PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

quinta-feira, 15 de março de 2018

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*



"Marchinha do carnaval de 1950, gravada em 18 de novembro de 49 e lançada um mês antes da folia, em janeiro, matriz 2186. No acompanhamento, a Orquestra Tabajara de Severino Araújo." (Samuel Machado Filho)



Canção: Meia-noite

Composição: Antônio Almeida - João de Barro

Intérprete - Nuno Roland

Ano - Janeiro de 1950

Disco - Continental 16.133-A



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

MORTO HÁ EXATOS 20 ANOS, TIM MAIA CONTINUA NO DOS BRASILEIROS

O rei do black brasileiro deixou legado inestimável para a música brasileira

Por Alexandre de Paula


Resultado de imagem para tim maia

"Vou pedir pra você voltar
Vou pedir pra você ficar
Eu te amo
Eu te quero bem..."

Há exatos 20 anos, a voz rouca de Tim Maia se calava. O drama começou uma semana antes, quando o cantor, aos 55 anos, passou mal em uma apresentação no Teatro Municipal de Niterói que tinha como objetivo dar origem a um disco acústico.

Ele foi internado, mas não resistiu e morreu no Hospital Universitário Antônio Pedro, na mesma cidade. Esses dias foram tão complicados que um dos filhos do Síndico, como era chamado, o também cantor Léo Maia, conta que, desde então, o período que antecede o aniversário da morte do pai é sempre um momento difícil para a família. “Eu faço aniversário em 11 de março. Nunca mais comemorei, toda a graça que eu poderia ver nesse dia, acabou. É um período em que fico na minha. Não tenho nenhum ritual, fico triste, choroso. Meu pai foi pai e amigo”, destaca em entrevista ao Correio.

A morte de Tim Maia não teve impacto apenas na família do carioca, mas também no mundo da música. Hitmaker e dono de uma voz incomparável, o legado de Tim Maia permanece até os dias de hoje, assim como o lugar deixado pelo cantor. Músicas como Primavera, Não quero dinheiro (Só quero amar) — dos versos acima —, e Descobridor dos sete mares ultrapassaram as barreiras do tempo e continuam no imaginário do público e também no repertório de outros músicos.

Até hoje Tim Maia continua aparecendo na lista de artistas mais executados do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição). Em 2016, Não quero dinheiro apareceu na 12ª posição das músicas mais tocadas do ano. Nos últimos 20 carnavais, Tim Maia permaneceu entre os 10 artistas mais tocados da folia — mesmo em tempo de sucessos virais.

“Surgir um cara como meu pai, jamais! É aquela missão impossível, a mesma coisa com nomes como Barry White, James Brown, Bob Marley... Os grandes mestres são, na verdade, como um rio, os que vêm depois são os afluentes. A música do meu pai foi algo que transcendeu tudo. Foi uma daquelas pessoas que nascem uma vez ou outra, algo muito peculiar”, afirma Léo Maia sobre o legado do pai. A música brasileira realmente nunca teve um sucessor à altura de Tim, apesar de o cantor ter sido uma influência para diversos outros artistas ao longo dos anos.

Nesses 20 anos, Tim Maia foi lembrado em livros, musicais e filmes. Em 2007, o amigo Nelson Motta escreveu a obra Vale tudo — O som e a fúria de Tim Maia, que deu origem, anos depois, ao espetáculo teatral Vale tudo, protagonizado por Tiago Abravanel e Danilo de Moura (que entrou para substituir o neto de Silvio Santos).

O livro também inspirou a cinebiografia de Mauro Lima, que chegou aos cinemas em 2014, tendo Robson Nunes e Babu Santana retratando diferentes períodos de Tim. “Eu acho legal (sobre a história do pai ter sido retratada), mas considero que não contaram a história da genialidade dele. Pegaram o lado pejorativo, as drogas... Todo mundo sabia que ele era maluco. Mas a história dele não foi contada”, afirma Léo Maia.

E o filho do músico justifica: “Ele era um cara que tocava baixo, bateria, teclado, flauta, diversos instrumentos... Fazia os arranjos da cabeça dele. Era um cara que falava apenas uma vez, se o músico não acertasse, ele mesmo pegava o instrumento e tocava. Foi um dos maiores formadores de maestros do Brasil, trabalhou com Serginho Trombone e Paulinho Black. Um grande formador de músicos”.


Perfeccionista

“Gênio”, assim o produtor Manoel Barenbein, que mora atualmente em Israel, define Tim Maia. Nome por trás de obras clássicas da música brasileira, como o disco Tropicália ou Panis et Circencis, ele trabalhou com o cantor no início da carreira. “Erasmo Carlos (amigo de infância do Síndico) me ligou dizendo que ele e Roberto queriam um favor, que eu contratasse o Tim para a gravadora Phonogram”, lembra.

Manoel hesitou, mas Erasmo insistiu e garantiu que ele e Roberto cuidariam de tudo com o trabalho de Tim. “Qual não foi a surpresa quando, 15 ou 20 dias depois do contrato, ele começa a aparecer todo dia na gravadora e eu ligo para o Erasmo querendo saber em que pé estavam as coisas e descubro que Erasmo e Roberto estavam no Japão, gravando o filme Diamante cor-de-rosa.”

