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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

DISCO DE ZÉ RENATO TRAZ SAMBAS POUCO CONHECIDOS DE PAULINHO DA VIOLA

Com nove faixas, "O amor é um segredo'' reúne faixas 'garimpadas' em álbuns antigos disponíveis nas plataformas digitais. Gravado no Recife, projeto tem participação de músicos pernambucanos

Por Mariana Peixoto 


O cantor e compositor Zé Renato reuniu canções tristes sobre o amor criadas por Paulinho da Viola e parceiros, "os sambas mais bonitos da história", de acordo com ele (foto: Philippe Leon/divulgação)


Como muita gente, o cantor, compositor e violonista Zé Renato vem se desfazendo, aos poucos, de sua coleção de CDs. “As plataformas digitais têm vantagens e desvantagens. Uma das vantagens é permitir acesso a discos que você não ouvia mais”, comenta. Foi por meio delas que Zé Renato passou, há pouco mais de um ano, a reouvir a obra de Paulinho da Viola.

“Fiz uma playlist e comecei a escutar músicas que só tinha ouvido na época de lançadas. Muitas, que estão um pouco escondidas no repertório dele, soaram como novas. Vi ali que havia uma história a ser contada”, diz. Essa foi a base de seu novo álbum, O amor é um segredo – Zé Renato canta Paulinho da Viola.


Curto, sem chegar a meia hora, o disco reúne nove antigos sambas de Paulinho – boa parte deles “lados B”. “A maioria apresenta situações amorosas tristes, que na minha opinião são os sambas mais bonitos da história”, acrescenta Zé Renato. Entre as canções registradas estão Um caso perdido (Paulinho da Viola), Sofrer (parceria de Paulinho com Capinam) e Minhas madrugadas (com Candeia). O título foi tirado de um verso de uma das faixas, Só o tempo.

Nessa redescoberta da obra de Paulinho da Viola, Zé Renato fez tudo bem reduzido. Em cena estão basicamente sua voz e seu violão, juntos, registrados em um único dia de estúdio. “Queria deixar evidente a minha história com o violão e gravar como se estivesse em casa”, ele conta. As participações adicionais, de sopro e percussão, foram feitas também em um só dia.

O amor é um segredo foi gravado no Recife, no Studio Luni Áudio. “Tudo o que faço é muito na base da intuição. Há pouco tempo me reencontrei com o Lula Queiroga, com quem tive muito contato nos anos 1980, quando ele vivia no Rio. Começamos a conversar e falei do projeto. Pois ele tem a produtora Luni, com uma sala para captação de áudio.”

O álbum não só foi gravado em Pernambuco, mas também com músicos e produtores de lá. Lula e Tostão Queiroga (que tocou as percussões) coproduziram o disco com Zé Renato. Spock fez alguns metais. “Registramos em vídeo toda a gravação e vamos, aos poucos, postar os vídeos”, continua.

A capa do álbum foi criada na capital pernambucana. Na imagem está seu Paulinho, o motorista da produtora Luni, e a mulher. “É um casal negro de idosos dando um beijo terno. A imagem tem tudo a ver com o disco, traz vários significados para o momento que vivemos”, afirma Zé Renato.

Dividindo-se entre a carreira solo e o trabalho com o Boca Livre, o cantor lança o novo álbum sábado e domingo (11 e 12), no Sesc Bom Retiro, em São Paulo. No início de fevereiro, apresenta-se no Teatro Rival, no Rio de Janeiro. Ao seu lado terá os músicos Eduardo Neves (sopros) e Paulinho Dias (percussões).

“Minha vida sempre foi assim, dividida em várias coisas. Já em fevereiro começo a produzir um novo álbum infantil”, revela Zé Renato. Quanto a Paulinho da Viola, houve uma consulta prévia sobre o álbum. “Conversamos antes da gravação, ele é muito carinhoso, mas reservado”, conta o músico, que já enviou o álbum ao compositor. “Ele ainda não retornou. Estou ansiosamente aguardando.”

(foto: Mills Records/reprodução)

O AMOR É UM SEGREDO
Zé Renato
Mills Records
Nove faixas
Preço sugerido: R$ 24,90
Disponível em CD e nas plataformas digitais

quarta-feira, 28 de março de 2018

PROGRAME-SE


sábado, 24 de fevereiro de 2018

CANTOR ZÉ RENATO LANÇA BEBEDOURO, ÁLBUM SOLO E COM CANÇÕES INÉDITAS

Músicas foram feitas em paralelo ao trabalho com o Boca Livre. Artista diz que compõe para si mesmo, torcendo para que as pessoas gostem




Bebedouro, o novo CD de Zé Renato, cheira a maresia. Soa como “água de mina da mata”, como ele canta em Fonte de rei, faixa que abre o disco, parceria sua com Paulo César Pinheiro. Remete tanto às águas paradas da Lagoa Rodrigo de Freitas, mencionadas em Sacopenapan, de Zé e Joyce Moreno, quanto ao mar alto que traz as “mágoas atlânticas” e “tristezas abissais” dos versos de Náufrago, esta letrada por Nei Lopes.

Produzido pelo saxofonista Zé Nogueira e pontuado pelo piano de Cristóvão Bastos, o trabalho – o primeiro com composições inéditas em sete anos de viagens paralelas, com o Boca Livre e outras companhias de aventuras musicais – traz ainda encontros com João Cavalcanti (ex-Casuarina), autor da amorosa Samba e nada mais;

Dori Caymmi, que empresta o vozeirão a ela; Capinam, letrista da doce Agora e sempre; Moraes Moreira, com quem fez a descompromissada Vamos curtir o amor; e Moacyr Luz, da carioquíssima Agogô, impregnada do tal suingue nativo e da liberdade que o samba dá, e a mais urbana do CD.

