sexta-feira, 17 de março de 2017

QUEM NÃO SEGUIU O MENDIGO JOÃOZINHO BEIJA-FLOR?

Por Abílio Neto 





Na Copa do Mundo de 1970, Pelé ficou muito mais famoso por um gol que ele não fez na seleção do Uruguai do que por aquelas bolas que ele enfiou nas redes adversárias. Assim foi com a Escola de Samba Beija-Flor de Joãozinho Trinta em 1989. Na apuração daquela quarta-feira de cinzas do distante ano de 1989, ela ficou empatada com a Imperatriz Leopoldinense, a qual, não adianta mentir, também fez um desfile técnico e impecável, ao som de um grande samba que dizia ‘liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós’. No desempate, ganhou a Imperatriz.

Mas aquele espetáculo que apresentou a Beija-Flor numa manhã de segunda-feira de carnaval entrou para a História como um desfile que jamais será superado por outro ao longo dos anos. O samba da Beija-Flor não era tão bom quanto o da Imperatriz, porém o seu enredo era muito mais do que isso. Continua sendo um verdadeiro manifesto político. Está registrado nos anais da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) como um documento dedicado aos estudiosos.

No enredo estava previsto que uma réplica do Cristo Redentor sairia num carro alegórico que era dedicado aos mendigos. O então Cardeal do Rio de Janeiro, Eugênio Sales, acionou a Justiça e um juizeco qualquer decretou a proibição. Quando a Igreja conseguiu barrar a pretensão da escola, o diretor de carnaval Laíla (ainda hoje na Beija-Flor) estava na casa do seu patrono, o bicheiro Anísio Abrahão David, em Copacabana, e voltou às pressas para o barracão. Passando em frente ao Rio Sul, teve, segundo sua própria memória, a ideia: o Cristo não precisava deixar de sair. Seria coberto e teria na frente uma faixa com a frase “Mesmo proibido, olhai por nós”.

Ao chegar ao barracão da escola, Laíla encontrou um cenário de caos: Joãozinho Trinta estava incontrolável e repetia aos berros: “Ninguém bota a mão no meu Cristo, ninguém bota a mão no meu Cristo!” Aí surgiu a ideia de o carnavalesco cruzar a Sapucaí amarrado à alegoria, mas ele não topou. O diretor Laíla, então, deu sua sugestão: o Cristo coberto por lonas de plásticos da cor preta e trazendo a célebre inscrição. Se a Igreja não tivesse feito a papelada que fez, o Cristo mendigo descoberto não faria tanto sucesso quanto aquele proibido e coberto de preto.

A segunda alegoria, chamada “Convite”, uma releitura foliã dos miseráveis de Victor Hugo, trazia um chamado imenso: “Atenção mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, profetas, esfomeados e povo de rua: tirem dos lixos deste imenso país restos de luxo. Façam suas fantasias e venham participar deste grandioso BAL MASQUÉ”. Foi assim que a Beija-Flor vivenciou seu enredo mais explosivo: “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”. Na transmissão da TV Globo, Paulinho da Viola pediu a palavra para registrar seu deslumbramento: “Estou vendo algo criativo, surpreendente e novo. Só Joãozinho Trinta e a Beija-Flor poderiam fazer um enredo como esse. Uma crítica feroz e ao mesmo tempo uma autocrítica, um delírio onde a razão está presente. É um marco na história do carnaval e das escolas de samba.”

O tempo (ah, o tempo!) se encarregou de transformar a derrota depois daquele desfile memorável que foi o mais arrebatador de todos os tempos em uma vitória consagrada e registrada na memória dos fãs de desfiles de escolas de samba. Caetano Veloso homenageou Joãozinho Trinta e a escola em “Reconvexo”: “Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor?” Quem se lembra do campeonato da Imperatriz hoje? Acho que somente os pesquisadores e os fãs da escola.

