PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

sexta-feira, 27 de março de 2020

CESTA DE CRÔNICAS E OUTRAS ESSÊNCIAS

Por Xico Bizerra







FALAR COM DEUS


Eu também, a exemplo de Leandro Gomes de Barros e do Poeta Maciel Melo, quis bater um papo com Deus. Fiquei com mais vontade ainda depois que ouvi Gil cantar sua música que trata disso. Eu queria apenas a resposta a alguns porquês: a justificativa para tão poucos com tanto e tantos com tão pouco; a razão de ser de a balança da Justiça nem sempre pender para o lado injusto; a partida de pessoas queridas antes do prazo desejado. Apaguei a luz, calei-me, folguei os nós dos sapatos e joguei a gravata no lixo. Deixei nus corpo e alma, mas de nada adiantou. Ele estava muito ocupado cuidando de quem precisava, apartando brigas, dirimindo conflitos, apaziguando as pessoas que gostam de guerra. Estava lá pras bandas do Oriente em busca de Paz. A exemplo dele, não encontrei essa Paz tão necessária. Talvez por isso, Deus não tenha tido tempo de me ouvir, não quis conversa. Seu Chefe da Casa Celestial explicou-me que Ele estava muito ocupado com coisa séria e eu era um Poeta, disse-me, feliz por natureza, e que, por isso, não precisava daquele encontro. Eu era quase feliz, respondi-lhe. Faltava-me esse bate-papo. Remarquei a audiência. Quem sabe terei melhor sorte e esclarecerei minhas dúvidas todas. Talvez até faça um Poema. Ou uma música. O líder de sua bancada na Câmara do Céu, barbas brancas quase arrastando na terra, garantiu-me o encontro. Dois ‘dedim’ de prosa com Ele não me fará mal. Tomara que não demore muito e eu me encaixe na Agenda de Deus.

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PROGRAME-SE


quinta-feira, 26 de março de 2020

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Caboca cherosa

Composição: Valdemar de Oliveira - Raimundo Brito

Intérprete - Alda Verona

Disco - Odeon 10.435-A. Agosto de 1929



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).


COMO REGISTRAR UMA MÚSICA: TUDO QUE VOCÊ PRECISA SABER

Por Vinicius Paulino



Registrar uma música pode ser um procedimento complicado e estressante se você não sabe exatamente como o processo funciona e por onde começar. Assim, existem diversas formas de registrar sua música e cada uma delas apresentam suas vantagens e desvantagens. Ao final desse post, você poderá analisar e tomar uma decisão sobre qual a melhor opção para você ou sua banda.

Composições musicais, em geral, são patrimônio cultural nacional e seus direitos são protegidos pela Lei de Direitos Autorais. Essa Lei garante que você receba um capital em cima de cada utilização da sua música. Por exemplo, reprodução em restaurantes, bares, shows, lojas, etc. Ademais, a Lei também assegura total segurança contra plágios, usos indevidos, alterações e utilizações não autorizadas. 


Instituição de registro

Primeiramente, você precisa saber quem faz o registro; é uma instituição chama Escritório de Direitos Autorais (EDA), que é um departamento da Fundação Biblioteca Nacional

Toda a produção intelectual brasileira, assim como sua preservação e difusão é responsabilidade da EDA. É uma instituição de muito respeito, que exerce um trabalho nobre, que possibilita, inclusive, que você, músico, construa uma carreira musical. Antes da criação da Lei De Direitos Autorais e do EDA, era praticamente impossível trabalhar com música como uma carreira legítima.
Como registrar uma música pela Internet

A Lei de Direitos Autorais reconhece quem faça o registro da música pela internet. Mas como isso funciona? A partir do momento em que a música é postada em alguma rede social ou site, é possível comprovar a autoria.

Contudo, queremos ressaltar que isso não é uma forma de registro oficial. Caso você tenha problemas com plágios ou usos indevidos da sua criação, será preciso comprovar a autoria da música e isso lhe custará muito mais tempo e dinheiro do que custaria se sua música tivesse sido registrada em um canal oficial.
Registro na Biblioteca Nacional

Você pode fazer esse processo pessoalmente, na sede do EDA, que se localiza no bairro Cidade Nova, Rio de Janeiro, capital. Mas, também há a possibilidade de fazer todo o processo enviando a documentação necessária pelos correios.

Os documentos são:
Formulário de requerimento preenchido (disponível para download aqui)
Comprovante de pagamento da GRU (no valor de 15 reais por música)
A obra musical que você deseja registrar (letra e partitura em folhas separadas)
Documento de identificação das pessoas vinculadas a obra (CPF, identidade e comprovante de residência)

O seu pedido será encaminhado para a Fundação Biblioteca Nacional. Dessa forma, decorridos 30 dias úteis a partir da data de recebimento dos documentos, chegará em sua casa uma certidão de registro e um número de identificação da sua obra.
Registro na Escola de Música da UFRJ

Novamente, aqui o procedimento pode ser feito pessoalmente no Serviço de Registro Autoral da Escola de Música da UFRJ. Mas a documentação também poderá ser enviada pelos correios.

A documentação necessária se lista abaixo:
Duas vias do Formulário de Registro Autoral disponível aqui, preenchido em letra de forma e assinado pelos autores;
Cópia da partitura e da letra da música, com todas as páginas numeradas e assinadas pelos autores;

Comprovante de pagamento

Para residentes do Rio de Janeiro(capital); boleto bancário no valor de 15 reais por música + 1,75 de taxa da emissão do boleto.

Residentes de outras localidades; comprovante original de depósito bancário ou transferência no valor de 15 reais por música.

Importante: é obrigatório preencher os dados da pessoa no boleto bancário, no caso de transferência bancária, só é aceito o comprovante original da transação.

Então, se todos os documentos necessários forem enviados e devidamente preenchidos, você receberá o certificado de registro no endereço colocado no formulário assim que possível.
Como registrar uma música por outras instituições

O registro também poderá ser feito com órgãos que tenham filiação com o Escritórios de Direitos Autorais ou com suas instituições parceiras. Assim, muitas empresas inseridas no ramo musical (e a Discmidia se inclui nessa), possuem essa filiação. Dessa forma, elas podem fazer o registro da sua músicas ou das suas músicas para você, gerando o número de registro para suas criações, que é obrigatório, por exemplo, na hora de fazer um CD.

Por fim, o processo é rápido e prático e você dificilmente terá problemas ao decorrer do procedimento. Então, se você precisar, estamos sempre prontos para te atender, entre em contato conosco e faça um orçamento!

quarta-feira, 25 de março de 2020

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)

Resultado de imagem para passa disco



E o cidadão não quis o CD de Xico Bizerra porque não gosta de um determinado intérprete / Não quis o de Chico César porque as músicas são todas inéditas / Não quis o de Almério & Mariene porque as músicas são todas conhecidas...O de Cássia Eller achou caro / O mesmo pro de Gal Costa / Não quis o de Gonzaga Leal com Aurea Martins, pois não conhece a mesma...

Dá vontade de mandar pastar... Mas como hoje estou paciente, prefiro me calar!