Aos 41 anos de carreira (61 de nascimento), Zé Renato define: faz “música sincera”. Segue exercitando o ofício de compositor, embora seja mais visto como intérprete, por conta de projetos bem-sucedidos em que cantou Zé Keti (Natural do Rio de Janeiro, de 1995), Silvio Caldas (discos de 1993 e 1998), por ocasião dos 90 anos do “caboclinho querido”, e Noel Rosa e Chico Buarque (Filosofia, de 2001).

”Faço do único jeito que sei fazer: por prazer, para mim mesmo, torcendo para que as pessoas gostem. Adoraria que as pessoas saíssem cantando o Bebedouro por aí, só que sei que é uma certa utopia”, brinca Zé, acompanhado no CD por Guto Wirtti (baixo), Kiko Freitas (bateria), Thiago da Serrinha (percussão), Bebe Kramer (acordeom), Luciana Rabello (cavaquinho), Dadi (baixo), entre outros grandes.


VIOLÃO

“Eu queria que o violão não fosse ofuscado, que viesse primeiro, mesmo que meu violão seja limitado. O Cristóvão foi perfeito para isso, com seu piano econômico, deixando as coisas acontecerem”, ele explica. Os afetos que desaguaram em Bebedouro têm origens distintas. Zé já conhecia Moraes Moreira, mas eles nunca haviam composto juntos. Certa vez, encontraram-se num aeroporto, entre shows, e trocaram telefones, com a promessa de um dia fazer algo juntos.

Mal entrou no avião, o baiano já havia mandado a letra do que viria a ser Vamos curtir o amor. “O amor é sim, explosivo/ Diferente da amizade/ Inunda se for preciso/ É feito um rio que invade/ Afoga tudo que é queixa/ Quando se vai ele deixa/ A sombra de uma saudade... “Zé não fez por menos: chegou em casa e criou a música, fazendo-a chegar de volta ao novo parceiro. Quando viu a composição pronta, percebeu o parentesco da composição com o repertório solar dos Novos Baianos.

Em João Cavalcanti ele enxerga um expoente de uma safra de cantautores que admira, assim como Moyseis Marques, com quem também já firmou parceria. São eles que o cantor cita quando lhe perguntam sobre artistas de uma geração mais nova que lhe chamam a atenção. Com Nei Lopes, Zé já trabalhara em sambas de Cabô, disco de 1999.

Tendo o barulho de ondas do mar de fundo, Náufrago é impressionista – “Rastros na areia desenhando imprecisões/ Vagas ideias, vendavais, embarcações/ Por sedimentos, fragmentos de vulcões/ Longe horizonte se desfaz ameaçador/ Em clarões, trovões, pavor” – e lírica – “Eu que sempre amante/ Jamais soube amar/ Na maré vazante/ Me afoguei no mar/ Eu que nunca dantes/ Fui navegador/ Fiz-me naufragante/ Pra morrer de amor”.

PC Pinheiro lhe entregou letras datilografadas num envelope, para que escolhesse as que quisesse. As imagens que mais o cativaram foram as descritas em Fonte de rei (“água de prata”, “areia de ouro”, “poesia pra canto de passarinho”) e em Pedra do mar (a pedra que o mar joga na calçada, que cega o olhar e clareia a estrada, o “talismã de esperança”). Os dois têm “umas 20” músicas juntos. “Dava para fazer outro disco só com o que já fiz com Paulinho, com Joyce (que entrou também com Noite) e com Pedro Luis (parceiro em Cabô)”, acredita.

Foi sorvendo Fonte de rei que o cantor chegou ao espírito do CD. Sua memória musical afetiva o levou a Limite das águas, LP de Edu Lobo de 1976 – o ano em que começou sua navegação pela música –, a Milton Nascimento, a Egberto Gismonti. “O ouvinte atento percebe essas referências expostas”, aponta.

Moacyr Luz é seu companheiro de Dobrando a Carioca, com Guinga e Jards Macalé. O quarteto lançou CD e DVD em 2016, de clássicos de épocas distintas, como Vapor barato (Waly Salomão/Macalé), Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc) e Acertei no milhar (Wilson Batista/Geraldo Pereira).

Ao olhar para o passado e encarar o presente, Zé Renato diz, delicadamente, que percebe um certo “desapego” da preocupação com a riqueza melódica e harmônica no cenário musical atual. “Sem querer ser nostálgico e não desfazendo de nada do que ouvimos hoje em dia – não vou dizer se é melhor ou não, de maior ou pior qualidade –, o que me conectou e me conecta à música são justamente as melodias e as harmonias, mais do que as letras. A sinuosidade de um Elton Medeiros, Tom Jobim, Milton... A riqueza de caminhos é o que me comove. Hoje temos um distanciamento disso. O público se desacostumou. Sou old fashioned”, ri o cantor, que, jovenzinho, só se via como compositor.” Quando comecei, o canto não era o principal, não via como um objetivo. Tanto que as referências para mim eram compositores que cantam, como Chico e Milton. Eram eles que eu queria ser.”


Bebedouro
Artista: Zé Renato
Lançamento independente
Preço sugerido: R$ 34,90

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

ZÉ RENATO - ENTREVISTA EXCLUSIVA - PARTE 02

Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica a partir de sua trajetória enquanto integrante de vários projetos musicais, assim como também instrumentista, compositor e intérprete em diversos projetos solo

Por Bruno Negromonte (com colaboração de Karina Sampaio)




Dando continuidade ao agradabilíssimo bate-papo já iniciado aqui mesmo em nosso espaço, hoje fechamos a abordagem à carreira deste artista que ao longo de 2017 completa quatro décadas de uma carreira dinâmica, que vem se renovando e substanciando-se a partir dos mais distintos projetos como, de certo modo, já foi mostrado na primeira parte de nossa conversa. Hoje, em nosso bate-papo o cantor, instrumentista e compositor relembra seus projetos duos (e nos diz o porquê de intervalos significativos entre eles), os projetos coletivos dos quais faz parte, a possibilidade da releitura de algum disco de sua carreira, as faixas que fazem parte de sua extra-discografia, o novo projeto fonográfico ao qual está fazendo parte ao lado do Edu Lobo, Dori Caymmi entre outros assuntos que podem ser conferido logo abaixo. Uma excelente leitura para todos!