Então, Barenbein acabou responsável por gravar o compacto de Tim Maia com Primavera, que depois seria lançado pelo produtor Jairo Pires. No estúdio, Manoel e Tim tiveram alguns desentendimentos. Um deles foi pela data de lançamento do álbum, que Tim queria que saísse, de fato, durante a primavera. “E era uma época muito ruim de lançar, porque todos os grandes artistas lançavam seus discos nesse momento. Eu resolvi que o disco sairia em março e o Tim ficou contrariado”, conta.

Para Manoel, no entanto, o “atraso” foi fundamental. Nesse meio tempo, Nelson Motta ouviu o compacto e ficou apaixonado por Tim e o apresentou a Elis Regina, que gravou com ele These are the songs. “Por isso, quando saiu Primavera, ele já era conhecido. Ou seja, se tivesse saído na época, estaria coberto pelos outros artistas e não teria essa chance.”

Apesar das brigas, Manoel tem boas lembranças do trabalho ao lado do cantor. “Muitas das pessoas que trabalharam com o Tim reclamam dele. Eu, não. Acho que ele fazia o certo, exigia que se fizesse o melhor para ele. Era ele sozinho no palco, no estúdio, era sempre ele quem colocava a cara para bater. Então, nessa hora, estava totalmente certo de exigir que aqueles que trabalhavam com ele dessem o melhor de si para que o próprio Tim também pudesse dar o melhor”, afirma.

quarta-feira, 14 de março de 2018

VÔTE, ESCUTA SÓ: LULA CÔRTES

A história de Lula Côrtes


Texto de ANTONIO ATEU


Luiz Augusto Martins Côrtes (09 de Maio de 1949 - Recife, 26 de março de2011), mais conhecido como Lula Côrtes foi um cantor, compositor, pintor e poeta brasileiro.

Foi um dos primeiros a fundir ritmos regionais nordestinos com o rock and roll, juntamente com Zé Ramalho e outros artistas.

Em dupla com Lailson, lançou no início de 1973 o álbum Satwa, o primeiro disco independente da música brasileira moderna, com a participação de músicos que depois ficariam consagrados, como Robertinho de Recife. O álbum chegou a ser relançado na década de 2000 nos Estados Unidos pela gravadora Time-Lag Records.[1]

Em 1975, lança o raro e cultuado álbum Paêbirú em dupla com Zé Ramalho.[2]Quase todas as cópias do álbum foram destruídas em uma inundação, tornando-o muito difícil de ser encontrado.[3] O álbum foi relançado em 2005 pela gravadora alemã Shadoks Music,[4] e em2008 na Inglaterra pelo selo Mr. Bongo (MRBCD050).[5]

Ainda em 1976 fez parte da banda de Alceu Valença.[6] Após isso, gravou alguns álbuns solo pela gravadoraRozenblit que nunca foram lançados. Entre eles está Rosa de Sangue, que em 2009 foi finalmente lançado pela gravadora estadunidense Time-Lag Records (Time-Lag 041).[7] Em 1980 finalmente teve um álbum solo lançado, chamado O Gosto Novo da Vida, pela gravadora Ariola.

Durante a década de 1980, a maioria de seus trabalhos foram produzidos com a banda Má Companhia.[6] Côrtes também não deixou de fazer algumas colaborações com Zé Ramalho em outros álbuns, incluindo o álbum de estreia do cantor de 1978, Zé Ramalho, o De Gosto de Água e de Amigos de 1985 e o Cidades e Lendas de 1996.

Também publicou livros de poesia.[8]

Na madrugada do dia 26 de março de 2011, Lula Côrtes faleceu aos 61 anos, vítima de um câncer na garganta, no Hospital Barão de Lucena em Recife

Nasceu em Recife, no dia 09 de maio de 1949.

Desde criança desenhava todas as paisagens que via. Aos 15 anos começou a pintar a óleo, passando a freqüentar um atelier coletivo no Braz em São Paulo. Passou então, nessa época, a elaborar uma pintura absolutamente surrealista e psicodélica que chamou de “ATÍPICOS”. Definindo como organismos de uma “natureza inexistente”. De tempos em tempos, voltava a abordar esse tema. A primeira coleção de “Atípicos”, foi também a sua primeira mostra, feita em Juiz de Fora, com o resultado surpreendente de ter vendido todas as peças. Mudou-se então para Juiz de Fora, pois lá o movimento pictórico era muito intenso. Começou a freqüentar a Galeria Celina, onde conheceu e conviveu com Carlos Bracher, um grande expoente da pintura mineira. A escola de pintura mineira o influenciou a retornar às paisagens. Sua segunda mostra foi no I Festival de Inverno de Ouro Preto, as paisagens tinham uma paleta bem surreal. Dessa época em diante passou a participar de todos os Festivais de Arte e Mostras Alternativas. Depois foi para o Rio de Janeiro, absolutamente engajado no movimento Beat Nick, morava e pintava nas praças e expunha nas ruas. Foi a São Paulo e expôs na Praça Carlos Gomes junto a outros integrantes do mesmo movimento, dessa feita, a pintura se mesclava em paisagens, organismos e colagens. Retornou para Pernambuco e nesse período, em meio a outras atividades, como escritor, cantor e compositor, Lula pintava paisagens de Itamaracá, lugar que freqüentava assiduamente. Disto resultou a terceira mostra, que aconteceu na Casa Holanda e teve continuidade. Outras 15 exposições aconteceram. Nesta mesma época, fazia a primeira série de desenhos dos “Signos do Zodíaco”, que foi editada em São Paulo por Poster’s Esdras, que por conta da “repressão”, teve um mandato de apreensão e busca em todo território nacional, por serem representados por formas sensuais. Participou de uma das bienais de São Paulo nos anos 80. Continuou seu trabalho com regularidade; pintando e desenhando com as mais variadas técnicas. Pintou painéis contendo paisagens do sertão, agreste, mangues e marinas. Dizia Lula: “O valor da paisagem pintada à óleo, ao meu ver, é que ali fica estampado não só o local, seus relevos, mas... é o mundo interior de cada pintor o que torna precioso cada quadro. A forma tão peculiar de cada homem ver e abordar o universo que habita. Com fidelidade, técnica, observação e emoção, unidos num só momento.” Seus desenhos e pinturas por vezes se fundiam, dando um resultado surpreendente. Assim se deu com as séries: “SIGNOS DO ZODÍACO” e “SEXO DAS PLANTAS”. O “Sexo das Plantas” foi, por assim dizer, um desenvolvimento dos “Atípicos”. Eis algumas de suas exposições mais representativas:


