bituca, personagem de Milton Nascimento, com Bita. Foto: Divulgação /Mundo Bita


O cantor Milton Nascimento virou desenho e vai integrar a turma do Mundo Bita. O artista fará parte do clipe Trem das estações, da série infantil pernambucana Bita e a natureza. Na animação, Milton será Bituca - apelido pelo qual é conhecido entre os amigos. Ao lado de Bita, Bituca vai comandar uma locomotiva e viajar pelas quatro estações do ano. 

Além do personagem, o artista carioca empresta a voz na canção do clipe ao lado de Chaps Melo, cantor, compositor e um dos criadores do Mundo Bita. A animação será publicada no YouTube no dia 1º de setembro e fará parte do DVD Bita e a Natureza. "Eu sempre gostei de fazer parte de projetos que envolvem o universo infantil, mas já fazia um tempo que não gravava coisas pra criançada, até que veio esse convite do Mundo Bita. Foi muito bom ter feito parte disso", disse o cantor.

Milton Nascimento anunciou um novo show em Pernambuco. O artista fará apresentação única da turnê Semente da terra no dia 24 de agosto, a partir das 21h, no Teatro Guararapes, em Olinda. O espetáculo marca o retorno dele aos palcos e reúne as principais canções da trajetória de 50 anos de carreira. O título da turnê faz referência ao nome com que o artista foi batizado em cerimônia indígena na Nação Guarani Kaiowá em 2010.


Fonte: Diario de Pernambuco

terça-feira, 14 de março de 2017

MILTON NASCIMENTO ESTREIA EM BH O SHOW 'SEMENTE DA TERRA', INSPIRADO NOS ÍNDIOS E ABORDANDO TEMAS SOCIAIS

De sua nova casa, em Juiz de Fora, ele convoca o Brasil ao diálogo


Por Ana Clara Brant



Ava Nheyeyru Iyi Yvy Renhoi – Semente da Terra. É assim que Milton Nascimento foi batizado por 37 líderes espirituais da nação guarani kaiowá, do Mato Grosso do Sul (MS), em cerimônia realizada em 2010. A relação de Bituca com os índios vem de longa data. Tanto é que um de seus trabalhos mais importantes, o disco Txai (1990), é um canto de amor aos povos da floresta.

O nome do compositor em guarani o inspirou a voltar aos palcos depois do ano sabático passado em Juiz de Fora. O show Semente da Terra será apresentado em 25 de março, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Os ingressos se esgotaram rapidamente e, de acordo com a produção, não haverá sessão extra.

“Não é que o projeto seja voltar às origens, mas, sim, propor algo novo, embora sem deixar a história para trás”, afirma o cantor e compositor. Além dos índios, o vencedor de cinco prêmios Grammy vai interpretar canções com foco nos negros, nas mulheres e nas crianças – temas presentes em toda a sua obra, desde o lançamento do álbum Milton Nascimento, há 50 anos.

“Neste momento atual, posso dizer: sim, é um show político. Só que no sentido de proporcionar uma reflexão direta. Neste show estão todos os temas sociais que abracei desde o começo”, pontua Milton. O repertório também terá músicas que ele não canta há algum tempo: A terceira margem do rio (parceria com Caetano Veloso), Credo e Coração civil (com Fernando Brant), O cio da terra (com Chico Buarque), Lágrima do sul (com Marco Antonio Guimarães) e Sueño com serpientes (composição do cubano Silvio Rodríguez).

“O repertório é um conjunto especial da minha carreira. Especial no sentido de provocar um diálogo, tanto sobre a situação atual quanto em relação ao futuro. O que podemos fazer para nos tornarmos pessoas melhores a cada dia? Essa é a pergunta”, afirma Milton Nascimento, de 74 anos.

Há quase um ano, ele trocou o Rio de Janeiro por Juiz de Fora, na Zona da Mata. Curiosamente, chegou a morar lá quando era criança. Agora, o motivo da mudança é outro: o filho adotivo do artista, Augusto Kesrouani, estuda na cidade.




TRAVESSIA

Milton ainda não tem planos sobre a turnê de Semente da Terra e não definiu se ela resultará em um disco. Também não há nada de concreto sobre os 50 anos de Travessia, a música que o tornou conhecido ao ficar em segundo lugar no Festival Internacional da Canção (FIC), no Rio de Janeiro, em 1967. Bituca quer viver cada coisa de uma vez. A seu tempo.

“Esse show surgiu depois que vim para Juiz de Fora. Após uns oito meses vivendo na cidade, senti a necessidade de fazer alguma coisa nesse sentido, de voltar mesmo. Por enquanto, estamos pensando somente em curtir o primeiro show em BH. A única preocupação agora é aproveitar o momento e encontrar os amigos”, resume.