Agora vou transcrever trechos do enredo “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”:
“Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com nossa terra, com nossa gente, com nosso BRASIL. Maldade desequilibrarem totalmente este país que tem, na sua geografia, a forma de um grande coração. Invertido, desequilibrado, de cabeça para baixo, mostrará os contornos de um enorme bunda. E uma bunda do tamanho do Brasil tem muita sujeira nos seus intestinos para ser expelida. Somente as águas das Bacias do Amazonas e do Prata poderão lavar tantos excrementos. Ou, então, a grande energia do nosso povo quando ele tiver consciência de sua força e de seu valor. Por enquanto somos, ainda, o gigante que acordou e está levando tanta porrada e sendo tão sacaneado que, de repente, fica inerte. É preciso, pelo menos, alfinetá-lo para que comece a ter reações. É obrigação de todos nós participarmos deste trabalho. Cada um deve agir à sua maneira. No nosso caso nós sabemos fazer Carnaval. É nosso oficio. Que seja através dele, então, que a gente proteste. Esperamos, assim, contribuir para ‘o despertar’ do gigante que somos nós mesmos. Então lançamos o grito: RATOS E URUBUS LARGUEM MINHA FANTASIA.”

“A ideia deste enredo não surgiu como inspiração. Ele foi provocado pela percepção da enorme quantidade de sujeira, de lixo que nos cerca e nos está sufocando. É o lixo físico, mental e espiritual deste país. É o lixo da falta de amor, da honestidade e do respeito à vida. Tremendas falhas que vem provocando o aumento do grande povo de rua abandonado, escorraçado e esquecido. Quantidade enorme de mendigos, famintos, desocupados, loucos, pivetes, meretrizes, travestis povoam os espaços do Brasil. É a falta de empregos, de orientação e tantas outras carências.”

“Nós que participamos da Estrutura das Escolas de Samba temos, portanto, o direito de reclamar, de protestar contra os descalabros da vida brasileira. E é um desafio fazer isto através da brincadeira do Carnaval. Vamos tentar mostrar, na sua crueza, este povo abandonado da rua e mostrar o lixo que os envolve. Vamos tentar, também, mostrar por outro lado, o luxo que servirá de contraste. Será o LIXO DO LUXO. Um momento de sublimação para o mendigo brasileiro.”

“O carro de abertura vem mostrando o acúmulo desta miséria expresso no lixo físico e humano em torno da enorme e significativa figura de um CRISTO MENDIGO. Isto é a própria imagem do Rio de Janeiro e do Brasil. Uma multidão de pedintes, famintos, pivetes, meretrizes, bêbados, loucos, entidades de rua é representada pelos grupos TÁ NA RUA, RAÍZES DA LIBERDADE, FEITIÇO E MAGIA e SENZALA.”

“No Brasil, o número de ricaços é muito grande. Muita riqueza foi adquirida com esforço e trabalho honesto. Mas, a maior parte é ilícita, desonesta e até maldita porque está levando este país para o caos. Para outro ‘Período das Trevas’. O miserável da Rua pode não ter consciência da história, mas ele está repetindo a História. Ele é o mesmo ser humano degradado pelo Poder. Grande parte da miséria brasileira que está nos morros, nas baixadas, nos alagados, já ultrapassou de longe, a miséria medieval. Esta ficou realmente na Média. A nossa já é total, universal. Por isso, o mendigo, ao receber o convite para brincar na Sapucaí, extrapola a imaginação. Na atração dos opostos ele quer ser logo SENHOR OU REI de alguma coisa. E cria uma corte que imaginamos seja Medieval. O certo seria ficar no meio procurando o equilíbrio: o eterno triângulo. E, como os jograis, ensinando entre cantos e danças o jogo do diabolo. Este é o símbolo da Carreta que vem no meio deste Setor. O desfile desta Corte termina com um Carro Alegórico trazendo destaques e restos de fantasias que representam o LIXO DO LUXO!”