ANTONIO BARROS, 90 ANOS

terça-feira, 24 de março de 2020

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*


Olhos coloridos



"Olhos coloridos", de Macau, além de ser, sempre, a canção abre-alas de Sandra de Sá, é uma grande celebração da mistura étnica brasileira. Muito pela interpretação fervorosa e alegre (da alegria de ser o que é) de Sandra.
Desde que ela gravou esta canção swingada de batida black music pela primeira, no disco Sandra Sá 2 (1982), a magia de uma mensagem afirmativa e denunciadora de uma verdade coletiva se renova pelo tema sempre atual: a beleza e a riqueza de ser (todo brasileiro é) sarará crioulo.
De fato, este mote da mestiçagem, da hibridação, vira e mexe, retorna como mote para nossos compositores, basta lembrar a título de amostragem, "Inclassificáveis", de Arnaldo Antunes, com os versos "aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes"; ou "Lourinha bombril", de Diego Blanco y Bahiano (na versão de Herbert Vianna):" Essa crioula tem o olho azul, essa lourinha tem cabelo bombril, aquela índia tem sotaque do Sul, essa mulata é da cor do Brasil".
Por aqui, negros embranqueceram, brancos enegreceram, como captam os versos acima citados. Por isso, o riso de desprezo e zombaria do outro, igual a mim, brasileiro, não tem sentido: é apenas sintoma da hipocrisia de alguém que não se conhece; não admite sua história; não despertou para a felicidade de assumir a diversidade das cores de seus olhos.
Como Antonio Risério observa no livro A utopia brasileira e os movimentos negros: "mestiçagem não significa abolição de diferenças, contradições, conflitos, confrontos, antagonismos. Mestiçagem não implica fim do racismo, da violência, da crueldade. E a melhor prova disso é o Brasil. Um país informal, gregário e convivial, sim, mas também o país onde (...) o apartheid se sobrepõe brutalmente ao padê". Para mais adiante apontar: "salvo raríssimas exceções, nossos negros são todos mestiços".
E aqui vale destacar a importância de um verso como "meu cabelo enrolado, todos querem imitar", pois retomam e criticam o chamado "black is beautiful", americano mas profundamente disseminado por aqui, que só esconde as crises internas de nossa identidade. Para Risério, "ninguém cria, com sucesso espetacular, uma bandeira como "black is beautiful", se não contar com um pé na realidade e outro na carência".
A singularidade do canto de Sandra de Sá fica por conta da personalidade forte no palco e da voz potente extremamente condizente com o que é dito. A carioquice (Rio "purgatório da beleza e do caos") de Sandra dá aos versos "meu cabelo enrolado, todos querem imitar" e "a verdade é que você tem sangue crioulo" conotações imprevistas e ampliação de sentidos. Tudo aliado ao balanço e à malandra ironia exigidos pela canção.


***

Olhos coloridos
(Macau)

Os meus olhos coloridos
Me fazem refletir
Eu estou sempre na minha
E não posso mais fugir

Meu cabelo enrolado
Todos querem imitar
Eles estão baratinado
Também querem enrolar

Você ri da minha roupa
Você ri do meu cabelo
Você ri da minha pele
Você ri do meu sorriso

A verdade é que você
(Todo brasileiro tem)
Tem sangue crioulo
Tem cabelo duro
Sarará, sarará
Sarará, sarará
Sarará crioulo




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".


CARLOS MALTA, 60 ANOS



Conhecido como “O Escultor do Vento”, Carlos Malta é multinstrumentista, compositor, orquestrador, educador e produtor, dono de um estilo totalmente original e criativo. Nascido no Rio de Janeiro, toca diversos tipos de flauta (flautim, flauta, pífano, flauta baixo, flautas indígenas, entre outras), além de clarinete, clarone e saxofone. Iniciou sua carreira em 1978, aos dezoito anos, tocando com músicos como Johnny Alf, Antônio Carlos & Jocafi e Maria Creuza. Em 1981, entrou para a banda do ‘mago’ Hermeto Pascoal, onde permaneceu até 1993, quando deu início à sua carreira solo. Malta é um dos fundadores do grupo Pife Muderno, que pesquisa a tradição secular das bandas de pífanos brasileiras. 

Ao longo de sua trajetória, Carlos Malta também atuou frequentemente como músico de estúdio, havendo participado de discos de artistas como Guinga, Lenine, Sérgio Ricardo, Leila Pinheiro, Marcus Suzano, Paralamas do Sucesso, Caetano Veloso e Gilberto Gil. 

No ano de 1994, fundou o grupo Pife Muderno, com a participação de Andréa Ernest Dias (flautas e flautas de bambu), Marcos Suzano (pandeiro), Oscar Bolão (caixa e pratos) e Durval Pereira (zabumba). A banda tem como característica sonora a tradição secular das bandas de pífanos reunida à inventividade urbana. O Pife Muderno gravou o primeiro CD em 1999, intitulado Carlos Malta e o Pife Muderno, que rendeu uma indicação ao Grammy Latino.

Em 1998, lançou seu primeiro disco solo, O Escultor do Vento, no qual mostra algumas de suas composições, e reunindo seus saxofones e flautas cria uma verdadeira orquestra de sopros.

Carlos Malta ainda lançou os discos Tudo Coreto, apresentando arranjos modernos calcados na tradição das bandas do interior; e Pixinguinha Alma e Corpo, no qual preparou dez arranjos para sopro e quarteto de cordas sobre a obra do mestre Pixinguinha — homenagem ao choro. 

Já no ano de 2006, o músico lançou o álbum PARU com o Pife Muderno em homenagem a seu grande amigo Paru, pajé da tribo Yawalapiti do Alto-Xingu.

No Brasil Carlos Malta tem se apresentado nas principais cenas da música instrumental. Sua carreira tem sido plural, com participações especiais nos shows de Bob Mc Ferryn, Dave Matthews Band, Roberto Carlos & Caetano Veloso no tributo a Tom Jobim. Malta realizou a turnê de lançamento de seu cd TUDO AZUL, pelo Norte e Nordeste do Brasil, com patrocínio da Petrobras. Seu novo trabalho sinfônico, a Suíte Os elementos em 5 movimentos, foi interpretada em primeira audição mundial pela Orquestra Petrobras Sinfônica juntamente com o Pife Muderno em um concerto memorável.

Logo após tocou com o Pife Muderno na China, no Concert Hall da Cidade Proibida, em Pequim. Recentemente, Malta e seu Pife Muderno arrabataram o Carnegie Hall em Nova Iorque. Carlos Malta segue esculpindo seus múltiplos timbres nos saxofones (barítono, tenor, alto e soprano), nas flautas (soprano, alto em sol, dó, baixo, piccolo) no pife, na di-zi e no shakuhachi, traduzindo através de seu sopro, a alma da música do Brasil.


DOCUMENTÁRIO SOBRE O PÍFANO




“Uma chave que abre as portas da alegria” é como Carlos Malta define o pífano, instrumento que inspirou o documentário “Xingu Cariri Caruaru carioca” (2015), dirigido por Beth Formaggini. No filme, Malta viaja pelo Brasil encontrando músicos importantes na tradição do instrumento, como João do Pife, e passa pelas paisagens de um Brasil “à parte”, distante das metrópoles. Ele vai do Rio de Janeiro ao Xingu, atravessando Ceará, Paraíba e Pernambuco, nas cenas de “Xingu Cariri Caruaru carioca”.