Esse box vai sair sob produção do Marcelo Fróes novamente?

ZR – Isso... exatamente.


O pontapé inicial para os seus projetos em duo se deu com o Cláudio Nucci em 1984. Daí 16 anos depois você vem com “Memorial” (com Wagner Tiso) e, dez anos depois, “Papo de Passarim” (com Renato Braz). Você que se ver envolto em tantos projetos musicais e fonográficos por que intervalos tão longos em projetos registros de projetos neste formato?

ZR – É porque na verdade eu não me programo assim para essas coisas, vão acontecendo... são encontros, coisas que... as vezes uma viagem encontro uma pessoa... no caso do Renato eu não me lembro exatamente em que circunstância foi, mas nos encontramos e a gente tem muita identificação musical, as referências musicais dele são muito parecidas com as minhas e tal... e isso acabou gerando o trabalho. Quer dizer... como tem outras coisas que podem acontecer... tem músicas, por exemplo com... parcerias com... muita coisa com a Joyce (já fizemos inclusive um espetáculo juntos...), pode isso, quem sabe no futuro virar um trabalho... Nesse caso seria autoral.... com o Pedro Luís também... parceiro que a gente tem já muita coisa juntos. Tudo são projetos que pro futuro podem acontecer. Tem nada marcado, nada definido, mas são coisas que já foram conversadas. A gente vai reunindo assim um trabalho significativo que dá vontade de fazer... então isso pode ser que aconteça.


Nestes 40 anos você sempre se fez um artista atuante também em projetos coletivos como a Banda Zil, ZR Trio, Ponto de Encontro, Navegantes e mais recentemente o Dobrando a carioca. Quais são as facilidades e dificuldades em participar de projetos como estes?

ZR – Banda Zil vai sair agora, vai sair um DVD que foi gravado e que tá pra sair. Vai sair esse ano... tá no momento lá de finalização e de detalhes finais... Olha, eu já tenho essa escola do Boca Livre né? Como tenho já um tempo (bastante) que trabalho com.. desde o Cantares (que também era um grupo antes do Boca Livre). Então eu tenho já essa... essa... aprendi essa dinâmica de trabalhar com grupo. Então pra mim não é uma coisa difícil. Eu consigo me adaptar... Tem grupos que você tem que saber ouvir os outros, nem sempre a sua opinião prevalece... e eu acho que essa é uma coisa de... é um aprendizado de vida, acaba sendo...você conviver com as pessoas e saber que você não é infalível, que suas ideias não são sempre geniais e que possa... e nem é questão de ser ideias boas ou não, as vezes, as suas ideias por melhores que sejam não se adaptam àquele contexto. Então é isso... isso aí a gente vai aprendendo.


São dezenas de discos ao longo desses 40 anos de carreira. Em épocas de releituras como a que vivemos (um exemplo é o Alceu com a turnê “Vivo Revivo”) que disco em sua discografia você acha que mereceria uma releitura?

ZR – Olha... por que não? Não sei, rapaz... é uma ideia... quem sabe? Acho que tem aí muita coisa que... Agora, por exemplo, vai ser lançado... agora dia 08 de agosto, a gente vai lançar nas plataformas digitais, o “Cabô”, que é um disco meu de sambas com parcerias com várias pessoas. Esse disco estava fora de circuito há muito tempo e a gente vai lançar ele nas plataformas digitais e inclusive junto com isso um vídeo que foi feito na época, um vídeo clipe da música “Cabô”, onde participam várias pessoas. Tudo isso vai acontecer agora dia 08 de agosto, tá marcado.


Em comemoração a estes 40 anos foi lançado recentemente, sob produção do Marcelo Fróes, o Box Zé Renato. Um projeto que traz seus dois primeiros discos e gravações raras. Dentre estes raros registros qual ou quais você destacaria e por qual razão?

ZR – O momento com o Tom é bem especial porque... imagina... foi marcante na minha vida ter a oportunidade de estar junto com ele. Eu não era íntimo dele, mas tivemos ali alguns encontros que foram marcantes.


Hoje você trouxe à Recife um show cujo parceria teve início à época do Projeto Vitrine (quando você ainda estava iniciando a carreira). Nestes 40 anos de amizade e parceria pelos palcos da vida já não deveria ter dado origem a algum registro?

ZR – É... Tudo isso que eu te falei, tudo pode acontecer... Agora a gente tava um tempo afastado... O Toninho mora em Belo Horizonte e tal... esse disco sobre o Luizinho Eça foi meio que uma oportunidade que a gente tá tendo meio que de se reencontrar... Quem sabe pode acontecer.


O disco conta também com a participação do Edu... Tem como você falar um pouquinho desse seu mais recente projeto?

ZR – Do Edu e do Dori Caymmi... Olha, é um disco interessante porque ele mostra o lado compositor do Luizinho Eça que pouca gente conhecia. O Luizinho era muito conhecido como maestro, arranjador, pianista do Tamba Trio. Esse lado compositor inclusive ele não tinha muitas composições, então esse disco é importante também por isso: porque mostra esse lado compositor.  


Eu não sei se chegou ao seu conhecimento que nesse mesmo período há um pianista carioca lançando um projeto também em homenagem ao Luiz Eça...