1969 – sua primeira exposição no Clube de Juiz de Fora em Minas Gerais – Coletiva com tema “ATÍPICOS”. 1994 - Exposição individual em São Paulo – Tema “Sonhos e Marinhas”. 1995 – “Expovisão” – Coletiva no Cabanga Iate Clube – Tema Paisagens Vistas do Cabanga. 1996 - Coletiva na Galeria Luannartes em Candeias – Temas variados. 1998 – Coletiva realizada pelo projeto Arte até Você. Sendo participante especial deste evento na Praça do Entroncamento – Temas variados. 1999 - Individual realizada no Centro de Convenções, através do projeto Arte até Você –– Tema “PAISAGENS PERNAMBUCANAS”, coleção composta por cento e duas telas à óleo e vários estudos. Alguns dos quadros da série foram levados para Portugal.


2000 - exposição individual realizada no MUPE Museu Pernambuco Integrado, com a retrospectiva de todo seu trabalho. –. Após esta exposição, passou a ser o curador do museu. 2001 – Exposição individual no MUPE Museu Pernambuco Integrado – Tema “PAISAGEM DOS CARNEIROS”. 2002-– Exposição individual no MUPE Museu Pernambuco Integrado – Tema “O IMAGINÁRIO DA PRAIA DOS CARNEIROS”. 2002 – Coletiva na Casa Cor Pernambuco no “Corredor de Arte” - Tema “COISAS QUE SE AMAM”, uma ramificação dos Atípicos. 2003 – Individual na OAB – Tema “AS FACES DA JUSTIÇA”. 2003 – Na Arte & Cia – exposição conjunta com a artista plástica Sônia Malta. 2004- Individual realizada na Sociedade Lula Côrtes - Tema “VULVARES”, uma ramificação dos Atípicos. Grande parte dessas telas foram adquiridas por colecionadores da arte brasileira. Entre eles personalidades como; Paulo Klein, que na época era curador da Galeria Renato Magalhães Gouveia e Anita Harlley Lundgren, que coleciona obras do artista desde os anos 70. 2007 – Exposição individual na Galeria Arte Plural – Tema “Sexo das Plantas”.


O lado B de Lula Cortês

Pouco antes de nos deixar Lula com dificuldades com a voz devido a doença, se entregou de forma apaixonada a pintura. Num encontro que tivemos em Aldeia, na casa de Alberto Oliveira, depois de uma tarde inteira de boa conversa. recebo este presente do artista, 14 postais pintados por ele. Guardei comigo e hoje resolvi publica-los, pois muita gente não conhece esta lado pintor do grande compositor, músico e cantor Lula Cortês.




















CANTOR RAIMUNDO FAGNER FARÁ SHOW NO RECIFE

Apresentação conta com repertório de sucessos que o cearense acumulou em 50 anos de carreira


O lançamento mais recente do cearense é o álbum colaborativo com Zé Ramalho. 


O cantor e compositor Raimundo Fagner fará show no Recife em 12 de maio. A apresentação será realizada no Cabanga Iate Club, na Zona Sul da cidade, contando com um repertório repledo de sucessos que o músico acumulou durante seus 50 anos de carreira, incluindo títulos como Canteiros, Borbulhas de amor, Deslizes e Espumas ao vento. Os ingressos estão sendo vendidos na plataforma Ingresso Prime, por R$ 200, R$ 120 (social) e R$ 100 (meia). 

O lançamento mais recente do cearense é o álbum colaborativo com Zé Ramalho, o Fagner & Zé Ramalho ao vivo, gravado durante show realizado com o parceiro nordestino no Theatro Net Rio, em 2014. No mesmo ano, ela divulgou o álbum de estúdio Pássaros urbanos, encerrando a lista de novidades nesta década. Na década de 2000, seus discos lançados foram Fagner (2001), Raimundo Fagner & Zeca Baleiro (2003), Donos do Brasil (2004), Fortaleza (2007) e Uma canção no rádio (2009).