***Texto produzido com informações do site oficinal de Carlos Malta


Fonte: Encontreca

segunda-feira, 23 de março de 2020

MPB COM TUDO DENTRO

Por Rodrigo Faour


domingo, 22 de março de 2020

SR. BRASIL

A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NO COMPORTAMENTO HUMANO (THE INFLUENCE OF MUSIC ON HUMAN BEHAVIOR) – PARTE 02

Por Jessica Adriane Weigsding - Bacharel em ciências biológicas pela UNICESUMAR (jehweigsding@hotmail.com) e Carmem Patrícia Barbosa - Professora doutora do UNICESUMAR e UEM (carmemmec1@gmail.com)




RESUMO
A música, mais do que qualquer outra arte, tem uma extensa representação neuropsicológica, com acesso direto à afetividade, controle de impulsos e emoções, e motivação. Ela é mencionada como sendo capaz de estimular a memória não verbal; um elemento de aplicação nas funções cerebrais, que envolve um armazenamento de símbolos organizados e que estimula a capacidade de retenção e memorização. A musicoterapia também auxilia a minimizar os sinais e sintomas de várias doenças, pois melhora a comunicação, expressão, organização e relacionamentos. A música é indicada para o desenvolvimento de potenciais e recuperação de funções, com objetivos terapêuticos relevantes que envolvem a melhora das necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas do indivíduo. O objetivo deste estudo é avaliar, por meio de pesquisa bibliográfica, o quanto o ser humano pode ser influenciado pela música. Nesse contexto será apresentada a correlação entre a música e as pessoas. O estudo demonstrou que a música de fato é um dos caminhos mais rápidos e eficazes para se promover o equilíbrio entre o estado fisiológico e emocional do ser humano, e que lhe traz bem estar físico e psíquico.

Palavras-chave
Música; musicoterapia; comportamento humano 


Musicoterapia 

A musicoterapia é considerada uma ciência nova aplicada por pessoa qualificada que usa a música de forma prescrita e clínica como intervenção terapêutica, que deve possuir algumas exigências técnicas e científicas, como maturidade, controle afetivo e emocional, imaginação, capacidade de observação do mundo interior e exterior. A musicoterapia destina-se a facilitar e promover a mobilização, a comunicação, a expressão, a organização e melhorar relacionamentos sociais. Outros objetivos terapêuticos relevantes são descritos como melhora de necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas do indivíduo o qual desenvolve potenciais e recupera funções (LEINIG, 2008). O musicoterapeuta cria formas e estratégias de fazer com que as atividades musicais contemplem o paciente. As mais comuns incluem dança, improvisação, associação do canto a tons combinados, uso de imagens, o canto, tocar um instrumento ou compor uma música. Tais atos ajudam na expressão emocional, na melhora das habilidades motoras além de melhorar lembranças associadas favorecendo indivíduos portadores de Alzheimer (GOLD et al., 2004), com danos cerebrais ou necessidades especiais (COVINGTON, 2001), autistas (CHANDLER et al., 2002), indivíduos com síndrome de Down (BROTONS e KOGER, 2000) e pessoas que não estão em tratamento, crianças, adolescentes e idosos, sendo seus efeitos incontáveis sobre cada indivíduo (EVANS, 2002). Muitas pesquisas relatam e apontam a importância da música como um elemento de otimização das funções cerebrais com destaque para a memória, uma vez que a música envolve armazenamento de símbolos organizados estimulando a cognição. Além disso, a música apresenta grande importância em distúrbios motores como a doença de Parkinson. Num estudo recente, idosos após acidentes vasculares encefálicos foram submetidos a cinco sessões semanais de 30 minutos de musicoterapia interagindo com piano e bateria. Os mesmos foram avaliados antes e após este período quanto ao desempenho motor fino (movimento de dedos), movimentos de pulso e movimentos mais amplos. A melhora na capacidade motora foi percebida nos movimentos e atribuída à plasticidade neural das vias motoras do córtex cerebral para a medula espinal a partir da estimulação causada pelos estímulos musicais (AMENQUAL et al., 2013). Por isso, Sacks (2007) afirma que a música correta, pode orientar o indivíduo quando este não é mais capaz de fazê-lo por si só.


Música e Fisiologia

Interação dos ritmos biológicos e os ritmos sonoros

A propagação dos padrões sonoros rítmicos pelo tecido cerebral provoca um fluxo de sinais neurais que oscilam com os “relógios” naturais do cérebro, recebem informação do ambiente e controlam as funções do corpo e as respostas comportamentais. Esses relógios naturais do cérebro, ou relógios biológicos, estão localizados no sistema nervoso que coordena as atividades temporais endógenas. No hipotálamo está o relógio dos ritmos circadianos e no epitálamo está o relógio dos ritmos circanuais (ROEDERER, 2002; LENT, 2005). Os ritmos biológicos são influenciados pelas manifestações rítmicas que ocorrem no próprio ambiente. Assim, para que uma espécie possa se adaptar a um ambiente que oscila constantemente, ela precisa oscilar de forma que ocorra uma adaptação temporal que consiste na harmonização entre a ritmicidade biológica e os ciclos ambientais (MARQUES e MENNA-BARRETO, 2003). Parte desta potencialidade pode ser explicada pelo fato de que ritmo e som estão presentes em todas as etapas de vida do indivíduo uma vez que, desde a vida uterina, eles influenciam o desenvolvimento fetal. O bebê aprende a distinguir sons já nos primeiros meses de vida assim como aprende a distinguir os sons da fala de outros sons e inicia o conhecimento das palavras (GUIDA et al, 2007). Segundo Benenzon (2002), pode-se constatar um padrão de atividades rítmicas em relação à alimentação, sono e choro do bebê após seu nascimento. Pesquisas demonstram que os movimentos rítmicos de sucção do recém-nascido estão em íntima relação com seus próprios batimentos cardíacos, ou seja, a aceleração dos batimentos cardíacos causa aumento no ritmo de sucção assim como sua diminuição tem efeito inverso. Referente aos efeitos biológicos do som e da música, este autor afirma que, conforme ocorre aumento ou diminuição do ritmo, ocorre concomitante aumento ou diminuição do consumo de energia muscular e da respiração (em termos de frequência e regularidade) do recém-nascido. Além disso, são descritas alterações características, mas variáveis, na pulsação, na pressão sanguínea e na função endócrina. Há diminuição do impacto dos estímulos sensoriais de diferentes modos, redução ou retardo da fadiga e, consequentemente, incremento do endurecimento muscular, aumento na atividade voluntária e nos reflexos musculares empregados ao escrever e desenhar. Semelhantemente, a musicoterapia é capaz de provocar mudanças nos traçados elétricos do organismo e de provocar mudanças no metabolismo e na biossíntese de vários processos enzimáticos. Além disso, o ritmo musical influencia os padrões de sono e vigília e as secreções de diversas glândulas (GASPARINI, 2003).