ZR – Eu sei... legal porque o Luizinho é um cara muito importante na vida de muita gente. Eu tive a oportunidade de conviver um pouco com ele também e era uma pessoa que tinha personalidade, era um cara muito alegre que estimulava muito as pessoas, os compositores, músicos novos... ele tinha prazer de estar com gente em volta. Então... um músico importantíssimo, mestre de muita gente, professor mesmo... acho que esse disco é muito oportuno porque reúne pessoas que... o conceito do disco, o nome “Em casa”, que é essa história que acontecia na casa dele de reunir pessoas.


Esse ano só tem esse projeto do box para sair ou tem mais algum?

ZR – Não... Saiu o “Dobrando a carioca” que é aquele projeto que lançamos do ano passado que a gente tá fazendo shows esse ano ainda. Fizemos agora uma série de shows aí e... o Boca Livre continua na estrada, agora, inclusive, esta semana vou estar em Belém... Enfim... Eu não sei...


O “Papo de Passarim” com o Renato Braz...
ZR – Com o Renato Braz a gente vai tá essa semana a outra em Barreirinhas (MA) em um festival eu vou estar em Barreirinhas com o Renato depois de muito tempo também que a gente não se apresenta, a gente pega aquelas músicas todas aprender tudo de novo, relembrar porque eu não toco aquilo há muito tempo, mas vai ser legal... Então é assim, é isso aí que você tá vendo, a minha vida é muito diversificada, a minha vida profissional.


Você tem uma relação de muita cumplicidade com Recife. Geralmente todos os projetos seus chegam à capital pernambucana. O que o público pernambucano pode esperar do Zé Renato?

ZR – Muitos passam por aqui é...


... O projeto infantil, o tributo ao Chico...

ZR – Isso, exatamente.


O próprio “Papo de Passarim” vocês fizeram à época na Casa de Seu Jorge...

ZR – Fizemos? Acho que não... A casa de Seu Jorge eu fiz sozinho. “Papo de passarim” fizemos aqui? Não me lembro, não... pode ser que tenhamos feito, mas eu não lembro... Não sei se foi no Parque, talvez...


O Parque está fechado há uma eternidade...

ZR – Então eu não me lembro... acho que não viemos com o “Papo de passarim”. Eu sei que a gente foi à Natal, mas não sei se fizemos Recife. Eu não lembro...



O que o público pode ainda esperar de Zé Renato para breve?

ZR – Olha, tem tudo isso.. é aquela coisa que te falo. Um projeto, uma coisa que eu realmente ando pensando e tentando ver se realizo é um disco autoral porque tem muitas músicas, tenho composto com muita gente, como eu te falei: Joyce, Paulo César Pinheiro, João Cavalcanti, parceiros assim... são muitas canções...


Tem alguma coisa com Zé Manoel? Porque eu vi, através do Youtube, vocês apresentando-se juntos em São Paulo certa vez.

ZR – É fizemos São Paulo.  Tem até uma música que está com ele... Zé eu sou fã dele, acho o trabalho dele muito legal. Tem lá uma canção com ele... então... a gente tem um projeto que eu fiz o ano passado que chama-se Bebedouro, que é o nome possivelmente do próximo disco, entendeu? É um disco de canções minhas com algumas pessoas, um disco que me mostra também como instrumentista que é uma coisa que também que por mais que o violão esteja presente em vários trabalhos, mas as pessoas nem sempre sabem que eu toco violão, que eu tenho esse lado instrumentista que pra mim é muito importante, a base de tudo pra mim.


 O “Dobrando a carioca” tem essa ênfase nos instrumentos não é?

ZR – Tem, tem... são quatro violonistas.



Serviço:
Show Boca Livre - Turnê Amizade

Data - 03 e 04 de agosto
Local - Teatro Margarida Schivasappa (Belém/PA)
Horário - 21:00hs
Classificação Indicativa - Livre
Valor do Ingresso - R$ 60,00 (Inteira) / R$ 30,00 (Meia)

9º Lençóis Jazz e Blues Festival 2017 - Circuito Barreirinhas - MA
Show "Papo de passarim" (Com Renato Braz)
Data - 12 de agosto
Local - Av. Beira Rio

Horário - 21:15hs
Classificação Indicativa - Livre

Valor do Ingresso - Evento gratuito

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

ZÉ RENATO - ENTREVISTA EXCLUSIVA - PARTE 01

Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica a partir de sua trajetória enquanto integrante de vários projetos musicais, assim como também instrumentista, compositor e intérprete em diversos projetos solo

Por Bruno Negromonte (com colaboração de Karina Sampaio)



De passagem pela capital pernambucana, onde apresentou-se em duas ocasiões em Casa Forte, o cantor, instrumentista e compositor Zé Renato recebeu-nos para um descontraído bate-papo onde relembrou histórias suas ligadas ao período que antecedeu o início de sua trajetória musical, a sua participação nos grupo "Cantares", projetos fonográficos (solos, em duo e projetos coletivos) e sua participação no grupo que o projetou nacionalmente: o Boca Livre. Nesta informal conversa é possível também tomar conhecimento de algumas curiosidades acerca do autor de "Bicicleta" como sua breve passagem pelo teatro e a importância do show "Milagres do peixe", do Milton Nascimento, em sua trajetória musical. Além disso, falamos sobre projetos futuros, lançamentos fonográficos agendados para breve, sua relação com o público pernambucano entre outras coisas. Papo agradabilíssimo que você confere em duas partes! Boa leitura!



Para começarmos gostaríamos de abordar um pouco da época que antecede o inicio de sua carreira musical. Qual é a lembrança mais remota que você tem da música ainda no Espírito Santo?

Zé Renato - Eu não cheguei a morar lá no Espírito Santo. Eu só nasci, mas fui criado no Rio de Janeiro... então todas as minhas influências foram a partir de minha vivência no Rio. Meu pai era jornalista, circulava muito no meio da música e por conta disso eu sempre tive a música muito presente dentro de casa. Ele era amigo do Silvio Caldas, o Silvio Caldas ía cantar na minha casa, eu assisti a vários shows do Silvio Caldas... A partir daí eu ganhei um violão (eu tinha por volta dos treze anos mais ou menos... talvez menos um pouco...). Daí com o violão comecei a aprender, entendeu? Aprendi um pouco assim e comecei a participar de festivais nos colégios


É verdade que antes dessa sua introdução na música você atuou na peça “A Perda Irreparável” dirigida por Ziembinski? 