“E VEM O LIXO DAS IGREJAS - E os pedintes das portas de todas: Católicas, Protestantes, Umbandistas, Igrejas Eletrônicas, enfim todo tipo de exploração espiritual. Falamos dos aspectos negativos. Os pedintes vão se fantasiar com os restos do luxo de todas elas. Mitras, rendas, ricos bordados enfim. Toda a riqueza adquirida com a fé e a promessa da salvação das almas. Mas, neste momento, tudo serve para compor uma fantasia. Os pedintes das Igrejas querem também brincar no BAILE DE MÁSCARAS. Mesmo que seus trajes pareçam que ele está numa PROCISSÃO DE MENDIGOS.”

“E no enroscar dos Corpos vem o LIXO DO SEXO. As meretrizes, embevecidas, nem acreditaram quando souberam do Convite: A MARQUÊS DE SAPUCAI É VOSSA... Saíram da Lapa e correram para a Rua Alice. Foram procurar velhos ‘pegnoirs’, coloridos, perucas, espartilhos e calcinhas pretas bordadas. Estão sempre acompanhadas dos Zés Pilintras que cercam seus passos. Como libélulas voaram para além do tempo. Chegaram ao Império das Cortesãs, das Bacantes, das Prostituições, dos Sadismos, das Inversões e Perversões Sexuais. Nome: SAUNA ROMANA. Endereço: qualquer lugar do BRASIL.”

“Para o próximo setor, os mendigos se vestiram de Verde e Amarelo. E todo o mundo já sabe que vem o LIXO DA POLÍTICA. A política do Futebol - Os ratos de Cartola. A política Financeira, o Dólar é o Rei e o Cruzado é o capacho por onde sua Majestade pisa. No meio de tantas negociatas, os pequenos ladrões vão parecer um bando de anjinhos. E toda esta grande brincadeira é assistida por uma enorme plateia: O Brasil inteiro. É uma grande revista do Teatro antigo. É O OBA-OBA DO PLANALTO. Todos pagam para assisti-la. O palco mostra as grandes vedetes fantasiadas de diferentes Carmens Mirandas. Cada cabeça mostra um turbante diferente. Enfeitados com canetas que assinam decretos e pacotes. Vassourinhas coloridas, cuias de chimarrão, faixas de múmias e outras excentricidades. Tudo verde e amarelo. Neste lixo de tanto luxo os ratos completam a festa. De tantos decretos, leis e pacotes eles fizeram picadinhos que jogam, para euforia geral, pelos buracos abertos no cenário.”

“Nas primeiras horas da manhã a FEIRA vende o que tem de melhor para os que ainda podem pagar. O resto é a XEPA. E, quem nem pode pagar a XEPA, come mesmo é o LIXO DA XEPA. Estes famintos leram também o CONVITE. Todos cataram restos de legumes, frutas e flores para compor sua fantasia. Nesta euforia, os famintos viram, de repente, uma abóbora apodrecida a ser puxada por ratos. E para surpresa geral esta abóbora foi se transformando numa Carruagem. Era a fada Madrinha, com a sua varinha de condão realizando o sonho da Cinderela: um Baile no Palácio Real. E todos foram juntos. No alto da escadaria um belo príncipe recebe os convidados. Muitas senhoras realizaram o desejo do ano inteiro; vestir a bela fantasia de Baiana. Mesmo que o pano da costa seja de Chitão. Um pouco de brilho e tudo vira festa. O que tem mais valia é a alegria de dançar e cantar mostrando a energia que o tempo acumulou. Sejam benditas, para sempre, queridas BAIANAS.”