PARCERIA

A partir de 1993, mais precisamente na turnê do disco Angelus, Wilson Lopes passou a tocar com Milton Nascimento. Atualmente, além de fazer parte da banda como guitarrista e violonista, o mineiro é diretor musical de Semente da Terra. Também ajudou a selecionar o repertório em parceria com Danilo Nuha, assessor de imprensa do artista. “Mas com o aval do Bituca, claro. É sempre difícil montar o set list de um show do Milton. A gente queria mostrar a nova fase dele, enfatizando temas que estarão presentes no show, como a questão indígena, os negros e as questões sociais”, explica.

Lopes ressalta que o show é focado mais no Bituca, apelido do cantor, do que em Milton Nascimento. “São duas pessoas completamente diferentes. Milton é uma marca, um mito, já o Bituca é mais humano, sofre, ri, chora. Daí a ideia de mostrar essa figura mais real. A ideia é fazer o Bituca mais feliz”, revela.

A banda conta também com Beto Lopes (violão sete cordas), Lincoln Cheib (bateria), Alexandre Ito (contrabaixo), Widor Santiago (metais) e Bárbara Barcellos (vocais). “A gente quer o Bituca contando causos, uma coisa bem leve e natural. Ele está vivendo uma fase maravilhosa e muito contente por morar em Juiz de Fora, onde recebe amigos e convive com o filho. O ano sabático foi muito importante, pois ele descansou e voltou cheio de energia. Há muito tempo não via o Milton tão bem”, revela Wilson Lopes.


MINISSÉRIE

Desde 2014, a produtora Terra Firme, do diretor Cleisson Vidal, vem registrando a intimidade de Bituca, sobretudo os bastidores da turnê Uma travessia. O resultado é a minissérie Milton Nascimento: intimidade e poesia, que deve ser exibida ainda este ano pelo canal pago HBO. Em quatro episódios de cerca 60 minutos o compositor mineiro fala sobre vários assuntos.


Três perguntas para...

Milton Nascimento
cantor e compositor

A efervescência política que o Brasil experimenta o motivou a fazer este show?
Sem dúvida, pois o momento atual é bastante complicado no mundo todo. Por causa disso, precisamos nos unir cada vez mais e tentar mudar alguma coisa – a começar por nós mesmos. Se não for assim, nada acontece.


O que mais o impressionou em sua convivência com os índios guaranis?
A força que eles têm, mesmo diante de tantas adversidades. O povo da nação guarani ainda resiste em suas terras, apesar da tentativa diária de não os deixarem sonhar.


O rapper Criolo e o ator Alexandre Nero estiveram aí em Juiz de Fora. Há algum projeto com eles ou foi só uma visita de amigos?
Com o Criolo pode ser que tenha alguma coisa vindo por aí em breve. Já com o Nero foi o primeiro encontro familiar mais próximo, mas ele se tornou um amigo muito querido desde o primeiro momento. Agora, o que vem por aí, mesmo, é a minha participação num projeto muito especial com o ator Daniel de Oliveira e o produtor musical BiD. (Milton preferiu não detalhar a parceria, mas BiD, em seu Instagram, informou: “Em breve, o single Moça onça, do projeto #cinemusicaparticular do ator, compositor e agora cantor #danieloliveira”.)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

REVOLUCIONÁRIO, O PRIMEIRO ÁLBUM DE MILTON COMPLETA 50 ANOS COM FRESCOR

Por Mauro Ferreira, do G1




Quando lançou o primeiro álbum em 1967, em edição do modesto selo Codil, Milton Nascimento já tinha música gravada por ninguém menos do que Elis Regina (1945 – 1982), cantora que em álbum de 1966 dera voz à Canção do sal, composta por este artista carioca de alma musical mineira. Sem grande repercussão, o próprio Milton já havia feito gravações em discos do Conjunto Holiday e do Quarteto Sambacana, na primeira metade dos anos 1960. Contudo, foi a defesa vitoriosa de Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) na segunda edição do Festival Internacional da Canção (FIC) que abriu definitivamente as portas do mercado fonográfico para o cantor, compositor e músico criado em Três Pontas (MG). Vice-campeã deste festival de 1967, Travessia impulsionou a gravação do álbum de estreia do artista, Milton Nascimento, disco que completa 50 anos neste ano de 2017 com o frescor perene da obra deste artista de musicalidade original.

Ao longo das 10 músicas do álbum, Milton praticamente funda um escaninho na música brasileira, amalgamando sons do jazz, do samba-jazz, da música sacra, das trilhas das Geraes – inclusive o barulho do trem que atravessa toda a obra do compositor – e do rock feito no universo pop da época marcada pelo apogeu dos Beatles. Neste primeiro álbum, as duas obras-primas do repertório inteiramente autoral – Morro velho (Milton Nascimento, 1967), canção que vale por tratado sociológico sobre a relação entre patrões e empregados no Brasil da casa grande e das senzalas disfarçadas, e a obrigatória Travessia – têm arranjos originalmente criados pelo pianista Eumir Deodato, que abriu as portas do mercado fonográfico dos Estados Unidos para o cantor (tanto que, em 1968, Milton já lançava um álbum, Courage, direcionado para o público norte-americano).