Musicalidade no desenvolvimento infantil

Desde muito cedo a música tem grande importância na vida da criança, pois além de provocar diferentes sensações, também desenvolve capacidades que serão importantes durante o crescimento infantil contribuindo para seu desenvolvimento neurológico, afetivo e motor. Para isso, ela deve ser estimulada com variadas experiências musicais a fim de que perceba diferenças entre os estilos, letras, velocidade e ritmos melhorando a atenção, memorização e discriminação auditiva. É nesse período que as crianças estão mais receptivas às aprendizagens e que ocorre grande parte do desenvolvimento neurológico. Isto porque a fase da infância é considerada a fase mais rica para formação das sinapses e conexões dos neurônios ampliando a capacidade cerebral. Assim, a música nesse processo é um dos estímulos mais potentes para ativar os circuitos do cérebro de forma que, quanto mais cedo a criança entrar em contato com o mundo da música, maior será o conhecimento armazenado na memória sonora devido assimilação de vários códigos sonoros que a música pode oferecer. Tal fato favorece o desenvolvimento de habilidades cognitivas, linguísticas e motoras, participando do processo de desenvolvimento da sua personalidade, do amadurecimento do caráter e das atitudes comportamentais (MELO, et al., 2009). A família pode desempenhar o papel de agente principal de integração do indivíduo à iniciação musical despertando o interesse da criança pelo gosto de repertórios musicais. Para Fucci-Amato (2008) que analisou e relatou biografias e depoimentos de alguns músicos, de fato a família tem grande importância na formação cultural do indivíduo. Antonio Carlos Gomes, por exemplo, considerado por muitos o maior compositor das Américas no século XIX, teve contato com a atividade musical desde cedo uma vez que seu pai era mestre de banda e compositor, interpretando tanto música erudita como popular. Heitor Villa-Lobos, maestro e principal expoente da música brasileira, também revelou a grande influência da cultura familiar, determinante para sua incursão ao mundo da música, destacando o papel de seu pai com o qual sempre assistia a ensaios, concertos e óperas, a fim de habituar-se ao gênero de conjunto instrumental. 


Lateralização dos hemisférios cerebrais

Conforme Lent (2008), a neurociência é responsável pelo conjunto de disciplinas que compõem o estudo do sistema nervoso e que se tornou um campo de investigação do efeito que a música produz no cérebro, utilizando tecnologias como a neuroimagem a fim de visualizar regiões envolvidas na audição musical. O cérebro, sendo um centro cognitivo de atividades mentais superiores que abrange sentimentos, criatividade e inteligência, é separado por uma grande fissura que o divide em dois hemisférios cerebrais, hemisfério direito e esquerdo. Um efeito muito versado é a contralateralidade, onde o hemisfério esquerdo cerebral exerce o controle do lado direito do corpo e vice-versa (CUNHA, 2011). Essa troca de informação entre os hemisférios se dá em virtude de algumas estruturas nervosas como o corpo caloso (SILVERTHORN, 2003). De uma forma geral, o hemisfério cerebral esquerdo contém as habilidades verbais, analítica e o controle da linguagem em seus aspectos lógicos, enquanto as não verbais, holísticas, afetivas, emoções e intuitiva, dependem do hemisfério cerebral direito (SCHMIDEK, 2005). Existe uma lateralização hemisférica para a música de forma que no hemisfério direito ocorre a discriminação do contorno melódico, do aspecto emocional da música e dos timbres nas regiões temporais e frontais. No entanto, o ritmo, a duração, a métrica e a discriminação da tonalidade ocorrem no hemisfério esquerdo do cérebro o qual também processa a altura estando relacionado exatamente às áreas da linguagem que reconhecem o arranjo musical (MUSZKAT, 2012). Em estudo realizado na universidade de Harvard, o neurocientista Gottfried Schaug demonstrou que a região frontal do corpo caloso é expressivamente maior nos músicos, em especial naqueles que iniciaram cedo sua formação. Tal fato consolida o pressuposto de que as operações musicais tornam-se bilaterais com a intensificação do treinamento à medida que os músicos passam a coordenar e recrutar estruturas neurais nos dois hemisférios cerebrais. Tal estudo demonstrou ainda uma tendência dos músicos possuírem cerebelos de maior tamanho e com maior concentração de massa cinzenta a qual é constituída por corpos celulares e é responsável pelo processamento da informação (LEVITIN, 2011). Estes achados confirmam os estudos prévios de Andrade (2004) o qual constatou que modificações cerebrais nos músicos, como acréscimo das conexões no corpo caloso da região mais frontal são descritas podendo repercutir nas capacidades motoras e cognitivas do treinamento musical e da área de Broca envolvida com o processo linguístico e visuoespaciais. 


Influência no humor

A música é descrita como tendo um papel envolvente na vida das pessoas, podendo causar aproximação e atração entre indivíduos melhorando assim sua socialização (TEKMAN e HORTAÇSU, 2002; BAKAGIANNIS e TARRANT, 2006). Em relação à influência da música sobre o humor e a despeito da preferência musical de cada pessoa, nem todos os indivíduos poderão se beneficiar dos efeitos positivos da música sobre o humor. Este fato foi demonstrado em pesquisas feitas sobre determinados estilos musicais os quais mostraram correlação entre os traços de personalidade (DOLLINGER, 2004; PIMENTEL E DONNELY, 2008), valores humanos (RENTFROW e GOSLING, 2003), risco de suicídio (PIMENTEL et al., 2009), uso de drogas e outros comportamentos antissociais, no comportamento pró-social (GREITEMEYER, 2009), nos pensamentos e sentimentos agressivos (CHEN et al., 2006) e no comportamento do consumidor (SECO, 2007). 

Alguns estilos musicais como heavy metal e o rap preocupam os pesquisadores devido à forte frequência de comportamentos de risco em suas letras. Ao contrário, a música clássica tem efeitos relaxantes e positivos sobre o humor, mesmo que não sejam as músicas preferidas ou habitualmente ouvidas. Assim, estudos demonstraram significativa redução nos níveis de estresse após quatro meses de sessões semanais de música clássica (NEDLEY, 2009). Altshuler, um psiquiatra americano, durante suas experiências clínicas verificou que a música cujo caráter e andamento coincidiam com o tempo mental do paciente, influenciava seu humor. Este médico tratava um paciente depressivo com músicas de caráter triste e em tonalidade menor ao passo que, para pacientes maníacos, empregava música de tempo “allegro” ou “vivace” devido seu tempo mental se apresentar disperso e rápido. Com o andamento adequado para cada um dos pacientes, o tempo mental era estimulado ao entrar em contato com a música (BARCELLOS, 2010). 


Considerações Finais

O estudo compreendeu a influência da música no comportamento humano e se constatou que realmente ela exerce um papel preponderante na vida das pessoas, sendo algumas de suas vantagens aquisição de atividades motoras, desenvolvimento da percepção musical, dos sentimentos, da personalidade, da identidade e muitas outras funções que beneficiam a memória. A crescente importância da música é cada vez mais reconhecida como recurso terapêutico, principalmente direcionado a pessoas acometidas por doenças motoras ou que afetem a memória. A musicoterapia tem sido apresentada como um dos caminhos mais rápidos e eficazes para promover o equilíbrio entre o estado fisiológico e emocional do ser humano uma vez que a musicoterapia estabelece uma sincronia entre estes estados. Sua aplicação prática requer todavia conhecimento e habilidade a fim de que, além de proporcionar suas abordagens terapêuticas, o indivíduo possa adquirir um estado de bem estar físico e psíquico.