No ano passado, Fagner foi um dos artistas a fazer parte do álbum beneficente São João Nordestino, que teve o lucro de vendas revertido para a Creche Comunitária Nossa Senhora da Boa Viagem. Alceu Valença, Santanna, Irah Caldeira, Alcymar Monteiro, Almir Rouche e Fulô de Mandacaru foram alguns dos outros músicos do projeto, que apostou em músicas tradicionais das festas juninas, a exemplo de Asa Branca, Olha pro céu, Xote das meninas e Vem Morena.


Fonte: Diario de Pernambuco

terça-feira, 13 de março de 2018

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



O que é canção? Marcia Castro

Marcia Castro


- O que é canção para você? 
Pra mim, canção é um tipo de composição musical popular destinada ao canto e cujos elementos evocam esse canto, a partir do momento que criam uma espécie de reconhecimento no interlocutor.

- De onde vem a canção? 
A canção vem da necessidade de comunicar de modo abrangente sentimentos nossos que são comuns a várias pessoas, daí o seu caráter popular.

- Para que cantar? 
Cantar para existir no mundo, com nossas sensações, nossos pertencimentos e desencaixes, de modo que encontremos os interlocutores que tenham afinidade com o nosso universo e criem reverberações. Música é um modo de existir.

- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho. Por que estes? 
GILBERTO GIL: por traduzir em canção, de modo tão singelo, sentimentos tão complexos, tão incomuns. E ainda trazendo para sua música uma experiência de corpo, chegando de modo certeiro nas diversas subjetividades. TOM ZÉ: pelo experimentalismo constante em sua obra, filosofando a vida através da música. GAL COSTA: pelo canto. a voz fluida, o timbre perfeito, as divisões rítmicas complexas e intuitivas. um lugar a se chegar.





* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

CURIOSIDADES DA MPB

Os desenhos de Assis Valente chegaram a ser publicados em revistas famosas da época, como a Fon-Fon, logo que ele chegou ao Rio, em 1927. O trabalho como protético também era elogiado, sendo considerado um dos melhores da cidade. O sócio José de Aguiar Dantas acabou a parceria no laboratório de próteses por causa da carreira artística de Valente, que o afastava das obrigações do negócio. Em 1938, o compositor abriu seu próprio laboratório.

segunda-feira, 12 de março de 2018

PAUTA MUSICAL: EVOLUÇÃO EM "REVISTA"

Por Laura Macedo


Megalivro – “Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil” – revê a história de design gráfico no país, do século 19 à era moderna.



Por Silas Martí (Folha de São Paulo/Ilustrada)


Desde que as primeiras máquinas de impressão chegaram ao Brasil nos porões da esquadra de dom João 6º, há mais de 200 anos, o design gráfico não parou no país.

Um livro que chega agora às livrarias documenta pela primeira vez toda a produção de jornais, revistas, capas de livro, discos, marcas e cartazes nos últimos dois séculos.

"Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil" (ed. Cosac Naify) entrega justo isso -uma cronologia alentada do que se fez nessa esfera por ilustradores como J. Carlos (1884-1950) e artistas como Di Cavalcanti (1897-1976) e Lasar Segall (1891-1957).

Nos dez capítulos do livro, há trabalhos que vão da primeira década do século 19 ao final do século passado, da era da impressão de chumbo à era dos computadores e montagens fotográficas.

"Esse livro muda um pouco a perspectiva", diz Elaine Ramos, uma das organizadoras do volume. "Ajuda a desmistificar a noção de design."

Isso porque, na amplidão da pesquisa, a linguagem modernista e construtiva dos anos 50, até hoje tida como sinônimo da produção gráfica no país, fica reservada a seu contexto histórico, cedendo espaço a manifestações de outras vertentes até hoje quase despercebidas.


ALÉM DO MODERNO

"Tem coisas lindas, de encher os olhos, que eram design no sentido estrito do termo", diz Chico Homem de Melo, outro organizador do livro. "Embora a linhagem modernista tenha obras de grande envergadura, ela dificultou que a gente olhasse para outras coisas, foi um dos efeitos colaterais dessa espécie de hegemonia moderna."

Fora dessa chave construtiva, está uma produção alinhada com o pensamento gráfico mais sofisticado dos anos 20, em que art nouveau e art déco tomaram Europa e Estados Unidos de assalto.

"Para Todos", "O Malho", "Pr'a Você", "O Arlequim", "Sports" e "Revista da Cidade" são fortes exemplos de publicações em sintonia com a escola estética que despontou na belle époque e nos chamados anos loucos de Paris, no começo do século 20.

Mas, mesmo mergulhadas numa roupagem europeia, as revistas brasileiras da época mantiveram um padrão gráfico considerado sem igual, imortalizado pelas melindrosas de J. Carlos estampadas nas capas, surfando ondas gigantes ou mergulhando em turbilhões lisérgicos de cores.

"É impressionante pegar uma revista como a 'Para Todos' nas mãos", diz Homem de Melo. "Foi um título revolucionário e muito inovador."

Do mesmo J. Carlos que estava por trás da "Para Todos", "O Malho" lançou moda já na virada para o século 20 com uma identidade visual mutante, que fazia de cada edição um exemplar diferente do anterior, com jogos cromáticos e ilustrações ousadas.

Numa delas, em pegada metalinguística, um ilustrador aparece na capa desenhando aquela mesma edição. Noutra, um personagem segura a publicação com seu próprio rosto na capa.

Depois de um hiato criativo nos anos 40, assombrados pela Segunda Guerra, a produção gráfica retomou o vigor com a linguagem construtivista dos anos 50 e na explosão desse repertório com a contracultura dos 60 e 70.