Além de ter a marca de Deodato, o álbum Milton Nascimento foi gravado com o toque do Tamba 4, versão estendida do lendário Tamba Trio, formada naquele ano de 1967 por Luiz Eça (1936 – 1992) (arranjos e piano), Bebeto Castilho (flauta), Dório Ferreira (baixo) e Rubens Ohana (bateria). Não creditados como Tamba 4 na ficha técnica do disco, os músicos deste quarteto fantástico envolveram em modernidade atemporal músicas como Crença (Milton Nascimento e Márcio Borges, 1967), Três Pontas (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1967) e Outubro (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967).

Então em início de carreira, Danilo Caymmi toca flauta em Catavento (Milton Nascimento, 1967), música menos ouvida do repertório deste disco que deu frutos. Foi jogada no álbum Milton Nascimento a semente do som do Clube da Esquina que iria germinar ao longo dos próximos cinco anos. Milton Nascimento já está com o pé na estrada há mais de 50 anos, mas foi a partir deste já cinquentenário primeiro álbum que o Brasil e o mundo conheceram um som de personalidade singular, gerado a partir da vivência deste astro revolucionário que marcou a nascente MPB da era dos festivais sem ter ficado no olho do furacão tropicalista.

sábado, 9 de abril de 2016

MILTON FALA SOBRE O AMIGO NANÁ VASCONCELOS



"Quando cheguei ao Rio encontrei Dom Um Romão, Edison Machado e Victor Manga. Ficava difícil pra mim, que vim do Nordeste, me encaixar naquela cena. Então encontrei Milton, que precisava de mim, como eu precisava dele". (Naná para a Modern Drummer)

"Um dos momentos mais bonitos da minha vida foi quando Naná Vasconcelos chegou sem avisar na casa onde eu morava, na zona sul do Rio. Isso aconteceu nos idos de 1968. Ainda na porta, mal nos cumprimentamos e ele foi logo dizendo:

__Vim de Recife pra tocar com você.

Mesmo desconfiado, o deixei entrar. Naná foi direto pra cozinha, catou tudo que viu pela frente e começou a fazer um som incrível com panelas, frigideiras, garrafas e copos. Nessa época, eu estava gravando um disco pela Odeon, e assim que acabou a primeira música com ele tocando as panelas, perguntei:

__Naná, o que você vai fazer amanhã?

No dia seguinte, levei Naná para o estúdio comigo. Era o terceiro disco da minha carreira. Entre as gravações, ele me contou melhor a história de que tinha vindo de "Recife só pra tocar comigo". E sempre que o via contando esse caso em entrevistas, as palavras dele me faziam sentir o cara mais sortudo do mundo. Imagine o privilégio: uma alma elevada como a de Naná vir especialmente ao seu encontro? Uma benção para poucos.

Depois daquele encontro no fim dos anos 60, Naná e eu vivíamos sempre juntos. Levei ele ao encontro dos Borges em BH, gravamos com Som Imaginário, no Milagre dos Peixes, e dali pra frente jamais nos separamos tanto na vida quanto na música.

Outra lembrança forte com Naná da qual eu nunca me esqueço foram nossas temporadas nos EUA. Numa delas, passamos um tempo em Nova York num apartamento com vista para o imponente Empire State. Nos primeiros dias, Naná percebeu que as luzes do edifício se acendiam religiosamente às 18h. Ele então teve a ideia de descer numa loja de eletrônicos e comprar um espalhafatoso botão liga-desliga e o instalou num lugar de destaque na sala do apartamento. E todas as vezes em que Naná estava em casa perto da "hora do Angelus" (principalmente em dias de visita), ele chegava perto do botão e fazia seu número de "acender" o Empire State, para delírio e gargalhadas gerais.

Na abertura do Carnaval de Recife de 2013, Naná me convidou para cantar com ele no tradicional encontro dos grupos de Maracatu. Foi a última vez em que tocamos juntos. Na noite anterior, Carminho e eu fomos até sua casa, em Olinda, e Naná nos recebeu com uma grande festa. Tocou de tudo, contou histórias e passou praticamente o tempo todo me agradecendo por ter vindo ao carnaval. Mas era eu quem devia aquilo a ele, foi uma das noites mais emocionantes que tive num palco. E depois da abertura dos Maracatus - Naná, com uma generosidade sem tamanho - arrumou os instrumentos no chão - como gostava de fazer - e se juntou aos músicos de minha banda (Lincoln Cheib, Wilson Lopes e Gastão Villeroy) tocando o show inteiro com uma energia rara e tirando um som de tamanha beleza que nenhum outro músico do mundo seria capaz. Naná fazia mágica, estava além da música. Ele sim, uma força extrema da natureza.

Da última vez que nos falamos, ele tinha acabado de sair do hospital. Mas nem conseguimos conversar nada sério, Naná não parava de contar suas histórias, uma mais engraçada que a outra. E eu que tinha ligado pra dar uma força, acabei recebendo uma carga de energia positiva que só poderia vir de um ser iluminado como Naná.

Assim era Naná, e exatamente assim que eu quero lembrar dele.

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