Agradecimentos

A Deus que, com certeza, me acompanhou durante esta jornada. Aos meus familiares, que me incentivaram a buscar diferencial no conhecimento.
A minha orientadora, professora Dra . Carmem Patrícia Barbosa Lopes, por ter acreditado sempre na realização deste trabalho.




Referências
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sábado, 21 de março de 2020

ALMANAQUE DO SAMBA (ANDRÉ DINIZ)*

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Noel Rosa

“Quem nasce lá na Vila
nem sequer vacila
ao abraçar o samba
que faz dançar os galhos do arvoredo
e faz a lua nascer mais cedo...”
NOEL ROSA e VADICO, “Feitiço da Vila”

Menino de classe média, nascido e criado no musical bairro de Vila Isabel, Noel de Medeiros Rosa construiu sua fulgurante carreira entre 1929 e 1937 e é até hoje celebrado como o mais poético e moderno compositor de samba de todos os tempos. Não há exemplo de letrista que tenha produzido tanto, e com tanta qualidade, em tão pouco tempo.
O bebê Noel Rosa foi retirado a fórceps, em parto difícil, o que lhe deixou um defeito no queixo que o acompanhou por toda a vida, obrigando-o inclusive a se alimentar apenas de líquidos e papas. A fraqueza no organismo, desencadeada pela má alimentação e pela vida boêmia, levou-o à tuberculose, doença que desde o século XIX ficou associada ao glamour da boemia cultural. O fim não tardou, e Noel partiu para outras bandas aos 27 anos, no auge de sua produção, deixando a soma fabulosa de mais de 200 composições.
Poeta inventivo, Noel falava de amor com comicidade, fazia crítica social e comentava com muita propriedade as transformações do seu tempo. Iniciou sua vida musical participando do Bando de Tangarás, formado em Vila Isabel, grupo cujos integrantes eram, além dele, Almirante, Carlos Braga (o Braguinha), Alvinho e Henrique Brito. Tangarás são pássaros que cantam e dançam formando uma roda com um deles no centro, mas, no Bando, o único a usar realmente o nome de pássaro foi Carlos Braga, que acabou por ficar conhecido nacionalmente pelo apelido de João de Barro.


Almirante

Considerado “a maior patente do rádio”, Henrique Domingues Foreis – famoso pelo apelido de Almirante – começou sua promissora carreira no meio musical carioca como cantor e pandeirista do conjunto Flor do Tempo, formado por rapazes de Vila Isabel, entre os quais o compositor Braguinha. A partir de então, foi conquistando cada vez mais espaço nas rádios, ora como excelente intérprete, ora como radialista, papel que desempenhou com maestria, escrevendo, dirigindo e produzindo programas por mais de 40 anos.
Com o material produzido para seus programas sobre música popular, acumulou um dos maiores acervos de música da história e foi o responsável pela permanência da lembrança de inúmeros compositores brasileiros. A partir de 1947, dez anos depois da morte de Noel, Almirante passou a realizar uma campanha de recuperação e popularização da imagem pública do poeta e promoveu ciclos de palestras, programas de rádio e o lançamento de um livro, valorizando e mitificando a imagem de Noel como o principal representante dos áureos tempos do rádio.
Branco e filho da cidade, Noel chegou a cursar alguns meses de medicina e desempenhou o papel de revisor e redator em programas de rádio (não sendo raro que também reescrevesse letras de amigos sambistas). Cantando e compondo sambas na Lapa, na sua amada Vila Isabel, na Mangueira, no morro de São Carlos ou no Salgueiro, seu legado musical e poético foi construído em meio à promiscuidade vitalizadora de um Rio de Janeiro onde as casas das
“boas” famílias ficavam muito próximas aos cortiços, casas de cômodos e favelas.
O andarilho citadino Noel fazia visitas tão freqüentes aos sambistas de morro que vira-e-mexe dormia na casa do compositor Cartola, em Mangueira. A “santa” Deolinda, primeira mulher de Cartola, cuidava de ambos após os porres homéricos que tomavam. Nessas andanças, o poeta da Vila acabou por encontrar seu parceiro mais constante: Ismael Silva, o bamba do Estácio. Ao todo, foram 19 composições, das quais destacamos “Para me livrar do mal” e “Adeus”. Essa parceria – entre cidade e morro – selou uma linhagem do samba urbano que passaria por Ary Barroso e Dorival Caymmi até chegar ao genial Chico Buarque.
Quando mergulhou no meio musical carioca, Noel Rosa queria ter uma composição que alcançasse o grande público. Sonhava entrar num bar onde as pessoas olhassem e apontassem – lá vai o famoso Noel! Esse sonho não se concretizou com suas duas primeiras músicas, uma embolada e uma toada. Mas sua poesia ultrapassaria o círculo de amigos com o samba “Com que roupa?”, composto em 1929 e sucesso absoluto no carnaval. Nesse samba, Noel rompe com seu passado de inspiração nas tradições nordestinas e levanta vôo com as asas dos sambistas do Estácio de Sá, neles se inspirando para criar um estilo próprio. A seguir, a pérola que lembrava em muito o começo da melodia do hino nacional, antes da modificação do compasso da primeira frase: “Agora vou mudar minha conduta/ eu vou à luta/ pois eu quero me aprumar/ vou tratar você com a força bruta/ pra poder me reabilitar/ pois esta vida não está sopa/ e eu pergunto: com que roupa?/ com que roupa... eu vou/ no samba que você me convidou?...”


A crise de 1929 e a roupa de Noel

Noel dizia para o grande público que seu primeiro sucesso, o samba “Com que roupa?”, surgira quando sua mãe, preocupada com seu estado de saúde agravado a olhos vistos pela boemia diária, escondera toda sua roupa para que ele não saísse mais de casa. Segundo o próprio Noel, ele havia combinado com alguns amigos que viessem buscá-lo para uma festa. “Os amigos não faltaram”, contou. “À noite, batiam lá em casa: ‘Como é, Noel, vamos para o baile?’ E eu, dentro do quarto: ‘Mas com que roupa?’ Mal eu tinha acabado de soltar a frase, quando me ocorreu a inspiração de fazer um samba com esse tema...” A difusão do samba pelo Rio de Janeiro – e por todo o país – fez com que o estribilho “Com que roupa?” virasse designativo de falta de dinheiro.
Para os íntimos, Noel contava também que os versos retratavam metaforicamente um país pobre, com fome e miséria, contexto certamente agravado pela quebra da Bolsa de Nova York. O Brasil era extremamente dependente do mercado internacional, e seu principal produto, o café, responsável por 71% das exportações, deixou de ser vendido para o exterior.
A crise de 1929 acarretou, praticamente no mundo inteiro, um nível de desemprego, miséria e fome nunca antes visto no sistema capitalista e que ficou conhecido como a Grande Depressão Econômica.
Noel fez sambas com Heitor dos Prazeres, Cartola, Orestes Barbosa, Lamartine Babo, Antenor Gargalhada, Francisco Alves e muitos outros; entretanto, suas parcerias com o paulista Osvaldo Gogliano, o Vadico, destacam-se por unir poesia, melodia e harmonia de rara beleza. Noel era habilidoso melodista, tocava violão com muita desenvoltura, e, por ironia do destino, acabou por encontrar no melodista paulista – que não tinha as características habituais de seus parceiros – o contraponto ideal de sua poesia. A música “Feitio de oração” celebra justamente esse encontro, diferente de todos os outros que o poeta da Vila mantinha com os sambistas de morro. Vadico, com seu samba-canção, criou as condições para a poesia de Noel afirmar que “...o samba na realidade, não vem do morro nem lá da cidade/ e quem suportar uma paixão/ sentirá que o samba, então/ nasce no coração...” Estava justificada a parceria.
“Provei”, “Cem mil-réis”, “Tarzã, o filho do alfaiate”, “Pra que mentir”, “Conversa de botequim” e o terno e eterno “Feitiço da Vila”, uma ode a Vila Isabel, são mais alguns filhos ilustres da dupla. Na última, Noel brinca com a política do café-com-leite da República Velha (1889-1930), período de hegemonia das oligarquias de São Paulo, produtoras de café, e de Minas Gerais, produtoras de leite: “Quem nasce lá na Vila/ nem sequer vacila/ ao abraçar o samba/ que faz dançar os galhos do arvoredo/ e faz a lua nascer mais cedo/ Lá em Vila Isabel/ quem é bacharel não tem medo de bamba/ São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba...”