Foi a época de revistas como "Senhor" e "Realidade", a primeira dominada pelo experimentalismo dos artistas Carlos Scliar (1920-2001) e Glauco Rodrigues (1929-2004); a segunda, uma ponte para a produção gráfica moderna, num sofisticado arranjo de textos e fotografias.

Homem de Melo vê nesses trabalhos o germe do que se produz no design gráfico do país hoje, peças que sobreviveram aos anos de chumbo da ditadura e à produção mais fraca dos anos 80.

"Esse livro é um megalevantamento", resume o autor. "E não quer comprovar teses ou defender uma ou outra linha do design."

PERNAMBUCANO MACIEL SALÚ CLAMA POR LIBERDADE E RESISTÊNCIA EM NOVO DISCO

Herdeiro e difusor da cultura popular forjada na família Salustiano fará evento no Teatro de Santa Isabel para lançar o disco Liberdade

Por Emannuel Bento


Com forte tom político e social, Liberdade é o quinto álbum de estúdio do rabequeiro pernambucano.


Preconceito, violência, religiosidade e democracia são as temáticas mais recorrentes de Liberdade, novo disco do pernambucano Maciel Salú. Com forte tom político e social, o quinto álbum de estúdio do rabequeiro será lançado em evento no Teatro de Santa Isabel, no Recife, neste domingo (25), às 19h. No palco do prédio histórico, ele apresentará todas as faixas da obra, além de contar com a participação da carioca Juçara Marçal, vocalista da banda Metá Metá, que canta na faixa Mãe do mar. Os ingressos estão sendo vendidos por R$ 30 e R$ 15 (meia), no site Sympla e na bilheteria do local. O disco estará disponível nas principais plataformas digitais logo após o show de lançamento.

Nas dez músicas autorais do novo trabalho, Maciel Salú aposta em um estilo mais contemporâneo, desenvolvido com auxílio de cordas e pedais de guitarra, inovando o repertório e se aproximando de ouvintes mais distantes da música chamada de regional. Desta vez, a tradicional rabeca transcende o arquétipo da cultura popular como um instrumento de musicalidade universal. Maciel faz tudo isso, claro, sem abandonar as suas raízes, fincadas no cavalo-marinho, nas sambadas de maracatu, na ciranda e no coco.

No âmbito das temáticas, a novidade reflete bastante a visão de mundo do pernambucano. "Minha música fala sobre o cotidiano, o que inclui preconceito, racismo e desigualdade social. Afinal, sabemos como tratam as pessoas de origem humilde neste país. Eu mesmo já passei por situações desagradáveis", diz o cantor, que é filho do Mestre Salustiano, neto de João Salustiano e faz da carreira artística uma missão para propagar o legado cultural da família.

O título do álbum, Liberdade, também expressa bastante as intenções de Maciel Salú com o trabalho. Para ele, falta liberdade no mundo atual. “Antes, brincávamos nas ruas, conversávamos nas calçadas até tarde. Hoje, as pessoas vivem isoladas dentro de casa, as crianças brincam com aparelhos tecnológicos”, analisa. Ele ressalta a questão da segurança pública como outro fator responsável pelo cerceamento da autonomia dos indivíduos. “Essa situação que o Rio de Janeiro está vivendo [o estado está sob intervenção federal], que o Brasil em está passando. O cidadão sofre muito na rua às noites, principalmente as mulheres, que são agredidas e estupradas”. A faixa homônima é um contundente discurso sobre respeito, justiça e igualdade. “Sem democracia, não podemos construir o caminho da verdade para todos serem felizes”, diz um dos trechos da composição.

Outra canção crítica é Maracatu sem lei, em que Maciel revisita o episódio das proibições da realização das sambadas de maracatu, na Zona da Mata, até o dia amanhecer, em 2014. “É música é sobre a nossa luta contra uma lei sobre grandes eventos, que comparavam o maracatu com shows de grande porte. Mestres estavam sendo encurralados, não tinham liberdade para manter a cultura viva. Tivemos que buscar o Ministério Público para reverter a situação”. Salú endossa o discurso sobre resistência comum a artistas da cultura popular: “Temos que olhar justamente para os que estão sendo prejudicados com essa intolerância, como o maracatu rural e os terreiros de candomblé, diariamente agredidos e violentados”.

domingo, 11 de março de 2018

sábado, 10 de março de 2018

PROGRAME-SE


TITANE MERGULHA NO UNIVERSO MÍTICO DO COMPOSITOR BAIANO ELOMAR


Por Mariana Peixoto


Em seu novo disco, Titane optou pelo repertório com "pegada nordestina" de Elomar


Obra-prima de Elomar, a ópera Auto da Catingueira (1983) conta a história da pastora de cabras Dassanta, mulher que de tão bela “matava mais qui cobra de lagêdo”. A narrativa acompanha, em sertaneza (linguagem dialetal), a personagem do primeiro ao último dia de vida.

O último ato, Das violas da morte, mostra o duelo entre os apaixonados violeiros Chico das Chagas e Cantador do Norte. Os dois são interrompidos por Dassanta, que, em Segundo pidido, lembra que “viola cum violença/ é plantá na terra quente/ de miã ispaia a semente/ de noite coe incelença”.