“Todo o BAL MASQUÉ que se preza tem muita bebida e farta comida. Isto não poderia faltar aqui: Até um convite foi feito: Temos a honra de convidar V.Sa. e Exma. Família para participarem do grandioso "BANQUETE DOS MENDIGOS". Todos os mendigos que receberam este convite particular compareceram vestindo seus melhores trajes a rigor. As mendigas capricharam nos vestidos longos e nos chapeuzinhos. E ninguém se esqueceu de trazer um saco plástico para carregar um pouco das sobras. Mas o êxito deste ‘agapê’ só foi possível com a contribuição, muito generosa, de várias pessoas, riquíssimas de nossa alta sociedade. Gratuitamente elas ofereceram suas latas de lixos para que fossem retirados os restos de seus últimos banquetes. Magníficas sobras de comidas, bebidas e sobremesas: Restos de caviar, faisões, perus, peixes, lagostas, cascatas de camarões, queijos finíssimos, vinhos, whiskys, vodkas, champanhes, licores, tudo, tudo absolutamente importado. Neste MAGNÍFICO BANQUETE DOS MENDIGOS, foi impossível afastar os ratos e urubus. Eles esperam o final para devorarem restos dos restos. Mas, todo mundo está satisfeito. Também, com tanta sobra! É só olhar a mordomia dos camarotes da Marquês de Sapucaí.”

“Há uma saudação às ENTIDADES DE RUA. E elas chegam de VERMELHO E PRETO, espalhando suas energias. Bom dia para quem é de bom dia, Boa noite para quem é de boa noite, porque agora todos são da folia: LEBA-LARO OO OO / EBO - LEBARÁ LAIA LAIA OE chega o FINAL. Em todos os chafarizes da Cidade Maravilhosa os Mendigos se banham. Lavam suas roupas e seus andranjos. Lavam suas almas que são puras. Lavam as sujeiras da cidade que carregam na poeira do corpo. Nas águas dos chafarizes os mendigos e principalmente as crianças deixam uma Mensagem: BREVE - Faltam apenas 11 anos! No ano 2.000! Quando se ouvir o SILÊNCIO DAS ESFERAS, O BRANCO CHAFARIZ DO AQUÁRIO vai começar a jorrar suas águas azuis sobre as crianças do mundo inteiro. Neste ato de purificação elas estarão de mãos dadas, na grande bandeja do centro. Numa só voz elas cantarão uma nova estrofe na Ciranda da Vida. É o CANTO DO III MILÊNIO! Muitos não ouvirão este cantar! Antes, outras águas vão rolar! Como estas que vão ajudar os garis a limpar a pista por onde a BEIJA-FLOR vai passar derramando na Avenida frutos de uma imaginação!”

Sinceramente, alguém poderia imaginar que do ambiente de uma escola de samba pudesse brotar tanta inteligência na concepção de um enredo de protesto político e sua cortante redação como foi neste caso? A própria Beija-Flor não gosta de nomear destaque para suas criações. Diz que tudo é fruto da ideia da coletividade. Então, que tal dar os parabéns, mesmo com atraso, para todas aquelas mentes brilhantes que fizeram o perfeito e insuperável desfile do carnaval de 1989?

Se o início do desfile foi com farrapos, sucatas e mendigos que invadiram o Sambódromo, o que em nada lembrava as costumeiras apresentações da escola, a partir do terceiro carro, o desfile começou a ganhar cores e deixou aparecer o luxo. Os setores foram divididos com críticas bastante ácidas à Igreja, à imprensa, à política (o carro trazia uma réplica do prédio do Congresso Nacional), ao lixo do sexo e da guerra (representação dos quatro cavaleiros do apocalipse). À medida que a escola foi evoluindo, o público acompanhou de forma entusiasmada aquela apresentação, ajudado pelo samba que, apesar de não ser nenhuma obra-prima, era bastante contagiante. Durante a passagem da Beija-Flor, como ela era a última escola a desfilar, os portões do Sambódromo foram abertos e o público que se aglomerava do lado de fora pôde ocupar os espaços vazios das arquibancadas. Um fato inédito que jamais foi repetido. O final apoteótico com o público saudando a escola com gritos de "é campeã, é campeã!" é até hoje inesquecível.

Quem não seguiu a escola do mendigo Joãozinho Beija-Flor, vestido de gari, perdeu uma das coisas mais lindas e emocionantes da vida. Que Deus o guarde, pois Ele não dá a qualquer um tamanha criatividade!

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