Conversa de botequim

O botequim está para o carioca assim como os pubs para os londrinos e os cafés para os parisienses. No ambiente do samba, foi chamado de “escritório” – lugar de encontro, ponto de sociabilidade. Noel Rosa e Vadico, em “Conversa de botequim”, traçam com muita propriedade e humor o garçom ideal:

“Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa/ uma boa média que não seja requentada/ um pão bem quente com manteiga à beça/ um guardanapo e um copo d’água bem gelada/ Feche a porta da direita com muito cuidado/ que não estou disposto a ficar exposto ao sol/ Vá perguntar ao seu freguês do lado/ qual foi o resultado do futebol/ Se você ficar limpando a mesa/ não me levanto nem pago a despesa/ Vá pedir ao seu patrão/ uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão/ Não se esqueça de me dar palito/ e um cigarro pra espantar mosquito/ Vá dizer ao charuteiro que me empreste/ uma revista, um cinzeiro e um isqueiro/ Telefone ao menos uma vez para 34-4333/ e ordene ao seu Osório/ que me mande um guarda-chuva/ aqui pro nosso escritório/ Seu garçom, me empreste algum dinheiro/ que eu deixei o meu com o bicheiro/ Vá dizer ao seu gerente/ que pendure esta despesa/ no cabide ali em frente...”

Ao lado de Marília Batista, Noel Rosa inaugurou o partido-alto na Era do Rádio, com a música “De babado sim”. Marília e Araci de Almeida disputaram o coração do sambista como suas melhores intérpretes. Suas vozes imortalizaram o repertório do poeta. Podemos afirmar, apoiados no magnífico trabalho de João Máximo e Carlos Didier, Noel Rosa, uma biografia,2 que a vida de Noel está registrada em sua obra. Seus amores foram cantados em “Dama do cabaré”, “Pra que mentir” e “Último desejo”; em “Palpite infeliz” prestou sua homenagem a Vila Isabel; a crítica à modernidade está em “O século do progresso” e “Não tem tradução”; e, para finalizar, sua crítica social pode ser ouvida em “O orvalho vem caindo”. 
As letras de Noel Rosa eram inovadoras para a época. Isso explica por que seus maiores sucessos foram músicas de carnaval (a exemplo de “Com que roupa?” e “Pierrô apaixonado”, parceria sua com Heitor dos Prazeres). Seu legado passou a ser mais bem compreendido após sua morte, demonstrando a cada dia a vitalidade e a modernidade de seus versos. Não é à toa que Noel é ainda hoje muito revisitado por novos intérpretes.
Poucos compositores cantaram o Rio melhor que Noel. O Rio das gírias, dos costumes, da malandragem, da graça, da delegacia policial, do revólver, do xadrez, do Tarzan, dos bairros, da sua querida Vila Isabel.


Wilson Batista

Foi na Lapa que eu nasci 
foi na Lapa que eu aprendi a ler
foi na Lapa que eu cresci
e na Lapa que eu quero morrer
WILSON BATISTA, “Largo da Lapa”

É pouco provável que haja na história do samba um compositor que tenha vivido tão intensamente a boemia carioca quanto Wilson Batista de Oliveira. Nascido na cidade de Campos, no estado do Rio de Janeiro, Wilson migrou para a antiga capital da República por volta de 1929, com 16 anos de idade. 
Estreando no mundo da música pela voz de Aracy Cortes, com o samba “Na estrada da vida”, Wilson Batista foi apurando seu processo de criação e acabou por desenvolver um raciocínio rápido para compor, utilizando a primeira ideia que viesse à mente; tirava o papel do maço de cigarros para fazer anotações e batia na caixa de fósforos para marcar o ritmo de suas melodias: imaginava a composição e saía cantando. Parecia que a música já nascia pronta.
Wilson vivenciou intensamente a boemia da Lapa, com seus cafés e cabarés.
Desse cenário, no qual desfilavam prostitutas, malandros, gigolôs, policiais e boêmios de todos os tipos, ele tirou inspiração para sua diversificada obra. Rotulado de malandro, vestia-se com apuro: terno de linho branco, camisa de seda pura e cachecol branco jogado sobre os ombros.
Fotógrafo do cotidiano, retratou a malandragem em “Lenço no pescoço”, o amor em “E o 56 não veio” e “Louco”, o morro da Mangueira, onde viveu seu primo Cartola, em “Mundo de zinco” (“Aquele mundo de zinco que é Mangueira/desperta com o apito do trem/ Uma cabrocha, uma esteira/ um barracão de madeira/ qualquer malandro em Mangueira tem”). Fez músicas de forte cunho social – “Pedreiro Waldemar” diz assim: “Você conhece o pedreiro Waldemar?/ Não conhece?/ Pois eu vou lhe apresentar/ De madrugada toma o trem da circular/ Faz tanta casa e não tem casa pra morar...” E “Chico Brito”: “O homem nasce bom/ e se bom não se conservou/ a culpa é da sociedade/ que o transformou.”
Com o cantor e compositor baiano Erasmo Silva, que conheceu no Café Nice, em 1936, Wilson formou a dupla Verde e Amarelo. Os dois se apresentaram em São Paulo, no Rio Grande do Sul e na Argentina. Contratados em 1938 pela rádio May rinkVeiga, gravaram inúmeros discos e acabaram por se separar em 1951.
Uma polêmica musical entre Noel e Wilson marcou a história do samba.
“Lenço no pescoço”, lançada em 1933, traz versos que exaltam o modo de vida do malandro. Noel respondeu no mesmo ano com “Rapaz folgado”, contestando a identificação da figura do sambista com a malandragem. Wilson, ainda novo no meio musical carioca e muito jovem para brigar com o famoso Noel, foi tirando proveito da fama momentânea e prolongou a contenda com “Mocinho da Vila”, que por sua vez teve como réplica a obra-prima “Feitiço da Vila”. Wilson compôs então “Conversa fiada”, música bem elaborada, já revelando o grande sambista que ainda estava por se consolidar. Esta foi silenciada pelo antológico e elegante “Palpite infeliz”. Os fracos “Frankenstein da Vila” e “Terra de cego”, de
Wilson, não mereceram resposta do poeta da Vila. Os polemistas se conheceram entre um e outro desafio e tornaram-se amigos. Hoje podemos agradecer: qualquer que tenha sido o motivo da desavença, quem saiu ganhando foi a música brasileira.
Como faria um bom “repórter”, Wilson descreveu os costumes e o cotidiano do submundo carioca. Seu convívio diário com o ambiente da Lapa e da praça Tiradentes e com personagens que viviam de golpes, exploração de mulheres e jogo e tinham uma acentuada aversão ao trabalho fez com que reproduzisse as brincadeiras, as gírias e a linguagem dos matreiros da época. Suas parcerias se deram com a nata do mundo do samba: Ataulfo Alves, Geraldo Pereira, Haroldo Lobo, Sílvio Caldas, Orestes Barbosa, Dunga e Moreira da Silva, entre outros. 
Infelizmente a voz do “cabo” Wilson, como os amigos gostavam de chamá-lo, calou-se em 1968 na mais absoluta miséria. É a sina do “Pedreiro Waldemar” na música brasileira.