ZR – Ah, sim! É... foi uma participação muito rápida assim, muito discreta porque o meu pai trabalhava no Copacabana Palace e precisaram lá de... tinha um personagem que era uma criança que entrava no meio lá do negócio, aí eu fiz mas ficou ali. Estava mais interessado em tomar sorvete que tinha lá no Copacabana do que na peça.


E a questão do instrumento em si? Como foi que o violão entrou em sua vida?

ZR – O violão eu ganhei, comecei a aprender, mas nunca me adaptei ao estilo formal porque eu sempre saquei, comecei a descobrir a relação dos acordes, tirar música sozinho e tal. Então minha base teórica é muito pouca, eu até cheguei a estudar, tenho uma base; mas eu não utilizo isso no dia-a-dia, então eu sempre fui muito intuitivo. O primeiro caminho foram os festivais de colégio.


Dentro dessa ordem cronológica tem um show que foi marcante para você que foi o “Milagre dos peixes”?

ZR – Isso. Aí eu já tocava, já tinha um grupo, mas inda tocava em colégios (festivais de colégio) naquela fase de está estudando pra fazer vestibular e essas coisas todas, mas a música já estava ficando cada vez mais presente na minha vida e foi um período em que eu...


... Foi com esse show o seu primeiro contato com a sonoridade mineira?

ZR – Sim.


Ela acabou influenciando muito, de certo modo, no início de sua carreira?

ZR – Foi. Foi uma das maiores influências como compositor, como cantor, tudo né?


Vem desse show o seu primeiro contato com o Juca Filho (visualmente falando) não é?

ZR – Eu vi o Juca nesse show, não nos conhecíamos ainda, mas lembro de ter visto ele... tava lá... aí um tempo depois a gente se conheceu. Eu o conheci através de um amigo que estudava comigo no pré-vestibular que era músico e me apresentou ao Juca, daí a gente já começou a fazer música, eu já comecei a desenhar uma história que acabou se tornando o Cantares em primeiro lugar que foi o grupo que foi assim o primeiro trabalho, o primeiro grupo que eu participei já indo para uma história em direção ao profissionalismo... o Cantares durou aí dois, três anos... aí já apareceu o Boca Livre. 


Que foi a partir de uma apresentação do Cantares na Urca? Foi quando surgiu o convite do Maurício para aquilo que viria a ser o grupo não é?

ZR – Do David... o David era o organizador desses shows que chamava-se “Quem sabe, sobe”; era uma série de shows que aconteceram na Urca e tal... Aí abrimos para o Hermeto Pascoal e aí começamos a ensaiar. Existia o Cantares, mas aí a partir do momento que começamos a ensaiar com o Boca Livre e as coisas começaram a acontecer não deu pra conciliar as duas coisas e aí me dediquei mais ao Boca Livre e as coisas começaram assim a se desenhar mais profissionalmente. E aí foi uma coisa! Edu Lobo (que aí nos viu, nos conheceu e chamou para gravar o disco dele), daí fomos fazer o Projeto Pixinguinha com ele. Já voltamos do projeto Pixinguinha e já gravamos o nosso primeiro disco... e aí a coisa foi muito rápida.


Esse primeiro disco de vocês é um marco ainda hoje na discografia brasileira pelo repertório e acima de tudo por receptividade junto ao grande público. Como você acha que ele alcançou tão rapidamente esse patamar mesmo sendo produzido de modo independente? Você acha que houve algum fator que contribuiu pra isso ou foi sorte mesmo?

ZR – Tem tudo isso junto, um pouco de cada coisa. Tinha naquele momento ainda um espaço nas rádios que hoje não existe mais... existia naquele momento ainda uma possibilidade de divulgar, de se programar músicas como a que a gente fazia. Apesar de que a nossa história naquele momento não era visto pelas pessoas de gravadora como uma coisa, digamos, de acesso comercial; mas a gente... é... isso ainda existia um espaço na rádio para acontecer o que aconteceu. Tanto que a gente não tinha, não era um grupo que tinha dinheiro para pagar jabá ou coisa parecida.


Agora mesmo neste contexto independente havia essa abertura?

ZR – Pois é! Tinha ainda... acho que foi um dos últimos momentos onde a rádio tinha uma certa abertura para programar esse tipo de música. A partir daí, depois, rapidamente foi se transformando e hoje o espaço é quase nenhum.


Por que o formato de vocês à época era mais comum na década de 1940, 1950 com o Bando da Lua, os Anjos do Inferno... De repente vocês voltam nos de 1970 com um formato semelhante... 

ZR – Até o surgimento do Boca Livre o que estava mais em mais evidência era o MPB-4 quanto a vocal masculino. Apesar que são duas concepções completamente diferentes, a gente tem as coisas dos violões que estão juntos, os arranjos, coisa que no MPB-4 é mais os vocais... é outra maneira, outro tipo de arranjo e tal... Mas o Boca Livre vinha com uma coisa, uma proposta que misturava a influência mineira (bastante), essa sonoridade de violões e tal... Isso não foi, não era muito... tanto que a opção por independente... a gente tentou gravadora. Tivemos reuniões com gravadoras e nenhuma das pessoas ligadas às gravadoras que a gente tinha entrado em contato na época enxergou a gente como um produto ou uma coisa que pudesse dar certo comercialmente falando.


Eu vi acho que até em um blog teu que essas gravadoras de início queriam moldar vocês a uma espécie de Bee Gees brasileiros...