Recluso no agreste baiano, Elomar, de 80 anos, dedica-se a criar romances operísticos


Pois foi a partir de uma gravação de Segundo pidido que Titane chegou a seu novo álbum, o primeiro dedicado a um único autor. Titane canta Elomar, que reúne 10 músicas do compositor, violonista e cantor baiano, será lançado neste sábado (10), com show no Palácio das Artes.

A seu lado a mineira terá os músicos que participaram do projeto: Hudson Lacerda e André Siqueira (violões), Kristoff Silva (diretor musical do álbum), Aloízio Horta (contrabaixo acústico) e Toninho Ferragutti (acordeom).

Sete anos atrás, na mesma época em que seu marido, o diretor e dramaturgo João das Neves, montou Auto da Catingueira (encenação com o Grupo Giramundo), Titane recebeu o convite do violonista Hudson Lacerda para gravar Segundo pidido. O registro acabou rendendo encontros despretensiosos da dupla no palco, em apresentações acústicas do repertório elomariano.

Titane começou a amadurecer a ideia de fazer um disco ao ouvir do músico e produtor Kristoff Silva que, depois de cinco álbuns com repertórios de diferentes autores, havia chegado a hora de se dedicar à obra de um só criador. “‘E ele é o Elomar’, me disse o Kristoff”, relembra.

Foi mais que natural trabalhar com Hudson Lacerda (coordenador da transcrição das 49 partituras do compositor para Elomar em partituras – Cancioneiro, de 2008) e Kristoff Silva, que participou do mesmo projeto, realizado em Minas.

“(Trabalhar com um autor único) Foi uma decisão muito emblemática. Em meus outros discos, explorei os contrastes. A música de Araçuaí com Edvaldo Santana, um compositor paulista, por exemplo. Isso vinha da necessidade de mostrar a diversidade da cultura na qual sempre estive imersa. E isso acontece também agora, com Elomar, porque tudo é possível com ele”, comenta a cantora.

Titane levou para sua casa, em Lagoa Santa, todos os músicos envolvidos com o projeto. “Eles ficaram hospedados comigo durante 15 dias. Optamos por um formato acústico, mais camerístico. Concebemos coletivamente os arranjos, sempre partindo do violão do Hudson e da direção do Kristoff”, continua. Titane é a primeira cantora a dedicar um álbum exclusivamente a Elomar. A maioria dos intérpretes da obra do baiano é formada por homens.

O repertório foi definido seguindo alguns preceitos. “Primeiramente, escolhi músicas com pegada mais nordestina, porque foi o que sempre me atribuiu na obra do Elomar”, comenta ela. Dessa seara, gravou Chula no terreiro (com a voz de Pereira da Viola, em participação especial) e Na quadrada das águas perdidas. “Quando fui gravar, estava num outro momento, de encantamento com o mundo de princesas, cavaleiros e reis. Então, há algumas canções sobre esse universo bem encantado”, continua ela, referindo-se a Cavaleiro do São Joaquim e Na estrada das areias de ouro.

Por fim, Titane perguntou a Elomar o que ele gostaria que ela gravasse. O violeiro, uma de suas canções mais conhecidas, foi incluída por sugestão do próprio.

As 10 faixas do álbum estarão no repertório do show, além de alguns extras e outras composições de Elomar. Titane também incluiu trechos de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, em que a personagem Marcela, “uma mulher muito bonita e desejada pelos homens, decide se retirar para as montanhas e se tornar pastora”. Foi o que Elomar fez com a Dassanta do Auto da Catingueira. “As genialidades de Elomar e Cervantes são irmãs. Inevitavelmente me vi pensando na condição feminina”, conclui a cantora.

sexta-feira, 9 de março de 2018

CANÇÕES DE XICO




HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS

Música integrante do nosso primeiro FORROBOXOTE e interpretada por Nico di Pádua e Serginho Luz. É um dos poucos xaxados que compus, embora goste muito do ritmo e de sua história, sempre ligada ao cangaço e ao sertão.


RENDA, AMOR, BALA E XAXADO
Xico Bizerra 

fuzil no chão, a pancada é o compasso, 
queda de braço e a argola pra marcar 
é a peixeira, é o toque do xaxado, 
labirinto de soldado, mata a dentro a procurar 
é o rabicho da alpercata, é couro cru, 
mandacaru é o destino do sertão 
pega seus bilros, olê, mulé rendeira 
a fazer renda, ensinadeira 
dos segredos da paixão

é cangaceiro, é pajeú, é lampião, 
é a caatinga, é flor seca, arrasta-pé 
é trem, correio, é o progresso, é o meio, 
é ferro e fogo, é padim ciço, é muita fé 
é dança macha, é o passo do cangaço, 
é o sol quente, é o sem ternura endurecer 
é pedra dura, é água mole que não fura, 
punhal ou bala, é a morte ou o viver

olé, olé, olé, mulé rendeira, 
olé, olé, olé, mulé rendá
eu já aprendi a fazer renda, 
vou te ensinar a namorar

DOIS ANIMAIS NA SELVA SUJA DA RUA (NAÇÃO ZUMBI)

quinta-feira, 8 de março de 2018

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*



"Lançado entre julho e setembro de 1951, matriz 2632. No acompanhamento, o conjunto do clarinetista Abel Ferreira. Samba regravado por Germano Mathias em 2012." (Samuel Machado Filho)