Gírias
Eis aqui algumas gírias que os pesquisadores Luís Pimentel e Luís Fernando
Vieira encontraram nos escritos do compositor.3
Bife com chaleira – média com café e leite Bira – hotel barato
Bomba – música de carnaval
Com a cara – sem dinheiro
Pisante – sapato
Comprositor – comprador de samba Folgar – zombar
Um peru – vinte cruzeiros
Matusco – maluco
Penante – chapéu
Três pernas – trezentos cruzeiros
Panariço – chato





* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NO COMPORTAMENTO HUMANO (THE INFLUENCE OF MUSIC ON HUMAN BEHAVIOR) – PARTE 01

Por Jessica Adriane Weigsding - Bacharel em ciências biológicas pela UNICESUMAR (jehweigsding@hotmail.com) e Carmem Patrícia Barbosa - Professora doutora do UNICESUMAR e UEM (carmemmec1@gmail.com)


RESUMO
A música, mais do que qualquer outra arte, tem uma extensa representação neuropsicológica, com acesso direto à afetividade, controle de impulsos e emoções, e motivação. Ela é mencionada como sendo capaz de estimular a memória não verbal; um elemento de aplicação nas funções cerebrais, que envolve um armazenamento de símbolos organizados e que estimula a capacidade de retenção e memorização. A musicoterapia também auxilia a minimizar os sinais e sintomas de várias doenças, pois melhora a comunicação, expressão, organização e relacionamentos. A música é indicada para o desenvolvimento de potenciais e recuperação de funções, com objetivos terapêuticos relevantes que envolvem a melhora das necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas do indivíduo. O objetivo deste estudo é avaliar, por meio de pesquisa bibliográfica, o quanto o ser humano pode ser influenciado pela música. Nesse contexto será apresentada a correlação entre a música e as pessoas. O estudo demonstrou que a música de fato é um dos caminhos mais rápidos e eficazes para se promover o equilíbrio entre o estado fisiológico e emocional do ser humano, e que lhe traz bem estar físico e psíquico.

Palavras-chave
Música; musicoterapia; comportamento humano 



Introdução

A música, mais do que qualquer outra arte, tem uma representação neuropsicológica extensa, com acesso direto à afetividade, controle de impulsos, emoções e motivação. Ela pode estimular a memória não verbal por meio das áreas associativas secundárias as quais permitem acesso direto ao sistema de percepções integradas ligadas às áreas associativas de confluência cerebral que unificam as várias sensações. Exemplo pode ser dado referindo-se à sensação gustativa, olfatória, visual e proprioceptiva as quais dependem da integração de várias impressões sensoriais num mesmo instante, como a lembrança de um cheiro ou de imagens após ouvir determinado som ou determinada música. O conjunto dessas atividades motoras e cognitivas envolvidas no processamento da música é chamado de função cerebral. Tal função exige várias operações mentais tais como interpretação de ritmos, harmonias, timbres, expressão motora, processos cognitivos e emocionais para a formação de um complexo de interpretação da música (MUSZKAT, 2012). Nas crianças, a música também exerce grande influência em seu desenvolvimento e funcionamento cerebral, sendo entendida pelo cérebro como uma forma de linguagem. Assim, à semelhança da linguagem falada, a música envolve diferentes entonações, ritmos, andamentos e contornos melódicos. É considerada uma arte que se utiliza da linguagem para a comunicação e expressão (CUERVO, 2011). A partir disso, compreenderam-se aspectos relacionados à dominância cerebral na função dos hemisférios cerebrais. O hemisfério esquerdo contém as habilidades verbais, enquanto as não verbais dependem do hemisfério cerebral direito (SCHMIDEK, 2005). A neurociência mostra que o cérebro de um praticante de música em longo prazo, como em músicos profissionais, funciona de uma forma diferente do cérebro de um não músico. O primeiro apresenta maior capacidade de aprendizado, atenção, concentração, controle emocional e normalmente são indivíduos bem humorados. No desenvolvimento de suas atividades, como executar uma peça musical, eles usam os dois lados do cérebro ao mesmo tempo devido o desenvolvido das habilidades musicais localizadas em ambos os hemisférios indicando mudanças positivamente mensuráveis (TRAVIS, 2011; AAMODT e WANG, 2013). Assim, diante de toda a importância sugerida à música, o presente estudo foi feito com o objetivo de melhor compreender o que a música de fato pode ocasionar ao comportamento.