ZR – Isso... um deles falou isso: Que a gente devia ser os Bee Gees brasileiro, mudar o repertório... quis falar isso: que a gente cantava bem, mas a concepção tinha que ser outra. 


Ainda bem que vocês não seguiram a sugestão...

ZR – Pois é... Acabou que eles fizeram... quer dizer, acabou a gente teve o nosso sucesso foi muito rápido! A partir do momento que fizemos shows e tal, e a música começou a tomar um público, os shows começaram a ter muita gente, e aí as rádios viram que... foi uma coisa muito... um negócio que aconteceu aí... já entrou em trilha de novela... Quando entrou em trilha de novela na verdade a música já era sucesso.


Tem umas quatro músicas que caíram no gosto popular mesmo não é?

ZR – Foi... Eu lembro de fazer, por exemplo, o Ponta de areia, que foi uma das que a gente gravou no Fantástico e a pedido do público eles repetiram no domingo seguinte, quer dizer, foi um negócio até então inédito no programa. Então muita coisa foi acontecendo assim muito rápido, Os shows foram tendo um público muito grande, e tanto que chegou um momento que a gente já não tava mais... fizemos o segundo disco independente, mas aí já não tava mais conseguindo administrar a carreira desse modo. O independente hoje é diferente, já a muito tempo que o independente virou uma outra história, você tem várias alternativas de distribuição, de divulgação e naquela época não. A gente ainda tinha que cuidar das coisas: O LP que não chegou não sei aonde... tudo a gente cuidava praticamente. Tinha outras pessoas junto, mas a gente participava muito desse processo, então isso foi desgastando a gente também, tanto que a gente desistiu e fomos para uma gravadora.


Em 1982 você dá início a sua carreira solo com o disco “A fonte da vida” disco onde constam dez canções suas com distintos parceiros. Analisando a discografia do Boca que antecede esse projeto, em três discos há sete canções de sua autoria (Inclusive uma delas dá nome a um dos LP’s do grupo que é “Bicicleta”). Esse contexto que fez você chegar a esse primeiro disco solo surgiu por que já não dava mais para represar esse seu lado autoral ou por outras circunstâncias?

ZR – É mais ou menos isso, quer dizer... o Boca Livre por se tratar de um grupo vocal, um grupo que tem uma maneira de conceito onde nem todas as músicas por mais bonitas e músicas que a gente achamos ótimas, mas que quando a gente começa a tocar nem sempre elas rendem um arranjo que seja satisfatório pra todo mundo, pro grupo. Então, assim, essa maneira de lhe dar com o grupo também eu fui aprendendo e vendo que nem tudo... o grupo era incapaz de absorver todas as ideias de todo mundo. Por isso é que eu não abri mão de (foi uma coisa também bacana no grupo) conviver com isso, de ter cada... cada um de nós desenvolver projetos exatamente para não ficar ali estrangulando o trabalho do grupo e isso é uma coisa que rola até hoje. Eu mesmo faço parte do grupo, mas faço vários projetos paralelos.


Sua carreira solo é marcada por alguns discos em homenagem a grandes nomes de nossa música a exemplo de Silvio Caldas, Noel, Chico e Zé Keti. Tem mais alguma ainda em vista que você pretende prestar homenagem?

ZR – Olha, vai sair... vai sair uma caixa... Tava prevista para esse ano, não sei com essa confusão toda, mas já tava praticamente organizada pra sair uma caixa de disco reunindo aí discos meus como... alguns como intérprete só né? Do Zé Ketti, do Sílvio Caldas... E um desses cd’s que vai tá incluindo nessa caixa é um show que foi gravado ao vivo, no Rio de Janeiro, que eu fiz sobre o repertório do Orlando Silva. Foi gravado de uma maneira despretensiosa, mas aí fomos ouvir e achamos que como registro vale a pena ser incluído, ser feito. Aí quando essa caixa sair esse cd vai está incluso, sobre o repertório do Orlando Silva. 


Já cogitou a possibilidade de uma homenagem ao Milton (artista o qual você se declara fã)?

ZR – Eu vivo gravando coisas dele, mas um disco dedicado especialmente por enquanto pelo menos não; mas quem sabe né?


Você tem Anima em parceria com ele não é?

ZR – É... “Anima”... “Anima” e “Ponto de encontro”...




Serviço:
Show Boca Livre - Turnê Amizade

Data - 03 e 04 de agosto
Local - Teatro Margarida Schivasappa (Belém/PA)
Horário - 21:00hs

Classificação Indicativa - Livre
Valor do Ingresso - R$ 60,00 (Inteira) / R$ 30,00 (Meia)

9º Lençóis Jazz e Blues Festival 2017 - Circuito Barreirinhas - MA
Show "Papo de passarim" (Com Renato Braz)
Data - 12 de agosto
Local - Av. Beira Rio

Horário - 21:15hs
Classificação Indicativa - Livre
Valor do Ingresso - Evento gratuito

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

ZÉ RENATO, 60 ANOS DE IDADE E 40 DE CARREIRA

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

ZÉ RENATO E RENATO BRAZ EM "PAPO DE PASSARIM"

Por Beto Feitosa
Duas vozes, dois violões, um pouco de percussão. O formato limpo e intimista é a base do magistral encontro de Zé Renato e Renato Braz. A dupla coleciona muitas afinidades: cantores afinadíssimos e sofisticados constroem suas carreiras por caminhos bem próprios, com assinatura. E o novo ponto, interseção entre as duas histórias, acontece no show que virou CD, vai ser DVD, e volta para a estrada como show. Papo de Passarim, singelo assim.