Canção: O fruto da maldade

Composição: Nelson Cavaquinho - César Brasil

Intérprete - Jorge Veiga

Ano - Setembro de 1951

Disco - Continental 16.434-B



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

HERDEIRAS DO LEGADO DE CHIQUINHA GONZAGA, COMPOSITORAS LUTAM POR ESPAÇO NA MÚSICA BRASILEIRA

A União Brasileira de Compositores (UBC) informa que apenas 8% de seus 23 mil associados são mulheres

Por Ana Clara Brant



Considerada a primeira compositora brasileira, Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847-1935), a Chiquinha Gonzaga, teve que enfrentar imensos desafios para se impor. Encontrou forte oposição da família e do marido, além de sofrer preconceito por se divorciar e viver da música. Não fosse por sua obstinação, o Brasil e o mundo jamais conheceriam joias como Ó abre alas – nossa primeira marchinha carnavalesca –, Atraente, Corta-Jaca e Lua branca.

“Certamente, houve outras compositoras antes da Chiquinha. Mas, infelizmente, há muito pouco registro delas, que deviam compor em casa enquanto cuidavam da casa e dos filhos. Acabaram não se profissionalizando. Para ser quem foi, Chiquinha Gonzaga enfrentou uma série de barreiras. Ela é o marco da composição feminina no Brasil”, destaca a jornalista e escritora Christina Fuscaldo, que está desenvolvendo a pesquisa “A voz da cantautora na história da música brasileira” em seu doutorado na PUC-Rio.

“Apesar de o Brasil não usar o termo cantautor, que, aliás, nem existe no dicionário, acho-o mais adequado para definir quem canta e compõe a própria música. A voz vem no sentido de mostrar que as mulheres estão tendo cada vez mais espaço”, diz, referindo-se ao tema de sua pesquisa.

O país tem 6 milhões de mulheres a mais do que homens, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, é pífio o número de autoras de música. A União Brasileira de Compositores (UBC) informa que apenas 8% de seus 23 mil associados são mulheres.

“Isso não ocorre só na parte de composição. Quantas mulheres temos nas bandas? Uma pra quatro, no mínimo. Há poucos dias, no evento do projeto Querubins, no Palácio das Artes, eu era a única mulher no palco, entre uns 20 homens... Porém, isso está mudando aos poucos. Vejo vários festivais incentivando o encontro e a produção feminina. Esse movimento vai dar resultado lá na frente. É preciso ter figuras inspiradoras, além da nossa própria vontade de ocupar espaço”, ressalta a cantora e compositora Fernanda Takai.

Desde sua primeira banda de escola, Fernanda já sabia a importância de compor material inédito. “Às vezes, ficava horas tirando músicas dos outros no violão. Mas, de repente, parava e pensava: vou tentar fazer uma canção. Ficava ali, tentando achar um assunto ou uma sequência interessante de acordes”, relembra.


PRIMEIRA PESSOAQuando a carioca Joyce começou a compor, em 1968, era raríssimo encontrar mulheres nessa função. “Éramos eu e a Sueli Costa. Quase todas as compositoras anteriores já haviam morrido. Eu ainda tinha o agravante de escrever na primeira pessoa do feminino singular, tocar violão e querer autossuficiência na questão de arranjos. Tudo foi muito problemático naquele início”, revela.

Para a autora de Feminina, a desproporção entre compositores e compositoras se deve à questão estrutural do machismo. “Não somos preparadas para isso, no sentido de que a fábrica de ideias é sempre uma prerrogativa masculina. Sempre foi muito difícil expor o próprio pensamento sendo mulher. Isso vem de muitos séculos, não é recente. Veja como há muitos casos na música clássica e mesmo no samba, aqui no Brasil. Dona Ivone Lara, por exemplo, precisou que o primo assinasse os primeiros sambas dela para que fossem aceitos no Império Serrano”, comenta.

Joyce faz parte da pesquisa de Christina Fuscaldo, que destaca o grande hiato entre Chiquinha Gonzaga, no fim do século 19, e novas compositoras. “Só lá nos anos 1950 vieram Dolores Duran e Maysa com aquelas músicas dor-de-cotovelo. Nas décadas de 1930 e 1940, sugiram nomes pouco conhecidos como Bidu Reis (autora de baiões, sambas e boleros) e Dora Lopes, autora de 300 canções de diversos gêneros registradas em disco. Nos anos 1960, tivemos a Joyce e a Sueli Costa, que continuam em atividade, e Rita Lee, uma década depois. Nos anos 1980 e 1990, surgiram Fernanda Takai, Marina, Paula Toller e Marisa Monte, que também passou a compor”, analisa Christina. Para ela, esses intervalos se devem, principalmente, ao machismo.

Joyce enfrentou discriminação. “Meu primeiro disco é de 1968. O fato de as canções serem escritas com letras no feminino foi objeto de muita crítica. Compor aos 19 anos e com certa liberdade incomodava muito. Um crítico disse até que a música era boa demais para ter sido feita por uma mulher. Ou seja, ele estava simplesmente duvidando da minha autoria”, lamenta.

“Depois da ditadura militar e de todas essas revoluções que atravessamos, a mulher passou a conquistar espaço em várias áreas. Hoje, temos compositoras em praticamente todos os estilos – seja a Paula Fernandes, no sertanejo, a Anitta, no funk, e a Teresa Cristina, no samba, só para citar alguns nomes”, ressalta Christina Fuscaldo.