Desenvolvimento

Música

Processo de reconhecimento do som

A música e a linguagem são ferramentas de estudo que exploram funções cerebrais. Enquanto a voz falada envolve entonação, ritmo, andamento e um contorno melódico, a música utiliza-se da linguagem de símbolos para comunicação e expressão. No entanto, ambas dependem de esquemas sensoriais responsáveis pela percepção e processamento auditivo e visual para que haja uma organização temporal e motora necessárias para a fala e execução musical (MUSZKAT et al, 2000). Ao chegarem aos ouvidos, os sons são convertidos em impulsos que percorrem os nervos auditivos até o tálamo, região do cérebro considerada central para as emoções, sensações e sentimentos. Os impulsos cerebrais provocados pela música afetam todo o corpo e podem ser detectados por técnicas de escaneamento cerebral ou neuroimagem (GASPARINI, 2003). Quando um som é ouvido, o ouvido externo o capta, transfere e conduz a onda de pressão sonora (energia sonora) pelo canal auditivo em direção à membrana timpânica a qual vibra. Tal vibração é transmitida aos ossículos do ouvido, de modo que martelo, bigorna e estribo oscilam em resposta ao som e, através do movimento mecânico, conduzem o som do meio gasoso para o meio líquido do compartimento seguinte. O martelo recebe inicialmente o estímulo e o estribo empurra a cóclea que se situa numa cavidade no osso temporal (ouvido interno) criando pressão sobre o fluido lá dentro. Na cóclea existem células ciliadas, que atuam como receptores sensoriais os quais geram estímulos elétricos através de sequências de descargas nervosas para o nervo auditivo, que vai transmiti-lo ao cérebro, no córtex auditivo, que se situa no lobo temporal (SANTOS, 2005). A cóclea separa os sons complexos em suas frequências elementares e cada célula ciliada está afinada para diferentes frequências de vibração, sendo que no cérebro também existem células que respondem melhor a frequências específicas. O nervo auditivo recebe informação nervosa das células ciliadas e a transmite ao tronco encefálico que vai repassar ao tálamo que, enfim o direciona ao córtex ou a bloqueia. Todo o mecanismo nervoso de condução auditiva permite, por exemplo, prestar atenção a um só instrumento numa orquestra. O cérebro processa a música de forma distribuída uma vez que existem muitas áreas auditivas no córtex cerebral as quais são de difícil delimitação. Sabe-se que a percepção musical envolve as áreas primárias, secundárias e terciárias do sistema auditivo, além das áreas de associação auditivas nos lobos temporais e da Área de Wernicke. Esta, por sua vez, está ligada à percepção da linguagem e do processamento da maioria das funções intelectuais do cérebro. As áreas primárias recebem sinais do ouvido interno através do tálamo e estão envolvidas nos primeiros estágios da percepção musical tais como frequência de um tom, contornos melódicos e volume. Áreas secundárias processam padrões mais complexos de harmonia, melodia e ritmo. As terciárias permitem uma percepção geral da música (GUIDA, et. al., 2007). Segundo estudos realizados no Instituto de Fisiologia da Música e da Medicina da Arte, em Hannover na Alemanha, o lado esquerdo do cérebro parece processar elementos básicos como intervalos musicais e ritmos ao passo que o lado direito relaciona-se ao reconhecimento de características como métrica e contorno melódico. Vale lembrar que o córtex auditivo primário é amplamente influenciado pela experiência de forma que, quanto maior for a experiência, maior é o número de células estimuladas e reativas a sons e tons musicais importantes. A experiência induz ao aprendizado e este afeta os processamentos nas áreas auditivas secundárias e de associação, onde se supõe que os padrões musicais mais complexos, como harmonia, melodia e ritmo são processados. Desta forma, aprender a tocar um instrumento faz com que haja uma reorganização de diversas áreas cerebrais como, por exemplo, as áreas motoras, o corpo caloso e o cerebelo.
Esta reorganização se faz através da plasticidade neural, quer seja a partir do aumento no número de sinapses e de neurotransmissores, quer seja como o aumento da potência da sinapse existente e a formação de novas conexões. Este fato ocorre predominantemente a partir de exercícios musicais os quais são apontados como capazes de desenvolverem o hemisfério esquerdo (área da linguagem) e de beneficiarem a memória e a realização de tarefas espaciais (CARTER, 2009). A música também tem sido apontada como hábil a influenciar o estado emocional. A percepção musical relacionada às emoções depende de variáveis tais como a experiência emocional específica de cada um. No entanto, de acordo com pesquisas do Instituto de Música e Aprendizagem de Paris (IRCAM) e Dijon (Lead), as reações emocionais de indivíduos sem formação musical e de músicos são bastante parecidas (GUIDA, et. al., 2007). A capacidade de a música influenciar o estado emocional do indivíduo se deve ao fato dela produzir reações fisiológicas cuja magnitude parece depender do conteúdo emocional. Portanto, a percepção musical envolve muitas variáveis, muitas áreas encefálicas e é capaz de influenciar o corpo todo através das reações emocionais e fisiológicas (CARTER, 2009). Desta forma, pode-se afirmar que a música, que é parte da cultura humana desde tempos remotos, é um instrumento de diálogo não verbal. Ela é inata e pode desencadear profundos processos de transformação pessoal os quais afetam não só o próprio indivíduo, mas também o universo que o rodeia em todas as suas manifestações e formas.


Constituição, características e elementos musicais

O som é caracterizado como uma onda sonora mecânica percebida pelo sentido da audição devido suas características musicais, timbre (amplitude), altura (frequência) e intensidade. O timbre é uma característica sonora que permite distinguir sons que possuem mesma frequência, porém são emitidos de fontes diferentes, por exemplo, ao tocar a mesma nota em dois instrumentos diferentes, o som produzido tem a mesma altura (frequência), mas mesmo assim, é possível distinguir o som de cada instrumento porque o timbre (determinado pela forma de onda emitida) é diferente para cada um. A intensidade é a característica que distingue sons fortes e fracos. Ela depende da amplitude das vibrações que as partículas de ar realizam sobre suas posições de equilíbrio enquanto um som se propaga, portanto quanto maior a frequência, mais agudo é o som e vice-versa. Esta unidade é medida em Hertz (Hz) (figura 1) (NISHIDA, 2007)

Ritmo, melodia e harmonia são os principais elementos que constituem a música. Dentre eles, o ritmo é o que mais se associa à percepção de duração no tempo, de periodicidade, pois é algo que flui, que se move, é um movimento regulado. É importante, pois sem movimento não há som uma vez que todo movimento produz som, mesmo que este não seja percebido pelo ouvido humano. Vale ressaltar que o aparelho auditivo humano é sensível a sons de frequência que estejam entre 20 e 20.000 Hz. Tal capacidade de reconhecimento auditivo é conhecida como espectro audível ou limiar de audibilidade (MENEZES, 2004). Estudos (CARRER, 2008) foram feitos a fim de entender os efeitos fisiológicos e psíquicos das ondas sonoras de baixa frequência no corpo humano os quais demonstraram que, para a maioria dos indivíduos, a vibração sonora mais confortável foi a de 69,2 Hz e a mais desconfortável foi a de 24,49 Hz. As sensações benéficas descritas pelos participantes foram leveza, tranquilidade, relaxamento, sonolência, paz, meditação, sonho, anestesia, esquecimento de imagens e cenas ocorridas durante a aplicação, maior consciência corporal, melhora postural, sensação de bem estar, redução de dores musculares, sensação de conforto, menos ansiedade, desobstrução das vias aéreas e desejo de urinar (por estimulação do sistema autônomo). 

Estudos sobre a influência da música no comportamento humano categorizam, principalmente, dois estilos de música, a sedativa e a estimulante. A música de estilo sedativo compreende os andamentos lentos, com harmonias simples e leves variações musicais. Uma de suas características é o fato dela poder tornar suave uma atividade física ou aumentar a capacidade contemplativa do ser humano produzindo um efeito relaxante, com redução da frequência cardíaca, pressão arterial e ventilação. Ao contrário, a música estimulante pode produzir um efeito excitante aumentando o ritmo da respiração, da pressão arterial e dos batimentos cardíacos em consequência de ativação autônoma simpática que produz uma sensação de aumento do estado de alerta. Neste caso, uma pré-disposição à atividade motora é gerada assim como maior ativação mental devido seus tempos mais rápidos, forte presença de articulações em staccato (notas com curta duração), harmonias complexas e dissonantes e mudanças repentinas na dinâmica (BERNARDI et al., 2006).




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