Zé Renato foi referência para Renato Braz no início de uma carreira que já soma 20 anos. O primeiro encontro no palco do capixaba Zé Renato com o paulista Renato Braz aconteceu em duas apresentações especialíssimas no Sesc Vila Mariana. Com o sucesso do duo, Zé Renato e Renato Braz receberam convite do Canal Brasil para um especial, que foi gravado nos últimos dias de maio no Teatro Fecap, também em São Paulo. O nobre show chega primeiro nesse CD ao vivo, que abre alas para o especial de TV e o lançamento em DVD.

Somando ideias o repertório foi construído a partir de papos informais entre os dois artistas.

Entram sambas do mineiro João Bosco com o carioca Aldir Blanc (Kid Cavaquinho/De frente pro crime) e do paulistano Paulo Vanzolini (Capoeira do Arnaldo). A poesia de Paulo Cesar Pinheiro aparece com os parceiros Wilson das Neves (Um novo amor chegou e O dia em que o morro descer e não for carnaval) e Dori Caymmi (Rio Amazonas e Desenredo). Ares cubanos chegam em composição de Ela O'Farrill (Adios felicidad) enquanto o nordeste brasileiro está representado com Raymundo Evangelista e Ary Monteiro (Panelada de bochecha, com direito a versos que celebram o papo de passarim). O cancioneiro clássico brasileiro ainda aparece na parceria de João de Barro e Antonio Almeida (A saudade mata a gente).

Da obra de Zé Renato, recriam duas parcerias com Milton Nascimento: Ponto de encontro e Anima, essa costurada a Sem fim, de Novelli e Cacaso. Com Xico Chaves, Zé assina o Papo de passarim que batiza o trabalho enquanto com Cláudio Nucci e Ronaldo Bastos apresenta A hora e a vez.

O disco não marca apenas o encontro de dois trabalhos, é efetivamente uma obra de duo. Nesse trabalho os dois dividem vocais, direção musical e se dobram nos violões e nas percussões. A dupla tem o acompanhamento luxuoso do baixo de Sizão Machado, pontuando elegante o ambiente.

O senso comum aponta sempre o Brasil como um país de grandes cantoras. Mas o encontro dessas vozes privilegiadas mostra o outro lado. Dois cantores sofisticados e elegantes em um encontro que pode, sem o medo do exagero, ser classificado como “único”.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

É TEMPO DE AMAR COM ZÉ RENATO

Por Hugo Sukman

Criado em berço de ouro musical, Zé Renato nem ouviria, pelo menos em tese, as canções românticas da Jovem Guarda. Quiçá tivesse vontade de cantá-las. Mente, coração, ouvido abertos, contudo, é isso que ele faz em “É tempo de amar”, seu novo CD pelo selo MP,B, com distribuição da Universal Music, no qual recria velhos sucessos da JG à sua maneira, ou seja, com harmonizações mais sofisticadas, tratamento instrumental mais moderno, inserindo aquelas baladas e rocks na melhor tradição evolutiva da música brasileira.

Mas afilhado de Silvio Caldas, filho da bossa nova, lançado por Edu Lobo, tendo com ídolo maior Milton Nascimento, membro fundador de um dos mais sofisticados grupos vocais do país (o Boca Livre), voz pura como água (apud Hermínio Bello de Carvalho), violonista limpo e de harmonias inusitadas, compositor de melodias lindas e complexas, artista moderno, o que Zé Renato teria com as canções simples e nostálgicas da Jovem Guarda?

“Meu primeiro violão, presente de meu pai aos 14 anos, era assinado por Sílvio Caldas, muito amigo dele. Mas a primeira música que eu aprendi foi ´Namoradinha de um amigo meu´. E olha que não era fácil, era em tom menor, tinha uma harmonia interessante...”, explica Zé Renato o início da sua relação com a Jovem Guarda. “O fato é que eu sempre, desde garoto, ouvia aquelas canções e, embora não fossem da minha praia, me interessava pelas letras diretas, simples, e pela beleza de muitas das melodias. Volta e meia eu imaginava aquelas canções tocadas à minha maneira”.

Ao receber uma encomenda para a trilha sonora da novela “A Favorita”, e sabendo tratar-se de uma trama e de uma trilha bem populares, logo veio a idéia de gravar algo da JG, quem sabe um velho sucesso de Roberto Carlos. E a escolha recaiu sobre a balada “O tempo vai apagar”, de Paulo Cezar Barros e Getúlio “Negro Gato” Côrtes, gravada pelo Rei em 1968. Calcada já no violão e nas harmonias de Zé Renato, a gravação emplacou na novela, agradou tanto ao cantor que o projeto enfim se consolidou: por que não fazer agora aquele alentado disco de Jovem Guarda pelo filtro emepebístico de sua voz e de seu violão?

“Seria um disco baseado no meu violão, na forma com que eu vejo e toco aquelas canções, mas eu precisava de alguém para me ajudar a dar uma sonoridade moderna ao disco, ao mesmo tempo pop e violonística”, diz Zé Renato, que para isso logo pensou em Dé Palmeira, ele próprio autor de um punhado de canções ao mesmo tempo pop e harmonicamente sofisticadas como “Mulher sem razão”, “Mais feliz”, “Preciso dizer que te amo”, entre outras, e que vem de uma rica parceria com Adriana Calcanhotto, da qual foi produtor em três CDs (entre os quais o sucesso “Adriana Partimpim”).

O produtor trouxe a “É tempo de amar”, além da sonoridade ao mesmo tempo pop, sofisticada e contemporânea, um grupo de músicos que seria a base de todo o CD: o jovem pianista Roberto Pollo (que pilota teclados “vintage” como o Hammond, o Würlitzer ), o guitarrista Ricardo Palmeira, além do próprio contrabaixo. Zé Renato sugeriu o baterista Marcelo Costa para todas as percussões e o experimentado Jota Moraes para os vibrafones. Tudo isso como uma base tranqüila, de sons requintados e contemporâneos para que o violão, a voz e os vocais de Zé Renato brilhassem, conduzindo as novas harmonias que inventou para as velhas canções da Jovem Guarda.