MINEIRASEm 2011, enquanto concluía o curso de música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a cantora, compositora e violonista Deh Mussulini idealizou o coletivo ANA. “A gente se juntou para mostrar nossas canções. Éramos uma amostra das diversas mulheres que compunham na cidade. A ideia foi legitimar as mineiras, fazer com que o público buscasse mais sobre as autoras de sua cidade e de seu estado”, ressalta Deh. O grupo reúne também Luana Aires, Laura Lopes, Michelle Andreazzi, Irene Bertachini, Leonora Weissmann e Luiza Brina.

Apesar das dificuldades, Deh aponta avanços. “Vejo como nos empoderamos. Estamos tomando o nosso lugar de direito, que nos foi negado historicamente. Não foi o machismo que diminuiu ou os homens que se conscientizaram, foram as mulheres que se perceberam, ocupando seu lugar como criadoras de sua própria arte”, salienta.

Brisa Marques fez parte do ANA, assim como Leopoldina. “Já fazia poesia e, certo dia, o compositor Luiz Rocha pediu para que eu musicasse meus próprios poemas. Isso já tem 10 anos, nunca mais parei”, lembra Brisa. A mulher assumiu o posto de intérprete há muito tempo, mas já estava na hora de assumir a veia autoral, pontua. “Não é para preencher cota, nada disso. Os homens sempre compuseram e cantaram a própria música. Por que isso não poderia acontecer conosco? A mulherada está ganhado visibilidade em todas as áreas. É o momento de exacerbar o feminino e o feminismo com muita força.”

Leopoldina destaca que, ao conquistar seu espaço na música, a mulher não está necessariamente disputando com o homem. “Todo mundo tem os lados feminino e masculino. Não precisa de briga, tenho parceiros dos dois sexos. Devemos nos reconhecer no outro, até porque canção não tem gênero. Pra mim, compor é um ato de mergulho, de tentar traduzir sensações em palavras. Criar está acima de qualquer disputa de sexos”, assegura a compositora mineira.

quarta-feira, 7 de março de 2018

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)


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Aquela velha história!



Uma senhora (que veio acompanhar a filha pra se depilar) entra na loja com cara de assustada... E vai logo me dizendo que nos dias de hoje ninguém mais precisa comprar CDs pois tem tudo na internet, etc, etc, etc.
Segundos depois entra uma garota (de no máximo 15 anos) procurando por LPs.


Fui atender a jovem e deixei a senhora cheia de "caramiolas" na cabeça!

Ela deve estar pensando que eu, a jovem e todos nós que continuamos a consumir as mídias do passado somos uns atrasados e ela uma pessoa prafrentex! (pra usar um termo que ela usava quando comprava os LPs de Roberto Carlos).

ADRIANO CAMPAGNANI LANÇA 'INSTRUMENTAL DAS ESQUINAS'

Álbum conta com participação de Toninho Horta, Flávio Venturini e Lô Borges 

Por Mariana Peixoto



Vida de instrumentista contratado é complicada. Mas o contrabaixista Adriano Campagnani não a trocaria de forma alguma. Companheiro de Cláudio Faria na banda de Beto Guedes, também gravou os três discos que o músico lançou. Depois do show-homenagem desta quinta, Campagnani retorna à Autêntica no dia 22 para lançar seu terceiro álbum solo, Instrumental das esquinas.

Assim como nos trabalhos anteriores, ele faz música instrumental mas com a participação de alguns cantores. O próprio Cláudio Faria participou de uma faixa, Caminho de pedra (gravou piano e voz). Outros nomes que participaram do projeto foram Toninho Horta, Flávio Venturini e Lô Borges, todos artistas que Campagnani já acompanhou.

Antes do show haverá um workshop em que o contrabaixista vai desfiar sua técnica: slap 3 dedos, tapping, harmonia e improvisação, campos harmônicos, escalas, progressões de acorde, entre outras.

Atualmente Campagnani integra as bandas de Beto Guedes, Wilson Sideral e o projeto dos irmãos Rogério Flausino e Sideral interpretando Cazuza. “Há 26 anos vivo de música. Sempre fui um músico que trabalha muito, sempre toquei com vários artistas ao mesmo tempo. Tenho é que coincidir agenda”, comenta.

A partir de 1995, ele conta, começou a fazer um trabalho autoral como “válvula de escape”. “Gravei três discos e um DVD, venho fazendo meus shows, participando de festivais de jazz. Estes são prioridade. Se coincidir agenda, coloco um substituto (para tocar com os outros artistas”.

Campagnani desmente qualquer frustração de um músico contratado que tem que tocar a música dos outros. “Acho muito bom. Volta e meia me perguntam por que não monto minha própria banda. Pois tenho pavor da ideia de tocar um tipo de música só. Como instrumentista contratado, o trabalho me permite estar apto a tocar música cubana, indiana, brasileira.”


terça-feira, 6 de março de 2018

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*




O que é canção? Alice Caymmi

Alice Caymmi


- O que é canção para você? 
É emoção em forma de vibrações que modificam a matéria atingida.

- De onde vem a canção? 
Do inconsciente.

- Para que cantar? 
Para poder sobreviver.

- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho. 
Bjork, Caetano, Dorival Caymmi.







* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

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