Ouçam, por exemplo, outro sucesso de Roberto Carlos, “Quero ter você perto de mim” (composição de Nenéo), cujo clima jazzy e minimalista, realçam a nova harmonização de Zé Renato, com direitos a acordes sofisticados (como o si bemol menor com sexta e baixo em fá que abre a canção) que transformam a velha balada quase numa peça de Tom Jobim (cuja melodia do “Sem você” é sutilmente citada logo no início).

O trabalho de, digamos, sofisticar as canções não se trata de desrespeito ou menosprezo à estética da Jovem Guarda. Zé Renato gosta daquelas canções como elas foram feitas, apenas propõe uma ponte cultural para o seu universo, o de um filhote da bossa nova e do Clube da Esquina. Assim, é emocionante ouvir uma canção que remete à infância de todo brasileiro como “É tempo de amar” (Pedro Camargo/José Ari), pinçada do filme-ícone do cinema pop brasileiro, “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, cantada por Zé Renato de forma ao mesmo tempo tão reverente, emocionada e tão inovadora.

O repertório foi todo guiado pela memória emotiva de Zé Renato, que praticamente prescindiu de pesquisa. A balada “Coração de papel”, maior sucesso jovenguardista do sertanejo Sérgio Reis, atraiu pela beleza da melodia. O rock “Lobo mau”, versão lançada por Roberto Carlos em 1965, vem em interessante levada mais lenta e suingada para valorizar a letra direta, simples. Mais próximas do universo emepebístico, “Nossa canção” (Luiz Ayrão) e “A última canção”, ganham versões lapidares na voz de água limpa e corrente de Zé Renato.

Há, contudo, para além da recriação das velhas canções da Jovem Guarda, momentos no disco de alta tensão criativa e de pontes culturais inusitadas. A participação de Marcos Valle ao piano é um desses exemplos. Parceiro do produtor Dé Palmeira, Valle toca piano acústico em “Ninguém vai tirar você de mim” (Edson Ribeiro/Helio Justo), outro Roberto Carlos safra 1968. Curioso que em seu habitat de origem, a bossa nova, a despeito da sua alta qualidade musical, Valle é o autor das canções mais solares, mais comprometidas com a extroversão, a música de se ouvir no rádio, de se namorar ao som dela. Ou seja, o espírito mesmo da Jovem Guarda. E é curioso, também, como Valle acaba injetando com seu piano uma sofisticação inaudita para a velha balada pop, que ganha harmonia de gente grande.

Marcos Valle também participa, com seu endiabrado piano elétrico Rhodes, do rock “Não há dinheiro que pague”, outro sucesso do Rei composto por Renato “Blue caps” Barros. A música virou uma canção pop chique e contemporânea, com direito a luxuoso solo de Valle.

Também de Renato Barros é talvez a mais significativa das canções da Jovem Guarda, “Eu não sabia que você existia”, dueto criado por Leno e Lilian. Zé Renato apresenta aqui uma versão a altura da importância conceitual da canção, valorizando-a musicalmente com o violoncelo de Jaques Morelenbaum, e em dueto com a voz límpida e irônica de Nina Becker, da Orquestra Imperial. O resultado é contemporâneo e sacana, confiram.

Por sugestão deste que vos escreve, Zé Renato fez outra ponte cultural importante ao redescobrir o único iê-iê-iê composto por Vinicius de Moraes, “Por você”, originalmente da trilha sonora do filme “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman, e gravada por Ronnie Von. Zé Renato não estava trazendo a Jovem Guarda para o universo da bossa nova? Então não poderia faltar a única canção Jovem Guarda, ainda que nitidamente paródica, feita pelo poeta maior da bossa nova. A produção de Dé Palmeira, baseada no violão bossanovístico de Zé Renato e nos instrumentos eletrônicos conduzidos por Marcos Cunha, dão a essa ponte cultural um ar de bossa nova européia contemporânea, um clima meio Nouvelle Vague, o grupo francês de música eletrônica que atualizou em bossa, por exemplo, velhos clássicos do punk rock.

Esse passeio maduro de Zé Renato por seu fascínio musical infantil gerou um disco inusitado, único. O cantor, que já passeou pelos universos musicais de Silvio Caldas (“Arranha-céu”, de 1994, e “Silvio Caldas 90 anos”, de 1998), Zé Kéti (“Natural do Rio de Janeiro”, de 1996), de Noel Rosa e Chico Buarque (“Filosofia”, de 2000), agora viaja para mais longe de seu universo musical. O fato é que a Jovem Guarda nunca mereceu um tratamento musical tão generoso e enriquecedor.

ZÉ RENATO - É TEMPO DE SER FELIZ (2008)
Faixas:
01 - É TEMPO DE AMAR (Pedro Camargo / José Ari)
02 - CORAÇÃO DE PAPEL (Sérgio Reis)
03 - EU NÃO SABIA QUE VOCÊ EXISTIA (Renato Barros / Toni)
04 - POR VOCË (Vinicius de Moraes / Francisco Enoé)
05 - LOBO MAU (Ernest Mareska / versão Hamilton di Giorgio)
06 - COM MUITO AMOR E CARINHO (Chil Deberto / Eduardo Araújo)
07 - NÃO HÁ DINHEIRO QUE PAGUE (Renato Barros)
08 - NOSSA CANÇÃO (Luiz Ayrão)
09 - QUERO TER VOCÊ PERTO DE MIM (Neneo)
10 - NINGUÉM VAI TIRAR VOCÊ DE MIM (Hélio Justo / Edson Ribeiro)
11 - CUSTE O QUE CUSTAR (Hélio Justo / Edson Ribeiro)
12 - O TEMPO VAI APAGAR (Paulo César Barros / Getúlio Cortes)
13 - A ÚLTIMA CANÇÃO (Carlos Roberto)

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